José Saramago

José Saramago

1922–2010 · viveu 87 anos PT PT

José Saramago foi um escritor português, laureado com o Prémio Nobel da Literatura em 1998. Sua obra, profundamente humanista e crítica, aborda questões existenciais, sociais e políticas com um estilo narrativo único, marcado pela ausência de pontuação convencional em diálogos e por longos períodos. Explorou a condição humana, a memória, a identidade e o poder, deixando um legado literário marcante. Sua escrita é reconhecida pela complexidade, pela reflexão filosófica e pela capacidade de questionar as estruturas sociais e o comportamento humano, convidando o leitor a uma imersão profunda em universos ficcionais densos e instigantes.

n. 1922-11-16, Azinhaga · m. 2010-06-18, Lanzarote

494 530 Visualizações

Dulcineia

Quem tu és não importa, nem conheces
O sonho em que nasceu a tua face:
Cristal vazio e mudo.
Do sangue de Quixote te alimentas,
Da alma que nele morre é que recebes
A força de seres tudo.
Ler poema completo

Poemas

252

Parábola

Num caroço de mentira
Trouxe a verdade escondida
Pus o caroço na terra
Nasceu verdade fingida
Não faltou água dos olhos
Ao viço desta palmeira
Que frutos daria o ramo
Da maligna sementeira
Se do sal que nela morde
Um sabor amargo sobra
É coisa que vai no rasto
Que ficou depois da cobra
Lá em cima onde a verdade
Tem a franqueza do vento
Negam ninhos as raízes
Porque é outro o seu sustento
E o tronco tão levantado
Sobre o caroço partido
Não é tronco mas é homem
Alto firme e decidido
1 416

De Paz E de Guerra

Na mão serena que num gesto de onda
Em estátua musical o ar modela.

Na mão torcida que num frio de gelo
A parede do tempo em fundos gritos risca.

Na mão de febre que num suor de chama
Em cinzas vai tornando quanto toca.

Na mão de seda que num afago de asa
Faz abrir os sonhos como fontes de água.

Na tua mão de paz, na tua mão de guerra,
Se já nasceu amor, faz ninho a mágoa.
2 514

Antes Calados

E se os ossos rangessem quando os gritos
Dentro no sangue negro se amordaçam?
E se os olhos uivassem quando a lágrima
Grossa de sal amargo rasga a pele?
E se as unhas mudadas em navalhas
Abrissem dez caminhos de desforra?
E se os versos doessem mastigados
Entre dentes que mordem o vazio?
(Mais perguntas, amor? Antes calados.)
1 093

Compensação

Caminho de palavras vou abrindo,
Ao coração das coisas apontado.
Mas não me pesará o desencanto
Se, no ponto em que parar o meu arado,
Rombo na pedra que a morte houver lançado,
Puder ainda, com os ecos deste canto,
Já do coração das coisas afastado,
Mover um coração, se valho tanto.
1 117

1

As pessoas estão sentadas numa paisagem de Dali com as sombras muito recortadas por causa de um sol que diremos parado

Quando o sol se move como acontece fora das pinturas a nitidez é menor e a luz sabe muito menos o seu lugar

Não importa que Dali tivesse sido tão mau pintor se pintou a imagem necessária para os dias de 1993

Este dia em que as pessoas estão sentadas na paisagem entre dois prumos de madeira que foram uma porta sem paredes para cima e para os lados

Não há portanto casa nem sequer a porta que poderia não abrir precisamente por não haver para onde abrir

Apenas o vazio da porta e não a porta

E as pessoas não se sabe quantas não foram contadas devem ser ao menos duas porque conversam levantam as golas dos casacos para se defenderem do frio

E dizem que o inverno do ano passado foi muito mais doce ou suave ou benigno embora a palavra seja antiga em 1993

Enquanto falam e dizem coisas importantes como esta

Uma das pessoas vai riscando no chão uns traços enigmáticos que tanto podem ser um retrato como uma declaração de amor ou a palavra que faltasse inventar

Vê-se agora que o sol afinal não estava parado e portanto a paisagem é muito menos daliniana do que ficou dito na primeira linha

E uma sombra estreita e comprida que é talvez de uma pedra aguda espetada no chão ou de um prumo distante de porta que já perdeu companhia e por isso não atrai as pessoas

Uma sombra estreita e comprida toca no dedo que risca a poeira do chão e começa a devorá-lo

Devagar passando aos ossos do metacarpo e depois subindo pelo braço devorando

Enquanto algumas pessoas continuam a conversar

E esta se cala porque tudo isto acontece sem dor e enquanto a noite desce
1 179

No Silêncio Dos Olhos

Em que língua se diz, em que nação,
Em que outra humanidade se aprendeu
A palavra que ordene a confusão
Que neste remoinho se teceu?
Que murmúrio de vento, que dourados
Cantos de ave pousada em altos ramos
Dirão, em som, as coisas que, calados,
No silêncio dos olhos confessamos?
1 206

Em Violino Fado

Ponho as mãos no teu corpo musical
Onde esperam os sons adormecidos.
Em silêncio começo, que pressente
A brusca irrupção do tom real.
E quando a alma ascendendo canta
Ao percorrer a escala dos sentidos,
Não mente a alma nem o corpo mente.
Não é por culpa nossa se a garganta
Enrouquece e se cala de repente
Em cruas dissonâncias, em rangidos
Exasperantes de acorde errado.

