Escritas

Lista de Poemas

Vamos Fazer Um Acordo

em conjunção com
esses rios de merda
que não param de correr no meu cérebro, Capitão
Morsa, posso apenas dizer que mal consigo entendê-los
e eu rezaria
qualquer quantidade de AVE-MARIAS
para lhes dar um fim –
eu até mesmo voltaria a morar com aquela vadia do
coração de pedra só
para impedir que esses rios de merda rolem no meu
cérebro, Capitão Morsa, mas
claro
eu jamais pararia de apostar nos cavalos ou de
beber
mas
Capitão
para interromper o curso desses rios
eu prometeria nunca mais
comer ovos e
eu rasparia minha cabeça e minhas bolas, eu moraria no
estado de Delaware e eu até mesmo
me forçaria a ver até o fim qualquer filme estrelado por
qualquer membro da família
Fonda.

pense a respeito, Capitão Morsa, a
uva-passa está no bolo e o guarda-sol se dobra para
o vento oeste
preciso fazer algo a respeito de tudo
isso...
parece que nunca vai
parar.
o inferno de cada homem fica num lugar
diferente: o meu é logo acima e
atrás
do meu rosto
arruinado.
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Amigos Em Meio À Escuridão

eu me lembro de passar fome num
quartinho numa cidade estranha
cortinas baixadas, ouvindo
música clássica
eu era jovem eu era tão jovem que doía como uma faca
por dentro
porque não havia alternativa exceto ficar escondido pelo maior
tempo possível –
não por autopiedade mas com desalento sob minhas chances limitadas:
tentando me conectar.

os velhos compositores – Mozart, Bach, Beethoven,
Brahms eram os únicos que me diziam alguma coisa e
eles estavam mortos.

por fim, faminto e derrotado, precisei sair
às ruas e ser entrevistado para empregos
monótonos
de baixa remuneração
por homens estranhos atrás de mesas
homens sem olhos homens sem rostos
que pegavam as minhas horas
e as destruíam e
mijavam nelas.

agora eu trabalho para os editores os leitores os
críticos

mas ainda bato papo e bebo com
Mozart, Bach, Brahms e o
Bee
que amigões
que homens
às vezes tudo de que precisamos para poder continuar sozinhos
são os mortos
chocalhando as paredes
que nos encerram.
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A Dama do Castelo

ela morava numa casa
que parecia um
castelo
e quando você entrava
os tetos eram tão absolutamente
altos
e eu era pobre
e aquilo tudo
me fascinava
bastante.

ela
já não era
jovem
mas tinha
volumosos
cabelos
que praticamente
desciam até os
tornozelos
e
eu pensava em
como seria
estranho
transar
em meio a todo aquele
cabelo.

fui até lá
diversas vezes
no meu velho
carro
e ela tinha refinadas
bebidas para
servir
e ficávamos sentados
mas eu nunca
conseguia chegar efetivamente
perto dela
e embora eu não
forçasse
nada
algo na ideia de
não
nos conectarmos
de fato machucava o meu
ego
pois por mais feio que eu fosse
eu sempre havia
tido sorte com as
mulheres.

isso me confundia
e creio que
eu precisava
daquilo.

ela gostava de
falar sobre
as artes e
sobre
criação cinematográfica
e ouvir
tudo aquilo
só me fazia
beber
mais.

por fim
eu
simplesmente
desisti
dela
e um bom ano
ou algo assim
havia passado
quando
certa noite
o telefone
tocou: era a
dama.

“eu quero ir aí ver
você”, ela disse.

“estou escrevendo agora, pegando
fogo... não posso receber
ninguém...”

“eu só quero fazer uma
visita, não vou incomodar você,
vou só ficar no sofá,
vou dormir no sofá,
não vou incomodar você...”

“NÃO! MEU DEUS DO CÉU,
NÃO POSSO RECEBER NINGUÉM!”

eu desliguei.

a dama que estava efetivamente
no sofá
disse “ah, você está todo
MOLE agora!”

“é.”

“vem aqui...”

ela envolveu meu pênis
com a mão
botou a língua
para fora
e aí
parou.

“o que você está escrevendo?”

“nada... estou com bloqueio de
escritor...”

“só podia... seus canos estão
entupidos... você precisa de uma
esvaziada...”

então ela botou meu pau na
boca

e aí o telefone tocou
de novo...

furioso
eu corri até o
telefone
e
atendi.

era a dama do
castelo:

“escuta, não vou incomodar você,
você nem vai notar a minha
presença...”

“SUA PUTA, EU TÔ GANHANDO UM
BOQUETE!”

eu desliguei e
voltei.

a outra dama estava indo
em direção à
porta.

