José Saramago

José Saramago

1922–2010 · viveu 87 anos PT PT

José Saramago foi um escritor português, laureado com o Prémio Nobel da Literatura em 1998. Sua obra, profundamente humanista e crítica, aborda questões existenciais, sociais e políticas com um estilo narrativo único, marcado pela ausência de pontuação convencional em diálogos e por longos períodos. Explorou a condição humana, a memória, a identidade e o poder, deixando um legado literário marcante. Sua escrita é reconhecida pela complexidade, pela reflexão filosófica e pela capacidade de questionar as estruturas sociais e o comportamento humano, convidando o leitor a uma imersão profunda em universos ficcionais densos e instigantes.

n. 1922-11-16, Azinhaga · m. 2010-06-18, Lanzarote

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Dulcineia

Quem tu és não importa, nem conheces
O sonho em que nasceu a tua face:
Cristal vazio e mudo.
Do sangue de Quixote te alimentas,
Da alma que nele morre é que recebes
A força de seres tudo.
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Poemas

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Porém não devemos esquecer o mar que é o princípio e o fim de todas as coisas

É certo que nos dias de 1993 poucas pessoas ainda serão capazes de imaginar os primeiros tempos do mundo

Quando nenhum animal percorria a terra ou voava sobre ela

Quando nada que merecesse o nome de planta rompia o solo instável

Então a enorme caldeira do mar elaborava a alquimia da pedra filosofal que tudo mudava em vida e alguma coisa em ouro

Também para os dias de 1993 o futuro para além do futuro parecerá impossível

Quando o mar cobrir os continentes gastos e a terra rebrilhar no espaço como um espelho gelado

E outra vez nenhuma planta a não ser as algas marinhas nenhum animal a não ser os mais pesados e já moribundos peixes

Agora os homens apenas procuram o mar para se lamentarem diante da grande voz das ondas

E postos de joelhos em linha com os braços abertos recebendo no rosto a fustigação do vento e da espuma

Gritam ensurdecidos pelo estrépito a miséria extrema que por agora os dispersa na terra

E quando enfim se calam assombrados pelo pavor que são capazes de suportar

O mar subitamente acalma e um lento murmúrio de um lado e do outro reconsidera os factos

Que em verdade não excluem uma maré renovada e uma coragem à medida do tempo que passou desde a primeira de todas as mortes

Sem o que não seria possível juntarem-se outra vez os homens e subirem a escarpa a caminho da terra ocupada
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Podia ter acontecido a qualquer hora do dia

Quando debaixo do sol a horda se deslocasse na rasa e dura planície

Ou quando à sombra de uma rocha alta acreditasse no fim dos males do mundo só porque ali uma frescura passageira os tornava distantes

Ou quando a penumbra miserável fizesse apetecer uma lenta dissolução no espaço

Mas foi de noite na negrura aflita da caverna lá onde só o olho vermelho das brasas tinha pena dos homens

Onde o cheiro dos corpos humilhados de gases de suor de descargas de sémen

E onde intermináveis insónias se resolviam em suicídios

Que subitamente um homem descobriu que não sabia ler

Em vão recordava as letras em vão as desenhava ele próprio na memória

Eram riscos cegos na escuridão desenhos de Marte Mercúrio ou Plutão ou ainda a escrita do sistema planetário da Betelgeuse

Nada que fosse humano e fraterno nada que tivesse o gosto comum do pão e do sal

Quando o sol nasceu e a horda saiu para o ar livre e para o mundo aprisionado

O homem sentou-se no chão dobrado como um feto

E prometeu morrer sem resistência se a lepra que lhe nascera durante a noite não fosse nunca descoberta pelos companheiros que talvez ainda soubessem ler
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A mais terrível arma da guerra do desprezo foi o elefante

Porque então haviam os ocupantes da cidade desdenhado perseguir nos campos as hordas assustadas dos homens que se arrastavam entre céu e céu

