Poemas nesta obra
1
As pessoas estão sentadas numa paisagem de Dali com as sombras muito recortadas por causa de um sol que diremos parado
Quando o sol se move como acontece fora das pinturas a nitidez é menor e a luz sabe muito menos o seu lugar
Não importa que Dali tivesse sido tão mau pintor se pintou a imagem necessária para os dias de 1993
Este dia em que as pessoas estão sentadas na paisagem entre dois prumos de madeira que foram uma porta sem paredes para cima e para os lados
Não há portanto casa nem sequer a porta que poderia não abrir precisamente por não haver para onde abrir
Apenas o vazio da porta e não a porta
E as pessoas não se sabe quantas não foram contadas devem ser ao menos duas porque conversam levantam as golas dos casacos para se defenderem do frio
E dizem que o inverno do ano passado foi muito mais doce ou suave ou benigno embora a palavra seja antiga em 1993
Enquanto falam e dizem coisas importantes como esta
Uma das pessoas vai riscando no chão uns traços enigmáticos que tanto podem ser um retrato como uma declaração de amor ou a palavra que faltasse inventar
Vê-se agora que o sol afinal não estava parado e portanto a paisagem é muito menos daliniana do que ficou dito na primeira linha
E uma sombra estreita e comprida que é talvez de uma pedra aguda espetada no chão ou de um prumo distante de porta que já perdeu companhia e por isso não atrai as pessoas
Uma sombra estreita e comprida toca no dedo que risca a poeira do chão e começa a devorá-lo
Devagar passando aos ossos do metacarpo e depois subindo pelo braço devorando
Enquanto algumas pessoas continuam a conversar
E esta se cala porque tudo isto acontece sem dor e enquanto a noite desce
Quando o sol se move como acontece fora das pinturas a nitidez é menor e a luz sabe muito menos o seu lugar
Não importa que Dali tivesse sido tão mau pintor se pintou a imagem necessária para os dias de 1993
Este dia em que as pessoas estão sentadas na paisagem entre dois prumos de madeira que foram uma porta sem paredes para cima e para os lados
Não há portanto casa nem sequer a porta que poderia não abrir precisamente por não haver para onde abrir
Apenas o vazio da porta e não a porta
E as pessoas não se sabe quantas não foram contadas devem ser ao menos duas porque conversam levantam as golas dos casacos para se defenderem do frio
E dizem que o inverno do ano passado foi muito mais doce ou suave ou benigno embora a palavra seja antiga em 1993
Enquanto falam e dizem coisas importantes como esta
Uma das pessoas vai riscando no chão uns traços enigmáticos que tanto podem ser um retrato como uma declaração de amor ou a palavra que faltasse inventar
Vê-se agora que o sol afinal não estava parado e portanto a paisagem é muito menos daliniana do que ficou dito na primeira linha
E uma sombra estreita e comprida que é talvez de uma pedra aguda espetada no chão ou de um prumo distante de porta que já perdeu companhia e por isso não atrai as pessoas
Uma sombra estreita e comprida toca no dedo que risca a poeira do chão e começa a devorá-lo
Devagar passando aos ossos do metacarpo e depois subindo pelo braço devorando
Enquanto algumas pessoas continuam a conversar
E esta se cala porque tudo isto acontece sem dor e enquanto a noite desce
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Certos homens embora não adaptados morfologicamente passaram a viver debaixo do chão
Utilizaram a técnica da toupeira a céu fechado por sofrerem de limitações físicas semelhantes
E se é verdade que com o tempo desenvolveram as unhas em comprimento e resistência
Nunca puderam cavar galerias profundas
Custar-lhes-ia provavelmente distanciarem-se do sol
Caso em que teriam muito mais razão do que a toupeira que é cega ou quase e o homem não ainda que nesse sentido tenha feito alguns progressos
Por isso é fácil descobrir os túneis cavados por estes homens que se afastaram do mundo exterior
Com a preocupação de romperem caminho tão perto da luz estalam a crosta da terra e são como os avestruzes que se supõem escondidos
Os perseguidores nem mesmo hesitam entre os dois extremos do túnel como se poderia hesitar perante o risco feito na areia por aqueles bivalves de água doce que acreditam no destino
Porque onde a terra estiver mais fresca ali estará agitando-se devagar o oculto
Uma lança cravada a pique ou uma estaca trespassam pelas costas o homem de unhas longas e coragem insuficiente
Boa armadilha seria porém a galeria cavada à superfície
Se os homens que assim escolheram viver compreendessem que têm de cavar para baixo e fundo um poço antes que venham a lança e a estaca
Para que o perseguidor morra enterrado no preciso momento em que iria matar e para que comecem a igualar-se as perdas
Em nome da simples e necessária justiça
Utilizaram a técnica da toupeira a céu fechado por sofrerem de limitações físicas semelhantes
E se é verdade que com o tempo desenvolveram as unhas em comprimento e resistência
Nunca puderam cavar galerias profundas
Custar-lhes-ia provavelmente distanciarem-se do sol
Caso em que teriam muito mais razão do que a toupeira que é cega ou quase e o homem não ainda que nesse sentido tenha feito alguns progressos
Por isso é fácil descobrir os túneis cavados por estes homens que se afastaram do mundo exterior
Com a preocupação de romperem caminho tão perto da luz estalam a crosta da terra e são como os avestruzes que se supõem escondidos
Os perseguidores nem mesmo hesitam entre os dois extremos do túnel como se poderia hesitar perante o risco feito na areia por aqueles bivalves de água doce que acreditam no destino
Porque onde a terra estiver mais fresca ali estará agitando-se devagar o oculto
Uma lança cravada a pique ou uma estaca trespassam pelas costas o homem de unhas longas e coragem insuficiente
Boa armadilha seria porém a galeria cavada à superfície
Se os homens que assim escolheram viver compreendessem que têm de cavar para baixo e fundo um poço antes que venham a lança e a estaca
Para que o perseguidor morra enterrado no preciso momento em que iria matar e para que comecem a igualar-se as perdas
Em nome da simples e necessária justiça
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Foram requisitados todos os termómetros da cidade e proibida sob pena de morte a sua posse
Nenhuma explicação por notícia no diário da ocupação ou edital
Também nenhum locutor da rádio ou da televisão ousou juntar qualquer comentário à leitura da ordem redigida pelas autoridades encarregadas da informação
Graças ao desaparecimento dos termómetros as crianças puderam muitas pela primeira vez sentir a frescura das mãos do pai ou da mãe sobre a testa quente
Alguma coisa portanto parecia ter sido ganha
Até ao dia em que a população compreendeu o fim a que se destinava o mercúrio retirado dos termómetros e todo o outro existente noutros lugares
As pessoas que moravam na periferia da cidade e por isso podiam ver o nascer do sol
Acreditaram enfim que o mundo ia acabar porque ao lado do velho sol alaranjado subia uma esfera fria e negra com reflexos de cinza
Só essas pessoas assistiram ao primeiro aparecimento do grande olho que iria passar a vigiar a cidade
Só esses o viram no seu primeiro tamanho
Mal o sol verdadeiro subiu um pouco no horizonte a esfera de mercúrio dividiu-se em duas em quatro em oito em dezasseis em trinta e duas em centenas de esferas que se espalharam por toda a parte
Deslocavam-se no ar silenciosamente e continuavam a dividir-se até que houve tantas esferas quantos os habitantes da cidade
Fora instituído o olho de vigilância individual o olho que não dorme nunca
Mas as mães têm reparado que sobre a esfera de mercúrio desce uma espécie de véu sempre que as suas mãos pousam nas testas das crianças com febre
Nessas ocasiões o ordenador central recebe dados insólitos que falseiam a informação geral
Embora pareça incrível que tenha sido por qualquer razão dessas que desapareceu há pouco tempo sem deixar rasto um batalhão inteiro do exército ocupante
Nenhuma explicação por notícia no diário da ocupação ou edital
Também nenhum locutor da rádio ou da televisão ousou juntar qualquer comentário à leitura da ordem redigida pelas autoridades encarregadas da informação
Graças ao desaparecimento dos termómetros as crianças puderam muitas pela primeira vez sentir a frescura das mãos do pai ou da mãe sobre a testa quente
Alguma coisa portanto parecia ter sido ganha
Até ao dia em que a população compreendeu o fim a que se destinava o mercúrio retirado dos termómetros e todo o outro existente noutros lugares
As pessoas que moravam na periferia da cidade e por isso podiam ver o nascer do sol
Acreditaram enfim que o mundo ia acabar porque ao lado do velho sol alaranjado subia uma esfera fria e negra com reflexos de cinza
Só essas pessoas assistiram ao primeiro aparecimento do grande olho que iria passar a vigiar a cidade
Só esses o viram no seu primeiro tamanho
Mal o sol verdadeiro subiu um pouco no horizonte a esfera de mercúrio dividiu-se em duas em quatro em oito em dezasseis em trinta e duas em centenas de esferas que se espalharam por toda a parte
Deslocavam-se no ar silenciosamente e continuavam a dividir-se até que houve tantas esferas quantos os habitantes da cidade
Fora instituído o olho de vigilância individual o olho que não dorme nunca
Mas as mães têm reparado que sobre a esfera de mercúrio desce uma espécie de véu sempre que as suas mãos pousam nas testas das crianças com febre
Nessas ocasiões o ordenador central recebe dados insólitos que falseiam a informação geral
Embora pareça incrível que tenha sido por qualquer razão dessas que desapareceu há pouco tempo sem deixar rasto um batalhão inteiro do exército ocupante
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Um dos resultados da catástrofe foi que de uma hora para a outra os animais domésticos deixaram de o ser
A primeira vítima de que houve notícia foi a mulher do governador escolhido pelo ocupante
Quando o macaco amestrado que a divertia nas horas de aborrecimento a crucificou no portão do jardim enquanto as galinhas saíram da capoeira para vir arrancar-lhe à bicada as unhas dos pés
Muitas velhinhas inocentes foram arranhadas por gatos castrados de estimação em memória do atentado sofrido
E numerosas crianças ficaram infelizmente cegas pelos bicos agudos das aves que se atiravam dos ramos e das alturas como pedras
Privadas dos animais domésticos as pessoas dedicaram-se activamente ao cultivo de flores
Destas não há que esperar mal se não for dada excessiva importância ao recente caso de uma rosa carnívora
A primeira vítima de que houve notícia foi a mulher do governador escolhido pelo ocupante
Quando o macaco amestrado que a divertia nas horas de aborrecimento a crucificou no portão do jardim enquanto as galinhas saíram da capoeira para vir arrancar-lhe à bicada as unhas dos pés
Muitas velhinhas inocentes foram arranhadas por gatos castrados de estimação em memória do atentado sofrido