“qual é o problema?”, eu
perguntei.

“eu DETESTO essa
palavra!”

“que palavra?”

“BOQUETE!”, ela
gritou.

ela bateu a porta e
foi embora...

eu fui até onde estava
a máquina de escrever
coloquei uma folha nova
no rolo.
era uma
da manhã.

fiquei ali sentado e
bebi scotch e
cerveja pra tirar o gosto
fumei charutos
baratos.
3:15 da manhã
ainda estava sentado
ali
reacendendo velhos
tocos de charuto e
bebendo ale.

a folha
nova continuava
em branco.

eu desliguei as
luzes
me arrastei na direção
do quarto
tratei de me atirar na
cama
roupas ainda
no corpo

dava para ouvir a água da privada
correndo
mas eu não conseguia me levantar
para fechar a alavanca
e dar fim àquele
som

meus malditos canos estavam
entupidos.
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Meu Truque do Desaparecimento

quando eu enchia o saco de ficar no bar
e às vezes eu enchia
eu tinha um lugar para ir:
era um campo de capim alto
um cemitério
abandonado.
eu não via aquilo como sendo um
passatempo mórbido.
aquele só me parecia ser o melhor
lugar para estar.
ele oferecia uma generosa cura para
ressacas violentas.
através do capim dava para ver
as lápides,
muitas pendiam
em ângulos estranhos
contra a gravidade
como se precisassem
cair
mas nunca vi nenhuma
cair
embora houvesse muitas delas
no cemitério.
era fresco e escuro
com uma brisa
e várias vezes eu dormia
lá.
nunca fui
incomodado.

toda vez que eu retornava para o bar
depois de uma ausência
era sempre a mesma história com
eles:
“onde diabos você
andava? achamos que você tinha
morrido!”

para eles eu era o monstro do bar, eles precisavam de mim
para que se sentissem
melhor.
assim como eu, às vezes, precisava daquele
cemitério.
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Glenn Miller

muito tempo atrás
na frente do campus
na sorveteria
a juke-box tocando
as garotas em sintonia perfeita
dançando com os jogadores de futebol
e com os rapazes brilhantes da faculdade

Glenn Miller era o grande sucesso
e todo mundo entrava na dança
quase todo mundo
eu ficava sentado com alguns discípulos
éramos supostos foras da lei
os exploradores da Verdade
mas eu gostava da música
e da preguiça da espera
com o mundo se lançando em guerra
com Hitler arengando
as garotas rodopiavam
graciosas
pernas à mostra
aquele último sol brilhante
nós nos aquecíamos nele
excluindo tudo mais
enquanto o universo abria sua boca
numa tentativa de
engolir todos nós.
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Aceito...

talvez eu esteja ficando louco, não tem problema
mas esses poemas não param de despontar no alto da minha
cabeça com mais e mais
força. agora
depois dos oceanos de trago que já
consumi
parece evidente que o desgaste deveria
ser minha justa recompensa já que sigo
consumindo – ao passo que
os hospícios, as ruas e os cemitérios estão
cheios de gente da minha
laia –
porém toda noite quando visito esta máquina
com a minha garrafa
os poemas fulguram e saltam, sem
parar – rugindo na alegria
do poder tranquilo: 65 anos
dançando – minha boca se contorcendo num
minúsculo sorriso
enquanto estas teclas continuam emitindo
uma substancial energia de vesgo
milagre.

os deuses foram bons comigo ao longo deste
estilo de vida que teria matado
até um touro
e eu estou longe de ser um
touro.

senti desde o começo,
claro, que havia uma estranha corrosão
dentro de mim
mas nem em sonho imaginei essa
sorte
essa absoluta dádiva
divina
minha morte vai parecer no máximo
uma
ideia tardia.
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Maus Momentos No Hotel da 3Rd Com a Vermont

Alabam era um ladrão sorrateiro e ele entrou no meu
quarto quando eu estava bêbado e
toda vez que eu me levantava ele me derrubava
de novo.

seu babaca, eu disse, você sabe que apanha
de mim!

ele apenas me derrubou
outra vez.

quando ficar sóbrio, falei, vou espalhar os teus dentes
daqui até o inferno!

ele só seguiu me empurrando
pra lá e pra cá.

finalmente acertei um em cheio, bem na
têmpora
e ele recuou e
saiu.

foi uns dias depois
que eu me vinguei: comi a namorada
dele.

então desci e bati na porta
dele.

bem, Alabam, comi a tua mulher e agora vou
espalhar os teus dentes daqui até o
inferno!

o pobre coitado começou a chorar, cobriu o rosto com as
mãos e apenas chorou

fiquei ali parado observando
o cara.

e falei, me desculpa,
Alabam.

então o deixei lá, voltei ao
meu quarto.