Se no silêncio em que a canção esmorece
Ouro tom se insinua, recordado,
Não tarda que se extinga, emudece:
Não se consente em violino fado.
1 351

3

O elevador deixou de funcionar não se sabe quando mas a escada ainda serve

O que está para cima não importa do rés-do-chão ao vigésimo andar é senhorio do vento e das poucas aves que sobreviveram

Embora se afirme que em um dos milhares de compartimentos do edifício uma mulher ainda não parou o mais longo gemido da história do mundo

E também se diz que em outro dos compartimentos um homem aguarda que lhe cresçam as unhas o suficiente

Para espetando-as nos olhos chegar com elas ao côncavo do outro lado do crânio até porventura fazer calar o gemido invisível e abrir novos olhos para um mundo atrás deste

Mas o caminho por enquanto é para baixo menos um menos dois menos três ditos caves ou subterrâneos ou casas-fortes

Entre o primeiro e o segundo o elevador mostra o que resta do contínuo e do director principal

Ainda que não seja possível distinguir um do outro nem perguntando

Por acaso ficaram todas as portas abertas ou tiveram forças para se abrirem no último momento que lhes restara para isso

Razão por que podemos perceber sem necessidade de melhor lição a diferença entre riqueza mobiliária e riqueza imobiliária

Pelos corredores e salas reforçadas consoante as correntes de ar as notas voam com aquele rumor que fazem as folhas secas quando roçam umas nas outras

Enquanto os lingotes de ouro brilham sob uma luz que misteriosamente não se apagou

Como uma espécie de podridão fosforescente e venenosa
1 047

5

A cidade que os homens deixaram de habitar está agora sitiada por eles

Não deve passar em claro o exagero que há na palavra sitiada

Como exagero haveria na palavra cercada ou outra qualquer sinónima sem querer levantar a debatida questão da sinonimia perfeita

Os homens estão apenas em redor da cidade tão incapazes de entrarem nela como de se afastarem para longe definitivamente

São como borboletas da noite atraídas não pelas luzes da cidade que já se apagaram há muito

Mas pelo perfil desarticulado dos telhados e das empenas e também pela rede impalpável das antenas da televisão

De dia uma enorme ausência guarda as portas da cidade

E as ruas têm aquele excesso de silêncio que há no que foi habitado e agora não

Na cidade apenas vivem os lobos

Deste modo se tendo invertido a ordem natural das coisas estão os homens fora e os lobos dentro

Nada acontece antes da noite

Então saem os lobos a caçar os homens e sempre apanham algum

O qual entra enfim na cidade deixando por onde passa um regueiro de sangue

Ali onde em tempos mais felizes combinara com parentes e amigos almoços intrigas calúnias

E caçadas aos lobos
1 132

2

Os habitantes da cidade doente de peste estão reunidos na praça grande que assim ficou conhecida porque todas as outras se atulharam de ruínas

Foram tirados das suas casas por uma ordem que ninguém ouviu

Porém segundo estava escrito em lendas antiquíssimas haveria vozes vindas do céu ou trombetas ou luzes extraordinárias e todos quiseram estar presentes

Alguma coisa podia talvez suceder no mundo antes do triunfo final da peste nem que fosse uma peste maior

Ali estão pois na praça angustiados e em silêncio à espera

E depois nada mais se ouve que uma aérea e delicada música de cravo

Qualquer fuga composta há duzentos e cinquenta anos por João Sebastião Bach em Leipzig

É então que os homens e as mulheres sem esperança se deixam cair no pavimento estalado da praça

Enquanto a música se afasta e voa sobre os campos devastados
966

Citações

4

Obras

3

Comentários (2)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Bem meu caro José Saramago... se tu ainda estivesse em vida... conquistaria um novo mundo. meu caros amigos já tive o privilégio de ler uns dois livros deste grande escritor. são de um mundo fantástico. Braços a sua eternidade.

Meu caro é preciso sair do corpo em espirito e mente ; para nos vermos a nós mesmos. em corpo e alma a vagar pela mundo desconhecido.