Poemas nesta obra
15H16 e Trinta Segundos…
aqui sou em suposição um grande poeta
e eu sonolento no meio da tarde
aqui estou consciente de que a morte Ă© um grande touro
avançando contra mim
e eu sonolento no meio da tarde
aqui estou consciente das guerras e dos homens lutando no ringue
e estou consciente da boa comida e do vinho e das boas mulheres
e eu sonolento no meio da tarde
consciente do amor de uma mulher
e eu sonolento no meio da tarde,
me inclino na direção da luz solar por trås de uma cortina amarela
me pergunto onde foram parar as moscas de verĂŁo
me lembro da mais que sangrenta morte de Hemingway
e eu sonolento no meio da tarde.
algum dia nĂŁo estarei sonolento no meio da tarde
algum dia escreverei um poema que trarå vulcÔes
Ă s montanhas lĂĄ fora
mas por ora sigo sonolento no meio da tarde
e alguĂ©m me pergunta, âBukowski, que horas sĂŁo?â
e eu respondo, â15h16 e trinta segundosâ.
me sinto culpado, odioso, inĂștil,
demente, me sinto
sonolento no meio da tarde,
estĂŁo bombardeando as igrejas, o.k., isto estĂĄ bem,
as crianças montam seus pÎneis no parque, o.k., isto estå bem,
as bibliotecas estĂŁo repletas de milhares de livros doutos,
hĂĄ uma mĂșsica dentro do rĂĄdio mais prĂłximo
e eu sonolento no meio da tarde,
tenho esta tumba dentro de mim que diz,
ah, deixa que os outros façam, deixa que eles vençam,
me deixa dormir,
a sabedoria estĂĄ no escuro
varrendo o escuro como vassouras,
vou para onde foram as moscas de verĂŁo,
tente me agarrar.
Assim, lĂĄ estava eu, com mais de 65 anos, procurando minha primeira casa. Lembro-me de que meu pai praticamente hipotecou sua vida inteira para comprar uma casa. Ele me disse: âEscute, eu vou pagar a vida inteira por uma casa, e quando eu morrer vocĂȘ ficarĂĄ com essa casa, e durante a vida inteira vocĂȘ pagarĂĄ por uma casa, e quando morrer deixarĂĄ duas casas pra seu filho. Com isso sĂŁo duas casas. Depois seu filho...â
Todo esse processo me parecia terrivelmente lento: casa por casa, morte por morte. Dez geraçÔes, dez casas. Depois, bastaria uma só pessoa para perder todas elas no jogo ou queimar tudo com um fósforo e sair correndo pela rua abaixo com os bagos num balde de colher frutas.
Agora eu procurava uma casa que na verdade não queria, e ia escrever um argumento que na verdade não queria escrever. Começava a perder o controle e compreendia isso, mas parecia incapaz de reverter o processo.
A primeira corretora em que paramos foi em Santa MÎnica. Chamava-se Imobiliåria Século Vinte. Ora, isso é que era ser moderno.
â Posso ajudĂĄ-lo?
â Queremos comprar uma casa â eu disse.
O cara jovem apenas virou a cabeça para um lado e continuou desviando o olhar. Passou-se um minuto. Dois minutos.
â Vamos embora â eu disse a Sarah.
Voltamos ao carro e ligamos o motor.
â Que foi aquilo? â perguntou Sarah.
â Ele nĂŁo queria fazer negĂłcio com a gente. Deu uma avaliada e achou que Ă©ramos indigentes, sem valor. Achou que a gente ia desperdiçar o tempo dele.
â Mas nĂŁo Ă© verdade.
â Talvez nĂŁo, mas a coisa toda me fez sentir como se eu estivesse coberto de lodo.
Eu dirigia o carro, mal sabendo aonde ia.
De alguma forma, aquilo doera. Claro, eu estava de ressaca e precisava de uma barbeada, e sempre usara roupas que de algum modo pareciam nĂŁo me assentar bem, e talvez todos aqueles anos de pobreza me houvessem dado uma certa aparĂȘncia. Mas nĂŁo achava sensato julgar uma pessoa pela aparĂȘncia externa daquele jeito. Eu preferiria muito mais julgar uma pessoa pelo jeito de ela agir e falar.
â Nossa â dei uma risada â, talvez ninguĂ©m nos venda uma casa.
â Aquele cara era um idiota â disse Sarah.
â A ImobiliĂĄria SĂ©culo Vinte Ă© uma das maiores redes do estado.
â O cara era um idiota â ela repetiu.
Eu ainda me sentia diminuĂdo. Talvez fosse mesmo meio babaca. SĂł sabia bater Ă mĂĄquina â Ă s vezes.
PassĂĄvamos por uma ĂĄrea de colinas.
â Onde estamos? â perguntei.
â Topanga Canyon â respondeu Sarah.
â Este lugar parece fodido.
â Ă legal, a nĂŁo ser pelas inundaçÔes, pelos incĂȘndios e tipos neo-hippies fracassados.
EntĂŁo eu vi o anĂșncio: PORTO DOS MACACOS. Era um bar. Encostei e saltamos. Havia um monte de motos na frente. Ăs vezes chamavam as motos de porcos.
Entramos. Estava cheio pra burro. Caras de blusĂŁo de couro. Caras usando echarpes imundas. Alguns tinham cicatrizes no rosto. Outros, barbas que nĂŁo cresciam lĂĄ muito bem. A maioria de olhos azul-claros, redondos e apĂĄticos. Sentavam-se muito quietos, como se estivessem ali hĂĄ semanas.
Pegamos dois tamboretes.
â Duas cervejas â eu disse. â Qualquer coisa engarrafada.
O garçom afastou-se.
Vieram as cervejas e Sarah e eu tomamos uma golada.
EntĂŁo percebi um rosto projetado para a frente ao longo do balcĂŁo, encarando a gente. Um rosto muito gordo, com um toque de imbecil. Era um jovem de cabelos e barba de um vermelho sujo, mas de sobrancelhas branquĂssimas. O lĂĄbio inferior pendia como se um peso invisĂvel o puxasse para baixo, retorcido, deixando ver o interior Ășmido e espumante.
â Chinaski â ele disse â, filho da puta, Ă© CHINASKI!
Eu fiz um pequeno aceno, depois olhei em frente.
â Um de meus leitores â disse a Sarah.
â Oh oh â ela disse.
â Chinaski â ouvi outra voz Ă direita.
â Chinaski â mais outra.
Um uĂsque surgiu Ă minha frente. Ergui-o.
â Obrigado, companheiros!
E emborquei-o.
â VĂĄ com calma â disse Sarah. â VocĂȘ se conhece. NĂŁo vamos sair daqui nunca.
O garçom trouxe outro uĂsque. Era um carinha com o rosto cheio de manchas vermelho escuro. Parecia mais mau do que qualquer outro ali dentro. Apenas ficava ali, me encarando.
â Chinaski â disse â, o maior escritor do mundo.
â Se vocĂȘ insiste â eu disse, e ergui o copo de uĂsque.
Depois passei-o para Sarah, que o emborcou.
Ela tossiu um pouco e depositou o copo.
â SĂł bebi esse pra salvar vocĂȘ.
Um pequeno grupo se formava aos poucos atrĂĄs da gente.
â Chinaski. Chinaski. Filho da puta... Li todos os seus livros. TODOS OS SEUS LIVROS!... Posso te dar um pontapĂ© na bunda, Chinaski... Escuta, Chinaski, seu pau ainda sobe? Chinaski, Chinaski, posso ler um de meus poemas pra vocĂȘ?
Paguei ao garçom, descemos dos tamboretes e nos dirigimos para a porta. Tornei a notar os blusĂ”es de couro, a suavidade dos rostos e a sensação de que nĂŁo havia muita alegria ou audĂĄcia em nenhum deles. Faltava totalmente alguma coisa nos pobres sujeitos, e alguma coisa em mim doeu, apenas por um instante, e senti vontade de abraçå-los, consolĂĄ-los e beijĂĄ-los como um DostoiĂ©vski, mas sabia que isso no fim nĂŁo levaria a nada, a nĂŁo ser ao ridĂculo e Ă humilhação, para mim mesmo e para eles. De algum modo, o mundo tinha ido longe demais, e a bondade espontĂąnea jamais poderia ser tĂŁo fĂĄcil. Era algo por que terĂamos de tornar a batalhar.
Eles nos seguiram até o lado de fora.
â Chinaski, Chinaski... Quem Ă© sua bela dama? VocĂȘ nĂŁo merece ela, cara!... Entre, Chinaski, fique e beba com a gente! Seja legal, vĂĄ! Seja como sua literatura, Chinaski! NĂŁo seja um chato!
Tinham razĂŁo, Ă© claro. Entramos no carro, liguei o motor e passamos devagar por entre eles, que se amontoavam Ă nossa volta, cedendo aos poucos, alguns jogando beijos, outros me mostrando o dedĂŁo, uns poucos batendo nas janelas. Atravessamos.
Chegamos Ă estrada e fomos em frente.
â EntĂŁo â disse Sarah â, aqueles sĂŁo os seus leitores?
â A maioria deles, creio.
â SerĂĄ que ninguĂ©m inteligente lĂȘ vocĂȘ?
â Espero que sim.
Continuamos rodando sem dizer nada. Depois Sarah perguntou:
â Em que estĂĄ pensando?
â Dennis Body.
â Dennis Body? Quem Ă©?
â Era meu Ășnico amigo na escola primĂĄria. Imagino o que terĂĄ acontecido com ele.
â Hollywood
e eu sonolento no meio da tarde
aqui estou consciente de que a morte Ă© um grande touro
avançando contra mim
e eu sonolento no meio da tarde
aqui estou consciente das guerras e dos homens lutando no ringue
e estou consciente da boa comida e do vinho e das boas mulheres
e eu sonolento no meio da tarde
consciente do amor de uma mulher
e eu sonolento no meio da tarde,
me inclino na direção da luz solar por trås de uma cortina amarela
me pergunto onde foram parar as moscas de verĂŁo
me lembro da mais que sangrenta morte de Hemingway
e eu sonolento no meio da tarde.
algum dia nĂŁo estarei sonolento no meio da tarde
algum dia escreverei um poema que trarå vulcÔes
Ă s montanhas lĂĄ fora
mas por ora sigo sonolento no meio da tarde
e alguĂ©m me pergunta, âBukowski, que horas sĂŁo?â
e eu respondo, â15h16 e trinta segundosâ.
me sinto culpado, odioso, inĂștil,
demente, me sinto
sonolento no meio da tarde,
estĂŁo bombardeando as igrejas, o.k., isto estĂĄ bem,
as crianças montam seus pÎneis no parque, o.k., isto estå bem,
as bibliotecas estĂŁo repletas de milhares de livros doutos,
hĂĄ uma mĂșsica dentro do rĂĄdio mais prĂłximo
e eu sonolento no meio da tarde,
tenho esta tumba dentro de mim que diz,
ah, deixa que os outros façam, deixa que eles vençam,
me deixa dormir,
a sabedoria estĂĄ no escuro
varrendo o escuro como vassouras,
vou para onde foram as moscas de verĂŁo,
tente me agarrar.
Assim, lĂĄ estava eu, com mais de 65 anos, procurando minha primeira casa. Lembro-me de que meu pai praticamente hipotecou sua vida inteira para comprar uma casa. Ele me disse: âEscute, eu vou pagar a vida inteira por uma casa, e quando eu morrer vocĂȘ ficarĂĄ com essa casa, e durante a vida inteira vocĂȘ pagarĂĄ por uma casa, e quando morrer deixarĂĄ duas casas pra seu filho. Com isso sĂŁo duas casas. Depois seu filho...â
Todo esse processo me parecia terrivelmente lento: casa por casa, morte por morte. Dez geraçÔes, dez casas. Depois, bastaria uma só pessoa para perder todas elas no jogo ou queimar tudo com um fósforo e sair correndo pela rua abaixo com os bagos num balde de colher frutas.
Agora eu procurava uma casa que na verdade não queria, e ia escrever um argumento que na verdade não queria escrever. Começava a perder o controle e compreendia isso, mas parecia incapaz de reverter o processo.
A primeira corretora em que paramos foi em Santa MÎnica. Chamava-se Imobiliåria Século Vinte. Ora, isso é que era ser moderno.
â Posso ajudĂĄ-lo?
â Queremos comprar uma casa â eu disse.
O cara jovem apenas virou a cabeça para um lado e continuou desviando o olhar. Passou-se um minuto. Dois minutos.
â Vamos embora â eu disse a Sarah.
Voltamos ao carro e ligamos o motor.
â Que foi aquilo? â perguntou Sarah.
â Ele nĂŁo queria fazer negĂłcio com a gente. Deu uma avaliada e achou que Ă©ramos indigentes, sem valor. Achou que a gente ia desperdiçar o tempo dele.
â Mas nĂŁo Ă© verdade.
â Talvez nĂŁo, mas a coisa toda me fez sentir como se eu estivesse coberto de lodo.
Eu dirigia o carro, mal sabendo aonde ia.
De alguma forma, aquilo doera. Claro, eu estava de ressaca e precisava de uma barbeada, e sempre usara roupas que de algum modo pareciam nĂŁo me assentar bem, e talvez todos aqueles anos de pobreza me houvessem dado uma certa aparĂȘncia. Mas nĂŁo achava sensato julgar uma pessoa pela aparĂȘncia externa daquele jeito. Eu preferiria muito mais julgar uma pessoa pelo jeito de ela agir e falar.
â Nossa â dei uma risada â, talvez ninguĂ©m nos venda uma casa.
â Aquele cara era um idiota â disse Sarah.
â A ImobiliĂĄria SĂ©culo Vinte Ă© uma das maiores redes do estado.
â O cara era um idiota â ela repetiu.
Eu ainda me sentia diminuĂdo. Talvez fosse mesmo meio babaca. SĂł sabia bater Ă mĂĄquina â Ă s vezes.
PassĂĄvamos por uma ĂĄrea de colinas.
â Onde estamos? â perguntei.
â Topanga Canyon â respondeu Sarah.
â Este lugar parece fodido.
â Ă legal, a nĂŁo ser pelas inundaçÔes, pelos incĂȘndios e tipos neo-hippies fracassados.
EntĂŁo eu vi o anĂșncio: PORTO DOS MACACOS. Era um bar. Encostei e saltamos. Havia um monte de motos na frente. Ăs vezes chamavam as motos de porcos.
Entramos. Estava cheio pra burro. Caras de blusĂŁo de couro. Caras usando echarpes imundas. Alguns tinham cicatrizes no rosto. Outros, barbas que nĂŁo cresciam lĂĄ muito bem. A maioria de olhos azul-claros, redondos e apĂĄticos. Sentavam-se muito quietos, como se estivessem ali hĂĄ semanas.
Pegamos dois tamboretes.
â Duas cervejas â eu disse. â Qualquer coisa engarrafada.
O garçom afastou-se.
Vieram as cervejas e Sarah e eu tomamos uma golada.
EntĂŁo percebi um rosto projetado para a frente ao longo do balcĂŁo, encarando a gente. Um rosto muito gordo, com um toque de imbecil. Era um jovem de cabelos e barba de um vermelho sujo, mas de sobrancelhas branquĂssimas. O lĂĄbio inferior pendia como se um peso invisĂvel o puxasse para baixo, retorcido, deixando ver o interior Ășmido e espumante.
â Chinaski â ele disse â, filho da puta, Ă© CHINASKI!
Eu fiz um pequeno aceno, depois olhei em frente.
â Um de meus leitores â disse a Sarah.
â Oh oh â ela disse.
â Chinaski â ouvi outra voz Ă direita.
â Chinaski â mais outra.
Um uĂsque surgiu Ă minha frente. Ergui-o.
â Obrigado, companheiros!
E emborquei-o.
â VĂĄ com calma â disse Sarah. â VocĂȘ se conhece. NĂŁo vamos sair daqui nunca.
O garçom trouxe outro uĂsque. Era um carinha com o rosto cheio de manchas vermelho escuro. Parecia mais mau do que qualquer outro ali dentro. Apenas ficava ali, me encarando.
â Chinaski â disse â, o maior escritor do mundo.
â Se vocĂȘ insiste â eu disse, e ergui o copo de uĂsque.
Depois passei-o para Sarah, que o emborcou.
Ela tossiu um pouco e depositou o copo.
â SĂł bebi esse pra salvar vocĂȘ.
Um pequeno grupo se formava aos poucos atrĂĄs da gente.
â Chinaski. Chinaski. Filho da puta... Li todos os seus livros. TODOS OS SEUS LIVROS!... Posso te dar um pontapĂ© na bunda, Chinaski... Escuta, Chinaski, seu pau ainda sobe? Chinaski, Chinaski, posso ler um de meus poemas pra vocĂȘ?
Paguei ao garçom, descemos dos tamboretes e nos dirigimos para a porta. Tornei a notar os blusĂ”es de couro, a suavidade dos rostos e a sensação de que nĂŁo havia muita alegria ou audĂĄcia em nenhum deles. Faltava totalmente alguma coisa nos pobres sujeitos, e alguma coisa em mim doeu, apenas por um instante, e senti vontade de abraçå-los, consolĂĄ-los e beijĂĄ-los como um DostoiĂ©vski, mas sabia que isso no fim nĂŁo levaria a nada, a nĂŁo ser ao ridĂculo e Ă humilhação, para mim mesmo e para eles. De algum modo, o mundo tinha ido longe demais, e a bondade espontĂąnea jamais poderia ser tĂŁo fĂĄcil. Era algo por que terĂamos de tornar a batalhar.
Eles nos seguiram até o lado de fora.
â Chinaski, Chinaski... Quem Ă© sua bela dama? VocĂȘ nĂŁo merece ela, cara!... Entre, Chinaski, fique e beba com a gente! Seja legal, vĂĄ! Seja como sua literatura, Chinaski! NĂŁo seja um chato!
Tinham razĂŁo, Ă© claro. Entramos no carro, liguei o motor e passamos devagar por entre eles, que se amontoavam Ă nossa volta, cedendo aos poucos, alguns jogando beijos, outros me mostrando o dedĂŁo, uns poucos batendo nas janelas. Atravessamos.
Chegamos Ă estrada e fomos em frente.
â EntĂŁo â disse Sarah â, aqueles sĂŁo os seus leitores?
â A maioria deles, creio.
â SerĂĄ que ninguĂ©m inteligente lĂȘ vocĂȘ?
â Espero que sim.
Continuamos rodando sem dizer nada. Depois Sarah perguntou:
â Em que estĂĄ pensando?
â Dennis Body.
â Dennis Body? Quem Ă©?
â Era meu Ășnico amigo na escola primĂĄria. Imagino o que terĂĄ acontecido com ele.
â Hollywood
22.000 Dólares Em 3 Meses
a noite chegou como um ser que se arrasta
corrimĂŁo acima, sibilando sua lĂngua
de fogo, e me lembro dos
missionårios com a lama até os joelhos
batendo em retirada através do belo rio azul
e as balas da metralhadora erguendo pequenas
fontes e Jones bĂȘbado junto Ă margem
dizendo fodam-se esses selvagens
onde arrumaram armas de fogo?
e eu retorno pra ver Maria
e ela diz, vocĂȘ acha que eles vĂŁo atacar,
acha que eles vĂŁo atravessar o rio?
medo de morrer? lhe pergunto, e ela diz
quem nĂŁo tem?
e eu fui até o armårio de remédios
e me servi uma taça cheia, e disse
ganhamos 22.000 dĂłlares em 3 meses construindo estradas
pro Jones e Ă© preciso morrer um pouco
para fazer tudo mais depressa... VocĂȘ acha que os comunistas
começaram com isso? ela perguntou, vocĂȘ acha que sĂŁo os comunistas?
e eu disse, dĂĄ pra parar de ser uma vaca neurĂłtica.
essas republiquetas crescem porque estĂŁo
enchendo os bolsos com dinheiro dos dois lados... e ela
me olhou com aquela linda estupidez das colegiais
e se afastou, escurecia mas eu a deixei partir,
precisamos saber quando Ă© hora de deixar uma mulher ir a fim de mantĂȘ-la,
e se vocĂȘ nĂŁo quer ficar com ela deixa-a ir de qualquer maneira,
assim que Ă© sempre um processo de deixar partir, de um modo ou de outro,
entĂŁo me sentei e terminei o drinque e preparei outro
e pensei, quem poderia imaginar que um curso de engenharia na Old Miss
poderia trazĂȘ-lo para onde as lĂąmpadas balançam devagar
no verde de certa noite distante?
e Jones apareceu com o braço ao redor de sua cintura azul
e ela também andara bebendo, e eu me aproximei e disse,
marido e mulher? e isso a deixou puta porque se uma mulher nĂŁo pode
pegĂĄ-lo pelo cangote e fazĂȘ-lo de gato e sapato, estĂĄ acabada,
e eu me servi mais uma dose caprichada, e
disse, vocĂȘs 2 podem nĂŁo perceber
mas nĂŁo vamos sair vivos daqui.
bebemos o resto da noite.
vocĂȘ poderia ouvir, se ficasse bem parado,
a ågua descendo através das årvores de deus,
e as estradas que havĂamos construĂdo
dava pra ouvir os animais a cruzĂĄ-las
e os selvagens, tolos bĂĄrbaros com alguma cruz bĂĄrbara para enterrar.
e finalmente o Ășltimo olhar no espelho
enquanto os amantes embriagados se abraçam
e se afastam e erguem um pedaço de palha
do teto da cabana
entĂŁo acendem o isqueiro, e eu
vejo as chamas se alastrarem, como ratos esfaimados
sobre as frĂĄgeis estruturas marrons, vagarosamente mas de modo
real, e logo irreal, algo que parecia uma Ăłpera,
e então caminhei em direção ao som da metralha,
o mesmo rio, e a lua voltada para mim
e no caminho eu vi uma cobra, das pequenas,
mais parecendo uma cascavel, mas nĂŁo poderia ser uma cascavel,
e se assustou ao me ver, e eu a agarrei atrås do pescoço
antes que pudesse se enrolar e entĂŁo a segurei
seu pequeno corpo se enroscando ao redor do meu pulso
como um dedo amoroso e todas as ĂĄrvores abriram seus olhos
e eu levei minha boca Ă sua
e o amor era iluminação e lembrança,
comunistas mortos, fascistas mortos, democratas mortos, deuses mortos e
ao retornar ao que restara da cabana de Jones
lå estava seu braço morto e carbonizado ao redor de sua cintura azul e morta.
corrimĂŁo acima, sibilando sua lĂngua
de fogo, e me lembro dos
missionårios com a lama até os joelhos
batendo em retirada através do belo rio azul
e as balas da metralhadora erguendo pequenas
fontes e Jones bĂȘbado junto Ă margem
dizendo fodam-se esses selvagens
onde arrumaram armas de fogo?
e eu retorno pra ver Maria
e ela diz, vocĂȘ acha que eles vĂŁo atacar,
acha que eles vĂŁo atravessar o rio?
medo de morrer? lhe pergunto, e ela diz
quem nĂŁo tem?
e eu fui até o armårio de remédios
e me servi uma taça cheia, e disse
ganhamos 22.000 dĂłlares em 3 meses construindo estradas
pro Jones e Ă© preciso morrer um pouco
para fazer tudo mais depressa... VocĂȘ acha que os comunistas
começaram com isso? ela perguntou, vocĂȘ acha que sĂŁo os comunistas?
e eu disse, dĂĄ pra parar de ser uma vaca neurĂłtica.
essas republiquetas crescem porque estĂŁo
enchendo os bolsos com dinheiro dos dois lados... e ela
me olhou com aquela linda estupidez das colegiais
e se afastou, escurecia mas eu a deixei partir,
precisamos saber quando Ă© hora de deixar uma mulher ir a fim de mantĂȘ-la,
e se vocĂȘ nĂŁo quer ficar com ela deixa-a ir de qualquer maneira,
assim que Ă© sempre um processo de deixar partir, de um modo ou de outro,
entĂŁo me sentei e terminei o drinque e preparei outro
e pensei, quem poderia imaginar que um curso de engenharia na Old Miss
poderia trazĂȘ-lo para onde as lĂąmpadas balançam devagar
no verde de certa noite distante?
e Jones apareceu com o braço ao redor de sua cintura azul
e ela também andara bebendo, e eu me aproximei e disse,
marido e mulher? e isso a deixou puta porque se uma mulher nĂŁo pode
pegĂĄ-lo pelo cangote e fazĂȘ-lo de gato e sapato, estĂĄ acabada,
e eu me servi mais uma dose caprichada, e
disse, vocĂȘs 2 podem nĂŁo perceber
mas nĂŁo vamos sair vivos daqui.
bebemos o resto da noite.
vocĂȘ poderia ouvir, se ficasse bem parado,
a ågua descendo através das årvores de deus,
e as estradas que havĂamos construĂdo
dava pra ouvir os animais a cruzĂĄ-las
e os selvagens, tolos bĂĄrbaros com alguma cruz bĂĄrbara para enterrar.
e finalmente o Ășltimo olhar no espelho
enquanto os amantes embriagados se abraçam
e se afastam e erguem um pedaço de palha
do teto da cabana
entĂŁo acendem o isqueiro, e eu
vejo as chamas se alastrarem, como ratos esfaimados
sobre as frĂĄgeis estruturas marrons, vagarosamente mas de modo
real, e logo irreal, algo que parecia uma Ăłpera,
e então caminhei em direção ao som da metralha,
o mesmo rio, e a lua voltada para mim
e no caminho eu vi uma cobra, das pequenas,
mais parecendo uma cascavel, mas nĂŁo poderia ser uma cascavel,
e se assustou ao me ver, e eu a agarrei atrås do pescoço
antes que pudesse se enrolar e entĂŁo a segurei
seu pequeno corpo se enroscando ao redor do meu pulso
como um dedo amoroso e todas as ĂĄrvores abriram seus olhos
e eu levei minha boca Ă sua
e o amor era iluminação e lembrança,
comunistas mortos, fascistas mortos, democratas mortos, deuses mortos e
ao retornar ao que restara da cabana de Jones
lå estava seu braço morto e carbonizado ao redor de sua cintura azul e morta.
8 de Contagem
da minha cama
observo
3 passarinhos
sobre o fio do
telefone.
um deles
voa.
depois mais
outro.
resta um,
que
logo também
se vai.
minha mĂĄquina de escrever estĂĄ
imĂłvel como uma
lĂĄpide.
e estou
reduzido a um observador de
pĂĄssaros.
apenas para
mantĂȘ-lo
informado,
otĂĄrio.
observo
3 passarinhos
sobre o fio do
telefone.
um deles
voa.
depois mais
outro.
resta um,
que
logo também
se vai.
minha mĂĄquina de escrever estĂĄ
imĂłvel como uma
lĂĄpide.
e estou
reduzido a um observador de
pĂĄssaros.
apenas para
mantĂȘ-lo
informado,
otĂĄrio.
A Agonia dos Magricelos Orgulhosos
vejo velhos vivendo de pensÔes nos
supermercados eles sĂŁo magricelos e
orgulhosos e estĂŁo morrendo
passam fome ali de pé e nada
dizem. muito tempo atrĂĄs, entre outras mentiras,
lhes ensinaram que o silĂȘncio era uma forma de
bravura. agora, tendo trabalhado uma vida inteira,
foram emboscados pela inflação. olham ao redor
roubam uma uva
mastigam-na. por fim fazem uma
comprinha, para o dia.
outra mentira que lhes ensinaram:
nĂŁo roubarĂĄs.
Ă© melhor morrer de fome que roubar
(uma uva nĂŁo os salvarĂĄ)
e em quartos minĂșsculos
enquanto leem os anĂșncios no jornal
morrerĂŁo de fome
morrerĂŁo silenciosos
expulsos das pensÔes
por jovens loiros e cabeludos
que os farĂŁo deslizar para dentro
e se afastarĂŁo do meio-fio, esses
jovens
pensando em Vegas e buceta e
vitĂłria.
Ă© a ordem das coisas: cada um
prova o gostinho do mel
e depois a faca.
Vin Marbad vinha altamente recomendado por Michael Huntington, meu fotógrafo oficial. Michael me fotografava constantemente, mas até então não houvera muitos pedidos desses trabalhos.
Marbad era consultor de impostos. Chegou uma noite com sua maleta, um homenzinho moreno. Eu jĂĄ bebia tranquilamente hĂĄ algumas horas, sentado com Sarah vendo um filme em minha velha TV preto e branco.
Ele bateu com rĂĄpida dignidade e eu o deixei entrar, apresentei-o a Sarah e servi-lhe vinho.
â Obrigado â ele disse, tomando um gole. â VocĂȘ sabe que, aqui na AmĂ©rica, se vocĂȘ nĂŁo gasta dinheiro, eles tomam.
â Ăéé? Que quer que eu faça?
â DĂȘ uma entrada numa casa.
â Hum?
â Os pagamentos das hipotecas sĂŁo dedutĂveis do imposto de renda.
â Ăéé, que mais?
â Compre um carro. Ă dedutĂvel.
â Todo?
â NĂŁo, sĂł um pouco. Deixa que eu cuido disso. O que a gente precisa Ă© criar pra vocĂȘ algumas proteçÔes contra os impostos. Veja aqui...
Vin Marbad abriu sua maleta e retirou muitas folhas de papel. Levantou-se e aproximou-se de mim com elas.
â Bens imĂłveis. Aqui, olhe, eu comprei um pouco de terra no Oregon. Isto Ă© um cancelamento de imposto. Ainda tem alguns hectares Ă venda. VocĂȘ pode entrar agora. Esperamos uma valorização de 25% cada ano. Em outras palavras, dentro de quatro anos seu dinheiro dobra...
â NĂŁo, nĂŁo, por favor volte a sentar.
â Que Ă© que hĂĄ?
â NĂŁo quero comprar nada que eu nĂŁo possa ver, nĂŁo quero comprar nada que nĂŁo possa alcançar e tocar.
â EstĂĄ dizendo que nĂŁo confia em mim?
â Eu acabo de conhecer vocĂȘ.
â Eu tenho recomendaçÔes em todo o mundo!
â Eu sempre confio em meu instinto.
Vin Marbad girou de volta ao sofå onde deixara seu casaco; enfiou-o e lançou-se para a porta com sua maleta, abriu-a, saiu e fechou-a.
â VocĂȘ ofendeu ele â disse Sarah. â Ele sĂł queria te mostrar algumas maneiras de economizar dinheiro.
â Eu tenho duas regras. Uma delas Ă©: jamais confie num cara que fuma cachimbo. A outra: jamais confie num cara de sapato lustroso.
â Ele nĂŁo fumava cachimbo.
â Bem, parece um fumador de cachimbo.
â VocĂȘ ofendeu ele.
â NĂŁo se preocupe, ele vai voltar...
A porta escancarou-se, e lå estava Vin Marbad. Cruzou a sala apressado até seu lugar original no sofå, tornou a tirar o casaco, pÎs a maleta a seus pés. Olhou-me.
â Michael me disse que vocĂȘ joga nos cavalinhos.
â Bem, ééé...
â Meu primeiro emprego, quando cheguei aqui, da Ăndia, foi no Hollywood Park. Era faxineiro lĂĄ. Sabe as vassouras que eles usam para varrer os bilhetes usados?
â Sei.
â JĂĄ notou como sĂŁo largas?
â JĂĄ.
â Bem, isso foi ideia minha. As vassouras eram do tamanho normal. Eu desenhei a nova. Fui ao setor de OperaçÔes com ela, e eles aproveitaram. Fui promovido pra OperaçÔes e venho subindo desde entĂŁo.
Servi-lhe outra bebida. Ele tomou um gole.
â Escuta, vocĂȘ bebe quando escreve?
â Sim, um bocado.
â Isso Ă© parte da sua inspiração. Vou fazer com que seja deduzido.
â Pode fazer isso?
â Claro. Sabe, fui eu que comecei a tornar dedutĂvel a gasolina usada no automĂłvel. Foi ideia minha.
â Filho da puta â eu disse.
â Muito interessante â disse Sarah.
â Dou um jeito de vocĂȘ nĂŁo pagar imposto nenhum e de modo legal.
â Parece Ăłtimo.
â Michael Huntington nĂŁo paga impostos. Pergunte pra ele.
â Acredito em vocĂȘ. Abaixo os impostos.
â Tudo bem, mas vocĂȘ tem de fazer o que eu digo. Primeiro, dĂȘ entrada numa casa, depois num carro. DĂȘ a largada. Arranje um carro bom. Um novo BMW.
â Tudo bem.
â Em que mĂĄquina datilografa? Uma manual?
â Ă.
â Arranje uma elĂ©trica. Ă dedutĂvel.
â Eu nĂŁo sei se consigo escrever numa elĂ©trica.
â VocĂȘ se acostuma em poucos dias.
â Quer dizer, nĂŁo sei se consigo criar numa elĂ©trica.
â Quer dizer que tem medo de mudar?
â Ă, ele tem â disse Sarah. â Veja os escritores do sĂ©culo passado, eles usavam penas de aves. Naquele tempo, ele teria se apegado a essas penas, teria lutado contra qualquer mudança.
â Penso muito em minha maldita alma.
â VocĂȘ muda suas marcas de bebida, nĂŁo muda? â perguntou Vin.
â Ăéé...
â Tudo bem, entĂŁo...
Vin ergueu sua taça, esvaziou-a.
Eu servi mais vinho a todos.
â O que a gente precisa Ă© fazer de vocĂȘ uma Corporação, pra conseguir todas as vantagens dos impostos.
â Isso soa terrĂvel.
â Eu disse a vocĂȘ, se nĂŁo quer pagar imposto tem de fazer como eu digo.
â Eu sĂł quero bater Ă mĂĄquina, nĂŁo quero andar por aĂ carregando um fardo enorme.
â VocĂȘ sĂł tem de nomear um Conselho de Diretores, um SecretĂĄrio, um Tesoureiro, e por aĂ alĂ©m... Ă fĂĄcil.
â Soa horrĂvel. Escuta, tudo isso soa como um monte de merda. Talvez eu me dĂȘ melhor simplesmente pagando os impostos. NĂŁo quero ninguĂ©m me enchendo o saco. NĂŁo quero o cara do imposto de renda batendo em minha porta Ă meia-noite. Pago atĂ© mais pra garantir que me deixem em paz.
â Isso Ă© idiotice â disse Vin. â NinguĂ©m deve jamais pagar impostos.
â Por que nĂŁo dĂĄ uma chance a Vin? Ele sĂł estĂĄ querendo te ajudar â disse Sarah.
â Veja, eu mando pra vocĂȘ pelo correio os documentos da Corporação. Ă sĂł ler e assinar. Vai ver que nĂŁo tem nada a temer.
â Essa coisa toda, sabe, atrapalha. Estou trabalhando num argumento e preciso ter as ideias claras.
â Um argumento, hum? Sobre o que Ă©?
â Um bĂȘbado.
â Ah, vocĂȘ, hum?
â Bem, tem outros.
â Consegui fazer ele beber vinho agora â disse Sarah. â Estava quase morto quando conheci ele. UĂsque, cerveja, vodca, gim, ale...
â JĂĄ sou consultor de Darby Evans hĂĄ alguns anos. VocĂȘ sabe, ele Ă© argumentista.
â Eu nĂŁo vou ao cinema.
â Ele escreveu O Coelho que Saltou no CĂ©u; Waffles com Lulu; Terror no Zoo. EstĂĄ fĂĄcil na casa dos seis dĂgitos. E Ă© uma Corporação.
NĂŁo respondi.
â NĂŁo tem pago um vintĂ©m de imposto. E Ă© tudo legal...
â DĂȘ uma chance a Vin â disse Sarah.
Ergui minha taça.
â Tudo bem. Merda. A isso!
â Bom garoto â disse Vin.
Esvaziei meu copo e encontrei outra garrafa. Tirei a rolha e servi a todos.
Deixei minha mente ir na coisa; vocĂȘ Ă© um operador esperto. Ă astuto. Por que pagar bombas que despedaçam crianças indefesas? Dirija um BMW. Tenha uma vista do porto. Vote nos republicanos.
EntĂŁo me ocorreu outra ideia.
NĂŁo estarĂĄ vocĂȘ se tornando o que sempre odiou?
E veio a resposta:
Merda, vocĂȘ nĂŁo tem dinheiro de verdade mesmo. Por que nĂŁo brincar com essa coisa de farra?
Continuamos bebendo, comemorando alguma coisa.
â Hollywood
supermercados eles sĂŁo magricelos e
orgulhosos e estĂŁo morrendo
passam fome ali de pé e nada
dizem. muito tempo atrĂĄs, entre outras mentiras,
lhes ensinaram que o silĂȘncio era uma forma de
bravura. agora, tendo trabalhado uma vida inteira,
foram emboscados pela inflação. olham ao redor
roubam uma uva
mastigam-na. por fim fazem uma
comprinha, para o dia.
outra mentira que lhes ensinaram:
nĂŁo roubarĂĄs.
Ă© melhor morrer de fome que roubar
(uma uva nĂŁo os salvarĂĄ)
e em quartos minĂșsculos
enquanto leem os anĂșncios no jornal
morrerĂŁo de fome
morrerĂŁo silenciosos
expulsos das pensÔes
por jovens loiros e cabeludos
que os farĂŁo deslizar para dentro
e se afastarĂŁo do meio-fio, esses
jovens
pensando em Vegas e buceta e
vitĂłria.
Ă© a ordem das coisas: cada um
prova o gostinho do mel
e depois a faca.
Vin Marbad vinha altamente recomendado por Michael Huntington, meu fotógrafo oficial. Michael me fotografava constantemente, mas até então não houvera muitos pedidos desses trabalhos.
Marbad era consultor de impostos. Chegou uma noite com sua maleta, um homenzinho moreno. Eu jĂĄ bebia tranquilamente hĂĄ algumas horas, sentado com Sarah vendo um filme em minha velha TV preto e branco.
Ele bateu com rĂĄpida dignidade e eu o deixei entrar, apresentei-o a Sarah e servi-lhe vinho.
â Obrigado â ele disse, tomando um gole. â VocĂȘ sabe que, aqui na AmĂ©rica, se vocĂȘ nĂŁo gasta dinheiro, eles tomam.
â Ăéé? Que quer que eu faça?
â DĂȘ uma entrada numa casa.
â Hum?
â Os pagamentos das hipotecas sĂŁo dedutĂveis do imposto de renda.
â Ăéé, que mais?
â Compre um carro. Ă dedutĂvel.
â Todo?
â NĂŁo, sĂł um pouco. Deixa que eu cuido disso. O que a gente precisa Ă© criar pra vocĂȘ algumas proteçÔes contra os impostos. Veja aqui...
Vin Marbad abriu sua maleta e retirou muitas folhas de papel. Levantou-se e aproximou-se de mim com elas.
â Bens imĂłveis. Aqui, olhe, eu comprei um pouco de terra no Oregon. Isto Ă© um cancelamento de imposto. Ainda tem alguns hectares Ă venda. VocĂȘ pode entrar agora. Esperamos uma valorização de 25% cada ano. Em outras palavras, dentro de quatro anos seu dinheiro dobra...
â NĂŁo, nĂŁo, por favor volte a sentar.
â Que Ă© que hĂĄ?
â NĂŁo quero comprar nada que eu nĂŁo possa ver, nĂŁo quero comprar nada que nĂŁo possa alcançar e tocar.
â EstĂĄ dizendo que nĂŁo confia em mim?
â Eu acabo de conhecer vocĂȘ.
â Eu tenho recomendaçÔes em todo o mundo!
â Eu sempre confio em meu instinto.
Vin Marbad girou de volta ao sofå onde deixara seu casaco; enfiou-o e lançou-se para a porta com sua maleta, abriu-a, saiu e fechou-a.
â VocĂȘ ofendeu ele â disse Sarah. â Ele sĂł queria te mostrar algumas maneiras de economizar dinheiro.
â Eu tenho duas regras. Uma delas Ă©: jamais confie num cara que fuma cachimbo. A outra: jamais confie num cara de sapato lustroso.
â Ele nĂŁo fumava cachimbo.
â Bem, parece um fumador de cachimbo.
â VocĂȘ ofendeu ele.
â NĂŁo se preocupe, ele vai voltar...
A porta escancarou-se, e lå estava Vin Marbad. Cruzou a sala apressado até seu lugar original no sofå, tornou a tirar o casaco, pÎs a maleta a seus pés. Olhou-me.
â Michael me disse que vocĂȘ joga nos cavalinhos.
â Bem, ééé...
â Meu primeiro emprego, quando cheguei aqui, da Ăndia, foi no Hollywood Park. Era faxineiro lĂĄ. Sabe as vassouras que eles usam para varrer os bilhetes usados?
â Sei.
â JĂĄ notou como sĂŁo largas?
â JĂĄ.
â Bem, isso foi ideia minha. As vassouras eram do tamanho normal. Eu desenhei a nova. Fui ao setor de OperaçÔes com ela, e eles aproveitaram. Fui promovido pra OperaçÔes e venho subindo desde entĂŁo.
Servi-lhe outra bebida. Ele tomou um gole.
â Escuta, vocĂȘ bebe quando escreve?
â Sim, um bocado.
â Isso Ă© parte da sua inspiração. Vou fazer com que seja deduzido.
â Pode fazer isso?
â Claro. Sabe, fui eu que comecei a tornar dedutĂvel a gasolina usada no automĂłvel. Foi ideia minha.
â Filho da puta â eu disse.
â Muito interessante â disse Sarah.
â Dou um jeito de vocĂȘ nĂŁo pagar imposto nenhum e de modo legal.
â Parece Ăłtimo.
â Michael Huntington nĂŁo paga impostos. Pergunte pra ele.
â Acredito em vocĂȘ. Abaixo os impostos.
â Tudo bem, mas vocĂȘ tem de fazer o que eu digo. Primeiro, dĂȘ entrada numa casa, depois num carro. DĂȘ a largada. Arranje um carro bom. Um novo BMW.
â Tudo bem.
â Em que mĂĄquina datilografa? Uma manual?
â Ă.
â Arranje uma elĂ©trica. Ă dedutĂvel.
â Eu nĂŁo sei se consigo escrever numa elĂ©trica.
â VocĂȘ se acostuma em poucos dias.
â Quer dizer, nĂŁo sei se consigo criar numa elĂ©trica.
â Quer dizer que tem medo de mudar?
â Ă, ele tem â disse Sarah. â Veja os escritores do sĂ©culo passado, eles usavam penas de aves. Naquele tempo, ele teria se apegado a essas penas, teria lutado contra qualquer mudança.
â Penso muito em minha maldita alma.
â VocĂȘ muda suas marcas de bebida, nĂŁo muda? â perguntou Vin.
â Ăéé...
â Tudo bem, entĂŁo...
Vin ergueu sua taça, esvaziou-a.
Eu servi mais vinho a todos.
â O que a gente precisa Ă© fazer de vocĂȘ uma Corporação, pra conseguir todas as vantagens dos impostos.
â Isso soa terrĂvel.
â Eu disse a vocĂȘ, se nĂŁo quer pagar imposto tem de fazer como eu digo.
â Eu sĂł quero bater Ă mĂĄquina, nĂŁo quero andar por aĂ carregando um fardo enorme.
â VocĂȘ sĂł tem de nomear um Conselho de Diretores, um SecretĂĄrio, um Tesoureiro, e por aĂ alĂ©m... Ă fĂĄcil.
â Soa horrĂvel. Escuta, tudo isso soa como um monte de merda. Talvez eu me dĂȘ melhor simplesmente pagando os impostos. NĂŁo quero ninguĂ©m me enchendo o saco. NĂŁo quero o cara do imposto de renda batendo em minha porta Ă meia-noite. Pago atĂ© mais pra garantir que me deixem em paz.
â Isso Ă© idiotice â disse Vin. â NinguĂ©m deve jamais pagar impostos.
â Por que nĂŁo dĂĄ uma chance a Vin? Ele sĂł estĂĄ querendo te ajudar â disse Sarah.
â Veja, eu mando pra vocĂȘ pelo correio os documentos da Corporação. Ă sĂł ler e assinar. Vai ver que nĂŁo tem nada a temer.
â Essa coisa toda, sabe, atrapalha. Estou trabalhando num argumento e preciso ter as ideias claras.
â Um argumento, hum? Sobre o que Ă©?
â Um bĂȘbado.
â Ah, vocĂȘ, hum?
â Bem, tem outros.
â Consegui fazer ele beber vinho agora â disse Sarah. â Estava quase morto quando conheci ele. UĂsque, cerveja, vodca, gim, ale...
â JĂĄ sou consultor de Darby Evans hĂĄ alguns anos. VocĂȘ sabe, ele Ă© argumentista.
â Eu nĂŁo vou ao cinema.
â Ele escreveu O Coelho que Saltou no CĂ©u; Waffles com Lulu; Terror no Zoo. EstĂĄ fĂĄcil na casa dos seis dĂgitos. E Ă© uma Corporação.
NĂŁo respondi.
â NĂŁo tem pago um vintĂ©m de imposto. E Ă© tudo legal...
â DĂȘ uma chance a Vin â disse Sarah.
Ergui minha taça.
â Tudo bem. Merda. A isso!
â Bom garoto â disse Vin.
Esvaziei meu copo e encontrei outra garrafa. Tirei a rolha e servi a todos.
Deixei minha mente ir na coisa; vocĂȘ Ă© um operador esperto. Ă astuto. Por que pagar bombas que despedaçam crianças indefesas? Dirija um BMW. Tenha uma vista do porto. Vote nos republicanos.
EntĂŁo me ocorreu outra ideia.
NĂŁo estarĂĄ vocĂȘ se tornando o que sempre odiou?
E veio a resposta:
Merda, vocĂȘ nĂŁo tem dinheiro de verdade mesmo. Por que nĂŁo brincar com essa coisa de farra?
Continuamos bebendo, comemorando alguma coisa.
â Hollywood
À Espera
verÔes escaldantes na metade dos anos 30 em Los Angeles
onde um de cada trĂȘs lotes estava desocupado
e era um trajeto curto até as plantaçÔes
de laranja â
se vocĂȘ tivesse um carro e
gasolina.
verÔes escaldantes na metade dos anos 30 em Los Angeles
jovem demais pra ser um homem e velho demais pra ser
um garoto.
tempos difĂceis.
um vizinho tentou assaltar nossa
casa, meu pai o pegou
entrando pela
janela,
manteve-o preso ali no escuro
junto ao chĂŁo:
âseu filho da puta de
merda!â
âHenry, Henry, me solta,
me solta!â
âseu filho da puta, eu vou
te matar!â
minha mĂŁe ligou para a polĂcia.
outro vizinho colocou fogo na casa
numa tentativa de receber o
seguro.
acabou sendo investigado e
preso.
verÔes escaldantes na metade dos anos 30 em Los Angeles,
nada para fazer, nenhum lugar para ir, ouvindo
a conversa assustada de nossos pais
Ă noite:
âo que vamos fazer? o que vamos
fazer?â
âdeus, nĂŁo faço a menor ideia...â
cachorros famintos pelos becos, a pele tesa
as costelas marcadas, o pelo falhando, as lĂnguas
expostas, aqueles olhos tĂŁo tristes, mais tristes que toda a tristeza
da Terra.
verÔes escaldantes na metade dos anos 30 em Los Angeles
os homens da vizinhança em silĂȘncio
e as mulheres pĂĄlidas como
estĂĄtuas.
os parques cheios de socialistas,
comunistas, anarquistas, junto aos bancos do
parque, discursando, agitando.
o sol brilhava em meio a um céu aberto e
o oceano estava limpo
e nós não éramos
nem homens nem
garotos.
alimentĂĄvamos os cĂŁes com restos endurecidos de
pĂŁo
pelos quais ficavam muito agradecidos,
os olhos brilhando
maravilhados,
os rabos balançando diante de tanta
sorte
como
a Segunda Guerra Mundial veio em nossa direção,
assim mesmo, durante aqueles
verÔes escaldantes na metade dos anos 30 em Los Angeles.
Naquele verĂŁo, julho de 1934, metralharam John Dillinger na saĂda de um cinema em Chicago. Ele nĂŁo teve nenhuma chance. A Dama de Vermelho[5] o alcaguetou. Mais de um ano atrĂĄs o sistema bancĂĄrio havia entrado em colapso. A Lei Seca tinha sido revogada, e meu pai pĂŽde voltar a beber a cerveja Eastside. Mas o pior de tudo foi Dillinger ter sido pego. Muitas pessoas o admiravam, e sua morte causou grande comoção. Roosevelt era o presidente. Ele mantinha um programa no rĂĄdio em que conversava informalmente e todos escutavam. Realmente sabia falar. E ele começou a criar programas de trabalho para as pessoas. Mas as coisas continuavam muito ruins. E minhas espinhas pioraram, tornando-se descomunais.
Naquele mĂȘs de setembro eu fui designado para a escola de ensino mĂ©dio Woodheaven, mas meu pai insistiu para que eu fosse para a Chelsey.
â Olhe â eu disse â, Chelsey fica em outro bairro. Ă muito longe.
â VocĂȘ vai fazer o que estou mandando. Vai se matricular na Chelsey.
Eu sabia por que meu pai desejava que eu fosse para Chelsey. As famĂlias ricas botavam seus filhos lĂĄ. Meu pai era louco. Continuava com o sonho de ser rico. Quando Carequinha descobriu que eu estava indo para Chelsey, decidiu ir para lĂĄ tambĂ©m. NĂŁo conseguia me livrar dele nem das minhas espinhas.
No primeiro dia, seguimos de bicicleta atĂ© Chelsey e as estacionamos. Era uma sensação horrĂvel. Boa parte dos garotos, pelo menos os mais velhos, tinha seus prĂłprios automĂłveis, muitos deles conversĂveis novinhos, e eles nĂŁo eram pretos ou azul-marinho como os carros normais, eram de cores vibrantes: amarelo, verde, laranja e vermelho. Os caras sentavam ali, do lado de fora da escola, e as garotas se juntavam ao redor deles, loucas por uma carona. Todos se vestiam bem, os garotos e as garotas, usavam pulĂŽveres, relĂłgios de pulso e sapatos bacanas. Pareciam bastante maduros e tinham um ar de superioridade. E lĂĄ estava eu, minha camisa feita em casa, meu Ășnico par de calças totalmente surrado, meus sapatos esbodegados e coberto de espinhas. Os caras em seus carros nĂŁo se preocupavam com acne. Eles eram muito elegantes, altos e limpos, seus dentes brilhavam e seus cabelos nĂŁo eram lavados com sabonete. Eles pareciam saber algo que me era inacessĂvel. Mais uma vez, eu estava por baixo.
E uma vez que todos os caras tinham carros, Carequinha e eu nos envergonhåvamos de nossas bicicletas. Acabamos por deixå-las em casa, indo e voltando a pé da escola, uma distùncia de quatro quilÎmetros na ida e outros quatro na volta. Carregåvamos lancheiras marrons. Mas a maioria dos estudantes sequer comia na cafeteria da escola. Iam junto com as garotas até alguma lanchonete, colocavam as vitrolas para tocar e riam à vontade. Estavam a caminho da Universidade do Sul da Califórnia.
Eu tinha vergonha das minhas espinhas. Em Chelsey vocĂȘ podia escolher entre fazer educação fĂsica ou fazer o R.O.T.C.[6]. Escolhi o R.O.T.C. para nĂŁo ter que usar um abrigo de ginĂĄstica que permitiria que todos vissem as espinhas que me cobriam o corpo. Mas eu odiava o uniforme. A camiseta era de lĂŁ, o que irritava minhas feridas. UsĂĄvamos o uniforme de segunda a quinta. Na sexta, deixavam que usĂĄssemos nossas roupas normais.
EstudĂĄvamos o Manual do ExĂ©rcito. Era sobre atividades militares e outras merdas desse tipo. MarchĂĄvamos ao redor do campo. PraticĂĄvamos o que estava no Manual. Segurar o rifle durante os vĂĄrios exercĂcios era terrĂvel para mim. Eu tinha espinhas nos ombros. Algumas vezes, quando batia o rifle contra o meu ombro, uma espinha estourava e escorria pela minha camiseta. SaĂa sangue, mas como a camiseta era grossa e feita de lĂŁ, a mancha nĂŁo ficava visĂvel e nĂŁo se parecia com sangue.
Falei para minha mãe o que estava acontecendo. Ela costurou nos ombros um forro com tecido de algodão, mas isso só melhorou um pouquinho minha situação.
Uma vez um oficial veio fazer uma inspeção. Tomou o rifle das minhas mãos e o segurou, examinando o cano à procura de pó na parte interna do calibre. Atirou a arma de volta para mim, e então olhou para uma marca de sangue no meu ombro direito.
â Chinaski! â gritou. â Seu rifle estĂĄ com um vazamento de Ăłleo.
â Sim, senhor.
ConcluĂ o trimestre, mas minhas espinhas tinham piorado ainda mais. Elas eram do tamanho de nozes e cobriam minha face. Eu sentia muita vergonha. Algumas vezes, em casa, eu parava em frente ao espelho do banheiro e estourava uma das espinhas. Pus amarelo espirrava no espelho. E entĂŁo saĂa um pequeno caroço branco. De um ponto de vista escatolĂłgico, era fascinante que toda aquela porcaria pudesse caber ali dentro. Mas eu sabia como era difĂcil para as pessoas terem que me olhar.
A escola deve ter alertado meu pai. Ao final daquele trimestre, fui retirado da escola. Fiquei de cama e meus pais me cobriram de unguentos. Tinha uma pomada marrom que fedia. Era a preferida de meu pai. Queimava. Ele insistia para que eu a mantivesse no corpo, muito tempo além do que a bula indicava. Certa noite ele insistiu para que eu a deixasse agir por horas. Comecei a gritar. Corri para a banheira, enchia-a de ågua e removi a pomada, com dificuldade. Eu estava queimado no rosto, nas costas e no peito. Naquela noite me sentei na beirada da cama. Eu não conseguia me deitar.
Meu pai entrou no quarto.
â Acho que eu te disse para ficar com a pomada!
â Olhe o que aconteceu â eu falei.
Minha mĂŁe entrou no quarto.
â Esse filho da puta nĂŁo quer se curar â meu pai disse a ela. â O que foi que eu fiz para merecer um filho como esse?
Minha mĂŁe perdeu o emprego. Meu pai continuava saindo todas as manhĂŁs de carro como se estivesse indo trabalhar.
â Sou engenheiro â ele dizia Ă s pessoas. Seu sonho era ter sido engenheiro.
Deu-se um jeito para que eu fosse internado no Hospital Geral do Condado de Los Angeles. Recebi um cartĂŁo branco comprido. Peguei o cartĂŁo e tomei o bonde da linha 7. A passagem custava sete centavos (ou quatro passes por um quarto de dĂłlar). Guardei meu passe e fui me sentar no fundo. Tinha uma consulta Ă s oito e meia.
Algumas quadras depois um garotinho e uma mulher entraram no bonde. A mulher era gorda, e o garotinho devia ter uns quatro anos de idade. Sentaram-se no banco atrås de mim. Olhei pela janela. Seguimos. Gostava da linha 7. Ia em alta velocidade e balançava bastante enquanto lå fora o sol brilhava.
â MamĂŁe â ouvi o garotinho perguntar â, o que hĂĄ de errado no rosto daquele homem?
A mulher nĂŁo respondeu.
O garoto voltou a fazer a mesma pergunta.
Ela nĂŁo respondeu.
EntĂŁo o garoto gritou:
â MamĂŁe! O que hĂĄ de errado no rosto daquele homem?
â Cale a boca! NĂŁo sei o que hĂĄ de errado com o rosto dele.
Dirigi-me à recepção do hospital e eles me encaminharam para o quarto andar. Lå, a enfermeira sentada à mesa anotou meu nome e me disse para eu esperar sentado. Ficåvamos em duas longas filas de cadeiras verdes de metal, uma de frente para a outra. Mexicanos, brancos e negros. Não havia orientais. Não havia nada para ler. Alguns dos pacientes tinham jornais velhos. Havia pessoas de todas as idades, magras e gordas, velhas e jovens. Ninguém falava. Todos pareciam cansados. Os auxiliares passavam de lå para cå, de vez em quando se via uma enfermeira, mas nunca um médico. Passou-se uma hora, depois duas. Ninguém havia sido chamado. Levantei-me à procura de um bebedor. Olhei para as pequenas salas onde as pessoas seriam examinadas. Não havia ninguém em nenhuma delas, nem médicos, nem pacientes.
Fui até a mesa da enfermeira. Ela examinava um livro grosso, cheio de nomes escritos a mão. O telefone tocou. Ela atendeu.
â O dr. Menen ainda nĂŁo chegou â e desligou.
â Com licença â eu disse.
â Sim? â perguntou a enfermeira.
â Os mĂ©dicos ainda nĂŁo chegaram. Posso voltar mais tarde?
â NĂŁo.
â Mas nĂŁo hĂĄ ninguĂ©m aqui.
â Os mĂ©dicos estĂŁo atendendo.
â Mas eu tinha uma consulta Ă s oito e meia.
â Todos aqui estĂŁo marcados para as oito e meia.
Havia entre 45 e cinquenta pessoas esperando.
â JĂĄ que estou na lista de espera, que tal se eu voltar daqui a algumas horas, talvez alguns mĂ©dicos estejam aqui entĂŁo.
â Se vocĂȘ sair agora, perderĂĄ automaticamente a sua consulta. TerĂĄ que retornar amanhĂŁ, se ainda quiser receber um tratamento.
Voltei atĂ© onde estavam as cadeiras e me sentei. Os outros nĂŁo protestavam. Havia muito pouco movimento. Vez ou outra, duas ou trĂȘs enfermeiras passavam caminhando e rindo. Noutra oportunidade, empurravam um homem numa cadeira de rodas. Suas pernas estavam completamente enfaixadas e sua orelha, no lado em que pude ver quando passou, havia sido arrancada. Havia um buraco negro, dividido em pequenas seçÔes, e era como se uma aranha tivesse entrado ali e tecido sua teia. Horas se passaram. A hora do almoço veio e se foi. Outra hora passou. E entĂŁo mais duas. NĂłs sentados, esperando. EntĂŁo alguĂ©m disse:
â LĂĄ vem um mĂ©dico!
O médico entrou numa das salinhas e fechou a porta. Ficamos na expectativa. Nada. Uma enfermeira entrou. Escutamos uma risada. Então ela saiu. Cinco minutos. Dez minutos. O médico saiu com uma prancheta na mão.
â Martinez? â o mĂ©dico chamou. â JosĂ© Martinez?
Um mexicano, velho e magro, ficou de pé e caminhou na direção do médico.
â Martinez? Martinez, meu velho, como vocĂȘ estĂĄ?
â Mal, doutor... Acho que vou morrer...
â Bem, agora... entre aqui...
Martinez ficou muito tempo lĂĄ dentro. Peguei um jornal que alguĂ©m havia deixado e tentei lĂȘ-lo. Mas todos pensĂĄvamos no destino de Martinez. Se Martinez chegasse um dia a sair dali, o prĂłximo seria chamado.
EntĂŁo Martinez gritou.
â AHHHHH! AHHHHH! PARE! PARE! AHHHH! TENHA PIEDADE! POR DEUS! PARE, POR FAVOR!
â Calma, calma, nĂŁo Ă© para tanto... â disse o mĂ©dico.
Martinez voltou a gritar. Uma enfermeira entrou na salinha. Houve silĂȘncio. Tudo que podĂamos ver era a sombra da porta entreaberta. EntĂŁo um auxiliar tambĂ©m correu para lĂĄ. Martinez emitiu um som que parecia um gorgulho. Foi removido numa cama com rodinhas. A enfermeira e o auxiliar o empurraram pelo corredor, fazendo-o passar por uma porta de vaivĂ©m. Martinez estava coberto por um lençol, mas ele nĂŁo estava morto, pois o tecido nĂŁo lhe cobria o rosto.
O médico ficou na sua sala por mais uns dez minutos. Então saiu com a prancheta.
â Jeferson Williams? â ele perguntou.
NĂŁo houve resposta.
â Jeferson Williams estĂĄ aĂ?
Não houve reação.
â Mary Blackthorne?
NĂŁo houve resposta.
â Harry Lewis?
â Sim, doutor?
â Venha, por favor...
As consultas progrediam muito devagar. O mĂ©dico examinou mais cinco pacientes. EntĂŁo deixou a sala, parou junto Ă mesa da enfermeira, acendeu um cigarro e falou com ela por uns quinze minutos. Parecia ser um homem muito inteligente. Tinha um tique no lado direito da face, que ficava se contraindo. Seu cabelo era ruivo com algumas mechas grisalhas. Usava Ăłculos que ficava pondo e tirando o tempo todo. Outra enfermeira apareceu e lhe serviu uma xĂcara de cafĂ©. Tomou um gole, e entĂŁo, segurando o cafĂ© numa das mĂŁos, com a outra empurrou a porta vaivĂ©m e desapareceu.
A enfermeira se levantou da mesa com nossos longos cartĂ”es brancos e chamou por nossos nomes. Ă medida que Ăamos respondendo, ela nos devolvia os cartĂ”es.
â O expediente de hoje terminou. Por favor, retornem amanhĂŁ, se quiserem. O horĂĄrio de sua consulta estĂĄ marcado no cartĂŁo.
Olhei para o meu. Estava escrito oito e meia da manhĂŁ.
â Misto-quente
Era como uma broca para madeira, poderia ser mesmo uma broca para madeira, eu podia sentir o fedor do Ăłleo queimando, e eles enfiavam aquela coisa na minha cabeça e na minha carne, e a broca perfurava e saĂa sangue e pus e eu ficava lĂĄ sentado, vagando sobre a corda bamba, Ă beira de um precipĂcio. Eu estava coberto de espinhas monstruosas do tamanho de pequenas maçãs.
Era ridĂculo e inacreditĂĄvel.
â O pior caso que jĂĄ vi â disse um dos mĂ©dicos, e olha que ele era velho.
Eles se reuniam ao redor de mim como se eu fosse uma aberração.
Eu era uma aberração. Ainda sou uma aberração. Andava de bonde, indo e vindo da ala de caridade do hospital. As crianças no bonde me olhavam e perguntavam a suas mães:
â O que hĂĄ de errado com aquele homem? MĂŁe, o que hĂĄ de errado com a cara daquele homem?
E a mĂŁe fazia:
â PSSSIIIIT!!!
Aquele psit era a pior das condenaçÔes, e depois daquilo elas deixavam que os pequenos cretinos e cretininhas me encarassem por sobre os encostos de seus assentos, e eu olhava pela janela e observava os prĂ©dios passando e me afogava, eu estava rastejando e me afogando, nĂŁo havia nada a fazer. Os mĂ©dicos, por nĂŁo saberem como chamar o que eu tinha, chamavam de Acne vulgaris. Ficava sentado por horas em um banco de madeira enquanto esperava por minha broca de madeira. Que histĂłria triste, nĂ©? Lembro-me dos prĂ©dios velhos de tijolos, das enfermeiras calmas e descansadas, dos mĂ©dicos rindo, enquanto faziam aquela coisa. Foi ali que aprendi sobre a falĂĄcia dos hospitais... que os mĂ©dicos eram reis e os pacientes eram merda e os hospitais estavam lĂĄ para que os mĂ©dicos pudessem desfilar toda a sua vigorosa e branca superioridade, alĂ©m de poderem trepar com as enfermeiras: â Doutor, doutor, doutor, aperta a minha bunda no elevador, esqueça o fedor do cĂąncer, esqueça o fedor da vida. NĂŁo somos pobres idiotas, nunca morreremos; bebemos nosso suco de cenoura e, quando nos sentimos mal, podemos tomar um remĂ©dio, uma injeção, toda a droga de que precisamos estĂĄ ao nosso alcance. Pio, pio, pio, a vida cantarĂĄ para nĂłs, somos as estrelas do momento. Eu entrava e sentava, e eles enfiavam a furadeira em mim. ZIRRRR ZIRRRR ZIRRRR, ZIR, o sol, enquanto isso, cultivando dĂĄlias e laranjas e brilhando atravĂ©s dos vestidos das enfermeiras, enlouquecendo ainda mais as pobres aberraçÔes. Zirrrrrrr, zirrrr, zirr.
â Nunca vi ninguĂ©m suportar a broca desse jeito!
â Olhem para ele, frio como aço!
Mais uma vez uma reuniĂŁo de comedores de enfermeiras, uma reuniĂŁo de homens que tinham casas grandes e tempo para rir e ler e ir ao teatro e comprar pinturas e esquecer como pensar, esquecer como sentir qualquer coisa. Jalecos engomados e a minha derrota. A reuniĂŁo.
â Como vocĂȘ se sente?
â Maravilhoso.
â NĂŁo acha que a agulha machuca um pouco?
â VĂĄ se foder.
â Como?
â Mandei vocĂȘ se foder.
â Ă apenas um garoto. Um garoto amargo. NĂŁo podemos culpĂĄ-lo. Quantos anos vocĂȘ tem?
â Catorze.
â Estava apenas elogiando a sua coragem, a forma como suportou a agulha. VocĂȘ Ă© durĂŁo.
â VĂĄ se foder.
â NĂŁo pode falar assim comigo.
â Foda-se. Foda-se. Foda-se.
â VocĂȘ devia se manter mais positivo. Imagina se vocĂȘ fosse cego?
â EntĂŁo nĂŁo precisaria olhar para sua cara estĂșpida.
â O garoto Ă© louco.
â Claro que ele Ă©, deixem-no em paz.
Esse era um hospital qualquer, e nĂŁo imaginei que voltaria lĂĄ vinte anos mais tarde, novamente para a ala de caridade. Hospitais e prisĂ”es e prostĂbulos: eis as universidades da vida. Eu jĂĄ recebera vĂĄrios tĂtulos dessas instituiçÔes. Exigia ser tratado por senhor.
â Ao sul de lugar nenhum
A mĂĄquina de raios ultravioleta emitiu um clique e se apagou. Eu havia recebido tratamento nos dois lados. Retirei os Ăłculos protetores e comecei a me vestir. A srta. Ackerman entrou na sala.
â Ainda nĂŁo â ela disse â, fique sem roupa.
O que ela ia fazer comigo?, pensei.
â Sente-se na ponta da mesa.
Sentei-me ali, e ela começou a esfregar um unguento no meu rosto. Era uma substùncia grossa e com textura semelhante à de manteiga.
â Os mĂ©dicos decidiram tentar um novo tratamento. Vamos enfaixar seu rosto para tornar a drenagem mais efetiva.
â Srta. Ackerman, o que aconteceu com o homem do nariz grande? O nariz continuou crescendo?
â O sr. Sleeth?
â O homem do narigĂŁo.
â Era o sr. Sleeth.
â NĂŁo o vejo mais por aqui. Ele conseguiu se curar?
â Morreu.
â VocĂȘ quer dizer que ele morreu por causa do nariz?
â SuicĂdio.
A srta. Ackerman continuou a aplicar o unguento.
EntĂŁo escutei um homem gritar na sala ao lado:
â Joe, cadĂȘ vocĂȘ? Joe, vocĂȘ disse que voltaria! Joe, cadĂȘ vocĂȘ?
A voz era alta e muito triste, cheia de agonia.
â Ele fez isso durante todas as tardes desta semana â disse a srta. Ackerman â e nada do Joe aparecer para buscĂĄ-lo.
â Eles podem ajudĂĄ-lo?
â NĂŁo sei. Finalmente ficaram quietos. Agora ponha o dedo aqui e segure esta gaze enquanto eu o enfaixo. Isso. Assim. Ă isso. Pode tirar o dedo. Muito bem.
â Joe, Joe, vocĂȘ disse que ia voltar! Onde vocĂȘ estĂĄ, Joe?
â Agora segure tambĂ©m esta outra gaze. Isso. Segure bem. Vou enfaixar vocĂȘ bem direitinho! Isso. Falta sĂł fazer os curativos.
Logo seu trabalho estava acabado.
â Ok, ponha suas roupas. Vejo vocĂȘ depois de amanhĂŁ. AtĂ© mais, Henry.
â AtĂ© mais, srta. Ackerman.
Pus uma roupa, deixei o quarto e caminhei pelo corredor. Havia um espelho junto à måquina de cigarros no saguão. Olhei para meu reflexo. Era genial. A minha cabeça estava inteiramente enfaixada. Eu estava todo branco. Não se podia ver nada além de meus olhos, minha boca e minhas orelhas, e alguns tufos de cabelo no topo da minha cabeça. Eu tinha sido ocultado. Era maravilhoso. Fiquei ali e acendi um cigarro, dei uma olhada no saguão. Alguns internos estavam sentados, lendo jornais e revistas. Senti-me extraordinårio e também um pouco diabólico. Ninguém tinha a mais vaga ideia do que acontecera comigo. Um acidente de carro. Uma briga até a morte. Um assassinato. Fogo. Ninguém sabia.
Caminhei pelo saguão e para fora do prédio e fiquei plantado na calçada. Ainda podia ouvir:
â Joe! Joe! CadĂȘ vocĂȘ, Joe?
Joe não ia vir. Não valia a pena confiar em nenhum outro ser humano. O que quer que fosse preciso para estabelecer essa confiança não estava presente na humanidade.
Na volta, no bonde, sentei no fundo, fumando cigarros pelo buraco da boca em minha cabeça enfaixada. As pessoas me olhavam, mas eu nĂŁo dava a mĂnima. Havia mais medo do que horror em seus olhos. Desejei permanecer assim para sempre.
Segui atĂ© o final da linha e desci. A tarde caĂa e fiquei na esquina da avenida Washington com a Westview, observando as pessoas. Os poucos que tinham emprego voltavam para casa apĂłs a jornada de trabalho. Logo meu pai chegaria de carro do seu falso emprego. Eu nĂŁo tinha emprego nem ia Ă escola. Eu nĂŁo fazia nada. Estava enfaixado, parado numa esquina fumando um cigarro. Eu era um cara durĂŁo, um cara perigoso. Eu sabia das coisas. Sleeth tinha se suicidado. Eu nĂŁo iria me suicidar. Preferia matar alguns deles. Levaria quatro ou cinco deles comigo. Ia mostrar para aquela corja o que significava me fazerem de palhaço.
Uma mulher veio andando pela rua em minha direção. Tinha pernas espetaculares. Primeiro, olhei diretamente em seus olhos e então me fixei em suas pernas. Assim que ela passou, fiquei olhando seu rabo, absorvendo cada detalhe daquele rabo maravilhoso, memorizando, guardando inclusive as costuras de suas meias de seda.
Jamais poderia ter feito isso sem minhas bandagens.
As bandagens ajudaram. O Hospital Geral do Condado de Los Angeles finalmente conseguira alguma coisa. As espinhas secaram. Elas nĂŁo haviam desaparecido, mas diminuĂram um pouco de tamanho. Ainda assim, novas surgiriam, erguendo-se outra vez. Novamente me furaram e me enfaixaram.
Minhas sessĂ”es de drenagem eram interminĂĄveis. Trinta e duas, 36, 38 vezes. O medo das agulhas se fora, se Ă© que um dia o tivera. Havia apenas a raiva, mas esta tambĂ©m havia desaparecido. NĂŁo havia sequer resignação da minha parte, apenas desgosto, um desgosto profundo por isso ter acontecido comigo, e um desgosto com os mĂ©dicos que nĂŁo podiam fazer nada a respeito. Estavam impotentes diante das feridas, assim como eu. A diferença Ă© que eu era a vĂtima. Eles podiam ir para suas casas e viver suas vidas e esquecer, enquanto eu estava condenado a carregar este rosto comigo aonde quer que eu fosse.
Aconteceram, no entanto, mudanças na minha vida. Meu pai arrumou um emprego. Passou no concurso para guarda do Museu do Condado de Los Angeles. Meu pai era bom em concursos. Adorava matemĂĄtica e histĂłria. Passou no concurso e finalmente arrumou um lugar de verdade para ir todas as manhĂŁs. Havia trĂȘs vagas para guarda e ele conquistou uma delas.
O Hospital Geral do Condado de Los Angeles de alguma forma descobriu sobre meu pai, e a srta. Ackerman me disse um dia:
â Henry, este serĂĄ seu Ășltimo tratamento. Vou sentir sua falta.
â Ah, corta essa â eu disse â, pare com essa brincadeira. VocĂȘ vai sentir a minha falta tanto quanto eu vou sentir falta dessas agulhas elĂ©tricas!
Ela, porém, estava bastante estranha naquele dia. Aqueles olhos enormes estavam marejados. Escutei quando assoou o nariz. Uma das enfermeiras lhe perguntou:
â O que hĂĄ, Janice? O que hĂĄ de errado com vocĂȘ?
â Nada. Estou bem.
Pobre srta. Ackerman. Eu tinha quinze anos e estava apaixonado por ela e eu estava coberto de espinhas e não havia nada que nós dois pudéssemos fazer.
â Vamos â ela disse â, este vai ser seu Ășltimo tratamento com os raios ultravioleta. Deite-se de bruços.
â Agora jĂĄ sei o seu primeiro nome â eu disse. â Janice. Ă um nome bonito. Assim como vocĂȘ.
â Oh, fique quieto â ela disse.
Ainda a vi mais uma vez quando o primeiro zumbido soou. Eu me virei, Janice reajustou a mĂĄquina e deixou a sala. Jamais voltei a vĂȘ-la.
Meu pai não acreditava em médicos que não fossem de graça.
â Eles fazem vocĂȘ mijar num tubo, levam seu dinheiro e vĂŁo para casa para ficar ao lado de suas esposas em Beverly Hills â ele disse.
Uma vez, contudo, ele me mandou até um. Era um médico com mau hålito e a cabeça redonda como uma bola de basquete. A diferença é que ele tinha dois olhinhos onde uma bola de basquete não teria nenhum. Eu não gostava do meu pai, e o médico não era muito melhor. Ele disse, nada de frituras, e beba suco de cenoura. E foi isso.
Eu retornaria para a escola no prĂłximo trimestre, disse meu pai.
â Estou arriscando meu rabo para evitar que as pessoas roubem. Ontem um negro quebrou o vidro de uma caixa e roubou algumas moedas raras. Peguei o desgraçado. Rolamos juntos escada abaixo. Dei um jeito de segurĂĄ-lo atĂ© que os outros chegassem. Arrisco minha vida todos os dias. Por que Ă© que vocĂȘ poderia ficar aĂ sem mexer o seu rabo, deprimido? Quero que vocĂȘ seja um engenheiro. Como, diabos, vocĂȘ vai ser um engenheiro se eu encontro um caderno cheio de desenhos de mulheres com as saias arriadas atĂ© a altura da bunda? Isso Ă© tudo o que vocĂȘ Ă© capaz de desenhar? Por que vocĂȘ nĂŁo desenha flores ou montanhas ou o oceano? VocĂȘ vai voltar para a escola!
Eu bebia suco de cenoura, esperando pelo momento de ser rematriculado. Eu tinha perdido apenas um trimestre. As espinhas nĂŁo estavam curadas, mas jĂĄ nĂŁo estavam tĂŁo terrĂveis quanto antes.
â Misto-quente
onde um de cada trĂȘs lotes estava desocupado
e era um trajeto curto até as plantaçÔes
de laranja â
se vocĂȘ tivesse um carro e
gasolina.
verÔes escaldantes na metade dos anos 30 em Los Angeles
jovem demais pra ser um homem e velho demais pra ser
um garoto.
tempos difĂceis.
um vizinho tentou assaltar nossa
casa, meu pai o pegou
entrando pela
janela,
manteve-o preso ali no escuro
junto ao chĂŁo:
âseu filho da puta de
merda!â
âHenry, Henry, me solta,
me solta!â
âseu filho da puta, eu vou
te matar!â
minha mĂŁe ligou para a polĂcia.
outro vizinho colocou fogo na casa
numa tentativa de receber o
seguro.
acabou sendo investigado e
preso.
verÔes escaldantes na metade dos anos 30 em Los Angeles,
nada para fazer, nenhum lugar para ir, ouvindo
a conversa assustada de nossos pais
Ă noite:
âo que vamos fazer? o que vamos
fazer?â
âdeus, nĂŁo faço a menor ideia...â
cachorros famintos pelos becos, a pele tesa
as costelas marcadas, o pelo falhando, as lĂnguas
expostas, aqueles olhos tĂŁo tristes, mais tristes que toda a tristeza
da Terra.
verÔes escaldantes na metade dos anos 30 em Los Angeles
os homens da vizinhança em silĂȘncio
e as mulheres pĂĄlidas como
estĂĄtuas.
os parques cheios de socialistas,
comunistas, anarquistas, junto aos bancos do
parque, discursando, agitando.
o sol brilhava em meio a um céu aberto e
o oceano estava limpo
e nós não éramos
nem homens nem
garotos.
alimentĂĄvamos os cĂŁes com restos endurecidos de
pĂŁo
pelos quais ficavam muito agradecidos,
os olhos brilhando
maravilhados,
os rabos balançando diante de tanta
sorte
como
a Segunda Guerra Mundial veio em nossa direção,
assim mesmo, durante aqueles
verÔes escaldantes na metade dos anos 30 em Los Angeles.
Naquele verĂŁo, julho de 1934, metralharam John Dillinger na saĂda de um cinema em Chicago. Ele nĂŁo teve nenhuma chance. A Dama de Vermelho[5] o alcaguetou. Mais de um ano atrĂĄs o sistema bancĂĄrio havia entrado em colapso. A Lei Seca tinha sido revogada, e meu pai pĂŽde voltar a beber a cerveja Eastside. Mas o pior de tudo foi Dillinger ter sido pego. Muitas pessoas o admiravam, e sua morte causou grande comoção. Roosevelt era o presidente. Ele mantinha um programa no rĂĄdio em que conversava informalmente e todos escutavam. Realmente sabia falar. E ele começou a criar programas de trabalho para as pessoas. Mas as coisas continuavam muito ruins. E minhas espinhas pioraram, tornando-se descomunais.
Naquele mĂȘs de setembro eu fui designado para a escola de ensino mĂ©dio Woodheaven, mas meu pai insistiu para que eu fosse para a Chelsey.
â Olhe â eu disse â, Chelsey fica em outro bairro. Ă muito longe.
â VocĂȘ vai fazer o que estou mandando. Vai se matricular na Chelsey.
Eu sabia por que meu pai desejava que eu fosse para Chelsey. As famĂlias ricas botavam seus filhos lĂĄ. Meu pai era louco. Continuava com o sonho de ser rico. Quando Carequinha descobriu que eu estava indo para Chelsey, decidiu ir para lĂĄ tambĂ©m. NĂŁo conseguia me livrar dele nem das minhas espinhas.
No primeiro dia, seguimos de bicicleta atĂ© Chelsey e as estacionamos. Era uma sensação horrĂvel. Boa parte dos garotos, pelo menos os mais velhos, tinha seus prĂłprios automĂłveis, muitos deles conversĂveis novinhos, e eles nĂŁo eram pretos ou azul-marinho como os carros normais, eram de cores vibrantes: amarelo, verde, laranja e vermelho. Os caras sentavam ali, do lado de fora da escola, e as garotas se juntavam ao redor deles, loucas por uma carona. Todos se vestiam bem, os garotos e as garotas, usavam pulĂŽveres, relĂłgios de pulso e sapatos bacanas. Pareciam bastante maduros e tinham um ar de superioridade. E lĂĄ estava eu, minha camisa feita em casa, meu Ășnico par de calças totalmente surrado, meus sapatos esbodegados e coberto de espinhas. Os caras em seus carros nĂŁo se preocupavam com acne. Eles eram muito elegantes, altos e limpos, seus dentes brilhavam e seus cabelos nĂŁo eram lavados com sabonete. Eles pareciam saber algo que me era inacessĂvel. Mais uma vez, eu estava por baixo.
E uma vez que todos os caras tinham carros, Carequinha e eu nos envergonhåvamos de nossas bicicletas. Acabamos por deixå-las em casa, indo e voltando a pé da escola, uma distùncia de quatro quilÎmetros na ida e outros quatro na volta. Carregåvamos lancheiras marrons. Mas a maioria dos estudantes sequer comia na cafeteria da escola. Iam junto com as garotas até alguma lanchonete, colocavam as vitrolas para tocar e riam à vontade. Estavam a caminho da Universidade do Sul da Califórnia.
Eu tinha vergonha das minhas espinhas. Em Chelsey vocĂȘ podia escolher entre fazer educação fĂsica ou fazer o R.O.T.C.[6]. Escolhi o R.O.T.C. para nĂŁo ter que usar um abrigo de ginĂĄstica que permitiria que todos vissem as espinhas que me cobriam o corpo. Mas eu odiava o uniforme. A camiseta era de lĂŁ, o que irritava minhas feridas. UsĂĄvamos o uniforme de segunda a quinta. Na sexta, deixavam que usĂĄssemos nossas roupas normais.
EstudĂĄvamos o Manual do ExĂ©rcito. Era sobre atividades militares e outras merdas desse tipo. MarchĂĄvamos ao redor do campo. PraticĂĄvamos o que estava no Manual. Segurar o rifle durante os vĂĄrios exercĂcios era terrĂvel para mim. Eu tinha espinhas nos ombros. Algumas vezes, quando batia o rifle contra o meu ombro, uma espinha estourava e escorria pela minha camiseta. SaĂa sangue, mas como a camiseta era grossa e feita de lĂŁ, a mancha nĂŁo ficava visĂvel e nĂŁo se parecia com sangue.
Falei para minha mãe o que estava acontecendo. Ela costurou nos ombros um forro com tecido de algodão, mas isso só melhorou um pouquinho minha situação.
Uma vez um oficial veio fazer uma inspeção. Tomou o rifle das minhas mãos e o segurou, examinando o cano à procura de pó na parte interna do calibre. Atirou a arma de volta para mim, e então olhou para uma marca de sangue no meu ombro direito.
â Chinaski! â gritou. â Seu rifle estĂĄ com um vazamento de Ăłleo.
â Sim, senhor.
ConcluĂ o trimestre, mas minhas espinhas tinham piorado ainda mais. Elas eram do tamanho de nozes e cobriam minha face. Eu sentia muita vergonha. Algumas vezes, em casa, eu parava em frente ao espelho do banheiro e estourava uma das espinhas. Pus amarelo espirrava no espelho. E entĂŁo saĂa um pequeno caroço branco. De um ponto de vista escatolĂłgico, era fascinante que toda aquela porcaria pudesse caber ali dentro. Mas eu sabia como era difĂcil para as pessoas terem que me olhar.
A escola deve ter alertado meu pai. Ao final daquele trimestre, fui retirado da escola. Fiquei de cama e meus pais me cobriram de unguentos. Tinha uma pomada marrom que fedia. Era a preferida de meu pai. Queimava. Ele insistia para que eu a mantivesse no corpo, muito tempo além do que a bula indicava. Certa noite ele insistiu para que eu a deixasse agir por horas. Comecei a gritar. Corri para a banheira, enchia-a de ågua e removi a pomada, com dificuldade. Eu estava queimado no rosto, nas costas e no peito. Naquela noite me sentei na beirada da cama. Eu não conseguia me deitar.
Meu pai entrou no quarto.
â Acho que eu te disse para ficar com a pomada!
â Olhe o que aconteceu â eu falei.
Minha mĂŁe entrou no quarto.
â Esse filho da puta nĂŁo quer se curar â meu pai disse a ela. â O que foi que eu fiz para merecer um filho como esse?
Minha mĂŁe perdeu o emprego. Meu pai continuava saindo todas as manhĂŁs de carro como se estivesse indo trabalhar.
â Sou engenheiro â ele dizia Ă s pessoas. Seu sonho era ter sido engenheiro.
Deu-se um jeito para que eu fosse internado no Hospital Geral do Condado de Los Angeles. Recebi um cartĂŁo branco comprido. Peguei o cartĂŁo e tomei o bonde da linha 7. A passagem custava sete centavos (ou quatro passes por um quarto de dĂłlar). Guardei meu passe e fui me sentar no fundo. Tinha uma consulta Ă s oito e meia.
Algumas quadras depois um garotinho e uma mulher entraram no bonde. A mulher era gorda, e o garotinho devia ter uns quatro anos de idade. Sentaram-se no banco atrås de mim. Olhei pela janela. Seguimos. Gostava da linha 7. Ia em alta velocidade e balançava bastante enquanto lå fora o sol brilhava.
â MamĂŁe â ouvi o garotinho perguntar â, o que hĂĄ de errado no rosto daquele homem?
A mulher nĂŁo respondeu.
O garoto voltou a fazer a mesma pergunta.
Ela nĂŁo respondeu.
EntĂŁo o garoto gritou:
â MamĂŁe! O que hĂĄ de errado no rosto daquele homem?
â Cale a boca! NĂŁo sei o que hĂĄ de errado com o rosto dele.
Dirigi-me à recepção do hospital e eles me encaminharam para o quarto andar. Lå, a enfermeira sentada à mesa anotou meu nome e me disse para eu esperar sentado. Ficåvamos em duas longas filas de cadeiras verdes de metal, uma de frente para a outra. Mexicanos, brancos e negros. Não havia orientais. Não havia nada para ler. Alguns dos pacientes tinham jornais velhos. Havia pessoas de todas as idades, magras e gordas, velhas e jovens. Ninguém falava. Todos pareciam cansados. Os auxiliares passavam de lå para cå, de vez em quando se via uma enfermeira, mas nunca um médico. Passou-se uma hora, depois duas. Ninguém havia sido chamado. Levantei-me à procura de um bebedor. Olhei para as pequenas salas onde as pessoas seriam examinadas. Não havia ninguém em nenhuma delas, nem médicos, nem pacientes.
Fui até a mesa da enfermeira. Ela examinava um livro grosso, cheio de nomes escritos a mão. O telefone tocou. Ela atendeu.
â O dr. Menen ainda nĂŁo chegou â e desligou.
â Com licença â eu disse.
â Sim? â perguntou a enfermeira.
â Os mĂ©dicos ainda nĂŁo chegaram. Posso voltar mais tarde?
â NĂŁo.
â Mas nĂŁo hĂĄ ninguĂ©m aqui.
â Os mĂ©dicos estĂŁo atendendo.
â Mas eu tinha uma consulta Ă s oito e meia.
â Todos aqui estĂŁo marcados para as oito e meia.
Havia entre 45 e cinquenta pessoas esperando.
â JĂĄ que estou na lista de espera, que tal se eu voltar daqui a algumas horas, talvez alguns mĂ©dicos estejam aqui entĂŁo.
â Se vocĂȘ sair agora, perderĂĄ automaticamente a sua consulta. TerĂĄ que retornar amanhĂŁ, se ainda quiser receber um tratamento.
Voltei atĂ© onde estavam as cadeiras e me sentei. Os outros nĂŁo protestavam. Havia muito pouco movimento. Vez ou outra, duas ou trĂȘs enfermeiras passavam caminhando e rindo. Noutra oportunidade, empurravam um homem numa cadeira de rodas. Suas pernas estavam completamente enfaixadas e sua orelha, no lado em que pude ver quando passou, havia sido arrancada. Havia um buraco negro, dividido em pequenas seçÔes, e era como se uma aranha tivesse entrado ali e tecido sua teia. Horas se passaram. A hora do almoço veio e se foi. Outra hora passou. E entĂŁo mais duas. NĂłs sentados, esperando. EntĂŁo alguĂ©m disse:
â LĂĄ vem um mĂ©dico!
