Escritas

Lista de Poemas

Não Escrevas Poemas de Amor

Porquê, Rainer Maria? Quem impede
O coração de amar, e quem decide
Das vozes que no verso se articulam?
Que há que nos imponha a cabra-cega
De somar infinito a infinito?
Essa escada tão longa que subiste
Quebrou-se no vazio, quando a sombra
Do Outro nos degraus se repartia.
À vertigem aérea do teu voo
Oponho eu a dimensão do passo,
Terrestre sou, e deste haver terrestre,
Homem me digo homem, poemas faço.
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Afrodite

Ao princípio, né nada. Um sopro apenas,
Um arrepio de escamas, o perpassar da sombra
Como nuvem marinha que se esgarça
Nos radiais tentátculos da medusa.
Não se dirá que o mar se comoveu
E que a onda vai formar-se deste frémito.
No embalo das algas, serpentinos,
À corrente se dobram, as crinas dos cavalos.
Entre dois infinitos de azul avança a onda,
Toda de sol coberta, rebrilhando,
Líquido corpo, instável, de água cega.
De onge ocorre o vento, transportando
O pólen das flores e os mais perfumes
Da terra confrontada, escura e verde.
Trovenjando, a vaga rola, e fecundada
Se lança para o vento à sua espera
No leito de rochas negras que se encrespam
De agudas unhas e vidas fervilhantes.
Ainda alto as águas se suspendem

No instante final da gestação sem par.
E quando, num rapto de vida que começa,
A onda se despedaça e rasga no rochedo,
O envolve, cinge, aperta e por ele escorre
— Da espuma branca, do sol, do vento que soprou,
Dos peixes, das flores e do seu pólen,
Das algas trémulas, do trigo, dos braços da medusa,
Das crinas dos cavalos, do mar, da vida toda,
Afrodite nasceu, nasce o teu corpo.
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O comandante das tropas de ocupação tem um feiticeiro no seu estado-maior

Mas o sentido da honra militar embora condescendente noutros casos sempre o impediu de utilizar esses poderes sobrenaturais para ganhar batalhas

O feiticeiro apenas intervém quando ao comandante das tropas de ocupação apraz usar o chicote

Nessas ocasiões saem ambos para os arredores da cidade e postos num ponto alto convoca o mágico os poderes ocultos e por eles reduz a cidade ao tamanho de um corpo humano

Então o comandante das tropas de ocupação faz estalar três vezes a ponta para habituar o braço e logo a seguir chicoteia a cidade até se cansar

O feiticeiro que entretanto assistira respeitosamente afastado apela para os poderes ocultos contrários e a cidade torna ao seu tamanho natural

Sempre que isto acontece os habitantes ao encontrarem-se nas ruas perguntam uns aos outros que sinais são aqueles de chicotadas na cara

Quando tão seguros estão de que ninguém os chicoteou nem tal consentiriam
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Todo o sistema prisional foi reformado pelo ocupante incluindo os próprios edifícios

Acabaram as enxovias subterrâneas as masmorras as celas escuras as grades os muros altos os espigões de ferro

No lugar das antigas cadeias construíram-se edifícios de seis andares todos de vidro transparente

Os únicos elementos opacos são as enxergas e as fechaduras das portas

Cada prisão tem centenas de celas de forma hexagonal como favos de colmeia

Tudo quanto um preso faz o tem de fazer à vista dos outros presos dos guardas e da cidade sem espectáculos públicos

À mais grave ocupação de todas que é a de pensar ninguém dá atenção

Mas consoante os gostos não faltam espectadores para os actos de comer defecar masturbar com perdão dos olhos delicados

Ou para as sessões de interrogatório e de tortura que se praticam à luz do dia

Como prova de que o novo sistema prisional aceita a livre observação e se oferece ao testemunho geral

As paredes só se tornam opacas quando todos os presos dormem e não há mais nada para ver
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Todas as noites três vezes se faz a contagem dos habitantes que foram autorizados a viver na cidade

Por essa razão não são fechadas as portas das casas facto que levaria um observador apressado a pensar que ali se regressou à franqueza dos costumes da idade de ouro

É porém um ponto controverso

Importa sim que as casas estejam permanentemente abertas para que os recenseadores não percam tempo

Tanto mais que são três as contagens como já ficou dito

A primeira à meia-noite duas horas depois do deitar obrigatório

A segunda às três e a terceira de madrugada quando o céu ainda não clareia

De inverno ou de verão as pessoas dormem destapadas mas vestidas o mais que possam excepto uma perna a partir do joelho para baixo e a cara para respirarem

