Lista de Poemas
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Nunca a certeza dos mortos evitou uma guerra muito menos em 1993 quando os escrúpulos não são prisão e impedimento
Não os têm os perseguidores aos perseguidos aconselha-se que os não tenham
Mas só no fim da batalha o como vai saber-se porque a contagem dos mortos será contra o costume repartida pelos dois campos
Apenas porque o ódio entrou enfim no corpo das mulheres
Será visto que estando mortos os homens perseguidos os perseguidores hão-de de violá-las conforme mandam as imemoriais regras da guerra
Já tudo isto aconteceu infinitas vezes tantas que violação se não deve dizer pelo contrário entrega
Por isso a longa fileira das mulheres deitadas espera com indiferença que é simulada a penetração dos perseguidores
Elas mesmas levantaram as roupas e oferecem à luz do sol e aos olhos as vulvas húmidas
Silenciosamente suportam o assalto e abrem os braços enquanto a raiva corre pelo sangue para o centro do corpo
Há um derradeiro momento em que o perseguidor ainda poderia retirar-se
Mas logo é tarde e no exacto instante em que o espasmo militarmente iria deflagrar
Com um estalo seco e definitivo os dentes que o ódio fizera nascer nas vulvas frenéticas
Cortam cerce os pénis do exército perseguidor que as vaginas cospem para fora com o mesmo desprezo com que os homens perseguidos haviam sido degolados
Uma só mulher porém enquanto as outras celebram a justa vitória retira suavemente o membro amputado que ainda tivera tempo de ejacular
E levantada comprime o sexo com as mãos e afasta-se pela planície na direcção das montanhas
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Um pouco mais e o suicídio colectivo seria votado e decidido
Assim pela infinita planície as vozes inseguras se iam aos poucos calando como se a próxima paragem fosse a última e o soubessem
Pelo meio da tarde as nuvens cobriram o céu e uma vagarosa chuva o chão de lama e os homens de maior desespero
Espetaram na terra as estacas que eram os pilares das suas habitações transportadas e sobre elas os panos que restavam dos tempos em que poucos aceitariam semelhante abrigo
Este era o miserável rebanho a vara a manada entregue aos pastos naturais às lombas pedregosas e hoje à frialdade esponjosa de uma chuva que raspava os ossos do crânio
Quase noite o homem e a mulher que se tinham escolhido para sempre afastaram-se na direcção de uma floresta que fechava o céu
Porque a miséria era extrema e a morte talvez viesse mais depressa se as vítimas se mostrassem a descoberto
Porém assim não aconteceu e debaixo das árvores a grande escuridão redobrou o medo mas não mais
Então abraçados o homem e a mulher sem uma palavra suplicaram
E a árvore a que se apoiavam transidos abriu-se por uma qualquer razão que não veio a saber-se nunca e recebeu-os dentro de si juntando a seiva e o sangue
Todas as aflições se acabaram naquele instante e a chuva escorria pelas folhas e pelos troncos como alimento até ao chão que as raízes lentamente trabalhavam
Assim a noite passou sobre esta paz que não conhecia pesadelos
Mas quando o sol nasceu ouviu-se do lugar onde a tribo ficara um enorme tumulto um estridor de gritos e asas e uivos de metal
E a mulher e o homem abraçados dentro da árvore souberam que os seus irmãos uma vez mais sofriam o assalto dos ocupantes e das feras
No ano de 2093 ainda se contará que cem anos antes foi vista uma árvore sair da floresta andando sobre as raízes e fazer dos seus ramos laços e lanças e dardos das folhas agudas
E também se dirá que depois para onde fosse a tribo ia a árvore caminhando sobre as raízes
E que debaixo dela se abrigavam à noite ou quando o sol queimava os outros homens e as outras mulheres que nos primeiros dias ainda recordaram os companheiros para sempre desaparecidos naquela noite em que a morte quase fora o destino certo da tribo
E tudo isto se dirá nos mais felizes tempos de 2093
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Determinou o ordenador que todos fossem numerados na testa como no braço se fizera cinquenta anos antes em Auschwitz e outros lugares
