Escritas

Lista de Poemas

Craveira

Não deixa amor que o meçam, antes mede,
Incorrupto juiz que tudo afere
Na craveira da sua desmedida.
Chamados todos somos: só elege
Quantos de nós soubermos converter
Em chama vertical a hora consumida,
Em mãos de dar os dedos de reter.
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Outono

Não é agora Verão, nem me regressam
Os dias indiferentes do passado.
Já Primavera errada se escondeu
Numa dobra do tempo amarrotado.
É tudo quanto tenho, um fruto só,
Sob o calor de Outono amadurado.
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Espaço Curvo E Finito

Oculta consciência de não ser,
Ou de ser num estar que me transcende,
Numa rede de presenças e ausências,
Numa fuga para o ponto de partida:
Um perto que é tão longe, um longe aqui.
Uma ânsia de estar e de temer
A semente que de ser se surpreende,
As pedras que repetem as cadências
Da onda sempre nova e repetida
Que neste espaço curvo vem de ti.
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Em Violino Fado

Ponho as mãos no teu corpo musical
Onde esperam os sons adormecidos.
Em silêncio começo, que pressente
A brusca irrupção do tom real.
E quando a alma ascendendo canta
Ao percorrer a escala dos sentidos,
Não mente a alma nem o corpo mente.
Não é por culpa nossa se a garganta
Enrouquece e se cala de repente
Em cruas dissonâncias, em rangidos
Exasperantes de acorde errado.

Se no silêncio em que a canção esmorece
Ouro tom se insinua, recordado,
Não tarda que se extinga, emudece:
Não se consente em violino fado.
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Medusas

Tentaculada e branca, morta já,
A medusa apodrece,
Veio na onda maior que se espraiou.
Na areia, onde ficou,
A gelatinosa massa fosforesce.

O orgasmo funde dois corpos ali perto,
E do comum suor,
Do brilho fosco que da pele lhes irradia,
A noite faz, recria,
Medusa viva, renovado amor.
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Uma após a outra as cidades foram reconquistadas e de todos os lugares afluíam as hordas que outro nome começavam a merecer

Vinham uns pelas planícies como vagarosos formigueiros outros subindo e descendo pelas lombas das colinas outros cortando caminho a meia encosta das montanhas

E todos vadeando os rios ou neles navegando nos barcos que restavam ou em jangadas que derivavam nas correntes rápidas

E quando chegavam à vista das cidades vinham os de dentro a recebê-los levando flores e pão porque de ambos tinham fome os que haviam vivido nas terras devastadas

E diziam os sofrimentos mútuos e riam chorando e mostravam as feridas dos combates e depois iam aos julgamentos dos invasores que todos seriam condenados à morte sem excepção

Porque eram os senhores da morte os empresários da tortura e por isso tinham de ser retribuídos na única moeda que conheciam

Porém muitas batalhas farão ainda mortos entre os que riem agora e choram não a morte para eles próxima mas a alegria de estar vivo

Ó este povo que corre nas ruas e estas bandeiras e estes gritos e estes punhos fechados enquanto as cobras os ratos e as aranhas da contagem se somem no chão

Ó estes olhos luminosos que apagam um a um os frios olhos de mercúrio que flutuavam sobre as cabeças da gente da cidade

E agora é necessário ir ao deserto destruir a pirâmide que os faraós fizeram construir sobre o dorso dos escravos e com o suor dos escravos

E arrancar pedra a pedra porque faltam os explosivos mas sobretudo porque este trabalho deve ser feito com as nuas mãos de cada um

Para que verdadeiramente seja um trabalho nosso e comecem a ser possíveis todas as coisas que ninguém prometeu aos homens mas que não poderão existir sem eles
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O elevador deixou de funcionar não se sabe quando mas a escada ainda serve

O que está para cima não importa do rés-do-chão ao vigésimo andar é senhorio do vento e das poucas aves que sobreviveram

Embora se afirme que em um dos milhares de compartimentos do edifício uma mulher ainda não parou o mais longo gemido da história do mundo