Se fosse possível tapariam a cabeça deixando apenas a perna descoberta

Porque os recenseadores precisam de tocar a pele destes adormecidos que raramente dormem

A primeira contagem é feita pelos ratos a segunda pelas cobras a terceira pelas aranhas

Os habitantes preferem as cobras e os ratos ainda que seja arrepiante o contacto frio e escamoso das cobras e o arranhar fino das unhas dos ratos

Mas o maior dos horrores trazem-no as aranhas

Embora sejam génios geométricos e matemáticos maliciosamente levam muito tempo a contar enquanto passeiam sobre os rostos espavoridos deslocando- se nas suas trémulas e altas patas

Todas as noites enlouquecem dois ou três habitantes da cidade
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A mais terrível arma da guerra do desprezo foi o elefante

Porque então haviam os ocupantes da cidade desdenhado perseguir nos campos as hordas assustadas dos homens que se arrastavam entre céu e céu

Todos os animais do jardim zoológico foram paralisados por acção de misturas químicas nunca antes vistas

E ainda vivos abertos sobre grandes mesas de dissecção esvaziados de entranhas e do sangue que jorrou por fundos canais para o interior da terra donde apenas saía para certos banhos das prostitutas principais

Desta maneira tornados pele massa muscular e esqueleto foram os animais providos de poderosos mecanismos internos ligados aos ossos por circuitos electrónicos que não podiam errar

E estando tudo isto no comprimento de onda do ordenador central foi nele introduzido o programa do ódio e a memória das humilhações

Então abriram-se as portas da cidade e os animais saíram a destruir os homens

Não precisavam de dormir nem comer e os homens sim

Não precisavam de descanso e o mais que o homem sabia era terror e fadiga

Foi essa guerra chamada do desprezo porque nem sequer o sangue lutava contra o sangue

Já foi dito que o elefante era a mais terrível máquina daquela guerra

Talvez quem sabe porque havia sido muitas vezes domesticado e ridicularizado nos circos quando a sua grande estatura se equilibrava numa bola absurda ou se levantava nas patas traseiras para cumprimentar o público

Entretanto o maior dos sábios do ocupante insiste em afirmar que há-de fazer rir o ordenador hipótese que não surpreenderá tendo em conta os factos relatados
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Entre o sopé da montanha e a primeira porta da cidade ficaram mortos muitos homens e mulheres

Pois é essa a condição das vitórias custar cada uma trinta derrotas e mesmo para uma simples vida duas são necessárias que depressa se extinguem

Ficaram mortos e não é possível deixar ditos os seus nomes porque eles próprios os haviam esquecido

Agora começavam apenas a retomar os da sua humanidade o nome de homem o nome de mulher sem mais saberem de si que a mão que vai adiante a reconhecer o que viram os olhos

Derrubados sobre a terra com a boca aberta como se dissessem a pena de morrerem ou murmurando alguma coisa da memória recobrada por inteiro no momento de por inteiro se perder

Caídos redondos mortos como nunca tão firmes assentando os ombros na dureza da terra e olhando um céu afinal negro

Não poucas foram as mulheres que continuaram avançando depois de sentirem a dor no coração pelo súbito vazio criado onde antes um corpo de homem se movia duro

E não foram os homens poucos que avançaram trémulos do último resvalar não já suave mas irremediável do corpo da mulher que tanto importava como a cidade

Quando a primeira porta foi alcançada amontoaram-se os corpos uns sobre os outros e os vivos passaram sobre uma ponte de mortos que eram a escora e o arco e a macia e dolorosa calçada

Assim entraram na cidade e ao amanhecer contaram-se e tendo-se achado de menos recolheram os seus mortos

A fim de recuperarem ao menos pelo breve tempo da lamentação a unidade primeira
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Embora houvesse já muito tempo que não nasciam crianças não se perdera por completo a lembrança de um mundo fértil

E acontecera mesmo que algumas tribos mais sedentárias redescobriram certas práticas mágicas que vinham de tempos antiquíssimos

Por isso nos campos cultivados faziam correr as mulheres menstruadas pra que o sangue escorrendo ao longo das pernas embebesse o chão com sangue de vida e não de morte

Nuas corriam deixando um rasto que os homens cobriam cuidadosamente de terra para que nem uma gota secasse sob o calor agora nocivo do sol