E numerosas crianças ficaram infelizmente cegas pelos bicos agudos das aves que se atiravam dos ramos e das alturas como pedras
Privadas dos animais domésticos as pessoas dedicaram-se activamente ao cultivo de flores
Destas não há que esperar mal se não for dada excessiva importância ao recente caso de uma rosa carnívora
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Todo o sistema prisional foi reformado pelo ocupante incluindo os próprios edifícios
Acabaram as enxovias subterrâneas as masmorras as celas escuras as grades os muros altos os espigões de ferro
No lugar das antigas cadeias construíram-se edifícios de seis andares todos de vidro transparente
Os únicos elementos opacos são as enxergas e as fechaduras das portas
Cada prisão tem centenas de celas de forma hexagonal como favos de colmeia
Tudo quanto um preso faz o tem de fazer à vista dos outros presos dos guardas e da cidade sem espectáculos públicos
À mais grave ocupação de todas que é a de pensar ninguém dá atenção
Mas consoante os gostos não faltam espectadores para os actos de comer defecar masturbar com perdão dos olhos delicados
Ou para as sessões de interrogatório e de tortura que se praticam à luz do dia
Como prova de que o novo sistema prisional aceita a livre observação e se oferece ao testemunho geral
As paredes só se tornam opacas quando todos os presos dormem e não há mais nada para ver
Acabaram as enxovias subterrâneas as masmorras as celas escuras as grades os muros altos os espigões de ferro
No lugar das antigas cadeias construíram-se edifícios de seis andares todos de vidro transparente
Os únicos elementos opacos são as enxergas e as fechaduras das portas
Cada prisão tem centenas de celas de forma hexagonal como favos de colmeia
Tudo quanto um preso faz o tem de fazer à vista dos outros presos dos guardas e da cidade sem espectáculos públicos
À mais grave ocupação de todas que é a de pensar ninguém dá atenção
Mas consoante os gostos não faltam espectadores para os actos de comer defecar masturbar com perdão dos olhos delicados
Ou para as sessões de interrogatório e de tortura que se praticam à luz do dia
Como prova de que o novo sistema prisional aceita a livre observação e se oferece ao testemunho geral
As paredes só se tornam opacas quando todos os presos dormem e não há mais nada para ver
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Nos quatro pontos cardeais os vigias defendem o sono cansado da tribo ou rebanho de gente que vagueia pelos campos
Um homem ao norte uma mulher ao sul outro homem a oriente e a ocidente a segunda mulher
Estão sentados de pernas cruzadas atentos a todas as sombras e gritam quando há perigo
Mas porque os perseguidores não gostam de atacar na escuridão a noite decorre muitas vezes calma apenas fria
Ao amanhecer a tribo acorda e divide-se em quatro grupos conforme os pontos cardeais e vai agradecer aos vigias a vida conservada
Depois o homem do norte e a mulher do sul o homem do oriente e a mulher do ocidente juntam os sexos porque assim foi decidido que deveria acontecer todas as manhãs
Enquanto a união dura cantam em redor a única canção feliz que não esqueceram
O sol levanta-se sobre os quatro corpos nus que são a esperança inconsciente da tribo
Entretanto acende-se a primeira fogueira e o fumo azul da lenha sobe para o céu
Um homem ao norte uma mulher ao sul outro homem a oriente e a ocidente a segunda mulher
Estão sentados de pernas cruzadas atentos a todas as sombras e gritam quando há perigo
Mas porque os perseguidores não gostam de atacar na escuridão a noite decorre muitas vezes calma apenas fria
Ao amanhecer a tribo acorda e divide-se em quatro grupos conforme os pontos cardeais e vai agradecer aos vigias a vida conservada
Depois o homem do norte e a mulher do sul o homem do oriente e a mulher do ocidente juntam os sexos porque assim foi decidido que deveria acontecer todas as manhãs
Enquanto a união dura cantam em redor a única canção feliz que não esqueceram
O sol levanta-se sobre os quatro corpos nus que são a esperança inconsciente da tribo
Entretanto acende-se a primeira fogueira e o fumo azul da lenha sobe para o céu
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Porém não devemos esquecer o mar que é o princípio e o fim de todas as coisas
É certo que nos dias de 1993 poucas pessoas ainda serão capazes de imaginar os primeiros tempos do mundo
Quando nenhum animal percorria a terra ou voava sobre ela
Quando nada que merecesse o nome de planta rompia o solo instável
Então a enorme caldeira do mar elaborava a alquimia da pedra filosofal que tudo mudava em vida e alguma coisa em ouro
Também para os dias de 1993 o futuro para além do futuro parecerá impossível
Quando o mar cobrir os continentes gastos e a terra rebrilhar no espaço como um espelho gelado
E outra vez nenhuma planta a não ser as algas marinhas nenhum animal a não ser os mais pesados e já moribundos peixes
Agora os homens apenas procuram o mar para se lamentarem diante da grande voz das ondas
E postos de joelhos em linha com os braços abertos recebendo no rosto a fustigação do vento e da espuma
Gritam ensurdecidos pelo estrépito a miséria extrema que por agora os dispersa na terra
E quando enfim se calam assombrados pelo pavor que são capazes de suportar
O mar subitamente acalma e um lento murmúrio de um lado e do outro reconsidera os factos
Que em verdade não excluem uma maré renovada e uma coragem à medida do tempo que passou desde a primeira de todas as mortes
Sem o que não seria possível juntarem-se outra vez os homens e subirem a escarpa a caminho da terra ocupada
É certo que nos dias de 1993 poucas pessoas ainda serão capazes de imaginar os primeiros tempos do mundo
Quando nenhum animal percorria a terra ou voava sobre ela
Quando nada que merecesse o nome de planta rompia o solo instável
Então a enorme caldeira do mar elaborava a alquimia da pedra filosofal que tudo mudava em vida e alguma coisa em ouro
Também para os dias de 1993 o futuro para além do futuro parecerá impossível
Quando o mar cobrir os continentes gastos e a terra rebrilhar no espaço como um espelho gelado
E outra vez nenhuma planta a não ser as algas marinhas nenhum animal a não ser os mais pesados e já moribundos peixes
Agora os homens apenas procuram o mar para se lamentarem diante da grande voz das ondas
E postos de joelhos em linha com os braços abertos recebendo no rosto a fustigação do vento e da espuma
Gritam ensurdecidos pelo estrépito a miséria extrema que por agora os dispersa na terra
E quando enfim se calam assombrados pelo pavor que são capazes de suportar
O mar subitamente acalma e um lento murmúrio de um lado e do outro reconsidera os factos
Que em verdade não excluem uma maré renovada e uma coragem à medida do tempo que passou desde a primeira de todas as mortes
Sem o que não seria possível juntarem-se outra vez os homens e subirem a escarpa a caminho da terra ocupada
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Podia ter acontecido a qualquer hora do dia
Quando debaixo do sol a horda se deslocasse na rasa e dura planície
Ou quando à sombra de uma rocha alta acreditasse no fim dos males do mundo só porque ali uma frescura passageira os tornava distantes
Ou quando a penumbra miserável fizesse apetecer uma lenta dissolução no espaço
Mas foi de noite na negrura aflita da caverna lá onde só o olho vermelho das brasas tinha pena dos homens
Onde o cheiro dos corpos humilhados de gases de suor de descargas de sémen
E onde intermináveis insónias se resolviam em suicídios
Que subitamente um homem descobriu que não sabia ler
Em vão recordava as letras em vão as desenhava ele próprio na memória
Eram riscos cegos na escuridão desenhos de Marte Mercúrio ou Plutão ou ainda a escrita do sistema planetário da Betelgeuse
Nada que fosse humano e fraterno nada que tivesse o gosto comum do pão e do sal
Quando o sol nasceu e a horda saiu para o ar livre e para o mundo aprisionado
O homem sentou-se no chão dobrado como um feto
E prometeu morrer sem resistência se a lepra que lhe nascera durante a noite não fosse nunca descoberta pelos companheiros que talvez ainda soubessem ler
Quando debaixo do sol a horda se deslocasse na rasa e dura planície
Ou quando à sombra de uma rocha alta acreditasse no fim dos males do mundo só porque ali uma frescura passageira os tornava distantes
Ou quando a penumbra miserável fizesse apetecer uma lenta dissolução no espaço
Mas foi de noite na negrura aflita da caverna lá onde só o olho vermelho das brasas tinha pena dos homens
Onde o cheiro dos corpos humilhados de gases de suor de descargas de sémen
E onde intermináveis insónias se resolviam em suicídios
Que subitamente um homem descobriu que não sabia ler
Em vão recordava as letras em vão as desenhava ele próprio na memória
Eram riscos cegos na escuridão desenhos de Marte Mercúrio ou Plutão ou ainda a escrita do sistema planetário da Betelgeuse
Nada que fosse humano e fraterno nada que tivesse o gosto comum do pão e do sal
Quando o sol nasceu e a horda saiu para o ar livre e para o mundo aprisionado
O homem sentou-se no chão dobrado como um feto
E prometeu morrer sem resistência se a lepra que lhe nascera durante a noite não fosse nunca descoberta pelos companheiros que talvez ainda soubessem ler
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A mais terrível arma da guerra do desprezo foi o elefante
Porque então haviam os ocupantes da cidade desdenhado perseguir nos campos as hordas assustadas dos homens que se arrastavam entre céu e céu
Todos os animais do jardim zoológico foram paralisados por acção de misturas químicas nunca antes vistas
E ainda vivos abertos sobre grandes mesas de dissecção esvaziados de entranhas e do sangue que jorrou por fundos canais para o interior da terra donde apenas saía para certos banhos das prostitutas principais
Desta maneira tornados pele massa muscular e esqueleto foram os animais providos de poderosos mecanismos internos ligados aos ossos por circuitos electrónicos que não podiam errar
E estando tudo isto no comprimento de onda do ordenador central foi nele introduzido o programa do ódio e a memória das humilhações
Então abriram-se as portas da cidade e os animais saíram a destruir os homens
Não precisavam de dormir nem comer e os homens sim
Não precisavam de descanso e o mais que o homem sabia era terror e fadiga
Foi essa guerra chamada do desprezo porque nem sequer o sangue lutava contra o sangue
Já foi dito que o elefante era a mais terrível máquina daquela guerra
Talvez quem sabe porque havia sido muitas vezes domesticado e ridicularizado nos circos quando a sua grande estatura se equilibrava numa bola absurda ou se levantava nas patas traseiras para cumprimentar o público
Entretanto o maior dos sábios do ocupante insiste em afirmar que há-de fazer rir o ordenador hipótese que não surpreenderá tendo em conta os factos relatados