O médico entrou numa das salinhas e fechou a porta. Ficamos na expectativa. Nada. Uma enfermeira entrou. Escutamos uma risada. Então ela saiu. Cinco minutos. Dez minutos. O médico saiu com uma prancheta na mão.
â Martinez? â o mĂ©dico chamou. â JosĂ© Martinez?
Um mexicano, velho e magro, ficou de pé e caminhou na direção do médico.
â Martinez? Martinez, meu velho, como vocĂȘ estĂĄ?
â Mal, doutor... Acho que vou morrer...
â Bem, agora... entre aqui...
Martinez ficou muito tempo lĂĄ dentro. Peguei um jornal que alguĂ©m havia deixado e tentei lĂȘ-lo. Mas todos pensĂĄvamos no destino de Martinez. Se Martinez chegasse um dia a sair dali, o prĂłximo seria chamado.
EntĂŁo Martinez gritou.
â AHHHHH! AHHHHH! PARE! PARE! AHHHH! TENHA PIEDADE! POR DEUS! PARE, POR FAVOR!
â Calma, calma, nĂŁo Ă© para tanto... â disse o mĂ©dico.
Martinez voltou a gritar. Uma enfermeira entrou na salinha. Houve silĂȘncio. Tudo que podĂamos ver era a sombra da porta entreaberta. EntĂŁo um auxiliar tambĂ©m correu para lĂĄ. Martinez emitiu um som que parecia um gorgulho. Foi removido numa cama com rodinhas. A enfermeira e o auxiliar o empurraram pelo corredor, fazendo-o passar por uma porta de vaivĂ©m. Martinez estava coberto por um lençol, mas ele nĂŁo estava morto, pois o tecido nĂŁo lhe cobria o rosto.
O médico ficou na sua sala por mais uns dez minutos. Então saiu com a prancheta.
â Jeferson Williams? â ele perguntou.
NĂŁo houve resposta.
â Jeferson Williams estĂĄ aĂ?
Não houve reação.
â Mary Blackthorne?
NĂŁo houve resposta.
â Harry Lewis?
â Sim, doutor?
â Venha, por favor...
As consultas progrediam muito devagar. O mĂ©dico examinou mais cinco pacientes. EntĂŁo deixou a sala, parou junto Ă mesa da enfermeira, acendeu um cigarro e falou com ela por uns quinze minutos. Parecia ser um homem muito inteligente. Tinha um tique no lado direito da face, que ficava se contraindo. Seu cabelo era ruivo com algumas mechas grisalhas. Usava Ăłculos que ficava pondo e tirando o tempo todo. Outra enfermeira apareceu e lhe serviu uma xĂcara de cafĂ©. Tomou um gole, e entĂŁo, segurando o cafĂ© numa das mĂŁos, com a outra empurrou a porta vaivĂ©m e desapareceu.
A enfermeira se levantou da mesa com nossos longos cartĂ”es brancos e chamou por nossos nomes. Ă medida que Ăamos respondendo, ela nos devolvia os cartĂ”es.
â O expediente de hoje terminou. Por favor, retornem amanhĂŁ, se quiserem. O horĂĄrio de sua consulta estĂĄ marcado no cartĂŁo.
Olhei para o meu. Estava escrito oito e meia da manhĂŁ.
â Misto-quente
Era como uma broca para madeira, poderia ser mesmo uma broca para madeira, eu podia sentir o fedor do Ăłleo queimando, e eles enfiavam aquela coisa na minha cabeça e na minha carne, e a broca perfurava e saĂa sangue e pus e eu ficava lĂĄ sentado, vagando sobre a corda bamba, Ă beira de um precipĂcio. Eu estava coberto de espinhas monstruosas do tamanho de pequenas maçãs.
Era ridĂculo e inacreditĂĄvel.
â O pior caso que jĂĄ vi â disse um dos mĂ©dicos, e olha que ele era velho.
Eles se reuniam ao redor de mim como se eu fosse uma aberração.
Eu era uma aberração. Ainda sou uma aberração. Andava de bonde, indo e vindo da ala de caridade do hospital. As crianças no bonde me olhavam e perguntavam a suas mães:
â O que hĂĄ de errado com aquele homem? MĂŁe, o que hĂĄ de errado com a cara daquele homem?
E a mĂŁe fazia:
â PSSSIIIIT!!!
Aquele psit era a pior das condenaçÔes, e depois daquilo elas deixavam que os pequenos cretinos e cretininhas me encarassem por sobre os encostos de seus assentos, e eu olhava pela janela e observava os prĂ©dios passando e me afogava, eu estava rastejando e me afogando, nĂŁo havia nada a fazer. Os mĂ©dicos, por nĂŁo saberem como chamar o que eu tinha, chamavam de Acne vulgaris. Ficava sentado por horas em um banco de madeira enquanto esperava por minha broca de madeira. Que histĂłria triste, nĂ©? Lembro-me dos prĂ©dios velhos de tijolos, das enfermeiras calmas e descansadas, dos mĂ©dicos rindo, enquanto faziam aquela coisa. Foi ali que aprendi sobre a falĂĄcia dos hospitais... que os mĂ©dicos eram reis e os pacientes eram merda e os hospitais estavam lĂĄ para que os mĂ©dicos pudessem desfilar toda a sua vigorosa e branca superioridade, alĂ©m de poderem trepar com as enfermeiras: â Doutor, doutor, doutor, aperta a minha bunda no elevador, esqueça o fedor do cĂąncer, esqueça o fedor da vida. NĂŁo somos pobres idiotas, nunca morreremos; bebemos nosso suco de cenoura e, quando nos sentimos mal, podemos tomar um remĂ©dio, uma injeção, toda a droga de que precisamos estĂĄ ao nosso alcance. Pio, pio, pio, a vida cantarĂĄ para nĂłs, somos as estrelas do momento. Eu entrava e sentava, e eles enfiavam a furadeira em mim. ZIRRRR ZIRRRR ZIRRRR, ZIR, o sol, enquanto isso, cultivando dĂĄlias e laranjas e brilhando atravĂ©s dos vestidos das enfermeiras, enlouquecendo ainda mais as pobres aberraçÔes. Zirrrrrrr, zirrrr, zirr.
â Nunca vi ninguĂ©m suportar a broca desse jeito!
â Olhem para ele, frio como aço!
Mais uma vez uma reuniĂŁo de comedores de enfermeiras, uma reuniĂŁo de homens que tinham casas grandes e tempo para rir e ler e ir ao teatro e comprar pinturas e esquecer como pensar, esquecer como sentir qualquer coisa. Jalecos engomados e a minha derrota. A reuniĂŁo.
â Como vocĂȘ se sente?
â Maravilhoso.
â NĂŁo acha que a agulha machuca um pouco?
â VĂĄ se foder.
â Como?
â Mandei vocĂȘ se foder.
â Ă apenas um garoto. Um garoto amargo. NĂŁo podemos culpĂĄ-lo. Quantos anos vocĂȘ tem?
â Catorze.
â Estava apenas elogiando a sua coragem, a forma como suportou a agulha. VocĂȘ Ă© durĂŁo.
â VĂĄ se foder.
â NĂŁo pode falar assim comigo.
â Foda-se. Foda-se. Foda-se.
â VocĂȘ devia se manter mais positivo. Imagina se vocĂȘ fosse cego?
â EntĂŁo nĂŁo precisaria olhar para sua cara estĂșpida.
â O garoto Ă© louco.
â Claro que ele Ă©, deixem-no em paz.
Esse era um hospital qualquer, e nĂŁo imaginei que voltaria lĂĄ vinte anos mais tarde, novamente para a ala de caridade. Hospitais e prisĂ”es e prostĂbulos: eis as universidades da vida. Eu jĂĄ recebera vĂĄrios tĂtulos dessas instituiçÔes. Exigia ser tratado por senhor.
â Ao sul de lugar nenhum
A mĂĄquina de raios ultravioleta emitiu um clique e se apagou. Eu havia recebido tratamento nos dois lados. Retirei os Ăłculos protetores e comecei a me vestir. A srta. Ackerman entrou na sala.
â Ainda nĂŁo â ela disse â, fique sem roupa.
O que ela ia fazer comigo?, pensei.
â Sente-se na ponta da mesa.
Sentei-me ali, e ela começou a esfregar um unguento no meu rosto. Era uma substùncia grossa e com textura semelhante à de manteiga.
â Os mĂ©dicos decidiram tentar um novo tratamento. Vamos enfaixar seu rosto para tornar a drenagem mais efetiva.
â Srta. Ackerman, o que aconteceu com o homem do nariz grande? O nariz continuou crescendo?
â O sr. Sleeth?
â O homem do narigĂŁo.
â Era o sr. Sleeth.
â NĂŁo o vejo mais por aqui. Ele conseguiu se curar?
â Morreu.
â VocĂȘ quer dizer que ele morreu por causa do nariz?
â SuicĂdio.
A srta. Ackerman continuou a aplicar o unguento.
EntĂŁo escutei um homem gritar na sala ao lado:
â Joe, cadĂȘ vocĂȘ? Joe, vocĂȘ disse que voltaria! Joe, cadĂȘ vocĂȘ?
A voz era alta e muito triste, cheia de agonia.
â Ele fez isso durante todas as tardes desta semana â disse a srta. Ackerman â e nada do Joe aparecer para buscĂĄ-lo.
â Eles podem ajudĂĄ-lo?
â NĂŁo sei. Finalmente ficaram quietos. Agora ponha o dedo aqui e segure esta gaze enquanto eu o enfaixo. Isso. Assim. Ă isso. Pode tirar o dedo. Muito bem.
â Joe, Joe, vocĂȘ disse que ia voltar! Onde vocĂȘ estĂĄ, Joe?
â Agora segure tambĂ©m esta outra gaze. Isso. Segure bem. Vou enfaixar vocĂȘ bem direitinho! Isso. Falta sĂł fazer os curativos.
Logo seu trabalho estava acabado.
â Ok, ponha suas roupas. Vejo vocĂȘ depois de amanhĂŁ. AtĂ© mais, Henry.
â AtĂ© mais, srta. Ackerman.
Pus uma roupa, deixei o quarto e caminhei pelo corredor. Havia um espelho junto à måquina de cigarros no saguão. Olhei para meu reflexo. Era genial. A minha cabeça estava inteiramente enfaixada. Eu estava todo branco. Não se podia ver nada além de meus olhos, minha boca e minhas orelhas, e alguns tufos de cabelo no topo da minha cabeça. Eu tinha sido ocultado. Era maravilhoso. Fiquei ali e acendi um cigarro, dei uma olhada no saguão. Alguns internos estavam sentados, lendo jornais e revistas. Senti-me extraordinårio e também um pouco diabólico. Ninguém tinha a mais vaga ideia do que acontecera comigo. Um acidente de carro. Uma briga até a morte. Um assassinato. Fogo. Ninguém sabia.
Caminhei pelo saguão e para fora do prédio e fiquei plantado na calçada. Ainda podia ouvir:
â Joe! Joe! CadĂȘ vocĂȘ, Joe?
Joe não ia vir. Não valia a pena confiar em nenhum outro ser humano. O que quer que fosse preciso para estabelecer essa confiança não estava presente na humanidade.
Na volta, no bonde, sentei no fundo, fumando cigarros pelo buraco da boca em minha cabeça enfaixada. As pessoas me olhavam, mas eu nĂŁo dava a mĂnima. Havia mais medo do que horror em seus olhos. Desejei permanecer assim para sempre.
Segui atĂ© o final da linha e desci. A tarde caĂa e fiquei na esquina da avenida Washington com a Westview, observando as pessoas. Os poucos que tinham emprego voltavam para casa apĂłs a jornada de trabalho. Logo meu pai chegaria de carro do seu falso emprego. Eu nĂŁo tinha emprego nem ia Ă escola. Eu nĂŁo fazia nada. Estava enfaixado, parado numa esquina fumando um cigarro. Eu era um cara durĂŁo, um cara perigoso. Eu sabia das coisas. Sleeth tinha se suicidado. Eu nĂŁo iria me suicidar. Preferia matar alguns deles. Levaria quatro ou cinco deles comigo. Ia mostrar para aquela corja o que significava me fazerem de palhaço.
Uma mulher veio andando pela rua em minha direção. Tinha pernas espetaculares. Primeiro, olhei diretamente em seus olhos e então me fixei em suas pernas. Assim que ela passou, fiquei olhando seu rabo, absorvendo cada detalhe daquele rabo maravilhoso, memorizando, guardando inclusive as costuras de suas meias de seda.
Jamais poderia ter feito isso sem minhas bandagens.
As bandagens ajudaram. O Hospital Geral do Condado de Los Angeles finalmente conseguira alguma coisa. As espinhas secaram. Elas nĂŁo haviam desaparecido, mas diminuĂram um pouco de tamanho. Ainda assim, novas surgiriam, erguendo-se outra vez. Novamente me furaram e me enfaixaram.
Minhas sessĂ”es de drenagem eram interminĂĄveis. Trinta e duas, 36, 38 vezes. O medo das agulhas se fora, se Ă© que um dia o tivera. Havia apenas a raiva, mas esta tambĂ©m havia desaparecido. NĂŁo havia sequer resignação da minha parte, apenas desgosto, um desgosto profundo por isso ter acontecido comigo, e um desgosto com os mĂ©dicos que nĂŁo podiam fazer nada a respeito. Estavam impotentes diante das feridas, assim como eu. A diferença Ă© que eu era a vĂtima. Eles podiam ir para suas casas e viver suas vidas e esquecer, enquanto eu estava condenado a carregar este rosto comigo aonde quer que eu fosse.
Aconteceram, no entanto, mudanças na minha vida. Meu pai arrumou um emprego. Passou no concurso para guarda do Museu do Condado de Los Angeles. Meu pai era bom em concursos. Adorava matemĂĄtica e histĂłria. Passou no concurso e finalmente arrumou um lugar de verdade para ir todas as manhĂŁs. Havia trĂȘs vagas para guarda e ele conquistou uma delas.
O Hospital Geral do Condado de Los Angeles de alguma forma descobriu sobre meu pai, e a srta. Ackerman me disse um dia:
â Henry, este serĂĄ seu Ășltimo tratamento. Vou sentir sua falta.
â Ah, corta essa â eu disse â, pare com essa brincadeira. VocĂȘ vai sentir a minha falta tanto quanto eu vou sentir falta dessas agulhas elĂ©tricas!
Ela, porém, estava bastante estranha naquele dia. Aqueles olhos enormes estavam marejados. Escutei quando assoou o nariz. Uma das enfermeiras lhe perguntou:
â O que hĂĄ, Janice? O que hĂĄ de errado com vocĂȘ?
â Nada. Estou bem.
Pobre srta. Ackerman. Eu tinha quinze anos e estava apaixonado por ela e eu estava coberto de espinhas e não havia nada que nós dois pudéssemos fazer.
â Vamos â ela disse â, este vai ser seu Ășltimo tratamento com os raios ultravioleta. Deite-se de bruços.
â Agora jĂĄ sei o seu primeiro nome â eu disse. â Janice. Ă um nome bonito. Assim como vocĂȘ.
â Oh, fique quieto â ela disse.
Ainda a vi mais uma vez quando o primeiro zumbido soou. Eu me virei, Janice reajustou a mĂĄquina e deixou a sala. Jamais voltei a vĂȘ-la.
Meu pai não acreditava em médicos que não fossem de graça.
â Eles fazem vocĂȘ mijar num tubo, levam seu dinheiro e vĂŁo para casa para ficar ao lado de suas esposas em Beverly Hills â ele disse.
Uma vez, contudo, ele me mandou até um. Era um médico com mau hålito e a cabeça redonda como uma bola de basquete. A diferença é que ele tinha dois olhinhos onde uma bola de basquete não teria nenhum. Eu não gostava do meu pai, e o médico não era muito melhor. Ele disse, nada de frituras, e beba suco de cenoura. E foi isso.
Eu retornaria para a escola no prĂłximo trimestre, disse meu pai.
â Estou arriscando meu rabo para evitar que as pessoas roubem. Ontem um negro quebrou o vidro de uma caixa e roubou algumas moedas raras. Peguei o desgraçado. Rolamos juntos escada abaixo. Dei um jeito de segurĂĄ-lo atĂ© que os outros chegassem. Arrisco minha vida todos os dias. Por que Ă© que vocĂȘ poderia ficar aĂ sem mexer o seu rabo, deprimido? Quero que vocĂȘ seja um engenheiro. Como, diabos, vocĂȘ vai ser um engenheiro se eu encontro um caderno cheio de desenhos de mulheres com as saias arriadas atĂ© a altura da bunda? Isso Ă© tudo o que vocĂȘ Ă© capaz de desenhar? Por que vocĂȘ nĂŁo desenha flores ou montanhas ou o oceano? VocĂȘ vai voltar para a escola!
Eu bebia suco de cenoura, esperando pelo momento de ser rematriculado. Eu tinha perdido apenas um trimestre. As espinhas nĂŁo estavam curadas, mas jĂĄ nĂŁo estavam tĂŁo terrĂveis quanto antes.
â Misto-quente
A Leitura de Poesia
ao meio-dia em ponto
numa pequena faculdade prĂłxima Ă praia
sĂłbrio
o suor me escorrendo pelos braços
uma gota de suor sobre a mesa
esmagada por um de meus dedos
maldito dinheiro maldito dinheiro
meu deus eles devem achar que eu adoro isso aqui tanto quanto os outros
mas Ă© apenas pra pagar o pĂŁo e a cerveja e o aluguel
maldito dinheiro
estou nervoso enojado sinto-me mal
pobres diabos estou caindo estou caindo
uma mulher se levanta
sai da sala
bate a porta
um poema sujo
alguém tinha me dito para não ler poemas sujos
por aqui
Ă© tarde demais.
meus olhos nĂŁo conseguem ver alguns versos
leio mesmo
assim
desesperado tremendo
enojado
eles nĂŁo conseguem ouvir minha voz
e eu digo,
desisto, nĂŁo dĂĄ mais, jĂĄ
era.
e mais tarde no meu quarto
lĂĄ estĂŁo a cerveja e o uĂsque
o sangue de um covarde.
isto entĂŁo
serĂĄ meu destino:
arrastar-me atrĂĄs de uns trocados em auditĂłrios pequenos e escuros
lendo poemas de que hĂĄ muito jĂĄ me
cansei.
e entĂŁo me acostumei a pensar
que os homens que dirigem nossos ĂŽnibus
ou limpam nossas privadas
ou matam outros homens aĂ pelos becos nĂŁo passam de uns
otĂĄrios.
numa pequena faculdade prĂłxima Ă praia
sĂłbrio
o suor me escorrendo pelos braços
uma gota de suor sobre a mesa
esmagada por um de meus dedos
maldito dinheiro maldito dinheiro
meu deus eles devem achar que eu adoro isso aqui tanto quanto os outros
mas Ă© apenas pra pagar o pĂŁo e a cerveja e o aluguel
maldito dinheiro
estou nervoso enojado sinto-me mal
pobres diabos estou caindo estou caindo
uma mulher se levanta
sai da sala
bate a porta
um poema sujo
alguém tinha me dito para não ler poemas sujos
por aqui
Ă© tarde demais.
meus olhos nĂŁo conseguem ver alguns versos
leio mesmo
assim
desesperado tremendo
enojado
eles nĂŁo conseguem ouvir minha voz
e eu digo,
desisto, nĂŁo dĂĄ mais, jĂĄ
era.
e mais tarde no meu quarto
lĂĄ estĂŁo a cerveja e o uĂsque
o sangue de um covarde.
isto entĂŁo
serĂĄ meu destino:
arrastar-me atrĂĄs de uns trocados em auditĂłrios pequenos e escuros
lendo poemas de que hĂĄ muito jĂĄ me
cansei.
e entĂŁo me acostumei a pensar
que os homens que dirigem nossos ĂŽnibus
ou limpam nossas privadas
ou matam outros homens aĂ pelos becos nĂŁo passam de uns
otĂĄrios.
A Morte do Pai
Minha mĂŁe morrera um ano antes. Uma semana apĂłs a morte de meu pai, eu estava na casa dele, sozinho. Era em Arcadia, e o mais perto que eu chegara daquela casa em algum tempo fora ao passar pela autoestrada a caminho de Santa Anita.
Eu era desconhecido para os vizinhos. O funeral acabara, e eu me dirigi Ă pia, enchi um copo dâĂĄgua, bebi-o, depois saĂ.
Sem saber que outra coisa fazer, peguei a mangueira, abri a ågua e comecei a aguar os arbustos. Cortinas correram enquanto eu estava parado no gramado da frente. Depois eles começaram a sair de suas casas. Uma mulher veio do outro lado da rua.
â VocĂȘ Ă© Henry? â ela me perguntou.
Respondi-lhe que era Henry.
â ConhecĂamos seu pai hĂĄ anos.
AĂ o marido aproximou-se.
â Conhecemos sua mĂŁe tambĂ©m â ele disse.
Eu me curvei e fechei a mangueira.
â NĂŁo querem entrar? â perguntei.
Eles se apresentaram como Tom e Nellie Miller, e entramos em casa.
â VocĂȘ Ă© a cara do seu pai.
â Ă, Ă© o que me dizem.
Sentamo-nos e ficamos olhando uns para os outros.
â Oh â disse a mulher â, ele tinha tantos quadros. Devia gostar de quadros.
â Ă, gostava, nĂ©?
â Eu adoro aquele quadro do moinho no pĂŽr do sol.
â Pode ficar com ele.
â Oh, posso?
A campainha tocou. Eram os Gibsons. Eles me disseram que também tinham sido vizinhos de meu pai durante anos.
â VocĂȘ Ă© a cara do seu pai â disse a sra. Gibson.
â Henry nos deu o quadro do moinho.
â Isso Ă© Ăłtimo. Eu adoro aquele quadro do cavalo azul.
â Pode ficar com ele, sra. Gibson.
â Oh, nĂŁo estĂĄ falando sĂ©rio.
â Sim, estĂĄ tudo bem.
A campainha tornou a tocar, e outro casal entrou. Deixei a porta entreaberta. Logo um homem enfiou a cabeça.
â Eu sou Doug Hudson. Minha esposa estĂĄ no cabeleireiro.
â Entre, sr. Hudson.
Outros chegaram, a maioria aos pares. Começaram a circular pela casa.
â Vai vender a casa?
â Acho que vou.
â Ă um bairro adorĂĄvel.
â Estou vendo.
â Oh, eu adoro aquela moldura, mas nĂŁo gosto do quadro.
â Leve a moldura.
â Mas que vou fazer com o quadro?
â Jogue no lixo. â Olhei em volta. â Se alguĂ©m vir um quadro que goste, por favor, leve.
Pegaram. Em breve as paredes estavam nuas.
â VocĂȘ precisa dessas cadeiras?
â NĂŁo, na verdade, nĂŁo.
Passantes entravam da rua, nem todos se davam o trabalho de se apresentar.
â E o sofĂĄ? â perguntou alguĂ©m em voz muito alta. â VocĂȘ quer?
â NĂŁo quero o sofĂĄ â eu disse.
Levaram o sofå, depois a mesa do café da manhã e as cadeiras.
â Tem uma torradeira aĂ, nĂŁo tem, Henry?
Levaram a torradeira.
â NĂŁo precisa dos pratos, precisa?
â NĂŁo.
â E a prataria?
â NĂŁo.
â E a chaleira e o liquidificador?
â Levem.
Uma das senhoras abriu um armĂĄrio na varanda dos fundos.
â E todas essas frutas em conserva? VocĂȘ jamais vai poder comer tudo isso.
â Tudo bem, peguem todos um pouco. Mas tentem dividir igualmente.
â Oh, eu quero os morangos!
â Oh, eu quero os figos!
â Oh, eu quero a geleia!
As pessoas saĂam e voltavam, trazendo outras consigo.
â Escuta, tem uma garrafa de uĂsque aqui no armĂĄrio! VocĂȘ bebe, Henry?
â Deixe o uĂsque.
A casa estava ficando lotada. A descarga do banheiro funcionou. Alguém derrubou um copo da pia e quebrou-o.
â Ă melhor ficar com esse aspirador, Henry. Pode usar ele em seu apartamento.
â Tudo bem, vou ficar.
â Ele tinha umas ferramentas de jardinagem na garagem. E elas?
â NĂŁo, Ă© melhor eu ficar com essas.
â Dou quinze dĂłlares pelas ferramentas de jardinagem.
â Tudo bem.
Ele me deu quinze dĂłlares e eu lhe dei a chave da garagem. Em breve se podia ouvi-lo rolando o aparador de grama para sua casa no outro lado da rua.
â VocĂȘ nĂŁo devia ter vendido todo aquele equipamento a ele por quinze dĂłlares, Henry. Valia muito mais.
NĂŁo respondi.
â E o carro? JĂĄ tem quatro anos.
â Acho que vou ficar com o carro.
â Dou cinquenta dĂłlares por ele.
â Acho que vou ficar com o carro.
AlguĂ©m enrolou o tapete da sala da frente. Depois disso, começaram a perder o interesse. Em breve restavam apenas trĂȘs ou quatro, depois foram-se todos. Deixaram-me a mangueira do jardim, a cama, a geladeira e o fogĂŁo, e um rolo de papel higiĂȘnico.
SaĂ e fechei a porta da garagem. Dois meninos passaram de patins. Pararam quando eu fechava as portas da garagem.
â EstĂĄ vendo aquele cara?
â Estou.
â O pai dele morreu.
Foram em frente. Eu peguei a mangueira, abri a torneira e comecei a aguar as rosas.
â Numa fria
Eu era desconhecido para os vizinhos. O funeral acabara, e eu me dirigi Ă pia, enchi um copo dâĂĄgua, bebi-o, depois saĂ.
Sem saber que outra coisa fazer, peguei a mangueira, abri a ågua e comecei a aguar os arbustos. Cortinas correram enquanto eu estava parado no gramado da frente. Depois eles começaram a sair de suas casas. Uma mulher veio do outro lado da rua.
â VocĂȘ Ă© Henry? â ela me perguntou.
Respondi-lhe que era Henry.
â ConhecĂamos seu pai hĂĄ anos.
AĂ o marido aproximou-se.
â Conhecemos sua mĂŁe tambĂ©m â ele disse.
Eu me curvei e fechei a mangueira.
â NĂŁo querem entrar? â perguntei.
Eles se apresentaram como Tom e Nellie Miller, e entramos em casa.
â VocĂȘ Ă© a cara do seu pai.
â Ă, Ă© o que me dizem.
Sentamo-nos e ficamos olhando uns para os outros.
â Oh â disse a mulher â, ele tinha tantos quadros. Devia gostar de quadros.
â Ă, gostava, nĂ©?
â Eu adoro aquele quadro do moinho no pĂŽr do sol.
â Pode ficar com ele.
â Oh, posso?
A campainha tocou. Eram os Gibsons. Eles me disseram que também tinham sido vizinhos de meu pai durante anos.
â VocĂȘ Ă© a cara do seu pai â disse a sra. Gibson.
â Henry nos deu o quadro do moinho.
â Isso Ă© Ăłtimo. Eu adoro aquele quadro do cavalo azul.
â Pode ficar com ele, sra. Gibson.
â Oh, nĂŁo estĂĄ falando sĂ©rio.
â Sim, estĂĄ tudo bem.
A campainha tornou a tocar, e outro casal entrou. Deixei a porta entreaberta. Logo um homem enfiou a cabeça.
â Eu sou Doug Hudson. Minha esposa estĂĄ no cabeleireiro.
â Entre, sr. Hudson.
Outros chegaram, a maioria aos pares. Começaram a circular pela casa.
â Vai vender a casa?
â Acho que vou.
â Ă um bairro adorĂĄvel.
â Estou vendo.
â Oh, eu adoro aquela moldura, mas nĂŁo gosto do quadro.
â Leve a moldura.
â Mas que vou fazer com o quadro?
â Jogue no lixo. â Olhei em volta. â Se alguĂ©m vir um quadro que goste, por favor, leve.
Pegaram. Em breve as paredes estavam nuas.
â VocĂȘ precisa dessas cadeiras?
â NĂŁo, na verdade, nĂŁo.
Passantes entravam da rua, nem todos se davam o trabalho de se apresentar.
â E o sofĂĄ? â perguntou alguĂ©m em voz muito alta. â VocĂȘ quer?
â NĂŁo quero o sofĂĄ â eu disse.
Levaram o sofå, depois a mesa do café da manhã e as cadeiras.
â Tem uma torradeira aĂ, nĂŁo tem, Henry?
Levaram a torradeira.
â NĂŁo precisa dos pratos, precisa?
â NĂŁo.
â E a prataria?
â NĂŁo.
â E a chaleira e o liquidificador?
â Levem.
Uma das senhoras abriu um armĂĄrio na varanda dos fundos.
â E todas essas frutas em conserva? VocĂȘ jamais vai poder comer tudo isso.
â Tudo bem, peguem todos um pouco. Mas tentem dividir igualmente.
â Oh, eu quero os morangos!
â Oh, eu quero os figos!
â Oh, eu quero a geleia!
As pessoas saĂam e voltavam, trazendo outras consigo.
â Escuta, tem uma garrafa de uĂsque aqui no armĂĄrio! VocĂȘ bebe, Henry?
â Deixe o uĂsque.
A casa estava ficando lotada. A descarga do banheiro funcionou. Alguém derrubou um copo da pia e quebrou-o.
â Ă melhor ficar com esse aspirador, Henry. Pode usar ele em seu apartamento.
â Tudo bem, vou ficar.
â Ele tinha umas ferramentas de jardinagem na garagem. E elas?
â NĂŁo, Ă© melhor eu ficar com essas.
â Dou quinze dĂłlares pelas ferramentas de jardinagem.
â Tudo bem.
Ele me deu quinze dĂłlares e eu lhe dei a chave da garagem. Em breve se podia ouvi-lo rolando o aparador de grama para sua casa no outro lado da rua.
â VocĂȘ nĂŁo devia ter vendido todo aquele equipamento a ele por quinze dĂłlares, Henry. Valia muito mais.
NĂŁo respondi.
â E o carro? JĂĄ tem quatro anos.
â Acho que vou ficar com o carro.
â Dou cinquenta dĂłlares por ele.
â Acho que vou ficar com o carro.
AlguĂ©m enrolou o tapete da sala da frente. Depois disso, começaram a perder o interesse. Em breve restavam apenas trĂȘs ou quatro, depois foram-se todos. Deixaram-me a mangueira do jardim, a cama, a geladeira e o fogĂŁo, e um rolo de papel higiĂȘnico.
SaĂ e fechei a porta da garagem. Dois meninos passaram de patins. Pararam quando eu fechava as portas da garagem.
â EstĂĄ vendo aquele cara?
â Estou.
â O pai dele morreu.
Foram em frente. Eu peguei a mangueira, abri a torneira e comecei a aguar as rosas.
â Numa fria
A Morte Quer Mais Morte
a morte quer mais morte, e suas teias estĂŁo cheias:
lembro da garagem do meu pai, como de modo infantil
eu arrancaria os cadĂĄveres das moscas
das janelas que lhes tinham parecido uma chance de fuga...
seus corpos endurecidos, feios, vibrantes
gritando como cĂŁes loucos e tolos contra os vidros
apenas para rodar e revoltear
naquele segundo mais longo que o céu e o inferno
limite dos limites,
e entĂŁo a aranha vinda de seu buraco Ășmido
nervosa e exposta
a protuberĂąncia do corpo
ali balançando
ainda sem saber plenamente
e logo sabendo â
lançando seus fios,
a teia pegajosa,
em direção à fraca cortina de zumbido,
o pulsar;
um Ășltimo movimento desesperado da perna peluda
lĂĄ, contra o vidro
lĂĄ, viva ao sol,
envolta em branco;
e quase como o amor:
a aproximação
o primeiro e silencioso sugar da aranha;
a pança cheia
aquela coisa que um dia esteve viva;
arrastando-se sobre as patas
sugando seu sangue garantido
enquanto o mundo segue seu rumo lĂĄ fora
e minhas tĂȘmporas gritam
e disparo a vassoura contra elas:
a aranha embotada em sua fĂșria de aranha
ainda pensando em sua presa
balançando uma surpreendente perna quebrada;
a mosca muito fixa,
uma mancha suja grudada ao fio de palha;
solto a assassina com um chacoalhar
e ela se move aleijada e ensandecida
em direção a um canto escuro
mas intercepto seu esforço vão
seu rastejar como uma heroĂna abatida,
e as palhas esmagam suas pernas
agora a ondular
sobre sua cabeça
sem deixar de buscar
o inimigo
de certa forma valente
a aranha morre sem dor aparente
arrastando-se para trĂĄs, com simplicidade
levando todos os pedaços
sem deixar nada por ali
até que por fim seu estÎmago se rompe
espalhando seu segredo,
e eu corro como uma criança
com a fĂșria de Deus em meus calcanhares,
de volta Ă pura luz do sol,
me perguntando
enquanto o mundo segue igual
com um sorriso torto
se alguém mais
viu ou percebeu o meu crime.
lembro da garagem do meu pai, como de modo infantil
eu arrancaria os cadĂĄveres das moscas
das janelas que lhes tinham parecido uma chance de fuga...
seus corpos endurecidos, feios, vibrantes
gritando como cĂŁes loucos e tolos contra os vidros
apenas para rodar e revoltear
naquele segundo mais longo que o céu e o inferno
limite dos limites,
e entĂŁo a aranha vinda de seu buraco Ășmido
nervosa e exposta
a protuberĂąncia do corpo
ali balançando
ainda sem saber plenamente
e logo sabendo â
lançando seus fios,
a teia pegajosa,
em direção à fraca cortina de zumbido,
o pulsar;
um Ășltimo movimento desesperado da perna peluda
lĂĄ, contra o vidro
lĂĄ, viva ao sol,
envolta em branco;
e quase como o amor:
a aproximação
o primeiro e silencioso sugar da aranha;
a pança cheia
aquela coisa que um dia esteve viva;
arrastando-se sobre as patas
sugando seu sangue garantido
enquanto o mundo segue seu rumo lĂĄ fora
e minhas tĂȘmporas gritam
e disparo a vassoura contra elas:
a aranha embotada em sua fĂșria de aranha
ainda pensando em sua presa
balançando uma surpreendente perna quebrada;
a mosca muito fixa,
uma mancha suja grudada ao fio de palha;
solto a assassina com um chacoalhar
e ela se move aleijada e ensandecida
em direção a um canto escuro
mas intercepto seu esforço vão
seu rastejar como uma heroĂna abatida,
e as palhas esmagam suas pernas
agora a ondular
sobre sua cabeça
sem deixar de buscar
o inimigo
de certa forma valente
a aranha morre sem dor aparente
arrastando-se para trĂĄs, com simplicidade
levando todos os pedaços
sem deixar nada por ali
até que por fim seu estÎmago se rompe
espalhando seu segredo,
e eu corro como uma criança
com a fĂșria de Deus em meus calcanhares,
de volta Ă pura luz do sol,
me perguntando
enquanto o mundo segue igual
com um sorriso torto
se alguém mais
viu ou percebeu o meu crime.
A Noite Em Que Eles Pegaram o Branquelo
sonho de påssaro e papéis de parede descolando
sintomas de um sono sombrio
e Ă s 4 da manhĂŁ o Branquelo saiu do seu quarto
(o consolo para o pobre estĂĄ nos nĂșmeros
como papoulas no verĂŁo)
e ele começou a gritar socorro! socorro! socorro!
(um velho com um cabelo tĂŁo branco quanto uma presa de marfim)
e ele vomitava sangue
socorro socorro socorro
e eu o ajudei a se esticar no chĂŁo do hall
e bati na porta da senhoria
(ela Ă© francesa como o melhor dos vinhos mas dura como
um bife americano) e
gritei seu nome, Marcella! Marcella!
(o leiteiro logo chegaria com suas garrafas
de um branco puro como gĂ©lidos lĂrios)
Marcella! Marcella! socorro socorro socorro,
e ela gritou através da porta:
seu polaco de merda, encheu a cara de novo? EntĂŁo
o olho de Prometeu Ă porta
e ela
calculando o rio vermelho em seu cérebro retangular
(oh, nĂŁo passo de um polaco bĂȘbado
um cara de segunda classe um escritor de cartas para jornais)
e ela falou ao telefone como uma senhora que ordenasse pĂŁo e ovos,
e eu me agarrei Ă parede
sonhando com poemas ruins e com minha prĂłpria morte
e entĂŁo os homens vieram... um com um charuto, o outro com a barba por fazer,
e eles o puseram de pé e desceram a escada
sua cabeça de marfim em chamas (Branquelo, meu parceiro de trago...
todas as cançÔes, as agitadas cançÔes ciganas, falam de
guerra, lutas, das boas putas,
de pardieiros flutuando em vinho,
flutuando num falar frenético,
charutos baratos e raiva)
e a sirene o levou de vez, exceto pela parte vermelha
e eu comecei a vomitar e a besta francesa gritou
vocĂȘ vai ter que limpar essa sujeira, toda ela, vocĂȘ e o Branquelo!
e os navios a vapor partiram e os homens ricos em seus iates
beijam garotas jovens o suficiente para serem suas filhas,
e o leiteiro chegou e ficou apenas olhando
e as luzes de néon piscavam vendendo alguma coisa
pneus ou Ăłleo ou roupas Ăntimas
e ela bateu a porta e eu estava mais uma vez sozinho
envergonhado
era a guerra, a guerra eterna, a guerra que nĂŁo se acaba nunca,
e eu gritei colado Ă s paredes descascadas,
a fraqueza de nossos ossos, nossos cérebros fracos e embriagados,
e a manhã começou a rastejar pelo hall...
soavam as descargas, havia bacon, havia café,
havia ressacas, e eu também
entrei e fechei minha porta e me sentei e esperei pelo nascer do sol.
sintomas de um sono sombrio
e Ă s 4 da manhĂŁ o Branquelo saiu do seu quarto
(o consolo para o pobre estĂĄ nos nĂșmeros
como papoulas no verĂŁo)
e ele começou a gritar socorro! socorro! socorro!
(um velho com um cabelo tĂŁo branco quanto uma presa de marfim)
e ele vomitava sangue
socorro socorro socorro
e eu o ajudei a se esticar no chĂŁo do hall
e bati na porta da senhoria
(ela Ă© francesa como o melhor dos vinhos mas dura como
um bife americano) e
gritei seu nome, Marcella! Marcella!
(o leiteiro logo chegaria com suas garrafas
de um branco puro como gĂ©lidos lĂrios)
Marcella! Marcella! socorro socorro socorro,
e ela gritou através da porta:
seu polaco de merda, encheu a cara de novo? EntĂŁo
o olho de Prometeu Ă porta
e ela
calculando o rio vermelho em seu cérebro retangular
(oh, nĂŁo passo de um polaco bĂȘbado
um cara de segunda classe um escritor de cartas para jornais)
e ela falou ao telefone como uma senhora que ordenasse pĂŁo e ovos,
e eu me agarrei Ă parede
sonhando com poemas ruins e com minha prĂłpria morte
e entĂŁo os homens vieram... um com um charuto, o outro com a barba por fazer,
e eles o puseram de pé e desceram a escada
sua cabeça de marfim em chamas (Branquelo, meu parceiro de trago...
todas as cançÔes, as agitadas cançÔes ciganas, falam de
guerra, lutas, das boas putas,
de pardieiros flutuando em vinho,
flutuando num falar frenético,
charutos baratos e raiva)
e a sirene o levou de vez, exceto pela parte vermelha
e eu comecei a vomitar e a besta francesa gritou
vocĂȘ vai ter que limpar essa sujeira, toda ela, vocĂȘ e o Branquelo!
e os navios a vapor partiram e os homens ricos em seus iates
beijam garotas jovens o suficiente para serem suas filhas,
e o leiteiro chegou e ficou apenas olhando
e as luzes de néon piscavam vendendo alguma coisa
pneus ou Ăłleo ou roupas Ăntimas
e ela bateu a porta e eu estava mais uma vez sozinho
envergonhado
era a guerra, a guerra eterna, a guerra que nĂŁo se acaba nunca,
e eu gritei colado Ă s paredes descascadas,
a fraqueza de nossos ossos, nossos cérebros fracos e embriagados,
e a manhã começou a rastejar pelo hall...
soavam as descargas, havia bacon, havia café,
havia ressacas, e eu também
entrei e fechei minha porta e me sentei e esperei pelo nascer do sol.
A Noite Em Que Eu Ia Morrer
na noite em que eu ia morrer
suava na minha cama
e podia ouvir os grilos
e lĂĄ fora gatos brigavam
e eu podia sentir minha alma escorrendo através do
colchĂŁo
e antes que ela tocasse o chĂŁo me levantei de um salto
fraco de quase nĂŁo poder caminhar
mas caminhei ali ao redor e acendi todas as luzes
entĂŁo retornei para a cama
e novamente minha alma começou a escorrer através do colchão
e eu me levantei
antes que ela chegasse ao chĂŁo
caminhei por ali e acendi todas as luzes
e entĂŁo voltei para a cama
e lĂĄ estava ela escorrendo de novo e
novamente eu de pé
acendendo todas as luzes
eu tinha uma filha de 7 anos
e a certeza de que ela nĂŁo queria que eu morresse
de outro modo eu nĂŁo teria me preocupado nem um
pouco
mas naquela noite inteira
ninguém telefonou
ninguém apareceu com uma cerveja
minha namorada nĂŁo ligou
e eu podia ouvir os grilos e fazia
calor
e eu seguia imerso naquilo tudo
levantando e deitando
até que o primeiro raio do sol atravessou a janela
através dos arbustos
e entĂŁo deitei na cama
e alma ficou onde estava
por fim aqui dentro e eu
dormi.
agora as pessoas aparecem
batendo nas portas e nas janelas
o telefone toca
o telefone toca sem parar
recebo grandes cartas no correio
cartas de Ăłdio e cartas de amor.
tudo voltou a ser o que era antes.
Duas madrugadas depois, às quatro da manhã, alguém bateu à porta.
â Quem Ă©?
â Ă uma piranha ruiva.
Deixei Tammie entrar. Ela se sentou e eu abri duas cervejas.
â Estou com mau hĂĄlito, dois dentes podres. VocĂȘ nĂŁo pode me beijar.
â Tudo bem.
Conversamos. Bem, eu ouvi. Tammie estava emboletada. Fiquei escutando e olhando para os seus longos cabelos ruivos e enquanto ela se preocupava eu seguia olhando, olhando também para aquele corpo. Era como se ele fosse saltar para fora das roupas dela, como se implorasse para sair. Ela falava e falava. Não a toquei.
Ăs seis horas da manhĂŁ, Tammie me deu seu endereço e nĂșmero de telefone.
â Tenho que ir â ela disse.
â Acompanho vocĂȘ atĂ© o carro.
Era um Camaro vermelho reluzente, completamente demolido. A parte da frente estava amassada, uma das laterais trazia um furo na lataria, as janelas não tinham mais vidros. Na parte de dentro havia panos e camisas e caixas de Kleenex e jornais e caixas de leite e garrafas de Coca e fios e cordas e guardanapos de papel e revistas e copos de papel e sapatos e canudinhos coloridos. Essa enorme massa de coisas estava empilhada até a altura dos bancos e os cobria por completo. Somente o do motorista tinha uma årea mais ou menos livre.
Tammie estendeu a cabeça pela janela e nos beijamos.
Então ela se afastou do meio-fio e quando alcançou a esquina jå estava a setenta quilÎmetros por hora. Ela pisou fundo no freio, e o Camaro deu um tranco, subiu e desceu, subiu e desceu. Voltei para dentro.
Voltei para a cama e fiquei pensando naqueles cabelos. Jamais tinha conhecido uma ruiva de verdade. Era fogo puro.
Como relĂąmpagos celestiais, pensei.
De algum modo seu rosto jĂĄ nĂŁo me parecia tĂŁo duro quanto antes...
Tammie apareceu naquela noite. Parecia estar louca de anfetaminas.
â Quero um pouco de champanhe â ela disse.
â Tudo bem â eu disse.
Alcancei-lhe uma nota de vinte.
â Volto logo â ela disse, caminhando atĂ© a porta.
EntĂŁo o telefone tocou. Era Lydia.
â Queria saber apenas como estavam as coisas por aĂ...
â EstĂĄ tudo bem.
â Comigo nĂŁo. Estou grĂĄvida.
â O quĂȘ?
â E nĂŁo sei quem Ă© o pai.
â Hein?
â VocĂȘ conhece o Dutch, o cara que anda ali pelo bar onde estou trabalhando?
â Sim, o velho Carequinha.
â Bem, ele Ă© um cara muito legal. EstĂĄ apaixonado por mim. Sempre me leva flores e doces. Quer se casar comigo. Tem sido muito bacana. E numa noite dessas eu fui pra casa com ele. A gente transou.
â Certo.
â E tem tambĂ©m o Barney, ele Ă© casado, mas gosto dele. De todos os caras no bar ele Ă© o Ășnico que nunca tentou me cantar. Fiquei fascinada com isso. Bem, vocĂȘ sabe, estou tentando vender a minha casa. EntĂŁo ele apareceu uma tarde dessas. Apenas apareceu. Disse que estava atrĂĄs de uma casa para um amigo. Deixei ele entrar. Bem, ele chegou na hora certa. As crianças estavam na escola, bem, deixei que ele fosse em frente... EntĂŁo certa noite um cara desconhecido chegou no bar, jĂĄ era tarde. Pediu que eu fosse pra casa com ele. Eu disse nĂŁo. EntĂŁo ele disse que sĂł queria ficar sentado no carro comigo, conversar e tal. Eu disse tudo bem. Ficamos lĂĄ no carro e conversamos. EntĂŁo fumamos um baseado. E aĂ ele me beijou. Se ele nĂŁo tivesse me beijado nĂŁo teria rolado nada. Bem, agora estou grĂĄvida e nĂŁo sei de quem. Terei que esperar pra ver com quem a criança se parece.
â Tudo bem, Lydia, toda sorte do mundo pra vocĂȘ.
â Obrigada.
Desliguei. Um minuto se passou e o telefone voltou a tocar. Era Lydia.
â Oh â ela disse â, me pergunto como vocĂȘ estĂĄ se virando.
â O mesmo de sempre, cavalos e trago.
â EntĂŁo estĂĄ tudo bem com vocĂȘ?
â NĂŁo exatamente.
â O que estĂĄ acontecendo?
â Bem, mandei uma mulher buscar champanhe...
â Mulher?
â Bem, na verdade Ă© uma garota...
â Uma garota?
â Dei a ela uma nota de 20 pra comprar champanhe e ela ainda nĂŁo voltou. Acho que fui enganado.
â Chinaski, nĂŁo quero ouvir falar das suas mulheres. SerĂĄ que vocĂȘ consegue entender isso?
â Tudo bem.
Lydia desligou. Soou uma batida na porta. Era Tammie. Ela voltava com o champanhe e o troco.
No dia seguinte, perto do meio-dia, o telefone tocou. Era novamente Lydia.
â Bem, ela voltou com o champanhe?
â Quem?
â A sua piranha.
â Sim, ela voltou...
â EntĂŁo, o que aconteceu?
â Bebemos champanhe. Era dos bons.
â E entĂŁo o que aconteceu?
â Bem, vocĂȘ sabe, aquela coisa...
Ouvi um uivo longo e insano, como se uma loba tivesse sido baleada em meio Ă neve do Ărtico e, sangrando, fosse abandonada para morrer sozinha...
Ela desligou.
Dormi a maior parte da tarde e, à noite, dirigi até as corridas de charretes.
Perdi 32 dólares e entrei no fusca e fiz o caminho de volta. Estacionei, caminhei até a varanda e pus a chave na fechadura. Todas as luzes estavam acesas. Olhei em volta. As gavetas estavam abertas e haviam sido viradas, as roupas de cama estavam no chão. Todos os meus livros tinham sumido da prateleira, inclusive aqueles que eu tinha escrito, vinte ou mais. E minha måquina de escrever se foi e minha torradeira se foi e meu rådio se foi e minhas telas se foram.
Lydia, pensei.
Tudo o que ela havia me deixado era a tevĂȘ, porque sabia que eu nĂŁo assistia.
Fui até o lado de fora e lå estava o carro de Lydia, mas ela não.
â Lydia â eu disse. â Ei, baby!
Subi e desci a rua e então avistei seus pés, os dois, despontando atrås de uma årvore junto ao muro de um prédio. Aproximei-me da årvore e disse:
â Escute, que diabos hĂĄ com vocĂȘ?
Lydia não esboçou reação. Ela carregava duas sacolas cheias com os meus livros e uma pasta com as minhas telas.
â Escute, vocĂȘ precisa me devolver meus livros e minhas telas. Tudo isso me pertence.
Lydia saiu detrĂĄs da ĂĄrvore berrando. Ela pegou as telas de pintura e começou a rasgĂĄ-las. Jogou os pedaços para cima e, ao caĂrem no chĂŁo, ela os pisoteou. Estava usando suas botas de vaqueira.
Então pegou meus livros da sacola e começou a jogå-los longe, no meio da rua, no gramado, por toda parte.
â Aqui estĂŁo suas pinturas! Aqui estĂŁo seus livros! E NĂO ME FALE DAS SUAS MULHERES! NĂO ME FALE DAS SUAS MULHERES!
EntĂŁo Lydia correu atĂ© o meu pĂĄtio com um livro na mĂŁo, meu Ășltimo lançamento, Obras escolhidas de Henry Chinaski. Ela gritava:
â EntĂŁo vocĂȘ quer seus livros de volta? Quer a porra dos seus livros de volta? Aqui estĂŁo seus malditos livros! E NĂO ME FALE DAS SUAS MULHERES!
Ela começou a quebrar os vidros da minha porta da frente. Pegou o Obras escolhidas de Henry Chinaski e foi quebrando vidro após vidro, gritando:
â Quer seus livros de volta? Aqui estĂŁo seus malditos livros! E NĂO ME FALE DAS SUAS MULHERES! NĂO QUERO OUVIR NADA SOBRE AS SUAS MULHERES!
Fiquei ali parado, enquanto ela gritava e quebrava os vidros.
Onde estava a polĂcia?, pensei. Onde?
Então Lydia atravessou o påtio, dobrou rapidamente à esquerda ao passar pela lata de lixo e seguiu pela calçada até o prédio ao lado. Atrås de um pequeno arbusto estavam a måquina de escrever, o rådio e a torradeira.
Lydia apanhou a måquina e correu até o meio da rua com ela. Era uma måquina comum e antiga, bastante pesada. Lydia a ergueu com as duas mãos por sobre a cabeça e a jogou de encontro ao pavimento. O cilindro e diversas outras partes voaram longe. Ela voltou a erguer a måquina sobre a cabeça e gritou:
â NĂO ME FALE DAS SUAS MULHERES! â e jogou-a mais uma vez no chĂŁo.
Depois disso, Lydia saltou para dentro do carro e se foi.
Quinze segundos mais tarde a polĂcia apareceu.
â Ă um fusca laranja. Chama-se a Coisa, parece um tanque. NĂŁo me lembro do nĂșmero da placa, mas as letras sĂŁo NVA, como NĂVOA, anotou?
â Endereço?
Passei-lhes o endereço...
Evidentemente que eles a trouxeram de volta. Podia ouvi-la urrando no banco de trĂĄs, enquanto o carro se aproximava.
â AFASTE-SE! â disse um dos policiais ao sair. Acompanhou-me atĂ© minha casa. Entrou e pisou sobre um dos vidros quebrados. Por alguma razĂŁo ele direcionou sua lanterna para o teto e para as cornijas.
â O senhor quer dar queixa? â o policial me perguntou.
â NĂŁo. Ela tem filhos. NĂŁo quero que ela fique sem eles. O ex-marido estĂĄ tentando ficar com a guarda das crianças. Mas, por favor, diga a ela que as pessoas nĂŁo podem andar por aĂ fazendo esse tipo de coisa.
â Ok â ele disse â, agora assine aqui.
Escreveu Ă mĂŁo num pequeno caderno pautado. Dizia que eu, Henry Chinaski, nĂŁo daria queixa contra Lydia Vance.
Assinei e ele se foi.
Passei a chave no que me restara de porta e fui para a cama e tentei dormir.
Mais ou menos uma hora depois, o telefone tocou. Era Lydia. Ela jĂĄ estava em casa.
â SEU Filho da puta, SE VOCĂ VOLTAR A FALAR DAS SUAS MULHERES DE NOVO PRA MIM EU VOU ATĂ AĂ E QUEBRO TUDO DE NOVO!
Ela desligou.
Duas noites mais tarde, fui atĂ© a casa de Tammie em Rustic Court. Bati. As luzes estavam acesas. Parecia vazia. Olhei na sua caixa de correio. Havia cartas ali dentro. Escrevi um bilhete: âTammie, tenho telefonado para vocĂȘ. Vim atĂ© aqui e vocĂȘ nĂŁo estava. EstĂĄ tudo bem com vocĂȘ? Me liga... Hank.â
Voltei no dia seguinte Ă s onze da manhĂŁ. Seu carro nĂŁo estava ali na frente. Meu bilhete continuava enfiado na porta. Mesmo assim toquei a campainha. As cartas continuavam na caixa de correio. Deixei um bilhete ali: âTammie, onde diabos vocĂȘ estĂĄ? Entre em contato comigo... Hank.â
Dei uma volta pela vizinhança em busca daquele Camaro vermelho todo detonado.
Retornei naquela noite. Chovia. Meus bilhetes estavam molhados. Havia mais cartas na caixa. Deixei-lhe um dos meus livros de poesia, com uma dedicatória. Então voltei para meu fusca. Tinha uma cruz de malta pendurada no meu retrovisor. Arranquei a cruz, voltei à casa dela e a amarrei ao redor da maçaneta.
NĂŁo sabia onde morava nenhuma de suas amigas, onde sua mĂŁe morava, onde seus amantes moravam.
Voltei pra casa e escrevi alguns poemas de amor.
â Mulheres
suava na minha cama
e podia ouvir os grilos
e lĂĄ fora gatos brigavam
e eu podia sentir minha alma escorrendo através do
colchĂŁo
e antes que ela tocasse o chĂŁo me levantei de um salto
fraco de quase nĂŁo poder caminhar
mas caminhei ali ao redor e acendi todas as luzes
entĂŁo retornei para a cama
e novamente minha alma começou a escorrer através do colchão
e eu me levantei
antes que ela chegasse ao chĂŁo
caminhei por ali e acendi todas as luzes
e entĂŁo voltei para a cama
e lĂĄ estava ela escorrendo de novo e
novamente eu de pé
acendendo todas as luzes
eu tinha uma filha de 7 anos
e a certeza de que ela nĂŁo queria que eu morresse
de outro modo eu nĂŁo teria me preocupado nem um
pouco
mas naquela noite inteira
ninguém telefonou
ninguém apareceu com uma cerveja
minha namorada nĂŁo ligou
e eu podia ouvir os grilos e fazia
calor
e eu seguia imerso naquilo tudo
levantando e deitando
até que o primeiro raio do sol atravessou a janela
através dos arbustos
e entĂŁo deitei na cama
e alma ficou onde estava
por fim aqui dentro e eu
dormi.
agora as pessoas aparecem
batendo nas portas e nas janelas
o telefone toca
o telefone toca sem parar
recebo grandes cartas no correio
cartas de Ăłdio e cartas de amor.
tudo voltou a ser o que era antes.
Duas madrugadas depois, às quatro da manhã, alguém bateu à porta.
â Quem Ă©?
â Ă uma piranha ruiva.
Deixei Tammie entrar. Ela se sentou e eu abri duas cervejas.
â Estou com mau hĂĄlito, dois dentes podres. VocĂȘ nĂŁo pode me beijar.
â Tudo bem.
Conversamos. Bem, eu ouvi. Tammie estava emboletada. Fiquei escutando e olhando para os seus longos cabelos ruivos e enquanto ela se preocupava eu seguia olhando, olhando também para aquele corpo. Era como se ele fosse saltar para fora das roupas dela, como se implorasse para sair. Ela falava e falava. Não a toquei.
Ăs seis horas da manhĂŁ, Tammie me deu seu endereço e nĂșmero de telefone.
â Tenho que ir â ela disse.
â Acompanho vocĂȘ atĂ© o carro.
Era um Camaro vermelho reluzente, completamente demolido. A parte da frente estava amassada, uma das laterais trazia um furo na lataria, as janelas não tinham mais vidros. Na parte de dentro havia panos e camisas e caixas de Kleenex e jornais e caixas de leite e garrafas de Coca e fios e cordas e guardanapos de papel e revistas e copos de papel e sapatos e canudinhos coloridos. Essa enorme massa de coisas estava empilhada até a altura dos bancos e os cobria por completo. Somente o do motorista tinha uma årea mais ou menos livre.
Tammie estendeu a cabeça pela janela e nos beijamos.
Então ela se afastou do meio-fio e quando alcançou a esquina jå estava a setenta quilÎmetros por hora. Ela pisou fundo no freio, e o Camaro deu um tranco, subiu e desceu, subiu e desceu. Voltei para dentro.
Voltei para a cama e fiquei pensando naqueles cabelos. Jamais tinha conhecido uma ruiva de verdade. Era fogo puro.
Como relĂąmpagos celestiais, pensei.
De algum modo seu rosto jĂĄ nĂŁo me parecia tĂŁo duro quanto antes...
Tammie apareceu naquela noite. Parecia estar louca de anfetaminas.
â Quero um pouco de champanhe â ela disse.
â Tudo bem â eu disse.
Alcancei-lhe uma nota de vinte.
â Volto logo â ela disse, caminhando atĂ© a porta.
EntĂŁo o telefone tocou. Era Lydia.
â Queria saber apenas como estavam as coisas por aĂ...
â EstĂĄ tudo bem.
â Comigo nĂŁo. Estou grĂĄvida.
â O quĂȘ?
â E nĂŁo sei quem Ă© o pai.
â Hein?
â VocĂȘ conhece o Dutch, o cara que anda ali pelo bar onde estou trabalhando?
â Sim, o velho Carequinha.
â Bem, ele Ă© um cara muito legal. EstĂĄ apaixonado por mim. Sempre me leva flores e doces. Quer se casar comigo. Tem sido muito bacana. E numa noite dessas eu fui pra casa com ele. A gente transou.
â Certo.
â E tem tambĂ©m o Barney, ele Ă© casado, mas gosto dele. De todos os caras no bar ele Ă© o Ășnico que nunca tentou me cantar. Fiquei fascinada com isso. Bem, vocĂȘ sabe, estou tentando vender a minha casa. EntĂŁo ele apareceu uma tarde dessas. Apenas apareceu. Disse que estava atrĂĄs de uma casa para um amigo. Deixei ele entrar. Bem, ele chegou na hora certa. As crianças estavam na escola, bem, deixei que ele fosse em frente... EntĂŁo certa noite um cara desconhecido chegou no bar, jĂĄ era tarde. Pediu que eu fosse pra casa com ele. Eu disse nĂŁo. EntĂŁo ele disse que sĂł queria ficar sentado no carro comigo, conversar e tal. Eu disse tudo bem. Ficamos lĂĄ no carro e conversamos. EntĂŁo fumamos um baseado. E aĂ ele me beijou. Se ele nĂŁo tivesse me beijado nĂŁo teria rolado nada. Bem, agora estou grĂĄvida e nĂŁo sei de quem. Terei que esperar pra ver com quem a criança se parece.
â Tudo bem, Lydia, toda sorte do mundo pra vocĂȘ.
â Obrigada.
Desliguei. Um minuto se passou e o telefone voltou a tocar. Era Lydia.
â Oh â ela disse â, me pergunto como vocĂȘ estĂĄ se virando.
â O mesmo de sempre, cavalos e trago.
â EntĂŁo estĂĄ tudo bem com vocĂȘ?
â NĂŁo exatamente.
â O que estĂĄ acontecendo?
â Bem, mandei uma mulher buscar champanhe...
â Mulher?
â Bem, na verdade Ă© uma garota...
â Uma garota?
â Dei a ela uma nota de 20 pra comprar champanhe e ela ainda nĂŁo voltou. Acho que fui enganado.
â Chinaski, nĂŁo quero ouvir falar das suas mulheres. SerĂĄ que vocĂȘ consegue entender isso?
â Tudo bem.
Lydia desligou. Soou uma batida na porta. Era Tammie. Ela voltava com o champanhe e o troco.
No dia seguinte, perto do meio-dia, o telefone tocou. Era novamente Lydia.
â Bem, ela voltou com o champanhe?
â Quem?
â A sua piranha.
â Sim, ela voltou...
â EntĂŁo, o que aconteceu?
â Bebemos champanhe. Era dos bons.
â E entĂŁo o que aconteceu?
â Bem, vocĂȘ sabe, aquela coisa...
Ouvi um uivo longo e insano, como se uma loba tivesse sido baleada em meio Ă neve do Ărtico e, sangrando, fosse abandonada para morrer sozinha...
Ela desligou.
Dormi a maior parte da tarde e, à noite, dirigi até as corridas de charretes.
Perdi 32 dólares e entrei no fusca e fiz o caminho de volta. Estacionei, caminhei até a varanda e pus a chave na fechadura. Todas as luzes estavam acesas. Olhei em volta. As gavetas estavam abertas e haviam sido viradas, as roupas de cama estavam no chão. Todos os meus livros tinham sumido da prateleira, inclusive aqueles que eu tinha escrito, vinte ou mais. E minha måquina de escrever se foi e minha torradeira se foi e meu rådio se foi e minhas telas se foram.
Lydia, pensei.
Tudo o que ela havia me deixado era a tevĂȘ, porque sabia que eu nĂŁo assistia.
Fui até o lado de fora e lå estava o carro de Lydia, mas ela não.
â Lydia â eu disse. â Ei, baby!
Subi e desci a rua e então avistei seus pés, os dois, despontando atrås de uma årvore junto ao muro de um prédio. Aproximei-me da årvore e disse:
â Escute, que diabos hĂĄ com vocĂȘ?
Lydia não esboçou reação. Ela carregava duas sacolas cheias com os meus livros e uma pasta com as minhas telas.
â Escute, vocĂȘ precisa me devolver meus livros e minhas telas. Tudo isso me pertence.
Lydia saiu detrĂĄs da ĂĄrvore berrando. Ela pegou as telas de pintura e começou a rasgĂĄ-las. Jogou os pedaços para cima e, ao caĂrem no chĂŁo, ela os pisoteou. Estava usando suas botas de vaqueira.
Então pegou meus livros da sacola e começou a jogå-los longe, no meio da rua, no gramado, por toda parte.
â Aqui estĂŁo suas pinturas! Aqui estĂŁo seus livros! E NĂO ME FALE DAS SUAS MULHERES! NĂO ME FALE DAS SUAS MULHERES!
EntĂŁo Lydia correu atĂ© o meu pĂĄtio com um livro na mĂŁo, meu Ășltimo lançamento, Obras escolhidas de Henry Chinaski. Ela gritava:
â EntĂŁo vocĂȘ quer seus livros de volta? Quer a porra dos seus livros de volta? Aqui estĂŁo seus malditos livros! E NĂO ME FALE DAS SUAS MULHERES!
Ela começou a quebrar os vidros da minha porta da frente. Pegou o Obras escolhidas de Henry Chinaski e foi quebrando vidro após vidro, gritando:
â Quer seus livros de volta? Aqui estĂŁo seus malditos livros! E NĂO ME FALE DAS SUAS MULHERES! NĂO QUERO OUVIR NADA SOBRE AS SUAS MULHERES!
Fiquei ali parado, enquanto ela gritava e quebrava os vidros.
Onde estava a polĂcia?, pensei. Onde?
Então Lydia atravessou o påtio, dobrou rapidamente à esquerda ao passar pela lata de lixo e seguiu pela calçada até o prédio ao lado. Atrås de um pequeno arbusto estavam a måquina de escrever, o rådio e a torradeira.
Lydia apanhou a måquina e correu até o meio da rua com ela. Era uma måquina comum e antiga, bastante pesada. Lydia a ergueu com as duas mãos por sobre a cabeça e a jogou de encontro ao pavimento. O cilindro e diversas outras partes voaram longe. Ela voltou a erguer a måquina sobre a cabeça e gritou:
â NĂO ME FALE DAS SUAS MULHERES! â e jogou-a mais uma vez no chĂŁo.
Depois disso, Lydia saltou para dentro do carro e se foi.
Quinze segundos mais tarde a polĂcia apareceu.
â Ă um fusca laranja. Chama-se a Coisa, parece um tanque. NĂŁo me lembro do nĂșmero da placa, mas as letras sĂŁo NVA, como NĂVOA, anotou?
â Endereço?
Passei-lhes o endereço...
Evidentemente que eles a trouxeram de volta. Podia ouvi-la urrando no banco de trĂĄs, enquanto o carro se aproximava.
â AFASTE-SE! â disse um dos policiais ao sair. Acompanhou-me atĂ© minha casa. Entrou e pisou sobre um dos vidros quebrados. Por alguma razĂŁo ele direcionou sua lanterna para o teto e para as cornijas.
â O senhor quer dar queixa? â o policial me perguntou.
â NĂŁo. Ela tem filhos. NĂŁo quero que ela fique sem eles. O ex-marido estĂĄ tentando ficar com a guarda das crianças. Mas, por favor, diga a ela que as pessoas nĂŁo podem andar por aĂ fazendo esse tipo de coisa.
â Ok â ele disse â, agora assine aqui.
Escreveu Ă mĂŁo num pequeno caderno pautado. Dizia que eu, Henry Chinaski, nĂŁo daria queixa contra Lydia Vance.
Assinei e ele se foi.
Passei a chave no que me restara de porta e fui para a cama e tentei dormir.
Mais ou menos uma hora depois, o telefone tocou. Era Lydia. Ela jĂĄ estava em casa.
â SEU Filho da puta, SE VOCĂ VOLTAR A FALAR DAS SUAS MULHERES DE NOVO PRA MIM EU VOU ATĂ AĂ E QUEBRO TUDO DE NOVO!
Ela desligou.
Duas noites mais tarde, fui atĂ© a casa de Tammie em Rustic Court. Bati. As luzes estavam acesas. Parecia vazia. Olhei na sua caixa de correio. Havia cartas ali dentro. Escrevi um bilhete: âTammie, tenho telefonado para vocĂȘ. Vim atĂ© aqui e vocĂȘ nĂŁo estava. EstĂĄ tudo bem com vocĂȘ? Me liga... Hank.â
Voltei no dia seguinte Ă s onze da manhĂŁ. Seu carro nĂŁo estava ali na frente. Meu bilhete continuava enfiado na porta. Mesmo assim toquei a campainha. As cartas continuavam na caixa de correio. Deixei um bilhete ali: âTammie, onde diabos vocĂȘ estĂĄ? Entre em contato comigo... Hank.â
Dei uma volta pela vizinhança em busca daquele Camaro vermelho todo detonado.
Retornei naquela noite. Chovia. Meus bilhetes estavam molhados. Havia mais cartas na caixa. Deixei-lhe um dos meus livros de poesia, com uma dedicatória. Então voltei para meu fusca. Tinha uma cruz de malta pendurada no meu retrovisor. Arranquei a cruz, voltei à casa dela e a amarrei ao redor da maçaneta.
NĂŁo sabia onde morava nenhuma de suas amigas, onde sua mĂŁe morava, onde seus amantes moravam.
Voltei pra casa e escrevi alguns poemas de amor.
â Mulheres
A Noite Mais Estranha Que de Fato Você Já Viu
eu tinha esse quarto da frente na DeLongpre
e costumava me sentar por horas
durante o dia
olhando pela janela
da frente.
havia um nĂșmero incontĂĄvel de garotas que
passavam
rebolando;
aquilo salvava minhas tardes,
acrescentava algo Ă cerveja e aos
cigarros.
certo dia eu vi alguma coisa
a mais.
escutei primeiro o som.
âvamos lĂĄ, empurrem!â, ele disse.
era uma enorme tĂĄbua
com 1 metro de largura por
20 de comprimento;
com rodinhas atarraxadas Ă s extremidades
e ao meio.
ele puxava pela frente
usando duas longas cordas presas Ă tĂĄbua
e ela ia atrĂĄs
controlando a direção e também empurrando.
todos os seus bens estavam atados Ă quela
tĂĄbua:
potes, panelas, colchas e tudo o mais
amarrado Ă tĂĄbua
bem preso;
e as rodinhas rangiam.
ele era branco, um colono, um
sulista â
magro, curvo, as calças a ponto
de cair e revelar
seu rabo â
o rosto rosado pelo sol e o
vinho barato,
e ela negra
caminhando aprumada
empurrando;
ela era simplesmente maravilhosa
de turbante
grandes brincos verdes
um vestido amarelo
que ia
do pescoço ao
tornozelo.
seu rosto estava gloriosamente
indiferente.
ânĂŁo se preocupe!â ele gritou, voltando-se para
ela, âalguĂ©m vai
nos alugar um quarto!â
ela nĂŁo respondeu.
entĂŁo eles desapareceram
embora eu ainda ouvisse
as rodinhas.
eles iriam conseguir,
pensei.
tenho certeza que
sim.
Tudo começou com um equĂvoco.
Era Ă©poca de Natal e soube atravĂ©s do bĂȘbado que vivia colina acima, que fazia esse esquema todo Natal, que eles contratavam quase qualquer um, e entĂŁo eu pintei lĂĄ e quando me dei conta eu jĂĄ estava com essa mochila de couro nas costas, dando voltas por aĂ a meu bel-prazer. Que trabalho, pensei. Uma moleza! Eles lhe designavam apenas uma ou duas quadras e, se vocĂȘ conseguisse percorrĂȘ-las a tempo, o carregador regular designava mais uma quadra, ou talvez vocĂȘ pudesse retornar e o supervisor lhe indicava uma nova ĂĄrea, mas dava para fazer as coisas Ă sua maneira, ou seja, levar o tempo que fosse preciso para colocar os cartĂ”es de natal nas caixas postais.
Creio que foi no meu segundo dia como temporĂĄrio que essa mulher enorme apareceu e passou a me acompanhar enquanto eu entregava as cartas. Quero dizer com esse enorme Ă© que seu rabo era enorme e suas tetas eram enormes e que ela era enorme em todos os lugares certos. Ela parecia um pouco louca, mas segui olhando para seu corpo mesmo assim, sem me importar.
Ela falava e falava e falava. EntĂŁo deixou escapar. Seu marido era um oficial servindo numa ilha distante e ela se sentia sozinha, sabe, e vivia naquela casinha dos fundos, por conta prĂłpria.
â Que casinha? â perguntei.
Escreveu o endereço num pedaço de papel.
â TambĂ©m sou sozinho â eu disse â, mais tarde apareço por lĂĄ pra gente conversar.
Eu era comprometido, mas a minha parceira estava fora boa parte do tempo, em algum lugar, o que me fazia alguém sozinho de fato. Estava sozinho e pronto para ter aquele enorme rabo junto a mim.
â EstĂĄ bem â ela disse â, vejo vocĂȘ de noite.
Ela era muito legal, era uma boa trepada, mas como todas as trepadas, depois da terceira ou quarta noite, comecei a perder o interesse e nĂŁo voltei mais.
Mas eu nĂŁo conseguia deixar de pensar, deus, tudo o que esses carteiros tĂȘm pra fazer Ă© entregar suas cartas e trepar. Esse Ă© o trabalho certo pra mim, oh, sim sim sim.
EntĂŁo fiz o exame, passei, depois o teste fĂsico, passei, e lĂĄ estava eu â um carteiro substituto. No começo foi moleza. Mandaram-me para a Estação West Avon e era como no Natal, exceto que eu nĂŁo trepava com ninguĂ©m. Todo dia eu esperava dormir com alguĂ©m, mas nĂŁo conseguia. Mas o supervisor era camarada e eu me arrastava pelas redondezas, uma quadra aqui outra ali. NĂŁo usava sequer um uniforme, apenas um bonĂ©. Usava minhas roupas de sempre. Do jeito que eu e minha parceira Betty bebĂamos, mal sobrava dinheiro para roupas.
Então fui transferido para a Estação Oakford.
O supervisor era um tipo pescoçudo chamado Jonstone. Estavam precisando de ajuda por ali e entendi por quĂȘ. Jonstone gostava de vestir camisas vermelho-escuras â significando perigo e sangue. Havia sete substitutos â Tom Moto, Nick Pelligrini, Herman Stratford, Rosey Anderson, Bobby Hansen, Harold Wiley e eu, Henry Chinaski. O horĂĄrio de chegada era Ă s cinco da manhĂŁ e eu era o Ășnico bĂȘbado por ali. Sempre bebia atĂ© depois da meia-noite, e lĂĄ ficĂĄvamos nĂłs sentados, Ă s cinco da manhĂŁ, esperando pelo turno, esperando que algum dos carteiros regulares ligasse dizendo estar doente. Isto normalmente ocorria em dias de chuva ou numa onda de calor ou nos dias depois de feriados, quando as cartas se acumulavam e o peso dobrava.
Havia quarenta ou cinquenta rotas diferentes, talvez mais, cada situação era diferente, nĂŁo havia nunca como se familiarizar com elas, vocĂȘ precisava apanhar as cartas que lhe cabiam e estar pronto antes das oito para os despachos por caminhĂŁo, e Jonstone nĂŁo aceitava desculpas. Os substitutos faziam entregas em qualquer canto, seguiam sem almoço e morriam pelas ruas. Jonstone nos mandava fazer as entregas jĂĄ com trinta minutos de atraso â girando em sua cadeira em sua camisa vermelha:
â Chinaski, pegue a rota 539!
Começåvamos meia hora atrasados, mas ainda assim tĂnhamos que fazer as entregas a tempo e voltar no horĂĄrio. E uma ou duas vezes por semana, jĂĄ combalidos, exaustos e fodidos, tĂnhamos que fazer as coletas noturnas, e o horĂĄrio do cronograma era impossĂvel de ser cumprido â o caminhĂŁo jamais seria tĂŁo rĂĄpido. Era preciso pular quatro ou cinco caixas na primeira corrida e na prĂłxima volta elas jĂĄ estavam entupidas de cartas e vocĂȘ fedia, corria com o suor invadindo os sacos. E eu, que sĂł queria uma foda, acabei fodido. Com a cortesia de Jonstone.
Os prĂłprios substitutos tornaram Jonstone possĂvel ao obedecer suas ordens impossĂveis. NĂŁo conseguia entender como um homem cuja crueldade era tĂŁo patente tinha permissĂŁo para ocupar sua posição. Os carteiros regulares nĂŁo davam a mĂnima, o cara do sindicato era um inĂștil, entĂŁo preenchi um relatĂłrio de trinta pĂĄginas num dos meus dias de folga, enviei uma cĂłpia pelo correio para Jonstone e a outra levei pessoalmente ao EscritĂłrio Federal. O atendente me pediu para esperar. E assim esperei e esperei e esperei. Esperei por uma hora e meia, entĂŁo fui conduzido Ă presença de um homenzinho de cabelos cinzentos, com olhos que pareciam cinza de cigarro. NĂŁo chegou nem a pedir que eu sentasse. Começou a gritar comigo mal eu passei pela porta.
â O senhor Ă© um desses filhos da puta metidos a esperto, nĂŁo Ă©?
â Pediria que o senhor nĂŁo me xingasse, senhor!
â Sim, um desses filhos da puta sabichĂ”es, com seu vocabulariozinho de filho da puta, que nĂŁo perde uma chance de mostrar o quanto sabe!
Ele me estendeu os papéis. E gritou:
â O SR. JONSTONE Ă UM ĂTIMO HOMEM!
â NĂŁo seja tolo. O sujeito Ă© obviamente um sĂĄdico â eu disse.
â HĂĄ quanto tempo o senhor estĂĄ nos Correios?
â TrĂȘs semanas.
â O SR. JONSTONE ESTĂ NOS CORREIOS HĂ TRINTA ANOS!
â Sim, e o que isso tem a ver com o assunto?
â JĂĄ disse, O SR. JONSTONE Ă UM ĂTIMO HOMEM!
Creio que o pobre sujeito tinha vontade mesmo de me matar. Ele e Jonstone deviam ter dormido juntos.
â Tudo bem â eu disse â, Jonstone Ă© um Ăłtimo homem. Esqueça essa porra toda.
Então me afastei e tirei o dia seguinte de folga. Sem remuneração, claro.
â Cartas na rua
e costumava me sentar por horas
durante o dia
olhando pela janela
da frente.
havia um nĂșmero incontĂĄvel de garotas que
passavam
rebolando;
aquilo salvava minhas tardes,
acrescentava algo Ă cerveja e aos
cigarros.
certo dia eu vi alguma coisa
a mais.
escutei primeiro o som.
âvamos lĂĄ, empurrem!â, ele disse.
era uma enorme tĂĄbua
com 1 metro de largura por
20 de comprimento;
com rodinhas atarraxadas Ă s extremidades
e ao meio.
ele puxava pela frente
usando duas longas cordas presas Ă tĂĄbua
e ela ia atrĂĄs
controlando a direção e também empurrando.
todos os seus bens estavam atados Ă quela
tĂĄbua:
potes, panelas, colchas e tudo o mais
amarrado Ă tĂĄbua
bem preso;
e as rodinhas rangiam.
ele era branco, um colono, um
sulista â
magro, curvo, as calças a ponto
de cair e revelar
seu rabo â
o rosto rosado pelo sol e o
vinho barato,
e ela negra
caminhando aprumada
empurrando;
ela era simplesmente maravilhosa
de turbante
grandes brincos verdes
um vestido amarelo
que ia
do pescoço ao
tornozelo.
seu rosto estava gloriosamente
indiferente.
ânĂŁo se preocupe!â ele gritou, voltando-se para
ela, âalguĂ©m vai
nos alugar um quarto!â
ela nĂŁo respondeu.
entĂŁo eles desapareceram
embora eu ainda ouvisse
as rodinhas.
eles iriam conseguir,
pensei.
tenho certeza que
sim.
Tudo começou com um equĂvoco.
Era Ă©poca de Natal e soube atravĂ©s do bĂȘbado que vivia colina acima, que fazia esse esquema todo Natal, que eles contratavam quase qualquer um, e entĂŁo eu pintei lĂĄ e quando me dei conta eu jĂĄ estava com essa mochila de couro nas costas, dando voltas por aĂ a meu bel-prazer. Que trabalho, pensei. Uma moleza! Eles lhe designavam apenas uma ou duas quadras e, se vocĂȘ conseguisse percorrĂȘ-las a tempo, o carregador regular designava mais uma quadra, ou talvez vocĂȘ pudesse retornar e o supervisor lhe indicava uma nova ĂĄrea, mas dava para fazer as coisas Ă sua maneira, ou seja, levar o tempo que fosse preciso para colocar os cartĂ”es de natal nas caixas postais.
Creio que foi no meu segundo dia como temporĂĄrio que essa mulher enorme apareceu e passou a me acompanhar enquanto eu entregava as cartas. Quero dizer com esse enorme Ă© que seu rabo era enorme e suas tetas eram enormes e que ela era enorme em todos os lugares certos. Ela parecia um pouco louca, mas segui olhando para seu corpo mesmo assim, sem me importar.
Ela falava e falava e falava. EntĂŁo deixou escapar. Seu marido era um oficial servindo numa ilha distante e ela se sentia sozinha, sabe, e vivia naquela casinha dos fundos, por conta prĂłpria.
â Que casinha? â perguntei.
Escreveu o endereço num pedaço de papel.
â TambĂ©m sou sozinho â eu disse â, mais tarde apareço por lĂĄ pra gente conversar.
Eu era comprometido, mas a minha parceira estava fora boa parte do tempo, em algum lugar, o que me fazia alguém sozinho de fato. Estava sozinho e pronto para ter aquele enorme rabo junto a mim.
â EstĂĄ bem â ela disse â, vejo vocĂȘ de noite.
Ela era muito legal, era uma boa trepada, mas como todas as trepadas, depois da terceira ou quarta noite, comecei a perder o interesse e nĂŁo voltei mais.
Mas eu nĂŁo conseguia deixar de pensar, deus, tudo o que esses carteiros tĂȘm pra fazer Ă© entregar suas cartas e trepar. Esse Ă© o trabalho certo pra mim, oh, sim sim sim.
EntĂŁo fiz o exame, passei, depois o teste fĂsico, passei, e lĂĄ estava eu â um carteiro substituto. No começo foi moleza. Mandaram-me para a Estação West Avon e era como no Natal, exceto que eu nĂŁo trepava com ninguĂ©m. Todo dia eu esperava dormir com alguĂ©m, mas nĂŁo conseguia. Mas o supervisor era camarada e eu me arrastava pelas redondezas, uma quadra aqui outra ali. NĂŁo usava sequer um uniforme, apenas um bonĂ©. Usava minhas roupas de sempre. Do jeito que eu e minha parceira Betty bebĂamos, mal sobrava dinheiro para roupas.
Então fui transferido para a Estação Oakford.
O supervisor era um tipo pescoçudo chamado Jonstone. Estavam precisando de ajuda por ali e entendi por quĂȘ. Jonstone gostava de vestir camisas vermelho-escuras â significando perigo e sangue. Havia sete substitutos â Tom Moto, Nick Pelligrini, Herman Stratford, Rosey Anderson, Bobby Hansen, Harold Wiley e eu, Henry Chinaski. O horĂĄrio de chegada era Ă s cinco da manhĂŁ e eu era o Ășnico bĂȘbado por ali. Sempre bebia atĂ© depois da meia-noite, e lĂĄ ficĂĄvamos nĂłs sentados, Ă s cinco da manhĂŁ, esperando pelo turno, esperando que algum dos carteiros regulares ligasse dizendo estar doente. Isto normalmente ocorria em dias de chuva ou numa onda de calor ou nos dias depois de feriados, quando as cartas se acumulavam e o peso dobrava.
Havia quarenta ou cinquenta rotas diferentes, talvez mais, cada situação era diferente, nĂŁo havia nunca como se familiarizar com elas, vocĂȘ precisava apanhar as cartas que lhe cabiam e estar pronto antes das oito para os despachos por caminhĂŁo, e Jonstone nĂŁo aceitava desculpas. Os substitutos faziam entregas em qualquer canto, seguiam sem almoço e morriam pelas ruas. Jonstone nos mandava fazer as entregas jĂĄ com trinta minutos de atraso â girando em sua cadeira em sua camisa vermelha:
â Chinaski, pegue a rota 539!
Começåvamos meia hora atrasados, mas ainda assim tĂnhamos que fazer as entregas a tempo e voltar no horĂĄrio. E uma ou duas vezes por semana, jĂĄ combalidos, exaustos e fodidos, tĂnhamos que fazer as coletas noturnas, e o horĂĄrio do cronograma era impossĂvel de ser cumprido â o caminhĂŁo jamais seria tĂŁo rĂĄpido. Era preciso pular quatro ou cinco caixas na primeira corrida e na prĂłxima volta elas jĂĄ estavam entupidas de cartas e vocĂȘ fedia, corria com o suor invadindo os sacos. E eu, que sĂł queria uma foda, acabei fodido. Com a cortesia de Jonstone.
Os prĂłprios substitutos tornaram Jonstone possĂvel ao obedecer suas ordens impossĂveis. NĂŁo conseguia entender como um homem cuja crueldade era tĂŁo patente tinha permissĂŁo para ocupar sua posição. Os carteiros regulares nĂŁo davam a mĂnima, o cara do sindicato era um inĂștil, entĂŁo preenchi um relatĂłrio de trinta pĂĄginas num dos meus dias de folga, enviei uma cĂłpia pelo correio para Jonstone e a outra levei pessoalmente ao EscritĂłrio Federal. O atendente me pediu para esperar. E assim esperei e esperei e esperei. Esperei por uma hora e meia, entĂŁo fui conduzido Ă presença de um homenzinho de cabelos cinzentos, com olhos que pareciam cinza de cigarro. NĂŁo chegou nem a pedir que eu sentasse. Começou a gritar comigo mal eu passei pela porta.
â O senhor Ă© um desses filhos da puta metidos a esperto, nĂŁo Ă©?
â Pediria que o senhor nĂŁo me xingasse, senhor!
â Sim, um desses filhos da puta sabichĂ”es, com seu vocabulariozinho de filho da puta, que nĂŁo perde uma chance de mostrar o quanto sabe!
Ele me estendeu os papéis. E gritou:
â O SR. JONSTONE Ă UM ĂTIMO HOMEM!
â NĂŁo seja tolo. O sujeito Ă© obviamente um sĂĄdico â eu disse.
â HĂĄ quanto tempo o senhor estĂĄ nos Correios?
â TrĂȘs semanas.
â O SR. JONSTONE ESTĂ NOS CORREIOS HĂ TRINTA ANOS!
â Sim, e o que isso tem a ver com o assunto?
â JĂĄ disse, O SR. JONSTONE Ă UM ĂTIMO HOMEM!
Creio que o pobre sujeito tinha vontade mesmo de me matar. Ele e Jonstone deviam ter dormido juntos.
â Tudo bem â eu disse â, Jonstone Ă© um Ăłtimo homem. Esqueça essa porra toda.
Então me afastei e tirei o dia seguinte de folga. Sem remuneração, claro.
â Cartas na rua
A Tragédia das Folhas
despertei para a secura e as samambaias estavam mortas;
as plantas nos vasos amarelas como milho;
minha mulher se fora
e as garrafas vazias como cadĂĄveres exangues
rodeavam-me com suas inutilidades;
o sol continuava bom, contudo,
e o bilhete da minha senhoria se rompia num agradĂĄvel e
condescendente amarelo; do que se precisava agora
era de um bom comediante, ao estilo clĂĄssico, um bobo da corte
com piadas capazes de vencer a dor absurda; a dor Ă© absurda
pelo simples fato de existir, nada mais;
barbeio-me com cuidado com uma velha lĂąmina
o homem que uma vez tinha sido jovem e
que se dizia ter gĂȘnio; mas
esta é a tragédia das folhas,
das samambaias mortas, das plantas mortas;
e segui até um hall escuro
onde a senhoria esperava
execrĂĄvel e resoluta,
mandando-me para o inferno,
gesticulando seus braços gordos e suarentos
e gritando
gritando e exigindo o aluguel
porque o mundo havia nos
decepcionado.
as plantas nos vasos amarelas como milho;
minha mulher se fora
e as garrafas vazias como cadĂĄveres exangues
rodeavam-me com suas inutilidades;
o sol continuava bom, contudo,
e o bilhete da minha senhoria se rompia num agradĂĄvel e
condescendente amarelo; do que se precisava agora
era de um bom comediante, ao estilo clĂĄssico, um bobo da corte
com piadas capazes de vencer a dor absurda; a dor Ă© absurda
pelo simples fato de existir, nada mais;
barbeio-me com cuidado com uma velha lĂąmina
o homem que uma vez tinha sido jovem e
que se dizia ter gĂȘnio; mas
esta é a tragédia das folhas,
das samambaias mortas, das plantas mortas;
e segui até um hall escuro
onde a senhoria esperava
execrĂĄvel e resoluta,
mandando-me para o inferno,
gesticulando seus braços gordos e suarentos
e gritando
gritando e exigindo o aluguel
porque o mundo havia nos
decepcionado.