A operação era indolor e por isso mesmo não houve qualquer resistência nem sequer protestos
O próprio vocabulário sofrera transformações e haviam sido esquecidas as palavras que exprimiam a indignação e a cólera
Deste modo os habitantes da cidade se acharam numerados de 1 a 57.229 porque a cidade era pequena e fora escolhida para experimentação entre todas as cidades ocupadas
Dois meses depois o ordenador registava valores de comportamento e diferentes estados de espírito consoante o número que havia cabido a cada habitante
Entre 1 e 1.000 estava o perfeito contentamento de si próprio ainda assim dividido em mil exactas pequenas parcelas
Ninguém reconhecia autoridade a quem tivesse número superior ao seu o que explica que o 57.229 comesse com os cães e tivesse de masturbar-se porque nenhuma mulher queria dormir com ele
Os habitantes de 1 a 9 consideravam-se chefes da cidade e vestiam segundo as modas do ocupante
Mas o primeiro deles mandou fazer um aro de ouro que suspendia sobre a testa como sinal de poder e autoridade e hoje basta este sinal para que todas as cabeças se curvem a partir de 2
Porém só o ordenador sabe que estes números são provisórios e que dentro de vinte e quatro horas todos se apagarão para reaparecerem por ordem inversa
Processo tão bom como os animais mecânicos para prosseguir o extermínio da população ocupada
Pois todas as humilhações serão retribuídas cem por um até à morte
Enquanto os ocupantes se distraem nos espectáculos que para seu uso ainda funcionam
Estudo de Nu
Que se prolonga em braço, depois mão,
Esses círculos tangentes, geminados,
Cujo centro em cones se resolve,
Agudamente erguidos para os lábios
Que dos teus se desprenderam, ansiosos.
Essas duas parábolas que te apertam
No quebrar onduloso da cintura,
As calipígias ciclóides sobrepostas
Ao risco das colunas invertidas:
Tépidas coxas de linhas envolventes,
Contornada espiral que não se extingue.
Essa curva quase nada que desenha
No teu ventre um arco repousado,
Esse triângulo de treva cintilante,
Caminho o selo da porta do teu corpo,
Onde o estudo de nu que vou fazendo
Se transforma no quadro terminado.
Compensação
Ao coração das coisas apontado.
Mas não me pesará o desencanto
Se, no ponto em que parar o meu arado,
Rombo na pedra que a morte houver lançado,
Puder ainda, com os ecos deste canto,
Já do coração das coisas afastado,
Mover um coração, se valho tanto.
Água Que À Água Torna
Abre-se a vaga em espuma.
Movimento perpétuo, arco perfeito,
Que se ergue, retomba e reflui,
Onda do mar que o mesmo mar sustenta,
Amor que de si próprio se alimenta.
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Quando debaixo do sol a horda se deslocasse na rasa e dura planície
Ou quando à sombra de uma rocha alta acreditasse no fim dos males do mundo só porque ali uma frescura passageira os tornava distantes
Ou quando a penumbra miserável fizesse apetecer uma lenta dissolução no espaço
Mas foi de noite na negrura aflita da caverna lá onde só o olho vermelho das brasas tinha pena dos homens
Onde o cheiro dos corpos humilhados de gases de suor de descargas de sémen
E onde intermináveis insónias se resolviam em suicídios
Que subitamente um homem descobriu que não sabia ler
Em vão recordava as letras em vão as desenhava ele próprio na memória
Eram riscos cegos na escuridão desenhos de Marte Mercúrio ou Plutão ou ainda a escrita do sistema planetário da Betelgeuse
Nada que fosse humano e fraterno nada que tivesse o gosto comum do pão e do sal
Quando o sol nasceu e a horda saiu para o ar livre e para o mundo aprisionado
O homem sentou-se no chão dobrado como um feto
E prometeu morrer sem resistência se a lepra que lhe nascera durante a noite não fosse nunca descoberta pelos companheiros que talvez ainda soubessem ler
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Durante três dias soprou constante arrastando as nuvens dos incêndios e o cheiro da carne morta dos invasores
Durante três dias as árvores foram sacudidas mas nenhuma arrancada porque este vento era igual a uma mão apenas firme