Porque então haviam os ocupantes da cidade desdenhado perseguir nos campos as hordas assustadas dos homens que se arrastavam entre céu e céu
Todos os animais do jardim zoológico foram paralisados por acção de misturas químicas nunca antes vistas
E ainda vivos abertos sobre grandes mesas de dissecção esvaziados de entranhas e do sangue que jorrou por fundos canais para o interior da terra donde apenas saía para certos banhos das prostitutas principais
Desta maneira tornados pele massa muscular e esqueleto foram os animais providos de poderosos mecanismos internos ligados aos ossos por circuitos electrónicos que não podiam errar
E estando tudo isto no comprimento de onda do ordenador central foi nele introduzido o programa do ódio e a memória das humilhações
Então abriram-se as portas da cidade e os animais saíram a destruir os homens
Não precisavam de dormir nem comer e os homens sim
Não precisavam de descanso e o mais que o homem sabia era terror e fadiga
Foi essa guerra chamada do desprezo porque nem sequer o sangue lutava contra o sangue
Já foi dito que o elefante era a mais terrível máquina daquela guerra
Talvez quem sabe porque havia sido muitas vezes domesticado e ridicularizado nos circos quando a sua grande estatura se equilibrava numa bola absurda ou se levantava nas patas traseiras para cumprimentar o público
Entretanto o maior dos sábios do ocupante insiste em afirmar que há-de fazer rir o ordenador hipótese que não surpreenderá tendo em conta os factos relatados
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Muito perto do lugar escolhido para o novo acampamento as quatro mulheres que transportavam o fogo gritaram de desespero
Ninguém morrera subitamente ninguém fora arrebatado aos ares pelas águias mecânicas que os ocupantes lançavam sobre os bandos fugitivos
Mas ao apagar-se o fogo acontecera a desgraça de todas mais temida porque com ela seria o tempo do pavor sem remédio do negrume gelado da solidão
E metade da horda viria certamente a sucumbir na tentativa de arrancar às cidades ocupadas um novo lume se para tanto tivesse coragem
Reuniram-se em volta das cinzas e ali mesmo o chefe foi deposto e as quatro mulheres apedrejadas mas não até à morte
Porque os perseguidos estavam tão certos de morrer que respeitavam a vida e provavelmente por isso morriam com tanta facilidade
Assim começou aquela primeira noite de escuridão com todo o bando amassado numa nódoa de sombra sob o pálido e distante luzeiro das estrelas
Como sempre faziam ao fim do dia contaram-se e souberam que eram menos um
E quando apesar da sua tão grande miséria tornaram a lamentar-se por este pouco
Uma criança disse que vira afastar-se na direcção do poente um homem da tribo e que isso fora depois de o lume se apagar
A noite foi como um lastro de lama porque as estrelas estavam longe e ardiam friamente
E o dia seguinte nasceu e passou sem que se movessem dali comeram dormiram e alguns juntaram os sexos para não terem tanto medo
Outra noite se levantou da terra e vieram os lobos mecânicos que levaram consigo de rastos os dez homens mais fortes
Só se afastaram quando o sol começou a aparecer e uivaram de longe com as suas gargantas de ferro enquanto das feridas dos mortos pingava o sangue
Então sobre o disco vermelho viram os homens e as mulheres sobreviventes um ponto negro que aumentava e julgaram que o próprio sol ia apagar-se
Até ao momento em que distinguiram o homem que corria para eles o companheiro que os deixara duas noites antes e que nesse homem havia também um ponto luminoso
Uma labareda que vinha no braço levantado e que era a própria mão ardendo da luz do sol roubada
Ninguém morrera subitamente ninguém fora arrebatado aos ares pelas águias mecânicas que os ocupantes lançavam sobre os bandos fugitivos
Mas ao apagar-se o fogo acontecera a desgraça de todas mais temida porque com ela seria o tempo do pavor sem remédio do negrume gelado da solidão
E metade da horda viria certamente a sucumbir na tentativa de arrancar às cidades ocupadas um novo lume se para tanto tivesse coragem
Reuniram-se em volta das cinzas e ali mesmo o chefe foi deposto e as quatro mulheres apedrejadas mas não até à morte
Porque os perseguidos estavam tão certos de morrer que respeitavam a vida e provavelmente por isso morriam com tanta facilidade
Assim começou aquela primeira noite de escuridão com todo o bando amassado numa nódoa de sombra sob o pálido e distante luzeiro das estrelas
Como sempre faziam ao fim do dia contaram-se e souberam que eram menos um
E quando apesar da sua tão grande miséria tornaram a lamentar-se por este pouco
Uma criança disse que vira afastar-se na direcção do poente um homem da tribo e que isso fora depois de o lume se apagar
A noite foi como um lastro de lama porque as estrelas estavam longe e ardiam friamente
E o dia seguinte nasceu e passou sem que se movessem dali comeram dormiram e alguns juntaram os sexos para não terem tanto medo
Outra noite se levantou da terra e vieram os lobos mecânicos que levaram consigo de rastos os dez homens mais fortes
Só se afastaram quando o sol começou a aparecer e uivaram de longe com as suas gargantas de ferro enquanto das feridas dos mortos pingava o sangue
Então sobre o disco vermelho viram os homens e as mulheres sobreviventes um ponto negro que aumentava e julgaram que o próprio sol ia apagar-se
Até ao momento em que distinguiram o homem que corria para eles o companheiro que os deixara duas noites antes e que nesse homem havia também um ponto luminoso
Uma labareda que vinha no braço levantado e que era a própria mão ardendo da luz do sol roubada
19
Quando os habitantes da cidade se tinham já habituado ao domínio do ocupante
Determinou o ordenador que todos fossem numerados na testa como no braço se fizera cinquenta anos antes em Auschwitz e outros lugares
A operação era indolor e por isso mesmo não houve qualquer resistência nem sequer protestos
O próprio vocabulário sofrera transformações e haviam sido esquecidas as palavras que exprimiam a indignação e a cólera
Deste modo os habitantes da cidade se acharam numerados de 1 a 57.229 porque a cidade era pequena e fora escolhida para experimentação entre todas as cidades ocupadas
Dois meses depois o ordenador registava valores de comportamento e diferentes estados de espírito consoante o número que havia cabido a cada habitante
Entre 1 e 1.000 estava o perfeito contentamento de si próprio ainda assim dividido em mil exactas pequenas parcelas
Ninguém reconhecia autoridade a quem tivesse número superior ao seu o que explica que o 57.229 comesse com os cães e tivesse de masturbar-se porque nenhuma mulher queria dormir com ele
Os habitantes de 1 a 9 consideravam-se chefes da cidade e vestiam segundo as modas do ocupante
Mas o primeiro deles mandou fazer um aro de ouro que suspendia sobre a testa como sinal de poder e autoridade e hoje basta este sinal para que todas as cabeças se curvem a partir de 2
Porém só o ordenador sabe que estes números são provisórios e que dentro de vinte e quatro horas todos se apagarão para reaparecerem por ordem inversa
Processo tão bom como os animais mecânicos para prosseguir o extermínio da população ocupada
Pois todas as humilhações serão retribuídas cem por um até à morte
Enquanto os ocupantes se distraem nos espectáculos que para seu uso ainda funcionam
Determinou o ordenador que todos fossem numerados na testa como no braço se fizera cinquenta anos antes em Auschwitz e outros lugares
A operação era indolor e por isso mesmo não houve qualquer resistência nem sequer protestos
O próprio vocabulário sofrera transformações e haviam sido esquecidas as palavras que exprimiam a indignação e a cólera
Deste modo os habitantes da cidade se acharam numerados de 1 a 57.229 porque a cidade era pequena e fora escolhida para experimentação entre todas as cidades ocupadas
Dois meses depois o ordenador registava valores de comportamento e diferentes estados de espírito consoante o número que havia cabido a cada habitante
Entre 1 e 1.000 estava o perfeito contentamento de si próprio ainda assim dividido em mil exactas pequenas parcelas
Ninguém reconhecia autoridade a quem tivesse número superior ao seu o que explica que o 57.229 comesse com os cães e tivesse de masturbar-se porque nenhuma mulher queria dormir com ele
Os habitantes de 1 a 9 consideravam-se chefes da cidade e vestiam segundo as modas do ocupante
Mas o primeiro deles mandou fazer um aro de ouro que suspendia sobre a testa como sinal de poder e autoridade e hoje basta este sinal para que todas as cabeças se curvem a partir de 2
Porém só o ordenador sabe que estes números são provisórios e que dentro de vinte e quatro horas todos se apagarão para reaparecerem por ordem inversa
Processo tão bom como os animais mecânicos para prosseguir o extermínio da população ocupada
Pois todas as humilhações serão retribuídas cem por um até à morte
Enquanto os ocupantes se distraem nos espectáculos que para seu uso ainda funcionam
2
Os habitantes da cidade doente de peste estão reunidos na praça grande que assim ficou conhecida porque todas as outras se atulharam de ruínas
Foram tirados das suas casas por uma ordem que ninguém ouviu
Porém segundo estava escrito em lendas antiquíssimas haveria vozes vindas do céu ou trombetas ou luzes extraordinárias e todos quiseram estar presentes
Alguma coisa podia talvez suceder no mundo antes do triunfo final da peste nem que fosse uma peste maior
Ali estão pois na praça angustiados e em silêncio à espera
E depois nada mais se ouve que uma aérea e delicada música de cravo
Qualquer fuga composta há duzentos e cinquenta anos por João Sebastião Bach em Leipzig
É então que os homens e as mulheres sem esperança se deixam cair no pavimento estalado da praça
Enquanto a música se afasta e voa sobre os campos devastados
Foram tirados das suas casas por uma ordem que ninguém ouviu
Porém segundo estava escrito em lendas antiquíssimas haveria vozes vindas do céu ou trombetas ou luzes extraordinárias e todos quiseram estar presentes
Alguma coisa podia talvez suceder no mundo antes do triunfo final da peste nem que fosse uma peste maior
Ali estão pois na praça angustiados e em silêncio à espera
E depois nada mais se ouve que uma aérea e delicada música de cravo
Qualquer fuga composta há duzentos e cinquenta anos por João Sebastião Bach em Leipzig
É então que os homens e as mulheres sem esperança se deixam cair no pavimento estalado da praça
Enquanto a música se afasta e voa sobre os campos devastados
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Todas as calamidades haviam caído já sobre a tribo ao ponto de se falar da morte com esperança
Um pouco mais e o suicídio colectivo seria votado e decidido
Assim pela infinita planície as vozes inseguras se iam aos poucos calando como se a próxima paragem fosse a última e o soubessem