A Vida de Um Vagabundo
Harry acordou em sua cama, de ressaca. Uma ressaca violenta.
â Merda â ele disse em voz baixa.
Havia uma pequena pia no quarto.
Harry se levantou, aliviou-se na pia, abriu a torneira e deixou a ågua lavå-la, depois enfiou a cabeça ali e bebeu um pouco de ågua. Depois lavou o rosto e se secou com uma parte da camiseta que estava vestindo.
O ano era 1943.
Harry juntou algumas roupas do chĂŁo e começou a se vestir, devagar. A veneziana estava fechada e tudo estava escuro, a nĂŁo ser pelos raios de sol que entravam pelos furos da cortina. Havia duas janelas. O apĂȘ era de primeira.
Ele percorreu o corredor atĂ© o banheiro, trancou a porta e se sentou. Era incrĂvel que ele ainda conseguisse evacuar. NĂŁo comia hĂĄ dias.
Jesus, ele pensou, as pessoas tĂȘm intestinos, bocas, pulmĂ”es, orelhas, umbigos, orgĂŁos sexuais, e... cabelo, poros, lĂnguas, Ă s vezes dentes, e todas as outras partes... unhas, cĂlios, dedos, joelhos, estĂŽmagos...
Havia algo de tão aborrecido nisso tudo. Como é que ninguém reclamava?
Harry terminou com o ĂĄspero papel higiĂȘnico da pensĂŁo. Pode apostar que as senhorias se limpavam com coisa melhor. Todas aquelas senhoras religiosas, viĂșvas hĂĄ sĂ©culos.
Ele vestiu as calças, puxou a descarga e saiu de lå, desceu as escadas da pensão e alcançou a rua.
Eram onze da manhĂŁ. Caminhou para o sul. A ressaca era brutal, mas ele nĂŁo ligava. Isso lhe informava que estivera em outro lugar, um lugar bom. Durante a caminhada ele encontrou meio cigarro no bolso da camisa. Ele parou, olhou para a ponta amassada e manchada, achou um fĂłsforo e tentou acender. A chama nĂŁo pegou. Seguiu tentando. Depois do quarto fĂłsforo, que queimou seus dedos, ele conseguiu dar uma tragada. Ele se engasgou, depois tossiu. Sentiu seu estĂŽmago revirar.
Um carro veio velozmente em sua direção. Dentro do carro estavam quatro rapazes.
â EI, SEU VELHO DE MERDA! VĂ SE MORRE!
Os outros riram. Depois eles se foram.
O cigarro de Harry ainda estava aceso. Ele deu outra tragada. Uma espiral de fumaça azul subiu. Ele gostava daquela espiral de fumaça azul.
Caminhou sob o sol cĂĄlido pensando, estou caminhando e estou fumando um cigarro.
Harry caminhou até chegar ao parque em frente à biblioteca. Continuava tragando o cigarro. Sentiu o calor da ponta queimando e jogou, com relutùncia, o cigarro fora. Adentrou o parque e andou até encontrar um lugar entre uma eståtua e alguns arbustos. A eståtua era de Beethoven. E Beethoven estava caminhando, a cabeça baixa, as mãos para trås, certamente pensando em alguma coisa.
Harry se deitou e se estendeu no gramado. A grama aparada lhe dava coceira. Estava pontiaguda, afiada, mas tinha um cheiro delicioso e limpo. O cheiro da paz.
Pequenos insetos começaram a andar sobre seu rosto, formando cĂrculos irregulares, cruzando o caminho uns dos outros, mas nunca se encontrando.
Eram apenas pontos, mas os pontos estavam procurando alguma coisa.
Harry olhou para o cĂ©u. O cĂ©u estava azul, e isso era horrĂvel. Harry continuou olhando para o cĂ©u, tentando sentir alguma coisa. Mas nĂŁo sentia nada. Nenhuma sensação de eternidade. Nem de Deus. Nem mesmo do Diabo. Mas era preciso encontrar Deus primeiro se quisesse encontrar o Diabo. Eles vinham nessa ordem.
Harry nĂŁo gostava de pensamentos graves. Pensamentos graves podiam levar a erros graves.
Pensou um pouco sobre o suicĂdio... sem fazer disso um grande drama. Do mesmo modo como a maioria dos homens pensaria sobre comprar um par de sapatos novos. O maior problema do suicĂdio era a hipĂłtese de que ele pudesse levar a algo pior. O que ele realmente precisava era de uma garrafa de cerveja bem gelada, o rĂłtulo Ășmido, e com aquelas gotas geladas tĂŁo lindas na superfĂcie do vidro.
Harry cochilou... e foi acordado pelo som de vozes. As vozes eram de meninas muito jovens, colegiais. Elas estavam rindo, gracejando.
â Ooooh, olhem!
â Ele estĂĄ dormindo!
â Vamos acordar ele?
Harry piscou à luz do sol, espiando as meninas através das pålpebras semicerradas. Não sabia ao certo quantas eram, mas pÎde ver seus vestidos coloridos: amarelos e vermelhos e azuis e verdes.
â Olhem! Ele Ă© lindo!
Elas riram, gargalharam e saĂram correndo.
Harry voltou a fechar os olhos.
O que tinha sido aquilo?
Nunca antes lhe acontecera algo tĂŁo agradĂĄvel e delicioso. Elas o tinham chamado de âlindoâ. Quanta gentileza!
Mas elas nĂŁo voltariam.
Ele se levantou e caminhou até o final do parque. Lå estava a avenida. Achou um banco de praça e se sentou. Havia outro mendigo no banco ao lado. Ele era bem mais velho que Harry. O mendigo tinha um ar pesado, sombrio, amargo, que fazia Harry se lembrar de seu pai.
NĂŁo, pensou Harry. Estou sendo muito duro.
O mendigo olhou na direção de Harry. O mendigo tinha olhos pequenos e inexpressivos.
Harry lançou-lhe um sorriso tĂmido. O mendigo virou o rosto.
Então um barulho veio da avenida. Motores. Era um comboio militar. Uma longa faixa de caminhÔes cheios de soldados. Os soldados estavam apertados como sardinhas, transbordavam, se penduravam do lado de fora dos caminhÔes. O mundo estava em guerra.
O comboio se movia lentamente. Os soldados avistaram Harry sentado no banco de praça. Então começou o barulho. Era uma mistura de assobios, vaias e xingamentos. Eles gritavam com Harry.
â EI, SEU Filho da puta!
â PREGUIĂOSO!
Ă medida que cada caminhĂŁo do comboio passava, o prĂłximo continuava:
â TIRE A SUA BUNDA DESSE BANCO!
â VEADO DE MERDA!
â COVARDE!
â CAGALHĂO!
Era um comboio muito longo e muito lento.
â VENHA SE JUNTAR A NĂS!
â VAMOS TE ENSINAR A LUTAR, SEU PUTĂO!
Os rostos eram brancos e pardos e negros, flores de Ăłdio.
Então o velho mendigo se levantou do seu banco de praça e gritou para o comboio:
â EU PEGO ELE PARA VOCĂS, RAPAZES! LUTEI NA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL!
Os que estavam nos caminhÔes que passavam riram e abanaram os braços:
â PEGUE ELE, VOVĂ!
â FAĂA ELE VER A LUZ!
EntĂŁo o comboio se foi.
Eles haviam jogado coisas em Harry: latas de cerveja vazias, latas de refrigerante, laranjas, uma banana.
Harry se levantou, juntou a banana, sentou-se de novo, descascou a banana e a comeu. Estava divina. Depois ele encontrou uma laranja, descascou-a e a mastigou, engoliu a polpa e o suco. Encontrou outra laranja e a comeu também. Então achou um isqueiro que alguém havia jogado ou deixado cair. Girou a pederneira. Funcionava.
Andou até o mendigo que estava sentado no banco, empunhando o isqueiro.
â Ei, camarada, tem um cigarro?
Os pequenos olhos do mendigo se fixaram em Harry. Pareciam vazios, como se as pupilas tivessem sido removidas. O lĂĄbio inferior do mendigo tremeu.
â VocĂȘ gosta do Hitler, nĂŁo Ă©? â ele disse em voz baixa.
â Olha, amigo â disse Harry â, por que vocĂȘ e eu nĂŁo damos uma volta juntos? Podemos descolar uns pilas pra tomar umas biritas.
O velho mendigo revirou os olhos. Por um instante Harry pode ver apenas o branco de seus olhos injetados. Os olhos voltaram para o lugar. O mendigo olhou para ele.
â Com vocĂȘ... NĂŁo!
â Ok â disse Harry â, atĂ© a vista...
O velho mendigo voltou a revirar os olhos e disse de novo, sĂł que mais alto desta vez:
â COM VOCĂ... NĂO!
Harry saiu do parque caminhando devagar e subiu a rua em direção ao seu bar favorito. O bar estava sempre lĂĄ. Harry atracava no bar. Era seu Ășnico paraĂso. Impiedoso e justo.
No caminho, Harry passou por um estacionamento vazio. Um bando de homens de meia-idade jogava softball. Eles estavam fora de forma. Eram, em sua maioria, barrigudos, baixinhos e bundudos, quase como mulheres. Eram todos amadores ou estavam velhos demais para os arremessos.
Harry parou para assistir ao jogo. Era um festival de eliminaçÔes, lançamentos ruins, rebatedores golpeados, erros, bolas mal batidas, mas eles seguiam jogando. Quase como um ritual, uma obrigação. E eles estavam com raiva. Era a Ășnica coisa em que eram bons. A energia de sua raiva dominada.
Harry ficou assistindo. Tudo parecia perda de tempo. Até mesmo a bola parecia triste, saltitando inutilmente de um lado para o outro.
â OlĂĄ, Harry, como Ă© que vocĂȘ nĂŁo estĂĄ no bar?
Era o McDuff, um sujeito velho e franzino, dando uma baforada em seu cachimbo. McDuff tinha uns 62 anos, sempre olhava para a frente, nunca diretamente para seu interlocutor, mas ele o via mesmo assim por detrĂĄs de seus Ăłculos sem aro. E ele sempre vestia um terno preto com gravata azul. Chegava no bar todos os dias por volta do meio-dia, tomava duas cervejas, depois ia embora. E vocĂȘ nĂŁo conseguia odiĂĄ-lo nem gostar dele. Era como um calendĂĄrio ou um porta-canetas.
â Estou a caminho â respondeu Harry.
â Eu acompanho vocĂȘ â disse McDuff.
EntĂŁo Harry caminhou ao lado do velho e franzino McDuff enquanto o velho e franzino McDuff fumava seu cachimbo. McDuff sempre mantinha o cachimbo aceso. Era sua marca registrada. McDuff era o seu cachimbo. Por que nĂŁo?
Caminhavam juntos, sem dizer nada. NĂŁo havia o que dizer. Pararam no semĂĄforo, McDuff fumando seu cachimbo.
McDuff tinha poupado dinheiro. Nunca havia se casado. Morava num apartamento de dois cÎmodos e não fazia muita coisa. Bem, ele lia os jornais, mas sem muito interesse. Não era religioso. Mas não por falta de convicção. Simplesmente porque não havia se dado ao trabalho de pensar no assunto. Era como não ser republicano por não saber o que é um republicano. McDuff não era feliz nem infeliz. Vez que outra ficava um pouco inquieto, alguma coisa parecia incomodå-lo e por alguns instantes seus olhos se enchiam de terror. Mas logo aquilo passava... como uma mosca que pousa... e em seguida levanta voo à procura de terras mais promissoras.
EntĂŁo eles chegaram ao bar. Entraram.
As pessoas de sempre.
McDuff e Harry se sentaram em seus bancos.
â Duas cervejas â proferiu o bom e velho McDuff ao dono do bar.
â Como vai, Harry? â perguntou um dos fregueses do bar.
â Tateando no escuro, tremendo e cagando â respondeu.
Sentiu pena do McDuff. NinguĂ©m o havia cumprimentado. McDuff era como um mata-borrĂŁo sobre a mesa. NĂŁo suscitava nenhum sentimento. Notavam Harry porque ele era um vagabundo. Fazia com que se sentissem superiores. Eles precisavam disso. McDuff fazia com que se sentissem apenas mais insĂpidos do que jĂĄ eram.
Não aconteceu nada demais. Todos se debruçaram sobre suas bebidas, observando-as. Poucos tinham imaginação o suficiente para simplesmente encher a cara.
Uma tarde banal de sĂĄbado.
McDuff partiu para sua segunda cerveja e foi gentil o bastante para pagar outra a Harry.
O cachimbo de McDuff estava fervendo por conta das seis horas de queima contĂnua.
Terminou sua segunda cerveja e foi embora, e Harry ficou lĂĄ com o resto do pessoal.
Era um såbado muito parado, mas Harry sabia que se aguentasse por mais algum tempo conseguiria se dar bem. Såbado à noite, é claro, era melhor para descolar umas bebidas. Mas não havia nenhum lugar para onde pudesse ir até que a hora chegasse. Harry estava se esquivando da senhoria. Ele pagava por semana e estava nove dias atrasado.
Entre uma bebida e outra, o ambiente mergulhava num marasmo mortal. Os fregueses sĂł precisavam sentar e ficar em algum lugar. Pairavam no ar uma solidĂŁo generalizada, um medo latente e a necessidade de estarem juntos e de conversarem um pouco, pois isso os acalmava. Tudo de que Harry precisava era de alguma coisa para beber. Harry podia beber eternamente e ainda precisaria de mais, nĂŁo havia bebida suficiente para satisfazĂȘ-lo. Mas os outros... eles apenas sentavam, falando de vez em quando sobre o que quer fosse.
A cerveja de Harry estava ficando choca. E a ideia nĂŁo era terminĂĄ-la porque aĂ teria que comprar outra e ele nĂŁo tinha dinheiro. Teria que esperar e ficar na expectativa. Como um profissional na mendicĂąncia de bebidas, Harry sabia a primeira regra: vocĂȘ nunca deve pedir uma. Sua sede era uma piada para os outros e qualquer pedido de sua parte lhes tirava o prazer de dar.
Harry deixou seus olhos passearem pelo bar. Havia quatro ou cinco clientes por ali. Poucos e sĂł gente miĂșda. Um deles era Monk Hamilton. A maior afirmação de vitalidade para Monk era comer seis ovos no cafĂ© da manhĂŁ. Todos os dias. Ele achava que isso lhe dava uma vantagem. NĂŁo era muito bom nesse negĂłcio de pensar. Era um tipo imenso, quase tĂŁo largo quanto alto, de olhos pĂĄlidos, fixos e despreocupados, pescoço de carvalho, mĂŁos grandes, peludas e nodosas.
Monk estava falando com o atendente do bar. Harry ficou olhando uma mosca que rastejava lentamente para dentro do cinzeiro molhado de cerveja à sua frente. A mosca caminhou por ali, por entre os tocos de cigarro, forçando caminho contra um cigarro empapado, depois soltou um zunido furioso, ergueu-se, então pareceu voar para trås, e para a esquerda, e depois se foi.
Monk era limpador de janelas. Seus olhos inexpressivos encontraram os de Harry. Seus lĂĄbios grossos se torceram num riso de superioridade. Ele pegou sua garrafa, andou, sentou-se no banco ao lado de Harry.
â O que vocĂȘ estĂĄ fazendo, Harry?
â Esperando chover.
â Que tal uma cerveja?
â Esperando chover cerveja, Monk. Obrigado.
Monk pediu duas cervejas. Elas chegaram.
Harry gostava de beber sua cerveja direto do gargalo. Monk despejou um pouco da sua num copo.
â Harry, vocĂȘ estĂĄ precisando de emprego?
â NĂŁo tenho pensado no assunto.
â Tudo que vocĂȘ precisa fazer Ă© segurar a escada. Precisamos de um cara para a escada. NĂŁo paga tĂŁo bem quanto lĂĄ em cima, mas jĂĄ Ă© alguma coisa. O que vocĂȘ acha?
Monk estava fazendo uma piada. Pensava que Harry era imbecil demais para compreendĂȘ-la.
â Me dĂȘ um tempo para pensar no assunto, Monk.
Monk olhou em volta para os outros clientes, soltou seu sorriso superior de novo, piscou para eles, entĂŁo voltou a olhar para Harry.
â Escute, tudo o que vocĂȘ tem que fazer Ă© segurar a escada bem firme. Isso nĂŁo Ă© tĂŁo dificil, Ă©?
â Ă mais fĂĄcil que muita coisa, Monk.
â EntĂŁo vocĂȘ topa?
â Acho que nĂŁo.
â Ah, vamos! Por que vocĂȘ nĂŁo tenta?
â Eu nĂŁo posso fazer isso, Monk.
EntĂŁo todos se sentiram bem. Harry era o garoto deles. O esplĂȘndido fracassado.
Harry olhou para todas aquelas garrafas atrĂĄs do bar. Todos aqueles bons momentos Ă espera, todas aquelas risadas, toda aquela loucura... uĂsque, vinho, gim, vodca e tantas outras delĂcias. E ainda assim todas aquelas garrafas ficavam lĂĄ paradas, em desuso. Era como uma vida esperando para ser vivida, uma vida que ninguĂ©m queria.
â Olhe â disse Monk â, vou cortar o cabelo.
Harry sentiu a tranquila solidez de Monk. Monk havia ganhado, em certo momento, alguma coisa. Ele se encaixava, como uma chave numa fechadura que abria para uma outra parte qualquer.
â Por que vocĂȘ nĂŁo vem comigo enquanto eu corto o cabelo?
Harry nĂŁo respondeu.
Monk chegou mais perto.
â Paramos pra tomar uma cerveja no caminho e eu pago outra pra vocĂȘ depois.
â Vamos lĂĄ...
Harry esvaziou a garrafa facilmente em sua Ăąnsia, depois a largou.
Seguiu Monk para fora do bar. Caminharam juntos ao longo da rua. Harry sentiu-se como um cachorro seguindo seu dono. E Monk estava calmo, estava agindo, tudo se encaixava. Era o seu sĂĄbado de folga e ele ia cortar o cabelo.
Acharam um bar e pararam ali. Era muito mais agradĂĄvel e limpo do que o bar em que Harry normalmente vadiava. Monk pediu as cervejas.
O modo como ele se comportava! Um homem mĂĄsculo. E seguro de sua masculinidade. Nunca pensava na morte, pelo menos nĂŁo na sua.
Enquanto estavam ali, lado a lado, Harry percebeu que havia cometido um erro: um trabalho em turno integral teria sido menos doloroso do que aquilo.
Monk tinha uma verruga no lado direito do rosto, uma verruga bem descontraĂda, uma verruga sem constrangimentos.
Harry ficou olhando Monk pegar sua garrafa e sugå-la. Era apenas algo que Monk fazia, como coçar o nariz. Ele não estava åvido pela bebida. Monk apenas ficava sentado com sua garrafa e estava tudo pago. E o tempo corria como a merda corre pelo rio.
Terminaram suas garrafas, e Monk disse alguma coisa ao atendente do bar e o atendente do bar respondeu alguma coisa.
Então Harry seguiu Monk até o lado de fora do bar. Seguiram juntos, Monk ia cortar o cabelo.
Caminharam até a barbearia e entraram. Não havia outros clientes. O barbeiro conhecia Monk. Enquanto Monk subia na cadeira eles disseram algumas palavras um para o outro. O barbeiro o cobriu com o protetor e a cabeça de Monk pareceu enorme, a verruga firme na bochecha direita, e ele disse:
â Curto ao redor das orelhas e nĂŁo tire muito em cima.
Harry, desesperado por outra bebida, pegou uma revista, virou algumas pĂĄginas e fingiu estar interessado.
EntĂŁo ouviu Monk dizer ao barbeiro:
â A propĂłsito, Paul, este Ă© Harry. Harry, este Ă© Paul.
Paul e Harry e Monk.
Monk e Harry e Paul.
Harry, Monk, Paul.
â Olhe, Monk â disse Harry â, quem sabe eu vou lĂĄ pegar outra cerveja enquanto vocĂȘ corta o cabelo?
Monk olhou fixamente para Harry.
â NĂŁo, nĂłs vamos tomar uma cerveja depois que eu terminar aqui.
Depois Monk olhou fixamente para o espelho.
â NĂŁo precisa tirar tanto ao redor das orelhas, Paul.
Enquanto o mundo girava, Paul ia cortando.
â Tem pescado alguma coisa, Monk?
â Nada, Paul.
â NĂŁo acredito nisso...
â Acredite, Paul.
â NĂŁo Ă© o que tenho ouvido.
â Como...?
â Que nem quando a Betsy Ross fez a bandeira americana, treze estrelas nĂŁo teriam bastado para se enrolar no seu mastro!
â Ah, droga, Paul, vocĂȘ Ă© muito engraçado!
Monk riu. Sua risada era como linĂłleo sendo cortado com uma faca sem fio. Ou talvez fosse um grito de morte.
EntĂŁo ele parou de rir.
â NĂŁo tire muito em cima.
Harry largou a revista e olhou para o chão. A risada de linóleo havia se transformado num chão de linóleo. Verde e azul, com diamantes lilases. Um chão velho. Alguns pedaços tinham começado a descascar, revelando o soalho marrom-escuro que estava por baixo. Harry gostava de marrom.
Ele começou a contar: trĂȘs cadeiras de barbeiro, cinco cadeiras de espera. Treze ou quatorze revistas. Um barbeiro. Um cliente. Um... o quĂȘ?
Paul e Harry e Monk e o marrom-escuro.
Os carros passavam do lado de fora. Harry começou a contar, parou. Não brinque com a loucura, a loucura não brinca.
Mais fĂĄcil contar as bebidas nas mĂŁos: nenhuma.
O tempo reverberava como um sino monĂłtono.
Harry sentia seus pés, seus pés dentro dos sapatos, e seus dedos... nos pés, dentro dos sapatos.
Ele mexia os dedos dos pés. Sua vida completamente desperdiçada indo a lugar nenhum como uma lesma se arrastando em direção ao fogo.
Folhas cresciam sobre os troncos. AntĂlopes erguiam suas cabeças do pasto. Um açougueiro em Birmingham levantava seu cutelo. E Harry estava parado numa barbearia, na esperança de tomar uma cerveja.
Ele nĂŁo tinha dignidade, era um vira-latas.
Aquilo seguiu, passou, continuou e continuou, e entĂŁo terminou. O fim do teatro da cadeira do barbeiro. Paul girou Monk para que ele pudesse se ver no espelho atrĂĄs da cadeira.
Harry odiava barbearias. Aquele giro final na cadeira, aqueles espelhos, eram um momento de horror para ele.
Monk nĂŁo se incomodava.
Ele se olhou. Estudou seu reflexo, rosto, cabelo, tudo. Parecia admirar o que via. EntĂŁo, ele falou:
â Ok, Paul. Agora vocĂȘ poderia tirar um pouco do lado esquerdo? E estĂĄ vendo este pedacinho desalinhado? Temos que corrigir.
â Ah, sim, Monk... eu cuido disso...
O barbeiro girou Monk de volta e se concentrou no pequeno pedaço que estava desalinhado.
Harry observava a tesoura. Havia muito barulho, mas nĂŁo muito corte.
Então Paul girou Monk de novo em direção ao espelho.
Monk se olhou.
Um leve sorriso se esboçou no canto direito de sua boca. EntĂŁo o lado esquerdo de seu rosto se contorceu um pouco. Autoadoração com uma pequena pontada de dĂșvida.
â EstĂĄ bem â ele disse â, agora vocĂȘ acertou.
Paul espanou Monk com uma pequena escova. Pedaços de cabelo morto flutuaram num mundo morto.
Monk revirou os bolsos atrĂĄs do valor do corte e da gorjeta.
A transação monetåria fez tinir a tarde apåtica.
EntĂŁo Harry e Monk caminharam pela rua, juntos, de volta ao bar.
â NĂŁo hĂĄ nada como um corte de cabelo â disse Monk â, faz vocĂȘ se sentir um novo homem.
Monk sempre vestia work shirts azul-claras, mangas arregaçadas para mostrar seus bĂceps. Um cara e tanto. Tudo o que ele precisava agora era de uma fĂȘmea para dobrar suas cuecas e camisetas de baixo, enrolar suas meias e colocĂĄ-las na gaveta da cĂŽmoda.
â Obrigado por me fazer companhia, Harry.
â NĂŁo por isso, Monk...
â Da prĂłxima vez que eu for cortar o cabelo quero que vocĂȘ venha junto comigo.
â Vamos ver, Monk...
Monk caminhava bem perto do meio-fio e era como um sonho. Um sonho amarelado. Simplesmente aconteceu. E Harry nĂŁo sabia de onde tinha vindo o impulso. Mas cedeu a ele. Fingiu tropeçar e deu um encontrĂŁo em Monk. E Monk, como um pesado anfiteatro de carne, caiu na frente do ĂŽnibus. Quando o motorista pisou no freio ouviu-se uma pancada, nĂŁo muito alto, mas uma pancada. E lĂĄ estava Monk, caĂdo na sarjeta, corte de cabelo, verruga e tudo o mais. E Harry olhou para baixo. Uma coisa estranhĂssima: lĂĄ estava a carteira de Monk na sarjeta. Tinha saltado para fora do bolso traseiro de Monk por conta do impacto e ali estava. SĂł nĂŁo se achava estendida no chĂŁo, mas sim erguida como uma pequena pirĂąmide.
Harry se agachou, pegou a carteira e a colocou em seu bolso. Parecia cålida, cheia de graça. Ave Maria.
Então Harry se debruçou sobre Monk.
â Monk? Monk... vocĂȘ estĂĄ bem?
Monk nĂŁo respondeu. Mas Harry notou que ele estava respirando e nĂŁo havia sangue. E, de repente, o rosto de Monk pareceu bonito e galante.
Ele estĂĄ ferrado, pensou Harry, e eu estou ferrado. NĂłs dois estamos ferrados em sentidos diferentes. NĂŁo existe verdade, nĂŁo existe nada real, nĂŁo existe nada.
Mas algo existia. A multidĂŁo existia.
â Saiam de perto! â alguĂ©m disse â Deixem ele respirar!
Harry saiu de perto. Saiu de perto e se misturou à multidão. Ninguém o deteve.
Ele estava caminhando para o sul. Ouviu a sirene da ambulĂąncia. Ela gritava, secundando o seu sentimento de culpa.
EntĂŁo, rapidamente, a culpa desapareceu. Como uma antiga guerra terminada. Era preciso seguir em frente. As coisas seguiam em frente. Como as pulgas e o melado para panquecas.
Harry se enfiou num bar que nunca havia notado antes. Havia um atendente no balcĂŁo. Garrafas. Estava escuro ali. Pediu um uĂsque duplo, bebeu de um sĂł gole. A carteira de Monk estava gorda e abundante. Sexta devia ter sido dia do pagamento. Harry puxou uma nota, pediu outro uĂsque duplo. Tomou metade, fez uma pausa em reverĂȘncia, e depois secou o resto, e, pela primeira vez em muito tempo, sentiu-se muito bem.
Mais tarde Harry foi até a Groton Steakhouse. Entrou e se sentou no balcão. Nunca tinha ido lå antes. Um homem alto, magro, desinteressante, vestindo chapéu de chef e um avental sujo andou até ele e se curvou sobre o balcão. Estava com a barba por fazer e cheirava a inseticida. Olhou de soslaio para Harry.
â Veio aqui atrĂĄs de EMPREGO? â perguntou.
Por que diabos todo o mundo estĂĄ tentando me botar para trabalhar?, pensou Harry.
â NĂŁo â respondeu Harry.
â Temos uma vaga para lavador de prato. Cinquenta centavos a hora e vocĂȘ pode agarrar a bunda da Rita de vez em quando.
A garçonete passou ao lado deles. Harry olhou para a bunda da mulher.
â NĂŁo, obrigado. Por hora, vou querer uma cerveja. De garrafa. Qualquer marca.
O chef chegou mais perto. Tinha longos pelos saindo das narinas, fortemente ameaçadores, como um pesadelo imprevisto.
â Ouça, seu merda, vocĂȘ tem dinheiro?
â Tenho â disse Harry.
O chef hesitou por alguns instantes, entĂŁo saiu, abriu o refrigerador e puxou uma garrafa de cerveja. Tirou a tampa, voltou atĂ© onde estava Harry e colocou o lĂquido fermentado no balcĂŁo com uma pancada.
Harry deu um longo gole, pousou a garrafa suavemente.
O chef continuava a examinĂĄ-lo. NĂŁo conseguia matar a charada.
â Agora â disse Harry â, quero um filĂ© alto de carne de gado, bem passado, com batatas fritas, e pegue leve na gordura. E me traga outra cerveja, agora.
O chef fez surgir diante dele uma nuvem de fĂșria, depois se afastou, foi atĂ© o refrigerador, repetiu a cena, o que incluĂa trazer a garrafa e colocĂĄ-la no balcĂŁo com um estrondo.
Em seguida o chef foi até a grelha, jogou um bife lå dentro.
Um glorioso manto de fumaça se ergueu. O chef encarava Harry por entre a fumaça.
Não faço ideia, pensou Harry, de por que ele não gosta de mim. Bem, talvez eu precise mesmo de um corte de cabelo (tire bastante de todos os lados, por favor) e fazer a barba, meu rosto estå um pouco abatido, mas as minhas roupas estão bem limpas. Gastas, mas limpas. Devo ser mais limpo que o prefeito desta cidade de merda.
A garçonete chegou perto dele. Não era feia. Nenhuma maravilha, mas não estava mal. Seus cabelos empilhavam-se sobre a cabeça, meio bagunçados, pequenos cachos desciam soltos pelos lados. Bacana.
Ela se debrucou sobre o balcĂŁo.
â VocĂȘ nĂŁo pegou o trabalho de lavador de pratos?
â O salĂĄrio Ă© bom mas nĂŁo Ă© meu ramo de negĂłcio.
â E qual Ă© o seu ramo de negĂłcio?
â Sou arquiteto.
â Metiroso â ela disse e se afastou.
Harry sabia que nĂŁo era muito bom de papo. Descobriu que quanto menos falava melhor todos se sentiam.
Terminou as duas cervejas. Então chegaram o bife e as batatas fritas. O chef bateu o prato com força no balcão. O sujeito era bom nas pancadas.
Parecia um milagre para Harry. Ele avançou, cortando e mastigando. Fazia uns dois anos que nĂŁo devorava um bife. Ă medida que comia, sentia uma força renovada invadindo seu corpo. Quando nĂŁo se come com frequĂȘncia, comer Ă© um verdadeiro acontecimento.
Até mesmo seu cérebro sorria. E seu corpo parecia estar dizendo, obrigado, obrigado, obrigado.
EntĂŁo Harry terminou.
O chef ainda nĂŁo deixara de encarĂĄ-lo.
â Ok â disse Harry â, vou querer um repeteco.
â Vai querer a mesma comida?
â Aham.
O chef o olhou de modo ainda mais fixo. Afastou-se e lançou outro bife na grelha.
â E quero outra cerveja tambĂ©m, por favor. Agora.
â RITA! â gritou o chef â, VEJA MAIS UMA CERVEJA PRA ELE!
Rita apareceu com a cerveja.
â VocĂȘ bebe bastante cerveja â ela disse â para um arquiteto.
â Estou planejando erguer uma grande obra.
â RĂĄ! Como se vocĂȘ conseguisse!
Harry se concentrou na cerveja. Depois levantou e foi até o banheiro masculino. Quando voltou, liquidou a cerveja.
O chef voltou e bateu o prato de bife e fritas com força na frente de Harry.
â A vaga ainda estĂĄ disponĂvel, se vocĂȘ quiser.
Harry não respondeu. Avançou sobre o novo prato.
O chef seguiu até a grelha, de onde continuou a encarar Harry.
â VocĂȘ ganha as duas refeiçÔes â disse o chef â e sai empregado.
Harry estava ocupado demais com o bife e com as batatas fritas para responder. Ainda estava com fome. Quando se estĂĄ na vadiagem, e especialmente quando se Ă© um bebum, pode-se ficar dias sem comer, muitas vezes nĂŁo se tem nem mesmo vontade de comer, e entĂŁo, zaz, vocĂȘ Ă© fulminado: surge uma fome insuportĂĄvel. VocĂȘ começa a pensar em comer qualquer coisa: ratos, borboletas, folhas, bilhetes de jogo, jornal, rolhas, o que aparecer pela frente.
Agora, debruçado sobre o segundo prato, a fome de Harry ainda estava lĂĄ. As batatas fritas eram lindas e gordurosas e amarelas e quentes, algo como a luz do sol, uma nutritiva e gloriosa luz solar que se podia mastigar. E o bife nĂŁo era apenas uma fatia de alguma pobre criatura assassinada, era algo comovente, que alimentava o corpo e a alma e o coração, que fazia os olhos sorrirem, transformando o mundo num lugar menos difĂcil de suportar. Ou de se viver. Naquele instante, a morte nĂŁo importava.
E entĂŁo ele terminou o prato. SĂł havia restado o osso, que estava totalmente limpo. O chef ainda encarava Harry.
â Vou comer mais um â Harry disse ao chef. â Outro filĂ© alto com fritas e mais uma cerveja, por favor.
â VOCĂ NĂO VAI COMER MAIS UM! â gritou o chef â VOCĂ VAI PAGAR TUDO E DAR O FORA DAQUI!
Cruzou pela frente da grelha e parou na frente de Harry. Tinha um bloco de pedidos nas mĂŁos. Rabiscou furiosamente uma soma. Depois jogou a conta no meio do prato sujo. Harry pegou a conta de cima do prato.
Havia um outro cliente no restaurante, um homem redondo e rosado, de cabeça grande e cabelos despenteados, tingidos de um castanho um tanto desanimador. O homem consumira inĂșmeras xĂcaras de cafĂ© enquanto lia o jornal da noite.
Harry se levantou, tirou algumas notas do bolso, separou duas e as depĂŽs ao lado do prato.
Depois deu o fora dali.
O trĂąnsito do inĂcio da noite estava começando a entupir a avenida de carros. O sol se punha atrĂĄs dele. Harry olhou para os motoristas dos carros. Pareciam infelizes. O mundo parecia infeliz. As pessoas estavam no escuro. As pessoas estavam apavoradas e decepcionadas. As pessoas estavam presas em armadilhas. As pessoas estavam na defensiva, nervosas. Sentiam que suas vidas estavam sendo desperdiçadas. E elas estavam certas.
Harry seguiu caminhando. Parou no semĂĄforo. E, naquele momento, teve um sentimento muito estranho. Teve a impressĂŁo de que era a Ășnica pessoa viva no mundo.
Quando o sinal mudou para o verde, esqueceu-se de tudo. Atravessou a rua e seguiu pela calçada do outro lado.
â Septuagenarian Stew
â Merda â ele disse em voz baixa.
Havia uma pequena pia no quarto.
Harry se levantou, aliviou-se na pia, abriu a torneira e deixou a ågua lavå-la, depois enfiou a cabeça ali e bebeu um pouco de ågua. Depois lavou o rosto e se secou com uma parte da camiseta que estava vestindo.
O ano era 1943.
Harry juntou algumas roupas do chĂŁo e começou a se vestir, devagar. A veneziana estava fechada e tudo estava escuro, a nĂŁo ser pelos raios de sol que entravam pelos furos da cortina. Havia duas janelas. O apĂȘ era de primeira.
Ele percorreu o corredor atĂ© o banheiro, trancou a porta e se sentou. Era incrĂvel que ele ainda conseguisse evacuar. NĂŁo comia hĂĄ dias.
Jesus, ele pensou, as pessoas tĂȘm intestinos, bocas, pulmĂ”es, orelhas, umbigos, orgĂŁos sexuais, e... cabelo, poros, lĂnguas, Ă s vezes dentes, e todas as outras partes... unhas, cĂlios, dedos, joelhos, estĂŽmagos...
Havia algo de tão aborrecido nisso tudo. Como é que ninguém reclamava?
Harry terminou com o ĂĄspero papel higiĂȘnico da pensĂŁo. Pode apostar que as senhorias se limpavam com coisa melhor. Todas aquelas senhoras religiosas, viĂșvas hĂĄ sĂ©culos.
Ele vestiu as calças, puxou a descarga e saiu de lå, desceu as escadas da pensão e alcançou a rua.
Eram onze da manhĂŁ. Caminhou para o sul. A ressaca era brutal, mas ele nĂŁo ligava. Isso lhe informava que estivera em outro lugar, um lugar bom. Durante a caminhada ele encontrou meio cigarro no bolso da camisa. Ele parou, olhou para a ponta amassada e manchada, achou um fĂłsforo e tentou acender. A chama nĂŁo pegou. Seguiu tentando. Depois do quarto fĂłsforo, que queimou seus dedos, ele conseguiu dar uma tragada. Ele se engasgou, depois tossiu. Sentiu seu estĂŽmago revirar.
Um carro veio velozmente em sua direção. Dentro do carro estavam quatro rapazes.
â EI, SEU VELHO DE MERDA! VĂ SE MORRE!
Os outros riram. Depois eles se foram.
O cigarro de Harry ainda estava aceso. Ele deu outra tragada. Uma espiral de fumaça azul subiu. Ele gostava daquela espiral de fumaça azul.
Caminhou sob o sol cĂĄlido pensando, estou caminhando e estou fumando um cigarro.
Harry caminhou até chegar ao parque em frente à biblioteca. Continuava tragando o cigarro. Sentiu o calor da ponta queimando e jogou, com relutùncia, o cigarro fora. Adentrou o parque e andou até encontrar um lugar entre uma eståtua e alguns arbustos. A eståtua era de Beethoven. E Beethoven estava caminhando, a cabeça baixa, as mãos para trås, certamente pensando em alguma coisa.
Harry se deitou e se estendeu no gramado. A grama aparada lhe dava coceira. Estava pontiaguda, afiada, mas tinha um cheiro delicioso e limpo. O cheiro da paz.
Pequenos insetos começaram a andar sobre seu rosto, formando cĂrculos irregulares, cruzando o caminho uns dos outros, mas nunca se encontrando.
Eram apenas pontos, mas os pontos estavam procurando alguma coisa.
Harry olhou para o cĂ©u. O cĂ©u estava azul, e isso era horrĂvel. Harry continuou olhando para o cĂ©u, tentando sentir alguma coisa. Mas nĂŁo sentia nada. Nenhuma sensação de eternidade. Nem de Deus. Nem mesmo do Diabo. Mas era preciso encontrar Deus primeiro se quisesse encontrar o Diabo. Eles vinham nessa ordem.
Harry nĂŁo gostava de pensamentos graves. Pensamentos graves podiam levar a erros graves.
Pensou um pouco sobre o suicĂdio... sem fazer disso um grande drama. Do mesmo modo como a maioria dos homens pensaria sobre comprar um par de sapatos novos. O maior problema do suicĂdio era a hipĂłtese de que ele pudesse levar a algo pior. O que ele realmente precisava era de uma garrafa de cerveja bem gelada, o rĂłtulo Ășmido, e com aquelas gotas geladas tĂŁo lindas na superfĂcie do vidro.
Harry cochilou... e foi acordado pelo som de vozes. As vozes eram de meninas muito jovens, colegiais. Elas estavam rindo, gracejando.
â Ooooh, olhem!
â Ele estĂĄ dormindo!
â Vamos acordar ele?
Harry piscou à luz do sol, espiando as meninas através das pålpebras semicerradas. Não sabia ao certo quantas eram, mas pÎde ver seus vestidos coloridos: amarelos e vermelhos e azuis e verdes.
â Olhem! Ele Ă© lindo!
Elas riram, gargalharam e saĂram correndo.
Harry voltou a fechar os olhos.
O que tinha sido aquilo?
Nunca antes lhe acontecera algo tĂŁo agradĂĄvel e delicioso. Elas o tinham chamado de âlindoâ. Quanta gentileza!
Mas elas nĂŁo voltariam.
Ele se levantou e caminhou até o final do parque. Lå estava a avenida. Achou um banco de praça e se sentou. Havia outro mendigo no banco ao lado. Ele era bem mais velho que Harry. O mendigo tinha um ar pesado, sombrio, amargo, que fazia Harry se lembrar de seu pai.
NĂŁo, pensou Harry. Estou sendo muito duro.
O mendigo olhou na direção de Harry. O mendigo tinha olhos pequenos e inexpressivos.
Harry lançou-lhe um sorriso tĂmido. O mendigo virou o rosto.
Então um barulho veio da avenida. Motores. Era um comboio militar. Uma longa faixa de caminhÔes cheios de soldados. Os soldados estavam apertados como sardinhas, transbordavam, se penduravam do lado de fora dos caminhÔes. O mundo estava em guerra.
O comboio se movia lentamente. Os soldados avistaram Harry sentado no banco de praça. Então começou o barulho. Era uma mistura de assobios, vaias e xingamentos. Eles gritavam com Harry.
â EI, SEU Filho da puta!
â PREGUIĂOSO!
Ă medida que cada caminhĂŁo do comboio passava, o prĂłximo continuava:
â TIRE A SUA BUNDA DESSE BANCO!
â VEADO DE MERDA!
â COVARDE!
â CAGALHĂO!
Era um comboio muito longo e muito lento.
â VENHA SE JUNTAR A NĂS!
â VAMOS TE ENSINAR A LUTAR, SEU PUTĂO!
Os rostos eram brancos e pardos e negros, flores de Ăłdio.
Então o velho mendigo se levantou do seu banco de praça e gritou para o comboio:
â EU PEGO ELE PARA VOCĂS, RAPAZES! LUTEI NA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL!
Os que estavam nos caminhÔes que passavam riram e abanaram os braços:
â PEGUE ELE, VOVĂ!
â FAĂA ELE VER A LUZ!
EntĂŁo o comboio se foi.
Eles haviam jogado coisas em Harry: latas de cerveja vazias, latas de refrigerante, laranjas, uma banana.
Harry se levantou, juntou a banana, sentou-se de novo, descascou a banana e a comeu. Estava divina. Depois ele encontrou uma laranja, descascou-a e a mastigou, engoliu a polpa e o suco. Encontrou outra laranja e a comeu também. Então achou um isqueiro que alguém havia jogado ou deixado cair. Girou a pederneira. Funcionava.
Andou até o mendigo que estava sentado no banco, empunhando o isqueiro.
â Ei, camarada, tem um cigarro?
Os pequenos olhos do mendigo se fixaram em Harry. Pareciam vazios, como se as pupilas tivessem sido removidas. O lĂĄbio inferior do mendigo tremeu.
â VocĂȘ gosta do Hitler, nĂŁo Ă©? â ele disse em voz baixa.
â Olha, amigo â disse Harry â, por que vocĂȘ e eu nĂŁo damos uma volta juntos? Podemos descolar uns pilas pra tomar umas biritas.
O velho mendigo revirou os olhos. Por um instante Harry pode ver apenas o branco de seus olhos injetados. Os olhos voltaram para o lugar. O mendigo olhou para ele.
â Com vocĂȘ... NĂŁo!
â Ok â disse Harry â, atĂ© a vista...
O velho mendigo voltou a revirar os olhos e disse de novo, sĂł que mais alto desta vez:
â COM VOCĂ... NĂO!
Harry saiu do parque caminhando devagar e subiu a rua em direção ao seu bar favorito. O bar estava sempre lĂĄ. Harry atracava no bar. Era seu Ășnico paraĂso. Impiedoso e justo.
No caminho, Harry passou por um estacionamento vazio. Um bando de homens de meia-idade jogava softball. Eles estavam fora de forma. Eram, em sua maioria, barrigudos, baixinhos e bundudos, quase como mulheres. Eram todos amadores ou estavam velhos demais para os arremessos.
Harry parou para assistir ao jogo. Era um festival de eliminaçÔes, lançamentos ruins, rebatedores golpeados, erros, bolas mal batidas, mas eles seguiam jogando. Quase como um ritual, uma obrigação. E eles estavam com raiva. Era a Ășnica coisa em que eram bons. A energia de sua raiva dominada.
Harry ficou assistindo. Tudo parecia perda de tempo. Até mesmo a bola parecia triste, saltitando inutilmente de um lado para o outro.
â OlĂĄ, Harry, como Ă© que vocĂȘ nĂŁo estĂĄ no bar?
Era o McDuff, um sujeito velho e franzino, dando uma baforada em seu cachimbo. McDuff tinha uns 62 anos, sempre olhava para a frente, nunca diretamente para seu interlocutor, mas ele o via mesmo assim por detrĂĄs de seus Ăłculos sem aro. E ele sempre vestia um terno preto com gravata azul. Chegava no bar todos os dias por volta do meio-dia, tomava duas cervejas, depois ia embora. E vocĂȘ nĂŁo conseguia odiĂĄ-lo nem gostar dele. Era como um calendĂĄrio ou um porta-canetas.
â Estou a caminho â respondeu Harry.
â Eu acompanho vocĂȘ â disse McDuff.
EntĂŁo Harry caminhou ao lado do velho e franzino McDuff enquanto o velho e franzino McDuff fumava seu cachimbo. McDuff sempre mantinha o cachimbo aceso. Era sua marca registrada. McDuff era o seu cachimbo. Por que nĂŁo?
Caminhavam juntos, sem dizer nada. NĂŁo havia o que dizer. Pararam no semĂĄforo, McDuff fumando seu cachimbo.
McDuff tinha poupado dinheiro. Nunca havia se casado. Morava num apartamento de dois cÎmodos e não fazia muita coisa. Bem, ele lia os jornais, mas sem muito interesse. Não era religioso. Mas não por falta de convicção. Simplesmente porque não havia se dado ao trabalho de pensar no assunto. Era como não ser republicano por não saber o que é um republicano. McDuff não era feliz nem infeliz. Vez que outra ficava um pouco inquieto, alguma coisa parecia incomodå-lo e por alguns instantes seus olhos se enchiam de terror. Mas logo aquilo passava... como uma mosca que pousa... e em seguida levanta voo à procura de terras mais promissoras.
EntĂŁo eles chegaram ao bar. Entraram.
As pessoas de sempre.
McDuff e Harry se sentaram em seus bancos.
â Duas cervejas â proferiu o bom e velho McDuff ao dono do bar.
â Como vai, Harry? â perguntou um dos fregueses do bar.
â Tateando no escuro, tremendo e cagando â respondeu.
Sentiu pena do McDuff. NinguĂ©m o havia cumprimentado. McDuff era como um mata-borrĂŁo sobre a mesa. NĂŁo suscitava nenhum sentimento. Notavam Harry porque ele era um vagabundo. Fazia com que se sentissem superiores. Eles precisavam disso. McDuff fazia com que se sentissem apenas mais insĂpidos do que jĂĄ eram.
Não aconteceu nada demais. Todos se debruçaram sobre suas bebidas, observando-as. Poucos tinham imaginação o suficiente para simplesmente encher a cara.
Uma tarde banal de sĂĄbado.
McDuff partiu para sua segunda cerveja e foi gentil o bastante para pagar outra a Harry.
O cachimbo de McDuff estava fervendo por conta das seis horas de queima contĂnua.
Terminou sua segunda cerveja e foi embora, e Harry ficou lĂĄ com o resto do pessoal.
Era um såbado muito parado, mas Harry sabia que se aguentasse por mais algum tempo conseguiria se dar bem. Såbado à noite, é claro, era melhor para descolar umas bebidas. Mas não havia nenhum lugar para onde pudesse ir até que a hora chegasse. Harry estava se esquivando da senhoria. Ele pagava por semana e estava nove dias atrasado.
Entre uma bebida e outra, o ambiente mergulhava num marasmo mortal. Os fregueses sĂł precisavam sentar e ficar em algum lugar. Pairavam no ar uma solidĂŁo generalizada, um medo latente e a necessidade de estarem juntos e de conversarem um pouco, pois isso os acalmava. Tudo de que Harry precisava era de alguma coisa para beber. Harry podia beber eternamente e ainda precisaria de mais, nĂŁo havia bebida suficiente para satisfazĂȘ-lo. Mas os outros... eles apenas sentavam, falando de vez em quando sobre o que quer fosse.
A cerveja de Harry estava ficando choca. E a ideia nĂŁo era terminĂĄ-la porque aĂ teria que comprar outra e ele nĂŁo tinha dinheiro. Teria que esperar e ficar na expectativa. Como um profissional na mendicĂąncia de bebidas, Harry sabia a primeira regra: vocĂȘ nunca deve pedir uma. Sua sede era uma piada para os outros e qualquer pedido de sua parte lhes tirava o prazer de dar.
Harry deixou seus olhos passearem pelo bar. Havia quatro ou cinco clientes por ali. Poucos e sĂł gente miĂșda. Um deles era Monk Hamilton. A maior afirmação de vitalidade para Monk era comer seis ovos no cafĂ© da manhĂŁ. Todos os dias. Ele achava que isso lhe dava uma vantagem. NĂŁo era muito bom nesse negĂłcio de pensar. Era um tipo imenso, quase tĂŁo largo quanto alto, de olhos pĂĄlidos, fixos e despreocupados, pescoço de carvalho, mĂŁos grandes, peludas e nodosas.
Monk estava falando com o atendente do bar. Harry ficou olhando uma mosca que rastejava lentamente para dentro do cinzeiro molhado de cerveja à sua frente. A mosca caminhou por ali, por entre os tocos de cigarro, forçando caminho contra um cigarro empapado, depois soltou um zunido furioso, ergueu-se, então pareceu voar para trås, e para a esquerda, e depois se foi.
Monk era limpador de janelas. Seus olhos inexpressivos encontraram os de Harry. Seus lĂĄbios grossos se torceram num riso de superioridade. Ele pegou sua garrafa, andou, sentou-se no banco ao lado de Harry.
â O que vocĂȘ estĂĄ fazendo, Harry?
â Esperando chover.
â Que tal uma cerveja?
â Esperando chover cerveja, Monk. Obrigado.
Monk pediu duas cervejas. Elas chegaram.
Harry gostava de beber sua cerveja direto do gargalo. Monk despejou um pouco da sua num copo.
â Harry, vocĂȘ estĂĄ precisando de emprego?
â NĂŁo tenho pensado no assunto.
â Tudo que vocĂȘ precisa fazer Ă© segurar a escada. Precisamos de um cara para a escada. NĂŁo paga tĂŁo bem quanto lĂĄ em cima, mas jĂĄ Ă© alguma coisa. O que vocĂȘ acha?
Monk estava fazendo uma piada. Pensava que Harry era imbecil demais para compreendĂȘ-la.
â Me dĂȘ um tempo para pensar no assunto, Monk.
Monk olhou em volta para os outros clientes, soltou seu sorriso superior de novo, piscou para eles, entĂŁo voltou a olhar para Harry.
â Escute, tudo o que vocĂȘ tem que fazer Ă© segurar a escada bem firme. Isso nĂŁo Ă© tĂŁo dificil, Ă©?
â Ă mais fĂĄcil que muita coisa, Monk.
â EntĂŁo vocĂȘ topa?
â Acho que nĂŁo.
â Ah, vamos! Por que vocĂȘ nĂŁo tenta?
â Eu nĂŁo posso fazer isso, Monk.
EntĂŁo todos se sentiram bem. Harry era o garoto deles. O esplĂȘndido fracassado.
Harry olhou para todas aquelas garrafas atrĂĄs do bar. Todos aqueles bons momentos Ă espera, todas aquelas risadas, toda aquela loucura... uĂsque, vinho, gim, vodca e tantas outras delĂcias. E ainda assim todas aquelas garrafas ficavam lĂĄ paradas, em desuso. Era como uma vida esperando para ser vivida, uma vida que ninguĂ©m queria.
â Olhe â disse Monk â, vou cortar o cabelo.
Harry sentiu a tranquila solidez de Monk. Monk havia ganhado, em certo momento, alguma coisa. Ele se encaixava, como uma chave numa fechadura que abria para uma outra parte qualquer.
â Por que vocĂȘ nĂŁo vem comigo enquanto eu corto o cabelo?
Harry nĂŁo respondeu.
Monk chegou mais perto.
â Paramos pra tomar uma cerveja no caminho e eu pago outra pra vocĂȘ depois.
â Vamos lĂĄ...
Harry esvaziou a garrafa facilmente em sua Ăąnsia, depois a largou.
Seguiu Monk para fora do bar. Caminharam juntos ao longo da rua. Harry sentiu-se como um cachorro seguindo seu dono. E Monk estava calmo, estava agindo, tudo se encaixava. Era o seu sĂĄbado de folga e ele ia cortar o cabelo.
Acharam um bar e pararam ali. Era muito mais agradĂĄvel e limpo do que o bar em que Harry normalmente vadiava. Monk pediu as cervejas.
O modo como ele se comportava! Um homem mĂĄsculo. E seguro de sua masculinidade. Nunca pensava na morte, pelo menos nĂŁo na sua.
Enquanto estavam ali, lado a lado, Harry percebeu que havia cometido um erro: um trabalho em turno integral teria sido menos doloroso do que aquilo.
Monk tinha uma verruga no lado direito do rosto, uma verruga bem descontraĂda, uma verruga sem constrangimentos.
Harry ficou olhando Monk pegar sua garrafa e sugå-la. Era apenas algo que Monk fazia, como coçar o nariz. Ele não estava åvido pela bebida. Monk apenas ficava sentado com sua garrafa e estava tudo pago. E o tempo corria como a merda corre pelo rio.
Terminaram suas garrafas, e Monk disse alguma coisa ao atendente do bar e o atendente do bar respondeu alguma coisa.
Então Harry seguiu Monk até o lado de fora do bar. Seguiram juntos, Monk ia cortar o cabelo.
Caminharam até a barbearia e entraram. Não havia outros clientes. O barbeiro conhecia Monk. Enquanto Monk subia na cadeira eles disseram algumas palavras um para o outro. O barbeiro o cobriu com o protetor e a cabeça de Monk pareceu enorme, a verruga firme na bochecha direita, e ele disse:
â Curto ao redor das orelhas e nĂŁo tire muito em cima.
Harry, desesperado por outra bebida, pegou uma revista, virou algumas pĂĄginas e fingiu estar interessado.
EntĂŁo ouviu Monk dizer ao barbeiro:
â A propĂłsito, Paul, este Ă© Harry. Harry, este Ă© Paul.
Paul e Harry e Monk.
Monk e Harry e Paul.
Harry, Monk, Paul.
â Olhe, Monk â disse Harry â, quem sabe eu vou lĂĄ pegar outra cerveja enquanto vocĂȘ corta o cabelo?
Monk olhou fixamente para Harry.
â NĂŁo, nĂłs vamos tomar uma cerveja depois que eu terminar aqui.
Depois Monk olhou fixamente para o espelho.
â NĂŁo precisa tirar tanto ao redor das orelhas, Paul.
Enquanto o mundo girava, Paul ia cortando.
â Tem pescado alguma coisa, Monk?
â Nada, Paul.
â NĂŁo acredito nisso...
â Acredite, Paul.
â NĂŁo Ă© o que tenho ouvido.
â Como...?
â Que nem quando a Betsy Ross fez a bandeira americana, treze estrelas nĂŁo teriam bastado para se enrolar no seu mastro!
â Ah, droga, Paul, vocĂȘ Ă© muito engraçado!
Monk riu. Sua risada era como linĂłleo sendo cortado com uma faca sem fio. Ou talvez fosse um grito de morte.
EntĂŁo ele parou de rir.
â NĂŁo tire muito em cima.
Harry largou a revista e olhou para o chão. A risada de linóleo havia se transformado num chão de linóleo. Verde e azul, com diamantes lilases. Um chão velho. Alguns pedaços tinham começado a descascar, revelando o soalho marrom-escuro que estava por baixo. Harry gostava de marrom.
Ele começou a contar: trĂȘs cadeiras de barbeiro, cinco cadeiras de espera. Treze ou quatorze revistas. Um barbeiro. Um cliente. Um... o quĂȘ?
Paul e Harry e Monk e o marrom-escuro.
Os carros passavam do lado de fora. Harry começou a contar, parou. Não brinque com a loucura, a loucura não brinca.
Mais fĂĄcil contar as bebidas nas mĂŁos: nenhuma.
O tempo reverberava como um sino monĂłtono.
Harry sentia seus pés, seus pés dentro dos sapatos, e seus dedos... nos pés, dentro dos sapatos.
Ele mexia os dedos dos pés. Sua vida completamente desperdiçada indo a lugar nenhum como uma lesma se arrastando em direção ao fogo.
Folhas cresciam sobre os troncos. AntĂlopes erguiam suas cabeças do pasto. Um açougueiro em Birmingham levantava seu cutelo. E Harry estava parado numa barbearia, na esperança de tomar uma cerveja.
Ele nĂŁo tinha dignidade, era um vira-latas.
Aquilo seguiu, passou, continuou e continuou, e entĂŁo terminou. O fim do teatro da cadeira do barbeiro. Paul girou Monk para que ele pudesse se ver no espelho atrĂĄs da cadeira.
Harry odiava barbearias. Aquele giro final na cadeira, aqueles espelhos, eram um momento de horror para ele.
Monk nĂŁo se incomodava.
Ele se olhou. Estudou seu reflexo, rosto, cabelo, tudo. Parecia admirar o que via. EntĂŁo, ele falou:
â Ok, Paul. Agora vocĂȘ poderia tirar um pouco do lado esquerdo? E estĂĄ vendo este pedacinho desalinhado? Temos que corrigir.
â Ah, sim, Monk... eu cuido disso...
O barbeiro girou Monk de volta e se concentrou no pequeno pedaço que estava desalinhado.
Harry observava a tesoura. Havia muito barulho, mas nĂŁo muito corte.
Então Paul girou Monk de novo em direção ao espelho.
Monk se olhou.
Um leve sorriso se esboçou no canto direito de sua boca. EntĂŁo o lado esquerdo de seu rosto se contorceu um pouco. Autoadoração com uma pequena pontada de dĂșvida.
â EstĂĄ bem â ele disse â, agora vocĂȘ acertou.
Paul espanou Monk com uma pequena escova. Pedaços de cabelo morto flutuaram num mundo morto.
Monk revirou os bolsos atrĂĄs do valor do corte e da gorjeta.
A transação monetåria fez tinir a tarde apåtica.
EntĂŁo Harry e Monk caminharam pela rua, juntos, de volta ao bar.
â NĂŁo hĂĄ nada como um corte de cabelo â disse Monk â, faz vocĂȘ se sentir um novo homem.
Monk sempre vestia work shirts azul-claras, mangas arregaçadas para mostrar seus bĂceps. Um cara e tanto. Tudo o que ele precisava agora era de uma fĂȘmea para dobrar suas cuecas e camisetas de baixo, enrolar suas meias e colocĂĄ-las na gaveta da cĂŽmoda.
â Obrigado por me fazer companhia, Harry.
â NĂŁo por isso, Monk...
â Da prĂłxima vez que eu for cortar o cabelo quero que vocĂȘ venha junto comigo.
â Vamos ver, Monk...
Monk caminhava bem perto do meio-fio e era como um sonho. Um sonho amarelado. Simplesmente aconteceu. E Harry nĂŁo sabia de onde tinha vindo o impulso. Mas cedeu a ele. Fingiu tropeçar e deu um encontrĂŁo em Monk. E Monk, como um pesado anfiteatro de carne, caiu na frente do ĂŽnibus. Quando o motorista pisou no freio ouviu-se uma pancada, nĂŁo muito alto, mas uma pancada. E lĂĄ estava Monk, caĂdo na sarjeta, corte de cabelo, verruga e tudo o mais. E Harry olhou para baixo. Uma coisa estranhĂssima: lĂĄ estava a carteira de Monk na sarjeta. Tinha saltado para fora do bolso traseiro de Monk por conta do impacto e ali estava. SĂł nĂŁo se achava estendida no chĂŁo, mas sim erguida como uma pequena pirĂąmide.
Harry se agachou, pegou a carteira e a colocou em seu bolso. Parecia cålida, cheia de graça. Ave Maria.
Então Harry se debruçou sobre Monk.
â Monk? Monk... vocĂȘ estĂĄ bem?
Monk nĂŁo respondeu. Mas Harry notou que ele estava respirando e nĂŁo havia sangue. E, de repente, o rosto de Monk pareceu bonito e galante.
Ele estĂĄ ferrado, pensou Harry, e eu estou ferrado. NĂłs dois estamos ferrados em sentidos diferentes. NĂŁo existe verdade, nĂŁo existe nada real, nĂŁo existe nada.
Mas algo existia. A multidĂŁo existia.
â Saiam de perto! â alguĂ©m disse â Deixem ele respirar!
Harry saiu de perto. Saiu de perto e se misturou à multidão. Ninguém o deteve.
Ele estava caminhando para o sul. Ouviu a sirene da ambulĂąncia. Ela gritava, secundando o seu sentimento de culpa.
EntĂŁo, rapidamente, a culpa desapareceu. Como uma antiga guerra terminada. Era preciso seguir em frente. As coisas seguiam em frente. Como as pulgas e o melado para panquecas.
Harry se enfiou num bar que nunca havia notado antes. Havia um atendente no balcĂŁo. Garrafas. Estava escuro ali. Pediu um uĂsque duplo, bebeu de um sĂł gole. A carteira de Monk estava gorda e abundante. Sexta devia ter sido dia do pagamento. Harry puxou uma nota, pediu outro uĂsque duplo. Tomou metade, fez uma pausa em reverĂȘncia, e depois secou o resto, e, pela primeira vez em muito tempo, sentiu-se muito bem.
Mais tarde Harry foi até a Groton Steakhouse. Entrou e se sentou no balcão. Nunca tinha ido lå antes. Um homem alto, magro, desinteressante, vestindo chapéu de chef e um avental sujo andou até ele e se curvou sobre o balcão. Estava com a barba por fazer e cheirava a inseticida. Olhou de soslaio para Harry.
â Veio aqui atrĂĄs de EMPREGO? â perguntou.
Por que diabos todo o mundo estĂĄ tentando me botar para trabalhar?, pensou Harry.
â NĂŁo â respondeu Harry.
â Temos uma vaga para lavador de prato. Cinquenta centavos a hora e vocĂȘ pode agarrar a bunda da Rita de vez em quando.
A garçonete passou ao lado deles. Harry olhou para a bunda da mulher.
â NĂŁo, obrigado. Por hora, vou querer uma cerveja. De garrafa. Qualquer marca.
O chef chegou mais perto. Tinha longos pelos saindo das narinas, fortemente ameaçadores, como um pesadelo imprevisto.
â Ouça, seu merda, vocĂȘ tem dinheiro?
â Tenho â disse Harry.
O chef hesitou por alguns instantes, entĂŁo saiu, abriu o refrigerador e puxou uma garrafa de cerveja. Tirou a tampa, voltou atĂ© onde estava Harry e colocou o lĂquido fermentado no balcĂŁo com uma pancada.
Harry deu um longo gole, pousou a garrafa suavemente.
O chef continuava a examinĂĄ-lo. NĂŁo conseguia matar a charada.
â Agora â disse Harry â, quero um filĂ© alto de carne de gado, bem passado, com batatas fritas, e pegue leve na gordura. E me traga outra cerveja, agora.
O chef fez surgir diante dele uma nuvem de fĂșria, depois se afastou, foi atĂ© o refrigerador, repetiu a cena, o que incluĂa trazer a garrafa e colocĂĄ-la no balcĂŁo com um estrondo.
Em seguida o chef foi até a grelha, jogou um bife lå dentro.
Um glorioso manto de fumaça se ergueu. O chef encarava Harry por entre a fumaça.
Não faço ideia, pensou Harry, de por que ele não gosta de mim. Bem, talvez eu precise mesmo de um corte de cabelo (tire bastante de todos os lados, por favor) e fazer a barba, meu rosto estå um pouco abatido, mas as minhas roupas estão bem limpas. Gastas, mas limpas. Devo ser mais limpo que o prefeito desta cidade de merda.
A garçonete chegou perto dele. Não era feia. Nenhuma maravilha, mas não estava mal. Seus cabelos empilhavam-se sobre a cabeça, meio bagunçados, pequenos cachos desciam soltos pelos lados. Bacana.
Ela se debrucou sobre o balcĂŁo.
â VocĂȘ nĂŁo pegou o trabalho de lavador de pratos?
â O salĂĄrio Ă© bom mas nĂŁo Ă© meu ramo de negĂłcio.
â E qual Ă© o seu ramo de negĂłcio?
â Sou arquiteto.
â Metiroso â ela disse e se afastou.
Harry sabia que nĂŁo era muito bom de papo. Descobriu que quanto menos falava melhor todos se sentiam.
Terminou as duas cervejas. Então chegaram o bife e as batatas fritas. O chef bateu o prato com força no balcão. O sujeito era bom nas pancadas.
Parecia um milagre para Harry. Ele avançou, cortando e mastigando. Fazia uns dois anos que nĂŁo devorava um bife. Ă medida que comia, sentia uma força renovada invadindo seu corpo. Quando nĂŁo se come com frequĂȘncia, comer Ă© um verdadeiro acontecimento.
Até mesmo seu cérebro sorria. E seu corpo parecia estar dizendo, obrigado, obrigado, obrigado.
EntĂŁo Harry terminou.
O chef ainda nĂŁo deixara de encarĂĄ-lo.
â Ok â disse Harry â, vou querer um repeteco.
â Vai querer a mesma comida?
â Aham.
O chef o olhou de modo ainda mais fixo. Afastou-se e lançou outro bife na grelha.
â E quero outra cerveja tambĂ©m, por favor. Agora.
â RITA! â gritou o chef â, VEJA MAIS UMA CERVEJA PRA ELE!
Rita apareceu com a cerveja.
â VocĂȘ bebe bastante cerveja â ela disse â para um arquiteto.
â Estou planejando erguer uma grande obra.
â RĂĄ! Como se vocĂȘ conseguisse!
Harry se concentrou na cerveja. Depois levantou e foi até o banheiro masculino. Quando voltou, liquidou a cerveja.
O chef voltou e bateu o prato de bife e fritas com força na frente de Harry.
â A vaga ainda estĂĄ disponĂvel, se vocĂȘ quiser.
Harry não respondeu. Avançou sobre o novo prato.
O chef seguiu até a grelha, de onde continuou a encarar Harry.
â VocĂȘ ganha as duas refeiçÔes â disse o chef â e sai empregado.
Harry estava ocupado demais com o bife e com as batatas fritas para responder. Ainda estava com fome. Quando se estĂĄ na vadiagem, e especialmente quando se Ă© um bebum, pode-se ficar dias sem comer, muitas vezes nĂŁo se tem nem mesmo vontade de comer, e entĂŁo, zaz, vocĂȘ Ă© fulminado: surge uma fome insuportĂĄvel. VocĂȘ começa a pensar em comer qualquer coisa: ratos, borboletas, folhas, bilhetes de jogo, jornal, rolhas, o que aparecer pela frente.
Agora, debruçado sobre o segundo prato, a fome de Harry ainda estava lĂĄ. As batatas fritas eram lindas e gordurosas e amarelas e quentes, algo como a luz do sol, uma nutritiva e gloriosa luz solar que se podia mastigar. E o bife nĂŁo era apenas uma fatia de alguma pobre criatura assassinada, era algo comovente, que alimentava o corpo e a alma e o coração, que fazia os olhos sorrirem, transformando o mundo num lugar menos difĂcil de suportar. Ou de se viver. Naquele instante, a morte nĂŁo importava.
E entĂŁo ele terminou o prato. SĂł havia restado o osso, que estava totalmente limpo. O chef ainda encarava Harry.
â Vou comer mais um â Harry disse ao chef. â Outro filĂ© alto com fritas e mais uma cerveja, por favor.
â VOCĂ NĂO VAI COMER MAIS UM! â gritou o chef â VOCĂ VAI PAGAR TUDO E DAR O FORA DAQUI!
Cruzou pela frente da grelha e parou na frente de Harry. Tinha um bloco de pedidos nas mĂŁos. Rabiscou furiosamente uma soma. Depois jogou a conta no meio do prato sujo. Harry pegou a conta de cima do prato.
Havia um outro cliente no restaurante, um homem redondo e rosado, de cabeça grande e cabelos despenteados, tingidos de um castanho um tanto desanimador. O homem consumira inĂșmeras xĂcaras de cafĂ© enquanto lia o jornal da noite.
Harry se levantou, tirou algumas notas do bolso, separou duas e as depĂŽs ao lado do prato.
Depois deu o fora dali.
O trĂąnsito do inĂcio da noite estava começando a entupir a avenida de carros. O sol se punha atrĂĄs dele. Harry olhou para os motoristas dos carros. Pareciam infelizes. O mundo parecia infeliz. As pessoas estavam no escuro. As pessoas estavam apavoradas e decepcionadas. As pessoas estavam presas em armadilhas. As pessoas estavam na defensiva, nervosas. Sentiam que suas vidas estavam sendo desperdiçadas. E elas estavam certas.
Harry seguiu caminhando. Parou no semĂĄforo. E, naquele momento, teve um sentimento muito estranho. Teve a impressĂŁo de que era a Ășnica pessoa viva no mundo.
Quando o sinal mudou para o verde, esqueceu-se de tudo. Atravessou a rua e seguiu pela calçada do outro lado.
â Septuagenarian Stew
A Vida Feliz Dos Cansados
nitidamente em sintonia com
a canção de um prisioneiro
fico de pé na cozinha
a meio caminho da loucura
sonhando com a Espanha de
Hemingway.
é um mormaço, como dizem,
mal consigo respirar,
jĂĄ dei uma cagada e
li as pĂĄginas de esporte,
abri a geladeira
olhei para um pedaço pĂșrpuro de
carne,
deixei-o por
ali.
o lugar para se achar o centro
estĂĄ na margem
que golpeando o céu
Ă© como um encanamento
vibrando.
coisas terrĂveis se arrastam
pelas paredes; flores cancerĂgenas crescem
na varanda; meu gato branco teve
um olho arrancado
e hĂĄ apenas 7 dias
de corrida para o fim da
temporada de verĂŁo.
a dançarina nunca chegou do
Club Normandy
e Jimmy nĂŁo trouxe a
puta,
mas hĂĄ um cartĂŁo postal do
Arkansas
e um folheto do Food King:
10 pacotes de fĂ©rias no HavaĂ,
e tudo o que eu preciso fazer Ă©
preencher o formulĂĄrio.
mas eu nĂŁo quero ir pro
HavaĂ.
quero a puta com olhos de pelicano
umbigo de latĂŁo
e
coração de marfim.
tirei da geladeira o pedaço de carne
pĂșrpura
larguei-o na
frigideira.
entĂŁo o telefone tocou.
dobrei-me sobre um dos joelhos e rolei para debaixo
da mesa. fiquei ali até que
o telefone parasse de
tocar.
entĂŁo me levantei e
liguei o
rĂĄdio.
nĂŁo por acaso Hemingway enchia
a cara, a Espanha que se foda,
nĂŁo poderia mesmo
suportĂĄ-la.
Ă© puro
mormaço.
a canção de um prisioneiro
fico de pé na cozinha
a meio caminho da loucura
sonhando com a Espanha de
Hemingway.
é um mormaço, como dizem,
mal consigo respirar,
jĂĄ dei uma cagada e
li as pĂĄginas de esporte,
abri a geladeira
olhei para um pedaço pĂșrpuro de
carne,
deixei-o por
ali.
o lugar para se achar o centro
estĂĄ na margem
que golpeando o céu
Ă© como um encanamento
vibrando.
coisas terrĂveis se arrastam
pelas paredes; flores cancerĂgenas crescem
na varanda; meu gato branco teve
um olho arrancado
e hĂĄ apenas 7 dias
de corrida para o fim da
temporada de verĂŁo.
a dançarina nunca chegou do
Club Normandy
e Jimmy nĂŁo trouxe a
puta,
mas hĂĄ um cartĂŁo postal do
Arkansas
e um folheto do Food King:
10 pacotes de fĂ©rias no HavaĂ,
e tudo o que eu preciso fazer Ă©
preencher o formulĂĄrio.
mas eu nĂŁo quero ir pro
HavaĂ.
quero a puta com olhos de pelicano
umbigo de latĂŁo
e
coração de marfim.
tirei da geladeira o pedaço de carne
pĂșrpura
larguei-o na
frigideira.
entĂŁo o telefone tocou.
dobrei-me sobre um dos joelhos e rolei para debaixo
da mesa. fiquei ali até que
o telefone parasse de
tocar.
entĂŁo me levantei e
liguei o
rĂĄdio.
nĂŁo por acaso Hemingway enchia
a cara, a Espanha que se foda,
nĂŁo poderia mesmo
suportĂĄ-la.
Ă© puro
mormaço.
Abrace a Escuridão
o verdadeiro deus Ă© a desordem
o verdadeiro deus Ă© a loucura
viver em paz permanente Ă©
viver permanentemente morto.
a agonia pode matar
ou
a agonia pode dar sustentação à vida
mas a paz Ă© sempre horripilante
a paz Ă© o que hĂĄ de pior
caminhadas
conversas
sorrisos,
a aparĂȘncia das coisas.
não se esqueça das calçadas
das putas,
da traição,
do verme na maçã,
dos bares, das cadeias,
dos suicĂdios dos amantes.
aqui na América
assassinamos um presidente e seu irmĂŁo,
outro presidente desistiu do cargo.
pessoas que acreditam em polĂtica
sĂŁo como pessoas que acreditam em deus:
estão chupando vento através de canudos
curvos.
nĂŁo hĂĄ deus
nĂŁo hĂĄ polĂtica
nĂŁo hĂĄ paz
nĂŁo hĂĄ amor
nĂŁo hĂĄ controle
nĂŁo hĂĄ plano
fique longe de deus
siga perturbado
deslize.
Eu me recostava no balcĂŁo do bar Mussoâs. Sarah tinha ido ao toalete de senhoras. Eu gostava do bar Mussoâs, do bar como bar, mas nĂŁo da sala onde ficava. Era conhecido como âSala Novaâ. A âSala Velhaâ ficava do outro lado, e eu preferia comer lĂĄ. Era mais escuro e tranquilo. Nos velhos tempos, eu ia Ă Sala Velha comer, mas raramente comia mesmo. Apenas olhava o menu e dizia ao pessoal âAinda nĂŁoâ, e continuava a pedir bebidas. Algumas das damas que eu levava lĂĄ eram de mĂĄ reputação, e enquanto a gente bebia, sem parar, estouravam muitas discussĂ”es aos berros, cheias de xingamentos, bebidas derramadas e pedidos de outras. Eu geralmente passava Ă s damas o dinheiro do tĂĄxi, mandava-as dar o fora e continuava bebendo sozinho. Duvido que usassem o dinheiro do tĂĄxi em tĂĄxis. Mas uma das coisas mais legais do Mussoâs era que quando eu voltava, depois da trepada, geralmente me recebiam com sorrisos calorosos. Muito estranho.
De qualquer modo, eu me recostava no balcão do bar, e a Sala Nova estava cheia, a maioria turistas, que batiam papo, torciam o pescoço e emitiam raios da morte. Pedi um novo drinque e então me bateram no ombro.
â Chinaski, como vai vocĂȘ?
Virei-me e olhei. Jamais reconheci alguém. Podia encontrar uma pessoa na noite passada e não lembrar dela no dia seguinte. Se arrancassem minha mãe da cova, eu não saberia quem era ela.
â Estou bem â disse. â Posso te pagar uma bebida?
â NĂŁo, obrigado. NĂŁo nos conhecemos. Eu sou Harold Pheasant.
â Oh, sim. Jon me disse que vocĂȘ estava pensando em...
â Ă, quero financiar seu argumento. Li sua obra. VocĂȘ tem um maravilhoso senso de diĂĄlogo. Li sua obra: muito cinematogrĂĄfica.
â Tem certeza de que nĂŁo quer um drinque?
â NĂŁo, preciso voltar pra minha mesa.
â Ah, Ă©? Que tem feito ultimamente, Pheasant?
â Acabo de produzir um filme sobre a vida de Mack Derouac.
â Ă? Como se chama?
â A Canção do Coração.
Tomei um gole.
â Ei, espere um minuto! VocĂȘ estĂĄ brincando! NĂŁo vai chamar o filme de A Canção do Coração.
â Oh, sim, Ă© assim que vai se chamar.
Ele sorria.
â VocĂȘ nĂŁo pode me enrolar, Pheasant. Ă mesmo um gozador! A Canção do Coração! Nossa!
â NĂŁo â ele disse. â Estou falando sĂ©rio.
De repente deu as costas e foi-se embora...
Nesse momento Sarah voltava. Olhou para mim.
â De que estĂĄ rindo?
â Me deixa pedir um drinque pra vocĂȘ que eu te conto.
Chamei o garçom e pedi um também para mim.
â Adivinha quem eu vi na Sala Velha â ela disse.
â Quem?
â Jonathan Winters.
â Ăéé? Adivinha com quem conversei enquanto vocĂȘ estava lĂĄ.
â Uma de suas ex-putas.
â NĂŁo, nĂŁo. Pior.
â NĂŁo tem nada pior que elas.
â Conversei com Harold Pheasant.
â O produtor?
â Ă, estĂĄ ali naquela mesa do canto.
â Oh, estou vendo!
â NĂŁo, nĂŁo olhe. NĂŁo acene. Beba seu drinque. Eu bebo o meu.
â Que diabos deu em vocĂȘ?
â Sabe, ele Ă© o produtor que ia produzir o argumento que eu nĂŁo escrevi.
â Eu sei.
â Quando vocĂȘ saiu ele veio conversar comigo.
â JĂĄ disse isso.
â NĂŁo aceitou nem um drinque.
â EntĂŁo vocĂȘ fodeu tudo e nĂŁo estĂĄ nem bĂȘbado.
â Espere. Ele queria falar de um filme que acaba de produzir.
â Como foi que vocĂȘ fodeu tudo?
â Eu nĂŁo fodi nada. Ele fodeu.
â Claro. Conta pra mim.
Olhei no espelho. Gostava de mim mesmo, mas nĂŁo no espelho. NĂŁo tinha aquela aparĂȘncia. Acabei meu drinque.
â Acabe seu drinque â disse.
Ela acabou.
â Conta pra mim.
â Ă a segunda vez que vocĂȘ diz: âConta pra mimâ.
â MemĂłria notĂĄvel, e nem estĂĄ bĂȘbado ainda.
Fiz sinal para o garçom, tornei a pedir.
â Bem, Pheasant veio aqui e me falou do tal filme que produziu. Ă sobre um escritor que nĂŁo sabia escrever mas ficou famoso porque parecia um peĂŁo de rodeio.
â Quem?
â Mack Derouac.
â E isso chateou vocĂȘ?
â NĂŁo, isso nĂŁo importa. Estava Ăłtimo, atĂ© ele me dizer o tĂtulo do filme.
â Que era?
â Por favor, estou tentando varrer da minha cabeça. Ă absolutamente idiota.
â Diz pra mim.
â TĂĄ legal...
O espelho ainda estava lĂĄ.
â Diz pra mim, diz pra mim, diz pra mim.
â Tudo bem: O Voo do Destroço Peludo.
â Eu gosto.
â Eu nĂŁo gostei. E disse a ele. Ele se mandou. A gente perdeu o patrocinador.
â VocĂȘ deve ir lĂĄ se desculpar.
â De jeito nenhum. TĂtulo horrendo.
â VocĂȘ queria era que o filme fosse sobre vocĂȘ.
â Ă isso aĂ! Vou escrever um argumento sobre mim mesmo!
â JĂĄ tem o tĂtulo?
â JĂĄ: Moscas no Destroço Peludo.
â Vamos sair daqui.
Com essa, saĂmos.
â Hollywood
o verdadeiro deus Ă© a loucura
viver em paz permanente Ă©
viver permanentemente morto.
a agonia pode matar
ou
a agonia pode dar sustentação à vida
mas a paz Ă© sempre horripilante
a paz Ă© o que hĂĄ de pior
caminhadas
conversas
sorrisos,
a aparĂȘncia das coisas.
não se esqueça das calçadas
das putas,
da traição,
do verme na maçã,
dos bares, das cadeias,
dos suicĂdios dos amantes.
aqui na América
assassinamos um presidente e seu irmĂŁo,
outro presidente desistiu do cargo.
pessoas que acreditam em polĂtica
sĂŁo como pessoas que acreditam em deus:
estão chupando vento através de canudos
curvos.
nĂŁo hĂĄ deus
nĂŁo hĂĄ polĂtica
nĂŁo hĂĄ paz
nĂŁo hĂĄ amor
nĂŁo hĂĄ controle
nĂŁo hĂĄ plano
fique longe de deus
siga perturbado
deslize.
Eu me recostava no balcĂŁo do bar Mussoâs. Sarah tinha ido ao toalete de senhoras. Eu gostava do bar Mussoâs, do bar como bar, mas nĂŁo da sala onde ficava. Era conhecido como âSala Novaâ. A âSala Velhaâ ficava do outro lado, e eu preferia comer lĂĄ. Era mais escuro e tranquilo. Nos velhos tempos, eu ia Ă Sala Velha comer, mas raramente comia mesmo. Apenas olhava o menu e dizia ao pessoal âAinda nĂŁoâ, e continuava a pedir bebidas. Algumas das damas que eu levava lĂĄ eram de mĂĄ reputação, e enquanto a gente bebia, sem parar, estouravam muitas discussĂ”es aos berros, cheias de xingamentos, bebidas derramadas e pedidos de outras. Eu geralmente passava Ă s damas o dinheiro do tĂĄxi, mandava-as dar o fora e continuava bebendo sozinho. Duvido que usassem o dinheiro do tĂĄxi em tĂĄxis. Mas uma das coisas mais legais do Mussoâs era que quando eu voltava, depois da trepada, geralmente me recebiam com sorrisos calorosos. Muito estranho.
De qualquer modo, eu me recostava no balcão do bar, e a Sala Nova estava cheia, a maioria turistas, que batiam papo, torciam o pescoço e emitiam raios da morte. Pedi um novo drinque e então me bateram no ombro.
â Chinaski, como vai vocĂȘ?
Virei-me e olhei. Jamais reconheci alguém. Podia encontrar uma pessoa na noite passada e não lembrar dela no dia seguinte. Se arrancassem minha mãe da cova, eu não saberia quem era ela.
â Estou bem â disse. â Posso te pagar uma bebida?
â NĂŁo, obrigado. NĂŁo nos conhecemos. Eu sou Harold Pheasant.
â Oh, sim. Jon me disse que vocĂȘ estava pensando em...
â Ă, quero financiar seu argumento. Li sua obra. VocĂȘ tem um maravilhoso senso de diĂĄlogo. Li sua obra: muito cinematogrĂĄfica.
â Tem certeza de que nĂŁo quer um drinque?
â NĂŁo, preciso voltar pra minha mesa.
â Ah, Ă©? Que tem feito ultimamente, Pheasant?
â Acabo de produzir um filme sobre a vida de Mack Derouac.
â Ă? Como se chama?
â A Canção do Coração.
Tomei um gole.
â Ei, espere um minuto! VocĂȘ estĂĄ brincando! NĂŁo vai chamar o filme de A Canção do Coração.
â Oh, sim, Ă© assim que vai se chamar.
Ele sorria.
â VocĂȘ nĂŁo pode me enrolar, Pheasant. Ă mesmo um gozador! A Canção do Coração! Nossa!
â NĂŁo â ele disse. â Estou falando sĂ©rio.
De repente deu as costas e foi-se embora...
Nesse momento Sarah voltava. Olhou para mim.
â De que estĂĄ rindo?
â Me deixa pedir um drinque pra vocĂȘ que eu te conto.
Chamei o garçom e pedi um também para mim.
â Adivinha quem eu vi na Sala Velha â ela disse.
â Quem?
â Jonathan Winters.
â Ăéé? Adivinha com quem conversei enquanto vocĂȘ estava lĂĄ.
â Uma de suas ex-putas.
â NĂŁo, nĂŁo. Pior.
â NĂŁo tem nada pior que elas.
â Conversei com Harold Pheasant.
â O produtor?
â Ă, estĂĄ ali naquela mesa do canto.
â Oh, estou vendo!
â NĂŁo, nĂŁo olhe. NĂŁo acene. Beba seu drinque. Eu bebo o meu.
â Que diabos deu em vocĂȘ?
â Sabe, ele Ă© o produtor que ia produzir o argumento que eu nĂŁo escrevi.
â Eu sei.
â Quando vocĂȘ saiu ele veio conversar comigo.
â JĂĄ disse isso.
â NĂŁo aceitou nem um drinque.
â EntĂŁo vocĂȘ fodeu tudo e nĂŁo estĂĄ nem bĂȘbado.
â Espere. Ele queria falar de um filme que acaba de produzir.
â Como foi que vocĂȘ fodeu tudo?
â Eu nĂŁo fodi nada. Ele fodeu.
â Claro. Conta pra mim.
Olhei no espelho. Gostava de mim mesmo, mas nĂŁo no espelho. NĂŁo tinha aquela aparĂȘncia. Acabei meu drinque.
â Acabe seu drinque â disse.
Ela acabou.
â Conta pra mim.
â Ă a segunda vez que vocĂȘ diz: âConta pra mimâ.
â MemĂłria notĂĄvel, e nem estĂĄ bĂȘbado ainda.
Fiz sinal para o garçom, tornei a pedir.
â Bem, Pheasant veio aqui e me falou do tal filme que produziu. Ă sobre um escritor que nĂŁo sabia escrever mas ficou famoso porque parecia um peĂŁo de rodeio.
â Quem?
â Mack Derouac.
â E isso chateou vocĂȘ?
â NĂŁo, isso nĂŁo importa. Estava Ăłtimo, atĂ© ele me dizer o tĂtulo do filme.
â Que era?
â Por favor, estou tentando varrer da minha cabeça. Ă absolutamente idiota.
â Diz pra mim.
â TĂĄ legal...
O espelho ainda estava lĂĄ.
â Diz pra mim, diz pra mim, diz pra mim.
â Tudo bem: O Voo do Destroço Peludo.
â Eu gosto.
â Eu nĂŁo gostei. E disse a ele. Ele se mandou. A gente perdeu o patrocinador.
â VocĂȘ deve ir lĂĄ se desculpar.
â De jeito nenhum. TĂtulo horrendo.
â VocĂȘ queria era que o filme fosse sobre vocĂȘ.
â Ă isso aĂ! Vou escrever um argumento sobre mim mesmo!
â JĂĄ tem o tĂtulo?
â JĂĄ: Moscas no Destroço Peludo.
â Vamos sair daqui.
Com essa, saĂmos.
â Hollywood
Ajudando o Velho
hoje eu estava na fila do banco
quando um cara velho Ă minha frente
deixou seus Ăłculos caĂrem (por sorte, dentro do
estojo)
e ao se abaixar para pegĂĄ-los
pude ver como aquilo era difĂcil para
ele
e eu disse, âespere, deixa que eu
pego...â
mas assim que apanhei
ele deixou cair sua bengala
uma bengala linda, negra e
encerada
e eu lhe devolvi os Ăłculos
e entĂŁo fui apanhar a bengala
amparando o velho
enquanto lhe devolvia sua bengala.
ele nĂŁo dizia nada,
apenas sorriu pra mim.
entĂŁo se virou para
frente
fiquei atrĂĄs dele esperando
minha vez.