éramos todos bebuns e nenhum de nós tinha emprego, tudo que tínhamos
era um ao outro.

naquele momento a minha assim chamada mulher estava em algum bar ou
sei lá onde, eu não a via fazia uns
dias.

ainda me restava uma garrafa de
porto.

saquei a rolha e levei o porto até o quarto do
Alabam.

falei, que tal um trago,
Rebelde?

ele levantou a cabeça, ficou de pé, bebeu duas
taças.
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É Engraçado, Não É? #1

nós estávamos ali de pé
numa festa de aniversário
num restaurante
chique

e
havia
muitas pessoas especiais
em volta
pavoneando sua
fama.

eu queria sair
correndo

quando um homem
parado perto de nós
disse algo
exatamente apropriado
para a
ocasião.

“ei”, eu disse à
minha esposa, “esse
cara vale a
pena. quando formos
sentar
vamos tentar
sentar perto
dele.”

fizemos isso e enquanto
as bebidas eram
servidas
o homem começou
a falar

ele começou uma
longa história
que estava
se encaminhando para uma
frase
de efeito.

o problema
era que
eu já adivinhava
qual
iria ser
a
frase de efeito.

e
ele falou
e
falou

e aí
soltou a
frase.

“que merda”, eu
disse a ele, “essa
foi horrível, você
realmente
me
decepcionou...”

ele
apenas começou
a contar outra
história.

eu fui até
outra mesa
e parei atrás
do agora
grande
astro do cinema.

“olha só,
quando nós nos
conhecemos
você não passava de um amável
garoto alemão.
agora
você se transformou
num
otário
presunçoso. você
realmente
me
decepcionou.”

o grande astro do
cinema (que era um
homem
de poderosa
musculatura) rosnou
e
deu de
ombros.

aí eu fui até
a mesa
onde a dama aniversariante estava
sentada
cercada por
um monte de
gente da
mídia.

“olhar pra
vocês”, eu disse, “me dá
vontade de
vomitar
em cima das
suas
ineptas
plausibilidades!”

“ah”, disse a dama
para seus
convidados, “ele
sempre fala
desse
jeito!”

e ela deu uma
risada, pobre
coitada.

então
eu disse “Feliz
aniversário,
mas
eu tinha avisado
a você que nunca deveria
me convidar para essas
coisas.”


eu retornei à
minha mesa

gesticulei para o garçom
trazer
mais uma
bebida.

o homem
estava contando
mais uma
história

mas
ela não era nem
de longe
tão boa
quanto

esta
aqui.
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Perto da Grandeza

em certa fase da minha vida
conheci um homem que alegava ter
visitado Pound no St. Elizabeths.

depois conheci uma mulher que não apenas
alegava ter visitado
E.P.
como também ter feito amor
com ele – ela até me
mostrou
certos trechos dos
Cantos
em que Ezra supostamente a
teria
mencionado.

eis então aquele homem e
aquela mulher
e a mulher me disse
que Pound jamais
mencionara uma visita daquele
homem
e o homem alegava que a
dama não tivera contato algum
com o
mestre
que ela era
uma charlatona.

e como eu não era
um erudito poundiano
eu não sabia em quem
acreditar
mas
de uma coisa eu
sei: quando um homem está
vivo
muitos alegam relacionamentos
que dificilmente
o são
e depois que ele morre, bem,
aí a festa é
liberada.

meu palpite é que Pound
não conheceu nem a dama nem o
cavalheiro

e se conheceu
um
ou conheceu
ambos

então foi um vergonhoso desperdício de
tempo no
manicômio.
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Eu E Meu Amigão

eu ainda consigo nos ver
juntos
naquele tempo
sentados na margem do rio
enchendo
a cara de
vinho
e brincando com o
poema
sabendo que era
totalmente inútil
mas algo para
fazer
durante
a espera

os imperadores
com seus assustados
semblantes de argila
nos observam enquanto
bebemos

Li Po estraçalha seus
poemas
põe fogo
neles
e os lança flutuando rio
abaixo.

“o que você
fez?”, eu
pergunto.
Li passa a
garrafa: “eles
vão terminar
não importa o que
aconteça...”

eu bebo para saudar seu
conhecimento
passo a garrafa
de volta

sento firme sobre meus
poemas
que eu
enfiei virilha
adentro

ajudo Li a queimar
mais algumas de suas
poesias

elas flutuam bem
rio
abaixo
iluminando a
noite
como deveriam fazer
as boas palavras.
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Mário Quintana
Mário Quintana
2025-02-15

Mário Quintana