Pelo meio da tarde as nuvens cobriram o céu e uma vagarosa chuva o chão de lama e os homens de maior desespero
Espetaram na terra as estacas que eram os pilares das suas habitações transportadas e sobre elas os panos que restavam dos tempos em que poucos aceitariam semelhante abrigo
Este era o miserável rebanho a vara a manada entregue aos pastos naturais às lombas pedregosas e hoje à frialdade esponjosa de uma chuva que raspava os ossos do crânio
Quase noite o homem e a mulher que se tinham escolhido para sempre afastaram-se na direcção de uma floresta que fechava o céu
Porque a miséria era extrema e a morte talvez viesse mais depressa se as vítimas se mostrassem a descoberto
Porém assim não aconteceu e debaixo das árvores a grande escuridão redobrou o medo mas não mais
Então abraçados o homem e a mulher sem uma palavra suplicaram
E a árvore a que se apoiavam transidos abriu-se por uma qualquer razão que não veio a saber-se nunca e recebeu-os dentro de si juntando a seiva e o sangue
Todas as aflições se acabaram naquele instante e a chuva escorria pelas folhas e pelos troncos como alimento até ao chão que as raízes lentamente trabalhavam
Assim a noite passou sobre esta paz que não conhecia pesadelos
Mas quando o sol nasceu ouviu-se do lugar onde a tribo ficara um enorme tumulto um estridor de gritos e asas e uivos de metal
E a mulher e o homem abraçados dentro da árvore souberam que os seus irmãos uma vez mais sofriam o assalto dos ocupantes e das feras
No ano de 2093 ainda se contará que cem anos antes foi vista uma árvore sair da floresta andando sobre as raízes e fazer dos seus ramos laços e lanças e dardos das folhas agudas
E também se dirá que depois para onde fosse a tribo ia a árvore caminhando sobre as raízes
E que debaixo dela se abrigavam à noite ou quando o sol queimava os outros homens e as outras mulheres que nos primeiros dias ainda recordaram os companheiros para sempre desaparecidos naquela noite em que a morte quase fora o destino certo da tribo
E tudo isto se dirá nos mais felizes tempos de 2093
Um pouco mais e o suicídio colectivo seria votado e decidido
Assim pela infinita planície as vozes inseguras se iam aos poucos calando como se a próxima paragem fosse a última e o soubessem
Pelo meio da tarde as nuvens cobriram o céu e uma vagarosa chuva o chão de lama e os homens de maior desespero
Espetaram na terra as estacas que eram os pilares das suas habitações transportadas e sobre elas os panos que restavam dos tempos em que poucos aceitariam semelhante abrigo
Este era o miserável rebanho a vara a manada entregue aos pastos naturais às lombas pedregosas e hoje à frialdade esponjosa de uma chuva que raspava os ossos do crânio
Quase noite o homem e a mulher que se tinham escolhido para sempre afastaram-se na direcção de uma floresta que fechava o céu
Porque a miséria era extrema e a morte talvez viesse mais depressa se as vítimas se mostrassem a descoberto
Porém assim não aconteceu e debaixo das árvores a grande escuridão redobrou o medo mas não mais
Então abraçados o homem e a mulher sem uma palavra suplicaram
E a árvore a que se apoiavam transidos abriu-se por uma qualquer razão que não veio a saber-se nunca e recebeu-os dentro de si juntando a seiva e o sangue
Todas as aflições se acabaram naquele instante e a chuva escorria pelas folhas e pelos troncos como alimento até ao chão que as raízes lentamente trabalhavam
Assim a noite passou sobre esta paz que não conhecia pesadelos
Mas quando o sol nasceu ouviu-se do lugar onde a tribo ficara um enorme tumulto um estridor de gritos e asas e uivos de metal
E a mulher e o homem abraçados dentro da árvore souberam que os seus irmãos uma vez mais sofriam o assalto dos ocupantes e das feras
No ano de 2093 ainda se contará que cem anos antes foi vista uma árvore sair da floresta andando sobre as raízes e fazer dos seus ramos laços e lanças e dardos das folhas agudas
E também se dirá que depois para onde fosse a tribo ia a árvore caminhando sobre as raízes
E que debaixo dela se abrigavam à noite ou quando o sol queimava os outros homens e as outras mulheres que nos primeiros dias ainda recordaram os companheiros para sempre desaparecidos naquela noite em que a morte quase fora o destino certo da tribo
E tudo isto se dirá nos mais felizes tempos de 2093
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Não admira que fosse preciso reaprender a linguagem simplificada da fome e do frio
E também as palavras da manhã e da noite e aquelas que determinam no céu o caminho das estrelas ou apenas o perfil da montanha
Porque se sabiam as sensações e não as palavras que as tornavam úteis no comércio ou simplesmente suportáveis
Se durante o descanso nocturno uma mulher puxava para si um homem e ambos por minutos calados cuidavam do seu próprio prazer sem mais
Nenhum dos dois ou dos outros homens e mulheres que distraidamente olhavam
Diria amor ou desejo ou vontade de suicídio ou somente acto mecânico sobrante do espelho multiplicado do lento erguer dos membros viris para as vulvas húmidas
E se alguma coisa fizessem precisamente seria erguer e humedecer sem que a vontade o decidisse mas o instinto o gosto de imitar mesmo sabendo de antemão como tudo se acabaria
Só por isso às vezes a caverna se enchia de gemidos e os vultos se sacudiam no chão deitados enquanto as crianças olhavam já atentas e imitavam os gestos cada vez mais pobres
Ninguém o saberia dizer mas o tempo era de tristeza a pior por ser a aresta agudíssima e cruel que junta as faces da vida e da morte que em algum lugar haviam de encontrar-se
Talvez porém o diferente olhar que trocaram agora mesmo um homem e uma mulher no caminho estreito
E tendo-se olhado e visto prosseguiram enquanto o sangue rolava nos apertados túneis das artérias
Como quem tranquilamente sabe que outra vez virão a encontrar-se para enfim
Talvez este silêncio seja o esforço abrindo os foles do pulmão prosaicamente abrindo ó sem poesia abrindo
Para começar o outra vez doloroso nascimento duma primeira palavra
E também as palavras da manhã e da noite e aquelas que determinam no céu o caminho das estrelas ou apenas o perfil da montanha
Porque se sabiam as sensações e não as palavras que as tornavam úteis no comércio ou simplesmente suportáveis
Se durante o descanso nocturno uma mulher puxava para si um homem e ambos por minutos calados cuidavam do seu próprio prazer sem mais
Nenhum dos dois ou dos outros homens e mulheres que distraidamente olhavam
Diria amor ou desejo ou vontade de suicídio ou somente acto mecânico sobrante do espelho multiplicado do lento erguer dos membros viris para as vulvas húmidas
E se alguma coisa fizessem precisamente seria erguer e humedecer sem que a vontade o decidisse mas o instinto o gosto de imitar mesmo sabendo de antemão como tudo se acabaria
Só por isso às vezes a caverna se enchia de gemidos e os vultos se sacudiam no chão deitados enquanto as crianças olhavam já atentas e imitavam os gestos cada vez mais pobres
Ninguém o saberia dizer mas o tempo era de tristeza a pior por ser a aresta agudíssima e cruel que junta as faces da vida e da morte que em algum lugar haviam de encontrar-se
Talvez porém o diferente olhar que trocaram agora mesmo um homem e uma mulher no caminho estreito
E tendo-se olhado e visto prosseguiram enquanto o sangue rolava nos apertados túneis das artérias
Como quem tranquilamente sabe que outra vez virão a encontrar-se para enfim
Talvez este silêncio seja o esforço abrindo os foles do pulmão prosaicamente abrindo ó sem poesia abrindo
Para começar o outra vez doloroso nascimento duma primeira palavra
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E porque os antigos deuses haviam morrido por inúteis os homens descobriram outros que sempre tinham existido encobertos pela sua não necessidade
O primeiro de todos foi a montanha porque era ela que no seu mais alto pico sustentava o peso do céu
Aquele mesmo céu que os velhos deuses em tempos idos habitaram e donde de pais para filhos desprezaram os homens porque desprezo fora impor-lhes salvações contra a sua própria humanidade
O segundo deus foi o sol porque ensinara a redescobrir a roda embora houvesse tribos que veneravam a lua pela mesma razão
Essas porém em noites de quarto minguante ou crescente traziam os olhos baixos
Provando assim que sempre cada tribo tem o deus que prefere e não outros
Mas a nova mitologia a isto se resumiu porque um dia houve um homem que subiu ao pico da montanha e por essa maneira se viu que sozinho levantara o céu
E outro pegou nas rodas que haviam sido o sol e a lua e lançou-as para longe onde não brilharam
Definitivamente deus só ficou o rio porque os homens vão mergulhar nele as mãos e o rosto e têm estrelas nos olhos quando se levantam
Enquanto as águas por sua vez transportam ao céu e ao sol se o há a turvidão salgada das lágrimas e do suor
E as plantas verdes que dentro de água vivem estremecem sob o vento que traz aquele cheiro de homem a que a terra ainda não se habituou
O primeiro de todos foi a montanha porque era ela que no seu mais alto pico sustentava o peso do céu
Aquele mesmo céu que os velhos deuses em tempos idos habitaram e donde de pais para filhos desprezaram os homens porque desprezo fora impor-lhes salvações contra a sua própria humanidade
O segundo deus foi o sol porque ensinara a redescobrir a roda embora houvesse tribos que veneravam a lua pela mesma razão
Essas porém em noites de quarto minguante ou crescente traziam os olhos baixos
Provando assim que sempre cada tribo tem o deus que prefere e não outros
Mas a nova mitologia a isto se resumiu porque um dia houve um homem que subiu ao pico da montanha e por essa maneira se viu que sozinho levantara o céu
E outro pegou nas rodas que haviam sido o sol e a lua e lançou-as para longe onde não brilharam
Definitivamente deus só ficou o rio porque os homens vão mergulhar nele as mãos e o rosto e têm estrelas nos olhos quando se levantam
Enquanto as águas por sua vez transportam ao céu e ao sol se o há a turvidão salgada das lágrimas e do suor
E as plantas verdes que dentro de água vivem estremecem sob o vento que traz aquele cheiro de homem a que a terra ainda não se habituou
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Os ordenadores utilizados pelo ocupante são alimentados a carne humana porque a electrónica não pode bastar a tudo
E também porque desse modo se introduz um rito sacrificial que com o tempo dará talvez uma religião útil ao ocupante por voluntária aceitação das vítimas
É porém sabido que nenhuma parcela de cérebro humano convirá que entre na câmara de alimentação dos ordenadores
Caso contrário ocorreriam perturbações no complicado sistema de destruição dos homens fora e dentro das cidades que procede tanto por meios imediatos e grosseiros como por outros subtis e mais para diante