Todos os animais do jardim zoológico foram paralisados por acção de misturas químicas nunca antes vistas

E ainda vivos abertos sobre grandes mesas de dissecção esvaziados de entranhas e do sangue que jorrou por fundos canais para o interior da terra donde apenas saía para certos banhos das prostitutas principais

Desta maneira tornados pele massa muscular e esqueleto foram os animais providos de poderosos mecanismos internos ligados aos ossos por circuitos electrónicos que não podiam errar

E estando tudo isto no comprimento de onda do ordenador central foi nele introduzido o programa do ódio e a memória das humilhações

Então abriram-se as portas da cidade e os animais saíram a destruir os homens

Não precisavam de dormir nem comer e os homens sim

Não precisavam de descanso e o mais que o homem sabia era terror e fadiga

Foi essa guerra chamada do desprezo porque nem sequer o sangue lutava contra o sangue

Já foi dito que o elefante era a mais terrível máquina daquela guerra

Talvez quem sabe porque havia sido muitas vezes domesticado e ridicularizado nos circos quando a sua grande estatura se equilibrava numa bola absurda ou se levantava nas patas traseiras para cumprimentar o público

Entretanto o maior dos sábios do ocupante insiste em afirmar que há-de fazer rir o ordenador hipótese que não surpreenderá tendo em conta os factos relatados
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Passa No Pensamento

Passa no pensamento a passo
Um animal cavalo
Em vez de laço e pasto a foice
Na venta trespassada
Enquanto o braço abusa do cansaço
Do cavalo animal à chicotada
Entre as pernas do bicho a cicatriz
Que o animal não quis
E a pata almofadada de modo que não sofra
A pedra da calçada
E sentadas nas bermas as velhas abrem coxas
Entre as coxas cabeças decepadas
Com as línguas de fora escarnecentes
E tenazes nos dentes
A rua tem donzelas nas janelas
Que é esse o lugar delas
Enquanto o animal torce o pescoço
A ver se cai a urna que transporta
E não cabe na porta
Levantaram-se as velhas dos passeios
As cabeças rolaram penduradas
Da tripa umbilical
As donzelas taparam as orelhas
E mostraram os seios
Ao cavalo animal
Numa bandeja de prata
Uma menina de branco
Cinta de fina escarlata
Traz o membro do cavalo
Enquanto o morto descansa
Vão buscá-lo
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Estou Onde o Verso Faço

Estou onde o verso faço, e erro o verso
Porque a fuga do tempo, ao núcleo escasso,
Tira a carne do fruto até ao osso.
Rilho no fel o dente e o desafio,
Tal, vagaroso, o bicho em jaula morde,
No travor do caroço, a memória do mel.
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O Beijo

Hoje, não sei porquê, o vento teve um grande gesto de renúncia, e as árvores aceitaram a imobilidade.
No entanto (e é bem que assim seja) uma viola organiza obstinadamente o espaço da solidão.
Ficamos sabendo que as flores se alimentam na fértil humidade.
É essa a verdade da saliva.
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A Mesa É o Primeiro Objecto