As carcaças dos animais mecânicos rolavam pelas planícies como arbustos desenraizados e tudo era arrastado para longe para os países onde os pesadelos nascem e o terror
Depois choveu e a terra ficou subitamente verde com um enorme arco-íris que não se desvaneceu nem quando o sol se pôs
Nessa primeira noite ninguém dormiu e toda a gente saiu das cidades para ver melhor as sete cores contra o fundo negríssimo do céu
E houve quem chorasse de joelhos na terra branda nas ervas que rescendiam do vertiginoso cheiro do húmus
E houve quem ininterruptamente cantasse uma extática melodia não ouvida antes que era o longo suspiro soluço da vida que nascendo se sufoca plena na garganta
E pelos campos fora arderam fogueiras altas que fizeram da terra vista do espaço um outro céu estrelado
E um homem e uma mulher caminharam entre a noite e as ervas naturais e foram deitar-se no lugar precioso onde nascia o arco-íris
Ali se despiram e nus debaixo das sete cores foram toda a noite um novelo de vida murmurante sobre a erva calcada e cheirosa das seivas derramadas
Enquanto longe no mar o outro ramo do arco-íris mergulhava até ao fundo das águas e os peixes deslumbrados giravam em redor da luminosa coluna
O dia amanheceu numa terra livre por onde corriam soltos e claros os rios e onde as montanhas azuis mal repousavam sobre as planícies
A mulher e o homem voltaram à cidade deixando pelo chão um rasto de sete cores lentamente diluídas até se fundirem no verde absoluto dos prados
Aqui os animais verdadeiros pastavam erguendo os focinhos húmidos de orvalho e as árvores carregavam-se de frutos pesados e ácidos enquanto no interior delas se preparavam as doces combinações químicas do outono
Entretanto o arco-íris tem voltado todas as noites e isso é um bom sinal
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Foram tirados das suas casas por uma ordem que ninguém ouviu
Porém segundo estava escrito em lendas antiquíssimas haveria vozes vindas do céu ou trombetas ou luzes extraordinárias e todos quiseram estar presentes
Alguma coisa podia talvez suceder no mundo antes do triunfo final da peste nem que fosse uma peste maior
Ali estão pois na praça angustiados e em silêncio à espera
E depois nada mais se ouve que uma aérea e delicada música de cravo
Qualquer fuga composta há duzentos e cinquenta anos por João Sebastião Bach em Leipzig
É então que os homens e as mulheres sem esperança se deixam cair no pavimento estalado da praça
Enquanto a música se afasta e voa sobre os campos devastados
5
Não deve passar em claro o exagero que há na palavra sitiada
Como exagero haveria na palavra cercada ou outra qualquer sinónima sem querer levantar a debatida questão da sinonimia perfeita
Os homens estão apenas em redor da cidade tão incapazes de entrarem nela como de se afastarem para longe definitivamente
São como borboletas da noite atraídas não pelas luzes da cidade que já se apagaram há muito
Mas pelo perfil desarticulado dos telhados e das empenas e também pela rede impalpável das antenas da televisão
De dia uma enorme ausência guarda as portas da cidade
E as ruas têm aquele excesso de silêncio que há no que foi habitado e agora não
Na cidade apenas vivem os lobos
Deste modo se tendo invertido a ordem natural das coisas estão os homens fora e os lobos dentro
Nada acontece antes da noite
Então saem os lobos a caçar os homens e sempre apanham algum
O qual entra enfim na cidade deixando por onde passa um regueiro de sangue
Ali onde em tempos mais felizes combinara com parentes e amigos almoços intrigas calúnias
E caçadas aos lobos
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Bem meu caro José Saramago... se tu ainda estivesse em vida... conquistaria um novo mundo. meu caros amigos já tive o privilégio de ler uns dois livros deste grande escritor. são de um mundo fantástico. Braços a sua eternidade.
Meu caro é preciso sair do corpo em espirito e mente ; para nos vermos a nós mesmos. em corpo e alma a vagar pela mundo desconhecido.
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