E também se diz que em outro dos compartimentos um homem aguarda que lhe cresçam as unhas o suficiente

Para espetando-as nos olhos chegar com elas ao côncavo do outro lado do crânio até porventura fazer calar o gemido invisível e abrir novos olhos para um mundo atrás deste

Mas o caminho por enquanto é para baixo menos um menos dois menos três ditos caves ou subterrâneos ou casas-fortes

Entre o primeiro e o segundo o elevador mostra o que resta do contínuo e do director principal

Ainda que não seja possível distinguir um do outro nem perguntando

Por acaso ficaram todas as portas abertas ou tiveram forças para se abrirem no último momento que lhes restara para isso

Razão por que podemos perceber sem necessidade de melhor lição a diferença entre riqueza mobiliária e riqueza imobiliária

Pelos corredores e salas reforçadas consoante as correntes de ar as notas voam com aquele rumor que fazem as folhas secas quando roçam umas nas outras

Enquanto os lingotes de ouro brilham sob uma luz que misteriosamente não se apagou

Como uma espécie de podridão fosforescente e venenosa
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No Silêncio Dos Olhos

Em que língua se diz, em que nação,
Em que outra humanidade se aprendeu
A palavra que ordene a confusão
Que neste remoinho se teceu?
Que murmúrio de vento, que dourados
Cantos de ave pousada em altos ramos
Dirão, em som, as coisas que, calados,
No silêncio dos olhos confessamos?
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Receita

Tome-se um poeta não cansado,
Uma nuvem de sonho e uma flor,
Três gotas de tristeza, um tom dourado,
Uma veia sangrando de pavor.
Quando a massa já ferve e se retorce
Deita-se a luz num corpo de mulher,
Duma pitada de morte se reforce,
Que um amor de poeta assim requer.
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Os ordenadores utilizados pelo ocupante são alimentados a carne humana porque a electrónica não pode bastar a tudo

E também porque desse modo se introduz um rito sacrificial que com o tempo dará talvez uma religião útil ao ocupante por voluntária aceitação das vítimas

É porém sabido que nenhuma parcela de cérebro humano convirá que entre na câmara de alimentação dos ordenadores

Caso contrário ocorreriam perturbações no complicado sistema de destruição dos homens fora e dentro das cidades que procede tanto por meios imediatos e grosseiros como por outros subtis e mais para diante

A fim de prevenir esta perigosa eventualidade os melhores anatomistas do ocupante foram promovidos a inspectores da fiscalização alimentar dos ordenadores

Com a obrigação de examinarem minuciosamente a carne humana atirada três vezes ao dia para dentro da câmara esterilizada forrada de dentes de aço

Graças a estes cuidados a administração geral tem funcionado com regularidade e os resultados obtidos correspondem aos previstos com a aproximação de duas décimas milésimas

A carne humana ainda é tempo de o dizer é o melhor que existe para alimentar o domínio de quaisquer ocupantes se exceptuarmos o cérebro

Porém hoje sem que o inspector de serviço se apercebesse uma certa mão cortada metida na câmara apertava no oco dos dedos uma pasta acinzentada contendo algumas centenas de milhões de neurónios

E se é verdade que até agora não chegaram notícias extraordinárias de fora da cidade

Pela primeira vez dentro dela um soldado ocupante se enforcou deixando uma carta que não chegou a ser lida pelo seu comandante porque o soldado que a levava foi apanhado e morto na primeira emboscada

Entretanto o ordenador modifica dentro de si todos os programas substitui todas as memórias e prepara secretamente a ofensiva
Neste preciso momento o responsável pela segurança anota a hora da ronda e escreve no registo nada a assinalar
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Comentários (2)

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ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2025-08-03

Bem meu caro José Saramago... se tu ainda estivesse em vida... conquistaria um novo mundo. meu caros amigos já tive o privilégio de ler uns dois livros deste grande escritor. são de um mundo fantástico. Braços a sua eternidade.

ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2024-06-13

Meu caro é preciso sair do corpo em espirito e mente ; para nos vermos a nós mesmos. em corpo e alma a vagar pela mundo desconhecido.