A fim de prevenir esta perigosa eventualidade os melhores anatomistas do ocupante foram promovidos a inspectores da fiscalização alimentar dos ordenadores
Com a obrigação de examinarem minuciosamente a carne humana atirada três vezes ao dia para dentro da câmara esterilizada forrada de dentes de aço
Graças a estes cuidados a administração geral tem funcionado com regularidade e os resultados obtidos correspondem aos previstos com a aproximação de duas décimas milésimas
A carne humana ainda é tempo de o dizer é o melhor que existe para alimentar o domínio de quaisquer ocupantes se exceptuarmos o cérebro
Porém hoje sem que o inspector de serviço se apercebesse uma certa mão cortada metida na câmara apertava no oco dos dedos uma pasta acinzentada contendo algumas centenas de milhões de neurónios
E se é verdade que até agora não chegaram notícias extraordinárias de fora da cidade
Pela primeira vez dentro dela um soldado ocupante se enforcou deixando uma carta que não chegou a ser lida pelo seu comandante porque o soldado que a levava foi apanhado e morto na primeira emboscada
Entretanto o ordenador modifica dentro de si todos os programas substitui todas as memórias e prepara secretamente a ofensiva
Neste preciso momento o responsável pela segurança anota a hora da ronda e escreve no registo nada a assinalar
E também porque desse modo se introduz um rito sacrificial que com o tempo dará talvez uma religião útil ao ocupante por voluntária aceitação das vítimas
É porém sabido que nenhuma parcela de cérebro humano convirá que entre na câmara de alimentação dos ordenadores
Caso contrário ocorreriam perturbações no complicado sistema de destruição dos homens fora e dentro das cidades que procede tanto por meios imediatos e grosseiros como por outros subtis e mais para diante
A fim de prevenir esta perigosa eventualidade os melhores anatomistas do ocupante foram promovidos a inspectores da fiscalização alimentar dos ordenadores
Com a obrigação de examinarem minuciosamente a carne humana atirada três vezes ao dia para dentro da câmara esterilizada forrada de dentes de aço
Graças a estes cuidados a administração geral tem funcionado com regularidade e os resultados obtidos correspondem aos previstos com a aproximação de duas décimas milésimas
A carne humana ainda é tempo de o dizer é o melhor que existe para alimentar o domínio de quaisquer ocupantes se exceptuarmos o cérebro
Porém hoje sem que o inspector de serviço se apercebesse uma certa mão cortada metida na câmara apertava no oco dos dedos uma pasta acinzentada contendo algumas centenas de milhões de neurónios
E se é verdade que até agora não chegaram notícias extraordinárias de fora da cidade
Pela primeira vez dentro dela um soldado ocupante se enforcou deixando uma carta que não chegou a ser lida pelo seu comandante porque o soldado que a levava foi apanhado e morto na primeira emboscada
Entretanto o ordenador modifica dentro de si todos os programas substitui todas as memórias e prepara secretamente a ofensiva
Neste preciso momento o responsável pela segurança anota a hora da ronda e escreve no registo nada a assinalar
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Nenhumas armas a não ser os toscos paus arrancados dificilmente aos ramos mais baixos das árvores e as pedras roladas colhidas nos leitos das ribeiras
Nenhuma protecção a não ser a da noite ou a sombra dos desfiladeiros por onde a tribo se insinuava como uma longa cobra rastejando
Ali não tinham os lobos mecânicos espaço para atacar e foi possível ver entre duas altas e sonoras muralhas de rocha lutar um milhafre verdadeiro contra uma águia mecânica e vencê-la
Porque a águia fora programada apenas para atacar os homens como o haviam sido os elefantes que bramiam de fúria na garganta dos desfiladeiros apertados onde não podiam entrar
E isto foi enquanto ainda o ordenador se manteve em ligação com os animais mecânicos
Tornados inúteis logo que a comunicação cessou destruídos na queda os que voavam paralisados no movimento os que no chão se deslocavam e caídos para o lado
Sete noites durou a marcha pelos labirintos da montanha sete dias dormiu a tribo e outras que se haviam juntado em grutas onde às vezes descobriam pinturas de homens lutando contra animais ou outros homens
Ao amanhecer do oitavo dia surgiram em campo raso e viram um leão imóvel de pé sobre as quatro patas
Batendo as asas secas dois corvos verdadeiros arrancavam-lhe tiras de pele morta pondo à vista o mecanismo do ventre e dos membros e um nó de fios escuros como um coração apodrecido
Então as tribos recolheram-se outra vez ao desfiladeiro à espera da noite e nas paredes duma gruta alguns homens reproduziram o leão e os corvos voando e ao fundo uma cidade armada
Feito o que desenharam o retrato de si próprios segurando uns toscos paus e na transparência do peito limitado por dois riscos laterais marcaram o lugar que deve ocupar um coração vivo
Nenhuma protecção a não ser a da noite ou a sombra dos desfiladeiros por onde a tribo se insinuava como uma longa cobra rastejando
Ali não tinham os lobos mecânicos espaço para atacar e foi possível ver entre duas altas e sonoras muralhas de rocha lutar um milhafre verdadeiro contra uma águia mecânica e vencê-la
Porque a águia fora programada apenas para atacar os homens como o haviam sido os elefantes que bramiam de fúria na garganta dos desfiladeiros apertados onde não podiam entrar
E isto foi enquanto ainda o ordenador se manteve em ligação com os animais mecânicos
Tornados inúteis logo que a comunicação cessou destruídos na queda os que voavam paralisados no movimento os que no chão se deslocavam e caídos para o lado
Sete noites durou a marcha pelos labirintos da montanha sete dias dormiu a tribo e outras que se haviam juntado em grutas onde às vezes descobriam pinturas de homens lutando contra animais ou outros homens
Ao amanhecer do oitavo dia surgiram em campo raso e viram um leão imóvel de pé sobre as quatro patas
Batendo as asas secas dois corvos verdadeiros arrancavam-lhe tiras de pele morta pondo à vista o mecanismo do ventre e dos membros e um nó de fios escuros como um coração apodrecido
Então as tribos recolheram-se outra vez ao desfiladeiro à espera da noite e nas paredes duma gruta alguns homens reproduziram o leão e os corvos voando e ao fundo uma cidade armada
Feito o que desenharam o retrato de si próprios segurando uns toscos paus e na transparência do peito limitado por dois riscos laterais marcaram o lugar que deve ocupar um coração vivo
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Embora houvesse já muito tempo que não nasciam crianças não se perdera por completo a lembrança de um mundo fértil
E acontecera mesmo que algumas tribos mais sedentárias redescobriram certas práticas mágicas que vinham de tempos antiquíssimos
Por isso nos campos cultivados faziam correr as mulheres menstruadas pra que o sangue escorrendo ao longo das pernas embebesse o chão com sangue de vida e não de morte
Nuas corriam deixando um rasto que os homens cobriam cuidadosamente de terra para que nem uma gota secasse sob o calor agora nocivo do sol
E um dia vinda de longe uma mulher grávida quase no fim do tempo chegou e pediu que a deixassem ficar ali até parir
Porém preciosa era aquela criança que estava para nascer e a sua mãe foi dada a melhor cabana e duas mulheres de mais experiência ficaram com ela para a assistirem no parto
Mas antes que a criança nascesse um homem escolhido da tribo uniu-se carnalmente à mulher grávida
E desta maneira tudo começou naquele lugar e não noutro com aquela gente e não outra apenas com o presente e o futuro não o passado
Alguns dias mais tarde nasceu uma criança e houve as melancólicas festas de então e todas as mulheres se declararam grávidas
Mas a mãe da criança desapareceu nessa mesma noite enquanto longe dali as tribos que haviam atravessado a montanha começavam a mover-se na planície em direcção à cidade armada
E acontecera mesmo que algumas tribos mais sedentárias redescobriram certas práticas mágicas que vinham de tempos antiquíssimos
Por isso nos campos cultivados faziam correr as mulheres menstruadas pra que o sangue escorrendo ao longo das pernas embebesse o chão com sangue de vida e não de morte
Nuas corriam deixando um rasto que os homens cobriam cuidadosamente de terra para que nem uma gota secasse sob o calor agora nocivo do sol
E um dia vinda de longe uma mulher grávida quase no fim do tempo chegou e pediu que a deixassem ficar ali até parir
Porém preciosa era aquela criança que estava para nascer e a sua mãe foi dada a melhor cabana e duas mulheres de mais experiência ficaram com ela para a assistirem no parto
Mas antes que a criança nascesse um homem escolhido da tribo uniu-se carnalmente à mulher grávida
E desta maneira tudo começou naquele lugar e não noutro com aquela gente e não outra apenas com o presente e o futuro não o passado
Alguns dias mais tarde nasceu uma criança e houve as melancólicas festas de então e todas as mulheres se declararam grávidas
Mas a mãe da criança desapareceu nessa mesma noite enquanto longe dali as tribos que haviam atravessado a montanha começavam a mover-se na planície em direcção à cidade armada
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Entre o sopé da montanha e a primeira porta da cidade ficaram mortos muitos homens e mulheres
Pois é essa a condição das vitórias custar cada uma trinta derrotas e mesmo para uma simples vida duas são necessárias que depressa se extinguem
Ficaram mortos e não é possível deixar ditos os seus nomes porque eles próprios os haviam esquecido
Agora começavam apenas a retomar os da sua humanidade o nome de homem o nome de mulher sem mais saberem de si que a mão que vai adiante a reconhecer o que viram os olhos
Derrubados sobre a terra com a boca aberta como se dissessem a pena de morrerem ou murmurando alguma coisa da memória recobrada por inteiro no momento de por inteiro se perder
Caídos redondos mortos como nunca tão firmes assentando os ombros na dureza da terra e olhando um céu afinal negro
Não poucas foram as mulheres que continuaram avançando depois de sentirem a dor no coração pelo súbito vazio criado onde antes um corpo de homem se movia duro
E não foram os homens poucos que avançaram trémulos do último resvalar não já suave mas irremediável do corpo da mulher que tanto importava como a cidade
Quando a primeira porta foi alcançada amontoaram-se os corpos uns sobre os outros e os vivos passaram sobre uma ponte de mortos que eram a escora e o arco e a macia e dolorosa calçada
Assim entraram na cidade e ao amanhecer contaram-se e tendo-se achado de menos recolheram os seus mortos
A fim de recuperarem ao menos pelo breve tempo da lamentação a unidade primeira
Pois é essa a condição das vitórias custar cada uma trinta derrotas e mesmo para uma simples vida duas são necessárias que depressa se extinguem
Ficaram mortos e não é possível deixar ditos os seus nomes porque eles próprios os haviam esquecido
