Lista de Poemas
Trova do Emigrante
Os campos que vai deixar
Todo por dentro a abanar
Como a terra em Agadir
Folha a folha se desfolha
Seu coração ao partir
Não tem sede de aventura
Nem quis a terra distante
A vida o fez viajante
Se busca terras de França
É que a sorte lhe foi dura
E um homem também se cansa
As rugas que o suor cava
Não são rugas são enganos
São perdas lágrimas e danos
De suor por conta alheia
Não compensa nunca paga
Quanto suor se semeia
Em vida vive-se a morte
Se o trabalho não dá fruto
Morre-se em cada minuto
Se o fruto nunca se alcança
Porque lhe foi dura a sorte
Vai para terras de França
Não julguem que vai contente
Leva nos olhos o verde
Dos campos onde se perde
Gente que tudo lhe deu
Parte mas fica presente
Em tudo o que não colheu
Verde campo verde e triste
Em ti ceifou e hoje foi-se
Em ti ceifou mas a foice
Ceifava somente esperança
Nem sempre um homem resiste
Vai para terras de frança
Vai-se um homem vai com ele
A marca de uma raiz
Vai com ele a cicatriz
De um lugar que está vazio
Leva gravada na pele
Um aldeia um campo um rio
Ficam mulheres a chorar
Por aqueles que se foram
Ai lágrimas que se choram
Não fazem qualquer mudança
Já foram donos do mar
Vão para terras de França.
Letra para um hino
é possível amar sem que venham proibir
é possível correr sem que seja fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.
É possível andar sem olhar para o chão
é possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros
se te apetece dizer não grita comigo: não.
É possível viver de outro modo. É
possível transformares em arma a tua mão.
É possível o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.
Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre livre livre.
Trova do vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.
Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.
Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.
Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.
Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio - é tudo o que tem
quem vive na servidão.
Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.
E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.
Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.
Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).
Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.
E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.
Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.
E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.
Quatro folhas tem o trevo
liberdade quatro sílabas.
Não sabem ler é verdade
aqueles pra quem eu escrevo.
Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.
Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.
Uma flor de verde pinho
dar-te o mais lindo nome português
podia dar-te um nome de rainha
que este amor é de Pedro por Inês.
Mas não há forma não há verso não há leito
para este fogo amor para este rio.
Como dizer um coração fora do peito?
Meu amor transbordou. E eu sem navio.
Gostar de ti é um poema que não digo
que não há taça amor para este vinho
não há guitarra nem cantar de amigo
não há flor não há flor de verde pinho.
Não há barco nem trigo não há trevo
não há palavras para dizer esta canção.
Gostar de ti é um poema que não escrevo.
Que há um rio sem leito. E eu sem coração.
E alegre se fez triste
viu lágrimas correrem no teu rosto
e alegre se fez triste como se
chovesse de repente em pleno Agosto.
Ela só viu meus dedos nos teus dedos
meu nome no teu nome. E demorados
viu nossos olhos juntos nos segredos
que em silêncio dissemos separados.
A clara madrugada em que parti.
Só ela viu teu rosto olhando a estrada
por onde um automóvel se afastava.
E viu que a pátria estava toda em ti.
E ouviu dizer-me adeus: essa palavra
que fez tão triste a clara madrugada.
Coisa amar
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.
Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.
Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como doi
desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.
Amor de fixação
Há um porto por achar no verbo amar
há um demandar um longe que é aqui.
E o meu gostar de ti é este mar.
Há um Duarte Pacheco em eu gostar
de ti. Há um saber pela experiência
o que em muitos é só um efabular.
Que de naugrágios é feita esta ciência
que é eu gostar de ti como um buscar
as índias que afinal eram aqui.
Ai terras de Aquém-Mar (a-quem-amar)
naus a voltar no meu gostar de ti:
levai-me ao velho pinho do meu lar
eu o vi longe e nele me perdi.
Última Página
Aqui morei nas ruas infinitas.
Adeus meu bairro página branca
onde morri onde nasci algumas vezes.
Adeus palavras comboios
adeus navio. De ti povo
não me despeço. Vou contigo.
Adeus meu bairro versos ventos.
Não voltarei a Nambuangongo
onde tu meu amor não viste nada. Adeus
camaradas dos campos de batalha.
Parto sem ti Pedro Soldado.
Tu Rapariga do País de Abril
tu vens comigo. Não te esqueças
da primavera. Vamos soltar
a primavera no País de Abril.
Livro: meu suor meu sangue
aqui te deixo no cimo da pátria
Meto a viola debaixo do braço
e viro a página. Adeus.
Abaixo el-rei Sebastião
é preciso dizer a toda a gente
que o Desejado já não pode vir.
É preciso quebrar na ideia e na canção
a guitarra fantástica e doente
que alguém trouxe de Alcácer Quibir.
Eu digo que está morto.
Deixai em paz el-rei Sebastião
deixai-o no desastre e na loucura.
Sem precisarmos de sair do porto
temos aqui à mão
a terra da aventura.
Vós que trazeis por dentro
de cada gesto
uma cansada humilhação
deixai falar na vossa voz a voz do vento
cantai em tom de grito e de protesto
matai dentro de vós el-rei Sebastião.
