Escritas

Lista de Poemas

Regra

Tão pouco damos quando apenas muito
De nós na cama ou na mesa pomos:
Há que dar sem medida, como o sol,
Imagem rigorosa do que somos.
👁️ 885

Adivinha

Quem se dá quem se recusa
Quem procura quem alcança
Quem defende quem acusa
Quem se gasta quem descansa

Quem faz nós quem os desata
Quem morre quem ressuscita
Quem dá a vida quem mata
Quem duvida e acredita

Quem afirma quem desdiz
Quem se arrepende quem não
Quem é feliz infeliz
Quem é quem é coração.
👁️ 1 456

30

Uma vez mais os lugares conhecidos os lugares de solidão e de morte os centímetros quadrados de tortura as cores do sangue até à sua final cor de terra

Uma vez mais o infinito combate as batalhas aquelas que se ganharam e essas outras humildes perdidas e de que não se quer falar

Uma vez mais os suspiros sobretudo os últimos e os primeiros e os que estão entre uns e outros uma vez mais o braço sobre o ombro e o corpo sobre o corpo

Uma vez mais tudo o que uma vez foi ou muitas as pegadas de hoje na marca dos pés antigos uma vez mais a mão no gesto começado e interrompido e assim sucessivamente

Uma vez mais a ida e o regresso e agora a esperada fadiga entre duas altas montanhas num chão de pedra onde a sombra de repente fica enquanto o corpo se dissolve no ar

Assim olhar apartado a própria sombra com olhos invisíveis e sorrir disso enquanto as pessoas perplexas procuram onde nada está

E uma criança objectiva se aproxima e estende as mãos para a sombra que fragilmente retém o contorno ainda mas não já o cheiro do corpo sumido

Uma vez mais enfim o mundo o mundo algumas coisas feitas contadas tantas não e sabê-lo

Uma vez mais o impossível ficar ou a simples memória de ter sido

Consoante se conclui de nada haver debaixo da sombra que a criança levanta como uma pele esfolada
👁️ 978

Nesta Secreta Guerra

Nesta secreta guerra em que persisto,
Tudo está certo, não desejo paz.
E se nem sempre fujo ao velho jeito
(Herdado doutra era)
De bater com os punhos no meu peito,
Não é por gosto de gritar desgraça,
Mas porque a vida passa,
E mesmo quando aceito,
O coração à espera desespera.
👁️ 917

6

Nenhum lugar é suficientemente belo na terra para que doutro lugar nos desloquemos a ele

Mas uma razão haverá para que a todas as horas do dia venham andando grupos de pessoas na direcção da rua das estátuas

Estão dispensados os roteiros e os mapas uma vez que todos os caminhos vêm dar a esta rua e não a Roma onde ainda hoje não faltam as estátuas mas nenhuma que a estas se compare

Não é difícil chegar basta olhar o chão e seguir sempre pelos caminhos mais pisados também reconhecíveis pelas duas alas de excrementos que os ladeiam

O sol resseca-os rapidamente e se a chuva os desfaz nunca tanto que restitua o chão a uma qualquer virgindade

O homem aprendeu enfim a orientar-se sem bússola chega-lhe passar por onde outro homem passou antes

As pessoas vão conversando numerosamente e de vez em quando uma separa-se do grupo e vai agachar-se ao lado

Enquanto os outros se afastam devagar atrasando o passo para que não fique para trás aquele que assinalará o caminho

Passado o último horizonte é que está a rua das estátuas

Nenhum excremento nas imediações

E eis que cinquenta estátuas de cada lado incrivelmente brancas mas a que os jogos das luzes e das sombras alternadas fazem mover os membros e as feições

Mostram a quem passa vindo de longe como poderiam ter sido os homens

Pois há motivos para pensar que nunca foram assim
👁️ 891

4

O interrogatório do homem que saiu de casa depois da hora de recolher começou há quinze dias e ainda não acabou

Os inquiridores fazem uma pergunta em cada sessenta minutos vinte e quatro por dia e exigem cinquenta e nove respostas diferentes para cada uma

É um método novo

Acreditam que é impossível não estar a resposta verdadeira entre as cinquenta e nove que foram dadas

E contam com a perspicácia do ordenador para descobrir qual delas seja e a sua ligação com as outras