A mesa é o primeiro objecto do sonho.
É branca, de madeira branca, sem pintura.
Tem papéis brancos que flutuam e se esquivam aos gestos.
O lugar seria um escritório se não fosse uma espécie de abside com degraus.
A parede curva, sem reboco, mostra as pedras roídas.
Quando o sonhador acordar, tentará saber onde esteve e há-de lembrar-se de uma ruína assim, em Paris, no museu de Cluny.
Mas não tem a certeza.
Os papéis brancos não obedecem, e isto impacienta o sonhador.
De repente há uma presença na abside, não bem uma presença, uma ameaça que se difunde e paira.
Começa o terror.
O homem que sonha quer resistir, mas o medo é mais forte, e não há ali ninguém a quem tivesse de mostrar coragem.
Foge por um longo corredor e pára junto de uma porta que dá certamente para um jardim.
Olha para trás, vai aparecer alguém.
Ao fundo do corredor passa de relance uma rapariga cor de fumo.
O medo é insuportável.
A rapariga vem pelo corredor, rodopiando em ziguezague, fazendo ricochete de parede a parede.
«Quem és?», pergunta o homem que sonha.
«Papoila», responde a rapariga, e ri sem ruído.
O medo lança o homem no jardim.
Cai no chão, e a rapariga, já não cor de fumo, mas suja, cai também.
Ao cair duplica-se, e as duas lutam arrancando-se bocados de roupas e de carne que logo se reconstituem.
O homem não aguenta mais, tem de libertar-se já.
Mas outra rapariga surge, igual às duas, e esta é muito maior.
Estão todos estendidos no chão, presos uns aos outros, e contudo não se tocam.
A rapariga grande tem um ovo dentro do bolso do avental.
Se aquele ovo for tirado e lançado pelo jardim fora e partido, será o fim do pesadelo.
Porque nesta altura o homem sabe que está a sonhar.
A rapariga grande senta-se no chão, dobra os joelhos, a saia escorrega sobre as coxas, o sexo fica à vista.
O ovo, é preciso tirar-lhe o ovo.
A rapariga começa a remexer-se, rindo.
Chegou o momento.
O homem mete-lhe a mão no bolso, agarra o ovo.
E acorda.
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Cavalaria

Cheguei esporas ao cavalo
E os sentimentos exaustos
Deram saltos no regalo
Das gualdrapas e dos faustos
A relva cheirava a palha
Desmanchei rosas vermelhas
Mas pasto foi maravalha
Sabia ao sarro das selhas
Porque o cavalo era eu
O cansaço e as esporas
Tudo eu e a cor do céu
Mais o gosto das amoras
Relinchos eram os versos
Com jeito de ferradura
Que fazia por dar sorte
Mas tantos foram reversos
Que o ventre de serradura
Deu um estoiro deu a morte
Cai a montada no chão
Cai por terra o cavaleiro
Que era eu (como se viu)
Da escola de equitação
Vim ao saber verdadeiro
Das transparências do rio
Agora dentro do barco
Nos remos brancas grinaldas
Tenho os teus braços em arco
Como um colar de esmeraldas
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É Um Livro de Boa-Fé

É um livro de boa-fé, disse Montaigne.
Ninguém sabe o que esta frase quer dizer, declara o professor, enxugando os olhos, e chama um contínuo para que lhe traga um copo doutra água.
Entretanto o aluno mais novo saiu pela janela e teve todas as revelações do Buda.
Mas quando chegou debaixo do salgueiro estava uma mulher deitada e nua, que repousava a cabeça num livro de páginas brancas.
Estava também o infinito, era azul depois de um caminho vermelho, e branco depois de uma cortina dourada.
Então o professor disse que faltava um aluno e que não valia a pena continuar a aula.
Desde aí o salgueiro ficou sendo um lugar de peregrinação.
Mas só eleitos capazes de sair voando de uma aula poderiam ver os dois corpos deitados, e até hoje ninguém os viu, embora lá estejam movendo-se infinitamente.
Por isso a história começa sem começar e acaba sem acabar.
Como qualquer coisa que se parecesse muito com o infinito.
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Este Meu Rosto

Este meu rosto de sombra
Onde a luz me está nascendo
Não o nego
Animal sujo do fundo
Devagar à superfície veio imundo
Mas não cego
Roço o vitral que me assombra
Abro o chumbo e vou ardendo
Neste pego
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Citações

4

Obras

3

Comentários (2)

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Bem meu caro José Saramago... se tu ainda estivesse em vida... conquistaria um novo mundo. meu caros amigos já tive o privilégio de ler uns dois livros deste grande escritor. são de um mundo fantástico. Braços a sua eternidade.

Meu caro é preciso sair do corpo em espirito e mente ; para nos vermos a nós mesmos. em corpo e alma a vagar pela mundo desconhecido.