A casa onde eu morava nessa Ă©poca tinha algumas qualidades. Uma das mais bacanas era o quarto, pintado de um azul muito escuro. Esse azul muito escuro oferecia um abrigo para muitas ressacas, algumas delas suficientemente brutais para matar um homem, sobretudo numa Ă©poca em que eu engolia as pĂlulas que as pessoas me davam sem me preocupar em perguntar o que eram. Algumas noites eu sabia que, se adormecesse, morreria. Ficava dando voltas sozinho a noite toda, do quarto ao banheiro e do banheiro Ă cozinha, passando pela sala da frente. Abria e fechava a geladeira, repetidas vezes. Abria e fechava as torneiras. Ia ao banheiro e abria e fechava as torneiras. Dava descargas na privada. Puxava as orelhas. Inspirava e expirava. Depois, quando o sol saĂa, eu sabia que estava salvo. AĂ dormia com as paredes azuis azuis azuis, curando-me.
Outra caracterĂstica da casa eram as batidas Ă porta, de mulheres desagradĂĄveis, Ă s trĂȘs ou quatro horas da manhĂŁ. Certamente nĂŁo eram damas de grande encanto, mas tendo uma mente meio idiota eu achava que de algum modo elas me traziam aventura. A verdade mesmo Ă© que a maioria delas nĂŁo tinha outro lugar para ir. E gostavam do fato de que havia bebida e de que eu nĂŁo fazia muita força pra ir pra cama com elas.
Evidentemente, depois que conheci Sarah, essa parte do meu estilo de vida mudou bastante.
Aquele bairro, nos arredores da Carlton Way, perto da Avenida Western, tambĂ©m mudava. Antes era quase todo de classe mĂ©dia branca, mas os problemas polĂticos na AmĂ©rica Central e em outras partes do mundo haviam trazido um outro tipo de indivĂduo para a ĂĄrea. Os homens eram geralmente baixos, escuros ou morenos claros, geralmente jovens. Havia esposas, filhos, irmĂŁos, primos, amigos. Começaram a inundar os apartamentos e pĂĄtios. Viviam muitos num mesmo apartamento, e eu era um dos poucos brancos que restavam no complexo em torno do pĂĄtio.
As crianças corriam de um lado para outro, subiam e desciam a ajardinada alamedazinha do pĂĄtio. Pareciam todas entre os dois e os sete anos. NĂŁo tinham bicicletas nem brinquedos. Raramente se viam as esposas. Ficavam dentro de casa, escondidas. Muitos dos homens tambĂ©m permaneciam trancados. NĂŁo era bom deixar o senhorio saber quantas pessoas moravam numa Ășnica unidade. Os Ășnicos homens que se viam eram os inquilinos legais. Pelo menos eles pagavam os aluguĂ©is. Como sobreviviam, nĂŁo se sabia. Os homens eram pequenos, magros, calados, sĂ©rios. A maioria sentava-se de camiseta nos degraus das varandas, um pouco caĂdos para a frente, uma vez ou outra fumando cigarros. Sentavam-se nos degraus das varandas durante horas, imĂłveis. Ăs vezes compravam carros muito velhos em sucatas e os dirigiam devagar pelo bairro. NĂŁo tinham seguro para o carro nem carteira de motorista, e rodavam com placas vencidas. A maioria dos carros tinha freios ruins. Os homens quase nunca paravam no sinal da esquina, e muitas vezes nĂŁo respeitavam o sinal vermelho, mas havia poucos acidentes. Alguma coisa cuidava deles.
ApĂłs um tempo, os carros quebravam mas meus novos vizinhos nĂŁo os abandonavam na rua. Faziam-nos subir as alamedas e os estacionavam diante de suas portas. Primeiro trabalhavam no motor. Tiravam o capĂŽ, e o motor enferrujava-se na chuva. Depois punham o carro sobre cepos e tiravam as rodas. Levavam-nas para dentro de casa e as mantinham lĂĄ, para que nĂŁo as roubassem durante a noite.
Quando eu vivia lĂĄ, havia duas filas de carros no pĂĄtio, assentados em cepos. Os homens sentavam-se imĂłveis em suas varandas, de camiseta. Ăs vezes eu balançava a cabeça ou acenava para eles. Jamais retribuĂam. Aparentemente, nĂŁo compreendiam nem liam os avisos de despejo que arrancavam, mas eu os via examinando os jornais de L.A. Eram estoicos e resistentes porque, comparadas com o lugar de onde vinham, as coisas agora eram fĂĄceis.
Bem, deixa pra lĂĄ. Meu consultor de impostos sugerira que eu comprasse uma casa, e assim, para mim, nĂŁo se tratava na verdade de uma âfuga brancaâ diante dos invasores. Embora, quem sabe? Eu notara que, toda vez que me mudara em Los Angeles, no correr dos anos, toda mudança fora sempre para o Norte ou o Oeste.
Finalmente, após algumas semanas de busca da casa, encontramos a certa. Após a entrada, as prestaçÔes mensais chegavam a 789,81 dólares. Tinha uma enorme sebe na frente, na rua, e o påtio também ficava na frente, de modo que a casa ficava recuada no terreno. Parecia um lugar danado de bom pra gente se esconder. Tinha até uma escada, um andar de cima com um quarto, banheiro e o que iria se tornar minha sala de trabalho. E haviam deixado lå uma mesa velha, uma coisa enorme, feia e velha. Agora, décadas depois, eu era um escritor que tinha uma mesa. Sim, senti o temor, o temor de me tornar igual a eles. Pior, eu tinha uma encomenda para escrever um argumento. Estaria condenado e amaldiçoado, estaria para ser sugado até o fim? Não achava que seria assim. Mas serå que alguém acha, algum dia?
Sarah e eu transferimos nossos poucos bens para lĂĄ.
O grande momento chegou. Pus a mĂĄquina de escrever em cima da mesa, encaixei uma folha de papel e bati nas teclas. A mĂĄquina ainda funcionava. E havia bastante espaço para um cinzeiro, o rĂĄdio e a garrafa. NĂŁo deixem ninguĂ©m convencĂȘ-los de outra coisa. A vida começa aos 65.
â Hollywood
quando um cara velho Ă minha frente
deixou seus Ăłculos caĂrem (por sorte, dentro do
estojo)
e ao se abaixar para pegĂĄ-los
pude ver como aquilo era difĂcil para
ele
e eu disse, âespere, deixa que eu
pego...â
mas assim que apanhei
ele deixou cair sua bengala
uma bengala linda, negra e
encerada
e eu lhe devolvi os Ăłculos
e entĂŁo fui apanhar a bengala
amparando o velho
enquanto lhe devolvia sua bengala.
ele nĂŁo dizia nada,
apenas sorriu pra mim.
entĂŁo se virou para
frente
fiquei atrĂĄs dele esperando
minha vez.
A casa onde eu morava nessa Ă©poca tinha algumas qualidades. Uma das mais bacanas era o quarto, pintado de um azul muito escuro. Esse azul muito escuro oferecia um abrigo para muitas ressacas, algumas delas suficientemente brutais para matar um homem, sobretudo numa Ă©poca em que eu engolia as pĂlulas que as pessoas me davam sem me preocupar em perguntar o que eram. Algumas noites eu sabia que, se adormecesse, morreria. Ficava dando voltas sozinho a noite toda, do quarto ao banheiro e do banheiro Ă cozinha, passando pela sala da frente. Abria e fechava a geladeira, repetidas vezes. Abria e fechava as torneiras. Ia ao banheiro e abria e fechava as torneiras. Dava descargas na privada. Puxava as orelhas. Inspirava e expirava. Depois, quando o sol saĂa, eu sabia que estava salvo. AĂ dormia com as paredes azuis azuis azuis, curando-me.
Outra caracterĂstica da casa eram as batidas Ă porta, de mulheres desagradĂĄveis, Ă s trĂȘs ou quatro horas da manhĂŁ. Certamente nĂŁo eram damas de grande encanto, mas tendo uma mente meio idiota eu achava que de algum modo elas me traziam aventura. A verdade mesmo Ă© que a maioria delas nĂŁo tinha outro lugar para ir. E gostavam do fato de que havia bebida e de que eu nĂŁo fazia muita força pra ir pra cama com elas.
Evidentemente, depois que conheci Sarah, essa parte do meu estilo de vida mudou bastante.
Aquele bairro, nos arredores da Carlton Way, perto da Avenida Western, tambĂ©m mudava. Antes era quase todo de classe mĂ©dia branca, mas os problemas polĂticos na AmĂ©rica Central e em outras partes do mundo haviam trazido um outro tipo de indivĂduo para a ĂĄrea. Os homens eram geralmente baixos, escuros ou morenos claros, geralmente jovens. Havia esposas, filhos, irmĂŁos, primos, amigos. Começaram a inundar os apartamentos e pĂĄtios. Viviam muitos num mesmo apartamento, e eu era um dos poucos brancos que restavam no complexo em torno do pĂĄtio.
As crianças corriam de um lado para outro, subiam e desciam a ajardinada alamedazinha do pĂĄtio. Pareciam todas entre os dois e os sete anos. NĂŁo tinham bicicletas nem brinquedos. Raramente se viam as esposas. Ficavam dentro de casa, escondidas. Muitos dos homens tambĂ©m permaneciam trancados. NĂŁo era bom deixar o senhorio saber quantas pessoas moravam numa Ășnica unidade. Os Ășnicos homens que se viam eram os inquilinos legais. Pelo menos eles pagavam os aluguĂ©is. Como sobreviviam, nĂŁo se sabia. Os homens eram pequenos, magros, calados, sĂ©rios. A maioria sentava-se de camiseta nos degraus das varandas, um pouco caĂdos para a frente, uma vez ou outra fumando cigarros. Sentavam-se nos degraus das varandas durante horas, imĂłveis. Ăs vezes compravam carros muito velhos em sucatas e os dirigiam devagar pelo bairro. NĂŁo tinham seguro para o carro nem carteira de motorista, e rodavam com placas vencidas. A maioria dos carros tinha freios ruins. Os homens quase nunca paravam no sinal da esquina, e muitas vezes nĂŁo respeitavam o sinal vermelho, mas havia poucos acidentes. Alguma coisa cuidava deles.
ApĂłs um tempo, os carros quebravam mas meus novos vizinhos nĂŁo os abandonavam na rua. Faziam-nos subir as alamedas e os estacionavam diante de suas portas. Primeiro trabalhavam no motor. Tiravam o capĂŽ, e o motor enferrujava-se na chuva. Depois punham o carro sobre cepos e tiravam as rodas. Levavam-nas para dentro de casa e as mantinham lĂĄ, para que nĂŁo as roubassem durante a noite.
Quando eu vivia lĂĄ, havia duas filas de carros no pĂĄtio, assentados em cepos. Os homens sentavam-se imĂłveis em suas varandas, de camiseta. Ăs vezes eu balançava a cabeça ou acenava para eles. Jamais retribuĂam. Aparentemente, nĂŁo compreendiam nem liam os avisos de despejo que arrancavam, mas eu os via examinando os jornais de L.A. Eram estoicos e resistentes porque, comparadas com o lugar de onde vinham, as coisas agora eram fĂĄceis.
Bem, deixa pra lĂĄ. Meu consultor de impostos sugerira que eu comprasse uma casa, e assim, para mim, nĂŁo se tratava na verdade de uma âfuga brancaâ diante dos invasores. Embora, quem sabe? Eu notara que, toda vez que me mudara em Los Angeles, no correr dos anos, toda mudança fora sempre para o Norte ou o Oeste.
Finalmente, após algumas semanas de busca da casa, encontramos a certa. Após a entrada, as prestaçÔes mensais chegavam a 789,81 dólares. Tinha uma enorme sebe na frente, na rua, e o påtio também ficava na frente, de modo que a casa ficava recuada no terreno. Parecia um lugar danado de bom pra gente se esconder. Tinha até uma escada, um andar de cima com um quarto, banheiro e o que iria se tornar minha sala de trabalho. E haviam deixado lå uma mesa velha, uma coisa enorme, feia e velha. Agora, décadas depois, eu era um escritor que tinha uma mesa. Sim, senti o temor, o temor de me tornar igual a eles. Pior, eu tinha uma encomenda para escrever um argumento. Estaria condenado e amaldiçoado, estaria para ser sugado até o fim? Não achava que seria assim. Mas serå que alguém acha, algum dia?
Sarah e eu transferimos nossos poucos bens para lĂĄ.
O grande momento chegou. Pus a mĂĄquina de escrever em cima da mesa, encaixei uma folha de papel e bati nas teclas. A mĂĄquina ainda funcionava. E havia bastante espaço para um cinzeiro, o rĂĄdio e a garrafa. NĂŁo deixem ninguĂ©m convencĂȘ-los de outra coisa. A vida começa aos 65.
â Hollywood
Albergue
vocĂȘ nĂŁo viveu de verdade
até ter estado num
albergue
onde nĂŁo hĂĄ nada alĂ©m de um Ășnico
bico de luz
e 56 homens
apertados uns contra os outros
em catres
com todo mundo
roncando
ao mesmo tempo
e alguns desses
roncos
sĂŁo
tĂŁo profundos e
graves e
inacreditĂĄveis â
cavernosos
repulsivos
graves
subumanos
ruĂdos
vindos do prĂłprio
inferno.
vocĂȘ quase
perde o juĂzo
submetido a esses
sons que parecem
uma condenação
e os
odores
misturados:
meias
duras e imundas
cuecas
mijadas e
cagadas
e sobre tudo isso
um ar que circula
devagar
que mais parece
a emanação de
lixeiras sem
tampa.
e aqueles
corpos
no escuro
gordos e
magros
e
curvos
alguns
manetas
pernetas
alguns
desmiolados
e o pior de
tudo:
a total
falta de
esperança
que os
amortalha
que os recobre
por completo.
nĂŁo hĂĄ como
suportar.
vocĂȘ se
levanta
sai
caminha pelas
ruas
sobe e
desce as
calçadas
passa por prédios
dĂĄ a volta na
esquina
e retorna
pela
mesma
rua
pensando
aqueles homens
todos
uma vez foram
crianças
o que aconteceu
com
eles?
e o
que
aconteceu
comigo?
estĂĄ escuro
e frio
aqui
fora.
Cheguei a Nova Orleans às cinco da manhã, debaixo de chuva. Sentei-me nas proximidades da rodoviåria por um tempo, mas as pessoas me deprimiam de tal maneira que peguei minha mala, enfrentei a chuva e comecei a andar. Não sabia onde ficavam as pensÔes, qual a localização do bairro pobre.
Eu tinha uma mala de papelão que estava se desmanchando. Certa vez tinha sido preta, mas a cobertura havia descascado, expondo o papelão amarelo de que era feita. Eu tentara resolver o problema passando uma cera preta de sapato sobre as partes descobertas. Enquanto caminhava debaixo da chuva, a cera começou a escorrer da mala e, sem eu perceber, foi sujando as duas pernas das minhas calças de preto cada vez que eu mudava a mala de mão.
Bem, era uma nova cidade. Talvez eu tivesse sorte.
A chuva parou e o sol apareceu. Eu estava no bairro negro. Segui caminhando devagar.
â Ei, branquelo sujo!
Coloquei minha mala no chĂŁo. Uma mulatona estava sentada nos degraus da varanda, balançando as pernas. Tinha uma boa aparĂȘncia.
â OlĂĄ, branquelo sujo!
Eu nĂŁo disse nada. Fiquei apenas olhando para ela.
â EstĂĄ atrĂĄs de um bom rabo, branquelo sujo?
Riu na minha cara. Suas pernas estavam cruzadas bem alto e ela mexia um dos pés; tinha ótimas pernas, sapatos de salto, jogava as pernas para lå e para cå e sorria. Recolhi minha mala e comecei a me aproximar dela pela calçada. Ao chegar mais perto, percebi que a cortina da janela ao seu lado havia se mexido um pouco. Vi o rosto de um negro. Ele parecia o Jersey Joe Wolcott.[7] Retornei da passagem para a calçada. Suas risadas me seguiram rua abaixo.
Fiquei em um quarto no segundo andar, de frente para um bar. O bar se chamava CafĂ© Gangplank. Do meu quarto eu podia ver atravĂ©s das portas abertas do bar tudo o que acontecia lĂĄ dentro. Havia uns rostos ferozes por ali, outros interessantes. Eu ficava no meu quarto Ă noite, bebia vinho e olhava aqueles rostos no bar enquanto meu dinheiro se esvaĂa. Durante o dia, eu dava longas e vagarosas caminhadas. Ficava sentado por horas olhando os pombos. Descobri um cafĂ© imundo, com um dono mais imundo ainda, mas onde se podia tomar um cafĂ© da manhĂŁ caprichado â panquecas, cereais, salsicha â por quase nada.
SaĂ pela rua, como sempre, e fiquei caminhando sem rumo. Sentia-me feliz e relaxado. O sol estava na medida certa. Brando. Havia paz no ar. Ao me aproximar do meio da quadra, avistei um homem parado junto Ă entrada de uma loja. Segui em frente.
â Ei, PARCEIRO!
Parei e dei meia-volta.
â EstĂĄ atrĂĄs de trabalho?
Retornei até onde ele estava. Por sobre seu ombro, pude ver uma enorme sala escura. Havia uma mesa comprida, com homens e mulheres de pé, de ambos os lados. Eles tinham martelos com os quais golpeavam objetos a sua frente. Na escuridão, os objetos pareciam ser mexilhÔes. Cheiravam como mexilhÔes. Dei meia-volta e segui caminhando pela rua.
Lembrei de como meu pai costumava chegar em casa todas as noites e falar do seu trabalho para minha mĂŁe. A ladainha sobre o trabalho começava assim que ele cruzava a porta, continuava ao longo do jantar e se estendia atĂ© o momento em que meu pai gritava lĂĄ do quarto âLuzes apagadas!â, Ă s oito da noite, para que ele pudesse descansar e recuperar as forças para o trabalho do dia seguinte. NĂŁo havia nenhum outro assunto, exceto o trabalho.
Perto da esquina, fui parado por outro homem.
â Escute, meu amigo... â ele começou.
â Sim? â perguntei.
â Escute. Sou um veterano da Primeira Guerra Mundial. Coloquei minha vida em risco para defender este paĂs, mas ninguĂ©m quer me contratar, ninguĂ©m me oferece um emprego. Eles nĂŁo tĂȘm consideração pelo que eu fiz. Estou com fome, me ajude...
â Estou desempregado.
â EstĂĄ desempregado?
â Isso mesmo.
Afastei-me. Atravessei a rua.
â VocĂȘ estĂĄ mentindo! â gritou. â VocĂȘ estĂĄ trabalhando. VocĂȘ tem um emprego!
Alguns dias mais tarde, eu estava realmente em busca de um.
Ele era uma espĂ©cie de atendente, atrĂĄs de sua mesa de escritĂłrio, e usava um aparelho auditivo cujo fio se estendia ao longo de seu rosto e passava pela camisa, onde a bateria estava escondida. A sala era escura e confortĂĄvel. Ele vestia um terno marrom surrado, uma camisa amassada e uma gravata com a ponta puĂda. Chamava-se Heathercliff.
Eu havia visto o anĂșncio no jornal, e esse lugar ficava perto da minha pensĂŁo.
Procura-se jovem ambicioso com um olho no futuro. NĂŁo Ă© necessĂĄrio ter experiĂȘncia. Trabalho inicial no setor de expedição, com possibilidade de ascensĂŁo.
Esperei do lado de fora com mais cinco ou seis jovens, todos se esforçando em parecer ambiciosos. TĂnhamos preenchido nossas fichas de emprego e agora esperĂĄvamos. Fui o Ășltimo a ser chamado.
â Sr. Chinaski, por que razĂŁo o senhor abandonou o trabalho na companhia ferroviĂĄria?
â Bem, nĂŁo via muito futuro nesse setor.
â Eles tĂȘm bons sindicatos, planos de saĂșde, aposentadoria.
â Na minha idade, pensar em aposentadoria poderia ser considerado algo supĂ©rfluo.
â Por que veio a Nova Orleans?
â Tenho amigos demais em Los Angeles, amigos que estavam atravancando minha carreira. Queria ir para um lugar onde eu pudesse me concentrar, sem ser molestado.
â Como pode saber que permanecerĂĄ aqui conosco por tempo suficiente?
â NĂŁo tenho como saber.
â Por quĂȘ?
â Seu anĂșncio diz que hĂĄ um futuro por aqui para um jovem ambicioso. Se nĂŁo houver qualquer futuro por aqui, serĂĄ minha hora de partir.
â Por que nĂŁo estĂĄ de barba feita? Perdeu uma aposta?
â Ainda nĂŁo.
â Ainda nĂŁo?
â NĂŁo. Apostei com meu senhorio que poderia conseguir um emprego em um dia, mesmo com essa barba.
â Muito bem, informaremos se o senhor for o escolhido.
â NĂŁo tenho telefone.
â EstĂĄ tudo bem, sr. Chinaski.
SaĂ dali e voltei para o meu quarto. Cruzei o corredor sujo e fui tomar um banho quente. Logo em seguida, vesti as mesmas roupas e fui atrĂĄs de uma garrafa de vinho. Voltei para o quarto e me sentei junto Ă janela, bebendo, observando as pessoas no bar, o modo como se movimentavam. Eu bebia devagar, tomado novamente pela ideia de comprar uma arma e acabar com tudo aquilo de modo rĂĄpido â sem todos aqueles pensamentos e palavrĂłrios. Uma questĂŁo de colhĂ”es. Perguntava-me se teria mesmo colhĂ”es para isso. Terminei a garrafa e fui deitar. Por volta das quatro da manhĂŁ, fui acordado por uma batida na porta. Era um mensageiro da Western Union.
Abri o telegrama:
SR. H. CHINASKI. COMPAREĂA AO ESCRITĂRIO
AMANHĂ ĂS 8H. CIA. R. M. HEATHERCLIFF.
Era uma distribuidora de revistas, e ficĂĄvamos na mesa de expedição, verificando se os pedidos coincidiam em quantidade com o que estava marcado nas faturas. EntĂŁo assinĂĄvamos a fatura e empacotĂĄvamos o pedido para remessas intermunicipais, ou separĂĄvamos as revistas para que fossem distribuĂdas pelo caminhĂŁo de entrega local. O trabalho era fĂĄcil e monĂłtono, mas os empregados estavam sempre num constante estado de tensĂŁo. Estavam preocupados com seus empregos. Havia uma mistura de jovens e mulheres, e nĂŁo parecia haver nenhum tipo de fiscal. Depois de vĂĄrias horas, começou uma discussĂŁo entre duas das mulheres. Era algo sobre as revistas. Enquanto empacotĂĄvamos revistinhas, alguma coisa deu errado do outro lado da mesa. Com o progresso do bate-boca, as mulheres foram se tornando violentas.
â Olhem â eu disse â, essas revistas nĂŁo valem a pena nem ser lidas, quanto mais que vocĂȘs briguem por elas.
â Tudo bem â disse uma das mulheres â, nĂłs sabemos que vocĂȘ se acha bom demais para esse trabalho.
â Bom demais?
â Sim, essa sua atitude. VocĂȘ acha que a gente nĂŁo reparou?
Foi quando aprendi, pela primeira vez, que nĂŁo bastava que vocĂȘ fizesse seu trabalho. Era preciso mostrar interesse, se possĂvel atĂ© paixĂŁo por ele.
Trabalhei por trĂȘs ou quatro dias ali, entĂŁo, na sexta-feira, fomos pagos pelo exato nĂșmero de horas que tĂnhamos trabalhado. Os envelopes amarelos que nos deram continham uma sĂ©rie de verdinhas, alĂ©m dos centavos devidos. Dinheiro de verdade, nada de cheques.
O motorista do caminhĂŁo chegou um pouco antes, perto do final do expediente. Sentou-se sobre uma pilha de revistas e fumou um cigarro.
â Sim, Harry â ele disse para um dos empregados â, recebi um aumento hoje. Dois dĂłlares a mais.
Na saĂda, parei para comprar uma garrafa de vinho, depois fui para o meu quarto, tomei um gole e desci as escadas para ligar para o emprego. O telefone tocou por um longo tempo. Finalmente, o sr. Heathercliff atendeu. Ele ainda estava por lĂĄ.
â Sr. Heathercliff?
â Sim?
â Ă o Chinaski.
â Sim, sr. Chinaski?
â Quero um aumento de dois dĂłlares.
â Como?
â Isso mesmo. O motorista do caminhĂŁo ganhou um aumento.
â Mas ele estĂĄ conosco hĂĄ dois anos.
â Preciso de um aumento.
â Nesse momento, estamos lhe pagando dezessete dĂłlares por semana e o senhor vem me pedir dezenove?
â Exatamente. Vou receber ou nĂŁo?
â NĂŁo podemos oferecer isso.
â EntĂŁo me demito.
E desliguei.
â FactĂłtum
até ter estado num
albergue
onde nĂŁo hĂĄ nada alĂ©m de um Ășnico
bico de luz
e 56 homens
apertados uns contra os outros
em catres
com todo mundo
roncando
ao mesmo tempo
e alguns desses
roncos
sĂŁo
tĂŁo profundos e
graves e
inacreditĂĄveis â
cavernosos
repulsivos
graves
subumanos
ruĂdos
vindos do prĂłprio
inferno.
vocĂȘ quase
perde o juĂzo
submetido a esses
sons que parecem
uma condenação
e os
odores
misturados:
meias
duras e imundas
cuecas
mijadas e
cagadas
e sobre tudo isso
um ar que circula
devagar
que mais parece
a emanação de
lixeiras sem
tampa.
e aqueles
corpos
no escuro
gordos e
magros
e
curvos
alguns
manetas
pernetas
alguns
desmiolados
e o pior de
tudo:
a total
falta de
esperança
que os
amortalha
que os recobre
por completo.
nĂŁo hĂĄ como
suportar.
vocĂȘ se
levanta
sai
caminha pelas
ruas
sobe e
desce as
calçadas
passa por prédios
dĂĄ a volta na
esquina
e retorna
pela
mesma
rua
pensando
aqueles homens
todos
uma vez foram
crianças
o que aconteceu
com
eles?
e o
que
aconteceu
comigo?
estĂĄ escuro
e frio
aqui
fora.
Cheguei a Nova Orleans às cinco da manhã, debaixo de chuva. Sentei-me nas proximidades da rodoviåria por um tempo, mas as pessoas me deprimiam de tal maneira que peguei minha mala, enfrentei a chuva e comecei a andar. Não sabia onde ficavam as pensÔes, qual a localização do bairro pobre.
Eu tinha uma mala de papelão que estava se desmanchando. Certa vez tinha sido preta, mas a cobertura havia descascado, expondo o papelão amarelo de que era feita. Eu tentara resolver o problema passando uma cera preta de sapato sobre as partes descobertas. Enquanto caminhava debaixo da chuva, a cera começou a escorrer da mala e, sem eu perceber, foi sujando as duas pernas das minhas calças de preto cada vez que eu mudava a mala de mão.
Bem, era uma nova cidade. Talvez eu tivesse sorte.
A chuva parou e o sol apareceu. Eu estava no bairro negro. Segui caminhando devagar.
â Ei, branquelo sujo!
Coloquei minha mala no chĂŁo. Uma mulatona estava sentada nos degraus da varanda, balançando as pernas. Tinha uma boa aparĂȘncia.
â OlĂĄ, branquelo sujo!
Eu nĂŁo disse nada. Fiquei apenas olhando para ela.
â EstĂĄ atrĂĄs de um bom rabo, branquelo sujo?
Riu na minha cara. Suas pernas estavam cruzadas bem alto e ela mexia um dos pés; tinha ótimas pernas, sapatos de salto, jogava as pernas para lå e para cå e sorria. Recolhi minha mala e comecei a me aproximar dela pela calçada. Ao chegar mais perto, percebi que a cortina da janela ao seu lado havia se mexido um pouco. Vi o rosto de um negro. Ele parecia o Jersey Joe Wolcott.[7] Retornei da passagem para a calçada. Suas risadas me seguiram rua abaixo.
Fiquei em um quarto no segundo andar, de frente para um bar. O bar se chamava CafĂ© Gangplank. Do meu quarto eu podia ver atravĂ©s das portas abertas do bar tudo o que acontecia lĂĄ dentro. Havia uns rostos ferozes por ali, outros interessantes. Eu ficava no meu quarto Ă noite, bebia vinho e olhava aqueles rostos no bar enquanto meu dinheiro se esvaĂa. Durante o dia, eu dava longas e vagarosas caminhadas. Ficava sentado por horas olhando os pombos. Descobri um cafĂ© imundo, com um dono mais imundo ainda, mas onde se podia tomar um cafĂ© da manhĂŁ caprichado â panquecas, cereais, salsicha â por quase nada.
SaĂ pela rua, como sempre, e fiquei caminhando sem rumo. Sentia-me feliz e relaxado. O sol estava na medida certa. Brando. Havia paz no ar. Ao me aproximar do meio da quadra, avistei um homem parado junto Ă entrada de uma loja. Segui em frente.
â Ei, PARCEIRO!
Parei e dei meia-volta.
â EstĂĄ atrĂĄs de trabalho?
Retornei até onde ele estava. Por sobre seu ombro, pude ver uma enorme sala escura. Havia uma mesa comprida, com homens e mulheres de pé, de ambos os lados. Eles tinham martelos com os quais golpeavam objetos a sua frente. Na escuridão, os objetos pareciam ser mexilhÔes. Cheiravam como mexilhÔes. Dei meia-volta e segui caminhando pela rua.
Lembrei de como meu pai costumava chegar em casa todas as noites e falar do seu trabalho para minha mĂŁe. A ladainha sobre o trabalho começava assim que ele cruzava a porta, continuava ao longo do jantar e se estendia atĂ© o momento em que meu pai gritava lĂĄ do quarto âLuzes apagadas!â, Ă s oito da noite, para que ele pudesse descansar e recuperar as forças para o trabalho do dia seguinte. NĂŁo havia nenhum outro assunto, exceto o trabalho.
Perto da esquina, fui parado por outro homem.
â Escute, meu amigo... â ele começou.
â Sim? â perguntei.
â Escute. Sou um veterano da Primeira Guerra Mundial. Coloquei minha vida em risco para defender este paĂs, mas ninguĂ©m quer me contratar, ninguĂ©m me oferece um emprego. Eles nĂŁo tĂȘm consideração pelo que eu fiz. Estou com fome, me ajude...
â Estou desempregado.
â EstĂĄ desempregado?
â Isso mesmo.
Afastei-me. Atravessei a rua.
â VocĂȘ estĂĄ mentindo! â gritou. â VocĂȘ estĂĄ trabalhando. VocĂȘ tem um emprego!
Alguns dias mais tarde, eu estava realmente em busca de um.
Ele era uma espĂ©cie de atendente, atrĂĄs de sua mesa de escritĂłrio, e usava um aparelho auditivo cujo fio se estendia ao longo de seu rosto e passava pela camisa, onde a bateria estava escondida. A sala era escura e confortĂĄvel. Ele vestia um terno marrom surrado, uma camisa amassada e uma gravata com a ponta puĂda. Chamava-se Heathercliff.
Eu havia visto o anĂșncio no jornal, e esse lugar ficava perto da minha pensĂŁo.
Procura-se jovem ambicioso com um olho no futuro. NĂŁo Ă© necessĂĄrio ter experiĂȘncia. Trabalho inicial no setor de expedição, com possibilidade de ascensĂŁo.
Esperei do lado de fora com mais cinco ou seis jovens, todos se esforçando em parecer ambiciosos. TĂnhamos preenchido nossas fichas de emprego e agora esperĂĄvamos. Fui o Ășltimo a ser chamado.
â Sr. Chinaski, por que razĂŁo o senhor abandonou o trabalho na companhia ferroviĂĄria?
â Bem, nĂŁo via muito futuro nesse setor.
â Eles tĂȘm bons sindicatos, planos de saĂșde, aposentadoria.
â Na minha idade, pensar em aposentadoria poderia ser considerado algo supĂ©rfluo.
â Por que veio a Nova Orleans?
â Tenho amigos demais em Los Angeles, amigos que estavam atravancando minha carreira. Queria ir para um lugar onde eu pudesse me concentrar, sem ser molestado.
â Como pode saber que permanecerĂĄ aqui conosco por tempo suficiente?
â NĂŁo tenho como saber.
â Por quĂȘ?
â Seu anĂșncio diz que hĂĄ um futuro por aqui para um jovem ambicioso. Se nĂŁo houver qualquer futuro por aqui, serĂĄ minha hora de partir.
â Por que nĂŁo estĂĄ de barba feita? Perdeu uma aposta?
â Ainda nĂŁo.
â Ainda nĂŁo?
â NĂŁo. Apostei com meu senhorio que poderia conseguir um emprego em um dia, mesmo com essa barba.
â Muito bem, informaremos se o senhor for o escolhido.
â NĂŁo tenho telefone.
â EstĂĄ tudo bem, sr. Chinaski.
SaĂ dali e voltei para o meu quarto. Cruzei o corredor sujo e fui tomar um banho quente. Logo em seguida, vesti as mesmas roupas e fui atrĂĄs de uma garrafa de vinho. Voltei para o quarto e me sentei junto Ă janela, bebendo, observando as pessoas no bar, o modo como se movimentavam. Eu bebia devagar, tomado novamente pela ideia de comprar uma arma e acabar com tudo aquilo de modo rĂĄpido â sem todos aqueles pensamentos e palavrĂłrios. Uma questĂŁo de colhĂ”es. Perguntava-me se teria mesmo colhĂ”es para isso. Terminei a garrafa e fui deitar. Por volta das quatro da manhĂŁ, fui acordado por uma batida na porta. Era um mensageiro da Western Union.
Abri o telegrama:
SR. H. CHINASKI. COMPAREĂA AO ESCRITĂRIO
AMANHĂ ĂS 8H. CIA. R. M. HEATHERCLIFF.
Era uma distribuidora de revistas, e ficĂĄvamos na mesa de expedição, verificando se os pedidos coincidiam em quantidade com o que estava marcado nas faturas. EntĂŁo assinĂĄvamos a fatura e empacotĂĄvamos o pedido para remessas intermunicipais, ou separĂĄvamos as revistas para que fossem distribuĂdas pelo caminhĂŁo de entrega local. O trabalho era fĂĄcil e monĂłtono, mas os empregados estavam sempre num constante estado de tensĂŁo. Estavam preocupados com seus empregos. Havia uma mistura de jovens e mulheres, e nĂŁo parecia haver nenhum tipo de fiscal. Depois de vĂĄrias horas, começou uma discussĂŁo entre duas das mulheres. Era algo sobre as revistas. Enquanto empacotĂĄvamos revistinhas, alguma coisa deu errado do outro lado da mesa. Com o progresso do bate-boca, as mulheres foram se tornando violentas.
â Olhem â eu disse â, essas revistas nĂŁo valem a pena nem ser lidas, quanto mais que vocĂȘs briguem por elas.
â Tudo bem â disse uma das mulheres â, nĂłs sabemos que vocĂȘ se acha bom demais para esse trabalho.
â Bom demais?
â Sim, essa sua atitude. VocĂȘ acha que a gente nĂŁo reparou?
Foi quando aprendi, pela primeira vez, que nĂŁo bastava que vocĂȘ fizesse seu trabalho. Era preciso mostrar interesse, se possĂvel atĂ© paixĂŁo por ele.
Trabalhei por trĂȘs ou quatro dias ali, entĂŁo, na sexta-feira, fomos pagos pelo exato nĂșmero de horas que tĂnhamos trabalhado. Os envelopes amarelos que nos deram continham uma sĂ©rie de verdinhas, alĂ©m dos centavos devidos. Dinheiro de verdade, nada de cheques.
O motorista do caminhĂŁo chegou um pouco antes, perto do final do expediente. Sentou-se sobre uma pilha de revistas e fumou um cigarro.
â Sim, Harry â ele disse para um dos empregados â, recebi um aumento hoje. Dois dĂłlares a mais.
Na saĂda, parei para comprar uma garrafa de vinho, depois fui para o meu quarto, tomei um gole e desci as escadas para ligar para o emprego. O telefone tocou por um longo tempo. Finalmente, o sr. Heathercliff atendeu. Ele ainda estava por lĂĄ.
â Sr. Heathercliff?
â Sim?
â Ă o Chinaski.
â Sim, sr. Chinaski?
â Quero um aumento de dois dĂłlares.
â Como?
â Isso mesmo. O motorista do caminhĂŁo ganhou um aumento.
â Mas ele estĂĄ conosco hĂĄ dois anos.
â Preciso de um aumento.
â Nesse momento, estamos lhe pagando dezessete dĂłlares por semana e o senhor vem me pedir dezenove?
â Exatamente. Vou receber ou nĂŁo?
â NĂŁo podemos oferecer isso.
â EntĂŁo me demito.
E desliguei.
â FactĂłtum
Ar e Luz e Tempo e Espaço
â...vocĂȘ sabe, jĂĄ tive uma famĂlia, um emprego, mas alguma coisa
sempre se interpĂŽs no
caminho
mas agora
vendi minha casa, encontrei este
lugar, um enorme estĂșdio, vocĂȘ precisa ver o espaço e
a luz.
pela primeira vez na minha vida terei um lugar e tempo para
criar.â
nĂŁo, baby, se vocĂȘ vai criar
farĂĄ isso mesmo que trabalhe
16 horas por dia numa mina de carvĂŁo
ou
criarĂĄ num cubĂculo com 3 crianças
enquanto vive
da previdĂȘncia social,
criarĂĄ com parte de sua mente e de seu
corpo
estourados,
criarĂĄ cego
aleijado,
demente,
criarĂĄ com um gato escalando por suas
costas enquanto
a cidade inteira treme em terremotos, bombardeios
alagamentos e fogo.
baby, ar e luz e tempo e espaço
nĂŁo tĂȘm nada a ver com isso
e nĂŁo criam nada
exceto talvez uma vida mais longa para encontrar
novas desculpas de que se
ocupar.
Nessa noite, sem Jon escutando lĂĄ embaixo, o argumento começou a andar. Eu escrevia sobre um jovem que queria escrever e beber, mas a maior parte de seu sucesso era com a garrafa. O jovem fora eu. Embora aquele nĂŁo fosse um tempo infeliz, tinha sido, em grande parte, um tempo de vazio e espera. Enquanto eu batia, os personagens de um certo bar me voltavam Ă memĂłria. Eu tornava a ver cada rosto, os corpos, ouvia as vozes. Ali estava um bar que tinha um certo encanto mortal. Eu me concentrei nisso, revivi as brigas de bar com o garçom. Eu nĂŁo era bom de briga. Para começar, tinha as mĂŁos pequenas demais e vivia mal alimentado, muito mal alimentado. Mas tinha uma certa garra e encaixava um soco muito bem. Meu principal problema numa briga era que nĂŁo conseguia me enfurecer de verdade, mesmo quando minha vida parecia estar em jogo. Era tudo teatro comigo. Importava e nĂŁo. Brigar com o garçom era algo que tinha de ser feito e agradava aos fregueses, que eram um grupinho muito unido. Eu era o de fora. Tem alguma coisa positiva na bebida â aquelas brigas todas teriam me matado se eu estivesse sĂłbrio, mas, bĂȘbado, era como se o corpo virasse borracha e a cabeça cimento. Pulsos torcidos, lĂĄbios inchados e rĂłtulas machucadas eram mais ou menos tudo que eu sofria no dia seguinte. E tambĂ©m galos na cabeça, das quedas. Como isso podia virar um argumento, eu nĂŁo sabia. SĂł sabia que era a Ășnica parte da minha vida sobre a qual nĂŁo escrevera muito. Acredito que era sĂŁo naquela Ă©poca, tĂŁo sĂŁo quanto qualquer outro. E sabia que havia toda uma civilização de almas penadas que viviam entrando e saindo de bares, diariamente, noturnamente e para sempre, atĂ© a morte. Nunca lera sobre essa civilização, e por isso decidi escrever sobre ela, como a lembrava. A boa mĂĄquina velha matraqueava.
No dia seguinte, lĂĄ pelo meio-dia, o telefone tocou. Era Jon.
â Encontrei uma casa. François estĂĄ comigo. Ă linda, tem duas cozinhas, e o aluguel Ă© de graça, realmente de graça...
â Onde estĂĄ?
â Estamos no gueto de Venice. Avenida Brooks. SĂł tem negros. As ruas sĂŁo guerra e destruição. Lindo!
â Oh!
â VocĂȘ deve vir ver a casa!
â Quando?
â Hoje!
â Eu nĂŁo sei.
â Oh, vocĂȘ nĂŁo ia querer perder isto! Tem gente morando debaixo da nossa casa. A gente ouve eles lĂĄ embaixo, falando e tocando o rĂĄdio. Tem gangues por toda parte! AlguĂ©m construiu um grande hotel aqui. Mas ninguĂ©m pagou o aluguel. Fecharam o lugar com tĂĄbuas, cortaram a eletricidade, a ĂĄgua, o gĂĄs. Mas as pessoas ainda moram aqui. Ă UMA ZONA DE GUERRA! A polĂcia nĂŁo vem aqui, parece um estado separado, com suas prĂłprias leis. Eu adoro! VocĂȘ tem de nos visitar!
â Como chego aĂ?
Jon me deu as indicaçÔes e desligou.
Procurei Sarah.
â Escuta, preciso ir ver Jon e François.
â Ei, eu vou tambĂ©m!
â NĂŁo, nĂŁo pode. Fica no gueto de Venice.
â Oh, o gueto! Eu nĂŁo perderia isso por nada neste mundo!
â Escuta, me faz um favor, tĂĄ? Por favor, nĂŁo venha!
â Que? Acha que eu ia deixar vocĂȘ ir lĂĄ embaixo sozinho?
Peguei minha lĂąmina, pus o dinheiro nos sapatos.
â TĂĄ legal â disse...
Entramos dirigindo devagar no gueto de Venice. Não era verdade que só tivesse negros. Havia alguns latinos nos arredores. Notei um grupo de sete a oito mexicanos em volta, encostados num carro velho. Quase todos usavam camiseta ou estavam nus da cintura para cima. Passei dirigindo devagar, sem encarar ninguém, só absorvendo. Eles não pareciam fazer muita coisa. Só esperavam. Prontos e à espera. Na verdade, provavelmente estavam apenas entediados. Pareciam caras legais. E não pareciam lå muito preocupados.
Aà chegamos à turfa negra. De repente, ruas cheias de lixo: um pé esquerdo de sapato, uma camisa laranja, uma bolsa velha... uma romã podre... outro pé esquerdo de sapato... um blue jeans... um pneu...
Eu tinha de dirigir por entre aquelas coisas. Dois negros de uns onze anos nos fitavam de suas bicicletas. Ădio puro, perfeito. Eu sentia. Os negros pobres tinham Ăłdio. Os brancos pobres tinham Ăłdio. SĂł quando ganhavam dinheiro negros e brancos se integravam. Alguns brancos amavam os negros. Muito poucos negros amavam os brancos, se Ă© que algum amava. Ainda estavam indo Ă forra. Talvez nunca fossem. Numa sociedade capitalista, os perdedores sĂŁo escravizados pelos vencedores, e Ă© preciso haver mais perdedores que vencedores. Que pensava eu? Sabia que a polĂtica jamais resolveria isso, e nĂŁo sobrava muito tempo para entrar numa boa.
Dirigimos até encontrar o endereço, estacionei o carro, saà e bati na porta.
Uma portinhola abriu-se deslizando e lĂĄ estava um olho nos olhando.
â Ah, Hank e Sarah!
A porta abriu-se, fechou-se, e estĂĄvamos dentro.
Eu me aproximei da janela e dei uma olhada.
â Que estĂĄ fazendo? â perguntou Jon.
â SĂł quero dar uma olhada no carro de vez em quando...
â Oh, sim, venha ver, vou te mostrar as duas cozinhas!
Claro que havia duas cozinhas, um fogĂŁo em cada uma, uma geladeira em cada uma, uma pia em cada uma.
â Eram duas casas antes. Foram transformadas em uma.
â Legal â disse Sarah. â VocĂȘ pode cozinhar numa cozinha e François na outra...
â No momento, estamos vivendo basicamente de ovos. Temos galinhas, que pĂ”em muitos ovos...
â Nossa, Jon, tĂĄ tĂŁo ruim assim?
â NĂŁo, na verdade, nĂŁo. A gente calcula que vai ficar aqui por um longo tempo. Precisamos de quase todo o nosso dinheiro pra vinho e charutos. Como vai indo o argumento?
â Tenho o prazer de comunicar que jĂĄ temos umas boas pĂĄginas. SĂł que Ă s vezes me atrapalho com CĂMERA, ZOOM, PANORĂMICA... essa merda toda...
â NĂŁo se preocupe, eu cuido disso.
â Onde estĂĄ François? â perguntou Sarah.
â Ah, estĂĄ na outra sala... venham...
Entramos e lĂĄ estava François rodando sua roletinha. Quando bebia, ficava com o nariz muito vermelho, como um bĂȘbado de desenho animado. E tambĂ©m, quanto mais bebia, mais deprimido ficava. Chupava um toco de charuto molhado. Conseguiu extrair algumas tristes baforadas. Ao lado, via-se uma garrafa de vinho quase vazia.
â Merda â disse â, jĂĄ estou com 60 mil dĂłlares no buraco e bebendo esse vinho barato do Jon, que ele diz ser coisa fina mas Ă© pura bosta. Paga um dĂłlar e 35 centavos a garrafa. Meu estĂŽmago parece um balĂŁo cheio de xixi! Estou com 60 mil dĂłlares no buraco e sem nenhum emprego em vista. Tenho de... me... matar...
â Vamos lĂĄ, François â disse Jon â, vamos mostrar as galinhas a nossos amigos...
â As galinhas! O-V-OS! A gente come O-V-OS o tempo todo! SĂł O-V-OS! Pup, pup, pup! A galinha pup O-V-OS! O dia todo, a noite toda minha função Ă© salvar as galinhas dos negrinhos! Os negrinhos vivem saltando a cerca e correndo pro galinheiro! Eu bato neles com uma vara comprida, digo: âSeus filhos da puta, fiquem longe de minhas galinhas que pup os O-V-OS! NĂŁo consigo pensar, nĂŁo consigo pensar em minha vida nem em minha morte, estou sempre correndo atrĂĄs desses negrinhos com a vara comprida! Jon, preciso de mais vinho, outro charuto!
Deu outra rodada na roleta.
Mais mĂĄs notĂcias. O sistema estava falhando.
â Sabe, na França tem apenas um zero pra casa! Aqui na AmĂ©rica tem um zero e um duplo zero pra casa! PEGAM OS DOIS BAGOS DA GENTE! POR QUĂ? Vamos lĂĄ, mostro a vocĂȘs as galinhas...
SaĂmos para o quintal, e lĂĄ estavam as galinhas e o galinheiro. O prĂłprio François o fizera. Era bom nessas coisas. Tinha um verdadeiro talento para isso. SĂł que nĂŁo usara tela de galinheiro, mas barras. E fechaduras em cada porta.
â Faço a chamada toda noite. âCĂ©cile, estĂĄ aĂ?â âCluc, clucâ, ela responde. âBernadette, estĂĄ aĂ?â âCluc, clucâ, ela responde. E por aĂ vai. Uma noite, eu chamei âNicole?â, e ela nĂŁo clucou. VocĂȘ acredita? Apesar de todas as barras e fechaduras, eles pegaram Nicole! Tiraram ela daqui. Nicole se foi, se foi para sempre! Jon, Jon, eu preciso de mais vinho!
Tornamos a entrar e nos sentamos, e o novo vinho correu solto. Jon deu um novo charuto a François.
â Se eu tiver meu charuto quando preciso â disse François â posso viver.
Bebemos por algum tempo, e entĂŁo Sarah perguntou:
â Escuta, Jon, seu senhorio Ă© negro?
â Oh, sim...
â Ele nĂŁo te perguntou por que alugava uma casa aqui?
â Sim...
â E que foi que vocĂȘ disse?
â Disse que Ă©ramos cineastas e atores da França.
â E ele?
â Ele disse: âOhâ.
â Mais alguma coisa?
â Sim, disse: âBem, o rabo Ă© seu!â.
Bebemos um tempo falando bobagem.
De vez em quando eu me levantava e ia Ă janela ver se o carro ainda estava lĂĄ.
Enquanto bebĂamos, comecei a me sentir culpado pela coisa toda.
â Escuta, Jon, deixa eu te devolver o dinheiro do argumento. Eu botei vocĂȘ contra a parede. Isso Ă© terrĂvel...
â NĂŁo, eu quero que vocĂȘ faça esse argumento. Ele vai se tornar um filme, eu prometo...
â Tudo bem, porra...
Bebemos mais um pouco.
EntĂŁo Jon disse:
â Veja...
Por um buraco na parede onde nos sentåvamos via-se uma mão, uma mão negra. Contorcia-se através do reboco quebrado, os dedos fechando-se, movendo-se. Parecia um animalzinho escuro.
â DĂ O FORA! â berrou François. â DĂ O FORA, ASSASSINO DE NICOLE! VOCĂ DEIXOU UM BURACO ETERNO EM MEU CORAĂĂO! DĂ O FORA!
A mĂŁo nĂŁo deu o fora.
François aproximou-se da parede e dela.
â Estou mandando dar o fora. SĂł quero fumar meu charuto e beber meu vinho em paz. VocĂȘ perturba o visual! NĂŁo posso me sentir bem com vocĂȘ tateando e me olhando com seus pobres dedos negros!
A mĂŁo nĂŁo deu o fora.
â TUDO BEM, ENTĂO!
A vara estava bem ali. Com um movimento demonĂaco, François pegou-a e começou a açoitar a parede com ela, repetidas vezes...
â ASSASSINO DE GALINHA, VOCĂ FERIU MEU CORAĂĂO ETERNAMENTE!
O som era ensurdecedor. Então François parou.
A mĂŁo dera o fora.
François sentou-se.
â Merda, Jon, meu charuto apagou. Por que nĂŁo compra charutos melhores, Jon?
â Escuta, Jon â eu disse â, a gente tem de ir...
â Ora, vamos... por favor... a noite estĂĄ sĂł começando! VocĂȘ nĂŁo viu nada ainda...
â A gente precisa ir... Preciso trabalhar mais no argumento...
â Oh... nesse caso...
Em casa, subi e trabalhei no argumento, mas estranhamente, ou talvez nĂŁo, minha vida passada nĂŁo parecia tĂŁo estranha, bĂĄrbara ou louca quanto o que ocorria agora.
â Hollywood
sempre se interpĂŽs no
caminho
mas agora
vendi minha casa, encontrei este
lugar, um enorme estĂșdio, vocĂȘ precisa ver o espaço e
a luz.
pela primeira vez na minha vida terei um lugar e tempo para
criar.â
nĂŁo, baby, se vocĂȘ vai criar
farĂĄ isso mesmo que trabalhe
16 horas por dia numa mina de carvĂŁo
ou
criarĂĄ num cubĂculo com 3 crianças
enquanto vive
da previdĂȘncia social,
criarĂĄ com parte de sua mente e de seu
corpo
estourados,
criarĂĄ cego
aleijado,
demente,
criarĂĄ com um gato escalando por suas
costas enquanto
a cidade inteira treme em terremotos, bombardeios
alagamentos e fogo.
baby, ar e luz e tempo e espaço
nĂŁo tĂȘm nada a ver com isso
e nĂŁo criam nada
exceto talvez uma vida mais longa para encontrar
novas desculpas de que se
ocupar.
Nessa noite, sem Jon escutando lĂĄ embaixo, o argumento começou a andar. Eu escrevia sobre um jovem que queria escrever e beber, mas a maior parte de seu sucesso era com a garrafa. O jovem fora eu. Embora aquele nĂŁo fosse um tempo infeliz, tinha sido, em grande parte, um tempo de vazio e espera. Enquanto eu batia, os personagens de um certo bar me voltavam Ă memĂłria. Eu tornava a ver cada rosto, os corpos, ouvia as vozes. Ali estava um bar que tinha um certo encanto mortal. Eu me concentrei nisso, revivi as brigas de bar com o garçom. Eu nĂŁo era bom de briga. Para começar, tinha as mĂŁos pequenas demais e vivia mal alimentado, muito mal alimentado. Mas tinha uma certa garra e encaixava um soco muito bem. Meu principal problema numa briga era que nĂŁo conseguia me enfurecer de verdade, mesmo quando minha vida parecia estar em jogo. Era tudo teatro comigo. Importava e nĂŁo. Brigar com o garçom era algo que tinha de ser feito e agradava aos fregueses, que eram um grupinho muito unido. Eu era o de fora. Tem alguma coisa positiva na bebida â aquelas brigas todas teriam me matado se eu estivesse sĂłbrio, mas, bĂȘbado, era como se o corpo virasse borracha e a cabeça cimento. Pulsos torcidos, lĂĄbios inchados e rĂłtulas machucadas eram mais ou menos tudo que eu sofria no dia seguinte. E tambĂ©m galos na cabeça, das quedas. Como isso podia virar um argumento, eu nĂŁo sabia. SĂł sabia que era a Ășnica parte da minha vida sobre a qual nĂŁo escrevera muito. Acredito que era sĂŁo naquela Ă©poca, tĂŁo sĂŁo quanto qualquer outro. E sabia que havia toda uma civilização de almas penadas que viviam entrando e saindo de bares, diariamente, noturnamente e para sempre, atĂ© a morte. Nunca lera sobre essa civilização, e por isso decidi escrever sobre ela, como a lembrava. A boa mĂĄquina velha matraqueava.
No dia seguinte, lĂĄ pelo meio-dia, o telefone tocou. Era Jon.
â Encontrei uma casa. François estĂĄ comigo. Ă linda, tem duas cozinhas, e o aluguel Ă© de graça, realmente de graça...
â Onde estĂĄ?
â Estamos no gueto de Venice. Avenida Brooks. SĂł tem negros. As ruas sĂŁo guerra e destruição. Lindo!
â Oh!
â VocĂȘ deve vir ver a casa!
â Quando?
â Hoje!
â Eu nĂŁo sei.
â Oh, vocĂȘ nĂŁo ia querer perder isto! Tem gente morando debaixo da nossa casa. A gente ouve eles lĂĄ embaixo, falando e tocando o rĂĄdio. Tem gangues por toda parte! AlguĂ©m construiu um grande hotel aqui. Mas ninguĂ©m pagou o aluguel. Fecharam o lugar com tĂĄbuas, cortaram a eletricidade, a ĂĄgua, o gĂĄs. Mas as pessoas ainda moram aqui. Ă UMA ZONA DE GUERRA! A polĂcia nĂŁo vem aqui, parece um estado separado, com suas prĂłprias leis. Eu adoro! VocĂȘ tem de nos visitar!
â Como chego aĂ?
Jon me deu as indicaçÔes e desligou.
Procurei Sarah.
â Escuta, preciso ir ver Jon e François.
â Ei, eu vou tambĂ©m!
â NĂŁo, nĂŁo pode. Fica no gueto de Venice.
â Oh, o gueto! Eu nĂŁo perderia isso por nada neste mundo!
â Escuta, me faz um favor, tĂĄ? Por favor, nĂŁo venha!
â Que? Acha que eu ia deixar vocĂȘ ir lĂĄ embaixo sozinho?
Peguei minha lĂąmina, pus o dinheiro nos sapatos.
â TĂĄ legal â disse...
Entramos dirigindo devagar no gueto de Venice. Não era verdade que só tivesse negros. Havia alguns latinos nos arredores. Notei um grupo de sete a oito mexicanos em volta, encostados num carro velho. Quase todos usavam camiseta ou estavam nus da cintura para cima. Passei dirigindo devagar, sem encarar ninguém, só absorvendo. Eles não pareciam fazer muita coisa. Só esperavam. Prontos e à espera. Na verdade, provavelmente estavam apenas entediados. Pareciam caras legais. E não pareciam lå muito preocupados.
Aà chegamos à turfa negra. De repente, ruas cheias de lixo: um pé esquerdo de sapato, uma camisa laranja, uma bolsa velha... uma romã podre... outro pé esquerdo de sapato... um blue jeans... um pneu...
Eu tinha de dirigir por entre aquelas coisas. Dois negros de uns onze anos nos fitavam de suas bicicletas. Ădio puro, perfeito. Eu sentia. Os negros pobres tinham Ăłdio. Os brancos pobres tinham Ăłdio. SĂł quando ganhavam dinheiro negros e brancos se integravam. Alguns brancos amavam os negros. Muito poucos negros amavam os brancos, se Ă© que algum amava. Ainda estavam indo Ă forra. Talvez nunca fossem. Numa sociedade capitalista, os perdedores sĂŁo escravizados pelos vencedores, e Ă© preciso haver mais perdedores que vencedores. Que pensava eu? Sabia que a polĂtica jamais resolveria isso, e nĂŁo sobrava muito tempo para entrar numa boa.
Dirigimos até encontrar o endereço, estacionei o carro, saà e bati na porta.
Uma portinhola abriu-se deslizando e lĂĄ estava um olho nos olhando.
â Ah, Hank e Sarah!
A porta abriu-se, fechou-se, e estĂĄvamos dentro.
Eu me aproximei da janela e dei uma olhada.
â Que estĂĄ fazendo? â perguntou Jon.
â SĂł quero dar uma olhada no carro de vez em quando...
â Oh, sim, venha ver, vou te mostrar as duas cozinhas!
Claro que havia duas cozinhas, um fogĂŁo em cada uma, uma geladeira em cada uma, uma pia em cada uma.
â Eram duas casas antes. Foram transformadas em uma.
â Legal â disse Sarah. â VocĂȘ pode cozinhar numa cozinha e François na outra...
â No momento, estamos vivendo basicamente de ovos. Temos galinhas, que pĂ”em muitos ovos...
â Nossa, Jon, tĂĄ tĂŁo ruim assim?
â NĂŁo, na verdade, nĂŁo. A gente calcula que vai ficar aqui por um longo tempo. Precisamos de quase todo o nosso dinheiro pra vinho e charutos. Como vai indo o argumento?
â Tenho o prazer de comunicar que jĂĄ temos umas boas pĂĄginas. SĂł que Ă s vezes me atrapalho com CĂMERA, ZOOM, PANORĂMICA... essa merda toda...
â NĂŁo se preocupe, eu cuido disso.
â Onde estĂĄ François? â perguntou Sarah.
â Ah, estĂĄ na outra sala... venham...
Entramos e lĂĄ estava François rodando sua roletinha. Quando bebia, ficava com o nariz muito vermelho, como um bĂȘbado de desenho animado. E tambĂ©m, quanto mais bebia, mais deprimido ficava. Chupava um toco de charuto molhado. Conseguiu extrair algumas tristes baforadas. Ao lado, via-se uma garrafa de vinho quase vazia.
â Merda â disse â, jĂĄ estou com 60 mil dĂłlares no buraco e bebendo esse vinho barato do Jon, que ele diz ser coisa fina mas Ă© pura bosta. Paga um dĂłlar e 35 centavos a garrafa. Meu estĂŽmago parece um balĂŁo cheio de xixi! Estou com 60 mil dĂłlares no buraco e sem nenhum emprego em vista. Tenho de... me... matar...
â Vamos lĂĄ, François â disse Jon â, vamos mostrar as galinhas a nossos amigos...
â As galinhas! O-V-OS! A gente come O-V-OS o tempo todo! SĂł O-V-OS! Pup, pup, pup! A galinha pup O-V-OS! O dia todo, a noite toda minha função Ă© salvar as galinhas dos negrinhos! Os negrinhos vivem saltando a cerca e correndo pro galinheiro! Eu bato neles com uma vara comprida, digo: âSeus filhos da puta, fiquem longe de minhas galinhas que pup os O-V-OS! NĂŁo consigo pensar, nĂŁo consigo pensar em minha vida nem em minha morte, estou sempre correndo atrĂĄs desses negrinhos com a vara comprida! Jon, preciso de mais vinho, outro charuto!
Deu outra rodada na roleta.
Mais mĂĄs notĂcias. O sistema estava falhando.
â Sabe, na França tem apenas um zero pra casa! Aqui na AmĂ©rica tem um zero e um duplo zero pra casa! PEGAM OS DOIS BAGOS DA GENTE! POR QUĂ? Vamos lĂĄ, mostro a vocĂȘs as galinhas...
SaĂmos para o quintal, e lĂĄ estavam as galinhas e o galinheiro. O prĂłprio François o fizera. Era bom nessas coisas. Tinha um verdadeiro talento para isso. SĂł que nĂŁo usara tela de galinheiro, mas barras. E fechaduras em cada porta.
â Faço a chamada toda noite. âCĂ©cile, estĂĄ aĂ?â âCluc, clucâ, ela responde. âBernadette, estĂĄ aĂ?â âCluc, clucâ, ela responde. E por aĂ vai. Uma noite, eu chamei âNicole?â, e ela nĂŁo clucou. VocĂȘ acredita? Apesar de todas as barras e fechaduras, eles pegaram Nicole! Tiraram ela daqui. Nicole se foi, se foi para sempre! Jon, Jon, eu preciso de mais vinho!
Tornamos a entrar e nos sentamos, e o novo vinho correu solto. Jon deu um novo charuto a François.
â Se eu tiver meu charuto quando preciso â disse François â posso viver.
Bebemos por algum tempo, e entĂŁo Sarah perguntou:
â Escuta, Jon, seu senhorio Ă© negro?
â Oh, sim...
â Ele nĂŁo te perguntou por que alugava uma casa aqui?
â Sim...
â E que foi que vocĂȘ disse?
â Disse que Ă©ramos cineastas e atores da França.
â E ele?
â Ele disse: âOhâ.
â Mais alguma coisa?
â Sim, disse: âBem, o rabo Ă© seu!â.
Bebemos um tempo falando bobagem.
De vez em quando eu me levantava e ia Ă janela ver se o carro ainda estava lĂĄ.
Enquanto bebĂamos, comecei a me sentir culpado pela coisa toda.
â Escuta, Jon, deixa eu te devolver o dinheiro do argumento. Eu botei vocĂȘ contra a parede. Isso Ă© terrĂvel...
â NĂŁo, eu quero que vocĂȘ faça esse argumento. Ele vai se tornar um filme, eu prometo...
â Tudo bem, porra...
Bebemos mais um pouco.
EntĂŁo Jon disse:
â Veja...
Por um buraco na parede onde nos sentåvamos via-se uma mão, uma mão negra. Contorcia-se através do reboco quebrado, os dedos fechando-se, movendo-se. Parecia um animalzinho escuro.
â DĂ O FORA! â berrou François. â DĂ O FORA, ASSASSINO DE NICOLE! VOCĂ DEIXOU UM BURACO ETERNO EM MEU CORAĂĂO! DĂ O FORA!
A mĂŁo nĂŁo deu o fora.
François aproximou-se da parede e dela.
â Estou mandando dar o fora. SĂł quero fumar meu charuto e beber meu vinho em paz. VocĂȘ perturba o visual! NĂŁo posso me sentir bem com vocĂȘ tateando e me olhando com seus pobres dedos negros!
A mĂŁo nĂŁo deu o fora.
â TUDO BEM, ENTĂO!
A vara estava bem ali. Com um movimento demonĂaco, François pegou-a e começou a açoitar a parede com ela, repetidas vezes...
â ASSASSINO DE GALINHA, VOCĂ FERIU MEU CORAĂĂO ETERNAMENTE!
O som era ensurdecedor. Então François parou.
A mĂŁo dera o fora.
François sentou-se.
â Merda, Jon, meu charuto apagou. Por que nĂŁo compra charutos melhores, Jon?
â Escuta, Jon â eu disse â, a gente tem de ir...
â Ora, vamos... por favor... a noite estĂĄ sĂł começando! VocĂȘ nĂŁo viu nada ainda...
â A gente precisa ir... Preciso trabalhar mais no argumento...
â Oh... nesse caso...
Em casa, subi e trabalhei no argumento, mas estranhamente, ou talvez nĂŁo, minha vida passada nĂŁo parecia tĂŁo estranha, bĂĄrbara ou louca quanto o que ocorria agora.
â Hollywood
Arte
assim que o
espĂrito
mĂngua
a
forma
aparece.
E entĂŁo, de repente, os 32 dias de filmagem terminaram e chegou a hora da festa de encerramento.
No primeiro andar havia um longo balcĂŁo de bar, algumas mesas e uma grande pista de dança. Uma escada levava a um andar superior. Essencialmente, lĂĄ estavam a equipe e o elenco do filme, embora nem todos estivessem e houvesse outras pessoas que eu nĂŁo reconhecia. NĂŁo tinha orquestra ao vivo e grande parte da mĂșsica que saĂa dos alto-falantes era discoteca, mas as bebidas no bar eram reais. Sarah e eu entramos. Havia duas garçonetes. Eu pedi uma vodca e ela vinho tinto.
Uma das garçonetes me reconheceu e trouxe um dos meus livros. Dei o autógrafo.
Estava lotado e quente ali dentro, uma noite de verĂŁo, sem ar-condicionado.
â Vamos pegar outra bebida e subir lĂĄ pra cima â sugeri a Sarah. â EstĂĄ quente demais aqui embaixo.
â Tudo bem â ela disse.
Abrimos caminho atĂ© a escada. Estava mais frio lĂĄ em cima e nĂŁo havia tanta gente. Algumas pessoas dançavam. Como festa, aquela parecia nĂŁo ter um nĂșcleo, mas a maioria das festas era assim mesmo. Comecei a ficar deprimido. Acabei minha bebida...
â Vou pedir outro drinque â disse a Sarah. â Quer um?
â NĂŁo, vĂĄ em frente...
Desci a escada, mas antes de conseguir chegar ao bar um cara gordo e redondo, muito cabeludo, óculos escuros, agarrou minha mão e começou a sacudi-la.
â Chinaski, eu li tudo que vocĂȘ jĂĄ escreveu, tudo!
â Ă mesmo?
Ele continuava me sacudindo a mĂŁo.
â Tomei um porre com vocĂȘ uma noite no Barneyâs Beanery! Lembra de mim?
â NĂŁo.
â EstĂĄ dizendo que nĂŁo se lembra de que tomou um porre comigo no Barneyâs Beanery?
â Ă.
Ele ergueu os óculos e prendeu-os no alto da cabeça.
â Agora se lembra?
â NĂŁo â eu disse, puxei a mĂŁo e fui para o bar.
â Vodca dupla â disse Ă garçonete.
Ela trouxe.
â Eu tenho uma amiga chamada Lola â disse. â Conhece?
â NĂŁo.
â Ela diz que foi casada com vocĂȘ dois anos.
â NĂŁo Ă© verdade â eu disse.
Deixei o bar, me dirigi Ă escada. LĂĄ estava outro cara gordĂŁo, sem cabelos mas com uma grande barba.
â Chinaski â ele disse.
â Sim.
â AndrĂ© Wells... Eu fiz uma ponta no filme... TambĂ©m sou escritor... Tenho um romance pronto pra publicar. Gostaria que vocĂȘ lesse. Posso te enviar uma cĂłpia?
â Tudo bem... â Dei-lhe o nĂșmero de minha caixa postal.
â Mas nĂŁo tem endereço prĂłprio?
â Claro, mas correspondĂȘncia Ă© com a caixa postal.
Encaminhei-me para a escada. Bebi metade de meu drinque subindo os degraus. Sarah conversava com uma extra. Aà vi Jon Pinchot. Estava parado sozinho com seu copo. Fui até ele.
â Hank â ele disse â, estou surpreso de ver vocĂȘ aqui...
â E eu estou surpreso de a Firepower ter bancado a festa.
â EstĂŁo cobrando...
â Oh... Bem, e agora?
â Estamos na sala de montagem, trabalhando na coisa... Depois disso, mixamos a mĂșsica... Por que nĂŁo vem ver como se faz?
â Quando?
â Qualquer hora. Estamos trabalhando de 12 a 14 horas por dia.
â Tudo bem... Escuta, que aconteceu com Poppy?
â Quem?
â Aquela que entrou com os dez mil paus quando vocĂȘ morava lĂĄ embaixo, na praia.
â Oh, estĂĄ no Brasil agora. A gente cuida dela.
Acabei meu drinque.
â NĂŁo vai descer e dançar? â perguntou Jon.
â Oh, nĂŁo, isso Ă© bobagem...
Alguém o chamou.
â Desculpe â ele disse â, e nĂŁo esqueça de aparecer na sala de montagem.
â Claro.
Jon afastou-se para o outro lado do salĂŁo.
Dirigi-me à balaustrada e olhei o bar lå embaixo. Enquanto conversava com Jon, Jack Bledsoe e seus companheiros motoqueiros haviam chegado. Os companheiros recostavam-se no balcão do bar, de frente para a multidão. Todos seguravam uma garrafa de cerveja, com exceção de Jack, que tinha uma garrafa de 7-Up. Usavam blusÔes de couro, echarpes, calças de couro, botas.
Aproximei-me de Sarah.
â Vou descer e falar com Jack Bledsoe e sua gangue... VocĂȘ vem?
â Claro...
Descemos e Jack nos apresentou os companheiros.
â Este Ă© o Harry Cassetete...
â Oi, cara...
â Este Ă© o Flagelo.
â Oi...
â Este Ă© o Verme da Noite...
â Ei, ei!
â Este Ă© o Mata-cachorro...
â Ă demais!
â Este Ă© Eddie 3-Bagos...
â Porra...
â Este Ă© Peido-RĂĄpido...
â Prazer em conhecĂȘ-lo...
â E o Terror das Xoxotas...
â Ăéé...
E foi isso aĂ. Todos pareciam Ăłtimos praças, mas um pouco teatrais, recostados no balcĂŁo, segurando as garrafas de cerveja.
â Jack â eu disse â, vocĂȘ fez um grande trabalho de ator.
â E como! â disse Sarah.
â Obrigado... â ele lampejou seu belo sorriso.
â Bem â eu disse â, vamos voltar lĂĄ pra cima, estĂĄ quente pra caralho aqui embaixo... Por que nĂŁo dĂĄ uma subida?
Fiz sinal à garçonete para tornar a encher nossos copos.
â Vai escrever outro argumento? â perguntou Jack.
â Acho que nĂŁo... Ă muita perda de intimidade... Eu gosto de ficar sentado olhando as paredes...
â Se escrever um, me mostra.
â Claro. Escute, por que seus rapazes estĂŁo de costas pro bar desse jeito? EstĂŁo na paquera?
â NĂŁĂŁo, jĂĄ estĂŁo fartos de garotas. SĂł estĂŁo relaxando...
â Tudo bem, tchau, Jack...
â Continue fazendo seu bom trabalho â disse Sarah.
Voltamos lĂĄ pra cima. Em pouco tempo, Jack e sua gangue desapareceram.
NĂŁo foi lĂĄ uma grande noite. Eu subia e descia a escada, para pegar drinques. ApĂłs trĂȘs horas, quase todo mundo tinha ido embora. Sarah e eu nos apoiĂĄvamos no balaĂșstre. AĂ eu vi Jon. Tinha-o visto dançando antes. Chamei-o com um aceno.
â Ei, que houve com Francine? Ela nĂŁo veio Ă festa de encerramento?
â NĂŁo, nĂŁo tem imprensa aqui esta noite...
â Entendo...
â Preciso ir agora â disse Jon. â Tenho de levantar cedo e ir pra sala de montagem.
â Tudo bem.
Jon se foi.
Estava vazio lĂĄ embaixo, e mais fresco, e assim descemos para o bar. Sarah e eu Ă©ramos os Ășltimos ali. Agora sĂł havia uma garçonete.
â Vamos tomar uma saideira â eu disse a ela.
â Agora eu tenho de cobrar as bebidas â ela disse.
â Por quĂȘ?
â A Firepower sĂł alugou a casa atĂ© a meia-noite... JĂĄ sĂŁo meia-noite e dez... Mas vou te passar uns drinques mesmo assim, porque gosto muito do que vocĂȘ escreve, mas por favor nĂŁo diga a ninguĂ©m que fiz isso.
â Minha querida, ninguĂ©m jamais vai saber.
Ela serviu os drinques. A turma da discoteca da madrugada começava a chegar. Era hora de ir embora. Era, sim. Nossos cinco gatos nos esperavam. De alguma forma, eu me sentia triste pelo fim das filmagens. Havia algo de explorativo naquilo tudo. Houvera um certo jogo. Acabamos nossos drinques e saĂmos para a rua. O carro ainda estava lĂĄ. Ajudei Sarah a entrar e entrei pelo outro lado. Pusemos os cintos. Liguei o carro, e logo estĂĄvamos na autoestrada do Porto, seguindo para o sul. VoltĂĄvamos para a normalidade, e de certa forma eu gostava disso, e por outro lado nĂŁo gostava.
Sarah acendeu um cigarro.
â A gente dĂĄ comida aos gatos e vai dormir.
â E talvez um drinque? â sugeri.
â Tudo bem â disse Sarah.
Ela e eu nos dĂĄvamos bem, Ă s vezes.
âHollywood
espĂrito
mĂngua
a
forma
aparece.
E entĂŁo, de repente, os 32 dias de filmagem terminaram e chegou a hora da festa de encerramento.
No primeiro andar havia um longo balcĂŁo de bar, algumas mesas e uma grande pista de dança. Uma escada levava a um andar superior. Essencialmente, lĂĄ estavam a equipe e o elenco do filme, embora nem todos estivessem e houvesse outras pessoas que eu nĂŁo reconhecia. NĂŁo tinha orquestra ao vivo e grande parte da mĂșsica que saĂa dos alto-falantes era discoteca, mas as bebidas no bar eram reais. Sarah e eu entramos. Havia duas garçonetes. Eu pedi uma vodca e ela vinho tinto.
Uma das garçonetes me reconheceu e trouxe um dos meus livros. Dei o autógrafo.
Estava lotado e quente ali dentro, uma noite de verĂŁo, sem ar-condicionado.
â Vamos pegar outra bebida e subir lĂĄ pra cima â sugeri a Sarah. â EstĂĄ quente demais aqui embaixo.
â Tudo bem â ela disse.
Abrimos caminho atĂ© a escada. Estava mais frio lĂĄ em cima e nĂŁo havia tanta gente. Algumas pessoas dançavam. Como festa, aquela parecia nĂŁo ter um nĂșcleo, mas a maioria das festas era assim mesmo. Comecei a ficar deprimido. Acabei minha bebida...
â Vou pedir outro drinque â disse a Sarah. â Quer um?
â NĂŁo, vĂĄ em frente...
Desci a escada, mas antes de conseguir chegar ao bar um cara gordo e redondo, muito cabeludo, óculos escuros, agarrou minha mão e começou a sacudi-la.
â Chinaski, eu li tudo que vocĂȘ jĂĄ escreveu, tudo!
â Ă mesmo?
Ele continuava me sacudindo a mĂŁo.
â Tomei um porre com vocĂȘ uma noite no Barneyâs Beanery! Lembra de mim?
â NĂŁo.
â EstĂĄ dizendo que nĂŁo se lembra de que tomou um porre comigo no Barneyâs Beanery?
â Ă.
Ele ergueu os óculos e prendeu-os no alto da cabeça.
â Agora se lembra?
â NĂŁo â eu disse, puxei a mĂŁo e fui para o bar.
â Vodca dupla â disse Ă garçonete.
Ela trouxe.
â Eu tenho uma amiga chamada Lola â disse. â Conhece?
â NĂŁo.
â Ela diz que foi casada com vocĂȘ dois anos.
â NĂŁo Ă© verdade â eu disse.
Deixei o bar, me dirigi Ă escada. LĂĄ estava outro cara gordĂŁo, sem cabelos mas com uma grande barba.
â Chinaski â ele disse.
â Sim.
â AndrĂ© Wells... Eu fiz uma ponta no filme... TambĂ©m sou escritor... Tenho um romance pronto pra publicar. Gostaria que vocĂȘ lesse. Posso te enviar uma cĂłpia?
â Tudo bem... â Dei-lhe o nĂșmero de minha caixa postal.
â Mas nĂŁo tem endereço prĂłprio?
â Claro, mas correspondĂȘncia Ă© com a caixa postal.
Encaminhei-me para a escada. Bebi metade de meu drinque subindo os degraus. Sarah conversava com uma extra. Aà vi Jon Pinchot. Estava parado sozinho com seu copo. Fui até ele.
â Hank â ele disse â, estou surpreso de ver vocĂȘ aqui...
â E eu estou surpreso de a Firepower ter bancado a festa.
â EstĂŁo cobrando...
â Oh... Bem, e agora?
â Estamos na sala de montagem, trabalhando na coisa... Depois disso, mixamos a mĂșsica... Por que nĂŁo vem ver como se faz?
â Quando?
â Qualquer hora. Estamos trabalhando de 12 a 14 horas por dia.
â Tudo bem... Escuta, que aconteceu com Poppy?
â Quem?
â Aquela que entrou com os dez mil paus quando vocĂȘ morava lĂĄ embaixo, na praia.
â Oh, estĂĄ no Brasil agora. A gente cuida dela.
Acabei meu drinque.
â NĂŁo vai descer e dançar? â perguntou Jon.
â Oh, nĂŁo, isso Ă© bobagem...
Alguém o chamou.
â Desculpe â ele disse â, e nĂŁo esqueça de aparecer na sala de montagem.
â Claro.
Jon afastou-se para o outro lado do salĂŁo.
Dirigi-me à balaustrada e olhei o bar lå embaixo. Enquanto conversava com Jon, Jack Bledsoe e seus companheiros motoqueiros haviam chegado. Os companheiros recostavam-se no balcão do bar, de frente para a multidão. Todos seguravam uma garrafa de cerveja, com exceção de Jack, que tinha uma garrafa de 7-Up. Usavam blusÔes de couro, echarpes, calças de couro, botas.
Aproximei-me de Sarah.
â Vou descer e falar com Jack Bledsoe e sua gangue... VocĂȘ vem?
â Claro...
Descemos e Jack nos apresentou os companheiros.
â Este Ă© o Harry Cassetete...
â Oi, cara...
â Este Ă© o Flagelo.
â Oi...
â Este Ă© o Verme da Noite...
â Ei, ei!
â Este Ă© o Mata-cachorro...
â Ă demais!
â Este Ă© Eddie 3-Bagos...
â Porra...
â Este Ă© Peido-RĂĄpido...
â Prazer em conhecĂȘ-lo...
â E o Terror das Xoxotas...
â Ăéé...
E foi isso aĂ. Todos pareciam Ăłtimos praças, mas um pouco teatrais, recostados no balcĂŁo, segurando as garrafas de cerveja.
â Jack â eu disse â, vocĂȘ fez um grande trabalho de ator.
â E como! â disse Sarah.
â Obrigado... â ele lampejou seu belo sorriso.
â Bem â eu disse â, vamos voltar lĂĄ pra cima, estĂĄ quente pra caralho aqui embaixo... Por que nĂŁo dĂĄ uma subida?
Fiz sinal à garçonete para tornar a encher nossos copos.
â Vai escrever outro argumento? â perguntou Jack.
â Acho que nĂŁo... Ă muita perda de intimidade... Eu gosto de ficar sentado olhando as paredes...
â Se escrever um, me mostra.
â Claro. Escute, por que seus rapazes estĂŁo de costas pro bar desse jeito? EstĂŁo na paquera?
â NĂŁĂŁo, jĂĄ estĂŁo fartos de garotas. SĂł estĂŁo relaxando...
â Tudo bem, tchau, Jack...
â Continue fazendo seu bom trabalho â disse Sarah.
Voltamos lĂĄ pra cima. Em pouco tempo, Jack e sua gangue desapareceram.
NĂŁo foi lĂĄ uma grande noite. Eu subia e descia a escada, para pegar drinques. ApĂłs trĂȘs horas, quase todo mundo tinha ido embora. Sarah e eu nos apoiĂĄvamos no balaĂșstre. AĂ eu vi Jon. Tinha-o visto dançando antes. Chamei-o com um aceno.
â Ei, que houve com Francine? Ela nĂŁo veio Ă festa de encerramento?
â NĂŁo, nĂŁo tem imprensa aqui esta noite...
â Entendo...
â Preciso ir agora â disse Jon. â Tenho de levantar cedo e ir pra sala de montagem.
â Tudo bem.
Jon se foi.
Estava vazio lĂĄ embaixo, e mais fresco, e assim descemos para o bar. Sarah e eu Ă©ramos os Ășltimos ali. Agora sĂł havia uma garçonete.
â Vamos tomar uma saideira â eu disse a ela.
â Agora eu tenho de cobrar as bebidas â ela disse.
â Por quĂȘ?
â A Firepower sĂł alugou a casa atĂ© a meia-noite... JĂĄ sĂŁo meia-noite e dez... Mas vou te passar uns drinques mesmo assim, porque gosto muito do que vocĂȘ escreve, mas por favor nĂŁo diga a ninguĂ©m que fiz isso.
â Minha querida, ninguĂ©m jamais vai saber.
Ela serviu os drinques. A turma da discoteca da madrugada começava a chegar. Era hora de ir embora. Era, sim. Nossos cinco gatos nos esperavam. De alguma forma, eu me sentia triste pelo fim das filmagens. Havia algo de explorativo naquilo tudo. Houvera um certo jogo. Acabamos nossos drinques e saĂmos para a rua. O carro ainda estava lĂĄ. Ajudei Sarah a entrar e entrei pelo outro lado. Pusemos os cintos. Liguei o carro, e logo estĂĄvamos na autoestrada do Porto, seguindo para o sul. VoltĂĄvamos para a normalidade, e de certa forma eu gostava disso, e por outro lado nĂŁo gostava.
Sarah acendeu um cigarro.
â A gente dĂĄ comida aos gatos e vai dormir.
â E talvez um drinque? â sugeri.
â Tudo bem â disse Sarah.
Ela e eu nos dĂĄvamos bem, Ă s vezes.
âHollywood
Câncer
encontrei seu quarto no alto de uma
escada.
ela estava sozinha.
âolĂĄ, Henryâ, ela disse, e depois,
âvocĂȘ sabe, eu odeio esse quarto, ele nĂŁo
tem janelas.â
eu estava com uma ressaca daquelas.
o cheiro era insuportĂĄvel,
sentia-me prestes a
vomitar.
âeles me operaram dois dias atrĂĄsâ,
ela disse. âme senti melhor no dia
seguinte, mas agora estå tudo igual a antes, talvez até
pior.â
âsinto muito, mĂŁe.â
âsabe, vocĂȘ estava certo, seu pai
Ă© um homem terrĂvel.â
pobre mulher. um marido brutal e
um filho alcoĂłlatra.
âme desculpe, mĂŁe, eu volto
logo...â
o cheiro havia me impregnado,
meu estĂŽmago pulava.
saĂ do quarto
e desci metade do lance de escadas,
me sentei ali
agarrado ao corrimĂŁo,
respirando o ar
puro.
a pobre mulher.
segui respirando e
mantendo o controle para nĂŁo
vomitar.
me levantei e voltei a subir os
degraus em direção ao quarto.
âele tinha me mandado para um
hospĂcio, vocĂȘ
sabia?â
âsim. eu informei a eles
que tinham pegado a pessoa
errada.â
âvocĂȘ parece doente, Henry, estĂĄ tudo bem
contigo?â
ânĂŁo estou num bom dia, mĂŁe. Volto
para ver vocĂȘ
amanhĂŁ.â
âtudo bem, Henry...â
fiquei de pé, fechei a porta, em seguida
desci a escada.
ganhei a rua, cheguei a um
roseiral.
soltei tudo sobre o
roseiral.
pobre e desgraçada mulher...
no dia seguinte cheguei com
flores.
subi a escada até a
porta.
havia uma guirlanda na
porta.
tentei abrir a porta mesmo assim.
estava trancada.
desci os degraus
cruzei as roseiras e seu jardim
e cheguei Ă rua
onde havia estacionado meu
carro.
duas garotinhas
entre 6 e 7 anos
voltavam da escola para casa.
âdesculpem-me, senhoritas, mas vocĂȘs
gostariam de ganhar umas flores?â
elas pararam e me
encararam.
âtomeâ, estiquei o buquĂȘ Ă mais alta
das garotas. âagora, vocĂȘs
dividam, por favor, dĂȘ para sua amiguinha
a metade delas.â
âobrigadaâ, disse a mais
alta, âelas sĂŁo
lindas.â
âsim, sĂŁo mesmoâ, disse a
outra, âmuito
obrigada.â
elas se afastaram descendo a rua
e eu entrei no meu carro,
dei a partida, e
dirigi de volta para o meu
canto.
escada.
ela estava sozinha.
âolĂĄ, Henryâ, ela disse, e depois,
âvocĂȘ sabe, eu odeio esse quarto, ele nĂŁo
tem janelas.â
eu estava com uma ressaca daquelas.
o cheiro era insuportĂĄvel,
sentia-me prestes a
vomitar.
âeles me operaram dois dias atrĂĄsâ,
ela disse. âme senti melhor no dia
seguinte, mas agora estå tudo igual a antes, talvez até
pior.â
âsinto muito, mĂŁe.â
âsabe, vocĂȘ estava certo, seu pai
Ă© um homem terrĂvel.â
pobre mulher. um marido brutal e
um filho alcoĂłlatra.
âme desculpe, mĂŁe, eu volto
logo...â
o cheiro havia me impregnado,
meu estĂŽmago pulava.
saĂ do quarto
e desci metade do lance de escadas,
me sentei ali
agarrado ao corrimĂŁo,
respirando o ar
puro.
a pobre mulher.
segui respirando e
mantendo o controle para nĂŁo
vomitar.
me levantei e voltei a subir os
degraus em direção ao quarto.
âele tinha me mandado para um
hospĂcio, vocĂȘ
sabia?â
âsim. eu informei a eles
que tinham pegado a pessoa
errada.â
âvocĂȘ parece doente, Henry, estĂĄ tudo bem
contigo?â
ânĂŁo estou num bom dia, mĂŁe. Volto
para ver vocĂȘ
amanhĂŁ.â
âtudo bem, Henry...â
fiquei de pé, fechei a porta, em seguida
desci a escada.
ganhei a rua, cheguei a um
roseiral.
soltei tudo sobre o
roseiral.
pobre e desgraçada mulher...
no dia seguinte cheguei com
flores.
subi a escada até a
porta.
havia uma guirlanda na
porta.
tentei abrir a porta mesmo assim.
estava trancada.
desci os degraus
cruzei as roseiras e seu jardim
e cheguei Ă rua
onde havia estacionado meu
carro.
duas garotinhas
entre 6 e 7 anos
voltavam da escola para casa.
âdesculpem-me, senhoritas, mas vocĂȘs
gostariam de ganhar umas flores?â
elas pararam e me
encararam.