Agora começavam apenas a retomar os da sua humanidade o nome de homem o nome de mulher sem mais saberem de si que a mão que vai adiante a reconhecer o que viram os olhos
Derrubados sobre a terra com a boca aberta como se dissessem a pena de morrerem ou murmurando alguma coisa da memória recobrada por inteiro no momento de por inteiro se perder
Caídos redondos mortos como nunca tão firmes assentando os ombros na dureza da terra e olhando um céu afinal negro
Não poucas foram as mulheres que continuaram avançando depois de sentirem a dor no coração pelo súbito vazio criado onde antes um corpo de homem se movia duro
E não foram os homens poucos que avançaram trémulos do último resvalar não já suave mas irremediável do corpo da mulher que tanto importava como a cidade
Quando a primeira porta foi alcançada amontoaram-se os corpos uns sobre os outros e os vivos passaram sobre uma ponte de mortos que eram a escora e o arco e a macia e dolorosa calçada
Assim entraram na cidade e ao amanhecer contaram-se e tendo-se achado de menos recolheram os seus mortos
A fim de recuperarem ao menos pelo breve tempo da lamentação a unidade primeira
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Lavaram as feridas na água do mar e agora estão sentados na areia enquanto as sentinelas vigiam no alto das dunas
E este o preço da paz quando o amanhecer vem perto e o medo de morrer é esse mais humano de não viver bastante
A penumbra que ainda esconde as águas cheira a algas pisadas e a guelras e tem o poder inesperado de fazer inchar os músculos pobres
Se afastássemos o quase inaudível bater da onda poderíamos dizer que o silêncio fecha todo o horizonte e logo é absoluto quando o primeiro arco do sol começa a erguer-se
O mundo durante o minuto seguinte vai ficar rubro cereja e os homens e as mulheres parecem flutuar no interior de um forno e são imortais
Distante julgaríamos o ano de 1993 e contudo é tempo dele ainda
Mas soltas esparsas esperanças sobrevivem aos mortos intermináveis e ao sangue tanto que este sol encontra na praia uma tribo que repousa entre duas batalhas
E não já como tantas vezes antes um rebanho de carneiros fugitivos com chagas de vergonha no lugar dos cornos arrancados
Ó eloquentemente diríamos ó se não fosse preferível que percorrêssemos nós esta praia manchada de sangue dizendo algumas e discretas palavras em voz baixa meus amigos
Tanto mais que do lado do mar se aproxima voando o primeiro bando de gaivotas que desde há muito muito tempo é visto nesta terra ocupada
Sinal de que talvez nos reconheça enfim a vida e de que nem tudo se perdeu nas abjecções que consentimos algumas vezes cúmplices
Estão agora sobre nós as gaivotas pairando e deixam pender um pouco a cabeça para melhor nos fitarem e decidirem quem somos
Entretanto o sol saiu inteiro da madrugada enquanto mal feridos nos erguemos e as sentinelas gritam a reunir porque o inimigo vem perto
E este o preço da paz quando o amanhecer vem perto e o medo de morrer é esse mais humano de não viver bastante
A penumbra que ainda esconde as águas cheira a algas pisadas e a guelras e tem o poder inesperado de fazer inchar os músculos pobres
Se afastássemos o quase inaudível bater da onda poderíamos dizer que o silêncio fecha todo o horizonte e logo é absoluto quando o primeiro arco do sol começa a erguer-se
O mundo durante o minuto seguinte vai ficar rubro cereja e os homens e as mulheres parecem flutuar no interior de um forno e são imortais
Distante julgaríamos o ano de 1993 e contudo é tempo dele ainda
Mas soltas esparsas esperanças sobrevivem aos mortos intermináveis e ao sangue tanto que este sol encontra na praia uma tribo que repousa entre duas batalhas
E não já como tantas vezes antes um rebanho de carneiros fugitivos com chagas de vergonha no lugar dos cornos arrancados
Ó eloquentemente diríamos ó se não fosse preferível que percorrêssemos nós esta praia manchada de sangue dizendo algumas e discretas palavras em voz baixa meus amigos
Tanto mais que do lado do mar se aproxima voando o primeiro bando de gaivotas que desde há muito muito tempo é visto nesta terra ocupada
Sinal de que talvez nos reconheça enfim a vida e de que nem tudo se perdeu nas abjecções que consentimos algumas vezes cúmplices
Estão agora sobre nós as gaivotas pairando e deixam pender um pouco a cabeça para melhor nos fitarem e decidirem quem somos
Entretanto o sol saiu inteiro da madrugada enquanto mal feridos nos erguemos e as sentinelas gritam a reunir porque o inimigo vem perto
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Uma após a outra as cidades foram reconquistadas e de todos os lugares afluíam as hordas que outro nome começavam a merecer
Vinham uns pelas planícies como vagarosos formigueiros outros subindo e descendo pelas lombas das colinas outros cortando caminho a meia encosta das montanhas
E todos vadeando os rios ou neles navegando nos barcos que restavam ou em jangadas que derivavam nas correntes rápidas
E quando chegavam à vista das cidades vinham os de dentro a recebê-los levando flores e pão porque de ambos tinham fome os que haviam vivido nas terras devastadas
E diziam os sofrimentos mútuos e riam chorando e mostravam as feridas dos combates e depois iam aos julgamentos dos invasores que todos seriam condenados à morte sem excepção
Porque eram os senhores da morte os empresários da tortura e por isso tinham de ser retribuídos na única moeda que conheciam
Porém muitas batalhas farão ainda mortos entre os que riem agora e choram não a morte para eles próxima mas a alegria de estar vivo
Ó este povo que corre nas ruas e estas bandeiras e estes gritos e estes punhos fechados enquanto as cobras os ratos e as aranhas da contagem se somem no chão
Ó estes olhos luminosos que apagam um a um os frios olhos de mercúrio que flutuavam sobre as cabeças da gente da cidade
E agora é necessário ir ao deserto destruir a pirâmide que os faraós fizeram construir sobre o dorso dos escravos e com o suor dos escravos
E arrancar pedra a pedra porque faltam os explosivos mas sobretudo porque este trabalho deve ser feito com as nuas mãos de cada um
Para que verdadeiramente seja um trabalho nosso e comecem a ser possíveis todas as coisas que ninguém prometeu aos homens mas que não poderão existir sem eles
Vinham uns pelas planícies como vagarosos formigueiros outros subindo e descendo pelas lombas das colinas outros cortando caminho a meia encosta das montanhas
E todos vadeando os rios ou neles navegando nos barcos que restavam ou em jangadas que derivavam nas correntes rápidas
E quando chegavam à vista das cidades vinham os de dentro a recebê-los levando flores e pão porque de ambos tinham fome os que haviam vivido nas terras devastadas
E diziam os sofrimentos mútuos e riam chorando e mostravam as feridas dos combates e depois iam aos julgamentos dos invasores que todos seriam condenados à morte sem excepção
Porque eram os senhores da morte os empresários da tortura e por isso tinham de ser retribuídos na única moeda que conheciam
Porém muitas batalhas farão ainda mortos entre os que riem agora e choram não a morte para eles próxima mas a alegria de estar vivo
Ó este povo que corre nas ruas e estas bandeiras e estes gritos e estes punhos fechados enquanto as cobras os ratos e as aranhas da contagem se somem no chão
Ó estes olhos luminosos que apagam um a um os frios olhos de mercúrio que flutuavam sobre as cabeças da gente da cidade
E agora é necessário ir ao deserto destruir a pirâmide que os faraós fizeram construir sobre o dorso dos escravos e com o suor dos escravos
E arrancar pedra a pedra porque faltam os explosivos mas sobretudo porque este trabalho deve ser feito com as nuas mãos de cada um
Para que verdadeiramente seja um trabalho nosso e comecem a ser possíveis todas as coisas que ninguém prometeu aos homens mas que não poderão existir sem eles
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Levantou-se então um grande vento que varreu de estrema a estrema entre o mar e a fronteira a terra dos homens
Durante três dias soprou constante arrastando as nuvens dos incêndios e o cheiro da carne morta dos invasores
Durante três dias as árvores foram sacudidas mas nenhuma arrancada porque este vento era igual a uma mão apenas firme
As carcaças dos animais mecânicos rolavam pelas planícies como arbustos desenraizados e tudo era arrastado para longe para os países onde os pesadelos nascem e o terror
Depois choveu e a terra ficou subitamente verde com um enorme arco-íris que não se desvaneceu nem quando o sol se pôs
Nessa primeira noite ninguém dormiu e toda a gente saiu das cidades para ver melhor as sete cores contra o fundo negríssimo do céu
E houve quem chorasse de joelhos na terra branda nas ervas que rescendiam do vertiginoso cheiro do húmus
E houve quem ininterruptamente cantasse uma extática melodia não ouvida antes que era o longo suspiro soluço da vida que nascendo se sufoca plena na garganta
E pelos campos fora arderam fogueiras altas que fizeram da terra vista do espaço um outro céu estrelado
E um homem e uma mulher caminharam entre a noite e as ervas naturais e foram deitar-se no lugar precioso onde nascia o arco-íris
Ali se despiram e nus debaixo das sete cores foram toda a noite um novelo de vida murmurante sobre a erva calcada e cheirosa das seivas derramadas
Enquanto longe no mar o outro ramo do arco-íris mergulhava até ao fundo das águas e os peixes deslumbrados giravam em redor da luminosa coluna
O dia amanheceu numa terra livre por onde corriam soltos e claros os rios e onde as montanhas azuis mal repousavam sobre as planícies
A mulher e o homem voltaram à cidade deixando pelo chão um rasto de sete cores lentamente diluídas até se fundirem no verde absoluto dos prados
Aqui os animais verdadeiros pastavam erguendo os focinhos húmidos de orvalho e as árvores carregavam-se de frutos pesados e ácidos enquanto no interior delas se preparavam as doces combinações químicas do outono
Entretanto o arco-íris tem voltado todas as noites e isso é um bom sinal
Durante três dias soprou constante arrastando as nuvens dos incêndios e o cheiro da carne morta dos invasores
Durante três dias as árvores foram sacudidas mas nenhuma arrancada porque este vento era igual a uma mão apenas firme
As carcaças dos animais mecânicos rolavam pelas planícies como arbustos desenraizados e tudo era arrastado para longe para os países onde os pesadelos nascem e o terror
Depois choveu e a terra ficou subitamente verde com um enorme arco-íris que não se desvaneceu nem quando o sol se pôs
Nessa primeira noite ninguém dormiu e toda a gente saiu das cidades para ver melhor as sete cores contra o fundo negríssimo do céu
E houve quem chorasse de joelhos na terra branda nas ervas que rescendiam do vertiginoso cheiro do húmus