Há quinze dias que o homem não dorme nem dormirá enquanto o ordenador não disser não preciso de mais ou o médico não preciso de tanto

Caso em que terá o seu definitivo sono

O homem que saiu de casa depois da hora de recolher não dirá por que saiu

E os inquiridores não sabem que a verdade está na sexagésima resposta

Entretanto a tortura continua até que o médico declare

Não vale a pena
👁️ 979

24

Nenhumas armas a não ser os toscos paus arrancados dificilmente aos ramos mais baixos das árvores e as pedras roladas colhidas nos leitos das ribeiras

Nenhuma protecção a não ser a da noite ou a sombra dos desfiladeiros por onde a tribo se insinuava como uma longa cobra rastejando

Ali não tinham os lobos mecânicos espaço para atacar e foi possível ver entre duas altas e sonoras muralhas de rocha lutar um milhafre verdadeiro contra uma águia mecânica e vencê-la

Porque a águia fora programada apenas para atacar os homens como o haviam sido os elefantes que bramiam de fúria na garganta dos desfiladeiros apertados onde não podiam entrar

E isto foi enquanto ainda o ordenador se manteve em ligação com os animais mecânicos

Tornados inúteis logo que a comunicação cessou destruídos na queda os que voavam paralisados no movimento os que no chão se deslocavam e caídos para o lado

Sete noites durou a marcha pelos labirintos da montanha sete dias dormiu a tribo e outras que se haviam juntado em grutas onde às vezes descobriam pinturas de homens lutando contra animais ou outros homens

Ao amanhecer do oitavo dia surgiram em campo raso e viram um leão imóvel de pé sobre as quatro patas

Batendo as asas secas dois corvos verdadeiros arrancavam-lhe tiras de pele morta pondo à vista o mecanismo do ventre e dos membros e um nó de fios escuros como um coração apodrecido

Então as tribos recolheram-se outra vez ao desfiladeiro à espera da noite e nas paredes duma gruta alguns homens reproduziram o leão e os corvos voando e ao fundo uma cidade armada

Feito o que desenharam o retrato de si próprios segurando uns toscos paus e na transparência do peito limitado por dois riscos laterais marcaram o lugar que deve ocupar um coração vivo
👁️ 888

12

Um dos resultados da catástrofe foi que de uma hora para a outra os animais domésticos deixaram de o ser

A primeira vítima de que houve notícia foi a mulher do governador escolhido pelo ocupante

Quando o macaco amestrado que a divertia nas horas de aborrecimento a crucificou no portão do jardim enquanto as galinhas saíram da capoeira para vir arrancar-lhe à bicada as unhas dos pés

Muitas velhinhas inocentes foram arranhadas por gatos castrados de estimação em memória do atentado sofrido

E numerosas crianças ficaram infelizmente cegas pelos bicos agudos das aves que se atiravam dos ramos e das alturas como pedras

Privadas dos animais domésticos as pessoas dedicaram-se activamente ao cultivo de flores

Destas não há que esperar mal se não for dada excessiva importância ao recente caso de uma rosa carnívora
👁️ 867

História Antiga

Compromissos, não tinha, mas faltei;
Não prestei juramento, mas traí:
Sentir-se réu alguém, não depende
Do juízo dos outros, mas de si.

É fácil companhia a consciência
Se mansamente aceita e concilia,
Difícil é calá-la quando somos
Mais rectos afinal do que se cria.

Um dia tornarei às dores do mundo,
À luta onde talvez já não me esperam,
Antes, seja diferente outra mulher,
Companheira, não ferros que me ferram.
👁️ 1 056

De Violetas Se Cobre

De violetas se cobre o chão que pisas,
De aromas de nardo o ar assombra:
Nestas recurvas áleas, indecisas,
Olho o céu onde passa a tua sombra.
👁️ 992

Comentários (2)

Iniciar sessão ToPostComment
ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2025-08-03

Bem meu caro José Saramago... se tu ainda estivesse em vida... conquistaria um novo mundo. meu caros amigos já tive o privilégio de ler uns dois livros deste grande escritor. são de um mundo fantástico. Braços a sua eternidade.

ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2024-06-13

Meu caro é preciso sair do corpo em espirito e mente ; para nos vermos a nós mesmos. em corpo e alma a vagar pela mundo desconhecido.