âtomeâ, estiquei o buquĂȘ Ă mais alta
das garotas. âagora, vocĂȘs
dividam, por favor, dĂȘ para sua amiguinha
a metade delas.â
âobrigadaâ, disse a mais
alta, âelas sĂŁo
lindas.â
âsim, sĂŁo mesmoâ, disse a
outra, âmuito
obrigada.â
elas se afastaram descendo a rua
e eu entrei no meu carro,
dei a partida, e
dirigi de volta para o meu
canto.
Carta de Uma Fã
venho lendo o senhor hĂĄ um longo tempo,
recém coloquei o Billy para dormir,
ele apanhou 7 carrapatos cruéis em algum lugar,
eu tenho 2
meu marido, Benny, ele tem 3.
alguns de nĂłs amam insetos, outros os
odeiam.
Benny escreve poemas.
saiu certa vez na mesma revista que
o senhor.
Benny Ă© o maior escritor do mundo
mas tem um temperamento horrĂvel.
tempos atrås foi fazer uma leitura e alguém
riu de um de seus poemas sérios
e Benny tirou o pau pra fora
ali mesmo
e mijou no palco.
ele diz que o senhor escreve bem mas que
nĂŁo se deixaria dominar pelo
senhor.
seja como for, fiz um GRANDE POTE DE MARMELADA
esta noite,
nĂłs simplesmente AMAMOS marmelada por aqui.
Benny foi demitido ontem, ele disse ao
chefe para enfiar o emprego no rabo
mas eu continuo trabalhando no
salĂŁo de beleza.
o senhor sabe que os veados aparecem por lĂĄ pra fazer as
unhas?
o senhor nĂŁo Ă© veado, nĂŁo Ă©, sr.
Chinaski?
seja como for, gosto de escrever pro senhor.
seus livros sĂŁo lidos e relidos por
aqui.
Benny diz que o senhor Ă© um velho chato, que o senhor
escreve bem mas que
nĂŁo se deixaria dominar pelo
senhor.
o senhor gosta de insetos, sr. Chinaski?
acho que a marmelada jĂĄ deve estar gelada o suficiente
para comer.
entĂŁo adeus.
Dora
recém coloquei o Billy para dormir,
ele apanhou 7 carrapatos cruéis em algum lugar,
eu tenho 2
meu marido, Benny, ele tem 3.
alguns de nĂłs amam insetos, outros os
odeiam.
Benny escreve poemas.
saiu certa vez na mesma revista que
o senhor.
Benny Ă© o maior escritor do mundo
mas tem um temperamento horrĂvel.
tempos atrås foi fazer uma leitura e alguém
riu de um de seus poemas sérios
e Benny tirou o pau pra fora
ali mesmo
e mijou no palco.
ele diz que o senhor escreve bem mas que
nĂŁo se deixaria dominar pelo
senhor.
seja como for, fiz um GRANDE POTE DE MARMELADA
esta noite,
nĂłs simplesmente AMAMOS marmelada por aqui.
Benny foi demitido ontem, ele disse ao
chefe para enfiar o emprego no rabo
mas eu continuo trabalhando no
salĂŁo de beleza.
o senhor sabe que os veados aparecem por lĂĄ pra fazer as
unhas?
o senhor nĂŁo Ă© veado, nĂŁo Ă©, sr.
Chinaski?
seja como for, gosto de escrever pro senhor.
seus livros sĂŁo lidos e relidos por
aqui.
Benny diz que o senhor Ă© um velho chato, que o senhor
escreve bem mas que
nĂŁo se deixaria dominar pelo
senhor.
o senhor gosta de insetos, sr. Chinaski?
acho que a marmelada jĂĄ deve estar gelada o suficiente
para comer.
entĂŁo adeus.
Dora
Chuva
uma orquestra sinfĂŽnica.
hĂĄ uma tempestade,
eles estĂŁo tocando um prelĂșdio de Wagner
e as pessoas abandonam seus assentos debaixo das ĂĄrvores
e correm para dentro de um pavilhĂŁo
as mulheres aos gritinhos, os homens fingindo calma,
cigarros molhados sendo jogados fora,
Wagner segue tocando, e agora todos estĂŁo debaixo do
pavilhĂŁo. mesmo os pĂĄssaros abandonam as ĂĄrvores
e entram no pavilhĂŁo e agora Ă© a RapsĂłdia
HĂșngara #2 de Lizst, e segue chovendo, mas vejam,
um homem estĂĄ sentado sozinho na chuva
escutando. a audiĂȘncia o percebe. volta-se para
vĂȘ-lo. a orquestra segue com sua
função. o homem segue sentado em meio à noite e à chuva,
escutando. hĂĄ algo errado com ele,
nĂŁo Ă© mesmo?
ele veio escutar
mĂșsica.
hĂĄ uma tempestade,
eles estĂŁo tocando um prelĂșdio de Wagner
e as pessoas abandonam seus assentos debaixo das ĂĄrvores
e correm para dentro de um pavilhĂŁo
as mulheres aos gritinhos, os homens fingindo calma,
cigarros molhados sendo jogados fora,
Wagner segue tocando, e agora todos estĂŁo debaixo do
pavilhĂŁo. mesmo os pĂĄssaros abandonam as ĂĄrvores
e entram no pavilhĂŁo e agora Ă© a RapsĂłdia
HĂșngara #2 de Lizst, e segue chovendo, mas vejam,
um homem estĂĄ sentado sozinho na chuva
escutando. a audiĂȘncia o percebe. volta-se para
vĂȘ-lo. a orquestra segue com sua
função. o homem segue sentado em meio à noite e à chuva,
escutando. hĂĄ algo errado com ele,
nĂŁo Ă© mesmo?
ele veio escutar
mĂșsica.
Cisne da Primavera
cisnes também morrem na primavera
e lĂĄ flutua um
morto num domingo
emborcado
circulando na corrente
e eu caminho até a rotunda
por onde circulam
deuses em carruagens
cachorros,
mulheres
e a morte
desce pela minha garganta
como um rato,
e escuto as pessoas se aproximarem
com suas cestas de piquenique
e suas risadas,
e me sinto culpado
pelo cisne
como se a morte
fosse algo vergonhoso
e como um louco
eu me afasto
e os abandono
meu belo cisne.
e lĂĄ flutua um
morto num domingo
emborcado
circulando na corrente
e eu caminho até a rotunda
por onde circulam
deuses em carruagens
cachorros,
mulheres
e a morte
desce pela minha garganta
como um rato,
e escuto as pessoas se aproximarem
com suas cestas de piquenique
e suas risadas,
e me sinto culpado
pelo cisne
como se a morte
fosse algo vergonhoso
e como um louco
eu me afasto
e os abandono
meu belo cisne.
Cometi Um Erro
me estiquei atĂ© a Ășltima prateleira do armĂĄrio
e puxei de lĂĄ uma calcinha azul
e mostrei a ela e
perguntei âĂ© sua?â
e ela olhou e disse,
ânĂŁo, devem ser da cadelaâ.
depois disso ela se foi e nĂŁo a vi
desde entĂŁo. nĂŁo estĂĄ na sua casa.
continuo passando por lĂĄ, enfiando bilhetes
debaixo da porta. volto ali e os bilhetes
continuam intocados. arranco a cruz de Malta
do retrovisor do meu carro e a amarro
com um cadarço à sua maçaneta, deixo
um livro de poemas.
ao retornar na noite seguinte tudo
continua ali.
continuo rondando as ruas em busca
daquele encouraçado cor-de-vinho que ela dirige
com uma bateria fraca, e as portas
pendendo das dobradiças estropiadas.
circulo pelas ruas
a um passo de chorar,
envergonhado de meu sentimentalismo e
possĂvel amor.
um homem velho e confuso dirigindo na chuva
perguntando-se onde a boa sorte foi
parar.
e puxei de lĂĄ uma calcinha azul
e mostrei a ela e
perguntei âĂ© sua?â
e ela olhou e disse,
ânĂŁo, devem ser da cadelaâ.
depois disso ela se foi e nĂŁo a vi
desde entĂŁo. nĂŁo estĂĄ na sua casa.
continuo passando por lĂĄ, enfiando bilhetes
debaixo da porta. volto ali e os bilhetes
continuam intocados. arranco a cruz de Malta
do retrovisor do meu carro e a amarro
com um cadarço à sua maçaneta, deixo
um livro de poemas.
ao retornar na noite seguinte tudo
continua ali.
continuo rondando as ruas em busca
daquele encouraçado cor-de-vinho que ela dirige
com uma bateria fraca, e as portas
pendendo das dobradiças estropiadas.
circulo pelas ruas
a um passo de chorar,
envergonhado de meu sentimentalismo e
possĂvel amor.
um homem velho e confuso dirigindo na chuva
perguntando-se onde a boa sorte foi
parar.
Como Uma Flor Na Chuva
cortei a unha do dedo médio
da mĂŁo
direita
realmente curta
e comecei a correr o dedo ao longo de sua buceta
enquanto ela se sentava muito ereta na cama
espalhando uma loção por seus braços
face
e seios
depois do banho.
entĂŁo acendeu um cigarro:
ânĂŁo deixe que isso o desanimeâ,
e seguiu fumando e esfregando a
loção.
continuei tocando sua buceta.
âquer uma maçã?â, perguntei.
âclaroâ, ela disse, âtem uma aĂ?â
mas eu lhe dei outra coisa...
ela começou a se contorcer
e depois rolou para um lado,
ela estava ficando molhada e aberta
como uma flor na chuva.
entĂŁo ela se voltou sobre a barriga
e seu cu maravilhoso
olhou para mim
e eu passei minha mĂŁo por baixo e
cheguei outra vez na buceta.
ela se espichou e agarrou meu
pau, virando-se e se contorcendo toda,
penetrei-a
meu rosto mergulhando na massa
de cabelos ruivos que se alastrava feito enchente
de sua cabeça
e meu pau intumescido adentrou
o milagre.
mais tarde tiramos sarro da loção
e do cigarro e da maçã.
depois eu saĂ para comprar um pouco de frango
e camarĂŁo e batatas fritas e pĂŁo doce
e purĂȘ de batatas e molho e
salada de repolho, e nĂłs comemos. ela me disse
quĂŁo bem ela se sentia e eu lhe disse
o quĂŁo bem eu me sentia e nĂłs comemos
o frango e o camarĂŁo e as batatas fritas e o pĂŁo doce
e o purĂȘ de batatas e o molho e
também a salada de repolho.
Dirigi de volta para casa. O apartamento estava do mesmo jeito de sempre â garrafas e lixo por toda parte. Precisava dar uma arrumada nas coisas. Se alguĂ©m o visse nesse estado facilmente me daria voz de prisĂŁo.
Escutei uma batida. Abri a porta. Era Tammie.
â Oi â ela disse.
â OlĂĄ.
â VocĂȘ devia estar numa pressa desgraçada quando saiu. Todas as portas ficaram abertas. A porta dos fundos estava escancarada. Escute, promete que nĂŁo conta pra ninguĂ©m se eu contar uma coisa pra vocĂȘ?
â Tudo bem.
â Arlene entrou e usou seu telefone, um interurbano.
â Tudo bem.
â Tentei deter ela, mas nĂŁo consegui. Ela estava entupida de boletas.
â Tudo bem.
â Por onde vocĂȘ andava?
â Galveston.
â Por que vocĂȘ saiu assim desse jeito? VocĂȘ Ă© maluco.
â Vou precisar viajar de novo no sĂĄbado.
â SĂĄbado? Que dia Ă© hoje?
â Quinta-feira.
â Pra onde vocĂȘ vai agora?
â Nova York.
â Pra fazer o quĂȘ?
â Uma leitura. Mandaram as passagens duas semanas atrĂĄs. E eu fico com um percentual da bilheteria.
â Ah, me leve com vocĂȘ! Deixo a Dancy com a MĂŁe. Quero muito ir!
â NĂŁo tenho como bancar vocĂȘ. Isso acabaria com o meu cachĂȘ. Nos Ășltimos tempos fiz umas despesas pesadas.
â Vai ser muito legal! SerĂĄ bom demais. NĂŁo vou sair nem um minuto do seu lado. Senti tanto a sua falta.
â NĂŁo tem como, Tammie.
Ela foi até o refrigerador e apanhou uma cerveja.
â VocĂȘ nĂŁo dĂĄ a mĂnima pra mim. Todos esses poemas de amor, tudo papo furado.
â Quando eu os escrevi nĂŁo era papo furado.
O telefone tocou. Era meu editor.
â Por onde vocĂȘ tem andado?
â Galveston. Fazendo uma pesquisa.
â Ouvi dizer que vocĂȘ farĂĄ uma leitura em Nova York no sĂĄbado.
â Sim, Tammie quer ir junto, minha namorada.
â VocĂȘ vai levĂĄ-la junto?
â NĂŁo, nĂŁo tenho como bancar.
â Quanto sairia isso?
â Por 316 dĂłlares ida e volta.
â VocĂȘ quer mesmo que ela vĂĄ?
â Sim, acho que seria uma boa.
â Tudo bem, vĂĄ em frente. Mando um cheque pra vocĂȘ pelo correio.
â EstĂĄ falando sĂ©rio?
â Sim.
â NĂŁo sei o que dizer...
â NĂŁo esquenta. Apenas lembre do Dylan Thomas.
â Eles nĂŁo vĂŁo me matar.
Nos despedimos. Tammie sugava sua cerveja.
â Tudo bem â eu lhe disse â, vocĂȘ tem dois ou trĂȘs dias pra fazer as malas.
â EstĂĄ falando sĂ©rio? Quer dizer que eu vou junto?
â Sim, meu editor pagarĂĄ sua passagem.
Tammie deu um salto e se agarrou em mim. Me beijou, agarrou minhas bolas, se pendurou no meu pau.
â VocĂȘ Ă© o filho da puta mais legal do mundo!
Nova York. Tirando Dallas, Houston, Charleston e Atlanta, era o pior lugar em que eu jĂĄ tinha estado. Tammie se grudou em mim e meu pau levantou. Joanna Dover nĂŁo tinha levado tudo...
SairĂamos de Los Angeles naquele sĂĄbado no voo das trĂȘs e meia. Ăs duas horas bati Ă porta de Tammie. Ela nĂŁo estava lĂĄ. Voltei para minha casa e me sentei para esperar. O telefone tocou. Era Tammie.
â Veja â eu disse â, temos que ir. HĂĄ pessoas me esperando lĂĄ no Kennedy. Onde vocĂȘ estĂĄ?
â Preciso de seis dĂłlares aqui na farmĂĄcia. Ă pra comprar uns Quaaludes.[16]
â Onde vocĂȘ estĂĄ?
â Logo abaixo do cruzamento da Western com Santa Monica Boulevard, cerca de uma quadra. Ă uma farmĂĄcia Coruja, nĂŁo tem como errar.
Desliguei, entrei no fusca e fui até lå. Estacionei uma quadra abaixo da Western com Santa Monica, saà e dei uma olhada em volta. Não havia farmåcia alguma.
Voltei para o fusca e dirigi pelas redondezas, procurando o Camaro vermelho dela. EntĂŁo o avistei, cinco quadras abaixo. Estacionei e entrei no lugar. Tammie estava sentada numa cadeira. Dancy correu e para me fazer careta.
â NĂŁo podemos levar a criança.
â Eu sei. Vamos deixar ela na minha mĂŁe, no meio do caminho.
â Na sua mĂŁe? Mas sĂŁo cinco quilĂŽmetros pro lado contrĂĄrio.
â Fica no caminho do aeroporto.
â NĂŁo, fica pro outro lado.
â VocĂȘ tem os seis contos?
Dei o dinheiro para Tammie.
â Encontro vocĂȘ na sua casa. Suas malas estĂŁo prontas?
â Sim, estou pronto.
Dirigi de volta e esperei. EntĂŁo as ouvi chegar.
â MamĂŁe! â Dancy gritou. â Quero meus brinquedinhos!
As duas subiram a escada. Esperei que elas descessem. Nada. Subi. Tammie havia feito a mala, mas estava ajoelhada, abrindo e fechando o zĂper de sua bagagem.
â Escute â eu disse â, vou levar o resto das suas coisas para o carro.
Ela levava consigo duas sacolas de compras de papelĂŁo, cheias, e trĂȘs vestidos em cabides. Tudo isso alĂ©m da mala.
Peguei as sacolas e os vestidos e coloquei no fusca. Quando voltei, ela ainda abria e fechava o zĂper.
â Vamos, Tammie.
â SĂł mais um minuto.
LĂĄ estava ela ajoelhada, pra lĂĄ e pra cĂĄ com o zĂper, sem parar. Ela sequer olhava para dentro da mala. Ficava apenas abrindo e fechando o zĂper.
â MamĂŁe â disse Dancy â, quero os meus brinquedinhos.
â Vamos, Tammie, vamos duma vez.
â Ah, tudo bem.
Apanhei a mala com o zĂper e elas me seguiram para fora.
Segui seu Camaro demolido atĂ© a casa de sua mĂŁe. Entramos. Tammie ficou em frente Ă cĂŽmoda da mĂŁe e começou a abrir e fechar as gavetas. Cada vez que ela abria uma das gavetas, metia a mĂŁo lĂĄ dentro e fazia a maior bagunça. EntĂŁo ela fechava a gaveta com uma pancada e partia para a prĂłxima. Em sequĂȘncia.
â Tammie, o aviĂŁo jĂĄ vai partir.
â Que nada, temos muito tempo. Odeio ficar fazendo hora em aeroportos.
â O que vocĂȘ pretende fazer com a Dancy?
â Vou deixar ela aqui atĂ© que a MĂŁe chegue do trabalho.
Dancy começou a urrar. Finalmente ela descobrira, e começou a urrar, e as lågrimas corriam, e então ela parou, cerrou o punho e gritou:
â QUERO OS MEUS BRINQUEDINHOS!
â Escute, Tammie, vou esperar no carro.
SaĂ e esperei. Depois de cinco minutos voltei a entrar na casa. Tammie continuava abrindo e fechando gavetas.
â Por favor, Tammie, temos que ir.
â Tudo bem.
Ela se voltou para Dancy.
â Escute sĂł, vocĂȘ vai ficar aqui atĂ© a vovĂł chegar em casa. Mantenha a porta fechada e nĂŁo deixe ninguĂ©m que nĂŁo seja a vovĂł entrar!
Dancy voltou a urrar. E entĂŁo gritou:
â EU ODEIO VOCĂ!
Tammie me seguiu e entramos no fusca. Dei a partida. Ela abriu a porta e se foi.
â TENHO QUE PEGAR UMA COISA NO MEU CARRO!
Tammie correu até o Camaro.
â Ah, merda, eu tranquei a porta e nĂŁo tenho a chave! VocĂȘ tem um arame?
â NĂŁo â gritei â, nĂŁo tenho um arame!
â JĂĄ volto!
Tammie voltou correndo para dentro do apartamento da mãe. Escutei a porta se abrir. Dancy urrou e gritou. Então escutei a batida da porta e Tammie voltou com o arame. Ela foi até o Camaro e arrombou a porta.
Fui atĂ© seu carro. Tammie havia se inclinado sobre o banco de trĂĄs e cavoucava aquela inacreditĂĄvel bagunça â roupas, sacos de papel, copos de papel, garrafas de cerveja, caixas vazias â, tudo empilhado ali. EntĂŁo ela encontrou o que procurava: a cĂąmara, uma Polaroid que eu havia lhe dado de aniversĂĄrio.
â VocĂȘ me ama de verdade, nĂŁo Ă©?
â Sim.
â Quando chegarmos a Nova York eu vou trepar com vocĂȘ como nenhuma outra mulher jĂĄ trepou!
â EstĂĄ falando sĂ©rio?
â Sim.
Ela se agarrou no meu pau e colou em mim.
Minha primeira e Ășnica ruiva. Eu tinha sorte...
Corremos pela longa rampa. Eu carregava os vestidos e as sacolas dela.
Na escada rolante, Tammie avistou a mĂĄquina que vendia seguros de voo.
â Por favor â eu disse â, faltam cinco minutos pra decolagem.
â Quero que Dancy seja beneficiada.
â Tudo bem.
â VocĂȘ tem cinquenta centavos?
Dei-lhe duas moedas. Ela as inseriu e um cartĂŁo foi cuspido pela mĂĄquina.
â VocĂȘ tem uma caneta?
Tammie preencheu o cartĂŁo e depois havia um envelope. Ela colocou o cartĂŁo ali dentro e tentou enfiĂĄ-los na abertura da mĂĄquina.
â Essa porra nĂŁo estĂĄ entrando!
â NĂłs vamos perder o voo.
Ela continuava tentando enfiar o envelope na abertura. NĂŁo estava conseguindo.
Ficou ali plantada, tentando enfiar o envelope naquela abertura. A essas alturas o envelope jĂĄ estava completamente dobrado no meio e as pontas estavam todas amassadas.
â Estou ficando louco â eu disse a ela. â NĂŁo suporto mais.
Tentou enfiar mais algumas vezes. NĂŁo teve jeito. Olhou para mim.
â Certo, vamos lĂĄ, entĂŁo.
Subimos pela escada rolante com os vestidos e as sacolas.
Encontramos o portĂŁo de embarque. TĂnhamos dois bancos no fundo do aviĂŁo. Embarcamos.
â Viu sĂł â ela disse â, nĂŁo falei que a gente tinha tempo de sobra?
Olhei para o meu relógio. O avião começou a se mover...
EstĂĄvamos voando havia vinte minutos quando ela tirou um espelhinho da bolsa e começou a se maquiar, principalmente os olhos. Passava uma escovinha neles, concentrando-se, em especial, nos cĂlios. Ao fazer isso, ela arregalava bem os olhos, a boca entreaberta. SĂł de assisti-la, comecei a ter uma ereção.
Sua boca era tĂŁo carnuda e gostosa e aberta e ela ficava ajeitando os cĂlios. Pedi dois drinques.
Tammie parava para beber, e entĂŁo continuava.
Um jovem numa poltrona à nossa direita começou a se tocar. Tammie continuava com os olhos fixos no espelhinho, mantendo a boca aberta. Parecia capaz de pagar um boquete dos bons com aquela boca.
Continuou naquela função por uma hora. Então deixou o espelho e a escovinha de lado, encostou-se no meu ombro e dormiu.
Havia uma mulher na poltrona Ă nossa esquerda. Estava na metade dos quarenta. Tammie dormia colada em mim.
A mulher me olhou.
â Quantos anos ela tem? â ela me perguntou.
De repente tudo ficou muito silencioso naquele aviĂŁo. Todos ao redor escutavam.
â 23.
â Ela parece ter dezessete.
â Ela tem 23.
â Ela passou duas horas se maquiando e agora vai dormir.
â Foi mais ou menos uma hora.
â O senhor estĂĄ indo para Nova York?
â Sim.
â Ă sua filha?
â NĂŁo, nĂŁo sou pai nem avĂŽ dela. NĂŁo temos nenhum grau de parentesco. Ela Ă© minha namorada e estamos indo pra Nova York. â Pude ver a manchete em seus olhos:
MONSTRO DO LESTE DE HOLLYWOOD DOPA GAROTA DE DEZESSETE ANOS, LEVA-A PARA NOVA YORK ONDE ELE A ABUSA SEXUALMENTE, VENDENDO DEPOIS SEU CORPO A INĂMEROS VAGABUNDOS.
A senhora inquisidora desistiu. Inclinou sua poltrona e fechou os olhos. Sua cabeça se inclinou na minha direção. Estava quase sobre meu colo. Segurando Tammie, fiquei olhando para aquela cabeça. Me perguntava se ela se importaria se eu lhe desse um beijo inesperado e louco. Tive outra ereção.
EstĂĄvamos prontos para aterrissar. Tammie parecia desacordada. Isso me deixou preocupado. Afivelei seu cinto.
â Tammie, estamos em Nova York! JĂĄ vamos pousar! Tammie, acorde!
Nenhuma resposta.
Overdose?
Tomei seu pulso. NĂŁo consegui sentir nada.
Olhei para os seus peitos enormes. Buscava algum sinal de que estivesse respirando. Eles não se moviam. Me levantei e fui ao encontro de uma aeromoça.
â Por favor, senhor, volte ao seu lugar. Estamos em procedimento de pouso.
â Escute, estou preocupado. Minha namorada nĂŁo estĂĄ acordando.
â O senhor acha que ela morreu? â sussurrou.
â NĂŁo sei â respondi tambĂ©m num sussurro.
â Tudo bem, senhor. Assim que nos aterrissarmos eu volto aqui.
O avião começou a descer. Fui até o banheiro e umedeci umas toalhas de papel. Retornei, sentei-me ao lado de Tammie e esfreguei sua face com os papéis. Toda aquela maquiagem, perdida. Tammie não respondeu.
â Acorde, sua puta!
Passei as toalhas por seus peitos. Nada. Nenhum movimento. Desisti.
Agora precisava despachar seu corpo de volta. Precisaria explicar o ocorrido Ă sua mĂŁe. A velha iria me odiar.
Aterrissamos. As pessoas se levantaram e formaram uma fila, esperando para sair. Fiquei ali sentado. Chacoalhava Tammie, beliscava-a.
â Ă Nova York, Ruiva. A maçã podre. Vamos lĂĄ. Chega dessa palhaçada.
A aeromoça voltou e balançou Tammie.
â Querida, qual Ă© o problema?
Tammie começou a responder. Ela se mexeu. Então seus olhos se abriram. Era tudo uma questão de ser chamada por uma voz diferente. Ninguém responde a uma voz conhecida. Vozes conhecidas se tornam parte da pessoa, como uma unha.
Tammie pegou seu espelhinho e começou a ajeitar o cabelo. A aeromoça lhe dava uns tapinhas no ombro. Me levantei e tirei os vestidos do compartimento superior. As sacolas também estavam ali. Tammie continuou a se olhar, não parava de ajeitar os cabelos.
â Tammie, estamos em Nova York. Vamos descer.
Ela se moveu depressa. Eu levava as duas sacolas e os vestidos. Ela saiu pela porta rebolando bem a bunda. Fui atrĂĄs dela.
â Mulheres
da mĂŁo
direita
realmente curta
e comecei a correr o dedo ao longo de sua buceta
enquanto ela se sentava muito ereta na cama
espalhando uma loção por seus braços
face
e seios
depois do banho.
entĂŁo acendeu um cigarro:
ânĂŁo deixe que isso o desanimeâ,
e seguiu fumando e esfregando a
loção.
continuei tocando sua buceta.
âquer uma maçã?â, perguntei.
âclaroâ, ela disse, âtem uma aĂ?â
mas eu lhe dei outra coisa...
ela começou a se contorcer
e depois rolou para um lado,
ela estava ficando molhada e aberta
como uma flor na chuva.
entĂŁo ela se voltou sobre a barriga
e seu cu maravilhoso
olhou para mim
e eu passei minha mĂŁo por baixo e
cheguei outra vez na buceta.
ela se espichou e agarrou meu
pau, virando-se e se contorcendo toda,
penetrei-a
meu rosto mergulhando na massa
de cabelos ruivos que se alastrava feito enchente
de sua cabeça
e meu pau intumescido adentrou
o milagre.
mais tarde tiramos sarro da loção
e do cigarro e da maçã.
depois eu saĂ para comprar um pouco de frango
e camarĂŁo e batatas fritas e pĂŁo doce
e purĂȘ de batatas e molho e
salada de repolho, e nĂłs comemos. ela me disse
quĂŁo bem ela se sentia e eu lhe disse
o quĂŁo bem eu me sentia e nĂłs comemos
o frango e o camarĂŁo e as batatas fritas e o pĂŁo doce
e o purĂȘ de batatas e o molho e
também a salada de repolho.
Dirigi de volta para casa. O apartamento estava do mesmo jeito de sempre â garrafas e lixo por toda parte. Precisava dar uma arrumada nas coisas. Se alguĂ©m o visse nesse estado facilmente me daria voz de prisĂŁo.
Escutei uma batida. Abri a porta. Era Tammie.
â Oi â ela disse.
â OlĂĄ.
â VocĂȘ devia estar numa pressa desgraçada quando saiu. Todas as portas ficaram abertas. A porta dos fundos estava escancarada. Escute, promete que nĂŁo conta pra ninguĂ©m se eu contar uma coisa pra vocĂȘ?
â Tudo bem.
â Arlene entrou e usou seu telefone, um interurbano.
â Tudo bem.
â Tentei deter ela, mas nĂŁo consegui. Ela estava entupida de boletas.
â Tudo bem.
â Por onde vocĂȘ andava?
â Galveston.
â Por que vocĂȘ saiu assim desse jeito? VocĂȘ Ă© maluco.
â Vou precisar viajar de novo no sĂĄbado.
â SĂĄbado? Que dia Ă© hoje?
â Quinta-feira.
â Pra onde vocĂȘ vai agora?
â Nova York.
â Pra fazer o quĂȘ?
â Uma leitura. Mandaram as passagens duas semanas atrĂĄs. E eu fico com um percentual da bilheteria.
â Ah, me leve com vocĂȘ! Deixo a Dancy com a MĂŁe. Quero muito ir!
â NĂŁo tenho como bancar vocĂȘ. Isso acabaria com o meu cachĂȘ. Nos Ășltimos tempos fiz umas despesas pesadas.
â Vai ser muito legal! SerĂĄ bom demais. NĂŁo vou sair nem um minuto do seu lado. Senti tanto a sua falta.
â NĂŁo tem como, Tammie.
Ela foi até o refrigerador e apanhou uma cerveja.
â VocĂȘ nĂŁo dĂĄ a mĂnima pra mim. Todos esses poemas de amor, tudo papo furado.
â Quando eu os escrevi nĂŁo era papo furado.
O telefone tocou. Era meu editor.
â Por onde vocĂȘ tem andado?
â Galveston. Fazendo uma pesquisa.
â Ouvi dizer que vocĂȘ farĂĄ uma leitura em Nova York no sĂĄbado.
â Sim, Tammie quer ir junto, minha namorada.
â VocĂȘ vai levĂĄ-la junto?
â NĂŁo, nĂŁo tenho como bancar.
â Quanto sairia isso?
â Por 316 dĂłlares ida e volta.
â VocĂȘ quer mesmo que ela vĂĄ?
â Sim, acho que seria uma boa.
â Tudo bem, vĂĄ em frente. Mando um cheque pra vocĂȘ pelo correio.
â EstĂĄ falando sĂ©rio?
â Sim.
â NĂŁo sei o que dizer...
â NĂŁo esquenta. Apenas lembre do Dylan Thomas.
â Eles nĂŁo vĂŁo me matar.
Nos despedimos. Tammie sugava sua cerveja.
â Tudo bem â eu lhe disse â, vocĂȘ tem dois ou trĂȘs dias pra fazer as malas.
â EstĂĄ falando sĂ©rio? Quer dizer que eu vou junto?
â Sim, meu editor pagarĂĄ sua passagem.
Tammie deu um salto e se agarrou em mim. Me beijou, agarrou minhas bolas, se pendurou no meu pau.
â VocĂȘ Ă© o filho da puta mais legal do mundo!
Nova York. Tirando Dallas, Houston, Charleston e Atlanta, era o pior lugar em que eu jĂĄ tinha estado. Tammie se grudou em mim e meu pau levantou. Joanna Dover nĂŁo tinha levado tudo...
SairĂamos de Los Angeles naquele sĂĄbado no voo das trĂȘs e meia. Ăs duas horas bati Ă porta de Tammie. Ela nĂŁo estava lĂĄ. Voltei para minha casa e me sentei para esperar. O telefone tocou. Era Tammie.
â Veja â eu disse â, temos que ir. HĂĄ pessoas me esperando lĂĄ no Kennedy. Onde vocĂȘ estĂĄ?
â Preciso de seis dĂłlares aqui na farmĂĄcia. Ă pra comprar uns Quaaludes.[16]
â Onde vocĂȘ estĂĄ?
â Logo abaixo do cruzamento da Western com Santa Monica Boulevard, cerca de uma quadra. Ă uma farmĂĄcia Coruja, nĂŁo tem como errar.
Desliguei, entrei no fusca e fui até lå. Estacionei uma quadra abaixo da Western com Santa Monica, saà e dei uma olhada em volta. Não havia farmåcia alguma.
Voltei para o fusca e dirigi pelas redondezas, procurando o Camaro vermelho dela. EntĂŁo o avistei, cinco quadras abaixo. Estacionei e entrei no lugar. Tammie estava sentada numa cadeira. Dancy correu e para me fazer careta.
â NĂŁo podemos levar a criança.
â Eu sei. Vamos deixar ela na minha mĂŁe, no meio do caminho.
â Na sua mĂŁe? Mas sĂŁo cinco quilĂŽmetros pro lado contrĂĄrio.
â Fica no caminho do aeroporto.
â NĂŁo, fica pro outro lado.
â VocĂȘ tem os seis contos?
Dei o dinheiro para Tammie.
â Encontro vocĂȘ na sua casa. Suas malas estĂŁo prontas?
â Sim, estou pronto.
Dirigi de volta e esperei. EntĂŁo as ouvi chegar.
â MamĂŁe! â Dancy gritou. â Quero meus brinquedinhos!
As duas subiram a escada. Esperei que elas descessem. Nada. Subi. Tammie havia feito a mala, mas estava ajoelhada, abrindo e fechando o zĂper de sua bagagem.
â Escute â eu disse â, vou levar o resto das suas coisas para o carro.
Ela levava consigo duas sacolas de compras de papelĂŁo, cheias, e trĂȘs vestidos em cabides. Tudo isso alĂ©m da mala.
Peguei as sacolas e os vestidos e coloquei no fusca. Quando voltei, ela ainda abria e fechava o zĂper.
â Vamos, Tammie.
â SĂł mais um minuto.
LĂĄ estava ela ajoelhada, pra lĂĄ e pra cĂĄ com o zĂper, sem parar. Ela sequer olhava para dentro da mala. Ficava apenas abrindo e fechando o zĂper.
â MamĂŁe â disse Dancy â, quero os meus brinquedinhos.
â Vamos, Tammie, vamos duma vez.
â Ah, tudo bem.
Apanhei a mala com o zĂper e elas me seguiram para fora.
Segui seu Camaro demolido atĂ© a casa de sua mĂŁe. Entramos. Tammie ficou em frente Ă cĂŽmoda da mĂŁe e começou a abrir e fechar as gavetas. Cada vez que ela abria uma das gavetas, metia a mĂŁo lĂĄ dentro e fazia a maior bagunça. EntĂŁo ela fechava a gaveta com uma pancada e partia para a prĂłxima. Em sequĂȘncia.
â Tammie, o aviĂŁo jĂĄ vai partir.
â Que nada, temos muito tempo. Odeio ficar fazendo hora em aeroportos.
â O que vocĂȘ pretende fazer com a Dancy?
â Vou deixar ela aqui atĂ© que a MĂŁe chegue do trabalho.
Dancy começou a urrar. Finalmente ela descobrira, e começou a urrar, e as lågrimas corriam, e então ela parou, cerrou o punho e gritou:
â QUERO OS MEUS BRINQUEDINHOS!
â Escute, Tammie, vou esperar no carro.
SaĂ e esperei. Depois de cinco minutos voltei a entrar na casa. Tammie continuava abrindo e fechando gavetas.
â Por favor, Tammie, temos que ir.
â Tudo bem.
Ela se voltou para Dancy.
â Escute sĂł, vocĂȘ vai ficar aqui atĂ© a vovĂł chegar em casa. Mantenha a porta fechada e nĂŁo deixe ninguĂ©m que nĂŁo seja a vovĂł entrar!
Dancy voltou a urrar. E entĂŁo gritou:
â EU ODEIO VOCĂ!
Tammie me seguiu e entramos no fusca. Dei a partida. Ela abriu a porta e se foi.
â TENHO QUE PEGAR UMA COISA NO MEU CARRO!
Tammie correu até o Camaro.
â Ah, merda, eu tranquei a porta e nĂŁo tenho a chave! VocĂȘ tem um arame?
â NĂŁo â gritei â, nĂŁo tenho um arame!
â JĂĄ volto!
Tammie voltou correndo para dentro do apartamento da mãe. Escutei a porta se abrir. Dancy urrou e gritou. Então escutei a batida da porta e Tammie voltou com o arame. Ela foi até o Camaro e arrombou a porta.
Fui atĂ© seu carro. Tammie havia se inclinado sobre o banco de trĂĄs e cavoucava aquela inacreditĂĄvel bagunça â roupas, sacos de papel, copos de papel, garrafas de cerveja, caixas vazias â, tudo empilhado ali. EntĂŁo ela encontrou o que procurava: a cĂąmara, uma Polaroid que eu havia lhe dado de aniversĂĄrio.
â VocĂȘ me ama de verdade, nĂŁo Ă©?
â Sim.
â Quando chegarmos a Nova York eu vou trepar com vocĂȘ como nenhuma outra mulher jĂĄ trepou!
â EstĂĄ falando sĂ©rio?
â Sim.
Ela se agarrou no meu pau e colou em mim.
Minha primeira e Ășnica ruiva. Eu tinha sorte...
Corremos pela longa rampa. Eu carregava os vestidos e as sacolas dela.
Na escada rolante, Tammie avistou a mĂĄquina que vendia seguros de voo.
â Por favor â eu disse â, faltam cinco minutos pra decolagem.
â Quero que Dancy seja beneficiada.
â Tudo bem.
â VocĂȘ tem cinquenta centavos?
Dei-lhe duas moedas. Ela as inseriu e um cartĂŁo foi cuspido pela mĂĄquina.
â VocĂȘ tem uma caneta?
Tammie preencheu o cartĂŁo e depois havia um envelope. Ela colocou o cartĂŁo ali dentro e tentou enfiĂĄ-los na abertura da mĂĄquina.
â Essa porra nĂŁo estĂĄ entrando!
â NĂłs vamos perder o voo.
Ela continuava tentando enfiar o envelope na abertura. NĂŁo estava conseguindo.
Ficou ali plantada, tentando enfiar o envelope naquela abertura. A essas alturas o envelope jĂĄ estava completamente dobrado no meio e as pontas estavam todas amassadas.
â Estou ficando louco â eu disse a ela. â NĂŁo suporto mais.
Tentou enfiar mais algumas vezes. NĂŁo teve jeito. Olhou para mim.
â Certo, vamos lĂĄ, entĂŁo.
Subimos pela escada rolante com os vestidos e as sacolas.
Encontramos o portĂŁo de embarque. TĂnhamos dois bancos no fundo do aviĂŁo. Embarcamos.
â Viu sĂł â ela disse â, nĂŁo falei que a gente tinha tempo de sobra?
Olhei para o meu relógio. O avião começou a se mover...
EstĂĄvamos voando havia vinte minutos quando ela tirou um espelhinho da bolsa e começou a se maquiar, principalmente os olhos. Passava uma escovinha neles, concentrando-se, em especial, nos cĂlios. Ao fazer isso, ela arregalava bem os olhos, a boca entreaberta. SĂł de assisti-la, comecei a ter uma ereção.
Sua boca era tĂŁo carnuda e gostosa e aberta e ela ficava ajeitando os cĂlios. Pedi dois drinques.
Tammie parava para beber, e entĂŁo continuava.
Um jovem numa poltrona à nossa direita começou a se tocar. Tammie continuava com os olhos fixos no espelhinho, mantendo a boca aberta. Parecia capaz de pagar um boquete dos bons com aquela boca.
Continuou naquela função por uma hora. Então deixou o espelho e a escovinha de lado, encostou-se no meu ombro e dormiu.
Havia uma mulher na poltrona Ă nossa esquerda. Estava na metade dos quarenta. Tammie dormia colada em mim.
A mulher me olhou.
â Quantos anos ela tem? â ela me perguntou.
De repente tudo ficou muito silencioso naquele aviĂŁo. Todos ao redor escutavam.
â 23.
â Ela parece ter dezessete.
â Ela tem 23.
â Ela passou duas horas se maquiando e agora vai dormir.
â Foi mais ou menos uma hora.
â O senhor estĂĄ indo para Nova York?
â Sim.
â Ă sua filha?
â NĂŁo, nĂŁo sou pai nem avĂŽ dela. NĂŁo temos nenhum grau de parentesco. Ela Ă© minha namorada e estamos indo pra Nova York. â Pude ver a manchete em seus olhos:
MONSTRO DO LESTE DE HOLLYWOOD DOPA GAROTA DE DEZESSETE ANOS, LEVA-A PARA NOVA YORK ONDE ELE A ABUSA SEXUALMENTE, VENDENDO DEPOIS SEU CORPO A INĂMEROS VAGABUNDOS.
A senhora inquisidora desistiu. Inclinou sua poltrona e fechou os olhos. Sua cabeça se inclinou na minha direção. Estava quase sobre meu colo. Segurando Tammie, fiquei olhando para aquela cabeça. Me perguntava se ela se importaria se eu lhe desse um beijo inesperado e louco. Tive outra ereção.
EstĂĄvamos prontos para aterrissar. Tammie parecia desacordada. Isso me deixou preocupado. Afivelei seu cinto.
â Tammie, estamos em Nova York! JĂĄ vamos pousar! Tammie, acorde!
Nenhuma resposta.
Overdose?
Tomei seu pulso. NĂŁo consegui sentir nada.
Olhei para os seus peitos enormes. Buscava algum sinal de que estivesse respirando. Eles não se moviam. Me levantei e fui ao encontro de uma aeromoça.
â Por favor, senhor, volte ao seu lugar. Estamos em procedimento de pouso.
â Escute, estou preocupado. Minha namorada nĂŁo estĂĄ acordando.
â O senhor acha que ela morreu? â sussurrou.
â NĂŁo sei â respondi tambĂ©m num sussurro.
â Tudo bem, senhor. Assim que nos aterrissarmos eu volto aqui.
O avião começou a descer. Fui até o banheiro e umedeci umas toalhas de papel. Retornei, sentei-me ao lado de Tammie e esfreguei sua face com os papéis. Toda aquela maquiagem, perdida. Tammie não respondeu.
â Acorde, sua puta!
Passei as toalhas por seus peitos. Nada. Nenhum movimento. Desisti.
Agora precisava despachar seu corpo de volta. Precisaria explicar o ocorrido Ă sua mĂŁe. A velha iria me odiar.
Aterrissamos. As pessoas se levantaram e formaram uma fila, esperando para sair. Fiquei ali sentado. Chacoalhava Tammie, beliscava-a.
â Ă Nova York, Ruiva. A maçã podre. Vamos lĂĄ. Chega dessa palhaçada.
A aeromoça voltou e balançou Tammie.
â Querida, qual Ă© o problema?
Tammie começou a responder. Ela se mexeu. Então seus olhos se abriram. Era tudo uma questão de ser chamada por uma voz diferente. Ninguém responde a uma voz conhecida. Vozes conhecidas se tornam parte da pessoa, como uma unha.
Tammie pegou seu espelhinho e começou a ajeitar o cabelo. A aeromoça lhe dava uns tapinhas no ombro. Me levantei e tirei os vestidos do compartimento superior. As sacolas também estavam ali. Tammie continuou a se olhar, não parava de ajeitar os cabelos.
â Tammie, estamos em Nova York. Vamos descer.
Ela se moveu depressa. Eu levava as duas sacolas e os vestidos. Ela saiu pela porta rebolando bem a bunda. Fui atrĂĄs dela.
â Mulheres
Concurso de Poesia
mande quantos poemas vocĂȘ quiser, mantenha
apenas cada um deles a dez linhas no mĂĄximo.
nenhum limite quanto ao estilo ou conteĂșdo
embora prefiramos poemas de
afirmação.
espaço duplo
com seu nome e endereço na
parte superior do cabeçalho
esquerdo.
os editores nĂŁo se responsabilizam pelos
manuscritos
sem envelope de retorno
todos os esforços
serĂŁo feitos para
julgar os trabalhos num prazo de 90
dias.
após uma cuidadosa seleção
a escolha final serĂĄ feita por
Elly May Moody,
editora-geral responsĂĄvel.
por favor envie dez dĂłlares
para cada poema
apresentado.
um prĂȘmio final de
75 dĂłlares serĂĄ
entregue ao vencedor
do
PrĂȘmio de ouro Elly May Moody de
poesia,
junto com um certificado
assinado por
Elly May Moody.
tambĂ©m serĂŁo premiados com certificados os 2Âș, 3Âș e
4Âș lugares
todos com a assinatura de
Elly May Moody.
as decisÔes são
irrevogĂĄveis.
os vencedores do prĂȘmio serĂŁo
publicados no nĂșmero de primavera de
O coração do paraĂso.
os vencedores do prĂȘmio tambĂ©m receberĂŁo
uma cĂłpia da revista
junto com
a Ășltima coletĂąnea de
poesia de
Elly May Moody,
O lugar onde morreu
o inverno.
A cena da banheira era simples. Francine sentava-se dentro e Jack Bledsoe no chão, do lado de fora, recostado na banheira, enquanto Francine falava de vårias coisas, principalmente sobre um assassino que vivia no prédio e se achava em liberdade condicional. O homem, que morava com uma velha, espancava-a continuamente. Ouviam-se o assassino e sua dona discutindo e se xingando através das paredes.
Pinchot me pedira para escrever diålogos de pessoas brigando do outro lado das paredes, e eu lhe dera vårias påginas. Basicamente, essa fora a parte mais gostosa da criação do argumento.
Muitas vezes, nessas pensĂ”es e apartamentos baratos, nĂŁo se tinha nada a fazer quando se estava duro, morrendo de fome e reduzido Ă Ășltima garrafa. NĂŁo se tinha nada a fazer senĂŁo escutar aquelas discussĂ”es cabeludas. Elas faziam a gente compreender que nĂŁo era o Ășnico desiludido do mundo, nĂŁo era o Ășnico Ă beira da loucura.
NĂŁo podĂamos ver a cena da banheira, porque nĂŁo havia espaço suficiente lĂĄ dentro, por isso Sarah e eu ficamos esperando na porta da frente do apartamento, com a cozinha para um lado. Na verdade, trinta anos atrĂĄs eu tinha morado por pouco tempo naquele mesmo prĂ©dio da Rua Alvarado, com a dona sobre a qual escrevera o argumento. Era de fato estranho e arrepiante. âTudo que passa, volta.â De uma maneira ou de outra. E trinta anos depois, o lugar parecia mais ou menos o mesmo. SĂł que as pessoas que eu conhecera tinham todas morrido. A dona morrera trĂȘs dĂ©cadas atrĂĄs, e ali estava eu sentado, tomando uma bebida naquele mesmo prĂ©dio cheio de cĂąmeras e som e tĂ©cnicos. Bem, eu ia morrer tambĂ©m, muito breve. Sirva um por mim.
Preparavam comida na pequena cozinha, e a geladeira regurgitava de cervejas. Fiz algumas incursÔes por lå. Sarah encontrou pessoas com quem conversar. Tinha sorte. Toda vez que alguém falava comigo, eu sentia vontade de saltar pela janela ou descer no elevador. As pessoas simplesmente não tinham interesse algum. Talvez não devessem ter. Mas os animais, påssaros, até mesmo os insetos tinham. Eu não entendia.
Jon Pinchot continuava adiantado um dia em relação ao cronograma de filmagens, e eu estava satisfeito pra burro com isso. Tirava a Firepower do nosso pé. Os grandolas não apareciam. Tinham seus espias, é claro. Eu os via.
Alguns membros da equipe tinham livros meus. Pediam autĂłgrafos. Os livros que traziam eram curiosos. Quer dizer, eu nĂŁo os considerava os melhores. (Meu melhor livro Ă© sempre o Ășltimo que escrevi.) Alguns deles tinham um livro de minhas primeiras histĂłrias pornogrĂĄficas, Batendo punheta no demĂŽnio. Alguns livros de poemas, Mozart na figueira e VocĂȘ deixaria esse homem tomar conta de sua filhinha de auatro anos? TambĂ©m A latrina do bar Ă© minha capela.
O dia passava, em paz mas sem alegria.
Bela cena de banheira, eu pensava. Francine deve estar bem lavada a essa altura.
Jon Pinchot entrou correndo no quarto. Parecia descomposto. AtĂ© o zĂper estava meio aberto. Despenteado. Os olhos pareciam ao mesmo tempo ensandecidos e vazios.
â Meu Deus! â disse. â Aqui estĂĄ vocĂȘ!
â Como vai indo?
Ele se curvou sobre mim e me sussurrou no ouvido:
â Ă terrĂvel, Ă© de enlouquecer! Francine estĂĄ preocupada com a possibilidade do bico do peito dela aparecer acima dâĂĄgua! Fica perguntando: âMeus peitos estĂŁo aparecendo?â
â Que mal faz um peitinho?
Jon se curvou mais ainda.
â Ela nĂŁo Ă© mais tĂŁo jovem quanto gostaria... E Hyans odeia aquela iluminação... NĂŁo suporta a iluminação e estĂĄ bebendo cada vez mais...
Hyans era o cĂąmera. Ganhara quase todos os prĂȘmios do ramo, um dos melhores cĂąmeras vivos, mas, como a maioria das almas grandes, gostava de seu traguinho de vez em quando.
Jon prosseguiu, sussurrando freneticamente:
â E Jack nĂŁo diz uma fala certa. Temos de cortar o tempo todo. Tem alguma coisa nas falas que incomoda ele, e ele fica com aquele sorriso idiota no rosto quando as diz.
â Qual Ă© a fala?
â Ă: âEle tem de masturbar o agente da condicional quando o cara apareceâ.
â Tudo bem, experimente: âEle tem de tocar punheta no agente da condicional quando o cara apareceâ.
â Nossa, obrigado! ESTA VAI SER A dĂ©cima nona TOMADA!
â Meu Deus â eu disse.
â Me deseje sorte...
â Sorte...
Jon deixou o quarto. Sarah se aproximou.
â Que Ă© que hĂĄ?
â A dĂ©cima nona tomada. Francine estĂĄ com medo de mostrar os peitos, Jack nĂŁo consegue dizer sua fala, e Hyans nĂŁo gosta da iluminação.
â Francine precisa de um trago â ela disse. â Vai fazer ela se soltar.
â Hyans nĂŁo precisa de um trago.
â Eu sei. E Jack vai conseguir dizer a fala quando Francine se soltar.
â Talvez.
Nesse momento Francine entrou no quarto. Parecia inteiramente perdida, completamente por fora. Usava um roupão, uma toalha amarrada na cabeça.
â Vou dizer a ela â disse Sarah.
Aproximou-se de Francine e falou-lhe baixinho. A outra escutou. Assentiu levemente com a cabeça, saiu do quarto por uma porta Ă esquerda. Num instante, Sarah emergiu da cozinha com uma xĂcara de cafĂ©. Bem, tinha scotch, vodca, uĂsque e gim naquela cozinha. Sarah preparara alguma coisa. A porta abriu-se, fechou-se e a xĂcara de cafĂ© desapareceu.
Sarah aproximou-se.
â Ela vai ficar bem agora...
Passaram-se dois ou trĂȘs minutos, e a porta do quarto abriu-se de repente. Francine saiu e dirigiu-se para o banheiro e a cĂąmera. Quando passava, seus olhos encontraram os de Sarah:
â Obrigada!
Bem, nĂŁo havia nada a fazer senĂŁo ficar sentado e bater mais papo.
Eu nĂŁo podia deixar de lançar uma olhada ao passado. Aquele era o mesmo prĂ©dio do qual eu fora despejado por levar trĂȘs mulheres para meu quarto certa noite. Naquele tempo nĂŁo tinha essa de Direitos do Inquilino.
â Sr. Chinaski â dissera a senhoria â, aqui moram pessoas religiosas, pessoas trabalhadoras, pessoas com filhos. Eu nunca recebi uma queixa dessas sobre outros inquilinos. E soube tambĂ©m que o senhor... aquelas cantorias, aqueles xingamentos... quebra-quebra... palavrĂ”es e risadas... Em toda a minha vida, eu jamais soube de nada parecido com o que aconteceu em seu quarto ontem Ă noite!
â Tudo bem, eu saio...
â Obrigada.
Eu devia estar louco. Sem me barbear. A camiseta cheia de buracos de cigarro. Meu Ășnico desejo era ter mais de uma garrafa na cĂŽmoda. NĂŁo era feito para o mundo nem o mundo pra mim, e encontrara outros como eu, e em sua maioria esses outros eram mulheres, mulheres com as quais a maioria dos homens jamais iria querer ficar num mesmo quarto, mas que eu adorava, elas me inspiravam, eu fazia teatro, xingava, saltava pelo quarto de cueca dizendo-lhes que era grande, mas sĂł eu acreditava nisso. Elas apenas berravam: âFoda-se! Sirva mais um pouco de ĂĄlcool!â Aquelas donas do inferno, aquelas donas no inferno comigo.
Jon Pinchot entrou rĂĄpido no quarto:
â Deu tudo certo! Que dia! Agora, amanhĂŁ recomeçamos tudo!
â Agradeça a Sarah! â eu disse. â Ela sabe preparar uma bebida mĂĄgica.
â QuĂȘ?
â Ela soltou Francine com uma coisa numa xĂcara de cafĂ©.
Jon voltou-se para Sarah.
â Muito obrigado...
â Disponha â respondeu Sarah.
â Nossa â disse Jon â, estou neste ramo hĂĄ muito tempo e nunca fiz dezenove tomadas!
â Eu soube â eu disse â que Chaplin Ă s vezes fazia cem tomadas atĂ© conseguir o que queria.
â Isso era Chaplin â disse Jon. â Cem tomadas, e nosso orçamento vai embora.
E foi isso aĂ por esse dia. A nĂŁo ser por Sarah, que disse:
â Diabos, vamos ao Mussoâs.
O que fizemos. E conseguimos uma mesa na Sala Velha e pedimos umas bebidas enquanto olhĂĄvamos o menu.
â Lembram? â perguntei. â Lembram dos velhos tempos quando a gente vinha aqui ver as pessoas nas mesas e tentar localizar os tipos, os atores, os diretores ou produtores, os tipos do pornĂŽ, os agentes, os aspirantes? E a gente pensava: âVeja sĂł eles, discutindo suas negociatas de filmes, ou os contratos sobre seus Ășltimos filmesâ. Que toupeiras, que desajustados. Melhor desviar o olhar quando chegarem o peixe-espada e o linguado.
â A gente achava eles uns merdas â disse Sarah â e agora nĂłs Ă© que somos.
â Tudo que passa, volta...
â Certo! Acho que vou querer o linguado...
O garçom pairava acima de nós, arrastando os pés, franzindo o cenho, os pelos das sobrancelhas caindo sobre os olhos. Musso estava ali desde 1919, e tudo era um pé no saco para ele: nós, e todos os demais na casa. Eu concordava. Decidi pelo peixe-espada. Com batatas fritas.
â Hollywood
apenas cada um deles a dez linhas no mĂĄximo.
nenhum limite quanto ao estilo ou conteĂșdo
embora prefiramos poemas de
afirmação.
espaço duplo
com seu nome e endereço na
parte superior do cabeçalho
esquerdo.
os editores nĂŁo se responsabilizam pelos
manuscritos
sem envelope de retorno
todos os esforços
serĂŁo feitos para
julgar os trabalhos num prazo de 90
dias.
após uma cuidadosa seleção
a escolha final serĂĄ feita por
Elly May Moody,
editora-geral responsĂĄvel.
por favor envie dez dĂłlares
para cada poema
apresentado.
um prĂȘmio final de
75 dĂłlares serĂĄ
entregue ao vencedor
do
PrĂȘmio de ouro Elly May Moody de
poesia,
junto com um certificado
assinado por
Elly May Moody.
tambĂ©m serĂŁo premiados com certificados os 2Âș, 3Âș e
4Âș lugares
todos com a assinatura de
Elly May Moody.
as decisÔes são
irrevogĂĄveis.
os vencedores do prĂȘmio serĂŁo
publicados no nĂșmero de primavera de
O coração do paraĂso.
os vencedores do prĂȘmio tambĂ©m receberĂŁo
uma cĂłpia da revista
junto com
a Ășltima coletĂąnea de
poesia de
Elly May Moody,
O lugar onde morreu
o inverno.
A cena da banheira era simples. Francine sentava-se dentro e Jack Bledsoe no chão, do lado de fora, recostado na banheira, enquanto Francine falava de vårias coisas, principalmente sobre um assassino que vivia no prédio e se achava em liberdade condicional. O homem, que morava com uma velha, espancava-a continuamente. Ouviam-se o assassino e sua dona discutindo e se xingando através das paredes.
Pinchot me pedira para escrever diålogos de pessoas brigando do outro lado das paredes, e eu lhe dera vårias påginas. Basicamente, essa fora a parte mais gostosa da criação do argumento.
Muitas vezes, nessas pensĂ”es e apartamentos baratos, nĂŁo se tinha nada a fazer quando se estava duro, morrendo de fome e reduzido Ă Ășltima garrafa. NĂŁo se tinha nada a fazer senĂŁo escutar aquelas discussĂ”es cabeludas. Elas faziam a gente compreender que nĂŁo era o Ășnico desiludido do mundo, nĂŁo era o Ășnico Ă beira da loucura.
NĂŁo podĂamos ver a cena da banheira, porque nĂŁo havia espaço suficiente lĂĄ dentro, por isso Sarah e eu ficamos esperando na porta da frente do apartamento, com a cozinha para um lado. Na verdade, trinta anos atrĂĄs eu tinha morado por pouco tempo naquele mesmo prĂ©dio da Rua Alvarado, com a dona sobre a qual escrevera o argumento. Era de fato estranho e arrepiante. âTudo que passa, volta.â De uma maneira ou de outra. E trinta anos depois, o lugar parecia mais ou menos o mesmo. SĂł que as pessoas que eu conhecera tinham todas morrido. A dona morrera trĂȘs dĂ©cadas atrĂĄs, e ali estava eu sentado, tomando uma bebida naquele mesmo prĂ©dio cheio de cĂąmeras e som e tĂ©cnicos. Bem, eu ia morrer tambĂ©m, muito breve. Sirva um por mim.
Preparavam comida na pequena cozinha, e a geladeira regurgitava de cervejas. Fiz algumas incursÔes por lå. Sarah encontrou pessoas com quem conversar. Tinha sorte. Toda vez que alguém falava comigo, eu sentia vontade de saltar pela janela ou descer no elevador. As pessoas simplesmente não tinham interesse algum. Talvez não devessem ter. Mas os animais, påssaros, até mesmo os insetos tinham. Eu não entendia.
Jon Pinchot continuava adiantado um dia em relação ao cronograma de filmagens, e eu estava satisfeito pra burro com isso. Tirava a Firepower do nosso pé. Os grandolas não apareciam. Tinham seus espias, é claro. Eu os via.
Alguns membros da equipe tinham livros meus. Pediam autĂłgrafos. Os livros que traziam eram curiosos. Quer dizer, eu nĂŁo os considerava os melhores. (Meu melhor livro Ă© sempre o Ășltimo que escrevi.) Alguns deles tinham um livro de minhas primeiras histĂłrias pornogrĂĄficas, Batendo punheta no demĂŽnio. Alguns livros de poemas, Mozart na figueira e VocĂȘ deixaria esse homem tomar conta de sua filhinha de auatro anos? TambĂ©m A latrina do bar Ă© minha capela.
O dia passava, em paz mas sem alegria.
Bela cena de banheira, eu pensava. Francine deve estar bem lavada a essa altura.
Jon Pinchot entrou correndo no quarto. Parecia descomposto. AtĂ© o zĂper estava meio aberto. Despenteado. Os olhos pareciam ao mesmo tempo ensandecidos e vazios.
â Meu Deus! â disse. â Aqui estĂĄ vocĂȘ!
â Como vai indo?
Ele se curvou sobre mim e me sussurrou no ouvido:
â Ă terrĂvel, Ă© de enlouquecer! Francine estĂĄ preocupada com a possibilidade do bico do peito dela aparecer acima dâĂĄgua! Fica perguntando: âMeus peitos estĂŁo aparecendo?â
â Que mal faz um peitinho?
Jon se curvou mais ainda.
â Ela nĂŁo Ă© mais tĂŁo jovem quanto gostaria... E Hyans odeia aquela iluminação... NĂŁo suporta a iluminação e estĂĄ bebendo cada vez mais...
Hyans era o cĂąmera. Ganhara quase todos os prĂȘmios do ramo, um dos melhores cĂąmeras vivos, mas, como a maioria das almas grandes, gostava de seu traguinho de vez em quando.
Jon prosseguiu, sussurrando freneticamente:
â E Jack nĂŁo diz uma fala certa. Temos de cortar o tempo todo. Tem alguma coisa nas falas que incomoda ele, e ele fica com aquele sorriso idiota no rosto quando as diz.
â Qual Ă© a fala?
â Ă: âEle tem de masturbar o agente da condicional quando o cara apareceâ.
â Tudo bem, experimente: âEle tem de tocar punheta no agente da condicional quando o cara apareceâ.
â Nossa, obrigado! ESTA VAI SER A dĂ©cima nona TOMADA!
â Meu Deus â eu disse.
â Me deseje sorte...
â Sorte...
Jon deixou o quarto. Sarah se aproximou.
â Que Ă© que hĂĄ?
â A dĂ©cima nona tomada. Francine estĂĄ com medo de mostrar os peitos, Jack nĂŁo consegue dizer sua fala, e Hyans nĂŁo gosta da iluminação.
â Francine precisa de um trago â ela disse. â Vai fazer ela se soltar.
â Hyans nĂŁo precisa de um trago.
â Eu sei. E Jack vai conseguir dizer a fala quando Francine se soltar.
â Talvez.
Nesse momento Francine entrou no quarto. Parecia inteiramente perdida, completamente por fora. Usava um roupão, uma toalha amarrada na cabeça.
â Vou dizer a ela â disse Sarah.
Aproximou-se de Francine e falou-lhe baixinho. A outra escutou. Assentiu levemente com a cabeça, saiu do quarto por uma porta Ă esquerda. Num instante, Sarah emergiu da cozinha com uma xĂcara de cafĂ©. Bem, tinha scotch, vodca, uĂsque e gim naquela cozinha. Sarah preparara alguma coisa. A porta abriu-se, fechou-se e a xĂcara de cafĂ© desapareceu.
Sarah aproximou-se.
â Ela vai ficar bem agora...
Passaram-se dois ou trĂȘs minutos, e a porta do quarto abriu-se de repente. Francine saiu e dirigiu-se para o banheiro e a cĂąmera. Quando passava, seus olhos encontraram os de Sarah:
â Obrigada!
Bem, nĂŁo havia nada a fazer senĂŁo ficar sentado e bater mais papo.
Eu nĂŁo podia deixar de lançar uma olhada ao passado. Aquele era o mesmo prĂ©dio do qual eu fora despejado por levar trĂȘs mulheres para meu quarto certa noite. Naquele tempo nĂŁo tinha essa de Direitos do Inquilino.
â Sr. Chinaski â dissera a senhoria â, aqui moram pessoas religiosas, pessoas trabalhadoras, pessoas com filhos. Eu nunca recebi uma queixa dessas sobre outros inquilinos. E soube tambĂ©m que o senhor... aquelas cantorias, aqueles xingamentos... quebra-quebra... palavrĂ”es e risadas... Em toda a minha vida, eu jamais soube de nada parecido com o que aconteceu em seu quarto ontem Ă noite!
â Tudo bem, eu saio...
â Obrigada.
Eu devia estar louco. Sem me barbear. A camiseta cheia de buracos de cigarro. Meu Ășnico desejo era ter mais de uma garrafa na cĂŽmoda. NĂŁo era feito para o mundo nem o mundo pra mim, e encontrara outros como eu, e em sua maioria esses outros eram mulheres, mulheres com as quais a maioria dos homens jamais iria querer ficar num mesmo quarto, mas que eu adorava, elas me inspiravam, eu fazia teatro, xingava, saltava pelo quarto de cueca dizendo-lhes que era grande, mas sĂł eu acreditava nisso. Elas apenas berravam: âFoda-se! Sirva mais um pouco de ĂĄlcool!â Aquelas donas do inferno, aquelas donas no inferno comigo.
Jon Pinchot entrou rĂĄpido no quarto:
â Deu tudo certo! Que dia! Agora, amanhĂŁ recomeçamos tudo!
â Agradeça a Sarah! â eu disse. â Ela sabe preparar uma bebida mĂĄgica.
â QuĂȘ?
â Ela soltou Francine com uma coisa numa xĂcara de cafĂ©.
Jon voltou-se para Sarah.
â Muito obrigado...
â Disponha â respondeu Sarah.
â Nossa â disse Jon â, estou neste ramo hĂĄ muito tempo e nunca fiz dezenove tomadas!
â Eu soube â eu disse â que Chaplin Ă s vezes fazia cem tomadas atĂ© conseguir o que queria.
â Isso era Chaplin â disse Jon. â Cem tomadas, e nosso orçamento vai embora.
E foi isso aĂ por esse dia. A nĂŁo ser por Sarah, que disse:
â Diabos, vamos ao Mussoâs.
O que fizemos. E conseguimos uma mesa na Sala Velha e pedimos umas bebidas enquanto olhĂĄvamos o menu.
â Lembram? â perguntei. â Lembram dos velhos tempos quando a gente vinha aqui ver as pessoas nas mesas e tentar localizar os tipos, os atores, os diretores ou produtores, os tipos do pornĂŽ, os agentes, os aspirantes? E a gente pensava: âVeja sĂł eles, discutindo suas negociatas de filmes, ou os contratos sobre seus Ășltimos filmesâ. Que toupeiras, que desajustados. Melhor desviar o olhar quando chegarem o peixe-espada e o linguado.
â A gente achava eles uns merdas â disse Sarah â e agora nĂłs Ă© que somos.
â Tudo que passa, volta...
â Certo! Acho que vou querer o linguado...
O garçom pairava acima de nós, arrastando os pés, franzindo o cenho, os pelos das sobrancelhas caindo sobre os olhos. Musso estava ali desde 1919, e tudo era um pé no saco para ele: nós, e todos os demais na casa. Eu concordava. Decidi pelo peixe-espada. Com batatas fritas.
â Hollywood
Confissão
Ă espera da morte
como um gato
que saltarĂĄ sobre a
cama
sinto terrivelmente por
minha esposa
ela verĂĄ este
corpo
duro e
branco
vai sacudi-lo uma vez, depois
quem sabe
outra:
âHank!â
Hank nĂŁo
responderĂĄ.
nĂŁo Ă© minha morte o que
me preocupa, Ă© minha mulher
abandonada com este
monte de
nada.
quero
no entanto
que ela saiba
que todas as noites
dormindo
ao seu lado
que mesmo as discussÔes
inĂșteis
sempre foram
esplĂȘndidas
e que as palavras
difĂceis
que sempre temi
dizer
podem agora ser
ditas:
eu te
amo.
Chegamos um pouco atrasados para a festa, mas ainda não havia muita gente. Victor Norman sentava-se a algumas mesas da nossa. Depois que Sarah e eu nos sentamos, apareceu o garçom com nosso vinho. Vinho branco. Bem, era de graça.
Esvaziei meu copo e fiz sinal com a cabeça, chamando o garçom para tornar a enchĂȘ-lo.
Percebi que Victor me observava.
O pessoal ia chegando aos poucos. Vi o famoso ator do bronzeado perpétuo. Soubera que ele ia a quase todas as festas de Hollywood, em toda parte.
Sarah me deu uma cutucada. Era Jim Serry, o velho guru da droga da década de 60. Também ele ia a muitas festas. Parecia cansado, triste, esgotado. Senti pena dele. Ia de mesa em mesa. Chegou à nossa. Sarah deu um sorriso de prazer. Era uma filha dos anos 60. Apertei a mão dele.
â Oi, baby â eu disse.
A casa começava a lotar rapidamente. Eu não conhecia a maioria das pessoas. Acenava constantemente ao garçom para trazer mais vinho. Ele terminou trazendo uma garrafa inteira, e a pÎs na mesa.
â Quando acabarem essa, trago outra.
â Obrigado, cara...
Sarah embrulhara um presentinho para Harry Friedman. Eu o tinha no colo.
Jon chegou e sentou-se Ă nossa mesa.
â Estou feliz por vocĂȘ e Sarah terem podido vir â disse. â Veja, estĂĄ enchendo, este lugar estĂĄ cheio de gĂąngsters e matadores, os piores!
Ele adorava aquilo. Tinha alguma imaginação. Isso o ajudava a atravessar os dias e as noites.
EntĂŁo surgiu um sujeito de aparĂȘncia muito importante. Ouvi alguns aplausos.
Saltei de pé com o presente de aniversårio. Me aproximei dele.
â Sr. Friedman, feliz...
Jon correu a me agarrar por detrĂĄs. Me puxou de volta Ă mesa.
â NĂŁo! NĂŁo! Esse nĂŁo Ă© Friedman! Ă o Fischman!
â Oh...
Sentei-me.
Notei Victor Norman me observando. Imaginei que desistisse dentro de pouco tempo. Quando tornei a olhar, ele ainda me encarava. Me olhava como se nĂŁo acreditasse nos prĂłprios olhos.
â Tudo bem, Victor â eu gritei â, e daĂ se eu faço cocĂŽ nas calças? Quer fazer disso uma Guerra Mundial?
Ele desviou o olhar.
Eu me levantei e procurei o banheiro dos homens.
Ao sair de lå, me perdi e entrei na cozinha. Encontrei um ajudante de garçom fumando um cigarro. Meti a mão na carteira e puxei uma nota de dez dólares. Coloquei-a no bolso da camisa dele.
â NĂŁo posso aceitar, senhor.
â Por que nĂŁo?
â NĂŁo posso.
â Todo mundo recebe gorjetas. Por que nĂŁo o ajudante de garçom? Eu sempre quis ser um ajudante de garçom.
Afastei-me, tornei a encontrar a sala principal e a mesa.
Quando me sentei, Sarah se curvou para mim e sussurrou:
â Victor Norman veio aqui quando vocĂȘ saiu. Disse que foi muito legal de vocĂȘ nĂŁo falar nada da literatura dele.
â Fui bom, nĂŁo fui, Sarah?
â Foi.
â NĂŁo fui um bom menino?
â Foi.
Olhei para Victor Norman, atraindo sua atenção. Fiz-lhe um aceno de cabeça, pisquei o olho.
Nesse momento entrava o verdadeiro Harry Friedman. Algumas pessoas se levantaram e aplaudiram. Outras pareciam entediadas.
Friedman sentou-se Ă sua mesa e serviu-se de comida. Massa. A massa correu a roda. Harry Friedman recebeu a sua e atacou-a logo. Parecia um bom garfo. Era largo, sem dĂșvida. Usava um terno velho, os sapatos gastos. Cabeça grande, bochechudo. Enfiava a massa naquelas bochechas. Tinha grandes olhos redondos, olhos tristes e cheios de desconfiança. Ai, viver no mundo! Faltava um botĂŁo da camisa branca amassada, perto da barriga, que se estufava para fora. Parecia um bebezĂŁo que de algum modo se soltara, crescera depressa e quase se tornara um homem. Tinha charme, mas podia ser perigoso acreditar naquele charme â ele seria usado contra a gente. NĂŁo usava gravata. Feliz aniversĂĄrio, Harry Friedman!
Surgiu uma jovem vestida de policial. Encaminhou-se diretamente para a mesa dele.
â VOCĂ ESTĂ PRESO! â gritou.
Harry Friedman parou de comer e sorriu, os lĂĄbios molhados de massa.
A policial tirou o casaco e a blusa. Tinha seios enormes. Balançou-os debaixo do nariz de Harry Friedman.
â VOCĂ ESTĂ PRESO â gritou.
Todo mundo aplaudiu. NĂŁo sei por quĂȘ.
Friedman fez sinal à policial para que se abaixasse. Ela se abaixou e ele sussurrou-lhe alguma coisa no ouvido. Ninguém soube o que era.
Me leve pra sua casa. Vamos ver o que acontece?
Esqueceu seu cassetete. Cuido disso? VocĂȘ vem me ver. Te levo no cinema?
A policial tornou a vestir a blusa, o casaco, e se mandou.
As pessoas aproximavam-se da mesa de Friedman e diziam-lhe coisinhas. Ele as olhava como se nĂŁo soubesse quem eram. Em breve acabara de comer e bebia vinho. Manejava bem o vinho. Gostei disso.
Realmente tinha um fraco por vinho. Depois de algum tempo, saiu de mesa em mesa, curvando-se, falando com as pessoas.
â Nossa â eu disse a Sarah â, veja sĂł aquilo!
â QuĂȘ?
â Ele estĂĄ com um pedaço de massa num dos cantos da boca e ninguĂ©m lhe diz nada. EstĂĄ ali pendurado!
â Estou vendo! Estou vendo! â disse Jon.
Harry Friedman continuava indo de mesa em mesa, curvando-se, falando. Ninguém o avisava.
Finalmente, ele se aproximou. Estava mais ou menos a uma mesa da nossa quando eu me levantei e me aproximei dele.
â Sr. Friedman â disse.
Ele me olhou com aquele rosto de bebĂȘ monstruoso.
â Sim?
â Fique parado.
Estendi a mĂŁo, peguei o fiapo de massa e puxei. A coisa se soltou.
â O senhor estava andando por aĂ com isso pendurado. Eu nĂŁo aguentava mais.
â Obrigado â ele disse.
Voltei pra minha mesa.
â Bem, bem â perguntou Jon â, que acha dele?
â Acho ele um encanto.
â Eu te disse. NĂŁo conheci ninguĂ©m como ele depois de Lido Mamin...
â De qualquer modo â disse Sarah â, foi bacana da sua parte tirar a massa da cara dele, jĂĄ que ninguĂ©m mais tinha coragem de fazer isso. Foi muito bacana.
â Obrigado, eu sou um cara muito bacana, na verdade.
â Oh, Ă©? Que mais vocĂȘ fez de bacana ultimamente?
Nossa garrafa de vinho estava vazia. Chamei o garçom. Ele franziu o cenho para mim e adiantou-se com outra garrafa.
E nĂŁo consegui pensar em nada bacana que tivesse feito. Ultimamente.
â Hollywood
como um gato
que saltarĂĄ sobre a
cama
sinto terrivelmente por
minha esposa
ela verĂĄ este
corpo
duro e
branco
vai sacudi-lo uma vez, depois
quem sabe
outra:
âHank!â
Hank nĂŁo
responderĂĄ.
nĂŁo Ă© minha morte o que
me preocupa, Ă© minha mulher
abandonada com este
monte de
nada.
quero
no entanto
que ela saiba
que todas as noites
dormindo
ao seu lado
que mesmo as discussÔes
inĂșteis
sempre foram
esplĂȘndidas
e que as palavras
difĂceis
que sempre temi
dizer
podem agora ser
ditas:
eu te
amo.
Chegamos um pouco atrasados para a festa, mas ainda não havia muita gente. Victor Norman sentava-se a algumas mesas da nossa. Depois que Sarah e eu nos sentamos, apareceu o garçom com nosso vinho. Vinho branco. Bem, era de graça.
Esvaziei meu copo e fiz sinal com a cabeça, chamando o garçom para tornar a enchĂȘ-lo.
Percebi que Victor me observava.
O pessoal ia chegando aos poucos. Vi o famoso ator do bronzeado perpétuo. Soubera que ele ia a quase todas as festas de Hollywood, em toda parte.
Sarah me deu uma cutucada. Era Jim Serry, o velho guru da droga da década de 60. Também ele ia a muitas festas. Parecia cansado, triste, esgotado. Senti pena dele. Ia de mesa em mesa. Chegou à nossa. Sarah deu um sorriso de prazer. Era uma filha dos anos 60. Apertei a mão dele.
â Oi, baby â eu disse.
A casa começava a lotar rapidamente. Eu não conhecia a maioria das pessoas. Acenava constantemente ao garçom para trazer mais vinho. Ele terminou trazendo uma garrafa inteira, e a pÎs na mesa.
â Quando acabarem essa, trago outra.
â Obrigado, cara...
Sarah embrulhara um presentinho para Harry Friedman. Eu o tinha no colo.
Jon chegou e sentou-se Ă nossa mesa.
â Estou feliz por vocĂȘ e Sarah terem podido vir â disse. â Veja, estĂĄ enchendo, este lugar estĂĄ cheio de gĂąngsters e matadores, os piores!
Ele adorava aquilo. Tinha alguma imaginação. Isso o ajudava a atravessar os dias e as noites.
EntĂŁo surgiu um sujeito de aparĂȘncia muito importante. Ouvi alguns aplausos.
Saltei de pé com o presente de aniversårio. Me aproximei dele.
â Sr. Friedman, feliz...
Jon correu a me agarrar por detrĂĄs. Me puxou de volta Ă mesa.
â NĂŁo! NĂŁo! Esse nĂŁo Ă© Friedman! Ă o Fischman!
â Oh...
Sentei-me.
Notei Victor Norman me observando. Imaginei que desistisse dentro de pouco tempo. Quando tornei a olhar, ele ainda me encarava. Me olhava como se nĂŁo acreditasse nos prĂłprios olhos.
â Tudo bem, Victor â eu gritei â, e daĂ se eu faço cocĂŽ nas calças? Quer fazer disso uma Guerra Mundial?
Ele desviou o olhar.
Eu me levantei e procurei o banheiro dos homens.
Ao sair de lå, me perdi e entrei na cozinha. Encontrei um ajudante de garçom fumando um cigarro. Meti a mão na carteira e puxei uma nota de dez dólares. Coloquei-a no bolso da camisa dele.
â NĂŁo posso aceitar, senhor.
â Por que nĂŁo?
â NĂŁo posso.
â Todo mundo recebe gorjetas. Por que nĂŁo o ajudante de garçom? Eu sempre quis ser um ajudante de garçom.
Afastei-me, tornei a encontrar a sala principal e a mesa.
Quando me sentei, Sarah se curvou para mim e sussurrou:
â Victor Norman veio aqui quando vocĂȘ saiu. Disse que foi muito legal de vocĂȘ nĂŁo falar nada da literatura dele.
â Fui bom, nĂŁo fui, Sarah?
â Foi.
â NĂŁo fui um bom menino?
â Foi.
Olhei para Victor Norman, atraindo sua atenção. Fiz-lhe um aceno de cabeça, pisquei o olho.
Nesse momento entrava o verdadeiro Harry Friedman. Algumas pessoas se levantaram e aplaudiram. Outras pareciam entediadas.
Friedman sentou-se Ă sua mesa e serviu-se de comida. Massa. A massa correu a roda. Harry Friedman recebeu a sua e atacou-a logo. Parecia um bom garfo. Era largo, sem dĂșvida. Usava um terno velho, os sapatos gastos. Cabeça grande, bochechudo. Enfiava a massa naquelas bochechas. Tinha grandes olhos redondos, olhos tristes e cheios de desconfiança. Ai, viver no mundo! Faltava um botĂŁo da camisa branca amassada, perto da barriga, que se estufava para fora. Parecia um bebezĂŁo que de algum modo se soltara, crescera depressa e quase se tornara um homem. Tinha charme, mas podia ser perigoso acreditar naquele charme â ele seria usado contra a gente. NĂŁo usava gravata. Feliz aniversĂĄrio, Harry Friedman!
Surgiu uma jovem vestida de policial. Encaminhou-se diretamente para a mesa dele.
â VOCĂ ESTĂ PRESO! â gritou.
Harry Friedman parou de comer e sorriu, os lĂĄbios molhados de massa.
A policial tirou o casaco e a blusa. Tinha seios enormes. Balançou-os debaixo do nariz de Harry Friedman.
â VOCĂ ESTĂ PRESO â gritou.
Todo mundo aplaudiu. NĂŁo sei por quĂȘ.
Friedman fez sinal à policial para que se abaixasse. Ela se abaixou e ele sussurrou-lhe alguma coisa no ouvido. Ninguém soube o que era.
Me leve pra sua casa. Vamos ver o que acontece?
Esqueceu seu cassetete. Cuido disso? VocĂȘ vem me ver. Te levo no cinema?
A policial tornou a vestir a blusa, o casaco, e se mandou.
As pessoas aproximavam-se da mesa de Friedman e diziam-lhe coisinhas. Ele as olhava como se nĂŁo soubesse quem eram. Em breve acabara de comer e bebia vinho. Manejava bem o vinho. Gostei disso.
Realmente tinha um fraco por vinho. Depois de algum tempo, saiu de mesa em mesa, curvando-se, falando com as pessoas.
â Nossa â eu disse a Sarah â, veja sĂł aquilo!
â QuĂȘ?
â Ele estĂĄ com um pedaço de massa num dos cantos da boca e ninguĂ©m lhe diz nada. EstĂĄ ali pendurado!
â Estou vendo! Estou vendo! â disse Jon.
Harry Friedman continuava indo de mesa em mesa, curvando-se, falando. Ninguém o avisava.
Finalmente, ele se aproximou. Estava mais ou menos a uma mesa da nossa quando eu me levantei e me aproximei dele.
â Sr. Friedman â disse.
Ele me olhou com aquele rosto de bebĂȘ monstruoso.
â Sim?
â Fique parado.
Estendi a mĂŁo, peguei o fiapo de massa e puxei. A coisa se soltou.
â O senhor estava andando por aĂ com isso pendurado. Eu nĂŁo aguentava mais.
â Obrigado â ele disse.
Voltei pra minha mesa.
â Bem, bem â perguntou Jon â, que acha dele?
â Acho ele um encanto.
â Eu te disse. NĂŁo conheci ninguĂ©m como ele depois de Lido Mamin...
â De qualquer modo â disse Sarah â, foi bacana da sua parte tirar a massa da cara dele, jĂĄ que ninguĂ©m mais tinha coragem de fazer isso. Foi muito bacana.
â Obrigado, eu sou um cara muito bacana, na verdade.
â Oh, Ă©? Que mais vocĂȘ fez de bacana ultimamente?
Nossa garrafa de vinho estava vazia. Chamei o garçom. Ele franziu o cenho para mim e adiantou-se com outra garrafa.
E nĂŁo consegui pensar em nada bacana que tivesse feito. Ultimamente.
â Hollywood
Conselho Amigável Para Muitos Jovens
VĂĄ para o Tibet.
Monte em um camelo.
Leia a bĂblia.
Pinte seus sapatos de azul.
Deixe a barba crescer.
DĂȘ a volta ao mundo numa canoa de papel.
Assine The Saturday Evening Post.
Mastigue apenas com o lado esquerdo da boca.
Case-se com uma perneta e se barbeie com uma navalha.
E entalhe seu nome no braço dela.
Escove os dentes com gasolina.
Durma o dia inteiro e suba em ĂĄrvores Ă noite.
Seja um monge e beba chumbo grosso e cerveja.
Mantenha sua cabeça dentro dâĂĄgua e toque violino.
Faça uma dança do ventre diante de velas cor-de-rosa.
Mate seu cachorro.
Concorra Ă prefeitura.
Viva num barril.
Rompa sua cabeça com uma machadinha.
Plante tulipas sob a chuva.
Mas nĂŁo escreva poesia.
Para acalmar Lydia, concordei em ir atĂ© Muleshead, Utah. Sua irmĂŁ estava acampando nas montanhas. As irmĂŁs eram na verdade donas de boa parte daquelas terras. Haviam-nas herdado do pai. Glendoline, uma das irmĂŁs, tinha uma barraca montada na floresta. Ela estava escrevendo um romance, A mulher selvagem das montanhas. As outras irmĂŁs chegariam qualquer dia desses. Lydia e eu chegamos primeiro. TĂnhamos uma barraca pequena. Arrastamo-nos para dentro dela, seguidos pelos mosquitos. Foi um negĂłcio pavoroso.
Na manhĂŁ seguinte nos sentamos ao redor da fogueira. Glendoline e Lydia esquentaram o cafĂ© da manhĂŁ. Eu tinha gastado quarenta pratas em mercadorias que incluĂam uma quantidade razoĂĄvel de garrafas de cerveja. Mantinha-as geladas numa fonte da montanha. Terminamos o cafĂ©. Ajudei com os pratos e entĂŁo Glendoline trouxe sua novela e começou a lĂȘ-la para nĂłs. NĂŁo era de todo mĂĄ, mas estava longe de ser um texto profissional e precisava de muito polimento. Glendoline supunha que os leitores estivessem tĂŁo fascinados quanto ela por sua prĂłpria vida â o que era um erro fatal. Os outros erros de mesma natureza que ela cometera eram numerosos demais para mencionar.
Caminhei atĂ© a fonte e voltei com trĂȘs garrafas de cerveja. As garotas disseram nĂŁo, nĂŁo queriam beber. Eram bastante contrĂĄrias Ă cerveja. Discutimos o romance de Glendoline. Me dei conta de que qualquer pessoa capaz de ler seu romance em voz alta para outras devia ser posta sob suspeita. Se aquilo nĂŁo era o velho beijo da morte, nĂŁo sei mais o que poderia ser.
A conversa mudou de rumo, e as garotas passaram a falar sobre homens, festas, dança, e sexo. Glendoline tinha uma voz alta e esganiçada e ria de um modo nervoso e constante. Ela jå ia na metade dos quarenta, era gorducha e um tanto sebosa. Além disso, assim como eu, ela era simplesmente feia.
Glendoline deve ter falado por mais de uma hora sem parar, exclusivamente sobre sexo. Comecei a ficar tonto. Ela gesticulava com os braços acima da cabeça:
â SOU A MULHER SELVAGEM DAS MONTANHAS! Ă, ONDE ESTĂ O HOMEM, Ă, ONDE ESTĂ O HOMEM, O HOMEM DE VERDADE QUE TERĂ CORAGEM DE ME PEGAR?
Bem, ele certamente nĂŁo estaria por aqui, pensei.
Olhei para Lydia.
â Vamos dar uma caminhada.
â NĂŁo â ela disse â, quero ler este livro. â Chamava-se Amor e orgasmo: um guia revolucionĂĄrio para a realização sexual.
â Tudo bem â eu disse â, vou dar uma caminhada entĂŁo.
Caminhei atĂ© a fonte da montanha. Apanhei mais uma cerveja, abri a tampinha e me sentei por ali, bebendo. Eu estava preso no meio das montanhas e da floresta com duas mulheres loucas. Elas esvaziavam toda alegria que havia numa trepada por nĂŁo falarem de outra coisa o tempo todo. Eu tambĂ©m gostava de foder, mas nĂŁo fazia disso minha religiĂŁo. Havia uma sĂ©rie de coisas ridĂculas e ao mesmo trĂĄgicas sobre o assunto. As pessoas pareciam ser incapazes de lidar com isso. EntĂŁo transformaram o negĂłcio num passatempo. Um passatempo capaz de destruir pessoas.
O principal a fazer, decidi, era encontrar a mulher certa. Mas como? Tinha um caderninho vermelho comigo e uma caneta. Rabisquei um poema meditativo numa das folhas. Então caminhei em direção ao lago. Vance Pastures era o nome do lugar. As irmãs eram donas de quase toda a terra. Eu precisava dar uma cagada. Baixei as calças e me acocorei no meio do mato, cercado por moscas e mosquitos. Como seria bom poder contar com os confortos da cidade. Tive que me limpar com umas folhas. Caminhei até o lago e meti um pé na ågua. Estava fria como gelo.