E houve quem ininterruptamente cantasse uma extática melodia não ouvida antes que era o longo suspiro soluço da vida que nascendo se sufoca plena na garganta
E pelos campos fora arderam fogueiras altas que fizeram da terra vista do espaço um outro céu estrelado
E um homem e uma mulher caminharam entre a noite e as ervas naturais e foram deitar-se no lugar precioso onde nascia o arco-íris
Ali se despiram e nus debaixo das sete cores foram toda a noite um novelo de vida murmurante sobre a erva calcada e cheirosa das seivas derramadas
Enquanto longe no mar o outro ramo do arco-íris mergulhava até ao fundo das águas e os peixes deslumbrados giravam em redor da luminosa coluna
O dia amanheceu numa terra livre por onde corriam soltos e claros os rios e onde as montanhas azuis mal repousavam sobre as planícies
A mulher e o homem voltaram à cidade deixando pelo chão um rasto de sete cores lentamente diluídas até se fundirem no verde absoluto dos prados
Aqui os animais verdadeiros pastavam erguendo os focinhos húmidos de orvalho e as árvores carregavam-se de frutos pesados e ácidos enquanto no interior delas se preparavam as doces combinações químicas do outono
Entretanto o arco-íris tem voltado todas as noites e isso é um bom sinal
3
O elevador deixou de funcionar não se sabe quando mas a escada ainda serve
O que está para cima não importa do rés-do-chão ao vigésimo andar é senhorio do vento e das poucas aves que sobreviveram
Embora se afirme que em um dos milhares de compartimentos do edifício uma mulher ainda não parou o mais longo gemido da história do mundo
E também se diz que em outro dos compartimentos um homem aguarda que lhe cresçam as unhas o suficiente
Para espetando-as nos olhos chegar com elas ao côncavo do outro lado do crânio até porventura fazer calar o gemido invisível e abrir novos olhos para um mundo atrás deste
Mas o caminho por enquanto é para baixo menos um menos dois menos três ditos caves ou subterrâneos ou casas-fortes
Entre o primeiro e o segundo o elevador mostra o que resta do contínuo e do director principal
Ainda que não seja possível distinguir um do outro nem perguntando
Por acaso ficaram todas as portas abertas ou tiveram forças para se abrirem no último momento que lhes restara para isso
Razão por que podemos perceber sem necessidade de melhor lição a diferença entre riqueza mobiliária e riqueza imobiliária
Pelos corredores e salas reforçadas consoante as correntes de ar as notas voam com aquele rumor que fazem as folhas secas quando roçam umas nas outras
Enquanto os lingotes de ouro brilham sob uma luz que misteriosamente não se apagou
Como uma espécie de podridão fosforescente e venenosa
O que está para cima não importa do rés-do-chão ao vigésimo andar é senhorio do vento e das poucas aves que sobreviveram
Embora se afirme que em um dos milhares de compartimentos do edifício uma mulher ainda não parou o mais longo gemido da história do mundo
E também se diz que em outro dos compartimentos um homem aguarda que lhe cresçam as unhas o suficiente
Para espetando-as nos olhos chegar com elas ao côncavo do outro lado do crânio até porventura fazer calar o gemido invisível e abrir novos olhos para um mundo atrás deste
Mas o caminho por enquanto é para baixo menos um menos dois menos três ditos caves ou subterrâneos ou casas-fortes
Entre o primeiro e o segundo o elevador mostra o que resta do contínuo e do director principal
Ainda que não seja possível distinguir um do outro nem perguntando
Por acaso ficaram todas as portas abertas ou tiveram forças para se abrirem no último momento que lhes restara para isso
Razão por que podemos perceber sem necessidade de melhor lição a diferença entre riqueza mobiliária e riqueza imobiliária
Pelos corredores e salas reforçadas consoante as correntes de ar as notas voam com aquele rumor que fazem as folhas secas quando roçam umas nas outras
Enquanto os lingotes de ouro brilham sob uma luz que misteriosamente não se apagou
Como uma espécie de podridão fosforescente e venenosa
30
Uma vez mais os lugares conhecidos os lugares de solidão e de morte os centímetros quadrados de tortura as cores do sangue até à sua final cor de terra
Uma vez mais o infinito combate as batalhas aquelas que se ganharam e essas outras humildes perdidas e de que não se quer falar
Uma vez mais os suspiros sobretudo os últimos e os primeiros e os que estão entre uns e outros uma vez mais o braço sobre o ombro e o corpo sobre o corpo
Uma vez mais tudo o que uma vez foi ou muitas as pegadas de hoje na marca dos pés antigos uma vez mais a mão no gesto começado e interrompido e assim sucessivamente
Uma vez mais a ida e o regresso e agora a esperada fadiga entre duas altas montanhas num chão de pedra onde a sombra de repente fica enquanto o corpo se dissolve no ar
Assim olhar apartado a própria sombra com olhos invisíveis e sorrir disso enquanto as pessoas perplexas procuram onde nada está
E uma criança objectiva se aproxima e estende as mãos para a sombra que fragilmente retém o contorno ainda mas não já o cheiro do corpo sumido
Uma vez mais enfim o mundo o mundo algumas coisas feitas contadas tantas não e sabê-lo
Uma vez mais o impossível ficar ou a simples memória de ter sido
Consoante se conclui de nada haver debaixo da sombra que a criança levanta como uma pele esfolada
Uma vez mais o infinito combate as batalhas aquelas que se ganharam e essas outras humildes perdidas e de que não se quer falar
Uma vez mais os suspiros sobretudo os últimos e os primeiros e os que estão entre uns e outros uma vez mais o braço sobre o ombro e o corpo sobre o corpo
Uma vez mais tudo o que uma vez foi ou muitas as pegadas de hoje na marca dos pés antigos uma vez mais a mão no gesto começado e interrompido e assim sucessivamente
Uma vez mais a ida e o regresso e agora a esperada fadiga entre duas altas montanhas num chão de pedra onde a sombra de repente fica enquanto o corpo se dissolve no ar
Assim olhar apartado a própria sombra com olhos invisíveis e sorrir disso enquanto as pessoas perplexas procuram onde nada está
E uma criança objectiva se aproxima e estende as mãos para a sombra que fragilmente retém o contorno ainda mas não já o cheiro do corpo sumido
Uma vez mais enfim o mundo o mundo algumas coisas feitas contadas tantas não e sabê-lo
Uma vez mais o impossível ficar ou a simples memória de ter sido
Consoante se conclui de nada haver debaixo da sombra que a criança levanta como uma pele esfolada
4
O interrogatório do homem que saiu de casa depois da hora de recolher começou há quinze dias e ainda não acabou
Os inquiridores fazem uma pergunta em cada sessenta minutos vinte e quatro por dia e exigem cinquenta e nove respostas diferentes para cada uma
É um método novo
Acreditam que é impossível não estar a resposta verdadeira entre as cinquenta e nove que foram dadas
E contam com a perspicácia do ordenador para descobrir qual delas seja e a sua ligação com as outras
Há quinze dias que o homem não dorme nem dormirá enquanto o ordenador não disser não preciso de mais ou o médico não preciso de tanto
Caso em que terá o seu definitivo sono
O homem que saiu de casa depois da hora de recolher não dirá por que saiu
E os inquiridores não sabem que a verdade está na sexagésima resposta
Entretanto a tortura continua até que o médico declare
Não vale a pena
Os inquiridores fazem uma pergunta em cada sessenta minutos vinte e quatro por dia e exigem cinquenta e nove respostas diferentes para cada uma
É um método novo
Acreditam que é impossível não estar a resposta verdadeira entre as cinquenta e nove que foram dadas
E contam com a perspicácia do ordenador para descobrir qual delas seja e a sua ligação com as outras
Há quinze dias que o homem não dorme nem dormirá enquanto o ordenador não disser não preciso de mais ou o médico não preciso de tanto
Caso em que terá o seu definitivo sono
O homem que saiu de casa depois da hora de recolher não dirá por que saiu
E os inquiridores não sabem que a verdade está na sexagésima resposta
Entretanto a tortura continua até que o médico declare
Não vale a pena
5
A cidade que os homens deixaram de habitar está agora sitiada por eles
Não deve passar em claro o exagero que há na palavra sitiada
Como exagero haveria na palavra cercada ou outra qualquer sinónima sem querer levantar a debatida questão da sinonimia perfeita
Os homens estão apenas em redor da cidade tão incapazes de entrarem nela como de se afastarem para longe definitivamente
São como borboletas da noite atraídas não pelas luzes da cidade que já se apagaram há muito
Mas pelo perfil desarticulado dos telhados e das empenas e também pela rede impalpável das antenas da televisão
De dia uma enorme ausência guarda as portas da cidade
E as ruas têm aquele excesso de silêncio que há no que foi habitado e agora não
Na cidade apenas vivem os lobos
Deste modo se tendo invertido a ordem natural das coisas estão os homens fora e os lobos dentro
Nada acontece antes da noite
Então saem os lobos a caçar os homens e sempre apanham algum
O qual entra enfim na cidade deixando por onde passa um regueiro de sangue
Ali onde em tempos mais felizes combinara com parentes e amigos almoços intrigas calúnias
E caçadas aos lobos
Não deve passar em claro o exagero que há na palavra sitiada
Como exagero haveria na palavra cercada ou outra qualquer sinónima sem querer levantar a debatida questão da sinonimia perfeita
Os homens estão apenas em redor da cidade tão incapazes de entrarem nela como de se afastarem para longe definitivamente
São como borboletas da noite atraídas não pelas luzes da cidade que já se apagaram há muito
Mas pelo perfil desarticulado dos telhados e das empenas e também pela rede impalpável das antenas da televisão
De dia uma enorme ausência guarda as portas da cidade
E as ruas têm aquele excesso de silêncio que há no que foi habitado e agora não
Na cidade apenas vivem os lobos
Deste modo se tendo invertido a ordem natural das coisas estão os homens fora e os lobos dentro
Nada acontece antes da noite
Então saem os lobos a caçar os homens e sempre apanham algum
O qual entra enfim na cidade deixando por onde passa um regueiro de sangue
Ali onde em tempos mais felizes combinara com parentes e amigos almoços intrigas calúnias
E caçadas aos lobos
6
Nenhum lugar é suficientemente belo na terra para que doutro lugar nos desloquemos a ele
Mas uma razão haverá para que a todas as horas do dia venham andando grupos de pessoas na direcção da rua das estátuas
Estão dispensados os roteiros e os mapas uma vez que todos os caminhos vêm dar a esta rua e não a Roma onde ainda hoje não faltam as estátuas mas nenhuma que a estas se compare
Não é difícil chegar basta olhar o chão e seguir sempre pelos caminhos mais pisados também reconhecíveis pelas duas alas de excrementos que os ladeiam
O sol resseca-os rapidamente e se a chuva os desfaz nunca tanto que restitua o chão a uma qualquer virgindade