E um dia vinda de longe uma mulher grávida quase no fim do tempo chegou e pediu que a deixassem ficar ali até parir

Porém preciosa era aquela criança que estava para nascer e a sua mãe foi dada a melhor cabana e duas mulheres de mais experiência ficaram com ela para a assistirem no parto

Mas antes que a criança nascesse um homem escolhido da tribo uniu-se carnalmente à mulher grávida

E desta maneira tudo começou naquele lugar e não noutro com aquela gente e não outra apenas com o presente e o futuro não o passado

Alguns dias mais tarde nasceu uma criança e houve as melancólicas festas de então e todas as mulheres se declararam grávidas

Mas a mãe da criança desapareceu nessa mesma noite enquanto longe dali as tribos que haviam atravessado a montanha começavam a mover-se na planície em direcção à cidade armada
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E porque os antigos deuses haviam morrido por inúteis os homens descobriram outros que sempre tinham existido encobertos pela sua não necessidade

O primeiro de todos foi a montanha porque era ela que no seu mais alto pico sustentava o peso do céu

Aquele mesmo céu que os velhos deuses em tempos idos habitaram e donde de pais para filhos desprezaram os homens porque desprezo fora impor-lhes salvações contra a sua própria humanidade

O segundo deus foi o sol porque ensinara a redescobrir a roda embora houvesse tribos que veneravam a lua pela mesma razão

Essas porém em noites de quarto minguante ou crescente traziam os olhos baixos

Provando assim que sempre cada tribo tem o deus que prefere e não outros

Mas a nova mitologia a isto se resumiu porque um dia houve um homem que subiu ao pico da montanha e por essa maneira se viu que sozinho levantara o céu

E outro pegou nas rodas que haviam sido o sol e a lua e lançou-as para longe onde não brilharam

Definitivamente deus só ficou o rio porque os homens vão mergulhar nele as mãos e o rosto e têm estrelas nos olhos quando se levantam

Enquanto as águas por sua vez transportam ao céu e ao sol se o há a turvidão salgada das lágrimas e do suor

E as plantas verdes que dentro de água vivem estremecem sob o vento que traz aquele cheiro de homem a que a terra ainda não se habituou
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Lavaram as feridas na água do mar e agora estão sentados na areia enquanto as sentinelas vigiam no alto das dunas

E este o preço da paz quando o amanhecer vem perto e o medo de morrer é esse mais humano de não viver bastante

A penumbra que ainda esconde as águas cheira a algas pisadas e a guelras e tem o poder inesperado de fazer inchar os músculos pobres

Se afastássemos o quase inaudível bater da onda poderíamos dizer que o silêncio fecha todo o horizonte e logo é absoluto quando o primeiro arco do sol começa a erguer-se

O mundo durante o minuto seguinte vai ficar rubro cereja e os homens e as mulheres parecem flutuar no interior de um forno e são imortais

Distante julgaríamos o ano de 1993 e contudo é tempo dele ainda

Mas soltas esparsas esperanças sobrevivem aos mortos intermináveis e ao sangue tanto que este sol encontra na praia uma tribo que repousa entre duas batalhas

E não já como tantas vezes antes um rebanho de carneiros fugitivos com chagas de vergonha no lugar dos cornos arrancados

Ó eloquentemente diríamos ó se não fosse preferível que percorrêssemos nós esta praia manchada de sangue dizendo algumas e discretas palavras em voz baixa meus amigos

Tanto mais que do lado do mar se aproxima voando o primeiro bando de gaivotas que desde há muito muito tempo é visto nesta terra ocupada

Sinal de que talvez nos reconheça enfim a vida e de que nem tudo se perdeu nas abjecções que consentimos algumas vezes cúmplices
Estão agora sobre nós as gaivotas pairando e deixam pender um pouco a cabeça para melhor nos fitarem e decidirem quem somos

Entretanto o sol saiu inteiro da madrugada enquanto mal feridos nos erguemos e as sentinelas gritam a reunir porque o inimigo vem perto
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Comentários (2)

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ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2025-08-03

Bem meu caro José Saramago... se tu ainda estivesse em vida... conquistaria um novo mundo. meu caros amigos já tive o privilégio de ler uns dois livros deste grande escritor. são de um mundo fantástico. Braços a sua eternidade.

ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2024-06-13

Meu caro é preciso sair do corpo em espirito e mente ; para nos vermos a nós mesmos. em corpo e alma a vagar pela mundo desconhecido.