Seja homem, seu velho. Entre.
Minha pele era branca como marfim. Me senti decrépito, muito flåcido. Entrei na ågua gelada. Fui submergindo até a cintura, então tomei bastante fÎlego e me lancei para frente. Eu tinha mergulhado por inteiro! A lama se ergueu do fundo do lago e entrou em meus ouvidos, na minha boca, grudou nos meus cabelos. Fiquei ali, em meio à ågua lamacenta, os dentes batendo.
Esperei por muito tempo até que a ågua voltasse a ficar limpa. Então retornei. Vesti minhas roupas e percorri o caminho ao longo do lago. Quando cheguei ao fim da margem, escutei um som que parecia o de uma cachoeira. Entrei na floresta, seguindo na direção do som. Tive que vencer algumas pedras através de um córrego. O som se tornava cada vez mais vivo. As moscas e os mosquitos fervilhavam ao meu redor. As moscas eram maiores e furiosas e famintas, muito maiores do que as moscas da cidade, além de saber reconhecer uma refeição quando avistavam uma.
Embrenhei-me na mata, avancei, e entĂŁo lĂĄ estava: minha primeira cachoeira de verdade. A ĂĄgua simplesmente brotava da montanha e corria sobre uma saliĂȘncia na pedra. Era uma coisa linda. A ĂĄgua nĂŁo parava de correr. Vinha de algum lugar. E corria para algum lugar. Havia trĂȘs ou quatro cĂłrregos que era bem provĂĄvel que desaguassem no lago.
Por fim, cansei de olhar a cachoeira e decidi voltar. Decidi, tambĂ©m, tomar um caminho diferente, um atalho. Abri caminho na direção oposta ao lago, para chegar mais rĂĄpido ao acampamento. Eu tinha noção de onde ele ficava. Trazia ainda comigo o meu caderninho vermelho. Parei e escrevi outro poema, menos meditativo, e entĂŁo prossegui. Continuei caminhando. Nada do acampamento. Caminhei um pouco mais. Olhei em volta Ă procura do lago. NĂŁo conseguia encontrĂĄ-lo, nĂŁo sabia mais onde ele estava. De sĂșbito, percebi: eu estava PERDIDO. Aquelas vadias taradas tinham me deixado louco e agora eu estava PERDIDO. Olhei em volta. Dava para ver as montanhas no horizonte e ao meu redor ĂĄrvores e mato. NĂŁo havia nenhum centro, nenhum ponto de partida, nenhuma conexĂŁo entre nada. Senti medo, medo de verdade. Por que fui deixar que elas me tirassem da minha cidade, da minha Los Angeles querida? LĂĄ um homem poderia chamar um tĂĄxi, dar um telefonema. Havia soluçÔes razoĂĄveis para problemas razoĂĄveis.
Vance Pastures se estendia Ă minha volta por quilĂŽmetros e quilĂŽmetros. Joguei longe meu caderninho. Que modo para um escritor morrer! JĂĄ podia ver a notĂcia no jornal:
HENRY CHINASKI, POETA MENOR,
ENCONTRADO MORTO NAS MATAS DE UTAH
Henry Chinaski, ex-funcionĂĄrio dos Correios que virou escritor, foi encontrado em estado de decomposição na tarde de ontem pelo guarda florestal W. K. Brooks Jr. Perto de seu corpo tambĂ©m foi encontrado um pequeno caderno vermelho, que continha evidentemente os Ășltimos escritos do sr. Chinaski.
Segui caminhando. Eu estava numa årea pantanosa. A todo momento, uma de minhas pernas afundava até o joelho no lodaçal, e eu tinha que dar um jeito de libertå-la.
Acabei topando com uma cerca de arames farpados. Soube de imediato que eu nĂŁo devia pular aquela cerca. Sabia que era a coisa errada a fazer, mas parecia nĂŁo haver alternativa. Escalei a cerca e fiquei parado lĂĄ em cima, fiz uma concha com minhas mĂŁos ao redor da boca e gritei:
â LYDIA!
NĂŁo houve resposta.
Tentei novamente:
â LYDIA!
Minha voz soou bastante chorosa. A voz de um covarde.
Prossegui. Seria bom, pensei, estar de novo com as irmãs, ouvindo-as falar sobre sexo e homens e sair pra dançar e festas. Seria bom ouvir a voz de Glendoline. Seria bom passar minha mão pelos longos cabelos de Lydia. De coração, eu a levaria a todas as festas da cidade. Chegaria mesmo a dançar com todas as mulheres e faria piadas maravilhosas sobre todo e qualquer assunto. Suportaria toda a bobajada que escorre das bocas com um sorriso. Quase podia me ouvir:
â Ei, essa mĂșsica Ă© Ăłtima para dançar! Quem estĂĄ querendo ir embora? Quem quer botar pra quebrar na pista de dança?
Segui caminhando através do lodo. Finalmente cheguei à terra seca. Depois, encontrei uma estrada. Não era mais que uma estrada velha e suja, mas parecia boa. Dava pra ver algumas marcas de pneu e de cascos de animais. Havia até mesmo alguns postes que levavam eletricidade para algum lugar. Tudo o que eu tinha a fazer era seguir esses fios. Caminhei ao longo da estrada. O sol ia alto no céu, devia ser perto de meio-dia. Continuei me arrastando, sentindo-me um otårio.
Mais adiante avistei um portĂŁo do outro lado da estrada que estava trancado. O que significava aquilo? Havia uma pequena entrada lateral. Era evidente que o portĂŁo era de uma propriedade de gado. Mas onde estavam os animais? Onde estava o dono da fazenda? Talvez ele sĂł aparecesse a cada seis meses.
O topo da minha cabeça começou a doer. Levei uma das mãos até ali e senti o local onde trinta anos antes, num bar da Filadélfia, eu havia tomado uma cacetada. A cicatriz nunca desapareceu por completo. Agora, tostada ao sol, a cicatriz havia inchado. Parecia um pequeno chifre. Arranquei um pedaço do tecido que a cobria e joguei na estrada.
Caminhei por mais uma hora, então decidi voltar. Isso significava ter que refazer todo o caminho percorrido, mas ainda assim me pareceu a coisa certa a fazer. Tirei minha camisa e a enrolei na cabeça. De vez em quando dava uma parada para gritar:
â LYDIA!
NĂŁo havia resposta.
Algum tempo depois cheguei de novo ao portĂŁo. Tudo o que eu precisava fazer era contornĂĄ-lo, mas havia alguma coisa no caminho. Ficava na frente do portĂŁo, a uns cinco metros de onde eu estava. Era um pequeno veado, uma gazela, algo assim.
Movi-me devagar em sua direção. O bicho não saiu do lugar. Serå que me deixaria passar? Não parecia ter medo de mim. Supus que ele tivesse percebido minha confusão, minha covardia. Aproximei-me mais e mais. Ele não iria sair do caminho. Tinha olhos grandes e castanhos, olhos mais belos do que os de qualquer mulher que eu jå tenha visto. Era inacreditåvel. Eståvamos a um metro de distùncia, e eu prestes a recuar, quando ele se afastou. Correu para a mata além da estrada. Estava em ótima forma; era capaz de correr de verdade.
Enquanto seguia caminhando pela margem da estrada ouvi o som de ĂĄgua corrente. Eu precisava de ĂĄgua. NĂŁo se podia viver por muito tempo sem ĂĄgua. Abandonei a estrada e segui na direção do som da ĂĄgua corrente. Havia um pequeno monte coberto de grama e, assim que o venci, lĂĄ estava: ĂĄgua corrente, jorrando de canos de cimento para dentro de uma represa e entĂŁo para um tipo de reservatĂłrio. Sentei-me Ă beira do reservatĂłrio e tirei meus sapatos e minhas meias, arregacei as calças e enfiei minhas pernas na ĂĄgua. EntĂŁo despejei ĂĄgua sobre minha cabeça. Depois a bebi â mas nĂŁo muito ou muito depressa â, do mesmo modo como vi fazerem nos filmes.
Depois de me recuperar um pouco, reparei num pĂer que se projetava sobre o reservatĂłrio. Caminhei atĂ© ali e me deparei com uma grande caixa de metal, fixada num dos lados do pĂer. Estava trancada com um cadeado. Era bem provĂĄvel que houvesse um telefone ali dentro! Eu podia ligar e pedir ajuda!
Fui em busca de uma pedra de bom tamanho e comecei a golpear o cadeado com ela. A tranca nĂŁo cedia. O que Jack London faria? O que Hemingway faria? Jean Genet?
Continuei golpeando o cadeado com a pedra. Ăs vezes eu errava o golpe e minha mĂŁo atingia o cadeado ou a prĂłpria caixa de metal. A pele lacerada, o sangue escorrendo. Reuni minhas forças e disparei um Ășltimo golpe. O cadeado abriu. Retirei-o e abri a caixa. NĂŁo tinha nenhum telefone lĂĄ dentro. Havia uma sĂ©rie de comandos e alguns cabos de grosso calibre. Pus minha mĂŁo ali, toquei num dos fios e levei um choque terrĂvel. EntĂŁo acionei um dos comandos. Escutei o rugir das ĂĄguas. De trĂȘs ou quatro buracos que estavam na face de concreto da represa jorraram jatos brancos e gigantescos de ĂĄgua. Puxei outro dos comandos. Mais trĂȘs ou quatro buracos se abriram, liberando toneladas de ĂĄgua. Puxei um terceiro comando, e a represa inteira começou a soltar ĂĄgua. Fiquei ali parado, assistindo a ĂĄgua se espalhar. Talvez eu pudesse dar inĂcio a uma inundação, de modo que os caubĂłis em seus cavalos ou em suas pequenas e robustas picapes viessem me resgatar. JĂĄ podia ver a manchete:
HENRY CHINASKI, POETA MENOR, PROVOCA ALAGAMENTO NO INTERIOR DE UTAH PARA SALVAR SEU DELICADO RABO DE HOMEM DA CIDADE GRANDE.
Decidi que isso estava mal. Reverti todos os comandos para a posição normal, fechei a caixa de metal e coloquei o cadeado rompido de volta no seu lugar.
Deixei o reservatório e encontrei outra estrada pelo caminho, que passei a seguir. Esta, porém, parecia ser mais utilizada que a anterior. Avancei por ali. Nunca antes me sentira tão cansado. Eu jå não enxergava mais nada. De repente uma garotinha de cinco anos caminhava em minha direção. Trazia um vestidinho azul e sapatos brancos. Pareceu se assustar ao me ver. Tentei, enquanto me aproximava dela cada vez mais, parecer alguém agradåvel e digno de confiança.
â NĂŁo fuja, garotinha. NĂŁo vou machucar vocĂȘ. ESTOU PERDIDO! Onde estĂŁo seus pais? Garotinha, me leve atĂ© seus pais!
A garotinha apontou numa direção. Vi um trailer e um carro estacionados logo à frente.
â EI, ESTOU PERDIDO! â gritei. â POR DEUS, QUE ALEGRIA VER VOCĂ.
Lydia contornou o trailer. Seu cabelo estava cheio de bobes vermelhos.
â Vamos lĂĄ, garoto da cidade â ela disse. â Me siga atĂ© em casa.
â Estou tĂŁo feliz em ver vocĂȘ, baby, me beija!
â NĂŁo. Me siga.
Lydia disparou correndo, uns dez metros na minha frente. Era difĂcil acompanhĂĄ-la.
â Perguntei pro pessoal aĂ se eles tinham visto um garoto da cidade nas redondezas â ela gritou, por sobre o ombro. â E eles disseram: nĂŁo.
â Lydia, eu te amo!
â Vamos, vocĂȘ parece uma lesma!
â Espere, Lydia, espere!
Ela pulou uma cerca de arames farpados. Eu nĂŁo consegui. Fiquei preso. NĂŁo podia me mover. Era como uma vaca presa.
â LYDIA!
Ela retornou com seus bobes vermelhos e me ajudou a me livrar dos arames farpados.
â Eu segui vocĂȘ. Encontrei o seu caderninho vermelho. VocĂȘ se perdeu de propĂłsito sĂł porque estava puto da cara.
â NĂŁo, eu me perdi por causa da minha ignorĂąncia, do meu medo. NĂŁo sou uma pessoa completa: sou uma dessas pessoas incapazes da cidade. Sou mais ou menos como um monte de merda fracassada, nĂŁo tenho absolutamente nada a oferecer.
â Jesus â ela disse â, vocĂȘ acha, por acaso, que eu nĂŁo sei disso?
Libertou-me do Ășltimo arame. Lancei-me atrĂĄs dela. Eu estava outra vez com Lydia.
â Mulheres
Monte em um camelo.
Leia a bĂblia.
Pinte seus sapatos de azul.
Deixe a barba crescer.
DĂȘ a volta ao mundo numa canoa de papel.
Assine The Saturday Evening Post.
Mastigue apenas com o lado esquerdo da boca.
Case-se com uma perneta e se barbeie com uma navalha.
E entalhe seu nome no braço dela.
Escove os dentes com gasolina.
Durma o dia inteiro e suba em ĂĄrvores Ă noite.
Seja um monge e beba chumbo grosso e cerveja.
Mantenha sua cabeça dentro dâĂĄgua e toque violino.
Faça uma dança do ventre diante de velas cor-de-rosa.
Mate seu cachorro.
Concorra Ă prefeitura.
Viva num barril.
Rompa sua cabeça com uma machadinha.
Plante tulipas sob a chuva.
Mas nĂŁo escreva poesia.
Para acalmar Lydia, concordei em ir atĂ© Muleshead, Utah. Sua irmĂŁ estava acampando nas montanhas. As irmĂŁs eram na verdade donas de boa parte daquelas terras. Haviam-nas herdado do pai. Glendoline, uma das irmĂŁs, tinha uma barraca montada na floresta. Ela estava escrevendo um romance, A mulher selvagem das montanhas. As outras irmĂŁs chegariam qualquer dia desses. Lydia e eu chegamos primeiro. TĂnhamos uma barraca pequena. Arrastamo-nos para dentro dela, seguidos pelos mosquitos. Foi um negĂłcio pavoroso.
Na manhĂŁ seguinte nos sentamos ao redor da fogueira. Glendoline e Lydia esquentaram o cafĂ© da manhĂŁ. Eu tinha gastado quarenta pratas em mercadorias que incluĂam uma quantidade razoĂĄvel de garrafas de cerveja. Mantinha-as geladas numa fonte da montanha. Terminamos o cafĂ©. Ajudei com os pratos e entĂŁo Glendoline trouxe sua novela e começou a lĂȘ-la para nĂłs. NĂŁo era de todo mĂĄ, mas estava longe de ser um texto profissional e precisava de muito polimento. Glendoline supunha que os leitores estivessem tĂŁo fascinados quanto ela por sua prĂłpria vida â o que era um erro fatal. Os outros erros de mesma natureza que ela cometera eram numerosos demais para mencionar.
Caminhei atĂ© a fonte e voltei com trĂȘs garrafas de cerveja. As garotas disseram nĂŁo, nĂŁo queriam beber. Eram bastante contrĂĄrias Ă cerveja. Discutimos o romance de Glendoline. Me dei conta de que qualquer pessoa capaz de ler seu romance em voz alta para outras devia ser posta sob suspeita. Se aquilo nĂŁo era o velho beijo da morte, nĂŁo sei mais o que poderia ser.
A conversa mudou de rumo, e as garotas passaram a falar sobre homens, festas, dança, e sexo. Glendoline tinha uma voz alta e esganiçada e ria de um modo nervoso e constante. Ela jå ia na metade dos quarenta, era gorducha e um tanto sebosa. Além disso, assim como eu, ela era simplesmente feia.
Glendoline deve ter falado por mais de uma hora sem parar, exclusivamente sobre sexo. Comecei a ficar tonto. Ela gesticulava com os braços acima da cabeça:
â SOU A MULHER SELVAGEM DAS MONTANHAS! Ă, ONDE ESTĂ O HOMEM, Ă, ONDE ESTĂ O HOMEM, O HOMEM DE VERDADE QUE TERĂ CORAGEM DE ME PEGAR?
Bem, ele certamente nĂŁo estaria por aqui, pensei.
Olhei para Lydia.
â Vamos dar uma caminhada.
â NĂŁo â ela disse â, quero ler este livro. â Chamava-se Amor e orgasmo: um guia revolucionĂĄrio para a realização sexual.
â Tudo bem â eu disse â, vou dar uma caminhada entĂŁo.
Caminhei atĂ© a fonte da montanha. Apanhei mais uma cerveja, abri a tampinha e me sentei por ali, bebendo. Eu estava preso no meio das montanhas e da floresta com duas mulheres loucas. Elas esvaziavam toda alegria que havia numa trepada por nĂŁo falarem de outra coisa o tempo todo. Eu tambĂ©m gostava de foder, mas nĂŁo fazia disso minha religiĂŁo. Havia uma sĂ©rie de coisas ridĂculas e ao mesmo trĂĄgicas sobre o assunto. As pessoas pareciam ser incapazes de lidar com isso. EntĂŁo transformaram o negĂłcio num passatempo. Um passatempo capaz de destruir pessoas.
O principal a fazer, decidi, era encontrar a mulher certa. Mas como? Tinha um caderninho vermelho comigo e uma caneta. Rabisquei um poema meditativo numa das folhas. Então caminhei em direção ao lago. Vance Pastures era o nome do lugar. As irmãs eram donas de quase toda a terra. Eu precisava dar uma cagada. Baixei as calças e me acocorei no meio do mato, cercado por moscas e mosquitos. Como seria bom poder contar com os confortos da cidade. Tive que me limpar com umas folhas. Caminhei até o lago e meti um pé na ågua. Estava fria como gelo.
Seja homem, seu velho. Entre.
Minha pele era branca como marfim. Me senti decrépito, muito flåcido. Entrei na ågua gelada. Fui submergindo até a cintura, então tomei bastante fÎlego e me lancei para frente. Eu tinha mergulhado por inteiro! A lama se ergueu do fundo do lago e entrou em meus ouvidos, na minha boca, grudou nos meus cabelos. Fiquei ali, em meio à ågua lamacenta, os dentes batendo.
Esperei por muito tempo até que a ågua voltasse a ficar limpa. Então retornei. Vesti minhas roupas e percorri o caminho ao longo do lago. Quando cheguei ao fim da margem, escutei um som que parecia o de uma cachoeira. Entrei na floresta, seguindo na direção do som. Tive que vencer algumas pedras através de um córrego. O som se tornava cada vez mais vivo. As moscas e os mosquitos fervilhavam ao meu redor. As moscas eram maiores e furiosas e famintas, muito maiores do que as moscas da cidade, além de saber reconhecer uma refeição quando avistavam uma.
Embrenhei-me na mata, avancei, e entĂŁo lĂĄ estava: minha primeira cachoeira de verdade. A ĂĄgua simplesmente brotava da montanha e corria sobre uma saliĂȘncia na pedra. Era uma coisa linda. A ĂĄgua nĂŁo parava de correr. Vinha de algum lugar. E corria para algum lugar. Havia trĂȘs ou quatro cĂłrregos que era bem provĂĄvel que desaguassem no lago.
Por fim, cansei de olhar a cachoeira e decidi voltar. Decidi, tambĂ©m, tomar um caminho diferente, um atalho. Abri caminho na direção oposta ao lago, para chegar mais rĂĄpido ao acampamento. Eu tinha noção de onde ele ficava. Trazia ainda comigo o meu caderninho vermelho. Parei e escrevi outro poema, menos meditativo, e entĂŁo prossegui. Continuei caminhando. Nada do acampamento. Caminhei um pouco mais. Olhei em volta Ă procura do lago. NĂŁo conseguia encontrĂĄ-lo, nĂŁo sabia mais onde ele estava. De sĂșbito, percebi: eu estava PERDIDO. Aquelas vadias taradas tinham me deixado louco e agora eu estava PERDIDO. Olhei em volta. Dava para ver as montanhas no horizonte e ao meu redor ĂĄrvores e mato. NĂŁo havia nenhum centro, nenhum ponto de partida, nenhuma conexĂŁo entre nada. Senti medo, medo de verdade. Por que fui deixar que elas me tirassem da minha cidade, da minha Los Angeles querida? LĂĄ um homem poderia chamar um tĂĄxi, dar um telefonema. Havia soluçÔes razoĂĄveis para problemas razoĂĄveis.
Vance Pastures se estendia Ă minha volta por quilĂŽmetros e quilĂŽmetros. Joguei longe meu caderninho. Que modo para um escritor morrer! JĂĄ podia ver a notĂcia no jornal:
HENRY CHINASKI, POETA MENOR,
ENCONTRADO MORTO NAS MATAS DE UTAH
Henry Chinaski, ex-funcionĂĄrio dos Correios que virou escritor, foi encontrado em estado de decomposição na tarde de ontem pelo guarda florestal W. K. Brooks Jr. Perto de seu corpo tambĂ©m foi encontrado um pequeno caderno vermelho, que continha evidentemente os Ășltimos escritos do sr. Chinaski.
Segui caminhando. Eu estava numa årea pantanosa. A todo momento, uma de minhas pernas afundava até o joelho no lodaçal, e eu tinha que dar um jeito de libertå-la.
Acabei topando com uma cerca de arames farpados. Soube de imediato que eu nĂŁo devia pular aquela cerca. Sabia que era a coisa errada a fazer, mas parecia nĂŁo haver alternativa. Escalei a cerca e fiquei parado lĂĄ em cima, fiz uma concha com minhas mĂŁos ao redor da boca e gritei:
â LYDIA!
NĂŁo houve resposta.
Tentei novamente:
â LYDIA!
Minha voz soou bastante chorosa. A voz de um covarde.
Prossegui. Seria bom, pensei, estar de novo com as irmãs, ouvindo-as falar sobre sexo e homens e sair pra dançar e festas. Seria bom ouvir a voz de Glendoline. Seria bom passar minha mão pelos longos cabelos de Lydia. De coração, eu a levaria a todas as festas da cidade. Chegaria mesmo a dançar com todas as mulheres e faria piadas maravilhosas sobre todo e qualquer assunto. Suportaria toda a bobajada que escorre das bocas com um sorriso. Quase podia me ouvir:
â Ei, essa mĂșsica Ă© Ăłtima para dançar! Quem estĂĄ querendo ir embora? Quem quer botar pra quebrar na pista de dança?
Segui caminhando através do lodo. Finalmente cheguei à terra seca. Depois, encontrei uma estrada. Não era mais que uma estrada velha e suja, mas parecia boa. Dava pra ver algumas marcas de pneu e de cascos de animais. Havia até mesmo alguns postes que levavam eletricidade para algum lugar. Tudo o que eu tinha a fazer era seguir esses fios. Caminhei ao longo da estrada. O sol ia alto no céu, devia ser perto de meio-dia. Continuei me arrastando, sentindo-me um otårio.
Mais adiante avistei um portĂŁo do outro lado da estrada que estava trancado. O que significava aquilo? Havia uma pequena entrada lateral. Era evidente que o portĂŁo era de uma propriedade de gado. Mas onde estavam os animais? Onde estava o dono da fazenda? Talvez ele sĂł aparecesse a cada seis meses.
O topo da minha cabeça começou a doer. Levei uma das mãos até ali e senti o local onde trinta anos antes, num bar da Filadélfia, eu havia tomado uma cacetada. A cicatriz nunca desapareceu por completo. Agora, tostada ao sol, a cicatriz havia inchado. Parecia um pequeno chifre. Arranquei um pedaço do tecido que a cobria e joguei na estrada.
Caminhei por mais uma hora, então decidi voltar. Isso significava ter que refazer todo o caminho percorrido, mas ainda assim me pareceu a coisa certa a fazer. Tirei minha camisa e a enrolei na cabeça. De vez em quando dava uma parada para gritar:
â LYDIA!
NĂŁo havia resposta.
Algum tempo depois cheguei de novo ao portĂŁo. Tudo o que eu precisava fazer era contornĂĄ-lo, mas havia alguma coisa no caminho. Ficava na frente do portĂŁo, a uns cinco metros de onde eu estava. Era um pequeno veado, uma gazela, algo assim.
Movi-me devagar em sua direção. O bicho não saiu do lugar. Serå que me deixaria passar? Não parecia ter medo de mim. Supus que ele tivesse percebido minha confusão, minha covardia. Aproximei-me mais e mais. Ele não iria sair do caminho. Tinha olhos grandes e castanhos, olhos mais belos do que os de qualquer mulher que eu jå tenha visto. Era inacreditåvel. Eståvamos a um metro de distùncia, e eu prestes a recuar, quando ele se afastou. Correu para a mata além da estrada. Estava em ótima forma; era capaz de correr de verdade.
Enquanto seguia caminhando pela margem da estrada ouvi o som de ĂĄgua corrente. Eu precisava de ĂĄgua. NĂŁo se podia viver por muito tempo sem ĂĄgua. Abandonei a estrada e segui na direção do som da ĂĄgua corrente. Havia um pequeno monte coberto de grama e, assim que o venci, lĂĄ estava: ĂĄgua corrente, jorrando de canos de cimento para dentro de uma represa e entĂŁo para um tipo de reservatĂłrio. Sentei-me Ă beira do reservatĂłrio e tirei meus sapatos e minhas meias, arregacei as calças e enfiei minhas pernas na ĂĄgua. EntĂŁo despejei ĂĄgua sobre minha cabeça. Depois a bebi â mas nĂŁo muito ou muito depressa â, do mesmo modo como vi fazerem nos filmes.
Depois de me recuperar um pouco, reparei num pĂer que se projetava sobre o reservatĂłrio. Caminhei atĂ© ali e me deparei com uma grande caixa de metal, fixada num dos lados do pĂer. Estava trancada com um cadeado. Era bem provĂĄvel que houvesse um telefone ali dentro! Eu podia ligar e pedir ajuda!
Fui em busca de uma pedra de bom tamanho e comecei a golpear o cadeado com ela. A tranca nĂŁo cedia. O que Jack London faria? O que Hemingway faria? Jean Genet?
Continuei golpeando o cadeado com a pedra. Ăs vezes eu errava o golpe e minha mĂŁo atingia o cadeado ou a prĂłpria caixa de metal. A pele lacerada, o sangue escorrendo. Reuni minhas forças e disparei um Ășltimo golpe. O cadeado abriu. Retirei-o e abri a caixa. NĂŁo tinha nenhum telefone lĂĄ dentro. Havia uma sĂ©rie de comandos e alguns cabos de grosso calibre. Pus minha mĂŁo ali, toquei num dos fios e levei um choque terrĂvel. EntĂŁo acionei um dos comandos. Escutei o rugir das ĂĄguas. De trĂȘs ou quatro buracos que estavam na face de concreto da represa jorraram jatos brancos e gigantescos de ĂĄgua. Puxei outro dos comandos. Mais trĂȘs ou quatro buracos se abriram, liberando toneladas de ĂĄgua. Puxei um terceiro comando, e a represa inteira começou a soltar ĂĄgua. Fiquei ali parado, assistindo a ĂĄgua se espalhar. Talvez eu pudesse dar inĂcio a uma inundação, de modo que os caubĂłis em seus cavalos ou em suas pequenas e robustas picapes viessem me resgatar. JĂĄ podia ver a manchete:
HENRY CHINASKI, POETA MENOR, PROVOCA ALAGAMENTO NO INTERIOR DE UTAH PARA SALVAR SEU DELICADO RABO DE HOMEM DA CIDADE GRANDE.
Decidi que isso estava mal. Reverti todos os comandos para a posição normal, fechei a caixa de metal e coloquei o cadeado rompido de volta no seu lugar.
Deixei o reservatório e encontrei outra estrada pelo caminho, que passei a seguir. Esta, porém, parecia ser mais utilizada que a anterior. Avancei por ali. Nunca antes me sentira tão cansado. Eu jå não enxergava mais nada. De repente uma garotinha de cinco anos caminhava em minha direção. Trazia um vestidinho azul e sapatos brancos. Pareceu se assustar ao me ver. Tentei, enquanto me aproximava dela cada vez mais, parecer alguém agradåvel e digno de confiança.
â NĂŁo fuja, garotinha. NĂŁo vou machucar vocĂȘ. ESTOU PERDIDO! Onde estĂŁo seus pais? Garotinha, me leve atĂ© seus pais!
A garotinha apontou numa direção. Vi um trailer e um carro estacionados logo à frente.
â EI, ESTOU PERDIDO! â gritei. â POR DEUS, QUE ALEGRIA VER VOCĂ.
Lydia contornou o trailer. Seu cabelo estava cheio de bobes vermelhos.
â Vamos lĂĄ, garoto da cidade â ela disse. â Me siga atĂ© em casa.
â Estou tĂŁo feliz em ver vocĂȘ, baby, me beija!
â NĂŁo. Me siga.
Lydia disparou correndo, uns dez metros na minha frente. Era difĂcil acompanhĂĄ-la.
â Perguntei pro pessoal aĂ se eles tinham visto um garoto da cidade nas redondezas â ela gritou, por sobre o ombro. â E eles disseram: nĂŁo.
â Lydia, eu te amo!
â Vamos, vocĂȘ parece uma lesma!
â Espere, Lydia, espere!
Ela pulou uma cerca de arames farpados. Eu nĂŁo consegui. Fiquei preso. NĂŁo podia me mover. Era como uma vaca presa.
â LYDIA!
Ela retornou com seus bobes vermelhos e me ajudou a me livrar dos arames farpados.
â Eu segui vocĂȘ. Encontrei o seu caderninho vermelho. VocĂȘ se perdeu de propĂłsito sĂł porque estava puto da cara.
â NĂŁo, eu me perdi por causa da minha ignorĂąncia, do meu medo. NĂŁo sou uma pessoa completa: sou uma dessas pessoas incapazes da cidade. Sou mais ou menos como um monte de merda fracassada, nĂŁo tenho absolutamente nada a oferecer.
â Jesus â ela disse â, vocĂȘ acha, por acaso, que eu nĂŁo sei disso?
Libertou-me do Ășltimo arame. Lancei-me atrĂĄs dela. Eu estava outra vez com Lydia.
â Mulheres
Consumação do Pesar
ainda escuto as montanhas
o modo como elas riem
de cima a baixo por seus perfis azuis
e mergulhando na ĂĄgua
os peixes lamentam
e toda a ĂĄgua
Ă© fruto de suas lĂĄgrimas.
escuto as ĂĄguas
nas noites de bebedeira
e a tristeza Ă© tanta que posso
ouvi-la em meu relĂłgio
transforma-se nos puxadores da minha cĂŽmoda
transforma-se no papel sobre o chĂŁo
transforma-se numa calçadeira
no bilhete da lavanderia
transforma-se
na fumaça do cigarro
escalando uma capela de videiras negras...
pouco importa
um pouquinho sĂł de amor nĂŁo Ă© tĂŁo mal assim
ou um pouquinho sĂł de vida
o que realmente importa
Ă© esperar entre paredes
eu nasci para isso
nasci para arrastar rosas pelas avenidas da morte.
Minha mĂŁe gritou ao abrir a porta.
â Filho, Ă© vocĂȘ, filho?
â Preciso dormir um pouco.
â Sua cama estĂĄ sempre pronta.
Segui até o quarto, me despi e deitei na cama. Fui acordado por volta das seis da tarde pela minha mãe.
â Seu pai estĂĄ em casa.
Levantei-me e comecei a me vestir. O jantar estava servido quando entrei na sala.
Meu pai era um homem grande, mais alto do que eu, e tinha os olhos castanhos. Os meus eram verdes. Seu nariz era largo demais e não havia como não reparar em suas orelhas: pareciam prestes a fugir de sua cabeça.
â Escute â ele disse â, se vocĂȘ quiser ficar por aqui, vou lhe cobrar pelo quarto, pela comida e mais o serviço de lavanderia. Quando vocĂȘ arranjar um trabalho, o que vocĂȘ nos deve serĂĄ subtraĂdo de seu salĂĄrio atĂ© que sua dĂvida conosco esteja encerrada.
Comemos em silĂȘncio.
Minha dĂvida com quarto, comida, roupa lavada etc. jĂĄ estava tĂŁo alta que foram precisos vĂĄrios salĂĄrios para liquidĂĄ-la. Assim que isso aconteceu, me mudei de imediato. Eu nĂŁo tinha condiçÔes de pagar os preços praticados lĂĄ em casa. Encontrei uma pensĂŁo prĂłxima ao trabalho. Fazer a mudança nĂŁo era difĂcil. Minhas coisas nĂŁo enchiam nem a metade de uma mala...
Mama Strader era minha senhoria, uma ruiva apagada de boa aparĂȘncia, muitos dentes de ouro e um namorado velhusco. Chamou-me na cozinha, logo na primeira manhĂŁ, e disse que me daria um copo de uĂsque se eu fosse lĂĄ fora alimentar as galinhas. Depois de cumprir a missĂŁo, sentei-me para beber com Mama e seu namorado, Al. Estava uma hora atrasado para o trabalho.
Na segunda noite, houve uma batida na minha porta. Era uma gorda jĂĄ entrada nos quarenta. Trazia uma garrafa de vinho.
â Moro num quarto do outro lado do corredor, me chamo Martha. VocĂȘ estĂĄ sempre escutando boa mĂșsica. Pensei em lhe trazer uma bebida.
Martha entrou. Vestia uma espécie de bata verde e, depois de alguns copos de vinho, começou a me mostrar suas pernas.
â Tenho pernas legais.
â Sou vidrado em pernas.
â Olhe mais pra cima.
Suas pernas eram muito brancas, gorduchas, flĂĄcidas, com veias roxas e protuberantes. Martha me contou sua histĂłria.
Era uma prostituta. Tinha percorrido todo o circuito dos bares. Sua principal fonte de renda era o dono de uma loja de departamentos.
â Ele me dĂĄ dinheiro. Vou atĂ© a loja dele e levo tudo o que quero. Os vendedores nĂŁo me incomodam. Ele disse pra me deixarem em paz. Ele nĂŁo quer que a mulher saiba que eu trepo muito melhor do que ela.
Martha se levantou e ligou o rĂĄdio. Alto.
â Sou uma Ăłtima dançarina â ela disse. â Veja como eu danço!
Ela girava dentro daquela barraca verde, dando chutes no ar. Estava longe de ser o que alardeava. Logo a bata passava da linha de sua cintura, e ela começou a balançar a bunda bem junto ao meu rosto. A calcinha rosa tinha um enorme furo sobre o glĂșteo direito. EntĂŁo a bata jĂĄ era, e ela ficou sĂł de calcinha. Logo todas as suas vestes estavam no chĂŁo, e ela seguiu com o nĂșmero. Seus pelos pubianos quase desapareciam debaixo da barriga frouxa, que nĂŁo parava de balançar.
O suor fazia com que sua maquiagem escorresse. Subitamente seus olhos se estreitaram. Eu estava sentado na beirada da cama. Ela se jogou sobre mim antes que eu pudesse reagir. Sua boca jĂĄ aberta foi pressionada contra a minha. Tinha gosto de cuspe e cebolas e vinho barato e (imaginei) dos espermas de quatrocentos homens. Enfiou sua lĂngua na minha boca. Estava grossa pela quantidade de saliva, o que me fez engasgar e empurrĂĄ-la para longe. Ela se pĂŽs de joelhos, baixou meu zĂper, e em um segundo meu pau frouxo estava em sua boca. Ela chupou e bateu. Martha usava uma pequena fita amarela em seu cabelo grisalho e curto. Tinha verrugas e grandes pintas marrons no pescoço e nas bochechas.
Meu pĂȘnis subiu; ela gemeu e me deu uma mordida. Gritei, segurei-a pelos cabelos e a afastei. Fiquei de pĂ© no centro do quarto, aterrorizado e ferido. Tocavam uma sinfonia do Mahler no rĂĄdio. Antes que eu pudesse me mover, ela estava novamente de joelhos. Agarrou minhas bolas sem qualquer piedade com as duas mĂŁos. Sua boca se abriu, ela me tomou; sua cabeça ia e vinha, chupando, masturbando. Ela me obrigou a deitar no chĂŁo, dando um tremendo puxĂŁo no meu saco, quase partindo meu pau ao meio com os dentes. Os sons da chupada enchiam o quarto, enquanto o rĂĄdio tocava Mahler. Era como se eu estivesse sendo devorado por um animal impiedoso. Meu pau endureceu, coberto de cuspe e sangue. A visĂŁo daquilo a enlouqueceu. Era como ser devorado vivo.
Se eu gozar, pensei em desespero, jamais me perdoarei.
Quando consegui dar um jeito de agarrar seus cabelos para afastå-la, ela apertou novamente minhas bolas e as esmagou sem pena. Seus dentes cravaram na metade do meu pau como se quisessem, feito uma tesoura, parti-lo ao meio. Gritei, soltei-lhe o cabelo, deitei no chão. Sua cabeça seguia em ação, sem qualquer remorso. Tinha certeza de que essa chupada podia ser ouvida ao longo de toda a pensão.
â NĂO! â gritei.
Ela prosseguiu com uma fĂșria inumana. Comecei a gozar. Era como sugar o interior de uma serpente que estivesse presa. Sua fĂșria mesclava-se Ă loucura; ela engoliu todo o esperma, fazendo-o gorgolejar em sua garganta. Ela continuou masturbando e chupando.
â Martha! Chega! Acabou!
Ela nĂŁo iria parar. Era como se tivesse se transformado numa enorme boca, capaz de devorar tudo. Continuou chupando e masturbando. Seguiu e seguiu.
â NĂO! â gritei novamente.
Desta vez ela bebeu como se fosse uma batida de baunilha, de canudinho.
Desfaleci. Ela se ergueu e começou a se vestir. Cantou:
âWhen a New York baby says goodnight
itâs early in the morning
goodnight, sweetheart
itâs early in the morning
goodnight, sweetheart
milkmanâs on his way homeâŠâ[8]
Com esforço fiquei de pé, agarrando-me aos bolsos da minha calça em busca da carteira. Saquei uma nota de US$ 5, passei a ela. Pegou a nota e enfiou-a entre os seios, pela parte frontal do vestido, deu mais uma agarrada, bem faceira, nas minhas bolas, apertou-as, soltou e seguiu bailando quarto afora.
Trabalhei o tempo necessĂĄrio para juntar o dinheiro para comprar uma passagem para outro lugar qualquer, mais uns poucos dĂłlares para as despesas iniciais. Larguei o emprego, peguei o mapa dos Estados Unidos e dei uma olhada. Decidi-me por Nova York.
Coloquei cinco garrafas de uĂsque dentro da mala que levei comigo no ĂŽnibus. Toda vez que alguĂ©m sentava ao meu lado e começava a falar, eu puxava uma das garrafas e dava um longo trago. Cheguei lĂĄ.
A rodoviĂĄria de Nova York ficava prĂłxima a Times Square. Ganhei a rua com minha velha mala. Anoitecia. As pessoas saĂam em grandes enxames das estaçÔes do metrĂŽ. Como insetos, sem rostos, dementes, elas se lançavam sobre mim, me cercavam, em grande intensidade. Batiam-se e se empurravam, faziam sons terrĂveis.
Busquei refĂșgio no vĂŁo de uma porta e terminei a Ășltima das garrafas.
EntĂŁo segui em frente, empurrando, acotovelando, atĂ© avistar um sinal de âhĂĄ vagasâ na Terceira Avenida. A gerente era uma velha senhora judia.
â Preciso de um quarto â disse-lhe.
â Precisa de um bom terno, meu garoto.
â Estou falido.
â Ă um terno dos bons, uma pechincha. Meu marido toca a alfaiataria do outro lado da rua. Venha comigo.
Paguei por meu quarto, levei a mala para o andar de cima. Depois a acompanhei até o outro lado da rua.
â Herman, mostre o terno ao garoto.
â Ah, Ă© um Ăłtimo terno.
Herman o trouxe lĂĄ de dentro; era azul-marinho, um pouco gasto.
â Parece muito pequeno.
â NĂŁo, nĂŁo, vai servir direitinho.
Saiu de trĂĄs do balcĂŁo com o terno.
â Aqui. Experimente o paletĂł.
Herman me ajudou a vesti-lo.
â Viu sĂł? Serve... Quer provar a calça?
Segurou-a na minha frente. Ia da minha cintura aos dedos do pé.
â Parece bem.
â Dez dĂłlares.
â Estou falido.
â Sete dĂłlares.
Dei a Herman os sete dĂłlares, levei o terno para o meu quarto, escada acima. SaĂ atrĂĄs de uma garrafa de vinho. Ao voltar, tranquei a porta, tirei a roupa, preparava-me para a primeira noite verdadeira de sono em um bom tempo.
Deitei na cama, abri a garrafa, dobrei o travesseiro nas costas para ter um bom apoio, respirei fundo e sentei na escuridĂŁo olhando a janela. Era a primeira vez que eu estava sozinho em cinco dias. Eu era um homem que se fortalecia na solidĂŁo; ela era para mim a comida e a ĂĄgua dos outros homens. Cada dia sem solidĂŁo me enfraquecia. NĂŁo que me orgulhasse dela, mas dela eu dependia. A escuridĂŁo do quarto era como um dia ensolarado para mim. Tomei um gole de vinho.
Subitamente o quarto se encheu de luz. Houve um estrĂ©pito e um rugido. A linha elevada do trem passava ao nĂvel da minha janela. Havia uma estação do metrĂŽ ali. Olhei para a fila de rostos nova-iorquinos, que me olharam de volta. O trem se demorou e, entĂŁo, partiu. O quarto ficou escuro. Logo voltou a se encher de luz. Outra vez olhei para os rostos. Era como uma visĂŁo do inferno constantemente repetida. Cada novo carregamento de rostos era mais feio, demente e cruel que o anterior. Bebi o vinho.
Aquilo continuou: escuridĂŁo, depois luz; luz, depois escuridĂŁo. Terminei a garrafa e fui em busca de mais. Voltei, tirei a roupa, retornei para a cama. As partidas e chegadas dos rostos continuavam; era como se eu estivesse tendo uma visĂŁo. Eu era visitado por centenas de demĂŽnios que o diabo em pessoa nĂŁo podia tolerar. Bebi mais vinho.
Finalmente me levantei e peguei meu terno novo no armĂĄrio. Vesti o paletĂł. Estava apertado. Parecia menor do que quando o experimentei na alfaiataria. De repente, o tecido se rasgou. O paletĂł abrira completamente no meio das costas. Joguei o que restara fora. Ainda tinha a calça. Enfiei as pernas. Havia botĂ”es na frente em vez de zĂper. Ao tentar abotoĂĄ-los, a costura abriu nos fundilhos. Passei minha mĂŁo atrĂĄs e senti minhas cuecas.
Durante quatro ou cinco dias, caminhei a esmo. Depois me embebedei por dois dias seguidos. Mudei do meu quarto e fui para o Greenwich Village. Certo dia, li na coluna de Walter Winchell[9] que O. Henry costumava escrever todos os seus textos na mesa de um famoso bar de escritores. Encontrei o bar e fui procurar pelo que mesmo?
Era meio-dia. Eu era o Ășnico cliente, apesar da coluna de Winchell. Fiquei ali plantado, sozinho, na frente de um enorme espelho, do bar e do atendente.
â Sinto muito, senhor, nĂŁo podemos servi-lo.
Fiquei chocado, incapaz de responder. Esperei por uma explicação.
â O senhor estĂĄ bĂȘbado.
Era possĂvel que estivesse embriagado, mas eu nĂŁo bebia uma gota de ĂĄlcool havia doze horas. Resmunguei alguma coisa sobre O. Henry e fui embora.
Parecia uma loja abandonada. Havia um cartaz na janela: Precisa-se de ajudante. Entrei. Um homem com um bigodinho fino me sorriu.
â Sente-se.
Deu-me uma caneta e uma ficha de inscrição, que preenchi.
â Ah? Faculdade?
â NĂŁo exatamente.
â Estamos no ramo da publicidade.
â Ă?
â NĂŁo estĂĄ interessado?
â Bem, veja vocĂȘ, eu andava envolvido com pintura. Um pintor, entende? Fiquei sem dinheiro. NĂŁo conseguia vender o material.
â Chegam aqui vĂĄrios desses.
â TambĂ©m nĂŁo gosto dos tipos.
â Alegre-se. Talvez vocĂȘ fique famoso depois da morte.
Seguiu falando que o trabalho acarretava, para começo de conversa, fazer o turno da noite, mas que sempre se podia ascender na carreira.
Eu lhe disse que gostava do turno da noite. Ele me disse que eu podia começar no metrÎ.
Dois caras mais velhos esperavam por mim. Encontrei-os dentro do metrÎ, onde os vagÔes estavam estacionados. Deram-me uma braçada de pÎsteres e um pequeno instrumento de metal que parecia um abridor de latas. Subimos todos em um dos vagÔes estacionados.
â Veja como eu faço â disse um dos caras mais velhos.
Subiu em cima dos assentos sujos, arrancando os velhos pĂŽsteres com seu abridor de latas ao longo do percurso. EntĂŁo Ă© assim que esses negĂłcios vĂŁo parar ali, pensei. As pessoas os colocam ali.
Cada pĂŽster era preso por duas tiras de metal que precisavam ser removidas para que um novo pudesse ser colocado. As tiras eram presas com molas e curvas para se encaixarem no contorno da parede.
Deixaram que eu tentasse. As tiras de metal resistiram aos meus esforços. Não iriam se mover. As pontas afiadas cortavam minhas mãos enquanto eu trabalhava. Comecei a sangrar. Para cada pÎster retirado, era preciso colocar outro no lugar. Cada troca levava uma eternidade. Parecia uma atividade sem fim.
â HĂĄ besouros por toda Nova York â disse um dos caras mais velhos depois de um tempo.
â Ă mesmo?
â Sim. VocĂȘ Ă© novo em Nova York?
â Sim.
â NĂŁo sabe que todas as pessoas em Nova York sofrem com esses besouros?
â NĂŁo.
â Sim. A mulher quis trepar comigo na noite passada. Eu disse, âNĂŁo, baby, nĂŁo vai rolarâ.
â Ă?
â Ă. Disse pra ela que faria a coisa por cinco pratas. Porque Ă© preciso umas cinco pratas em carne pra repor a porra que eu gastaria.
â Ela lhe deu as cinco pratas?
â Que nada. Ofereceu-me uma lata de sopa Campbellâs de cogumelo.
Seguimos com o trabalho atĂ© chegarmos ao fim do vagĂŁo. Os dois homens saĂram pela traseira e caminharam em direção ao prĂłximo carro do metrĂŽ, que estava estacionado a cerca de quinze metros de distĂąncia. EstĂĄvamos a uns bons dez metros acima do chĂŁo, com nada alĂ©m dos trilhos para caminhar. Vi que nĂŁo seria nada difĂcil para um corpo passar por entre os vĂŁos e cair lĂĄ embaixo.
Saà do vagão e comecei a avançar lentamente em direção ao próximo, cuidando onde pisava, o abridor de latas numa mão e os pÎsteres na outra. Um metrÎ cheio de passageiros partiu, as luzes iluminando o caminho.
O veĂculo se foi, deixando-me na escuridĂŁo total. NĂŁo conseguia sequer ver os trilhos e as vigas horizontais. Esperei.
Os dois caras mais velhos gritaram lĂĄ do outro vagĂŁo:
â Vamos! Depressa! Temos muito trabalho pela frente!
â Esperem! NĂŁo vejo nada!
â NĂŁo temos nenhuma lanterna!
Meus olhos começavam a se adaptar. Avancei lentamente, passo a passo. Assim que entrei no outro carro, coloquei os pÎsteres sobre o chão e me sentei. Minhas pernas estavam bambas.
â Qual Ă© o problema?
â NĂŁo sei.
â O que Ă©?
â Um homem pode morrer nesse negĂłcio.
â NinguĂ©m nunca caiu.
â Senti que podia ser o primeiro.
â Tudo estĂĄ na cabeça.
â Eu sei. Como faço pra dar o fora daqui?
â HĂĄ uma escada para aqueles lados. Mas vocĂȘ terĂĄ que cruzar vĂĄrias vias, alĂ©m de cuidar os trens em movimento.
â Sim.
â E nĂŁo pise no terceiro trilho.
â O que Ă© isso?
â Ă o condutor de força. Ă um trilho dourado. Parece feito de ouro. VocĂȘ vai ver.
Desci para a pista e comecei a caminhar. Os dois caras mais velhos ficaram me olhando. Ali estava o trilho dourado. Passei dando o passo mais largo que pude sobre ele.
EntĂŁo cheguei Ă escada. Meio caindo, meio correndo, venci os degraus. Havia um bar do outro lado da rua.
â FactĂłtum
o modo como elas riem
de cima a baixo por seus perfis azuis
e mergulhando na ĂĄgua
os peixes lamentam
e toda a ĂĄgua
Ă© fruto de suas lĂĄgrimas.
escuto as ĂĄguas
nas noites de bebedeira
e a tristeza Ă© tanta que posso
ouvi-la em meu relĂłgio
transforma-se nos puxadores da minha cĂŽmoda
transforma-se no papel sobre o chĂŁo
transforma-se numa calçadeira
no bilhete da lavanderia
transforma-se
na fumaça do cigarro
escalando uma capela de videiras negras...
pouco importa
um pouquinho sĂł de amor nĂŁo Ă© tĂŁo mal assim
ou um pouquinho sĂł de vida
o que realmente importa
Ă© esperar entre paredes
eu nasci para isso
nasci para arrastar rosas pelas avenidas da morte.
Minha mĂŁe gritou ao abrir a porta.
â Filho, Ă© vocĂȘ, filho?
â Preciso dormir um pouco.
â Sua cama estĂĄ sempre pronta.
Segui até o quarto, me despi e deitei na cama. Fui acordado por volta das seis da tarde pela minha mãe.
â Seu pai estĂĄ em casa.
Levantei-me e comecei a me vestir. O jantar estava servido quando entrei na sala.
Meu pai era um homem grande, mais alto do que eu, e tinha os olhos castanhos. Os meus eram verdes. Seu nariz era largo demais e não havia como não reparar em suas orelhas: pareciam prestes a fugir de sua cabeça.
â Escute â ele disse â, se vocĂȘ quiser ficar por aqui, vou lhe cobrar pelo quarto, pela comida e mais o serviço de lavanderia. Quando vocĂȘ arranjar um trabalho, o que vocĂȘ nos deve serĂĄ subtraĂdo de seu salĂĄrio atĂ© que sua dĂvida conosco esteja encerrada.
Comemos em silĂȘncio.
Minha dĂvida com quarto, comida, roupa lavada etc. jĂĄ estava tĂŁo alta que foram precisos vĂĄrios salĂĄrios para liquidĂĄ-la. Assim que isso aconteceu, me mudei de imediato. Eu nĂŁo tinha condiçÔes de pagar os preços praticados lĂĄ em casa. Encontrei uma pensĂŁo prĂłxima ao trabalho. Fazer a mudança nĂŁo era difĂcil. Minhas coisas nĂŁo enchiam nem a metade de uma mala...
Mama Strader era minha senhoria, uma ruiva apagada de boa aparĂȘncia, muitos dentes de ouro e um namorado velhusco. Chamou-me na cozinha, logo na primeira manhĂŁ, e disse que me daria um copo de uĂsque se eu fosse lĂĄ fora alimentar as galinhas. Depois de cumprir a missĂŁo, sentei-me para beber com Mama e seu namorado, Al. Estava uma hora atrasado para o trabalho.
Na segunda noite, houve uma batida na minha porta. Era uma gorda jĂĄ entrada nos quarenta. Trazia uma garrafa de vinho.
â Moro num quarto do outro lado do corredor, me chamo Martha. VocĂȘ estĂĄ sempre escutando boa mĂșsica. Pensei em lhe trazer uma bebida.
Martha entrou. Vestia uma espécie de bata verde e, depois de alguns copos de vinho, começou a me mostrar suas pernas.
â Tenho pernas legais.
â Sou vidrado em pernas.
â Olhe mais pra cima.
Suas pernas eram muito brancas, gorduchas, flĂĄcidas, com veias roxas e protuberantes. Martha me contou sua histĂłria.
Era uma prostituta. Tinha percorrido todo o circuito dos bares. Sua principal fonte de renda era o dono de uma loja de departamentos.
â Ele me dĂĄ dinheiro. Vou atĂ© a loja dele e levo tudo o que quero. Os vendedores nĂŁo me incomodam. Ele disse pra me deixarem em paz. Ele nĂŁo quer que a mulher saiba que eu trepo muito melhor do que ela.
Martha se levantou e ligou o rĂĄdio. Alto.
â Sou uma Ăłtima dançarina â ela disse. â Veja como eu danço!
Ela girava dentro daquela barraca verde, dando chutes no ar. Estava longe de ser o que alardeava. Logo a bata passava da linha de sua cintura, e ela começou a balançar a bunda bem junto ao meu rosto. A calcinha rosa tinha um enorme furo sobre o glĂșteo direito. EntĂŁo a bata jĂĄ era, e ela ficou sĂł de calcinha. Logo todas as suas vestes estavam no chĂŁo, e ela seguiu com o nĂșmero. Seus pelos pubianos quase desapareciam debaixo da barriga frouxa, que nĂŁo parava de balançar.
O suor fazia com que sua maquiagem escorresse. Subitamente seus olhos se estreitaram. Eu estava sentado na beirada da cama. Ela se jogou sobre mim antes que eu pudesse reagir. Sua boca jĂĄ aberta foi pressionada contra a minha. Tinha gosto de cuspe e cebolas e vinho barato e (imaginei) dos espermas de quatrocentos homens. Enfiou sua lĂngua na minha boca. Estava grossa pela quantidade de saliva, o que me fez engasgar e empurrĂĄ-la para longe. Ela se pĂŽs de joelhos, baixou meu zĂper, e em um segundo meu pau frouxo estava em sua boca. Ela chupou e bateu. Martha usava uma pequena fita amarela em seu cabelo grisalho e curto. Tinha verrugas e grandes pintas marrons no pescoço e nas bochechas.
Meu pĂȘnis subiu; ela gemeu e me deu uma mordida. Gritei, segurei-a pelos cabelos e a afastei. Fiquei de pĂ© no centro do quarto, aterrorizado e ferido. Tocavam uma sinfonia do Mahler no rĂĄdio. Antes que eu pudesse me mover, ela estava novamente de joelhos. Agarrou minhas bolas sem qualquer piedade com as duas mĂŁos. Sua boca se abriu, ela me tomou; sua cabeça ia e vinha, chupando, masturbando. Ela me obrigou a deitar no chĂŁo, dando um tremendo puxĂŁo no meu saco, quase partindo meu pau ao meio com os dentes. Os sons da chupada enchiam o quarto, enquanto o rĂĄdio tocava Mahler. Era como se eu estivesse sendo devorado por um animal impiedoso. Meu pau endureceu, coberto de cuspe e sangue. A visĂŁo daquilo a enlouqueceu. Era como ser devorado vivo.
Se eu gozar, pensei em desespero, jamais me perdoarei.
Quando consegui dar um jeito de agarrar seus cabelos para afastå-la, ela apertou novamente minhas bolas e as esmagou sem pena. Seus dentes cravaram na metade do meu pau como se quisessem, feito uma tesoura, parti-lo ao meio. Gritei, soltei-lhe o cabelo, deitei no chão. Sua cabeça seguia em ação, sem qualquer remorso. Tinha certeza de que essa chupada podia ser ouvida ao longo de toda a pensão.
â NĂO! â gritei.
Ela prosseguiu com uma fĂșria inumana. Comecei a gozar. Era como sugar o interior de uma serpente que estivesse presa. Sua fĂșria mesclava-se Ă loucura; ela engoliu todo o esperma, fazendo-o gorgolejar em sua garganta. Ela continuou masturbando e chupando.
â Martha! Chega! Acabou!
Ela nĂŁo iria parar. Era como se tivesse se transformado numa enorme boca, capaz de devorar tudo. Continuou chupando e masturbando. Seguiu e seguiu.
â NĂO! â gritei novamente.
Desta vez ela bebeu como se fosse uma batida de baunilha, de canudinho.
Desfaleci. Ela se ergueu e começou a se vestir. Cantou:
âWhen a New York baby says goodnight
itâs early in the morning
goodnight, sweetheart
itâs early in the morning
goodnight, sweetheart
milkmanâs on his way homeâŠâ[8]
Com esforço fiquei de pé, agarrando-me aos bolsos da minha calça em busca da carteira. Saquei uma nota de US$ 5, passei a ela. Pegou a nota e enfiou-a entre os seios, pela parte frontal do vestido, deu mais uma agarrada, bem faceira, nas minhas bolas, apertou-as, soltou e seguiu bailando quarto afora.
Trabalhei o tempo necessĂĄrio para juntar o dinheiro para comprar uma passagem para outro lugar qualquer, mais uns poucos dĂłlares para as despesas iniciais. Larguei o emprego, peguei o mapa dos Estados Unidos e dei uma olhada. Decidi-me por Nova York.
Coloquei cinco garrafas de uĂsque dentro da mala que levei comigo no ĂŽnibus. Toda vez que alguĂ©m sentava ao meu lado e começava a falar, eu puxava uma das garrafas e dava um longo trago. Cheguei lĂĄ.
A rodoviĂĄria de Nova York ficava prĂłxima a Times Square. Ganhei a rua com minha velha mala. Anoitecia. As pessoas saĂam em grandes enxames das estaçÔes do metrĂŽ. Como insetos, sem rostos, dementes, elas se lançavam sobre mim, me cercavam, em grande intensidade. Batiam-se e se empurravam, faziam sons terrĂveis.
Busquei refĂșgio no vĂŁo de uma porta e terminei a Ășltima das garrafas.
EntĂŁo segui em frente, empurrando, acotovelando, atĂ© avistar um sinal de âhĂĄ vagasâ na Terceira Avenida. A gerente era uma velha senhora judia.
â Preciso de um quarto â disse-lhe.
â Precisa de um bom terno, meu garoto.
â Estou falido.
â Ă um terno dos bons, uma pechincha. Meu marido toca a alfaiataria do outro lado da rua. Venha comigo.
Paguei por meu quarto, levei a mala para o andar de cima. Depois a acompanhei até o outro lado da rua.
â Herman, mostre o terno ao garoto.
â Ah, Ă© um Ăłtimo terno.
Herman o trouxe lĂĄ de dentro; era azul-marinho, um pouco gasto.
â Parece muito pequeno.
â NĂŁo, nĂŁo, vai servir direitinho.
Saiu de trĂĄs do balcĂŁo com o terno.
â Aqui. Experimente o paletĂł.
Herman me ajudou a vesti-lo.
â Viu sĂł? Serve... Quer provar a calça?
Segurou-a na minha frente. Ia da minha cintura aos dedos do pé.
â Parece bem.
â Dez dĂłlares.
â Estou falido.
â Sete dĂłlares.
Dei a Herman os sete dĂłlares, levei o terno para o meu quarto, escada acima. SaĂ atrĂĄs de uma garrafa de vinho. Ao voltar, tranquei a porta, tirei a roupa, preparava-me para a primeira noite verdadeira de sono em um bom tempo.
Deitei na cama, abri a garrafa, dobrei o travesseiro nas costas para ter um bom apoio, respirei fundo e sentei na escuridĂŁo olhando a janela. Era a primeira vez que eu estava sozinho em cinco dias. Eu era um homem que se fortalecia na solidĂŁo; ela era para mim a comida e a ĂĄgua dos outros homens. Cada dia sem solidĂŁo me enfraquecia. NĂŁo que me orgulhasse dela, mas dela eu dependia. A escuridĂŁo do quarto era como um dia ensolarado para mim. Tomei um gole de vinho.
Subitamente o quarto se encheu de luz. Houve um estrĂ©pito e um rugido. A linha elevada do trem passava ao nĂvel da minha janela. Havia uma estação do metrĂŽ ali. Olhei para a fila de rostos nova-iorquinos, que me olharam de volta. O trem se demorou e, entĂŁo, partiu. O quarto ficou escuro. Logo voltou a se encher de luz. Outra vez olhei para os rostos. Era como uma visĂŁo do inferno constantemente repetida. Cada novo carregamento de rostos era mais feio, demente e cruel que o anterior. Bebi o vinho.
Aquilo continuou: escuridĂŁo, depois luz; luz, depois escuridĂŁo. Terminei a garrafa e fui em busca de mais. Voltei, tirei a roupa, retornei para a cama. As partidas e chegadas dos rostos continuavam; era como se eu estivesse tendo uma visĂŁo. Eu era visitado por centenas de demĂŽnios que o diabo em pessoa nĂŁo podia tolerar. Bebi mais vinho.
Finalmente me levantei e peguei meu terno novo no armĂĄrio. Vesti o paletĂł. Estava apertado. Parecia menor do que quando o experimentei na alfaiataria. De repente, o tecido se rasgou. O paletĂł abrira completamente no meio das costas. Joguei o que restara fora. Ainda tinha a calça. Enfiei as pernas. Havia botĂ”es na frente em vez de zĂper. Ao tentar abotoĂĄ-los, a costura abriu nos fundilhos. Passei minha mĂŁo atrĂĄs e senti minhas cuecas.
Durante quatro ou cinco dias, caminhei a esmo. Depois me embebedei por dois dias seguidos. Mudei do meu quarto e fui para o Greenwich Village. Certo dia, li na coluna de Walter Winchell[9] que O. Henry costumava escrever todos os seus textos na mesa de um famoso bar de escritores. Encontrei o bar e fui procurar pelo que mesmo?
Era meio-dia. Eu era o Ășnico cliente, apesar da coluna de Winchell. Fiquei ali plantado, sozinho, na frente de um enorme espelho, do bar e do atendente.
â Sinto muito, senhor, nĂŁo podemos servi-lo.
Fiquei chocado, incapaz de responder. Esperei por uma explicação.
â O senhor estĂĄ bĂȘbado.
Era possĂvel que estivesse embriagado, mas eu nĂŁo bebia uma gota de ĂĄlcool havia doze horas. Resmunguei alguma coisa sobre O. Henry e fui embora.
Parecia uma loja abandonada. Havia um cartaz na janela: Precisa-se de ajudante. Entrei. Um homem com um bigodinho fino me sorriu.
â Sente-se.
Deu-me uma caneta e uma ficha de inscrição, que preenchi.
â Ah? Faculdade?
â NĂŁo exatamente.
â Estamos no ramo da publicidade.
â Ă?
â NĂŁo estĂĄ interessado?
â Bem, veja vocĂȘ, eu andava envolvido com pintura. Um pintor, entende? Fiquei sem dinheiro. NĂŁo conseguia vender o material.
â Chegam aqui vĂĄrios desses.
â TambĂ©m nĂŁo gosto dos tipos.
â Alegre-se. Talvez vocĂȘ fique famoso depois da morte.
Seguiu falando que o trabalho acarretava, para começo de conversa, fazer o turno da noite, mas que sempre se podia ascender na carreira.
Eu lhe disse que gostava do turno da noite. Ele me disse que eu podia começar no metrÎ.
Dois caras mais velhos esperavam por mim. Encontrei-os dentro do metrÎ, onde os vagÔes estavam estacionados. Deram-me uma braçada de pÎsteres e um pequeno instrumento de metal que parecia um abridor de latas. Subimos todos em um dos vagÔes estacionados.
â Veja como eu faço â disse um dos caras mais velhos.
Subiu em cima dos assentos sujos, arrancando os velhos pĂŽsteres com seu abridor de latas ao longo do percurso. EntĂŁo Ă© assim que esses negĂłcios vĂŁo parar ali, pensei. As pessoas os colocam ali.
Cada pĂŽster era preso por duas tiras de metal que precisavam ser removidas para que um novo pudesse ser colocado. As tiras eram presas com molas e curvas para se encaixarem no contorno da parede.
Deixaram que eu tentasse. As tiras de metal resistiram aos meus esforços. Não iriam se mover. As pontas afiadas cortavam minhas mãos enquanto eu trabalhava. Comecei a sangrar. Para cada pÎster retirado, era preciso colocar outro no lugar. Cada troca levava uma eternidade. Parecia uma atividade sem fim.
â HĂĄ besouros por toda Nova York â disse um dos caras mais velhos depois de um tempo.
â Ă mesmo?
â Sim. VocĂȘ Ă© novo em Nova York?
â Sim.
â NĂŁo sabe que todas as pessoas em Nova York sofrem com esses besouros?
â NĂŁo.
â Sim. A mulher quis trepar comigo na noite passada. Eu disse, âNĂŁo, baby, nĂŁo vai rolarâ.
â Ă?
â Ă. Disse pra ela que faria a coisa por cinco pratas. Porque Ă© preciso umas cinco pratas em carne pra repor a porra que eu gastaria.
â Ela lhe deu as cinco pratas?
â Que nada. Ofereceu-me uma lata de sopa Campbellâs de cogumelo.
Seguimos com o trabalho atĂ© chegarmos ao fim do vagĂŁo. Os dois homens saĂram pela traseira e caminharam em direção ao prĂłximo carro do metrĂŽ, que estava estacionado a cerca de quinze metros de distĂąncia. EstĂĄvamos a uns bons dez metros acima do chĂŁo, com nada alĂ©m dos trilhos para caminhar. Vi que nĂŁo seria nada difĂcil para um corpo passar por entre os vĂŁos e cair lĂĄ embaixo.
Saà do vagão e comecei a avançar lentamente em direção ao próximo, cuidando onde pisava, o abridor de latas numa mão e os pÎsteres na outra. Um metrÎ cheio de passageiros partiu, as luzes iluminando o caminho.
O veĂculo se foi, deixando-me na escuridĂŁo total. NĂŁo conseguia sequer ver os trilhos e as vigas horizontais. Esperei.
Os dois caras mais velhos gritaram lĂĄ do outro vagĂŁo:
â Vamos! Depressa! Temos muito trabalho pela frente!
â Esperem! NĂŁo vejo nada!
â NĂŁo temos nenhuma lanterna!
Meus olhos começavam a se adaptar. Avancei lentamente, passo a passo. Assim que entrei no outro carro, coloquei os pÎsteres sobre o chão e me sentei. Minhas pernas estavam bambas.
â Qual Ă© o problema?
â NĂŁo sei.
â O que Ă©?
â Um homem pode morrer nesse negĂłcio.
â NinguĂ©m nunca caiu.
â Senti que podia ser o primeiro.
â Tudo estĂĄ na cabeça.
â Eu sei. Como faço pra dar o fora daqui?
â HĂĄ uma escada para aqueles lados. Mas vocĂȘ terĂĄ que cruzar vĂĄrias vias, alĂ©m de cuidar os trens em movimento.
â Sim.
â E nĂŁo pise no terceiro trilho.
â O que Ă© isso?
â Ă o condutor de força. Ă um trilho dourado. Parece feito de ouro. VocĂȘ vai ver.
Desci para a pista e comecei a caminhar. Os dois caras mais velhos ficaram me olhando. Ali estava o trilho dourado. Passei dando o passo mais largo que pude sobre ele.
EntĂŁo cheguei Ă escada. Meio caindo, meio correndo, venci os degraus. Havia um bar do outro lado da rua.
â FactĂłtum
Dança do Cachorro Branco
Henry pegou o travesseiro, embolou-o atrås da cabeça e ficou esperando. Louise entrou com as torradas, geleia e café. A torrada com manteiga.
â Tem certeza de que nĂŁo quer dois ovos cozidos? â ela perguntou.
â NĂŁo, tudo bem. EstĂĄ Ăłtimo.
â Devia comer dois ovos cozidos.
â Tudo bem, entĂŁo.
Louise saiu do quarto. Ele se levantara antes para ir ao banheiro e notara que suas roupas tinham sido penduradas. Coisa que Lita jamais fazia. E Louise era uma foda excelente. Sem filhos. Ele adorava o modo como ela fazia tudo, suavemente, cuidadosamente. Lita estava sempre no ataque â sĂł arestas. Quando Louise voltou com os ovos cozidos, ele perguntou-lhe:
â Que Ă© isso?
â Que Ă© o quĂȘ?
â VocĂȘ atĂ© descascou os ovos. Quer dizer, por que seu marido se divorciou de vocĂȘ?
â Ah, espere â ela disse â, o cafĂ© estĂĄ fervendo!
E saiu correndo do quarto.
Ele ouvia mĂșsica clĂĄssica com ela. Ela tocava piano. Tinha livros: O Deus selvagem, de Alvarez; A vida de Picasso, de E. B. White; e. e. cummings; T. S. Eliot; Pound; Ibsen; e por aĂ afora. Tinha atĂ© nove livros dele mesmo. Talvez isso fosse o melhor.
Louise voltou e meteu-se na cama, o prato no colo.
â Que foi que deu errado no seu casamento?
â Qual deles? Foram cinco!
â O Ășltimo. Lita.
â Ah. Bem, a menos que estivesse em movimento, Lita achava que nada estava acontecendo. Gostava de danças e festas, toda a vida dela girava em torno de danças e festas. Gostava do que chamava de âficar ligadonaâ. O que significa homens. Dizia que eu restringia os âbaratosâ dela. Dizia que eu era ciumento.
â VocĂȘ reprimia ela?
â Acho que sim, mas tentava nĂŁo fazer isso. Na Ășltima festa, saĂ para o quintal com minha cerveja e deixei ela mandar ver. A casa estava cheia de homens, eu ouvia ela lĂĄ dentro berrando âIĂĄârru!IĂĄ Ru! IĂĄ Ru!â Acho que era sĂł uma garota do interior desinibida.
â VocĂȘ podia dançar tambĂ©m.
â Acho que sim. Ăs vezes dançava. Mas ligam o estĂ©reo tĂŁo alto que a gente nĂŁo consegue nem pensar. Eu saĂa para o quintal. Voltava pra pegar mais cerveja, e lĂĄ estava um cara beijando ela debaixo da escada. Eu saĂa atĂ© eles acabarem, depois voltava de novo pra pegar a cerveja. Estava escuro, mas eu achava que tinha sido um amigo, e depois perguntava a ele o que fazia lĂĄ embaixo da escada.
â Ela amava vocĂȘ?
â Dizia que sim.
â Sabe, dançar e beijar nĂŁo Ă© tĂŁo mal assim.
â Acho que nĂŁo. Mas vocĂȘ tinha de ver ela. Tinha uma maneira de dançar como se estivesse se oferecendo em sacrifĂcio. Para estupro. Funcionava muito. Os homens adoravam. Ela tinha 33 anos e dois filhos.
â Ela nĂŁo entendia que vocĂȘ era um solitĂĄrio. Os homens tĂȘm naturezas diferentes.
â Ela nunca levou em conta minha natureza. Como eu disse, se nĂŁo estivesse em movimento, ela achava que nada acontecia. Fora isso, vivia de saco cheio. âOh, isso me enche, aquilo me enche. Tomar o cafĂ© da manhĂŁ com vocĂȘ me enche. Ver vocĂȘ escrever me enche. Preciso de desafios.â
â Isso nĂŁo me parece inteiramente errado.
â Acho que nĂŁo. Mas vocĂȘ sabe, sĂł pessoas que enchem o saco ficam de saco cheio. TĂȘm de viver se cutucando continuamente pra se sentir vivas.
â Como sua bebida, por exemplo?
â Ă, como minha bebida. TambĂ©m nĂŁo posso encarar a vida de frente.
â O problema era sĂł esse?
â NĂŁo, ela era ninfomanĂaca mas nĂŁo sabia. Dizia que eu satisfazia ela sexualmente, mas duvido que eu satisfizesse a ninfomania espiritual. Foi a segunda ninfo com quem vivi. Tinha Ăłtimas qualidades fora isso, mas a ninfomania era um vexame. Tanto para mim quanto pra meus amigos. Eles me puxavam para um lado e diziam: âQue diabos deu nela?â E eu respondia: âNada, Ă© sĂł uma garota do interior.â
â E era?
â Era. Mas a outra coisa era um vexame.
â Mais torrada?
â NĂŁo, esta estĂĄ bem.
â O que era um vexame?
â O comportamento dela. Se tivesse outro homem na sala, ela se sentava tĂŁo perto dele quanto possĂvel. Ele se curvava pra apagar o cigarro no cinzeiro no chĂŁo, ela se curvava tambĂ©m. Ele virava a cabeça pra olhar alguma coisa, ela virava tambĂ©m.
â Era coincidĂȘncia?
â Eu pensava assim. Mas acontecia vezes demais. O homem se levantava para atravessar a sala, ela se levantava e ia ao lado dele. Quando ele atravessava a sala de volta, lĂĄ vinha ela ao lado dele. Os incidentes eram contĂnuos e numerosos e, como eu disse, vexatĂłrios tanto pra mim quanto pra meus amigos. E no entanto tenho certeza de que ela nĂŁo sabia o que fazia, vinha tudo do subconsciente.
â Quando eu era mocinha, tinha uma mulher no bairro com uma filha de quinze anos. A filha era incontrolĂĄvel. A mĂŁe mandava ela comprar pĂŁo, ela voltava oito horas depois com o pĂŁo, mas nesse tempo tinha fodido com seis homens.
â Acho que a mĂŁe devia fazer seu prĂłprio pĂŁo.
â Acho que sim. A garota nĂŁo se continha. Assim que via um homem, começava a se rebolar toda. A mĂŁe acabou mandando castrar ela.
â E podem fazer isso?
â Podem, mas Ă© preciso passar por tudo que Ă© processo legal. NĂŁo se podia fazer mais nada com ela. Tinha passado a vida grĂĄvida.
â VocĂȘ tem alguma coisa contra a dança? â continuou Louise.
â A maioria das pessoas dança por prazer, pra se sentir bem. Ela passava pra sacanagem. Uma das danças favoritas dela era a Dança do Cachorro Branco. O cara trançava uma das pernas dela entre as dele e mexia pra frente e pra trĂĄs como um cachorro com tesĂŁo. Outra favorita era a Dança do BĂȘbado. Ela e o parceiro acabavam no chĂŁo, rolando um por cima do outro.
â Ela dizia que vocĂȘ tinha ciĂșmes da dança dela?
â Era a palavra que ela usava a maioria das vezes: ciĂșmes.
â Eu dançava no ginĂĄsio.
â Ă? Escuta, obrigado pelo cafĂ©.
â Tudo bem. Eu tinha um parceiro no ginĂĄsio. A gente era os melhores dançarinos da escola. Ele tinha trĂȘs bagos; eu achava isso um sinal de masculinidade.
â TrĂȘs bagos?
â Ă, trĂȘs bagos. Como eu ia dizendo, a gente sabia mesmo dançar. Eu dava o sinal tocando o pulso dele, e aĂ a gente saltava e virava em pleno ar, muito alto, e caĂa de pĂ©. Uma vez, a gente estava dançando, e eu toquei o pulso dele e dei meu salto e virada, mas nĂŁo caĂ de pĂ©. CaĂ de bunda. Ele pĂŽs a mĂŁo na boca, ficou me olhando e disse: âĂ, meu deus do cĂ©u!â e se mandou. NĂŁo me levantou. Era homossexual. Nunca mais dançamos juntos.
â Tem alguma coisa contra homossexuais de trĂȘs bagos?
â NĂŁo, mas nunca mais dançamos.
â Lita era verdadeiramente obcecada pela dança. Entrava em bares desconhecidos e convidava os homens a dançarem com ela. Claro que eles iam. Achavam ela uma foda fĂĄcil. Eu nĂŁo sei se ela fodia ou nĂŁo. Acho que Ă s vezes fodia. O problema dos homens que dançam ou vivem em bares Ă© que tĂȘm uma visĂŁo igual Ă de uma tĂȘnia.
â Como sabe disso?
â Eles sĂŁo apanhados no ritual.
â Que ritual?
â O ritual da energia mal dirigida.
Henry levantou-se e começou a vestir-se.
â Garota, eu tenho de ir.
â Que Ă© isso?
â Tenho de terminar um trabalho. Eu sou, supostamente, um escritor.
â Tem uma peça de Ibsen na TV hoje de noite. Oito e meia. VocĂȘ vem?
â Claro. Deixei aquele uĂsque. NĂŁo beba todo.
Henry enfiou as roupas, desceu a escada, entrou no carro e dirigiu para casa e sua mĂĄquina de escrever. Segundo andar, fundos. Todo dia, enquanto ele batia Ă mĂĄquina, a mulher de baixo batia no teto com a vassoura. Ele escrevia da maneira difĂcil, sempre tinha sido da maneira difĂcil: A Dança do Cachorro Branco...
Louise ligou Ă s cinco e meia da tarde. Atacara o uĂsque. Estava bĂȘbada. Embolava as palavras. NĂŁo dizia coisa com coisa. A leitora de Thomas Chatterton e D. H. Lawrence. A leitora de nove dos livros dele.
â Henry?
â Sim?
â Oh, aconteceu uma coisa maravilhosa.
â Sim?
â Um rapaz negro veio me visitar. Ă lindo! Mais lindo que vocĂȘ...
â Claro.
â ...mais lindo que vocĂȘ e eu juntos.
â Sim.
â Me deixou tĂŁo excitada! Estou a ponto de perder a cabeça!
â Sim.
â VocĂȘ nĂŁo liga?
â NĂŁo.
â Sabe como passamos a tarde?
â NĂŁo.
â Lendo seus poemas!
â Oh?
â E sabe o que ele disse?
â NĂŁo.
â Disse que seus poemas sĂŁo sensacionais!
â Tudo bem.
â Escuta, ele me deixou muito excitada. NĂŁo sei o que fazer. VocĂȘ nĂŁo vem? Agora? Quero ver vocĂȘ agora...
â Louise, estou trabalhando...
â Escuta, vocĂȘ tem alguma coisa contra negros?
â NĂŁo.
â Eu conheço esse garoto hĂĄ dez anos. Ele trabalhava pra mim quando eu era rica.
â Quer dizer, quando vocĂȘ ainda vivia com seu marido rico.
â Vou ver vocĂȘ depois? Ibsen Ă© Ă s oito e meia.
â Eu lhe informo.
â Por que aquele sacana apareceu? Eu estava bem, e aĂ ele aparece. Nossa. Estou tĂŁo excitada que preciso ver vocĂȘ. Estou ficando maluca. Ele era tĂŁo lindo.
â Estou trabalhando, Louise. O problema aqui Ă© âAluguelâ. Tente entender.
Louise desligou. Tornou a ligar Ă s oito e vinte. Henry disse que continuava trabalhando. E continuava. Depois começou a beber e ficou simplesmente sentado na cadeira, simplesmente sentado na cadeira. Ăs dez para as dez, ouviu uma batida na porta. Era Booboo Meltzer, o astro de rock nĂșmero 1 da dĂ©cada de 1970, atualmente desempregado, ainda vivendo de direitos autorais.
â Oi, garoto â disse Henry.
Meltzer entrou e sentou-se.
â Cara â disse â, vocĂȘ Ă© um velho e belo gato. Eu nĂŁo aguento.
â Calma, garoto, gato estĂĄ fora de moda, o quente agora Ă© cachorro.
â Tenho um palpite de que vocĂȘ precisa de ajuda, coroa.
â Garoto, nunca foi de outro jeito.
Henry foi Ă cozinha, pegou duas cervejas, abriu-as e voltou.
â Estou sem xoxota, garoto, o que pra mim Ă© o mesmo que estar sem amor. NĂŁo consigo separar as duas coisas. NĂŁo sou tĂŁo vivo assim.
â Nenhum de nĂłs Ă© vivo, VovĂŽ. Todos precisamos de ajuda.
â Ă...
Meltzer tinha um tubinho de celuloide. Cuidadosamente, despejou dois montinhos brancos na mesa de café.
â Isso Ă© cocaĂna, VovĂŽ, cocaĂna...
â Ah, ha.
Meltzer meteu a mão no bolso, puxou uma nota de cinquenta dólares, fez um canudo bem comprimido e enfiou-o no nariz. Apertando a outra narina com um dedo, curvou-se sobre uma das manchas brancas na mesa de café e inalou-a. Depois enfiou a nota de cinquenta dólares na outra narina e cafungou a segunda mancha.
â Neve â disse Meltzer.
â Ă Natal. Muito apropriado â disse Henry.
Meltzer bateu mais duas manchas e passou os cinquenta. Henry disse:
â Guenta aĂ, eu uso a minha.
E pegou uma nota de um dĂłlar e cafungou. Uma para cada narina.
â Que acha de A Dança do Cachorro Branco? â perguntou Henry.
â Isto aqui Ă© que Ă© âA Dança do Cachorro Brancoâ â disse Meltzer, batendo mais duas carreiras.
â Nossa â disse Henry. â Acho que nunca mais vou ficar de saco cheio. VocĂȘ nĂŁo estĂĄ cheio de mim, estĂĄ?
â De jeito nenhum â disse Meltzer, cafungando atravĂ©s da nota de cinquenta dĂłlares com toda a força. â VovĂŽ, de jeito nenhum...
â Numa Fria
â Tem certeza de que nĂŁo quer dois ovos cozidos? â ela perguntou.
â NĂŁo, tudo bem. EstĂĄ Ăłtimo.
â Devia comer dois ovos cozidos.
â Tudo bem, entĂŁo.
Louise saiu do quarto. Ele se levantara antes para ir ao banheiro e notara que suas roupas tinham sido penduradas. Coisa que Lita jamais fazia. E Louise era uma foda excelente. Sem filhos. Ele adorava o modo como ela fazia tudo, suavemente, cuidadosamente. Lita estava sempre no ataque â sĂł arestas. Quando Louise voltou com os ovos cozidos, ele perguntou-lhe:
â Que Ă© isso?
â Que Ă© o quĂȘ?
â VocĂȘ atĂ© descascou os ovos. Quer dizer, por que seu marido se divorciou de vocĂȘ?
â Ah, espere â ela disse â, o cafĂ© estĂĄ fervendo!
E saiu correndo do quarto.
Ele ouvia mĂșsica clĂĄssica com ela. Ela tocava piano. Tinha livros: O Deus selvagem, de Alvarez; A vida de Picasso, de E. B. White; e. e. cummings; T. S. Eliot; Pound; Ibsen; e por aĂ afora. Tinha atĂ© nove livros dele mesmo. Talvez isso fosse o melhor.
Louise voltou e meteu-se na cama, o prato no colo.
â Que foi que deu errado no seu casamento?
â Qual deles? Foram cinco!
â O Ășltimo. Lita.
â Ah. Bem, a menos que estivesse em movimento, Lita achava que nada estava acontecendo. Gostava de danças e festas, toda a vida dela girava em torno de danças e festas. Gostava do que chamava de âficar ligadonaâ. O que significa homens. Dizia que eu restringia os âbaratosâ dela. Dizia que eu era ciumento.
â VocĂȘ reprimia ela?
â Acho que sim, mas tentava nĂŁo fazer isso. Na Ășltima festa, saĂ para o quintal com minha cerveja e deixei ela mandar ver. A casa estava cheia de homens, eu ouvia ela lĂĄ dentro berrando âIĂĄârru!IĂĄ Ru! IĂĄ Ru!â Acho que era sĂł uma garota do interior desinibida.
â VocĂȘ podia dançar tambĂ©m.
â Acho que sim. Ăs vezes dançava. Mas ligam o estĂ©reo tĂŁo alto que a gente nĂŁo consegue nem pensar. Eu saĂa para o quintal. Voltava pra pegar mais cerveja, e lĂĄ estava um cara beijando ela debaixo da escada. Eu saĂa atĂ© eles acabarem, depois voltava de novo pra pegar a cerveja. Estava escuro, mas eu achava que tinha sido um amigo, e depois perguntava a ele o que fazia lĂĄ embaixo da escada.
â Ela amava vocĂȘ?
â Dizia que sim.
â Sabe, dançar e beijar nĂŁo Ă© tĂŁo mal assim.
â Acho que nĂŁo. Mas vocĂȘ tinha de ver ela. Tinha uma maneira de dançar como se estivesse se oferecendo em sacrifĂcio. Para estupro. Funcionava muito. Os homens adoravam. Ela tinha 33 anos e dois filhos.
â Ela nĂŁo entendia que vocĂȘ era um solitĂĄrio. Os homens tĂȘm naturezas diferentes.
â Ela nunca levou em conta minha natureza. Como eu disse, se nĂŁo estivesse em movimento, ela achava que nada acontecia. Fora isso, vivia de saco cheio. âOh, isso me enche, aquilo me enche. Tomar o cafĂ© da manhĂŁ com vocĂȘ me enche. Ver vocĂȘ escrever me enche. Preciso de desafios.â
â Isso nĂŁo me parece inteiramente errado.
â Acho que nĂŁo. Mas vocĂȘ sabe, sĂł pessoas que enchem o saco ficam de saco cheio. TĂȘm de viver se cutucando continuamente pra se sentir vivas.
â Como sua bebida, por exemplo?
â Ă, como minha bebida. TambĂ©m nĂŁo posso encarar a vida de frente.
â O problema era sĂł esse?
â NĂŁo, ela era ninfomanĂaca mas nĂŁo sabia. Dizia que eu satisfazia ela sexualmente, mas duvido que eu satisfizesse a ninfomania espiritual. Foi a segunda ninfo com quem vivi. Tinha Ăłtimas qualidades fora isso, mas a ninfomania era um vexame. Tanto para mim quanto pra meus amigos. Eles me puxavam para um lado e diziam: âQue diabos deu nela?â E eu respondia: âNada, Ă© sĂł uma garota do interior.â
â E era?
â Era. Mas a outra coisa era um vexame.
â Mais torrada?
â NĂŁo, esta estĂĄ bem.
â O que era um vexame?
â O comportamento dela. Se tivesse outro homem na sala, ela se sentava tĂŁo perto dele quanto possĂvel. Ele se curvava pra apagar o cigarro no cinzeiro no chĂŁo, ela se curvava tambĂ©m. Ele virava a cabeça pra olhar alguma coisa, ela virava tambĂ©m.
â Era coincidĂȘncia?
â Eu pensava assim. Mas acontecia vezes demais. O homem se levantava para atravessar a sala, ela se levantava e ia ao lado dele. Quando ele atravessava a sala de volta, lĂĄ vinha ela ao lado dele. Os incidentes eram contĂnuos e numerosos e, como eu disse, vexatĂłrios tanto pra mim quanto pra meus amigos. E no entanto tenho certeza de que ela nĂŁo sabia o que fazia, vinha tudo do subconsciente.
â Quando eu era mocinha, tinha uma mulher no bairro com uma filha de quinze anos. A filha era incontrolĂĄvel. A mĂŁe mandava ela comprar pĂŁo, ela voltava oito horas depois com o pĂŁo, mas nesse tempo tinha fodido com seis homens.
â Acho que a mĂŁe devia fazer seu prĂłprio pĂŁo.
â Acho que sim. A garota nĂŁo se continha. Assim que via um homem, começava a se rebolar toda. A mĂŁe acabou mandando castrar ela.
â E podem fazer isso?
â Podem, mas Ă© preciso passar por tudo que Ă© processo legal. NĂŁo se podia fazer mais nada com ela. Tinha passado a vida grĂĄvida.
â VocĂȘ tem alguma coisa contra a dança? â continuou Louise.