O homem aprendeu enfim a orientar-se sem bússola chega-lhe passar por onde outro homem passou antes
As pessoas vão conversando numerosamente e de vez em quando uma separa-se do grupo e vai agachar-se ao lado
Enquanto os outros se afastam devagar atrasando o passo para que não fique para trás aquele que assinalará o caminho
Passado o último horizonte é que está a rua das estátuas
Nenhum excremento nas imediações
E eis que cinquenta estátuas de cada lado incrivelmente brancas mas a que os jogos das luzes e das sombras alternadas fazem mover os membros e as feições
Mostram a quem passa vindo de longe como poderiam ter sido os homens
Pois há motivos para pensar que nunca foram assim
Mas uma razão haverá para que a todas as horas do dia venham andando grupos de pessoas na direcção da rua das estátuas
Estão dispensados os roteiros e os mapas uma vez que todos os caminhos vêm dar a esta rua e não a Roma onde ainda hoje não faltam as estátuas mas nenhuma que a estas se compare
Não é difícil chegar basta olhar o chão e seguir sempre pelos caminhos mais pisados também reconhecíveis pelas duas alas de excrementos que os ladeiam
O sol resseca-os rapidamente e se a chuva os desfaz nunca tanto que restitua o chão a uma qualquer virgindade
O homem aprendeu enfim a orientar-se sem bússola chega-lhe passar por onde outro homem passou antes
As pessoas vão conversando numerosamente e de vez em quando uma separa-se do grupo e vai agachar-se ao lado
Enquanto os outros se afastam devagar atrasando o passo para que não fique para trás aquele que assinalará o caminho
Passado o último horizonte é que está a rua das estátuas
Nenhum excremento nas imediações
E eis que cinquenta estátuas de cada lado incrivelmente brancas mas a que os jogos das luzes e das sombras alternadas fazem mover os membros e as feições
Mostram a quem passa vindo de longe como poderiam ter sido os homens
Pois há motivos para pensar que nunca foram assim
7
O comandante das tropas de ocupação tem um feiticeiro no seu estado-maior
Mas o sentido da honra militar embora condescendente noutros casos sempre o impediu de utilizar esses poderes sobrenaturais para ganhar batalhas
O feiticeiro apenas intervém quando ao comandante das tropas de ocupação apraz usar o chicote
Nessas ocasiões saem ambos para os arredores da cidade e postos num ponto alto convoca o mágico os poderes ocultos e por eles reduz a cidade ao tamanho de um corpo humano
Então o comandante das tropas de ocupação faz estalar três vezes a ponta para habituar o braço e logo a seguir chicoteia a cidade até se cansar
O feiticeiro que entretanto assistira respeitosamente afastado apela para os poderes ocultos contrários e a cidade torna ao seu tamanho natural
Sempre que isto acontece os habitantes ao encontrarem-se nas ruas perguntam uns aos outros que sinais são aqueles de chicotadas na cara
Quando tão seguros estão de que ninguém os chicoteou nem tal consentiriam
Mas o sentido da honra militar embora condescendente noutros casos sempre o impediu de utilizar esses poderes sobrenaturais para ganhar batalhas
O feiticeiro apenas intervém quando ao comandante das tropas de ocupação apraz usar o chicote
Nessas ocasiões saem ambos para os arredores da cidade e postos num ponto alto convoca o mágico os poderes ocultos e por eles reduz a cidade ao tamanho de um corpo humano
Então o comandante das tropas de ocupação faz estalar três vezes a ponta para habituar o braço e logo a seguir chicoteia a cidade até se cansar
O feiticeiro que entretanto assistira respeitosamente afastado apela para os poderes ocultos contrários e a cidade torna ao seu tamanho natural
Sempre que isto acontece os habitantes ao encontrarem-se nas ruas perguntam uns aos outros que sinais são aqueles de chicotadas na cara
Quando tão seguros estão de que ninguém os chicoteou nem tal consentiriam
8
Está determinado que hoje se travará uma grande batalha e não obstante o número de mortos previsto assim se fará
Nunca a certeza dos mortos evitou uma guerra muito menos em 1993 quando os escrúpulos não são prisão e impedimento
Não os têm os perseguidores aos perseguidos aconselha-se que os não tenham
Mas só no fim da batalha o como vai saber-se porque a contagem dos mortos será contra o costume repartida pelos dois campos
Apenas porque o ódio entrou enfim no corpo das mulheres
Será visto que estando mortos os homens perseguidos os perseguidores hão-de de violá-las conforme mandam as imemoriais regras da guerra
Já tudo isto aconteceu infinitas vezes tantas que violação se não deve dizer pelo contrário entrega
Por isso a longa fileira das mulheres deitadas espera com indiferença que é simulada a penetração dos perseguidores
Elas mesmas levantaram as roupas e oferecem à luz do sol e aos olhos as vulvas húmidas
Silenciosamente suportam o assalto e abrem os braços enquanto a raiva corre pelo sangue para o centro do corpo
Há um derradeiro momento em que o perseguidor ainda poderia retirar-se
Mas logo é tarde e no exacto instante em que o espasmo militarmente iria deflagrar
Com um estalo seco e definitivo os dentes que o ódio fizera nascer nas vulvas frenéticas
Cortam cerce os pénis do exército perseguidor que as vaginas cospem para fora com o mesmo desprezo com que os homens perseguidos haviam sido degolados
Uma só mulher porém enquanto as outras celebram a justa vitória retira suavemente o membro amputado que ainda tivera tempo de ejacular
E levantada comprime o sexo com as mãos e afasta-se pela planície na direcção das montanhas
Nunca a certeza dos mortos evitou uma guerra muito menos em 1993 quando os escrúpulos não são prisão e impedimento
Não os têm os perseguidores aos perseguidos aconselha-se que os não tenham
Mas só no fim da batalha o como vai saber-se porque a contagem dos mortos será contra o costume repartida pelos dois campos
Apenas porque o ódio entrou enfim no corpo das mulheres
Será visto que estando mortos os homens perseguidos os perseguidores hão-de de violá-las conforme mandam as imemoriais regras da guerra
Já tudo isto aconteceu infinitas vezes tantas que violação se não deve dizer pelo contrário entrega
Por isso a longa fileira das mulheres deitadas espera com indiferença que é simulada a penetração dos perseguidores
Elas mesmas levantaram as roupas e oferecem à luz do sol e aos olhos as vulvas húmidas
Silenciosamente suportam o assalto e abrem os braços enquanto a raiva corre pelo sangue para o centro do corpo
Há um derradeiro momento em que o perseguidor ainda poderia retirar-se
Mas logo é tarde e no exacto instante em que o espasmo militarmente iria deflagrar
Com um estalo seco e definitivo os dentes que o ódio fizera nascer nas vulvas frenéticas
Cortam cerce os pénis do exército perseguidor que as vaginas cospem para fora com o mesmo desprezo com que os homens perseguidos haviam sido degolados
Uma só mulher porém enquanto as outras celebram a justa vitória retira suavemente o membro amputado que ainda tivera tempo de ejacular
E levantada comprime o sexo com as mãos e afasta-se pela planície na direcção das montanhas
9
Todas as noites três vezes se faz a contagem dos habitantes que foram autorizados a viver na cidade
Por essa razão não são fechadas as portas das casas facto que levaria um observador apressado a pensar que ali se regressou à franqueza dos costumes da idade de ouro
É porém um ponto controverso
Importa sim que as casas estejam permanentemente abertas para que os recenseadores não percam tempo
Tanto mais que são três as contagens como já ficou dito
A primeira à meia-noite duas horas depois do deitar obrigatório
A segunda às três e a terceira de madrugada quando o céu ainda não clareia
De inverno ou de verão as pessoas dormem destapadas mas vestidas o mais que possam excepto uma perna a partir do joelho para baixo e a cara para respirarem
Se fosse possível tapariam a cabeça deixando apenas a perna descoberta
Porque os recenseadores precisam de tocar a pele destes adormecidos que raramente dormem
A primeira contagem é feita pelos ratos a segunda pelas cobras a terceira pelas aranhas
Os habitantes preferem as cobras e os ratos ainda que seja arrepiante o contacto frio e escamoso das cobras e o arranhar fino das unhas dos ratos
Mas o maior dos horrores trazem-no as aranhas
Embora sejam génios geométricos e matemáticos maliciosamente levam muito tempo a contar enquanto passeiam sobre os rostos espavoridos deslocando- se nas suas trémulas e altas patas
Todas as noites enlouquecem dois ou três habitantes da cidade
Por essa razão não são fechadas as portas das casas facto que levaria um observador apressado a pensar que ali se regressou à franqueza dos costumes da idade de ouro
É porém um ponto controverso
Importa sim que as casas estejam permanentemente abertas para que os recenseadores não percam tempo
Tanto mais que são três as contagens como já ficou dito
A primeira à meia-noite duas horas depois do deitar obrigatório
A segunda às três e a terceira de madrugada quando o céu ainda não clareia
De inverno ou de verão as pessoas dormem destapadas mas vestidas o mais que possam excepto uma perna a partir do joelho para baixo e a cara para respirarem
Se fosse possível tapariam a cabeça deixando apenas a perna descoberta
Porque os recenseadores precisam de tocar a pele destes adormecidos que raramente dormem
A primeira contagem é feita pelos ratos a segunda pelas cobras a terceira pelas aranhas
Os habitantes preferem as cobras e os ratos ainda que seja arrepiante o contacto frio e escamoso das cobras e o arranhar fino das unhas dos ratos
Mas o maior dos horrores trazem-no as aranhas
Embora sejam génios geométricos e matemáticos maliciosamente levam muito tempo a contar enquanto passeiam sobre os rostos espavoridos deslocando- se nas suas trémulas e altas patas
Todas as noites enlouquecem dois ou três habitantes da cidade
EPÍLOGO - Catorze de junho
Cerremos esta porta.
Devagar, devagar, as roupas caiam
Como de si mesmos se despiam deuses,
E nós o somos, por tão humanos sermos.
É quanto nos foi dado: nada.
Não digamos palavras, suspiremos apenas
Porque o tempo nos olha.
Alguém terá criado antes de ti o sol,
E a lua, e o cometa, o negro espaço,
As estrelas infinitas.
Se juntos, que faremos? O mundo seja,
Como um barco no mar, ou pão na mesa,
Ou rumoroso leito.
Não se afastou o tempo. Assiste e quer.
É já pergunta o seu olhar agudo
À primeira palavra que dizemos:
Tudo.
Devagar, devagar, as roupas caiam
Como de si mesmos se despiam deuses,
E nós o somos, por tão humanos sermos.
É quanto nos foi dado: nada.
Não digamos palavras, suspiremos apenas
Porque o tempo nos olha.
Alguém terá criado antes de ti o sol,
E a lua, e o cometa, o negro espaço,
As estrelas infinitas.
Se juntos, que faremos? O mundo seja,
Como um barco no mar, ou pão na mesa,
Ou rumoroso leito.
Não se afastou o tempo. Assiste e quer.
É já pergunta o seu olhar agudo
À primeira palavra que dizemos:
Tudo.
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