Quem vai tocar a rebate
os sinos de Portugal?
Poeta: é tempo de um punhal
por dentro da canção.
Que é preciso bater em quem nos bate
é preciso enterrar el-rei Sebastião.
Sobre um mote de Camões
eu vos levarei amor.
Nem amor deixo na terra
que deixando levarei.
Deixo a dor de te deixar
na terra onde amor não vive
na que levar levarei
amor onde só dor tive.
Nem amor pode ser livre
se não há na terra amor.
Deixo a dor de não levar
a dor de onde amor não vive.
E levo a terra que deixo
onde deixo a dor que tive.
Na que levar levarei
este amor que é livre livre.
Comentários (4)
é mentira
Amigo de infância,um abraço te mando do teu grande amigo Salvador. Ainda me lembro das festa que davas ate as 5 da manha. Abraço<br />
Amigo meu de infância, bons tempos passados juntos. O teu amor de infância
Este senhor era meu vizinho . Muito mal criado, festas até longas horas e tinha 5 mulheres ao mesmo tempo . Invejo .
Manuel Alegre recita poema oferecido a Amália Rodrigues | Você na TV!
Manuel Alegre veio ao 5 defender as touradas e a caça | 5 Para a Meia-Noite | RTP
MANUEL ALEGRE - TEMPO DE ANTENA2
Letra Para Um Hino | Poema de Manuel Alegre com narração de Mundo Dos Poemas
Manuel Alegre - Trova Ao Vento Que Passa
E Alegre Se Fez Triste | Poema de Manuel Alegre com narração de Mundo Dos Poemas
Manuel Freire - "Pedro Soldado" poema de Manuel Alegre
Manuel Alegre | Prémio Vida e Obra 2019
Cerro Alegre / Pasaje San Agustín / Montralegre
Trova do Vento que Passa
Conversas Improváveis - José Cid e Manuel Alegre
Uma Flor De Verde Pinho | Poema de Manuel Alegre com narração de Mundo Dos Poemas
Trova Do Emigrante | Poema De Manuel Alegre com Narração De Mundo Dos Poemas
Direto | Intervenções de Stefan Löfven, Manuel Alegre, António Costa nas comemorações dos 50 Anos…
Prémio Autores 2019 Manuel Alegre
Abril De Abril | Poema de Manuel Alegre com narração de Mundo Dos Poemas
Manuel Alegre fala da prisão em Luanda
Manuel Alegre e Carlos Paredes - "Trova do vento que passa" do disco "É preciso um país" (1974)
Manuel Alegre e Carlos Paredes - "*No meu país ..." do disco "É preciso um país" (1974)
As Naus de Verde Pinho - Manuel Alegre (áudio)
Manuel Alegre e Carlos Paredes - "Lusíada exilado"do disco "É preciso um país" (1974)
TROVA DO VENTO QUE PASSA - Manuel Alegre com Carlos Paredes, e Amália Rodrigues
Manuel Alegre e Carlos Paredes - "Poemarma" do disco "É preciso um país" (1974)
Manuel Alegre e Carlos Paredes - "Abaixo El Rei Sebastião" do disco "É preciso um país" (1974)
Manuel Alegre e Carlos Paredes - "As mãos" do disco "É preciso um país" (1974)
Homenagem a Manuel Alegre no FIC 2017
Manuel Alegre e Carlos Paredes - "É preciso um país" do disco com o mesmo titulo (1974)
Tem A Palavra... Manuel Alegre
A Poesiu subiu ao Povo - Manuel Alegre e Paula Morão | Parte I
As mãos
Manuel Alegre :: Estou triste / Por Mário Viegas
Trova do Vento que passa Manuel Alegre
«Agora mesmo», Manuel Alegre
Poema Do Português Errante | Poema de Manuel Alegre com narração de Mundo Dos Poemas
Manuel Alegre e Carlos Paredes - "Peregrinação" do disco "É preciso um país" (1974)
Manuel Alegre e Carlos Paredes - "E o bosque se fez barco" do disco "É preciso um país" (1974)
Vai-se o canto vão-se as armas - Manuel Alegre
Manuel Alegre - Abril de abril
Manuel Alegre e as Touradas
Carlos do Carmo - "Uma flor de verde pinho" (Manuel Alegre e José Niza) 1976
MANUEL ALEGRE DESPEDE SE DO PARLAMENTO APOS 34 ANOS!
Recado a Manuel Alegre
Amália Rodrigues - Meu Amor é Marinheiro Letra: Manuel Alegre Música: Alain Oulman Teatro Record
Manuel Alegre - "Lisboa perto e longe" dito por Mário Viegas
Manuel Alegre - Cão Como Nós (booktrailer)
"As Naus de Verde Pinho", de Manuel Alegre, por Alexandre Chorão
TROVA AO VENTO QUE PASSA - Poesia de Manuel Alegre
Do Amor fica sempre uma canção | Um Poema de Manuel Alegre
Fado da promessa - Luiz Goes, Manuel Alegre
Manuel Alegre: "BPN mostra onde pode levar a promiscuidade entre política e negócios"
Português
English
Español