â A maioria das pessoas dança por prazer, pra se sentir bem. Ela passava pra sacanagem. Uma das danças favoritas dela era a Dança do Cachorro Branco. O cara trançava uma das pernas dela entre as dele e mexia pra frente e pra trĂĄs como um cachorro com tesĂŁo. Outra favorita era a Dança do BĂȘbado. Ela e o parceiro acabavam no chĂŁo, rolando um por cima do outro.
â Ela dizia que vocĂȘ tinha ciĂșmes da dança dela?
â Era a palavra que ela usava a maioria das vezes: ciĂșmes.
â Eu dançava no ginĂĄsio.
â Ă? Escuta, obrigado pelo cafĂ©.
â Tudo bem. Eu tinha um parceiro no ginĂĄsio. A gente era os melhores dançarinos da escola. Ele tinha trĂȘs bagos; eu achava isso um sinal de masculinidade.
â TrĂȘs bagos?
â Ă, trĂȘs bagos. Como eu ia dizendo, a gente sabia mesmo dançar. Eu dava o sinal tocando o pulso dele, e aĂ a gente saltava e virava em pleno ar, muito alto, e caĂa de pĂ©. Uma vez, a gente estava dançando, e eu toquei o pulso dele e dei meu salto e virada, mas nĂŁo caĂ de pĂ©. CaĂ de bunda. Ele pĂŽs a mĂŁo na boca, ficou me olhando e disse: âĂ, meu deus do cĂ©u!â e se mandou. NĂŁo me levantou. Era homossexual. Nunca mais dançamos juntos.
â Tem alguma coisa contra homossexuais de trĂȘs bagos?
â NĂŁo, mas nunca mais dançamos.
â Lita era verdadeiramente obcecada pela dança. Entrava em bares desconhecidos e convidava os homens a dançarem com ela. Claro que eles iam. Achavam ela uma foda fĂĄcil. Eu nĂŁo sei se ela fodia ou nĂŁo. Acho que Ă s vezes fodia. O problema dos homens que dançam ou vivem em bares Ă© que tĂȘm uma visĂŁo igual Ă de uma tĂȘnia.
â Como sabe disso?
â Eles sĂŁo apanhados no ritual.
â Que ritual?
â O ritual da energia mal dirigida.
Henry levantou-se e começou a vestir-se.
â Garota, eu tenho de ir.
â Que Ă© isso?
â Tenho de terminar um trabalho. Eu sou, supostamente, um escritor.
â Tem uma peça de Ibsen na TV hoje de noite. Oito e meia. VocĂȘ vem?
â Claro. Deixei aquele uĂsque. NĂŁo beba todo.
Henry enfiou as roupas, desceu a escada, entrou no carro e dirigiu para casa e sua mĂĄquina de escrever. Segundo andar, fundos. Todo dia, enquanto ele batia Ă mĂĄquina, a mulher de baixo batia no teto com a vassoura. Ele escrevia da maneira difĂcil, sempre tinha sido da maneira difĂcil: A Dança do Cachorro Branco...
Louise ligou Ă s cinco e meia da tarde. Atacara o uĂsque. Estava bĂȘbada. Embolava as palavras. NĂŁo dizia coisa com coisa. A leitora de Thomas Chatterton e D. H. Lawrence. A leitora de nove dos livros dele.
â Henry?
â Sim?
â Oh, aconteceu uma coisa maravilhosa.
â Sim?
â Um rapaz negro veio me visitar. Ă lindo! Mais lindo que vocĂȘ...
â Claro.
â ...mais lindo que vocĂȘ e eu juntos.
â Sim.
â Me deixou tĂŁo excitada! Estou a ponto de perder a cabeça!
â Sim.
â VocĂȘ nĂŁo liga?
â NĂŁo.
â Sabe como passamos a tarde?
â NĂŁo.
â Lendo seus poemas!
â Oh?
â E sabe o que ele disse?
â NĂŁo.
â Disse que seus poemas sĂŁo sensacionais!
â Tudo bem.
â Escuta, ele me deixou muito excitada. NĂŁo sei o que fazer. VocĂȘ nĂŁo vem? Agora? Quero ver vocĂȘ agora...
â Louise, estou trabalhando...
â Escuta, vocĂȘ tem alguma coisa contra negros?
â NĂŁo.
â Eu conheço esse garoto hĂĄ dez anos. Ele trabalhava pra mim quando eu era rica.
â Quer dizer, quando vocĂȘ ainda vivia com seu marido rico.
â Vou ver vocĂȘ depois? Ibsen Ă© Ă s oito e meia.
â Eu lhe informo.
â Por que aquele sacana apareceu? Eu estava bem, e aĂ ele aparece. Nossa. Estou tĂŁo excitada que preciso ver vocĂȘ. Estou ficando maluca. Ele era tĂŁo lindo.
â Estou trabalhando, Louise. O problema aqui Ă© âAluguelâ. Tente entender.
Louise desligou. Tornou a ligar Ă s oito e vinte. Henry disse que continuava trabalhando. E continuava. Depois começou a beber e ficou simplesmente sentado na cadeira, simplesmente sentado na cadeira. Ăs dez para as dez, ouviu uma batida na porta. Era Booboo Meltzer, o astro de rock nĂșmero 1 da dĂ©cada de 1970, atualmente desempregado, ainda vivendo de direitos autorais.
â Oi, garoto â disse Henry.
Meltzer entrou e sentou-se.
â Cara â disse â, vocĂȘ Ă© um velho e belo gato. Eu nĂŁo aguento.
â Calma, garoto, gato estĂĄ fora de moda, o quente agora Ă© cachorro.
â Tenho um palpite de que vocĂȘ precisa de ajuda, coroa.
â Garoto, nunca foi de outro jeito.
Henry foi Ă cozinha, pegou duas cervejas, abriu-as e voltou.
â Estou sem xoxota, garoto, o que pra mim Ă© o mesmo que estar sem amor. NĂŁo consigo separar as duas coisas. NĂŁo sou tĂŁo vivo assim.
â Nenhum de nĂłs Ă© vivo, VovĂŽ. Todos precisamos de ajuda.
â Ă...
Meltzer tinha um tubinho de celuloide. Cuidadosamente, despejou dois montinhos brancos na mesa de café.
â Isso Ă© cocaĂna, VovĂŽ, cocaĂna...
â Ah, ha.
Meltzer meteu a mão no bolso, puxou uma nota de cinquenta dólares, fez um canudo bem comprimido e enfiou-o no nariz. Apertando a outra narina com um dedo, curvou-se sobre uma das manchas brancas na mesa de café e inalou-a. Depois enfiou a nota de cinquenta dólares na outra narina e cafungou a segunda mancha.
â Neve â disse Meltzer.
â Ă Natal. Muito apropriado â disse Henry.
Meltzer bateu mais duas manchas e passou os cinquenta. Henry disse:
â Guenta aĂ, eu uso a minha.
E pegou uma nota de um dĂłlar e cafungou. Uma para cada narina.
â Que acha de A Dança do Cachorro Branco? â perguntou Henry.
â Isto aqui Ă© que Ă© âA Dança do Cachorro Brancoâ â disse Meltzer, batendo mais duas carreiras.
â Nossa â disse Henry. â Acho que nunca mais vou ficar de saco cheio. VocĂȘ nĂŁo estĂĄ cheio de mim, estĂĄ?
â De jeito nenhum â disse Meltzer, cafungando atravĂ©s da nota de cinquenta dĂłlares com toda a força. â VovĂŽ, de jeito nenhum...
â Numa Fria
Dinossauros, Nós
nascidos assim
em meio a isso
enquanto as faces de greda sorriem
enquanto a Dona Morte ri
enquanto os elevadores quebram
enquanto os cenĂĄrios polĂticos se dissolvem
enquanto o empacotador de supermercado ostenta um diploma universitĂĄrio
enquanto o peixe gorduroso expele sua presa gordurosa
enquanto o sol se mascara
somos
nascidos assim
em meio a isso
em meio a essas cuidadosas e insanas guerras
em meio Ă visĂŁo das janelas quebradas de uma fĂĄbrica de vacuidade
em meio a bares onde as pessoas jĂĄ nĂŁo falam umas com as outras
em meio a brigas de soco que terminam com tiros e facadas
nascido em meio a isso
em meio a hospitais que sĂŁo tĂŁo caros que sai mais em conta morrer
em meio a advogados cujos honorĂĄrios tornam mais barato alegar culpa
em meio a um paĂs em que as cadeias estĂŁo cheias e os manicĂŽmios fechados
em meio a um lugar em que as massas promovem imbecis a ricos herĂłis
nascidos em meio a isso
caminhando e vivendo através disso
morrendo por causa disso
calados por causa disso
castrados
depravados
deserdados
por causa disso
enganados por isso
usados por isso
irritados por isso
enlouquecidos e doentes por isso
levados Ă violĂȘncia
levados Ă inumanidade
por isso
o coração estå enegrecido
os dedos buscam a garganta
o revĂłlver
a faca
a bomba
os dedos vĂŁo em busca de um deus que nĂŁo responde
os dedos buscam pela garrafa
pela pĂlula
pela pĂłlvora
nascemos em meio a esta pesarosa mortalidade
nascemos em meio a um governo com dĂvidas superiores a 60 anos
que em breve nĂŁo serĂĄ capaz sequer de pagar os juros dessa dĂvida
e os bancos arderĂŁo
o dinheiro serĂĄ inĂștil
haverå mortes impunes e a céu aberto nas ruas
haverå armas e multidÔes errantes
a terra serĂĄ inĂștil
a comida se tornarĂĄ pouco lucrativa
o poder nuclear entrarĂĄ em colapso pelas inĂșmeras
explosÔes que continuamente sacudirão a terra
homens-robĂŽ radioativos se atacarĂŁo em silĂȘncio
os ricos e os escolhidos assistirĂŁo a tudo de plataformas espaciais
o Inferno de Dante parecerå brincadeira de criança
o sol nĂŁo serĂĄ mais visto e a noite serĂĄ constante
as ĂĄrvores morrerĂŁo
toda vegetação morrerå
os homens radioativos comerĂŁo a carne de homens radioativos
os mares serĂŁo venenosos
os rios e lagos desaparecerĂŁo
a chuva serĂĄ o novo ouro
os corpos putrefatos dos homens e dos animais federĂŁo ao vento negro
os poucos sobreviventes serão consumidos por novas e hediondas doenças
e as plataformas espaciais serĂŁo destruĂdas pelo desgaste natural
pela diminuição dos suprimentos
pelo efeito da decadĂȘncia geral
e entĂŁo haverĂĄ o mais belo silĂȘncio jamais ouvido
nascido disso tudo.
o sol seguirĂĄ escondido
Ă espera do prĂłximo capĂtulo.
em meio a isso
enquanto as faces de greda sorriem
enquanto a Dona Morte ri
enquanto os elevadores quebram
enquanto os cenĂĄrios polĂticos se dissolvem
enquanto o empacotador de supermercado ostenta um diploma universitĂĄrio
enquanto o peixe gorduroso expele sua presa gordurosa
enquanto o sol se mascara
somos
nascidos assim
em meio a isso
em meio a essas cuidadosas e insanas guerras
em meio Ă visĂŁo das janelas quebradas de uma fĂĄbrica de vacuidade
em meio a bares onde as pessoas jĂĄ nĂŁo falam umas com as outras
em meio a brigas de soco que terminam com tiros e facadas
nascido em meio a isso
em meio a hospitais que sĂŁo tĂŁo caros que sai mais em conta morrer
em meio a advogados cujos honorĂĄrios tornam mais barato alegar culpa
em meio a um paĂs em que as cadeias estĂŁo cheias e os manicĂŽmios fechados
em meio a um lugar em que as massas promovem imbecis a ricos herĂłis
nascidos em meio a isso
caminhando e vivendo através disso
morrendo por causa disso
calados por causa disso
castrados
depravados
deserdados
por causa disso
enganados por isso
usados por isso
irritados por isso
enlouquecidos e doentes por isso
levados Ă violĂȘncia
levados Ă inumanidade
por isso
o coração estå enegrecido
os dedos buscam a garganta
o revĂłlver
a faca
a bomba
os dedos vĂŁo em busca de um deus que nĂŁo responde
os dedos buscam pela garrafa
pela pĂlula
pela pĂłlvora
nascemos em meio a esta pesarosa mortalidade
nascemos em meio a um governo com dĂvidas superiores a 60 anos
que em breve nĂŁo serĂĄ capaz sequer de pagar os juros dessa dĂvida
e os bancos arderĂŁo
o dinheiro serĂĄ inĂștil
haverå mortes impunes e a céu aberto nas ruas
haverå armas e multidÔes errantes
a terra serĂĄ inĂștil
a comida se tornarĂĄ pouco lucrativa
o poder nuclear entrarĂĄ em colapso pelas inĂșmeras
explosÔes que continuamente sacudirão a terra
homens-robĂŽ radioativos se atacarĂŁo em silĂȘncio
os ricos e os escolhidos assistirĂŁo a tudo de plataformas espaciais
o Inferno de Dante parecerå brincadeira de criança
o sol nĂŁo serĂĄ mais visto e a noite serĂĄ constante
as ĂĄrvores morrerĂŁo
toda vegetação morrerå
os homens radioativos comerĂŁo a carne de homens radioativos
os mares serĂŁo venenosos
os rios e lagos desaparecerĂŁo
a chuva serĂĄ o novo ouro
os corpos putrefatos dos homens e dos animais federĂŁo ao vento negro
os poucos sobreviventes serão consumidos por novas e hediondas doenças
e as plataformas espaciais serĂŁo destruĂdas pelo desgaste natural
pela diminuição dos suprimentos
pelo efeito da decadĂȘncia geral
e entĂŁo haverĂĄ o mais belo silĂȘncio jamais ouvido
nascido disso tudo.
o sol seguirĂĄ escondido
Ă espera do prĂłximo capĂtulo.
Doente
ter andado muito doente e muito fraco Ă© algo muito
estranho.
quando é necessåria toda sua força para ir do
quarto ao banheiro e voltar, isto parece
uma piada mas
vocĂȘ nĂŁo ri.
de volta Ă cama vocĂȘ volta a pensar na morte e descobre
a mesma coisa: quanto mais perto se estĂĄ dela
menos apavorante ela se
torna.
vocĂȘ tem tempo o suficiente para examinar as paredes
e lĂĄ fora
os passarinhos sobre o fio do telefone ganham tremenda
importĂąncia.
e ali estĂĄ a tevĂȘ: homens jogando beisebol
dia apĂłs dia.
nenhum apetite.
a comida tem gosto de papelĂŁo, faz com que vocĂȘ se sinta
mal, além de todos os
limites.
a esposa dedicada nĂŁo cansa de insistir para que vocĂȘ
coma.
âo mĂ©dico disse...â
pobrezinha.
e os gatos.
os gatos pulam sobre a cama e me olham.
me encaram, e entĂŁo pulam para o
chĂŁo.
que mundo, vocĂȘ pensa: comer, trabalhar, trepar,
morrer.
por sorte tenho uma doença contagiosa: nada de
visitas.
a balança marca 70, do que um dia foram
98.
pareço um homem num campo de concentração.
eu sou esse
homem.
ainda assim, tenho sorte: me agrada a solidĂŁo,
jamais sentirei falta das pessoas.
eu poderia ler os grandes livros mas os grandes livros nĂŁo
me interessam.
me sento na cama e espero que tudo siga
por um caminho ou pelo
outro.
exatamente como faz todo
mundo.
estranho.
quando é necessåria toda sua força para ir do
quarto ao banheiro e voltar, isto parece
uma piada mas
vocĂȘ nĂŁo ri.
de volta Ă cama vocĂȘ volta a pensar na morte e descobre
a mesma coisa: quanto mais perto se estĂĄ dela
menos apavorante ela se
torna.
vocĂȘ tem tempo o suficiente para examinar as paredes
e lĂĄ fora
os passarinhos sobre o fio do telefone ganham tremenda
importĂąncia.
e ali estĂĄ a tevĂȘ: homens jogando beisebol
dia apĂłs dia.
nenhum apetite.
a comida tem gosto de papelĂŁo, faz com que vocĂȘ se sinta
mal, além de todos os
limites.
a esposa dedicada nĂŁo cansa de insistir para que vocĂȘ
coma.
âo mĂ©dico disse...â
pobrezinha.
e os gatos.
os gatos pulam sobre a cama e me olham.
me encaram, e entĂŁo pulam para o
chĂŁo.
que mundo, vocĂȘ pensa: comer, trabalhar, trepar,
morrer.
por sorte tenho uma doença contagiosa: nada de
visitas.
a balança marca 70, do que um dia foram
98.
pareço um homem num campo de concentração.
eu sou esse
homem.
ainda assim, tenho sorte: me agrada a solidĂŁo,
jamais sentirei falta das pessoas.
eu poderia ler os grandes livros mas os grandes livros nĂŁo
me interessam.
me sento na cama e espero que tudo siga
por um caminho ou pelo
outro.
exatamente como faz todo
mundo.
Dow Jones: Em Queda
como podemos resistir?
como podemos falar de rosas
ou de Verlaine?
este Ă© um bando faminto
que gosta de trabalhar e contar
e conhece as leis especiais,
que gosta de sentar nos parques
pensando em nada que preste.
Ă© ali que a porca torce o rabo
sobre os montes rochosos
onde os rostos enlouquecem como violetas calcinadas pelo sol
onde falham as vassouras e as cordas e as tochas,
sombras em apuros...
onde as paredes caem em massa.
amanhĂŁ os banqueiros ditarĂŁo o tempo
de fechar os portÔes contra nossa inundação
e prevaricarĂŁo com as ĂĄguas;
martelando, martelando o tempo,
lembre-se jĂĄ
as flores estĂŁo abertas ao vento
e isso não faz nenhuma diferença afinal
exceto como um estremecimento na nuca
quando jĂĄ de volta Ă nossa terra aberta
mortos outra vez
caminhamos entre os mortos.
como podemos falar de rosas
ou de Verlaine?
este Ă© um bando faminto
que gosta de trabalhar e contar
e conhece as leis especiais,
que gosta de sentar nos parques
pensando em nada que preste.
Ă© ali que a porca torce o rabo
sobre os montes rochosos
onde os rostos enlouquecem como violetas calcinadas pelo sol
onde falham as vassouras e as cordas e as tochas,
sombras em apuros...
onde as paredes caem em massa.
amanhĂŁ os banqueiros ditarĂŁo o tempo
de fechar os portÔes contra nossa inundação
e prevaricarĂŁo com as ĂĄguas;
martelando, martelando o tempo,
lembre-se jĂĄ
as flores estĂŁo abertas ao vento
e isso não faz nenhuma diferença afinal
exceto como um estremecimento na nuca
quando jĂĄ de volta Ă nossa terra aberta
mortos outra vez
caminhamos entre os mortos.
Dr. Nazi
Bem, sou um homem com muitos problemas e suponho que em sua maioria sejam criados por mim mesmo. Estou falando de problemas com mulheres, jogo, hostilidade contra grupos de pessoas, e, quanto maior o grupo, maior a hostilidade. Dizem que sou negativo, sombrio e taciturno.
Sempre me lembro da mulher que me gritou assim:
â VocĂȘ Ă© tĂŁo negativo, porra! A vida pode ser bonita!
Suponho que possa e especialmente com menos gritaria. Mas quero falar de meu médico. Não vou a psiquiatras. Psiquiatras não valem nada e estão muito satisfeitos consigo mesmos. Mas um bom médico estå sempre de saco cheio e/ou louco, e, portanto, muito mais interessante.
Fui ao consultório do dr. Kiepenheur porque era o mais perto. Minhas mãos estavam estourando com pequenas bolhas brancas... um sinal, imaginei, da minha ansiedade presente ou possivelmente cùncer. Eu usava luvas grossas para que as pessoas não ficassem olhando. E minhas mãos ardiam dentro das luvas, enquanto eu fumava dois maços de cigarro por dia.
Entrei no consultório do doutor. Minha consulta era a primeira. Sendo o homem ansioso que eu era, estava trinta minutos adiantado, pensando no cùncer. Caminhei pela sala de espera, olhando para o escritório. Ali estava uma enfermeira-recepcionista agachada no chão com o seu uniforme branco e justo, seu vestido subira quase até os quadris, coxas grossas e potentes apareciam através da meia-calça de nåilon apertada. Esqueci completamente do cùncer. Ela não me ouvira, e eu olhava suas pernas e coxas desveladas, apreciava aquela bunda deliciosa com meus olhos. Ela estava secando ågua do chão, a privada havia transbordado e ela dizia palavrÔes, de modo passional, e ela era rosa e marrom e cheia de vida e desvelada e eu a encarava.
Ela olhou para cima.
â Sim?
â VĂĄ em frente â eu disse â, nĂŁo deixe que eu a atrapalhe.
â Ă a privada â ela disse â, vive transbordando.
Ela continuou secando e eu continuei olhando por cima da revista Life. Finalmente ela se levantou. Caminhei até o sofå e me sentei. Ela revisou a agenda de consultas.
â VocĂȘ Ă© o sr. Chinaski?
â Sim.
â Por que nĂŁo tira as luvas? EstĂĄ quente aqui.
â Prefiro nĂŁo tirĂĄ-las, se nĂŁo se importa.
â O dr. Kiepenheuer logo estarĂĄ aqui.
â Tudo bem. Posso esperar.
â Qual Ă© o seu problema?
â CĂąncer.
â CĂąncer?
â Sim.
A enfermeira desapareceu, e eu li a Life e depois outro exemplar da Life e entĂŁo uma Sports Illustrated e em seguida fiquei sentado, olhando as pinturas de paisagens marĂtimas e terrestres pregadas na parede. Logo uma mĂșsica de saxofone surgiu de algum lugar. EntĂŁo, subitamente, todas as luzes piscaram, entĂŁo mais uma vez, e imaginei se haveria alguma maneira de estuprar a enfermeira e nĂŁo ser preso, quando o mĂ©dico entrou. Ignorei-o, e ele me ignorou, de modo que ficamos quites.
Ele me chamou para seu escritĂłrio. Estava sentado em um banquinho e me olhou. Tinha uma cara amarela e cabelos amarelados e seus olhos eram opacos. Ele estava morrendo. Devia ter uns 42 anos. Vi-o e lhe dei seis meses de vida.
â Por que as luvas? â ele perguntou.
â Sou um homem sensĂvel, doutor.
â Ă?
â Sim.
â EntĂŁo devo lhe informar que eu jĂĄ fui nazista.
â Tudo bem.
â NĂŁo se importa de eu jĂĄ ter sido nazista?
â NĂŁo, nĂŁo me importo.
â Fui capturado. Eles me levaram pela França em um vagĂŁo de trem com as portas abertas, e as pessoas ficavam ao longo do caminho e atiravam bombas de fedor e pedras e todo tipo de lixo em nĂłs... ossos de peixe, plantas mortas, excremento, tudo o que se possa imaginar.
EntĂŁo o doutor me falou de sua esposa. Ela estava tentando lhe arrancar o couro. Uma tremenda cadela. Queria toda a grana dele. A casa. O jardim. A casa de verĂŁo. O jardineiro tambĂ©m, provavelmente, se jĂĄ nĂŁo o tinha. E o carro. E uma pensĂŁo. AlĂ©m de uma grande quantia em dinheiro. Mulher horrĂvel. Ele trabalhava tĂŁo duro. Cinquenta pacientes por dia a dez dĂłlares por cabeça. Quase impossĂvel sobreviver. E aquela mulher. Mulher. Sim, mulher. Ele decompĂŽs a palavra para mim. NĂŁo lembro se ele disse mulher ou fĂȘmea ou outra coisa, mas ele decompĂŽs a palavra para mim em latim e a dividiu para me mostrar qual era a raiz... em latim: mulheres eram basicamente insanas.
Enquanto ele falava sobre a insanidade das mulheres, comecei a me sentir bem com o doutor. Minha cabeça sinalizava em concordùncia.
Subitamente ele me mandou para a balança, me pesou, então auscultou meu coração e meu peito. Tirou rudemente as minhas luvas, lavou minhas mãos com algum tipo de merda e abriu as bolhas com uma lùmina, ainda falando sobre o rancor e a vingança que todas as mulheres carregavam em seus coraçÔes. Era glandular. As mulheres eram comandadas por suas glùndulas; os homens, por seus coraçÔes. Era por isso que apenas os homens sofriam.
Disse que eu deveria lavar as mĂŁos regularmente e jogar as malditas luvas fora. Falou um pouco mais sobre as mulheres e sua esposa e entĂŁo fui embora.
O problema seguinte foram vertigens que me causavam desmaios. Mas só me acontecia quando eu estava em pé em alguma fila. Comecei a ficar aterrorizado de ter que ficar em qualquer fila. Era insuportåvel.
Descobri que na AmĂ©rica e provavelmente em todos os outros lugares, tudo se resumia a ficar na fila. FazĂamos isso em toda parte. Carteira de motorista: trĂȘs ou quatro filas. HipĂłdromo: filas. Cinema: filas. Mercado: filas. Eu odiava filas. Senti que devia haver uma maneira de evitar as filas. EntĂŁo a resposta me iluminou. Ter mais atendentes. Sim, essa era a solução. Dois atendentes para cada pessoa. TrĂȘs atendentes. Deixem os atendentes fazerem fila.
Sabia que as filas estavam me matando. Não podia aceitå-las, mas todo mundo aceitava. Todo mundo era normal. A vida era bela para eles. Podiam ficar na fila sem sentir dor. Podiam ficar na fila para sempre. Eles até mesmo gostavam de ficar na fila. Conversavam e se mostravam os dentes e sorriam e flertavam uns com os outros. Não tinham mais nada para fazer. Não conseguiam pensar em mais nada para fazer. E eu tinha que olhar para suas orelhas e bocas e pescoços e pernas e bundas e narinas, tudo aquilo. Podia sentir raios de morte emanando de seus corpos, como vapores e, ouvindo suas conversas, eu sentia vontade de gritar:
â Jesus Cristo, alguĂ©m me ajude! Tenho que sofrer desta forma sĂł para comprar um quilo de hambĂșrger e um pedaço de pĂŁo de centeio?
A tontura vinha, e eu espichava e afastava minhas pernas para evitar cair no chão, o supermercado girava e também as caras dos atendentes do supermercado com seus bigodes dourados e marrons, seus olhos alegres e espertos, todos chegarão a gerentes de supermercado um dia, com suas caras esfoliadas e contentes, comprando casas em Arcådia e trepando à noite com suas esposas loiras, pålidas e graciosas.
Marquei novamente uma consulta com o doutor. Recebi o primeiro horĂĄrio. Cheguei meia hora mais cedo e a privada estava consertada. A enfermeira estava tirando o pĂł do escritĂłrio. Ela se curvou e se endireitou e se curvou um pouco e entĂŁo se curvava para a direita e entĂŁo se curvava para a esquerda e virou a bunda para mim e se curvou. O uniforme branco se contraĂa e subia, escalava, se erguia; aqui estava um joelho com covinhas, lĂĄ uma coxa, aqui um quadril, lĂĄ o corpo inteiro. Sentei e abri um exemplar da Life.
Ela parou de tirar o pó e pÎs a cabeça para fora e me sorriu:
â Livrou-se das luvas, sr. Chinaski.
â Sim.
O doutor entrou, parecendo estar um pouco mais perto da morte, acenou com a cabeça, levantei e o segui para seu consultório.
Ele sentou em seu banco.
â Chinaski, como vai?
â Bem, doutor...
â Problema com as mulheres?
â Bem, Ă© claro, mas...
Ele nĂŁo me deixava terminar minhas frases. Tinha perdido mais cabelo. Seus dedos se contraĂam. Parecia nĂŁo ter mais fĂŽlego. Mais magro. Era um homem desesperado.
Sua esposa o estava esfolando. Tinham ido ao tribunal. Ela lhe deu um tapa no tribunal. Ele gostou disso. Ajudou no caso. Eles viram quem era aquela cadela. De qualquer forma, não se saiu tão mal. Ela lhe deixara alguma coisa. à claro, sabe quanto custam os advogados. Desgraçados. Jå reparou nos advogados? Quase sempre gordos. Especialmente ao redor do rosto.
â De qualquer forma, caralho, ela me ferrou. Mas tenho um pouco guardado. Quer saber quanto custa uma tesoura como essa? Olha bem. LatĂŁo com um parafuso. Dezoito e cinquenta. Meu Deus, e eles odiavam os nazistas. O que Ă© um nazista comparado a isso?
â NĂŁo sei, doutor. JĂĄ disse que sou um homem confuso.
â JĂĄ tentou um psiquiatra?
â NĂŁo adianta. SĂŁo idiotas, sem imaginação. NĂŁo preciso de psiquiatras. Ouvi dizer que eles acabam molestando sexualmente suas pacientes. Eu gostaria de ser um psiquiatra, se eu pudesse foder todas as mulheres. Fora isso, o trabalho deles Ă© inĂștil.
Meu doutor se endireitou no seu banco. Ele amarelou e acinzentou um pouco mais. Um gigantesco espasmo percorreu seu corpo. Estava quase acabado. Um bom camarada, apesar de tudo.
â Bem, me livrei da minha esposa â ele disse. â EstĂĄ acabado.
â Bom â eu disse â, me conte de quando vocĂȘ era nazista.
â Bem, nĂŁo tĂnhamos muita escolha. Eles simplesmente nos faziam entrar. Eu era jovem. Quero dizer, porra, o que se pode fazer? SĂł se pode viver em um paĂs por vez. Vai-se Ă guerra e, se nĂŁo acaba morrendo, acaba em um vagĂŁo aberto com pessoas atirando merda em vocĂȘ...
Perguntei-lhe se ele trepava com sua enfermeira gostosa. Ele sorriu gentilmente. O sorriso era um sim. Então me disse que desde o divórcio, bem, vinha se encontrando com uma de suas pacientes e ele sabia que não era ético fazer isso com pacientes...
â NĂŁo, acho que estĂĄ tudo bem, doutor.
â Ă uma mulher muito inteligente. Casei com ela.
â Tudo bem.
â Agora estou feliz... mas...
EntĂŁo ele esticou suas mĂŁos abertas, lado a lado, com as palmas para cima...
Contei-lhe sobre o meu medo de filas. Ele me deu uma receita de Librium.
EntĂŁo fui atacado por uma furunculose na minha bunda. Estava em agonia. Amarraram-me com tiras de couro, esses sujeitos podem fazer o que quiserem com vocĂȘ, me deram uma anestesia local e me abriram o cu. Virei minha cabeça e olhei para o meu doutor e disse:
â HĂĄ alguma possibilidade de que eu mude de ideia?
TrĂȘs rostos me olhavam de cima. O do mĂ©dico e outros dois. Ele para cortar. Ela para as bandagens. Um terceiro metendo agulhas.
â VocĂȘ nĂŁo pode mudar de ideia â disse o doutor e esfregou suas mĂŁos e arreganhou os dentes e começou...
A Ășltima vez que o vi foi por causa de algo relacionado Ă cera em meus ouvidos. Eu podia ver seus lĂĄbios se mexendo, tentei entender, mas nĂŁo podia ouvir. Eu sabia, por seus olhos e por sua cara, que eram tempos difĂceis para ele outra vez e assenti com a cabeça.
Fazia calor. Eu estava um pouco tonto e pensei, bem, sim, ele é um bom camarada, mas por que não me deixa falar sobre os meus problemas, isso não é justo, também tenho problemas e tenho que pagå-lo.
Por fim, meu doutor se deu conta de que eu nĂŁo estava ouvindo nada. Pegou algo que parecia com um extintor de incĂȘndio e meteu em meus ouvidos. Mais tarde me mostrou grandes pedaços de cera... era a cera, ele disse. E apontou para um balde. Parecia realmente com feijĂ”es requentados.
Levantei da mesa, paguei-o e me fui. Ainda não podia ouvir nada. Não me sentia particularmente mal nem bem e imaginei que doença eu lhe traria da próxima vez, o que ele faria a respeito disso, o que ele faria com respeito à sua filha de dezessete anos que estava apaixonada por outra mulher e que iria casar com ela e me ocorreu que todo mundo sofria continuamente, incluindo aqueles que fingiam não sofrer. Parecia-me que essa era uma boa descoberta. Olhei para o garoto que vendia jornal e pensei, hummmm, hummmm, e olhei para a próxima pessoa que passou e pensei hummmm, hummmm, hummmmmm, e no semåforo perto do hospital, um carro novo e preto dobrou a esquina e atropelou uma bela garota que vestia um minivestido azul, e ela era loira e tinha faixas azuis no cabelo e se sentou na rua, ao sol, e um filete escarlate correu de seu nariz.
â Ao sul de lugar nenhum
Sempre me lembro da mulher que me gritou assim:
â VocĂȘ Ă© tĂŁo negativo, porra! A vida pode ser bonita!
Suponho que possa e especialmente com menos gritaria. Mas quero falar de meu médico. Não vou a psiquiatras. Psiquiatras não valem nada e estão muito satisfeitos consigo mesmos. Mas um bom médico estå sempre de saco cheio e/ou louco, e, portanto, muito mais interessante.
Fui ao consultório do dr. Kiepenheur porque era o mais perto. Minhas mãos estavam estourando com pequenas bolhas brancas... um sinal, imaginei, da minha ansiedade presente ou possivelmente cùncer. Eu usava luvas grossas para que as pessoas não ficassem olhando. E minhas mãos ardiam dentro das luvas, enquanto eu fumava dois maços de cigarro por dia.
Entrei no consultório do doutor. Minha consulta era a primeira. Sendo o homem ansioso que eu era, estava trinta minutos adiantado, pensando no cùncer. Caminhei pela sala de espera, olhando para o escritório. Ali estava uma enfermeira-recepcionista agachada no chão com o seu uniforme branco e justo, seu vestido subira quase até os quadris, coxas grossas e potentes apareciam através da meia-calça de nåilon apertada. Esqueci completamente do cùncer. Ela não me ouvira, e eu olhava suas pernas e coxas desveladas, apreciava aquela bunda deliciosa com meus olhos. Ela estava secando ågua do chão, a privada havia transbordado e ela dizia palavrÔes, de modo passional, e ela era rosa e marrom e cheia de vida e desvelada e eu a encarava.
Ela olhou para cima.
â Sim?
â VĂĄ em frente â eu disse â, nĂŁo deixe que eu a atrapalhe.
â Ă a privada â ela disse â, vive transbordando.
Ela continuou secando e eu continuei olhando por cima da revista Life. Finalmente ela se levantou. Caminhei até o sofå e me sentei. Ela revisou a agenda de consultas.
â VocĂȘ Ă© o sr. Chinaski?
â Sim.
â Por que nĂŁo tira as luvas? EstĂĄ quente aqui.
â Prefiro nĂŁo tirĂĄ-las, se nĂŁo se importa.
â O dr. Kiepenheuer logo estarĂĄ aqui.
â Tudo bem. Posso esperar.
â Qual Ă© o seu problema?
â CĂąncer.
â CĂąncer?
â Sim.
A enfermeira desapareceu, e eu li a Life e depois outro exemplar da Life e entĂŁo uma Sports Illustrated e em seguida fiquei sentado, olhando as pinturas de paisagens marĂtimas e terrestres pregadas na parede. Logo uma mĂșsica de saxofone surgiu de algum lugar. EntĂŁo, subitamente, todas as luzes piscaram, entĂŁo mais uma vez, e imaginei se haveria alguma maneira de estuprar a enfermeira e nĂŁo ser preso, quando o mĂ©dico entrou. Ignorei-o, e ele me ignorou, de modo que ficamos quites.
Ele me chamou para seu escritĂłrio. Estava sentado em um banquinho e me olhou. Tinha uma cara amarela e cabelos amarelados e seus olhos eram opacos. Ele estava morrendo. Devia ter uns 42 anos. Vi-o e lhe dei seis meses de vida.
â Por que as luvas? â ele perguntou.
â Sou um homem sensĂvel, doutor.
â Ă?
â Sim.
â EntĂŁo devo lhe informar que eu jĂĄ fui nazista.
â Tudo bem.
â NĂŁo se importa de eu jĂĄ ter sido nazista?
â NĂŁo, nĂŁo me importo.
â Fui capturado. Eles me levaram pela França em um vagĂŁo de trem com as portas abertas, e as pessoas ficavam ao longo do caminho e atiravam bombas de fedor e pedras e todo tipo de lixo em nĂłs... ossos de peixe, plantas mortas, excremento, tudo o que se possa imaginar.
EntĂŁo o doutor me falou de sua esposa. Ela estava tentando lhe arrancar o couro. Uma tremenda cadela. Queria toda a grana dele. A casa. O jardim. A casa de verĂŁo. O jardineiro tambĂ©m, provavelmente, se jĂĄ nĂŁo o tinha. E o carro. E uma pensĂŁo. AlĂ©m de uma grande quantia em dinheiro. Mulher horrĂvel. Ele trabalhava tĂŁo duro. Cinquenta pacientes por dia a dez dĂłlares por cabeça. Quase impossĂvel sobreviver. E aquela mulher. Mulher. Sim, mulher. Ele decompĂŽs a palavra para mim. NĂŁo lembro se ele disse mulher ou fĂȘmea ou outra coisa, mas ele decompĂŽs a palavra para mim em latim e a dividiu para me mostrar qual era a raiz... em latim: mulheres eram basicamente insanas.
Enquanto ele falava sobre a insanidade das mulheres, comecei a me sentir bem com o doutor. Minha cabeça sinalizava em concordùncia.
Subitamente ele me mandou para a balança, me pesou, então auscultou meu coração e meu peito. Tirou rudemente as minhas luvas, lavou minhas mãos com algum tipo de merda e abriu as bolhas com uma lùmina, ainda falando sobre o rancor e a vingança que todas as mulheres carregavam em seus coraçÔes. Era glandular. As mulheres eram comandadas por suas glùndulas; os homens, por seus coraçÔes. Era por isso que apenas os homens sofriam.
Disse que eu deveria lavar as mĂŁos regularmente e jogar as malditas luvas fora. Falou um pouco mais sobre as mulheres e sua esposa e entĂŁo fui embora.
O problema seguinte foram vertigens que me causavam desmaios. Mas só me acontecia quando eu estava em pé em alguma fila. Comecei a ficar aterrorizado de ter que ficar em qualquer fila. Era insuportåvel.
Descobri que na AmĂ©rica e provavelmente em todos os outros lugares, tudo se resumia a ficar na fila. FazĂamos isso em toda parte. Carteira de motorista: trĂȘs ou quatro filas. HipĂłdromo: filas. Cinema: filas. Mercado: filas. Eu odiava filas. Senti que devia haver uma maneira de evitar as filas. EntĂŁo a resposta me iluminou. Ter mais atendentes. Sim, essa era a solução. Dois atendentes para cada pessoa. TrĂȘs atendentes. Deixem os atendentes fazerem fila.
Sabia que as filas estavam me matando. Não podia aceitå-las, mas todo mundo aceitava. Todo mundo era normal. A vida era bela para eles. Podiam ficar na fila sem sentir dor. Podiam ficar na fila para sempre. Eles até mesmo gostavam de ficar na fila. Conversavam e se mostravam os dentes e sorriam e flertavam uns com os outros. Não tinham mais nada para fazer. Não conseguiam pensar em mais nada para fazer. E eu tinha que olhar para suas orelhas e bocas e pescoços e pernas e bundas e narinas, tudo aquilo. Podia sentir raios de morte emanando de seus corpos, como vapores e, ouvindo suas conversas, eu sentia vontade de gritar:
â Jesus Cristo, alguĂ©m me ajude! Tenho que sofrer desta forma sĂł para comprar um quilo de hambĂșrger e um pedaço de pĂŁo de centeio?
A tontura vinha, e eu espichava e afastava minhas pernas para evitar cair no chão, o supermercado girava e também as caras dos atendentes do supermercado com seus bigodes dourados e marrons, seus olhos alegres e espertos, todos chegarão a gerentes de supermercado um dia, com suas caras esfoliadas e contentes, comprando casas em Arcådia e trepando à noite com suas esposas loiras, pålidas e graciosas.
Marquei novamente uma consulta com o doutor. Recebi o primeiro horĂĄrio. Cheguei meia hora mais cedo e a privada estava consertada. A enfermeira estava tirando o pĂł do escritĂłrio. Ela se curvou e se endireitou e se curvou um pouco e entĂŁo se curvava para a direita e entĂŁo se curvava para a esquerda e virou a bunda para mim e se curvou. O uniforme branco se contraĂa e subia, escalava, se erguia; aqui estava um joelho com covinhas, lĂĄ uma coxa, aqui um quadril, lĂĄ o corpo inteiro. Sentei e abri um exemplar da Life.
Ela parou de tirar o pó e pÎs a cabeça para fora e me sorriu:
â Livrou-se das luvas, sr. Chinaski.
â Sim.
O doutor entrou, parecendo estar um pouco mais perto da morte, acenou com a cabeça, levantei e o segui para seu consultório.
Ele sentou em seu banco.
â Chinaski, como vai?
â Bem, doutor...
â Problema com as mulheres?
â Bem, Ă© claro, mas...
Ele nĂŁo me deixava terminar minhas frases. Tinha perdido mais cabelo. Seus dedos se contraĂam. Parecia nĂŁo ter mais fĂŽlego. Mais magro. Era um homem desesperado.
Sua esposa o estava esfolando. Tinham ido ao tribunal. Ela lhe deu um tapa no tribunal. Ele gostou disso. Ajudou no caso. Eles viram quem era aquela cadela. De qualquer forma, não se saiu tão mal. Ela lhe deixara alguma coisa. à claro, sabe quanto custam os advogados. Desgraçados. Jå reparou nos advogados? Quase sempre gordos. Especialmente ao redor do rosto.
â De qualquer forma, caralho, ela me ferrou. Mas tenho um pouco guardado. Quer saber quanto custa uma tesoura como essa? Olha bem. LatĂŁo com um parafuso. Dezoito e cinquenta. Meu Deus, e eles odiavam os nazistas. O que Ă© um nazista comparado a isso?
â NĂŁo sei, doutor. JĂĄ disse que sou um homem confuso.
â JĂĄ tentou um psiquiatra?
â NĂŁo adianta. SĂŁo idiotas, sem imaginação. NĂŁo preciso de psiquiatras. Ouvi dizer que eles acabam molestando sexualmente suas pacientes. Eu gostaria de ser um psiquiatra, se eu pudesse foder todas as mulheres. Fora isso, o trabalho deles Ă© inĂștil.
Meu doutor se endireitou no seu banco. Ele amarelou e acinzentou um pouco mais. Um gigantesco espasmo percorreu seu corpo. Estava quase acabado. Um bom camarada, apesar de tudo.
â Bem, me livrei da minha esposa â ele disse. â EstĂĄ acabado.
â Bom â eu disse â, me conte de quando vocĂȘ era nazista.
â Bem, nĂŁo tĂnhamos muita escolha. Eles simplesmente nos faziam entrar. Eu era jovem. Quero dizer, porra, o que se pode fazer? SĂł se pode viver em um paĂs por vez. Vai-se Ă guerra e, se nĂŁo acaba morrendo, acaba em um vagĂŁo aberto com pessoas atirando merda em vocĂȘ...
Perguntei-lhe se ele trepava com sua enfermeira gostosa. Ele sorriu gentilmente. O sorriso era um sim. Então me disse que desde o divórcio, bem, vinha se encontrando com uma de suas pacientes e ele sabia que não era ético fazer isso com pacientes...
â NĂŁo, acho que estĂĄ tudo bem, doutor.
â Ă uma mulher muito inteligente. Casei com ela.
â Tudo bem.
â Agora estou feliz... mas...
EntĂŁo ele esticou suas mĂŁos abertas, lado a lado, com as palmas para cima...
Contei-lhe sobre o meu medo de filas. Ele me deu uma receita de Librium.
EntĂŁo fui atacado por uma furunculose na minha bunda. Estava em agonia. Amarraram-me com tiras de couro, esses sujeitos podem fazer o que quiserem com vocĂȘ, me deram uma anestesia local e me abriram o cu. Virei minha cabeça e olhei para o meu doutor e disse:
â HĂĄ alguma possibilidade de que eu mude de ideia?
TrĂȘs rostos me olhavam de cima. O do mĂ©dico e outros dois. Ele para cortar. Ela para as bandagens. Um terceiro metendo agulhas.
â VocĂȘ nĂŁo pode mudar de ideia â disse o doutor e esfregou suas mĂŁos e arreganhou os dentes e começou...
A Ășltima vez que o vi foi por causa de algo relacionado Ă cera em meus ouvidos. Eu podia ver seus lĂĄbios se mexendo, tentei entender, mas nĂŁo podia ouvir. Eu sabia, por seus olhos e por sua cara, que eram tempos difĂceis para ele outra vez e assenti com a cabeça.
Fazia calor. Eu estava um pouco tonto e pensei, bem, sim, ele é um bom camarada, mas por que não me deixa falar sobre os meus problemas, isso não é justo, também tenho problemas e tenho que pagå-lo.
Por fim, meu doutor se deu conta de que eu nĂŁo estava ouvindo nada. Pegou algo que parecia com um extintor de incĂȘndio e meteu em meus ouvidos. Mais tarde me mostrou grandes pedaços de cera... era a cera, ele disse. E apontou para um balde. Parecia realmente com feijĂ”es requentados.
Levantei da mesa, paguei-o e me fui. Ainda não podia ouvir nada. Não me sentia particularmente mal nem bem e imaginei que doença eu lhe traria da próxima vez, o que ele faria a respeito disso, o que ele faria com respeito à sua filha de dezessete anos que estava apaixonada por outra mulher e que iria casar com ela e me ocorreu que todo mundo sofria continuamente, incluindo aqueles que fingiam não sofrer. Parecia-me que essa era uma boa descoberta. Olhei para o garoto que vendia jornal e pensei, hummmm, hummmm, e olhei para a próxima pessoa que passou e pensei hummmm, hummmm, hummmmmm, e no semåforo perto do hospital, um carro novo e preto dobrou a esquina e atropelou uma bela garota que vestia um minivestido azul, e ela era loira e tinha faixas azuis no cabelo e se sentou na rua, ao sol, e um filete escarlate correu de seu nariz.
â Ao sul de lugar nenhum
Encurralado
bem, eles diziam que tudo terminaria
assim: velho. o talento perdido. tateando Ă s cegas em busca
da palavra
ouvindo os passos
na escuridĂŁo, volto-me
para olhar atrĂĄs de mim...
ainda nĂŁo, velho cĂŁo...
logo em breve.
agora
eles se sentam falando sobre
mim: âsim, acontece, ele jĂĄ
era... Ă©
triste...â
âele nunca teve muito, nĂŁo Ă©
mesmo?â
âbem, nĂŁo, mas agora...â
agora
eles celebram minha derrocada
em tavernas que hĂĄ muito jĂĄ nĂŁo
frequento.
agora
bebo sozinho
junto a essa mĂĄquina que mal
funciona
enquanto as sombras assumem
formas
combato retirando-me
lentamente
agora
minha antiga promessa
definha
definha
agora
acendendo novos cigarros
servindo mais
bebidas
tem sido um belo
combate
ainda
Ă©.
assim: velho. o talento perdido. tateando Ă s cegas em busca
da palavra
ouvindo os passos
na escuridĂŁo, volto-me
para olhar atrĂĄs de mim...
ainda nĂŁo, velho cĂŁo...
logo em breve.
agora
eles se sentam falando sobre
mim: âsim, acontece, ele jĂĄ
era... Ă©
triste...â
âele nunca teve muito, nĂŁo Ă©
mesmo?â
âbem, nĂŁo, mas agora...â
agora
eles celebram minha derrocada
em tavernas que hĂĄ muito jĂĄ nĂŁo
frequento.
agora
bebo sozinho
junto a essa mĂĄquina que mal
funciona
enquanto as sombras assumem
formas
combato retirando-me
lentamente
agora
minha antiga promessa
definha
definha
agora
acendendo novos cigarros
servindo mais
bebidas
tem sido um belo
combate
ainda
Ă©.
Enganando Marie
Era uma noite quente nas corridas de quarto de milha. Ted chegara trazendo duzentos dĂłlares e agora, entrando no quarto pĂĄreo, estava com 530. Conhecia os cavalinhos. Talvez nĂŁo fosse muito bom em nada mais, mas conhecia os cavalinhos. Ted ficou olhando o placar e as pessoas. Elas nĂŁo tinham a menor capacidade para avaliar um cavalo. Mas mesmo assim trazem o seu dinheiro e seus sonhos para as pistas. O hipĂłdromo tinha uma dupla de dois dĂłlares em quase toda corrida para atraĂ-los. Isso e o Pick-6. Ted jamais escolhia o Pick-6 nem as duplas. SĂł a vitĂłria direta no melhor cavalo, que nĂŁo era necessariamente o favorito.
Marie enchia tanto o saco sobre sua ida Ă s corridas que ele sĂł ia duas ou trĂȘs vezes por semana. Vendera sua empresa e se aposentara cedo do ramo da construção. Na verdade nĂŁo havia muito mais coisas que ele pudesse fazer.
Os quatro cavalos pareciam bons a seis por um, mas ainda havia dezoito minutos para a chegada. Sentiu um puxĂŁo na manga do paletĂł.
â PerdĂŁo, senhor, mas eu perdi nas duas primeiras corridas. Vi o senhor trocando suas pules. O senhor parece exatamente um cara que sabe o que estĂĄ fazendo. Quem prefere nessa prĂłxima corrida?
Era uma ruiva, de uns 24 anos, quadris estreitos, seios surpreendentemente grandes, pernas compridas, um lindo narizinho arrebitado, boca de flor, usando um vestido azul-claro e sapatos brancos de saltos altos. Os olhos azuis dela olhavam-no de baixo para cima.
â Bem â sorriu-lhe Ted â, eu geralmente prefiro o vencedor.
â Estou acostumada a jogar em puros-sangues â disse a ruiva. â Esses pĂĄreos de quarto de milha sĂŁo muito rĂĄpidos!
â Ă. A maioria Ă© corrida em menos de dezoito segundos. A gente descobre muito rĂĄpido se acertou ou errou.
â Se minha mĂŁe descobrisse que estou aqui perdendo meu dinheiro, ela me daria uma surra de cinto.
â Eu mesmo gostaria de lhe dar uma surra de cinto â disse Ted.
â VocĂȘ nĂŁo Ă© desses, Ă©? â ela perguntou.
â Brincadeira â disse Ted. â Vamos, vamos ao bar. Talvez a gente consiga escolher um vencedor pra vocĂȘ.
â Tudo bem, senhor...?
â Pode me chamar de Ted. E vocĂȘ, como se chama?
â Victoria.
Entraram no bar.
â Que vai tomar? â perguntou Ted.
â O que vocĂȘ tomar â disse Victoria.
Ele pediu dois Jack Daniels. De pé, ele virou o seu, e ela bebericou o dela, olhando direto em frente. Ted conferiu o traseiro dela: perfeito. Era melhor do que muita candidatazinha ao estrelato no cinema, e não parecia mimada.
â Agora â disse Ted, apontando seu programa â na prĂłxima corrida o cavalo quatro aparece melhor, e estĂĄ dando possibilidades de seis por um...
Victoria exalou um âOoohhh...?â muito sexy. Curvou-se para olhar o programa dele, tocando-o com o braço. Depois ele sentiu a perna dela comprimir-se contra a sua.
â As pessoas nĂŁo sabem avaliar uma corrida â ele disse. â Me mostre um cara que sabe avaliar uma corrida, que eu lhe mostro um cara que pode ganhar todo o dinheiro que possa levar.
Ela sorriu para ele.
â Eu queria ter o que vocĂȘ tem.
â VocĂȘ tem muita coisa, boneca. Quer outra bebida?
â Oh, nĂŁo, obrigada...
â Bem, escuta â disse Ted â, Ă© melhor fazermos as apostas.
â Tudo bem, vou apostar dois dĂłlares no vencedor. Qual Ă©, o cavalo nĂșmero quatro?
â Ă, boneca, Ă© o quatro...
Fizeram suas apostas e saĂram para assistir ao pĂĄreo. O quatro nĂŁo largou bem, foi abalroado de ambos os lados, endireitou-se, ficou em quinto num campo de nove, mas aĂ começou a acelerar e chegou Ă linha cabeça a cabeça com o favorito de dois a um. Foto.
Porra, pensou Ted, eu tenho de ganhar essa. Por favor, me dĂȘ essa!
â Oh â disse Victoria â, estou tĂŁo excitada!
O placar anunciou o nĂșmero. Quatro.
Victoria gritou e pulou de alegria.
â NĂłs ganhamos, nĂłs ganhamos, nĂłs GANHAMOS!
Agarrou Ted e ele sentiu o beijo no rosto.
â VĂĄ com calma, boneca, o melhor cavalo venceu, sĂł isso.
Esperaram o aviso oficial e aĂ o placar exibiu o pagamento. Quatorze dĂłlares e sessenta.
â Quanto vocĂȘ apostou? â perguntou Victoria.
â Quarenta no vencedor â disse Ted.
â Quanto vai receber?
â Duzentos e noventa e dois. Vamos pegar.
Dirigiram-se para os guichĂȘs. EntĂŁo Ted sentiu a mĂŁo de Victoria na sua. Ela o fez parar.
â Se abaixe â ela disse â, que eu quero dizer uma coisa em seu ouvido.
Ted abaixou-se, sentiu os frios lĂĄbios rĂłseos dela em sua orelha.
â VocĂȘ Ă© um... mĂĄgico... Eu quero... foder com vocĂȘ...
Ele ficou ali parado sorrindo debilmente para ela.
â Deus do cĂ©u â disse.
â Que Ă© que hĂĄ? EstĂĄ com medo?
â NĂŁo, nĂŁo, nĂŁo Ă© isso.
â Que Ă© que hĂĄ entĂŁo?
â Ă Marie... minha esposa... eu sou casado... e ela me controla no mĂnimo minuto. Sabe quando as corridas acabam e quando devo chegar.
Victoria deu uma risada.
â A gente sai agora! Vamos a um motel!
â Bem, claro â disse Ted...
Trocaram as pules e voltaram para o estacionamento.
â Vamos no meu carro. Eu trago vocĂȘ de volta quando a gente acabar â disse Victoria.
Foram ao carro dela, um Fiat azul 1982, combinando com o vestido. A placa dizia VICKY. Quando ela pĂŽs a chave na porta, hesitou.
â VocĂȘ nĂŁo Ă© mesmo um daqueles, Ă©?
â Daqueles quais?
â Que batem com o cinto, um daqueles. Minha mĂŁe teve uma experiĂȘncia terrĂvel uma vez...
â Relaxe â ele disse. â Eu sou inofensivo.
Encontraram um motel a pouco mais de dois quilĂŽmetros do hipĂłdromo. O Lua Azul. SĂł que a Lua Azul estava pintada de verde. Victoria estacionou e saltaram, se registraram, deram-lhes o quarto 302. Tinham parado para pegar uma garrafa de Cutty Sark no caminho.
Ted rasgou a embalagem de celofane dos copos, acendeu um cigarro e serviu duas doses enquanto Victoria se despia. A calcinha e o sutiĂŁ eram cor-de-rosa, e o corpo cor-de-rosa e branco e lindo. Era espantoso como de vez em quando se criava uma mulher daquelas, quando todas as outras, a maioria das outras, nĂŁo tinham nada, ou quase nada. Era de enlouquecer. Victoria era um sonho lindo, enlouquecedor.
Victoria estava nua. Aproximou-se e sentou-se na borda da cama junto a Ted. Cruzou as pernas. Tinha os seios firmes e parecia jĂĄ estar com tesĂŁo. Ele realmente nĂŁo acreditava em sua sorte. AĂ ela deu uma risadinha.
â Que foi? â ele perguntou.
â EstĂĄ pensando em sua mulher?
â Bem, nĂŁo, estava pensando em outra coisa.
â Bem, devia pensar em sua mulher...
â Diabos â disse Ted â, foi vocĂȘ quem sugeriu a foda!
â Eu gostaria que vocĂȘ nĂŁo usasse essa palavra...
â EstĂĄ recuando?
â Bem, nĂŁo. Escuta, tem um cigarro?
â Claro...
Ted pegou um, entregou a ela, acendeu-o e ela o manteve na boca.
â VocĂȘ tem o corpo mais lindo que eu jĂĄ vi â disse Ted.
â Eu nĂŁo duvido â ela disse, sorrindo.
â Escuta, vocĂȘ estĂĄ recuando dessa coisa? â ele perguntou.
â Claro que nĂŁo â ela respondeu â, tire a roupa.
Ted começou a despir-se, sentindo-se gordo, velho e feio, mas tambĂ©m sortudo â tinha sido seu melhor dia nas corridas, em muitos aspectos. Dobrou suas roupas numa cadeira e sentou-se junto a Victoria.
Serviram mais um drinque para cada um.
â Sabe â ele disse â, vocĂȘ Ă© um nĂșmero de classe, mas eu tambĂ©m sou. NĂłs dois temos nossa prĂłpria maneira de mostrar isso. Eu faturei uma nota no ramo da construção, e ainda estou faturando nas corridas. Nem todo mundo tem esse instinto.
Victoria bebeu metade de seu Cutty Sark e sorriu para ele.
â Oh, vocĂȘ Ă© meu grande Buda gordo!
Ted enxugou a sua bebida.
â Escuta, se vocĂȘ nĂŁo quiser, a gente nĂŁo faz. Esqueça.
â Me deixa ver o que Ă© que Buda tem aĂ...
Victoria baixou o braço e enfiou a mão entre as pernas dele. Pegou-o, segurou-o.
â Oh, oh... estou sentindo uma coisa... â disse.
â Claro... E daĂ?
EntĂŁo ela baixou a cabeça. Beijou-o a princĂpio. Depois ele sentiu que ela abria a boca, e a lĂngua.
â Sua puta! â disse.
Victoria ergueu a cabeça e olhou-o.
â Por favor. Eu nĂŁo gosto de palavrĂŁo.
â Tudo bem, Vicky, tudo bem. Nada de palavrĂŁo.
â Se meta entre os lençóis, Buda.
Ted se meteu e sentiu o corpo dela junto ao seu. A pele era fria, e a boca abriu-se e ele a beijou e enfiou a lĂngua. Gostava daquilo assim, fresco, com o frescor da primavera, jovem, novo, bom. Que prazer do caralho. Ia lascar ela ao meio! Masturbou-a, ela demorou muito para gozar. Depois ele a sentiu abrir-se e enfiou o dedo. Pegara-a, a puta. Puxou o dedo e esfregou o clitĂłris. VocĂȘ quer aquecimento, vai ter aquecimento!, pensou.
Sentiu os dentes dela enterrarem-se em seu lĂĄbio inferior, a dor foi terrĂvel. Ted afastou-se, sentindo o gosto do sangue e a ferida no lĂĄbio. Ergueu-se pela metade e deu-lhe um tapa no rosto, depois com as costas da mĂŁo no outro lado. Encontrou-a lĂĄ embaixo, enfiou e estocou, pondo a boca de volta na dela. Prosseguiu em selvagem vingança, de vez em quando recuando a cabeça e olhando-a. Tentou segurar, se conter, e agora via aquela nuvem de cabelos cor de morango espalhados no travesseiro ao luar.
Ted gemia e suava como um ginasiano. Era aquilo. Nirvana. O lugar a se alcançar. Victoria continuava calada. Os gemidos de Ted foram diminuindo, e então, após um instante, ele rolou para o lado.
Ficou fitando a escuridĂŁo.
Esqueci de chupar os peitos dela, pensou.
EntĂŁo ouviu a voz dela.
â Sabe de uma coisa? â ela perguntou.
â Que Ă©?
â VocĂȘ me lembra um daqueles cavalos de quarto de milha.
â Que quer dizer?
â Tudo acaba em dezoito segundos.
â A gente corre de novo, boneca â ele disse...
Ela foi ao banheiro. Ted limpou-se no lençol, o velho profissional. Victoria era uma coisa meio desagradĂĄvel, de certa forma. Mas podia ser manobrada. Ele tinha alguma coisa. Quantos homens eram donos de sua prĂłpria casa e tinham 150 mil paus no banco na sua idade? Ele era um nĂșmero de classe, e ela sabia disso muito bem.
Victoria saiu do banheiro ainda parecendo fresca, intocada, quase virginal. Ted acendeu o abajur de cabeceira. Sentou-se e serviu dois drinques. Ela sentou-se na beira da cama com sua bebida e ele desceu e sentou-se na beira da cama junto dela.
â Victoria â disse â, posso tornar tudo bom pra vocĂȘ.
â Acho que vocĂȘ tem lĂĄ seus meios, Buda.
â E vou ser um amante melhor.
â Claro.
â Escuta, devia ter me conhecido quando eu era jovem. Era durĂŁo, mas bom. Eu tinha aquilo. Ainda tenho.
Ela sorriu para ele.
â Ora, vamos, Buda, nĂŁo Ă© tĂŁo ruim assim. VocĂȘ tem uma esposa, vocĂȘ tem um monte de coisas a seu favor.
â Menos uma coisa â ele disse, enxugando sua bebida e olhando-a. â Menos a Ășnica coisa que eu quero mesmo...
â Veja o seu lĂĄbio! EstĂĄ sangrando!
Ted baixou o olhar para seu copo. Viu gotas de sangue na bebida e sentiu o sangue escorrendo pelo queixo. Limpou o queixo com as costas da mĂŁo.
â Vou ao banheiro lavar isso, boneca, jĂĄ volto.
Entrou no banheiro, correu a porta do chuveiro e abriu a ĂĄgua, testando-a com a mĂŁo. Parecia mais ou menos no ponto e ele entrou, a ĂĄgua escorrendo dele. Via o sangue na ĂĄgua escorrendo para o ralo. Que gata selvagem. SĂł precisava de uma mĂŁo forte.
Marie era legal, era bondosa, na verdade meio chata. Perdera a intensidade da juventude. NĂŁo era culpa dela. Talvez ele pudesse arranjar um meio de continuar com Marie e ter Victoria por fora. Victoria renovava sua juventude. Precisava de uma porra de uma renovação. E de mais umas boas fodas como aquela. Claro, as mulheres eram todas loucas. NĂŁo entendiam que vencer nĂŁo era uma experiĂȘncia gloriosa, sĂł necessĂĄria.
â Vamos com isso, Buda! â ouviu-a gritar. â NĂŁo me deixe aqui sozinha!
â NĂŁo demoro, boneca â ele gritou debaixo do chuveiro. Ensaboou-se bem, lavando tudo.
Depois saiu, enxugou-se, abriu a porta do banheiro e foi para o quarto.
O quarto de motel estava vazio. Ela se fora.
A distùncia entre os objetos comuns e entre os fatos era notåvel. De repente, ele viu as paredes, o tapete, a cama, as cortinas, a mesa de café, a penteadeira, o cinzeiro com os cigarros deles. A distùncia entre essas coisas era imensa. O então e o agora estavam anos-luz separados.
Num impulso, ele correu para o armårio e abriu a porta. Nada além de cabides.
Então Ted percebeu que suas roupas haviam desaparecido. A roupa de baixo, a camisa, as calças, as chaves do carro e a carteira, seu dinheiro, seus sapatos, suas meias, tudo.
Em outro impulso, olhou embaixo da cama. Nada.
EntĂŁo viu a garrafa de Cutty Sark, pela metade, sobre a penteadeira, e aproximou-se, pegou-a e serviu-se uma dose. E ao fazer isso viu duas palavras riscadas no espelho da penteadeira com batom cor-de-rosa: âADEUS, BUDA!â
Ted tomou a bebida, depĂŽs o copo e viu-se no espelho â muito gordo, muito velho. NĂŁo tinha ideia do que fazer em seguida.
Levou o Cutty Sark de volta para a cama, sentou-se pesadamente na beira do colchĂŁo onde ele e Victoria tinham-se sentado juntos. Ergueu a garrafa e sugou-a, enquanto as vĂvidas luzes de nĂ©on do boulevard entravam pelas persianas empoeiradas.
Ficou sentado, olhando para fora, sem se mover, vendo os carros passarem de um lado para outro.
â Numa fria
Marie enchia tanto o saco sobre sua ida Ă s corridas que ele sĂł ia duas ou trĂȘs vezes por semana. Vendera sua empresa e se aposentara cedo do ramo da construção. Na verdade nĂŁo havia muito mais coisas que ele pudesse fazer.
Os quatro cavalos pareciam bons a seis por um, mas ainda havia dezoito minutos para a chegada. Sentiu um puxĂŁo na manga do paletĂł.
â PerdĂŁo, senhor, mas eu perdi nas duas primeiras corridas. Vi o senhor trocando suas pules. O senhor parece exatamente um cara que sabe o que estĂĄ fazendo. Quem prefere nessa prĂłxima corrida?
Era uma ruiva, de uns 24 anos, quadris estreitos, seios surpreendentemente grandes, pernas compridas, um lindo narizinho arrebitado, boca de flor, usando um vestido azul-claro e sapatos brancos de saltos altos. Os olhos azuis dela olhavam-no de baixo para cima.
â Bem â sorriu-lhe Ted â, eu geralmente prefiro o vencedor.
â Estou acostumada a jogar em puros-sangues â disse a ruiva. â Esses pĂĄreos de quarto de milha sĂŁo muito rĂĄpidos!
â Ă. A maioria Ă© corrida em menos de dezoito segundos. A gente descobre muito rĂĄpido se acertou ou errou.
â Se minha mĂŁe descobrisse que estou aqui perdendo meu dinheiro, ela me daria uma surra de cinto.
â Eu mesmo gostaria de lhe dar uma surra de cinto â disse Ted.
â VocĂȘ nĂŁo Ă© desses, Ă©? â ela perguntou.
â Brincadeira â disse Ted. â Vamos, vamos ao bar. Talvez a gente consiga escolher um vencedor pra vocĂȘ.
â Tudo bem, senhor...?
â Pode me chamar de Ted. E vocĂȘ, como se chama?
â Victoria.
Entraram no bar.
â Que vai tomar? â perguntou Ted.
â O que vocĂȘ tomar â disse Victoria.
Ele pediu dois Jack Daniels. De pé, ele virou o seu, e ela bebericou o dela, olhando direto em frente. Ted conferiu o traseiro dela: perfeito. Era melhor do que muita candidatazinha ao estrelato no cinema, e não parecia mimada.
â Agora â disse Ted, apontando seu programa â na prĂłxima corrida o cavalo quatro aparece melhor, e estĂĄ dando possibilidades de seis por um...
Victoria exalou um âOoohhh...?â muito sexy. Curvou-se para olhar o programa dele, tocando-o com o braço. Depois ele sentiu a perna dela comprimir-se contra a sua.
â As pessoas nĂŁo sabem avaliar uma corrida â ele disse. â Me mostre um cara que sabe avaliar uma corrida, que eu lhe mostro um cara que pode ganhar todo o dinheiro que possa levar.
Ela sorriu para ele.
â Eu queria ter o que vocĂȘ tem.
â VocĂȘ tem muita coisa, boneca. Quer outra bebida?
â Oh, nĂŁo, obrigada...
â Bem, escuta â disse Ted â, Ă© melhor fazermos as apostas.
â Tudo bem, vou apostar dois dĂłlares no vencedor. Qual Ă©, o cavalo nĂșmero quatro?
â Ă, boneca, Ă© o quatro...
Fizeram suas apostas e saĂram para assistir ao pĂĄreo. O quatro nĂŁo largou bem, foi abalroado de ambos os lados, endireitou-se, ficou em quinto num campo de nove, mas aĂ começou a acelerar e chegou Ă linha cabeça a cabeça com o favorito de dois a um. Foto.
Porra, pensou Ted, eu tenho de ganhar essa. Por favor, me dĂȘ essa!
â Oh â disse Victoria â, estou tĂŁo excitada!
O placar anunciou o nĂșmero. Quatro.
Victoria gritou e pulou de alegria.
â NĂłs ganhamos, nĂłs ganhamos, nĂłs GANHAMOS!
Agarrou Ted e ele sentiu o beijo no rosto.
â VĂĄ com calma, boneca, o melhor cavalo venceu, sĂł isso.
Esperaram o aviso oficial e aĂ o placar exibiu o pagamento. Quatorze dĂłlares e sessenta.
â Quanto vocĂȘ apostou? â perguntou Victoria.
â Quarenta no vencedor â disse Ted.
â Quanto vai receber?
â Duzentos e noventa e dois. Vamos pegar.
Dirigiram-se para os guichĂȘs. EntĂŁo Ted sentiu a mĂŁo de Victoria na sua. Ela o fez parar.
â Se abaixe â ela disse â, que eu quero dizer uma coisa em seu ouvido.
Ted abaixou-se, sentiu os frios lĂĄbios rĂłseos dela em sua orelha.
â VocĂȘ Ă© um... mĂĄgico... Eu quero... foder com vocĂȘ...
Ele ficou ali parado sorrindo debilmente para ela.
â Deus do cĂ©u â disse.
â Que Ă© que hĂĄ? EstĂĄ com medo?
â NĂŁo, nĂŁo, nĂŁo Ă© isso.
â Que Ă© que hĂĄ entĂŁo?
â Ă Marie... minha esposa... eu sou casado... e ela me controla no mĂnimo minuto. Sabe quando as corridas acabam e quando devo chegar.
Victoria deu uma risada.
â A gente sai agora! Vamos a um motel!
â Bem, claro â disse Ted...
Trocaram as pules e voltaram para o estacionamento.
â Vamos no meu carro. Eu trago vocĂȘ de volta quando a gente acabar â disse Victoria.
Foram ao carro dela, um Fiat azul 1982, combinando com o vestido. A placa dizia VICKY. Quando ela pĂŽs a chave na porta, hesitou.
â VocĂȘ nĂŁo Ă© mesmo um daqueles, Ă©?
â Daqueles quais?
â Que batem com o cinto, um daqueles. Minha mĂŁe teve uma experiĂȘncia terrĂvel uma vez...
â Relaxe â ele disse. â Eu sou inofensivo.
Encontraram um motel a pouco mais de dois quilĂŽmetros do hipĂłdromo. O Lua Azul. SĂł que a Lua Azul estava pintada de verde. Victoria estacionou e saltaram, se registraram, deram-lhes o quarto 302. Tinham parado para pegar uma garrafa de Cutty Sark no caminho.
Ted rasgou a embalagem de celofane dos copos, acendeu um cigarro e serviu duas doses enquanto Victoria se despia. A calcinha e o sutiĂŁ eram cor-de-rosa, e o corpo cor-de-rosa e branco e lindo. Era espantoso como de vez em quando se criava uma mulher daquelas, quando todas as outras, a maioria das outras, nĂŁo tinham nada, ou quase nada. Era de enlouquecer. Victoria era um sonho lindo, enlouquecedor.
Victoria estava nua. Aproximou-se e sentou-se na borda da cama junto a Ted. Cruzou as pernas. Tinha os seios firmes e parecia jĂĄ estar com tesĂŁo. Ele realmente nĂŁo acreditava em sua sorte. AĂ ela deu uma risadinha.
â Que foi? â ele perguntou.
â EstĂĄ pensando em sua mulher?
â Bem, nĂŁo, estava pensando em outra coisa.
â Bem, devia pensar em sua mulher...
â Diabos â disse Ted â, foi vocĂȘ quem sugeriu a foda!
â Eu gostaria que vocĂȘ nĂŁo usasse essa palavra...
â EstĂĄ recuando?
â Bem, nĂŁo. Escuta, tem um cigarro?
â Claro...
Ted pegou um, entregou a ela, acendeu-o e ela o manteve na boca.
â VocĂȘ tem o corpo mais lindo que eu jĂĄ vi â disse Ted.
â Eu nĂŁo duvido â ela disse, sorrindo.
â Escuta, vocĂȘ estĂĄ recuando dessa coisa? â ele perguntou.
â Claro que nĂŁo â ela respondeu â, tire a roupa.
Ted começou a despir-se, sentindo-se gordo, velho e feio, mas tambĂ©m sortudo â tinha sido seu melhor dia nas corridas, em muitos aspectos. Dobrou suas roupas numa cadeira e sentou-se junto a Victoria.
Serviram mais um drinque para cada um.
â Sabe â ele disse â, vocĂȘ Ă© um nĂșmero de classe, mas eu tambĂ©m sou. NĂłs dois temos nossa prĂłpria maneira de mostrar isso. Eu faturei uma nota no ramo da construção, e ainda estou faturando nas corridas. Nem todo mundo tem esse instinto.
Victoria bebeu metade de seu Cutty Sark e sorriu para ele.
â Oh, vocĂȘ Ă© meu grande Buda gordo!
Ted enxugou a sua bebida.
â Escuta, se vocĂȘ nĂŁo quiser, a gente nĂŁo faz. Esqueça.
â Me deixa ver o que Ă© que Buda tem aĂ...
Victoria baixou o braço e enfiou a mão entre as pernas dele. Pegou-o, segurou-o.
â Oh, oh... estou sentindo uma coisa... â disse.
â Claro... E daĂ?
EntĂŁo ela baixou a cabeça. Beijou-o a princĂpio. Depois ele sentiu que ela abria a boca, e a lĂngua.
â Sua puta! â disse.
Victoria ergueu a cabeça e olhou-o.
â Por favor. Eu nĂŁo gosto de palavrĂŁo.
â Tudo bem, Vicky, tudo bem. Nada de palavrĂŁo.
â Se meta entre os lençóis, Buda.
Ted se meteu e sentiu o corpo dela junto ao seu. A pele era fria, e a boca abriu-se e ele a beijou e enfiou a lĂngua. Gostava daquilo assim, fresco, com o frescor da primavera, jovem, novo, bom. Que prazer do caralho. Ia lascar ela ao meio! Masturbou-a, ela demorou muito para gozar. Depois ele a sentiu abrir-se e enfiou o dedo. Pegara-a, a puta. Puxou o dedo e esfregou o clitĂłris. VocĂȘ quer aquecimento, vai ter aquecimento!, pensou.
Sentiu os dentes dela enterrarem-se em seu lĂĄbio inferior, a dor foi terrĂvel. Ted afastou-se, sentindo o gosto do sangue e a ferida no lĂĄbio. Ergueu-se pela metade e deu-lhe um tapa no rosto, depois com as costas da mĂŁo no outro lado. Encontrou-a lĂĄ embaixo, enfiou e estocou, pondo a boca de volta na dela. Prosseguiu em selvagem vingança, de vez em quando recuando a cabeça e olhando-a. Tentou segurar, se conter, e agora via aquela nuvem de cabelos cor de morango espalhados no travesseiro ao luar.
Ted gemia e suava como um ginasiano. Era aquilo. Nirvana. O lugar a se alcançar. Victoria continuava calada. Os gemidos de Ted foram diminuindo, e então, após um instante, ele rolou para o lado.
Ficou fitando a escuridĂŁo.
Esqueci de chupar os peitos dela, pensou.
EntĂŁo ouviu a voz dela.
â Sabe de uma coisa? â ela perguntou.
â Que Ă©?
â VocĂȘ me lembra um daqueles cavalos de quarto de milha.
â Que quer dizer?
â Tudo acaba em dezoito segundos.
â A gente corre de novo, boneca â ele disse...
Ela foi ao banheiro. Ted limpou-se no lençol, o velho profissional. Victoria era uma coisa meio desagradĂĄvel, de certa forma. Mas podia ser manobrada. Ele tinha alguma coisa. Quantos homens eram donos de sua prĂłpria casa e tinham 150 mil paus no banco na sua idade? Ele era um nĂșmero de classe, e ela sabia disso muito bem.
Victoria saiu do banheiro ainda parecendo fresca, intocada, quase virginal. Ted acendeu o abajur de cabeceira. Sentou-se e serviu dois drinques. Ela sentou-se na beira da cama com sua bebida e ele desceu e sentou-se na beira da cama junto dela.
â Victoria â disse â, posso tornar tudo bom pra vocĂȘ.
â Acho que vocĂȘ tem lĂĄ seus meios, Buda.
â E vou ser um amante melhor.
â Claro.
â Escuta, devia ter me conhecido quando eu era jovem. Era durĂŁo, mas bom. Eu tinha aquilo. Ainda tenho.
Ela sorriu para ele.
â Ora, vamos, Buda, nĂŁo Ă© tĂŁo ruim assim. VocĂȘ tem uma esposa, vocĂȘ tem um monte de coisas a seu favor.
â Menos uma coisa â ele disse, enxugando sua bebida e olhando-a. â Menos a Ășnica coisa que eu quero mesmo...
â Veja o seu lĂĄbio! EstĂĄ sangrando!
Ted baixou o olhar para seu copo. Viu gotas de sangue na bebida e sentiu o sangue escorrendo pelo queixo. Limpou o queixo com as costas da mĂŁo.
â Vou ao banheiro lavar isso, boneca, jĂĄ volto.
Entrou no banheiro, correu a porta do chuveiro e abriu a ĂĄgua, testando-a com a mĂŁo. Parecia mais ou menos no ponto e ele entrou, a ĂĄgua escorrendo dele. Via o sangue na ĂĄgua escorrendo para o ralo. Que gata selvagem. SĂł precisava de uma mĂŁo forte.
Marie era legal, era bondosa, na verdade meio chata. Perdera a intensidade da juventude. NĂŁo era culpa dela. Talvez ele pudesse arranjar um meio de continuar com Marie e ter Victoria por fora. Victoria renovava sua juventude. Precisava de uma porra de uma renovação. E de mais umas boas fodas como aquela. Claro, as mulheres eram todas loucas. NĂŁo entendiam que vencer nĂŁo era uma experiĂȘncia gloriosa, sĂł necessĂĄria.
â Vamos com isso, Buda! â ouviu-a gritar. â NĂŁo me deixe aqui sozinha!
â NĂŁo demoro, boneca â ele gritou debaixo do chuveiro. Ensaboou-se bem, lavando tudo.
Depois saiu, enxugou-se, abriu a porta do banheiro e foi para o quarto.
O quarto de motel estava vazio. Ela se fora.
A distùncia entre os objetos comuns e entre os fatos era notåvel. De repente, ele viu as paredes, o tapete, a cama, as cortinas, a mesa de café, a penteadeira, o cinzeiro com os cigarros deles. A distùncia entre essas coisas era imensa. O então e o agora estavam anos-luz separados.
Num impulso, ele correu para o armårio e abriu a porta. Nada além de cabides.
Então Ted percebeu que suas roupas haviam desaparecido. A roupa de baixo, a camisa, as calças, as chaves do carro e a carteira, seu dinheiro, seus sapatos, suas meias, tudo.
Em outro impulso, olhou embaixo da cama. Nada.
EntĂŁo viu a garrafa de Cutty Sark, pela metade, sobre a penteadeira, e aproximou-se, pegou-a e serviu-se uma dose. E ao fazer isso viu duas palavras riscadas no espelho da penteadeira com batom cor-de-rosa: âADEUS, BUDA!â
Ted tomou a bebida, depĂŽs o copo e viu-se no espelho â muito gordo, muito velho. NĂŁo tinha ideia do que fazer em seguida.
Levou o Cutty Sark de volta para a cama, sentou-se pesadamente na beira do colchĂŁo onde ele e Victoria tinham-se sentado juntos. Ergueu a garrafa e sugou-a, enquanto as vĂvidas luzes de nĂ©on do boulevard entravam pelas persianas empoeiradas.
Ficou sentado, olhando para fora, sem se mover, vendo os carros passarem de um lado para outro.
â Numa fria
Estou Apaixonada
ela Ă© jovem, ela disse,
mas olhe pra mim,
tenho belos tornozelos,
e olhe meus pulsos, tenho belos
pulsos
Ăł meu deus,
achei que isso estivesse funcionando,
e aĂ estĂĄ ela de novo,
toda vez que ela telefona vocĂȘ enlouquece,
vocĂȘ tinha me dito que ela era passado
que tinha posto um ponto final,
escute, jĂĄ vivi o suficiente para me tornar uma
boa mulher,
por que vocĂȘ precisa de uma mĂĄ?
quer ser torturado, Ă© isso?
vocĂȘ pensa que a vida Ă© uma merda e por isso precisa que alguĂ©m o
trate que nem merda,
nĂŁo Ă© isso?
me diga, nĂŁo Ă© isso? quer ser tratado como um
pedaço de merda?
e meu filho, meu filho ia conhecer vocĂȘ.
eu disse ao meu filho
e desisti de todos os meus amantes.
fiquei de pé num café e gritei
ESTOU APAIXONADA,
e agora vocĂȘ me faz de idiota...
sinto muito, eu disse, sinto de verdade.
me abrace, ela disse, me abrace por favor?
nunca estive numa situação dessas, eu disse,
esse negĂłcio de triĂąngulo...
ela se levantou e acendeu um cigarro, tremia por
inteiro. caminhava de lĂĄ pra cĂĄ, selvagem e louca. seu corpo
era pequeno. seus braços magros, muito magros e quando
começou a gritar e a me bater e segurei seus
pulsos e entĂŁo pude ver em seus olhos: Ăłdio,
um ódio profundo e verdadeiro como os séculos. E eu errado e desgraçado e
enojado. todas as coisas que eu tinha aprendido estavam arruinadas.
nenhuma criatura viva era tĂŁo cretina quanto eu
e todos os meus poemas eram
falsos.
mas olhe pra mim,
tenho belos tornozelos,
e olhe meus pulsos, tenho belos
pulsos
Ăł meu deus,
achei que isso estivesse funcionando,
e aĂ estĂĄ ela de novo,
toda vez que ela telefona vocĂȘ enlouquece,
vocĂȘ tinha me dito que ela era passado
que tinha posto um ponto final,
escute, jĂĄ vivi o suficiente para me tornar uma
boa mulher,
por que vocĂȘ precisa de uma mĂĄ?
quer ser torturado, Ă© isso?
vocĂȘ pensa que a vida Ă© uma merda e por isso precisa que alguĂ©m o
trate que nem merda,
nĂŁo Ă© isso?
me diga, nĂŁo Ă© isso? quer ser tratado como um
pedaço de merda?
e meu filho, meu filho ia conhecer vocĂȘ.
eu disse ao meu filho
e desisti de todos os meus amantes.
fiquei de pé num café e gritei
ESTOU APAIXONADA,
e agora vocĂȘ me faz de idiota...
sinto muito, eu disse, sinto de verdade.
me abrace, ela disse, me abrace por favor?
nunca estive numa situação dessas, eu disse,
esse negĂłcio de triĂąngulo...
ela se levantou e acendeu um cigarro, tremia por
inteiro. caminhava de lĂĄ pra cĂĄ, selvagem e louca. seu corpo
era pequeno. seus braços magros, muito magros e quando
começou a gritar e a me bater e segurei seus
pulsos e entĂŁo pude ver em seus olhos: Ăłdio,
um ódio profundo e verdadeiro como os séculos. E eu errado e desgraçado e
enojado. todas as coisas que eu tinha aprendido estavam arruinadas.
nenhuma criatura viva era tĂŁo cretina quanto eu
e todos os meus poemas eram
falsos.
Fuga
O senhorio caminha de lĂĄ pra cĂĄ pelo corredor
tossindo
fazendo-me saber que estĂĄ ali,
e eu tenho que esconder
as garrafas,
e não posso ir até o banheiro
as luzes nĂŁo funcionam,
hĂĄ buracos nas paredes de
canos arrebentados
e a descarga estĂĄ estragada,
e o cretino de merda
segue de um lado para o outro
ali fora
tossindo, tossindo,
pra lĂĄ e pra cĂĄ em seu roupĂŁo surrado
ele segue,
e eu jĂĄ nĂŁo suporto mais,
eu me liberto,
PARTO pra cima dele
assim que ele passa,
âMas que diabos Ă© isso?â
ele grita,
mas Ă© tarde demais,
meu punho jĂĄ lhe acerta o maxilar;
Ă© um golpe rĂĄpido e ele cai,
encolhido e fraco;
pego minha mala e
desço os degraus,
e lĂĄ estĂĄ sua esposa no vĂŁo da porta,
ela SEMPRE ESTĂ NO VĂO DA PORTA,
eles nĂŁo tĂȘm mais nada a fazer senĂŁo
ficar parados junto Ă porta ou caminhar pelos corredores,
âBom dia, sr. Bukowskiâ, seu rosto Ă© o rosto de uma toupeira
pedindo minha morte em suas preces, âo que...â
e eu a empurro para o lado,
ela cai pelos degraus da varanda e
sobre um arbusto,
escuto o estalar dos galhos
e vejo metade de seu corpo submerso nas folhas
como uma vaca cega,
e entĂŁo sigo rua abaixo
com minha mala,
o sol estĂĄ agradĂĄvel,
e começo a pensar
no prĂłximo lugar aonde irei
me instalar, e espero
encontrar alguns seres humanos decentes,
alguém que possa me tratar
melhor.
tossindo
fazendo-me saber que estĂĄ ali,
e eu tenho que esconder
as garrafas,
e não posso ir até o banheiro
as luzes nĂŁo funcionam,
hĂĄ buracos nas paredes de
canos arrebentados
e a descarga estĂĄ estragada,
e o cretino de merda
segue de um lado para o outro
ali fora
tossindo, tossindo,
pra lĂĄ e pra cĂĄ em seu roupĂŁo surrado
ele segue,
e eu jĂĄ nĂŁo suporto mais,
eu me liberto,
PARTO pra cima dele
assim que ele passa,
âMas que diabos Ă© isso?â
ele grita,
mas Ă© tarde demais,
meu punho jĂĄ lhe acerta o maxilar;
Ă© um golpe rĂĄpido e ele cai,
encolhido e fraco;
pego minha mala e
desço os degraus,
e lĂĄ estĂĄ sua esposa no vĂŁo da porta,
ela SEMPRE ESTĂ NO VĂO DA PORTA,
eles nĂŁo tĂȘm mais nada a fazer senĂŁo
ficar parados junto Ă porta ou caminhar pelos corredores,
âBom dia, sr. Bukowskiâ, seu rosto Ă© o rosto de uma toupeira
pedindo minha morte em suas preces, âo que...â
e eu a empurro para o lado,
ela cai pelos degraus da varanda e
sobre um arbusto,
escuto o estalar dos galhos
e vejo metade de seu corpo submerso nas folhas
como uma vaca cega,
e entĂŁo sigo rua abaixo
com minha mala,
o sol estĂĄ agradĂĄvel,
e começo a pensar
no prĂłximo lugar aonde irei
me instalar, e espero
encontrar alguns seres humanos decentes,
alguém que possa me tratar
melhor.
Garota de Minissaia Lendo a Bíblia Junto À Minha Janela
Domingo. estou comendo um
pomelo. a missa terminou na Igreja Ortodoxa
Russa a
oeste.
ela Ă© morena
de descendĂȘncia oriental,
grandes olhos castanhos erguem-se da BĂblia
e voltam a baixar. uma BĂblia pequena, vermelha
e negra, e enquanto ela lĂȘ
suas pernas seguem em movimento, nĂŁo param,
ela executa uma dança lenta e ritmada
lendo a BĂblia...
brincos dourados e compridos;
2 braceletes de ouro em cada braço,
e estĂĄ num traje minĂșsculo, suponho,
a roupa adere a seu corpo,
a mais leve das camadas Ă© esta roupa,
ela rebola pra lĂĄ e pra cĂĄ,
pernas longas e jovens esquentando ao sol...
nĂŁo hĂĄ como escapar dela
nem se deseja isso...
meu rĂĄdio toca mĂșsica sinfĂŽnica
que ela nĂŁo pode ouvir
mas seus movimentos coincidem exatamente
com os ritmos da
sinfonia...
ela Ă© morena, ela Ă© morena
ela estĂĄ lendo sobre Deus.
eu sou Deus.
pomelo. a missa terminou na Igreja Ortodoxa
Russa a
oeste.
ela Ă© morena
de descendĂȘncia oriental,
grandes olhos castanhos erguem-se da BĂblia
e voltam a baixar. uma BĂblia pequena, vermelha
e negra, e enquanto ela lĂȘ
suas pernas seguem em movimento, nĂŁo param,
ela executa uma dança lenta e ritmada
lendo a BĂblia...
brincos dourados e compridos;
2 braceletes de ouro em cada braço,
e estĂĄ num traje minĂșsculo, suponho,
a roupa adere a seu corpo,
a mais leve das camadas Ă© esta roupa,
ela rebola pra lĂĄ e pra cĂĄ,
pernas longas e jovens esquentando ao sol...
nĂŁo hĂĄ como escapar dela
nem se deseja isso...
meu rĂĄdio toca mĂșsica sinfĂŽnica
que ela nĂŁo pode ouvir
mas seus movimentos coincidem exatamente
com os ritmos da
sinfonia...
ela Ă© morena, ela Ă© morena
ela estĂĄ lendo sobre Deus.
eu sou Deus.
Garras do Paraíso
borboleta de madeira
sorriso de bicarbonato de sĂłdio
mosca de serragem
amo minha pança
e o homem da loja de bebidas
me chama,
âsr. Schlitz.â
os caixas no hipĂłdromo
gritam,
âO POETA SABE A VERDADE!â
quando desconto meus bilhetes.
as senhoras
dentro e fora da cama
dizem que me amam
e eu sigo por aà com pés
molhados e brancos.
albatrozes com olhos embriagados
as cuecas sujas do Popeye
percevejos de Paris,
jĂĄ limpei as barricadas
dominei o
automĂłvel
a ressaca
as lĂĄgrimas
mas eu conheço
a condenação final
como qualquer garoto de escola que vĂȘ
o gato ser esmagado
pelo trĂĄfego.
meu crĂąnio tem uma fenda de
quatro centĂmetros bem no
topo.
a maioria dos meus dentes estĂĄ
na frente. sinto
tonturas em supermercados
cuspo sangue quando bebo
uĂsque
e me entristeço
até a
aflição
quando penso em todas as
boas mulheres que conheci
que se
dissolveram
desapareceram
por trivialidades:
viagens a Pasadena,
piqueniques de criança,
tampas de pasta de dente
ralo abaixo.
nĂŁo hĂĄ nada a fazer
senĂŁo beber
jogar nos cavalos
apostar no poema
enquanto as jovens
se tornam mulheres
e as metralhadoras
apontam para mim
encolhidas
atrĂĄs de paredes mais finas
que pĂĄlpebras.
nĂŁo hĂĄ defesa
exceto em todos os erros
cometidos.
nesse meio-tempo
tomo banhos de chuveiro
atendo ao telefone
ponho ovos pra ferver
estudo o movimento e a perda
e me sinto tĂŁo bem
quanto o prĂłximo instante
caminhando ao sol.
Fay estava indo bem com a gravidez. Para uma mulher madura, ela estava bem. EsperĂĄvamos em casa. Finalmente chegou a hora.
â NĂŁo vai levar muito tempo â ela disse. â NĂŁo quero chegar lĂĄ muito cedo.
SaĂ e dei uma verificada no carro. Retornei.
â Ooooh, oh â ela disse. â NĂŁo, espere.
Talvez ela pudesse salvar o mundo. Orgulhava-me sua calma. Perdoei-a a louça suja, a The New Yorker e a oficina de escritores. A velha era apenas mais uma criatura sozinha num mundo que não estava nem aà pra ela.
â Ă melhor irmos agora â eu disse.
â NĂŁo â disse Fay â, nĂŁo quero fazer vocĂȘ esperar muito tempo. Sei que vocĂȘ nĂŁo anda se sentindo bem.
â Fodam-se meus problemas. Vamos fazer isso duma vez.
â NĂŁo, por favor, Hank.
Ela simplesmente ficou ali sentada.
â Em que posso ajudar vocĂȘ? â perguntei.
â Nada.
Ficou onde estava por mais dez minutos. Fui atĂ© a cozinha atrĂĄs de um copo dâĂĄgua. Quando voltei, ela disse:
â VocĂȘ estĂĄ pronto pra dirigir?
â Claro.
â Sabe onde fica o hospital?
â Claro.
Ajudei-a a entrar no carro. Havia percorrido duas vezes o trajeto na semana passada, como treinamento. Mas quando cheguei lĂĄ nĂŁo fazia a mais vaga ideia de onde estacionar. Fay apontou para uma pista.
â VĂĄ por ali. Estacione ali. Entramos por esse caminho.
â Sim, senhora â eu disse...
Ela estava num leito, num quarto dos fundos que dava para a rua. Seu rosto se contraĂa.
â Segure minha mĂŁo â ela disse.
Foi o que fiz.
â EstĂĄ mesmo acontecendo? â perguntei.
â Sim.
â VocĂȘ faz tudo parecer tĂŁo fĂĄcil â eu disse.
â VocĂȘ Ă© muito gentil. Isso ajuda.
â Gosto de ser gentil. Ă aquele maldito Correio...
â Eu sei. Eu sei.
OlhĂĄvamos pela janela dos fundos.
Eu disse:
â Olhe para aquelas pessoas lĂĄ embaixo. NĂŁo fazem ideia do que acontece aqui em cima. Apenas caminham pela calçada. Sim, isso Ă© engraçado... uma vez eles tambĂ©m tiveram que nascer, cada um deles.
â Sim, Ă© engraçado.
Podia sentir os movimentos do corpo dela através de sua mão.
â Segure mais forte â ela disse.
â Sim.
â Vou odiar quando vocĂȘ tiver que ir.
â Onde estĂĄ o mĂ©dico? Onde estĂĄ todo mundo? Mas que merda!
â Eles logo aparecem.
Logo em seguida uma enfermeira entrou. Era um hospital catĂłlico e se tratava de uma enfermeira muito bonita, morena, espanhola ou portuguesa.
â O senhor... deve sair... agora â ela me disse.
Mostrei a Fay meus dedos cruzados e sorri um sorriso torto. NĂŁo creio que ela tenha visto. Peguei o elevador e desci.
Meu mĂ©dico alemĂŁo me acordou. O mesmo que me havia feito os testes sanguĂneos.
â ParabĂ©ns â ele disse, com um aperto de mĂŁo â, Ă© uma menina. Quatro quilos.
â E a mĂŁe?
â A mĂŁe ficarĂĄ bem. NĂŁo deu nenhum trabalho.
â Quando posso ver as duas?
â O senhor serĂĄ avisado. Trate de sentar, eles virĂŁo chamĂĄ-lo. â E entĂŁo ele se foi.
Olhei atravĂ©s do vidro. A enfermeira apontou para a minha filha. Seu rosto estava bem vermelho e ela chorava mais alto do que todos os outros bebĂȘs. A sala estava cheia de bebĂȘs, todos aos berros. Quantos nascimentos! A enfermeira parecia muito orgulhosa de meu bebĂȘ. Ao menos, esperava que aquela criança fosse a minha. Ela a ergueu de modo que eu pudesse vĂȘ-la melhor. Sorri atravĂ©s do vidro, nĂŁo sabia como agir. Ela apenas berrou para mim. Pobrezinha, pensei, pobre criatura. Eu nĂŁo sabia entĂŁo que ela seria linda um dia, que se pareceria muito comigo, hahaha.
Gesticulei para a enfermeira que baixasse o bebĂȘ, entĂŁo dei um tchauzinho para as duas. Era uma enfermeira bacana. Boas pernas, boas cadeiras. Seios fartos.
Fay tinha uma mancha de sangue no lado esquerdo de sua boca, e eu apanhei um lenço molhado e limpei a marca. As mulheres foram feitas para sofrer, não era à toa que estavam sempre pedindo declaraçÔes de amor.
â Queria que eles me deixassem com a nenĂȘ â disse Fay â, nĂŁo estĂĄ certo isso de nos separarem.
â Eu sei. Mas deve haver alguma razĂŁo de ordem mĂ©dica.
â Sim, mas mesmo assim nĂŁo parece certo.
â NĂŁo, nĂŁo Ă© mesmo. Mas a menina parece bem. Farei o que puder para que eles a tragam o quanto antes. Deve ter uns quarenta bebĂȘs por lĂĄ. EstĂŁo fazendo todas as mĂŁes esperarem. Acho que isso deve acontecer pra que elas tenham tempo de se recuperar. Nosso bebĂȘ parece muito forte, posso lhe garantir. Por favor, nĂŁo se preocupe.
â Eu ficaria tĂŁo feliz com a minha nenĂȘ.
â Eu sei, eu sei. NĂŁo vai demorar.
â Senhor â uma enfermeira gorda, mexicana, se aproximou â, vou ter que pedir para o senhor sair agora.
â Mas eu sou o pai.
â Sim, nĂłs sabemos. Mas sua esposa precisa descansar agora.
Apertei a mĂŁo de Fay, beijei-lhe a testa. Ela fechou os olhos e pareceu dormir. NĂŁo era uma mulher jovem. Talvez ela nĂŁo tivesse salvado o mundo, mas tinha feito uma grande melhoria. Um brinde a Fay.
â Cartas na rua
sorriso de bicarbonato de sĂłdio
mosca de serragem
amo minha pança
e o homem da loja de bebidas
me chama,
âsr. Schlitz.â
os caixas no hipĂłdromo
gritam,
âO POETA SABE A VERDADE!â
quando desconto meus bilhetes.
as senhoras
dentro e fora da cama
dizem que me amam
e eu sigo por aà com pés
molhados e brancos.
albatrozes com olhos embriagados
as cuecas sujas do Popeye
percevejos de Paris,
jĂĄ limpei as barricadas
dominei o
automĂłvel
a ressaca
as lĂĄgrimas
mas eu conheço
a condenação final
como qualquer garoto de escola que vĂȘ
o gato ser esmagado
pelo trĂĄfego.
meu crĂąnio tem uma fenda de
quatro centĂmetros bem no
topo.
a maioria dos meus dentes estĂĄ
na frente. sinto
tonturas em supermercados
cuspo sangue quando bebo
uĂsque
e me entristeço
até a
aflição
quando penso em todas as
boas mulheres que conheci
que se
dissolveram
desapareceram
por trivialidades:
viagens a Pasadena,
piqueniques de criança,
tampas de pasta de dente
ralo abaixo.
nĂŁo hĂĄ nada a fazer
senĂŁo beber
jogar nos cavalos
apostar no poema
enquanto as jovens
se tornam mulheres
e as metralhadoras
apontam para mim
encolhidas
atrĂĄs de paredes mais finas
que pĂĄlpebras.
nĂŁo hĂĄ defesa
exceto em todos os erros
cometidos.
nesse meio-tempo
tomo banhos de chuveiro
atendo ao telefone
ponho ovos pra ferver
estudo o movimento e a perda
e me sinto tĂŁo bem
quanto o prĂłximo instante
caminhando ao sol.
Fay estava indo bem com a gravidez. Para uma mulher madura, ela estava bem. EsperĂĄvamos em casa. Finalmente chegou a hora.
â NĂŁo vai levar muito tempo â ela disse. â NĂŁo quero chegar lĂĄ muito cedo.
SaĂ e dei uma verificada no carro. Retornei.
â Ooooh, oh â ela disse. â NĂŁo, espere.
Talvez ela pudesse salvar o mundo. Orgulhava-me sua calma. Perdoei-a a louça suja, a The New Yorker e a oficina de escritores. A velha era apenas mais uma criatura sozinha num mundo que não estava nem aà pra ela.
â Ă melhor irmos agora â eu disse.
â NĂŁo â disse Fay â, nĂŁo quero fazer vocĂȘ esperar muito tempo. Sei que vocĂȘ nĂŁo anda se sentindo bem.
â Fodam-se meus problemas. Vamos fazer isso duma vez.
â NĂŁo, por favor, Hank.
Ela simplesmente ficou ali sentada.
â Em que posso ajudar vocĂȘ? â perguntei.
â Nada.
Ficou onde estava por mais dez minutos. Fui atĂ© a cozinha atrĂĄs de um copo dâĂĄgua. Quando voltei, ela disse:
â VocĂȘ estĂĄ pronto pra dirigir?
â Claro.
â Sabe onde fica o hospital?
â Claro.
Ajudei-a a entrar no carro. Havia percorrido duas vezes o trajeto na semana passada, como treinamento. Mas quando cheguei lĂĄ nĂŁo fazia a mais vaga ideia de onde estacionar. Fay apontou para uma pista.
â VĂĄ por ali. Estacione ali. Entramos por esse caminho.
â Sim, senhora â eu disse...
Ela estava num leito, num quarto dos fundos que dava para a rua. Seu rosto se contraĂa.
â Segure minha mĂŁo â ela disse.
Foi o que fiz.
â EstĂĄ mesmo acontecendo? â perguntei.
â Sim.
â VocĂȘ faz tudo parecer tĂŁo fĂĄcil â eu disse.
â VocĂȘ Ă© muito gentil. Isso ajuda.
â Gosto de ser gentil. Ă aquele maldito Correio...
â Eu sei. Eu sei.
OlhĂĄvamos pela janela dos fundos.
Eu disse:
â Olhe para aquelas pessoas lĂĄ embaixo. NĂŁo fazem ideia do que acontece aqui em cima. Apenas caminham pela calçada. Sim, isso Ă© engraçado... uma vez eles tambĂ©m tiveram que nascer, cada um deles.
â Sim, Ă© engraçado.
Podia sentir os movimentos do corpo dela através de sua mão.
â Segure mais forte â ela disse.
â Sim.
â Vou odiar quando vocĂȘ tiver que ir.
â Onde estĂĄ o mĂ©dico? Onde estĂĄ todo mundo? Mas que merda!
â Eles logo aparecem.
Logo em seguida uma enfermeira entrou. Era um hospital catĂłlico e se tratava de uma enfermeira muito bonita, morena, espanhola ou portuguesa.
â O senhor... deve sair... agora â ela me disse.
Mostrei a Fay meus dedos cruzados e sorri um sorriso torto. NĂŁo creio que ela tenha visto. Peguei o elevador e desci.
Meu mĂ©dico alemĂŁo me acordou. O mesmo que me havia feito os testes sanguĂneos.
â ParabĂ©ns â ele disse, com um aperto de mĂŁo â, Ă© uma menina. Quatro quilos.
â E a mĂŁe?
â A mĂŁe ficarĂĄ bem. NĂŁo deu nenhum trabalho.
â Quando posso ver as duas?
â O senhor serĂĄ avisado. Trate de sentar, eles virĂŁo chamĂĄ-lo. â E entĂŁo ele se foi.
Olhei atravĂ©s do vidro. A enfermeira apontou para a minha filha. Seu rosto estava bem vermelho e ela chorava mais alto do que todos os outros bebĂȘs. A sala estava cheia de bebĂȘs, todos aos berros. Quantos nascimentos! A enfermeira parecia muito orgulhosa de meu bebĂȘ. Ao menos, esperava que aquela criança fosse a minha. Ela a ergueu de modo que eu pudesse vĂȘ-la melhor. Sorri atravĂ©s do vidro, nĂŁo sabia como agir. Ela apenas berrou para mim. Pobrezinha, pensei, pobre criatura. Eu nĂŁo sabia entĂŁo que ela seria linda um dia, que se pareceria muito comigo, hahaha.
Gesticulei para a enfermeira que baixasse o bebĂȘ, entĂŁo dei um tchauzinho para as duas. Era uma enfermeira bacana. Boas pernas, boas cadeiras. Seios fartos.
Fay tinha uma mancha de sangue no lado esquerdo de sua boca, e eu apanhei um lenço molhado e limpei a marca. As mulheres foram feitas para sofrer, não era à toa que estavam sempre pedindo declaraçÔes de amor.
â Queria que eles me deixassem com a nenĂȘ â disse Fay â, nĂŁo estĂĄ certo isso de nos separarem.
â Eu sei. Mas deve haver alguma razĂŁo de ordem mĂ©dica.
â Sim, mas mesmo assim nĂŁo parece certo.
â NĂŁo, nĂŁo Ă© mesmo. Mas a menina parece bem. Farei o que puder para que eles a tragam o quanto antes. Deve ter uns quarenta bebĂȘs por lĂĄ. EstĂŁo fazendo todas as mĂŁes esperarem. Acho que isso deve acontecer pra que elas tenham tempo de se recuperar. Nosso bebĂȘ parece muito forte, posso lhe garantir. Por favor, nĂŁo se preocupe.
â Eu ficaria tĂŁo feliz com a minha nenĂȘ.
â Eu sei, eu sei. NĂŁo vai demorar.
â Senhor â uma enfermeira gorda, mexicana, se aproximou â, vou ter que pedir para o senhor sair agora.
â Mas eu sou o pai.
â Sim, nĂłs sabemos. Mas sua esposa precisa descansar agora.
Apertei a mĂŁo de Fay, beijei-lhe a testa. Ela fechou os olhos e pareceu dormir. NĂŁo era uma mulher jovem. Talvez ela nĂŁo tivesse salvado o mundo, mas tinha feito uma grande melhoria. Um brinde a Fay.
â Cartas na rua
Gelo para as Águias
Sigo lembrando dos cavalos
sob o luar
sigo lembrando de alimentar os cavalos
açĂșcar
pedras oblongas de açĂșcar
mais parecendo gelo,
e suas cabeças são como cabeças
de ĂĄguias
cabeças calvas que poderiam morder e
nĂŁo mordem.
Os cavalos sĂŁo mais reais que
meu pai
mais reais que Deus
e poderiam ter pisado nos meus
pés mas não pisaram
poderiam ter feito coisas horrĂveis
mas nĂŁo fizeram.
Eu tinha quase 5 anos
mas ainda nĂŁo consegui esquecer;
Ăł meu deus eles eram fortes e bons
as lĂnguas vermelhas molhadas
projetadas para fora de suas almas.
Tinha começado a antipatizar com meu pai. Ele sempre estava zangado com alguma coisa. Onde quer que fÎssemos, ele dava um jeito de discutir com as pessoas. Mas a maioria parecia não se assustar com sua figura; as pessoas normalmente o encaravam, calmamente, o que o deixava ainda mais exaltado. Se fÎssemos comer fora, o que raramente acontecia, ele sempre encontrava algo de errado na comida e algumas vezes se recusava a pagar.
â Tem cocĂŽ de mosca na nata! Que diabo de lugar Ă© este?
â Minhas desculpas, senhor. NĂŁo vamos cobrar nada. Apenas faça o favor de se retirar.
â EstĂĄ certo, estou de saĂda! Mas voltarei. E voltarei para pĂŽr abaixo esta maldita espelunca!
De outra feita, estĂĄvamos numa loja de conveniĂȘncias, e eu e minha mĂŁe ficamos de lado enquanto meu pai gritava com um atendente. Outro funcionĂĄrio perguntou a minha mĂŁe:
â Quem Ă© esse sujeito horrĂvel? Toda vez que ele vem aqui arranja uma discussĂŁo.
â Ă meu marido â disse minha mĂŁe ao funcionĂĄrio.
E ainda lembro de mais outra. Ele estava trabalhando como leiteiro e fazia entregas de manhĂŁ bem cedo. Certa manhĂŁ ele me acordou.
â Vamos, quero lhe mostrar uma coisa.
Fui até a rua com ele. Eu estava de pijama e chinelos. Ainda era noite, e a lua brilhava alta no céu. Caminhamos até o caminhão de leite, que era puxado a cavalo. O animal estava bastante quieto.
â Veja â disse meu pai. Ele pegou um torrĂŁo de açĂșcar, colocou sobre a palma da mĂŁo e levou atĂ© a boca do cavalo. O animal apanhou o torrĂŁo da sua mĂŁo. â Agora, tente vocĂȘ...
Colocou um torrĂŁo de açĂșcar na minha mĂŁo. Tratava-se de um enorme cavalo.
â Aproxime-se! Mantenha a mĂŁo estendida!
Tive medo de que o cavalo me mordesse. A cabeça se curvou; pude ver suas narinas, os lĂĄbios se retraĂram, vi a lĂngua e os dentes, e entĂŁo o torrĂŁo de açĂșcar desapareceu.
â Aqui. Tente outra vez...
E eu tentei. O cavalo abocanhou o torrão e balançou a cabeça.
â Agora â disse meu pai â, vou levar vocĂȘ de volta para dentro antes que o cavalo cague em cima de vocĂȘ.
Não me era permitido brincar com outras crianças.
â Essas crianças sĂŁo mĂĄs â dizia meu pai â, e os pais delas sĂŁo pobres.
â Ă verdade â concordava minha mĂŁe.
Meus pais queriam ser ricos. Por isso, imaginavam-se ricos.
Foi no jardim de infĂąncia que conheci as primeiras crianças da minha idade. Elas pareciam muito estranhas, sorriam e conversavam e pareciam felizes. NĂŁo gostei delas. Sempre me sentia enjoado, e o ar tinha um aspecto estranhamente calmo e puro. PintĂĄvamos com tinta guache. PlantĂĄvamos sementes de rabanete no jardim e algumas semanas mais tarde os comĂamos com sal. Gostava da senhora que ensinava no jardim de infĂąncia, gostava mais dela que dos meus pais.
â Misto-quente
sob o luar
sigo lembrando de alimentar os cavalos
açĂșcar
pedras oblongas de açĂșcar
mais parecendo gelo,
e suas cabeças são como cabeças
de ĂĄguias
cabeças calvas que poderiam morder e
nĂŁo mordem.
Os cavalos sĂŁo mais reais que
meu pai
mais reais que Deus
e poderiam ter pisado nos meus
pés mas não pisaram
poderiam ter feito coisas horrĂveis
mas nĂŁo fizeram.
Eu tinha quase 5 anos
mas ainda nĂŁo consegui esquecer;
Ăł meu deus eles eram fortes e bons
as lĂnguas vermelhas molhadas
projetadas para fora de suas almas.
Tinha começado a antipatizar com meu pai. Ele sempre estava zangado com alguma coisa. Onde quer que fÎssemos, ele dava um jeito de discutir com as pessoas. Mas a maioria parecia não se assustar com sua figura; as pessoas normalmente o encaravam, calmamente, o que o deixava ainda mais exaltado. Se fÎssemos comer fora, o que raramente acontecia, ele sempre encontrava algo de errado na comida e algumas vezes se recusava a pagar.
â Tem cocĂŽ de mosca na nata! Que diabo de lugar Ă© este?
â Minhas desculpas, senhor. NĂŁo vamos cobrar nada. Apenas faça o favor de se retirar.
â EstĂĄ certo, estou de saĂda! Mas voltarei. E voltarei para pĂŽr abaixo esta maldita espelunca!
De outra feita, estĂĄvamos numa loja de conveniĂȘncias, e eu e minha mĂŁe ficamos de lado enquanto meu pai gritava com um atendente. Outro funcionĂĄrio perguntou a minha mĂŁe:
â Quem Ă© esse sujeito horrĂvel? Toda vez que ele vem aqui arranja uma discussĂŁo.
â Ă meu marido â disse minha mĂŁe ao funcionĂĄrio.
E ainda lembro de mais outra. Ele estava trabalhando como leiteiro e fazia entregas de manhĂŁ bem cedo. Certa manhĂŁ ele me acordou.
â Vamos, quero lhe mostrar uma coisa.
Fui até a rua com ele. Eu estava de pijama e chinelos. Ainda era noite, e a lua brilhava alta no céu. Caminhamos até o caminhão de leite, que era puxado a cavalo. O animal estava bastante quieto.
â Veja â disse meu pai. Ele pegou um torrĂŁo de açĂșcar, colocou sobre a palma da mĂŁo e levou atĂ© a boca do cavalo. O animal apanhou o torrĂŁo da sua mĂŁo. â Agora, tente vocĂȘ...
Colocou um torrĂŁo de açĂșcar na minha mĂŁo. Tratava-se de um enorme cavalo.
â Aproxime-se! Mantenha a mĂŁo estendida!
Tive medo de que o cavalo me mordesse. A cabeça se curvou; pude ver suas narinas, os lĂĄbios se retraĂram, vi a lĂngua e os dentes, e entĂŁo o torrĂŁo de açĂșcar desapareceu.
â Aqui. Tente outra vez...
E eu tentei. O cavalo abocanhou o torrão e balançou a cabeça.
â Agora â disse meu pai â, vou levar vocĂȘ de volta para dentro antes que o cavalo cague em cima de vocĂȘ.
Não me era permitido brincar com outras crianças.
â Essas crianças sĂŁo mĂĄs â dizia meu pai â, e os pais delas sĂŁo pobres.
â Ă verdade â concordava minha mĂŁe.
Meus pais queriam ser ricos. Por isso, imaginavam-se ricos.
Foi no jardim de infĂąncia que conheci as primeiras crianças da minha idade. Elas pareciam muito estranhas, sorriam e conversavam e pareciam felizes. NĂŁo gostei delas. Sempre me sentia enjoado, e o ar tinha um aspecto estranhamente calmo e puro. PintĂĄvamos com tinta guache. PlantĂĄvamos sementes de rabanete no jardim e algumas semanas mais tarde os comĂamos com sal. Gostava da senhora que ensinava no jardim de infĂąncia, gostava mais dela que dos meus pais.
â Misto-quente
Globulárias e Latadas
claro, posso morrer nos prĂłximos dez minutos
e estou pronto para isso
mas o que realmente me preocupa Ă©
que meu editor venha a se aposentar
ainda que ele seja dez anos mais jovem do que
eu.
tudo começou 25 anos atrås (eu estava na madura
faixa dos 45)
quando começamos nossa profana aliança para
testar as ĂĄguas literĂĄrias,
nenhum de nĂłs sendo muito
conhecido.
acho que tivemos um pouco de sorte e que ainda nos
resta um pouco da
mesma
as possibilidades sĂŁo bem favorĂĄveis
para que ele opte por tardes quentes e
prazenteiras
no jardim
muito antes de mim.
a escrita Ă© sua prĂłpria bebedeira
enquanto que publicar e editar,
esforçar-se por pagar as contas
carrega consigo seu prĂłprio
atrito
que ainda inclui lidar com
os faniquitos tolos e as exigĂȘncias
de tantos
assim chamados gĂȘnios extravagantes que nada
sĂŁo.
nĂŁo vou culpĂĄ-lo por dar o
fora
e espero que me mande fotos de sua
Alameda Rosa, de sua
Avenida GardĂȘnia.
terei que procurar outros
promulgadores?
aquele camarada com o chapĂ©u de pelĂșcia
russo?
ou aquela besta no leste
com todos aqueles pelos
saindo dos ouvidos, com aqueles lĂĄbios
Ășmidos e gordurosos?
ou serĂĄ que meu editor
ao sair do mundo de GlobulĂĄrias e
latadas
passarĂĄ a
maquinaria
de seu antigo negĂłcio a um
primo, uma
filha ou a
algum poundiano do Grande
Sul?
ou simplesmente transmitirĂĄ seu legado
a um
funcionĂĄrio do despacho
que ressurgirĂĄ como
LĂĄzaro,
manuseando uma importĂąncia
recém-encontrada?
alguém pode imaginar coisas
terrĂveis:
âSr. Chinaski, seus textos
devem agora ser submetidos em
forma de RondĂł
e
digitados
em espaço trĂȘs em papel de
arrozâ.
o poder corrompe,
a vida aborta
e tudo o que
lhe resta
Ă© um
bocado de
verrugas.
ânĂŁo, nĂŁo, sr. Chinaski:
tem que ser em RondĂł!â
âei, caraâ, perguntarei,
âvocĂȘ jĂĄ ouviu falar
dos anos 30?â
âos anos 30? o que Ă©
isso?â
meu atual editor
e eu
Ă s vezes
discutĂamos os anos 30,
a DepressĂŁo
e
alguns dos truques que
nos ensinaram â
como perseverar apoiado em quase
nada
e como seguir em
frente.
bem, John, se isso acontecer aproveite seu
Ăłcio para
se dedicar Ă agricultura
cultivar e viver ao ar livre
no meio do
mato, ĂĄgua apenas
cedo pela manhĂŁ, plante
com folga para desencorajar
as ervas daninhas
e
como faço com minha escrita:
use muito
adubo.
e obrigado
por ter me ajeitado aqui no
5124 da DeLongpre Avenue
em algum lugar entre o
alcoolismo e a
loucura.
juntos nĂłs
lançamos o desafio
e até os dias de hoje
hĂĄ aceitadores
para serem
encontrados
enquanto o fogo canta
por entre as
ĂĄrvores.
e estou pronto para isso
mas o que realmente me preocupa Ă©
que meu editor venha a se aposentar
ainda que ele seja dez anos mais jovem do que
eu.
tudo começou 25 anos atrås (eu estava na madura
faixa dos 45)
quando começamos nossa profana aliança para
testar as ĂĄguas literĂĄrias,
nenhum de nĂłs sendo muito
conhecido.
acho que tivemos um pouco de sorte e que ainda nos
resta um pouco da
mesma
as possibilidades sĂŁo bem favorĂĄveis
para que ele opte por tardes quentes e
prazenteiras
no jardim
muito antes de mim.
a escrita Ă© sua prĂłpria bebedeira
enquanto que publicar e editar,
esforçar-se por pagar as contas
carrega consigo seu prĂłprio
atrito
que ainda inclui lidar com
os faniquitos tolos e as exigĂȘncias
de tantos
assim chamados gĂȘnios extravagantes que nada
sĂŁo.
nĂŁo vou culpĂĄ-lo por dar o
fora
e espero que me mande fotos de sua
Alameda Rosa, de sua
Avenida GardĂȘnia.
terei que procurar outros
promulgadores?
aquele camarada com o chapĂ©u de pelĂșcia
russo?
ou aquela besta no leste
com todos aqueles pelos
saindo dos ouvidos, com aqueles lĂĄbios
Ășmidos e gordurosos?
ou serĂĄ que meu editor
ao sair do mundo de GlobulĂĄrias e
latadas
passarĂĄ a
maquinaria
de seu antigo negĂłcio a um
primo, uma
filha ou a
algum poundiano do Grande
Sul?
ou simplesmente transmitirĂĄ seu legado
a um
funcionĂĄrio do despacho
que ressurgirĂĄ como
LĂĄzaro,
manuseando uma importĂąncia
recém-encontrada?
alguém pode imaginar coisas
terrĂveis:
âSr. Chinaski, seus textos
devem agora ser submetidos em
forma de RondĂł
e
digitados
em espaço trĂȘs em papel de
arrozâ.
o poder corrompe,
a vida aborta
e tudo o que
lhe resta
Ă© um
bocado de
verrugas.
ânĂŁo, nĂŁo, sr. Chinaski:
tem que ser em RondĂł!â
âei, caraâ, perguntarei,
âvocĂȘ jĂĄ ouviu falar
dos anos 30?â
âos anos 30? o que Ă©
isso?â
meu atual editor
e eu
Ă s vezes
discutĂamos os anos 30,
a DepressĂŁo
e
alguns dos truques que
nos ensinaram â
como perseverar apoiado em quase
nada
e como seguir em
frente.
bem, John, se isso acontecer aproveite seu
Ăłcio para
se dedicar Ă agricultura
cultivar e viver ao ar livre
no meio do
mato, ĂĄgua apenas
cedo pela manhĂŁ, plante
com folga para desencorajar
as ervas daninhas
e
como faço com minha escrita:
use muito
adubo.
e obrigado
por ter me ajeitado aqui no
5124 da DeLongpre Avenue
em algum lugar entre o
alcoolismo e a
loucura.
juntos nĂłs
lançamos o desafio
e até os dias de hoje
hĂĄ aceitadores
para serem
encontrados
enquanto o fogo canta
por entre as
ĂĄrvores.
Grite Quando Se Queimar
Henry serviu um drinque e olhou pela janela a quente e nua rua de Hollywood. Nossa, fora um longo estirĂŁo, e ele ainda estava contra a parede. A seguir viria a morte, a morte estava sempre ali. Cometera um erro estĂșpido e comprara um jornal alternativo, e ainda idolatravam Lenny Bruce. Havia uma foto dele, morto, logo depois da dose ruim. Certo, Lenny tinha sido engraçado Ă s vezes: âNĂŁo posso gozar!â â essa tinha sido uma obra-prima, mas ele nĂŁo era tĂŁo bom assim. Perseguido, certo, claro, fĂsica e espiritualmente. Bem, todos morremos um dia, era simples matemĂĄtica. Nada de novo. A espera Ă© que era um problema. O telefone tocou. Era sua namorada.
â Escuta, seu filho da puta, estou cansada de suas bebedeiras. Me fartei disso com meu pai...
â Ah, diabos, nĂŁo Ă© tĂŁo ruim assim.
â Ă, sim, e nĂŁo vou passar por isso de novo.
â Escuta, vocĂȘ estĂĄ exagerando.
â NĂŁo, estou cheia, estou lhe dizendo, estou cheia. Vi vocĂȘ na festa, pedindo mais uĂsque, foi aĂ que fui embora. Estou cheia. NĂŁo vou aguentar mais nada...
Ela desligou. Ele foi encher outro copo de uĂsque com ĂĄgua. Entrou no quarto com o copo, tirou a camisa, as calças, os sapatos, as meias. De cueca, foi para a cama com a bebida. Faltavam quinze para meio-dia. Sem ambição, sem talento, sem sorte. O que o mantinha fora da sarjeta era pura sorte, e a sorte jamais durava. Bem, era uma pena aquele negĂłcio da Lu, mas Lu era uma vencedora. Esvaziou o copo e deitou-se. Pegou ResistĂȘncia, rebeliĂŁo e morte, de Camus... leu algumas pĂĄginas. Camus falava de angĂșstia, terror, e da miserĂĄvel condição humana, mas falava disso de uma forma tĂŁo cĂŽmoda e floreada... a linguagem... aquele ali achava que nada afetava a ele ou a sua literatura. Em outras palavras, era como se tudo fosse Ăłtimo. Camus escrevia como alguĂ©m que acabou de concluir um lauto jantar de bife com batatas e salada, e depois enxaguou com uma garrafa de bom vinho francĂȘs. A humanidade podia ter andado sofrendo, mas ele nĂŁo. Um sĂĄbio, talvez, mas Henry preferia alguĂ©m que gritasse quando se queimasse. Largou o livro no chĂŁo e tentou dormir. Era sempre difĂcil. Se conseguia dormir trĂȘs horas em cada 24, dava-se por satisfeito. Bem, pensou, as paredes ainda estavam ali, era sĂł dar quatro paredes a alguĂ©m que ele tinha uma chance. Nas ruas, nada se podia fazer.
A campainha da porta tocou.
â Hank! â gritou alguĂ©m. â Oi, Hank!
Que merda Ă© essa, ele pensou. E agora?
â Sim... â respondeu, ali deitado, de cuecas.
â Oi! Que estĂĄ fazendo?
â Espere um minuto...
Levantou-se, pegou a camisa e as calças e entrou no quarto da frente.
â Que estĂĄ fazendo?
â Me vestindo...
â Se vestindo?
â Ă.
Eram meio-dia e dez. Ele abriu a porta. Era o professor de Pasadena que ensinava literatura inglesa. Trazia um mulherĂŁo consigo. O professor apresentou-a. Assistente editorial numa das grandes editoras de Nova York.
â Oh, coisinha fofa â ele disse, e avançou e apertou forte a coxa direita dela. â Eu te amo.
â VocĂȘ nĂŁo perde tempo â ela disse.
â Bem, vocĂȘ sabe, os escritores sempre tiveram de puxar o saco dos editores.
â Eu achava que era o contrĂĄrio.
â NĂŁo Ă©. Ă o escritor que morre de fome.
â Ela quer ver seu romance.
â Eu sĂł tenho uma edição encadernada. NĂŁo posso dar a ela uma edição encadernada.
â DĂȘ uma a ela. Talvez eles comprem â disse o professor.
Falavam do romance dele, Pesadelo. Ele calculou que ela queria apenas ganhar um exemplar de graça.
â NĂłs estĂĄvamos indo para Del Mar, mas Pat queria ver vocĂȘ em carne e osso.
â Que legal.
â Hank leu os poemas dele para minha classe. NĂłs lhe pagamos cinquenta dĂłlares. Ele estava assustado e chorando. Tive de empurrĂĄ-lo para a frente da classe.
â Foi uma coisa indigna. SĂł cinquenta dĂłlares. Auden ganhava dois mil. NĂŁo acho que ele seja tĂŁo melhor assim do que eu. Na verdade...
â Ă, sabemos o que vocĂȘ acha.
Henry recolheu as cartelas de corrida em torno dos pés da assistente editorial.
â O pessoal me deve mil e cem. NĂŁo consigo receber. As revistas de sexo se tornaram incrĂveis. Tive de conhecer a garota do escritĂłrio da frente. Uma certa Clara. âOi, Claraâ, telefono pra ela, âteve um bom cafĂ© da manhĂŁ?â âOh, sim, Hank, e vocĂȘ?â âClaroâ, eu digo, âdois ovos duros.â âSei por que estĂĄ telefonandoâ, ela responde. âClaroâ, eu digo, âo mesmo de sempre.â âBem, estamos com ele aqui, nosso p.o. 984765, no valor de 85 dĂłlares.â âE tem outro, Clara, seu p.o. 973895, por cinco contos, 570 dĂłlares.â âAh, sim, vou pedir ao Sr. Masters que assine esses.â âObrigado, Claraâ, digo a ela. âOh, tudo bemâ, ela diz, âvocĂȘs merecem seu dinheiro.â âClaroâ, eu digo. E entĂŁo ela diz: âE se nĂŁo receber, vocĂȘ liga de novo, nĂŁo liga? Ha-ha-ha.â âSim, Claraâ, digo a ela. âEu ligo de novo.â
O professor e a assistente editorial riram.
â Eu nĂŁo consigo, porra, alguĂ©m quer um drinque?
Eles nĂŁo responderam e Henry serviu-se um.
â Cheguei a tentar conseguir jogando nos cavalinhos. No princĂpio fui bem, mas fiquei sem grana. Tive de parar. SĂł tenho dinheiro pra ganhar.
O professor começou a explicar o sistema para ganhar no vinte e um em Las Vegas. Henry aproximou-se da assistente editorial.
â Vamos pra cama â disse.
â VocĂȘ tem graça â ela disse.
â Ă â ele disse â, como Lenny Bruce. Quase. Ele morreu, e eu estou morrendo.
â Ainda tem graça.
â Ă, sou o herĂłi. O mito. Sou o nĂŁo mimado, o que nĂŁo se vendeu. Minhas cartas sĂŁo vendidas em leilĂŁo por 250 dĂłlares lĂĄ no leste. E eu nĂŁo posso comprar um saco de peidos.
â Todos vocĂȘs, escritores, vivem chorando misĂ©ria.
â Talvez a misĂ©ria tenha chegado. NĂŁo se pode viver da prĂłpria alma. NĂŁo se pode pagar o aluguel com a alma. Experimente fazer isso um dia.
â Talvez eu devesse ir pra cama com vocĂȘ â ela disse.
â Vamos, Pat â disse o professor, levantando-se â, temos de chegar a Del Mar.
Dirigiram-se para a porta.
â Foi um prazer conhecer vocĂȘ.
â Claro â disse Henry.
â Vai conseguir.
â Claro â ele disse â, adeus.
Voltou para o quarto, tirou a roupa e meteu-se na cama. Talvez conseguisse dormir. O sono parecia a morte. EntĂŁo adormeceu. Estava no jĂłquei. O homem do guichĂȘ lhe dava dinheiro e ele o guardava na carteira. Era dinheiro paca.
â Precisa comprar uma carteira nova â disse o homem â, essa aĂ estĂĄ rasgada.
â NĂŁo â ele disse â, nĂŁo quero que os outros saibam que estou rico.
A campainha tocou.
â Oi, Hank! Hank!
â Tudo bem, tudo bem... espere um minuto...
Vestiu a roupa de novo e abriu a porta. Era Harry Stobbs. Outro escritor. Conhecia escritores demais.
Stobbs entrou.
â Tem alguma grana, Stobbs?
â Porra, nĂŁo.
â Tudo bem, eu pago a cerveja. Achei que vocĂȘ estava rico.
â NĂŁo, eu estava morando com uma garota em Malibu. Ela me vestia bem, me alimentava. Me deu um chute. Agora estou morando num chuveiro.
â Chuveiro?
â Ă, Ă© legal. Portas de vidro corrediças de verdade.
â Tudo bem, vamos. Tem carro?
â NĂŁo.
â A gente vai no meu.
Entraram no Comet 62 dele e subiram para Hollywood e Normandy.
â Vendi um artigo pra Time. Cara, achei que tinha entrado na grana. Recebi o cheque deles hoje. Ainda nĂŁo saquei. Adivinha quanto? â perguntou Stobbs.
â Oitocentos dĂłlares?
â NĂŁo, 165.
â QuĂȘ? A revista Time? Cento e sessenta e cinco dĂłlares?
â Ă isso aĂ.
Estacionaram e foram a uma pequena loja de bebidas pegar a cerveja.
â Minha mulher me chutou â disse Henry a Stobbs. â Diz que eu bebo demais. Uma mentira descarada. â Pegou duas embalagens de seis cervejas no freezer. â Estou chegando ao fim da corda. Festa ruim ontem de noite. SĂł escritores mortos de fome, e professores em risco de perder os empregos. Papo profissional. Muito cansativo.
â Os escritores sĂŁo prostitutas â disse Stobbs â, os escritores sĂŁo as prostitutas do universo.
â As prostitutas do universo se dĂŁo muito melhor, meu amigo.
Dirigiram-se ao balcĂŁo.
â âAsas da Cançãoâ â disse o dono da loja.
â âAsas da Cançãoâ â respondeu Henry.
O dono da loja tinha lido uma matĂ©ria no L. A. Times cerca de um ano atrĂĄs sobre a poesia de Henry e jamais esquecera. Era o nĂșmero Asas da Canção deles. A princĂpio ele detestara, mas agora achava engraçado. Asas da Canção, deus do cĂ©u.
Entraram no carro e voltaram. O carteiro tinha passado. Havia alguma coisa na caixa.
â Talvez seja um cheque â disse Henry.
Pegou a carta, abriu duas garrafas e a carta. Dizia:
âCaro sr. Chinaski, acabei de ler seu romance Pesadelo e seu livro de poemas Fotografias do inferno, e acho o senhor um grande escritor. Sou casada, 52 anos, filhos crescidos. Gostaria muito de ter notĂcias suas. Respeitosamente, Doris Anderson.â
A carta vinha de uma cidadezinha do Maine.
â Eu nĂŁo sabia que ainda tinha gente no Maine â ele disse a Stobbs.
â Acho que nĂŁo tem â disse Stobbs.
â Tem. Esta aqui.
Henry jogou a carta no saco de lixo. A cerveja estava boa. As enfermeiras voltavam para o alto edifĂcio do outro lado da rua. Moravam muitas enfermeiras ali. A maioria usava uniformes transparentes, e o sol da tarde fazia o resto. Ele ficou ali com Stobbs vendo-as saltar de seus carros e passar pela entrada de vidro, desaparecendo para seus chuveiros, aparelhos de TV e portas fechadas.
â Veja sĂł aquela â disse Stobbs.
â Um-hum.
â LĂĄ vai outra.
â Oh, nossa!
Estamos agindo como garotos de quinze anos, pensou Henry. NĂŁo merecemos viver. Aposto que Camus nunca ficou espionando pelas janelas.
â O que vocĂȘ pretende fazer, Stobbs?
â Bem, enquanto tiver aquele chuveiro, eu vou levando.
â Por que nĂŁo arranja um emprego?
â Um emprego? NĂŁo dĂȘ uma de maluco.
â Acho que tem razĂŁo.
â Veja sĂł aquela! Olha que rabo!
â Ă, de fato.
Ficaram sentados, atacando a cerveja.
â Mason â ele disse a Stobbs, falando de um jovem poeta inĂ©dito â foi viver no MĂ©xico. Caça carne com arco e flecha, pesca peixes. Levou a mulher e uma empregada. Faturou quatro livros. Escreveu atĂ© um western. O problema Ă© que quando a gente estĂĄ no campo, Ă© quase impossĂvel receber o dinheiro. A Ășnica maneira de receber o dinheiro Ă© ameaçar eles de morte. Sou bom nessas cartas. Mas se o cara estĂĄ a mil e quinhentos quilĂŽmetros, eles sabem que a gente esfria atĂ© chegar Ă porta deles. Mas eu gosto de caçar minha prĂłpria carne. Ă melhor do que ir ao A & P. A gente finge que os animais sĂŁo assistentes editoriais e editores. Ă sensacional.
Stobbs ficou até umas cinco da tarde. Falaram mal da literatura, dos caras importantes que realmente fediam. Caras como Mailer, Capote. Depois Stobbs foi embora e Henry tirou a camisa, as calças, os sapatos e as meias e voltou para a cama. O telefone tocou. Estava no chão perto da cama. Ele baixou o braço e pegou-o. Era Lu.
â Que estĂĄ fazendo? Escrevendo?
â Raramente escrevo.
â Bebendo?
â Chegando ao fim da corda.
â Acho que precisa de uma enfermeira.
â Vamos Ă s corridas esta noite.
â Tudo bem. A que horas vocĂȘ passa?
â Seis e meia tĂĄ bem?
â Seis e meia tĂĄ bem.
â TĂ© logo, entĂŁo.
Esticou-se na cama. Bem, era bom estar de volta com Lu. Ela era boa para ele. Estava certa, ele bebia demais. Se Lu bebesse como ele, nĂŁo a quereria. Seja justo, cara. Veja o que aconteceu com Hemingway, sempre sentado com uma bebida na mĂŁo. Veja Faulkner, veja eles todos. Bem, merda.
O telefone tocou de novo.
â Chinaski?
â Ă.
Era a poetisa Janessa Teel. Tinha um belo corpo, mas ele nunca fora para a cama com ela.
â Eu gostaria que vocĂȘ viesse jantar amanhĂŁ de noite.
â Estou firme com Lu â ele disse. Nossa, pensou, sou fiel. Nossa, pensou, sou um cara legal. Nossa.
â Traga ela junto.
â Acha que seria sensato?
â Por mim, tudo bem.
â Escuta, eu ligo pra vocĂȘ amanhĂŁ. Pra confirmar.
Desligou e tornou a se estender. Durante trinta anos, pensou, eu quis ser um escritor, e agora sou um escritor, e que Ă© que isso significa?
O telefone tornou a tocar. Era o poeta Doug Eshlesham.
â Hank, querido...
â Sim, Doug?
â Estou duro, querido, preciso duns cinco dĂłlares. Me passa uns cinco.
â Doug, os cavalinhos acabaram comigo. Estou duro, absolutamente.
â Oh â disse Doug.
â Desculpe, querido.
â Bem, tudo bem.
Doug desligou. Doug jĂĄ lhe devia quinze paus. Mas ele tinha os cinco. Devia ter dado a Doug. Provavelmente, Doug estava comendo comida de cachorro. NĂŁo sou um cara muito legal, ele pensou. Nossa, nĂŁo sou um cara muito legal, afinal.
Estendeu-se na cama, pleno, em sua inglĂłria.
â Numa fria
â Escuta, seu filho da puta, estou cansada de suas bebedeiras. Me fartei disso com meu pai...
â Ah, diabos, nĂŁo Ă© tĂŁo ruim assim.
â Ă, sim, e nĂŁo vou passar por isso de novo.
â Escuta, vocĂȘ estĂĄ exagerando.
â NĂŁo, estou cheia, estou lhe dizendo, estou cheia. Vi vocĂȘ na festa, pedindo mais uĂsque, foi aĂ que fui embora. Estou cheia. NĂŁo vou aguentar mais nada...
Ela desligou. Ele foi encher outro copo de uĂsque com ĂĄgua. Entrou no quarto com o copo, tirou a camisa, as calças, os sapatos, as meias. De cueca, foi para a cama com a bebida. Faltavam quinze para meio-dia. Sem ambição, sem talento, sem sorte. O que o mantinha fora da sarjeta era pura sorte, e a sorte jamais durava. Bem, era uma pena aquele negĂłcio da Lu, mas Lu era uma vencedora. Esvaziou o copo e deitou-se. Pegou ResistĂȘncia, rebeliĂŁo e morte, de Camus... leu algumas pĂĄginas. Camus falava de angĂșstia, terror, e da miserĂĄvel condição humana, mas falava disso de uma forma tĂŁo cĂŽmoda e floreada... a linguagem... aquele ali achava que nada afetava a ele ou a sua literatura. Em outras palavras, era como se tudo fosse Ăłtimo. Camus escrevia como alguĂ©m que acabou de concluir um lauto jantar de bife com batatas e salada, e depois enxaguou com uma garrafa de bom vinho francĂȘs. A humanidade podia ter andado sofrendo, mas ele nĂŁo. Um sĂĄbio, talvez, mas Henry preferia alguĂ©m que gritasse quando se queimasse. Largou o livro no chĂŁo e tentou dormir. Era sempre difĂcil. Se conseguia dormir trĂȘs horas em cada 24, dava-se por satisfeito. Bem, pensou, as paredes ainda estavam ali, era sĂł dar quatro paredes a alguĂ©m que ele tinha uma chance. Nas ruas, nada se podia fazer.
A campainha da porta tocou.
â Hank! â gritou alguĂ©m. â Oi, Hank!
Que merda Ă© essa, ele pensou. E agora?
â Sim... â respondeu, ali deitado, de cuecas.
â Oi! Que estĂĄ fazendo?
â Espere um minuto...
Levantou-se, pegou a camisa e as calças e entrou no quarto da frente.
â Que estĂĄ fazendo?
â Me vestindo...
â Se vestindo?
â Ă.
Eram meio-dia e dez. Ele abriu a porta. Era o professor de Pasadena que ensinava literatura inglesa. Trazia um mulherĂŁo consigo. O professor apresentou-a. Assistente editorial numa das grandes editoras de Nova York.
â Oh, coisinha fofa â ele disse, e avançou e apertou forte a coxa direita dela. â Eu te amo.
â VocĂȘ nĂŁo perde tempo â ela disse.
â Bem, vocĂȘ sabe, os escritores sempre tiveram de puxar o saco dos editores.
â Eu achava que era o contrĂĄrio.
â NĂŁo Ă©. Ă o escritor que morre de fome.
â Ela quer ver seu romance.
â Eu sĂł tenho uma edição encadernada. NĂŁo posso dar a ela uma edição encadernada.
â DĂȘ uma a ela. Talvez eles comprem â disse o professor.
Falavam do romance dele, Pesadelo. Ele calculou que ela queria apenas ganhar um exemplar de graça.
â NĂłs estĂĄvamos indo para Del Mar, mas Pat queria ver vocĂȘ em carne e osso.
â Que legal.
â Hank leu os poemas dele para minha classe. NĂłs lhe pagamos cinquenta dĂłlares. Ele estava assustado e chorando. Tive de empurrĂĄ-lo para a frente da classe.
â Foi uma coisa indigna. SĂł cinquenta dĂłlares. Auden ganhava dois mil. NĂŁo acho que ele seja tĂŁo melhor assim do que eu. Na verdade...
â Ă, sabemos o que vocĂȘ acha.
Henry recolheu as cartelas de corrida em torno dos pés da assistente editorial.
â O pessoal me deve mil e cem. NĂŁo consigo receber. As revistas de sexo se tornaram incrĂveis. Tive de conhecer a garota do escritĂłrio da frente. Uma certa Clara. âOi, Claraâ, telefono pra ela, âteve um bom cafĂ© da manhĂŁ?â âOh, sim, Hank, e vocĂȘ?â âClaroâ, eu digo, âdois ovos duros.â âSei por que estĂĄ telefonandoâ, ela responde. âClaroâ, eu digo, âo mesmo de sempre.â âBem, estamos com ele aqui, nosso p.o. 984765, no valor de 85 dĂłlares.â âE tem outro, Clara, seu p.o. 973895, por cinco contos, 570 dĂłlares.â âAh, sim, vou pedir ao Sr. Masters que assine esses.â âObrigado, Claraâ, digo a ela. âOh, tudo bemâ, ela diz, âvocĂȘs merecem seu dinheiro.â âClaroâ, eu digo. E entĂŁo ela diz: âE se nĂŁo receber, vocĂȘ liga de novo, nĂŁo liga? Ha-ha-ha.â âSim, Claraâ, digo a ela. âEu ligo de novo.â
O professor e a assistente editorial riram.
â Eu nĂŁo consigo, porra, alguĂ©m quer um drinque?
Eles nĂŁo responderam e Henry serviu-se um.
â Cheguei a tentar conseguir jogando nos cavalinhos. No princĂpio fui bem, mas fiquei sem grana. Tive de parar. SĂł tenho dinheiro pra ganhar.
O professor começou a explicar o sistema para ganhar no vinte e um em Las Vegas. Henry aproximou-se da assistente editorial.
â Vamos pra cama â disse.
â VocĂȘ tem graça â ela disse.
â Ă â ele disse â, como Lenny Bruce. Quase. Ele morreu, e eu estou morrendo.
â Ainda tem graça.
â Ă, sou o herĂłi. O mito. Sou o nĂŁo mimado, o que nĂŁo se vendeu. Minhas cartas sĂŁo vendidas em leilĂŁo por 250 dĂłlares lĂĄ no leste. E eu nĂŁo posso comprar um saco de peidos.
â Todos vocĂȘs, escritores, vivem chorando misĂ©ria.
â Talvez a misĂ©ria tenha chegado. NĂŁo se pode viver da prĂłpria alma. NĂŁo se pode pagar o aluguel com a alma. Experimente fazer isso um dia.
â Talvez eu devesse ir pra cama com vocĂȘ â ela disse.
â Vamos, Pat â disse o professor, levantando-se â, temos de chegar a Del Mar.
Dirigiram-se para a porta.
â Foi um prazer conhecer vocĂȘ.
â Claro â disse Henry.
â Vai conseguir.
â Claro â ele disse â, adeus.
Voltou para o quarto, tirou a roupa e meteu-se na cama. Talvez conseguisse dormir. O sono parecia a morte. EntĂŁo adormeceu. Estava no jĂłquei. O homem do guichĂȘ lhe dava dinheiro e ele o guardava na carteira. Era dinheiro paca.
â Precisa comprar uma carteira nova â disse o homem â, essa aĂ estĂĄ rasgada.
â NĂŁo â ele disse â, nĂŁo quero que os outros saibam que estou rico.
A campainha tocou.
â Oi, Hank! Hank!
â Tudo bem, tudo bem... espere um minuto...
Vestiu a roupa de novo e abriu a porta. Era Harry Stobbs. Outro escritor. Conhecia escritores demais.
Stobbs entrou.
â Tem alguma grana, Stobbs?
â Porra, nĂŁo.
â Tudo bem, eu pago a cerveja. Achei que vocĂȘ estava rico.
â NĂŁo, eu estava morando com uma garota em Malibu. Ela me vestia bem, me alimentava. Me deu um chute. Agora estou morando num chuveiro.
â Chuveiro?
â Ă, Ă© legal. Portas de vidro corrediças de verdade.
â Tudo bem, vamos. Tem carro?
â NĂŁo.
â A gente vai no meu.
Entraram no Comet 62 dele e subiram para Hollywood e Normandy.
â Vendi um artigo pra Time. Cara, achei que tinha entrado na grana. Recebi o cheque deles hoje. Ainda nĂŁo saquei. Adivinha quanto? â perguntou Stobbs.
â Oitocentos dĂłlares?
â NĂŁo, 165.
â QuĂȘ? A revista Time? Cento e sessenta e cinco dĂłlares?
â Ă isso aĂ.
Estacionaram e foram a uma pequena loja de bebidas pegar a cerveja.
â Minha mulher me chutou â disse Henry a Stobbs. â Diz que eu bebo demais. Uma mentira descarada. â Pegou duas embalagens de seis cervejas no freezer. â Estou chegando ao fim da corda. Festa ruim ontem de noite. SĂł escritores mortos de fome, e professores em risco de perder os empregos. Papo profissional. Muito cansativo.
â Os escritores sĂŁo prostitutas â disse Stobbs â, os escritores sĂŁo as prostitutas do universo.
â As prostitutas do universo se dĂŁo muito melhor, meu amigo.
Dirigiram-se ao balcĂŁo.
â âAsas da Cançãoâ â disse o dono da loja.
â âAsas da Cançãoâ â respondeu Henry.
O dono da loja tinha lido uma matĂ©ria no L. A. Times cerca de um ano atrĂĄs sobre a poesia de Henry e jamais esquecera. Era o nĂșmero Asas da Canção deles. A princĂpio ele detestara, mas agora achava engraçado. Asas da Canção, deus do cĂ©u.
Entraram no carro e voltaram. O carteiro tinha passado. Havia alguma coisa na caixa.
â Talvez seja um cheque â disse Henry.
Pegou a carta, abriu duas garrafas e a carta. Dizia:
âCaro sr. Chinaski, acabei de ler seu romance Pesadelo e seu livro de poemas Fotografias do inferno, e acho o senhor um grande escritor. Sou casada, 52 anos, filhos crescidos. Gostaria muito de ter notĂcias suas. Respeitosamente, Doris Anderson.â
A carta vinha de uma cidadezinha do Maine.
â Eu nĂŁo sabia que ainda tinha gente no Maine â ele disse a Stobbs.
â Acho que nĂŁo tem â disse Stobbs.
â Tem. Esta aqui.
Henry jogou a carta no saco de lixo. A cerveja estava boa. As enfermeiras voltavam para o alto edifĂcio do outro lado da rua. Moravam muitas enfermeiras ali. A maioria usava uniformes transparentes, e o sol da tarde fazia o resto. Ele ficou ali com Stobbs vendo-as saltar de seus carros e passar pela entrada de vidro, desaparecendo para seus chuveiros, aparelhos de TV e portas fechadas.
â Veja sĂł aquela â disse Stobbs.
â Um-hum.
â LĂĄ vai outra.
â Oh, nossa!
Estamos agindo como garotos de quinze anos, pensou Henry. NĂŁo merecemos viver. Aposto que Camus nunca ficou espionando pelas janelas.
â O que vocĂȘ pretende fazer, Stobbs?
â Bem, enquanto tiver aquele chuveiro, eu vou levando.
â Por que nĂŁo arranja um emprego?
â Um emprego? NĂŁo dĂȘ uma de maluco.
â Acho que tem razĂŁo.
â Veja sĂł aquela! Olha que rabo!
â Ă, de fato.
Ficaram sentados, atacando a cerveja.
â Mason â ele disse a Stobbs, falando de um jovem poeta inĂ©dito â foi viver no MĂ©xico. Caça carne com arco e flecha, pesca peixes. Levou a mulher e uma empregada. Faturou quatro livros. Escreveu atĂ© um western. O problema Ă© que quando a gente estĂĄ no campo, Ă© quase impossĂvel receber o dinheiro. A Ășnica maneira de receber o dinheiro Ă© ameaçar eles de morte. Sou bom nessas cartas. Mas se o cara estĂĄ a mil e quinhentos quilĂŽmetros, eles sabem que a gente esfria atĂ© chegar Ă porta deles. Mas eu gosto de caçar minha prĂłpria carne. Ă melhor do que ir ao A & P. A gente finge que os animais sĂŁo assistentes editoriais e editores. Ă sensacional.
Stobbs ficou até umas cinco da tarde. Falaram mal da literatura, dos caras importantes que realmente fediam. Caras como Mailer, Capote. Depois Stobbs foi embora e Henry tirou a camisa, as calças, os sapatos e as meias e voltou para a cama. O telefone tocou. Estava no chão perto da cama. Ele baixou o braço e pegou-o. Era Lu.
â Que estĂĄ fazendo? Escrevendo?
â Raramente escrevo.
â Bebendo?
â Chegando ao fim da corda.
â Acho que precisa de uma enfermeira.
â Vamos Ă s corridas esta noite.
â Tudo bem. A que horas vocĂȘ passa?
â Seis e meia tĂĄ bem?
â Seis e meia tĂĄ bem.
â TĂ© logo, entĂŁo.
Esticou-se na cama. Bem, era bom estar de volta com Lu. Ela era boa para ele. Estava certa, ele bebia demais. Se Lu bebesse como ele, nĂŁo a quereria. Seja justo, cara. Veja o que aconteceu com Hemingway, sempre sentado com uma bebida na mĂŁo. Veja Faulkner, veja eles todos. Bem, merda.
O telefone tocou de novo.
â Chinaski?
â Ă.
Era a poetisa Janessa Teel. Tinha um belo corpo, mas ele nunca fora para a cama com ela.
â Eu gostaria que vocĂȘ viesse jantar amanhĂŁ de noite.
â Estou firme com Lu â ele disse. Nossa, pensou, sou fiel. Nossa, pensou, sou um cara legal. Nossa.
â Traga ela junto.
â Acha que seria sensato?
â Por mim, tudo bem.
â Escuta, eu ligo pra vocĂȘ amanhĂŁ. Pra confirmar.
Desligou e tornou a se estender. Durante trinta anos, pensou, eu quis ser um escritor, e agora sou um escritor, e que Ă© que isso significa?
O telefone tornou a tocar. Era o poeta Doug Eshlesham.
â Hank, querido...
â Sim, Doug?
â Estou duro, querido, preciso duns cinco dĂłlares. Me passa uns cinco.
â Doug, os cavalinhos acabaram comigo. Estou duro, absolutamente.
â Oh â disse Doug.
â Desculpe, querido.
â Bem, tudo bem.
Doug desligou. Doug jĂĄ lhe devia quinze paus. Mas ele tinha os cinco. Devia ter dado a Doug. Provavelmente, Doug estava comendo comida de cachorro. NĂŁo sou um cara muito legal, ele pensou. Nossa, nĂŁo sou um cara muito legal, afinal.
Estendeu-se na cama, pleno, em sua inglĂłria.
â Numa fria
Hoje Os Melros São Brutais
solitĂĄrio como um velho e usado pomar
que se espalha por toda a Terra
para ser usado e rendido.
abatido como um ex-pugilista vendendo
na esquina o jornal do dia.
assolado por lĂĄgrimas como
uma corista envelhecida
cujo Ășltimo cheque acaba de ser descontado.
um lencinho estĂĄ Ă mĂŁo seu senhor sua
adoração.
os melros hoje sĂŁo brutais
como
unhas encravadas
numa noite passada na
cadeia â
o vinho enche de vinho o lamento,
os melros voam por toda parte e
voam em cĂrculos
dedilhando
melodias espanholas e castanholas.
e todo lugar Ă©
nenhum lugar â
o sonho Ă© tĂŁo ruim quanto
panquecas e pneus vazios:
por que a gente segue
com nossas mentes e
bolsos cheios de
pĂł
como um valentĂŁo recĂ©m-saĂdo da
escola â
me diga
vocĂȘ,
vocĂȘ que foi um herĂłi de alguma
revolução
vocĂȘ que ensina as crianças
vocĂȘ que bebe com toda calma
vocĂȘ que possui belas casas
e caminha pelos jardins
vocĂȘ que matou um homem e Ă© dono de uma
bela mulher
me diga vocĂȘ
por que estou em chamas como lixo velho e
seco.
poderĂamos certamente manter uma correspondĂȘncia
muito interessante.
manterĂamos o carteiro ocupado.
e as borboletas e as formigas e as pontes e os
cemitérios
e os construtores de foguetes e os cachorros e os mecĂąnicos de garagem
seguiriam em frente por um
momento
até que ficåssemos sem selos
e/ou
ideias.
nĂŁo sinta vergonha de
nada; acho que Deus sabe o que faz
como
as trancas nas
portas.
que se espalha por toda a Terra
para ser usado e rendido.
abatido como um ex-pugilista vendendo
na esquina o jornal do dia.
assolado por lĂĄgrimas como
uma corista envelhecida
cujo Ășltimo cheque acaba de ser descontado.
um lencinho estĂĄ Ă mĂŁo seu senhor sua
adoração.
os melros hoje sĂŁo brutais
como
unhas encravadas
numa noite passada na
cadeia â
o vinho enche de vinho o lamento,
os melros voam por toda parte e
voam em cĂrculos
dedilhando
melodias espanholas e castanholas.
e todo lugar Ă©
nenhum lugar â
o sonho Ă© tĂŁo ruim quanto
panquecas e pneus vazios:
por que a gente segue
com nossas mentes e
bolsos cheios de
pĂł
como um valentĂŁo recĂ©m-saĂdo da
escola â
me diga
vocĂȘ,
vocĂȘ que foi um herĂłi de alguma
revolução
vocĂȘ que ensina as crianças
vocĂȘ que bebe com toda calma
vocĂȘ que possui belas casas
e caminha pelos jardins
vocĂȘ que matou um homem e Ă© dono de uma
bela mulher
me diga vocĂȘ
por que estou em chamas como lixo velho e
seco.
poderĂamos certamente manter uma correspondĂȘncia
muito interessante.
manterĂamos o carteiro ocupado.
e as borboletas e as formigas e as pontes e os
cemitérios
e os construtores de foguetes e os cachorros e os mecĂąnicos de garagem
seguiriam em frente por um
momento
até que ficåssemos sem selos
e/ou
ideias.
nĂŁo sinta vergonha de
nada; acho que Deus sabe o que faz
como
as trancas nas
portas.
Isto
nonsense autocongratulatĂłrio enquanto os
famosos se reĂșnem para aplaudir sua aparente
grandeza
vocĂȘ
se pergunta onde estĂŁo
os verdadeiramente grandes
que
caverna descomunal
os esconde
enquanto
aqueles mortalmente desprovidos
de talento
se curvam para a
ovação
enquanto
os otĂĄrios sĂŁo
tapeados
outra vez
vocĂȘ
se pergunta onde
estĂŁo os verdadeiramente grandes
se Ă© que eles
existem.
este
nonsense autocongratulatĂłrio
tem durado
décadas
e
com raras exceçÔes
séculos.
isto
Ă© tĂŁo medonho
Ă© tĂŁo absolutamente desprovido de piedade
isto
transforma a coragem em
esperança
poeirenta e algemada
isto
faz as pequenas coisas
como
abrir uma cortina
ou
calçar os sapatos
ou
caminhar pela rua
mais difĂcil
quase
abominĂĄvel
enquanto
os famosos se reĂșnem para
aplaudir sua aparente
grandeza
enquanto
os otĂĄrios sĂŁo
tapeados
outra vez
humanidade
sua filha da puta
louca.
E aĂ, de repente, o filme rolava de novo. Como a maioria das notĂcias, esta veio pelo telefone, via Jon.
â Ă â ele me disse â, recomeçamos a produção amanhĂŁ.
â Eu nĂŁo entendo. Achava que o filme estava morto.
â A Firepower vendeu alguns bens. Uma filmoteca e alguns hotĂ©is que eles tinham na Europa. Em cima disso ainda conseguiram arrancar um grande emprĂ©stimo de um grupo italiano. Dizem que o dinheiro desse grupo italiano Ă© meio sujo, mas... Ă© dinheiro. De qualquer modo, eu gostaria que vocĂȘ e Sarah viessem pra filmagem amanhĂŁ.
â NĂŁo sei...
â Ă amanhĂŁ Ă noite...
â Tudo bem, legal... Quando e onde?
Sarah e eu nos sentåvamos num reservado. Era sexta à noite e havia no ar uma boa sensação. Eståvamos ali sentados quando Rick Talbot entrou e sentou-se conosco. Ali estava ele em nossa barraca. Queria apenas um café. Eu o vira muitas vezes na TV, criticando filmes com seu opositor, Kirby Hudson. Eram muito bons no que faziam, e muitas vezes se emocionavam com a coisa. Faziam avaliaçÔes interessantes, e embora outros houvessem tentado copiar o formato, eles eram muito superiores aos concorrentes.
Rick Talbot parecia muito mais jovem do que na TV. TambĂ©m parecia mais retraĂdo, quase tĂmido.
â Vemos vocĂȘ sempre â disse Sarah.
â Obrigado...
â Escuta â perguntei â, que Ă© que te aborrece mais em Kirby Hudson?
â O dedo dele... Quando ele aponta aquele dedo.
Entrou Francine Bowers. Resvalou para dentro do reservado. Nós a cumprimentamos. Ela conhecia Rick Talbot. Trazia uma pequena prancheta de anotaçÔes.
â Escuta, Hank, quero saber mais um pouco sobre Jane. Ăndia, certo?
â Meio Ăndia, meio irlandesa.
â Por que bebia?
â Era um lugar onde se esconder, e tambĂ©m uma forma de suicĂdio.
â VocĂȘ algum dia levou ela a algum lugar, alĂ©m de um bar?
â Levei ela a um jogo de beisebol, uma vez. Ao Wrigley Field, no tempo em que os Angels de L.A. jogavam na Liga da Costa do PacĂfico.
â Que aconteceu?
â NĂłs dois ficamos muito bĂȘbados. Ela ficou fula comigo e saiu correndo do parque. Eu dirigi horas procurando por ela. Quando voltei ao quarto, ela estava desmaiada na cama.
â Como Ă© que ela falava? Aos berros?
â Ficava calada durante horas. EntĂŁo, de repente, enlouquecia e se punha a gritar, xingar e atirar coisas. A princĂpio eu nĂŁo reagia. Depois ela me dava nos nervos. Eu andava de um lado para outro, de um lado para outro, berrando e devolvendo os xingamentos. Isso continuava por talvez uns vinte minutos, depois a gente se aquietava, bebia mais um pouco e recomeçava. VivĂamos sendo despejados. Fomos expulsos de tantos lugares que nĂŁo consigo me lembrar de todos. Uma vez, procurando uma nova casa, batemos numa porta. A porta se abriu, e lĂĄ estava a senhoria que acabara de expulsar a gente. Ela nos viu, ficou pĂĄlida, gritou e bateu a porta...
â Jane morreu? â perguntou Rick Talbot.
â HĂĄ muito tempo. EstĂŁo todos mortos. Todos com quem eu bebia.
â Que Ă© que mantĂ©m vocĂȘ de pĂ©?
â Gosto de bater Ă mĂĄquina. Me emociona.
â E eu mantenho ele numa dieta de vitaminas e baixa caloria, sem carne vermelha â disse-lhe Sarah.
â Ainda bebe? â perguntou Rick.
â Sobretudo quando escrevo, ou quando aparecem visitas. NĂŁo me sinto bem com as pessoas, e depois de beber bastante elas parecem desaparecer.
â Me fale mais sobre Jane â pediu Francine.
â Bem, ela dormia com um terço debaixo do travesseiro...
â Ia Ă igreja?
â Em horas estranhas ia ao que chamava de âmissa alka-seltzerâ. Acho que começava Ă s oito e meia da manhĂŁ e durava cerca de uma hora. Ela detestava a missa das dez horas, que muitas vezes durava duas horas.
â Ela ia Ă confissĂŁo?
â Nunca perguntei...
â Pode me dizer alguma coisa sobre ela que explique o seu carĂĄter?
â SĂł que, apesar de todas as coisas aparentemente terrĂveis que fazia, os xingamentos, a loucura, o amor Ă garrafa, sempre fazia tudo com uma certa classe. Me agradaria pensar que aprendi algumas coisinhas sobre classe com ela...
â Quero te agradecer por essas coisas, acho que podem ajudar.
â Esteja Ă vontade.
Francine e sua prancheta se foram.
â Acho que nunca me diverti tanto num set â disse Rick Talbot.
â Que quer dizer, Rick? â perguntou Sarah.
â Ă uma sensação no ar. Ăs vezes, em filmes de baixo orçamento, a gente sente essa sensação, essa sensação de carnaval. Mas sinto mais aqui do que nunca...
Falava sério. Os olhos brilhavam, ele sorria com verdadeira alegria.
Pedi outra rodada de bebidas.
â Pra mim, sĂł cafĂ© â ele disse.
Chegou a nova rodada e Rick disse:
â Vejam! LĂĄ estĂĄ Sesteenov!
â Quem? â eu perguntei.
â O cara que fez aquele filme maravilhoso sobre cemitĂ©rios de bichinhos de estimação. Ei, Sesteenov!
Sesteenov aproximou-se.
â Por favor, sente-se â pedi.
Ele escorregou para dentro do reservado.
â Quer beber alguma coisa? â perguntei.
â Oh, nĂŁo...
â Vejam â disse Rick Talbot â, lĂĄ estĂĄ Illiantovitch!
Eu conhecia Illiantovitch. Ele fizera uns filmes darks malucos, tendo como tema principal a violĂȘncia da vida vencida pela coragem das pessoas. Mas fazia isso bem, rugindo de dentro da escuridĂŁo.
Era um homem muito alto, de pescoço torto e olhos alucinados. Os olhos alucinados não se desgrudavam da gente, olhando a gente. Era meio embaraçoso.
NĂłs nos afastamos para deixĂĄ-lo entrar. O reservado estava cheio.
â Gostaria de um drinque? â perguntei.
â Uma vodca dupla â ele disse.
Gostei disso, acenei para o garçom.
â Vodca dupla â ele disse ao garçom, fixando-o com seus olhos alucinados. O garçom correu a cumprir seu dever.
â Ă uma noite sensacional â disse Rick.
Eu adorava a falta de sofisticação dele. Era preciso coragem, quando se estava por cima, para dizer que gostava do que fazia, que se divertia com o que fazia.
Illiantovitch recebeu sua vodca dupla, emborcou-a de vez.
Rick Talbot fazia perguntas a todo mundo, incluindo Sarah. Não havia nenhuma sensação de competição ou inveja no reservado. A sensação era de total bem-estar.
AĂ entrou Jon Pinchot. Aproximou-se do reservado, fez uma ligeira curvatura, sorrindo:
â Vamos rodar daqui a pouco, espero. Venho chamar todos...
â Obrigado, Jon...
Ele se afastou.
â Ă um bom diretor â disse Rick Talbot â, mas eu gostaria de saber por que vocĂȘ escolheu ele.
â Foi ele que me escolheu...
â Ă mesmo?
â Ă... e eu posso te contar uma histĂłria que explicarĂĄ por que Ă© um bom diretor, e por que eu gosto dele. Mas fica aqui entre nĂłs...
â Manda â disse Rick.
â Aqui entre nĂłs?
â Ă claro...
Curvei-me para a frente no reservado e contei a histĂłria de Jon com a motosserra e o dedo mindinho.
â Isso aconteceu mesmo? â perguntou Rick.
â Aconteceu. Aqui entre nĂłs.
â Claro...
(Eu sabia: nada Ă© aqui entre nĂłs, uma vez que a gente conta.)
Enquanto isso, Illiantovitch matara duas vodcas duplas e sentava-se contemplando uma terceira. Continuava me fitando. Depois puxou a carteira, retirou um sebento cartĂŁo de apresentação e me entregou. O cartĂŁo tinha os quatro cantos gastos e estava mole e preto de sujeira. Desistira de ser um cartĂŁo de apresentação. Illiantovitch parecia um gĂȘnio emporcalhado. Eu o admirei por isso. Era um sujeito sem pretensĂŁo. Ele agarrou a vodca dupla e virou-a garganta abaixo.
Depois me olhou, densamente. Mas os olhos negros me eram demais. Tive de desviar os meus. Chamei o garçom para reabastecer. Depois tornei a olhar para Illiantovitch.
â VocĂȘ Ă© o melhor â eu disse. â Depois de vocĂȘ, nĂŁo tem mais nada.
â NĂŁo, nĂŁo Ă© assim â ele disse. â VOCĂ Ă© o melhor! Eu te dou meu cartĂŁo! No cartĂŁo estĂĄ a hora da PROJEĂĂO DE MEU NOVO FILME! VOCĂ DEVE IR VER!
â Claro, baby â eu disse, e tirei minha carteira e guardei cuidadosamente o cartĂŁo.
â EstĂĄ uma noite daquelas â disse Rick Talbot.
Falaram-se mais algumas bobagens, e apareceu Jon Pinchot.
â Estamos quase prontos pra rodar. VocĂȘs podem vir agora, pra eu arranjar lugares pra vocĂȘs?
Todos nos levantamos para segui-lo, exceto Illiantovitch. Ele afundou no reservado.
â Foda-se! Vou tomar mais vodcas duplas! VĂŁo vocĂȘs!
Aquele bastardo roubara-me uma ou duas påginas. Acenou para o garçom, puxou um cigarro, meteu-o entre os låbios, acendeu o isqueiro e queimou um pedaço do nariz.
Bastardo.
Nós avançamos noite adentro.
â Hollywood
famosos se reĂșnem para aplaudir sua aparente
grandeza
vocĂȘ
se pergunta onde estĂŁo
os verdadeiramente grandes
que
caverna descomunal
os esconde
enquanto
aqueles mortalmente desprovidos
de talento
se curvam para a
ovação
enquanto
os otĂĄrios sĂŁo
tapeados
outra vez
vocĂȘ
se pergunta onde
estĂŁo os verdadeiramente grandes
se Ă© que eles
existem.
este
nonsense autocongratulatĂłrio
tem durado
décadas
e
com raras exceçÔes
séculos.
isto
Ă© tĂŁo medonho
Ă© tĂŁo absolutamente desprovido de piedade
isto
transforma a coragem em
esperança
poeirenta e algemada
isto
faz as pequenas coisas
como
abrir uma cortina
ou
calçar os sapatos
ou
caminhar pela rua
mais difĂcil
quase
abominĂĄvel
enquanto
os famosos se reĂșnem para
aplaudir sua aparente
grandeza
enquanto
os otĂĄrios sĂŁo
tapeados
outra vez
humanidade
sua filha da puta
louca.
E aĂ, de repente, o filme rolava de novo. Como a maioria das notĂcias, esta veio pelo telefone, via Jon.
â Ă â ele me disse â, recomeçamos a produção amanhĂŁ.
â Eu nĂŁo entendo. Achava que o filme estava morto.
â A Firepower vendeu alguns bens. Uma filmoteca e alguns hotĂ©is que eles tinham na Europa. Em cima disso ainda conseguiram arrancar um grande emprĂ©stimo de um grupo italiano. Dizem que o dinheiro desse grupo italiano Ă© meio sujo, mas... Ă© dinheiro. De qualquer modo, eu gostaria que vocĂȘ e Sarah viessem pra filmagem amanhĂŁ.
â NĂŁo sei...
â Ă amanhĂŁ Ă noite...
â Tudo bem, legal... Quando e onde?
Sarah e eu nos sentåvamos num reservado. Era sexta à noite e havia no ar uma boa sensação. Eståvamos ali sentados quando Rick Talbot entrou e sentou-se conosco. Ali estava ele em nossa barraca. Queria apenas um café. Eu o vira muitas vezes na TV, criticando filmes com seu opositor, Kirby Hudson. Eram muito bons no que faziam, e muitas vezes se emocionavam com a coisa. Faziam avaliaçÔes interessantes, e embora outros houvessem tentado copiar o formato, eles eram muito superiores aos concorrentes.
Rick Talbot parecia muito mais jovem do que na TV. TambĂ©m parecia mais retraĂdo, quase tĂmido.
â Vemos vocĂȘ sempre â disse Sarah.
â Obrigado...
â Escuta â perguntei â, que Ă© que te aborrece mais em Kirby Hudson?
â O dedo dele... Quando ele aponta aquele dedo.
Entrou Francine Bowers. Resvalou para dentro do reservado. Nós a cumprimentamos. Ela conhecia Rick Talbot. Trazia uma pequena prancheta de anotaçÔes.
â Escuta, Hank, quero saber mais um pouco sobre Jane. Ăndia, certo?
â Meio Ăndia, meio irlandesa.
â Por que bebia?
â Era um lugar onde se esconder, e tambĂ©m uma forma de suicĂdio.
â VocĂȘ algum dia levou ela a algum lugar, alĂ©m de um bar?
â Levei ela a um jogo de beisebol, uma vez. Ao Wrigley Field, no tempo em que os Angels de L.A. jogavam na Liga da Costa do PacĂfico.
â Que aconteceu?
â NĂłs dois ficamos muito bĂȘbados. Ela ficou fula comigo e saiu correndo do parque. Eu dirigi horas procurando por ela. Quando voltei ao quarto, ela estava desmaiada na cama.
â Como Ă© que ela falava? Aos berros?
â Ficava calada durante horas. EntĂŁo, de repente, enlouquecia e se punha a gritar, xingar e atirar coisas. A princĂpio eu nĂŁo reagia. Depois ela me dava nos nervos. Eu andava de um lado para outro, de um lado para outro, berrando e devolvendo os xingamentos. Isso continuava por talvez uns vinte minutos, depois a gente se aquietava, bebia mais um pouco e recomeçava. VivĂamos sendo despejados. Fomos expulsos de tantos lugares que nĂŁo consigo me lembrar de todos. Uma vez, procurando uma nova casa, batemos numa porta. A porta se abriu, e lĂĄ estava a senhoria que acabara de expulsar a gente. Ela nos viu, ficou pĂĄlida, gritou e bateu a porta...
â Jane morreu? â perguntou Rick Talbot.
â HĂĄ muito tempo. EstĂŁo todos mortos. Todos com quem eu bebia.
â Que Ă© que mantĂ©m vocĂȘ de pĂ©?
â Gosto de bater Ă mĂĄquina. Me emociona.
â E eu mantenho ele numa dieta de vitaminas e baixa caloria, sem carne vermelha â disse-lhe Sarah.
â Ainda bebe? â perguntou Rick.
â Sobretudo quando escrevo, ou quando aparecem visitas. NĂŁo me sinto bem com as pessoas, e depois de beber bastante elas parecem desaparecer.
â Me fale mais sobre Jane â pediu Francine.
â Bem, ela dormia com um terço debaixo do travesseiro...
â Ia Ă igreja?
â Em horas estranhas ia ao que chamava de âmissa alka-seltzerâ. Acho que começava Ă s oito e meia da manhĂŁ e durava cerca de uma hora. Ela detestava a missa das dez horas, que muitas vezes durava duas horas.
â Ela ia Ă confissĂŁo?
â Nunca perguntei...
â Pode me dizer alguma coisa sobre ela que explique o seu carĂĄter?
â SĂł que, apesar de todas as coisas aparentemente terrĂveis que fazia, os xingamentos, a loucura, o amor Ă garrafa, sempre fazia tudo com uma certa classe. Me agradaria pensar que aprendi algumas coisinhas sobre classe com ela...
â Quero te agradecer por essas coisas, acho que podem ajudar.
â Esteja Ă vontade.
Francine e sua prancheta se foram.
â Acho que nunca me diverti tanto num set â disse Rick Talbot.
â Que quer dizer, Rick? â perguntou Sarah.
â Ă uma sensação no ar. Ăs vezes, em filmes de baixo orçamento, a gente sente essa sensação, essa sensação de carnaval. Mas sinto mais aqui do que nunca...
Falava sério. Os olhos brilhavam, ele sorria com verdadeira alegria.
Pedi outra rodada de bebidas.
â Pra mim, sĂł cafĂ© â ele disse.
Chegou a nova rodada e Rick disse:
â Vejam! LĂĄ estĂĄ Sesteenov!
â Quem? â eu perguntei.
â O cara que fez aquele filme maravilhoso sobre cemitĂ©rios de bichinhos de estimação. Ei, Sesteenov!
Sesteenov aproximou-se.
â Por favor, sente-se â pedi.
Ele escorregou para dentro do reservado.
â Quer beber alguma coisa? â perguntei.
â Oh, nĂŁo...
â Vejam â disse Rick Talbot â, lĂĄ estĂĄ Illiantovitch!
Eu conhecia Illiantovitch. Ele fizera uns filmes darks malucos, tendo como tema principal a violĂȘncia da vida vencida pela coragem das pessoas. Mas fazia isso bem, rugindo de dentro da escuridĂŁo.
Era um homem muito alto, de pescoço torto e olhos alucinados. Os olhos alucinados não se desgrudavam da gente, olhando a gente. Era meio embaraçoso.
NĂłs nos afastamos para deixĂĄ-lo entrar. O reservado estava cheio.
â Gostaria de um drinque? â perguntei.
â Uma vodca dupla â ele disse.
Gostei disso, acenei para o garçom.
â Vodca dupla â ele disse ao garçom, fixando-o com seus olhos alucinados. O garçom correu a cumprir seu dever.
â Ă uma noite sensacional â disse Rick.
Eu adorava a falta de sofisticação dele. Era preciso coragem, quando se estava por cima, para dizer que gostava do que fazia, que se divertia com o que fazia.
Illiantovitch recebeu sua vodca dupla, emborcou-a de vez.
Rick Talbot fazia perguntas a todo mundo, incluindo Sarah. Não havia nenhuma sensação de competição ou inveja no reservado. A sensação era de total bem-estar.
AĂ entrou Jon Pinchot. Aproximou-se do reservado, fez uma ligeira curvatura, sorrindo:
â Vamos rodar daqui a pouco, espero. Venho chamar todos...
â Obrigado, Jon...
Ele se afastou.
â Ă um bom diretor â disse Rick Talbot â, mas eu gostaria de saber por que vocĂȘ escolheu ele.
â Foi ele que me escolheu...
â Ă mesmo?
â Ă... e eu posso te contar uma histĂłria que explicarĂĄ por que Ă© um bom diretor, e por que eu gosto dele. Mas fica aqui entre nĂłs...
â Manda â disse Rick.
â Aqui entre nĂłs?
â Ă claro...
Curvei-me para a frente no reservado e contei a histĂłria de Jon com a motosserra e o dedo mindinho.
â Isso aconteceu mesmo? â perguntou Rick.
â Aconteceu. Aqui entre nĂłs.
â Claro...
(Eu sabia: nada Ă© aqui entre nĂłs, uma vez que a gente conta.)
Enquanto isso, Illiantovitch matara duas vodcas duplas e sentava-se contemplando uma terceira. Continuava me fitando. Depois puxou a carteira, retirou um sebento cartĂŁo de apresentação e me entregou. O cartĂŁo tinha os quatro cantos gastos e estava mole e preto de sujeira. Desistira de ser um cartĂŁo de apresentação. Illiantovitch parecia um gĂȘnio emporcalhado. Eu o admirei por isso. Era um sujeito sem pretensĂŁo. Ele agarrou a vodca dupla e virou-a garganta abaixo.
Depois me olhou, densamente. Mas os olhos negros me eram demais. Tive de desviar os meus. Chamei o garçom para reabastecer. Depois tornei a olhar para Illiantovitch.
â VocĂȘ Ă© o melhor â eu disse. â Depois de vocĂȘ, nĂŁo tem mais nada.
â NĂŁo, nĂŁo Ă© assim â ele disse. â VOCĂ Ă© o melhor! Eu te dou meu cartĂŁo! No cartĂŁo estĂĄ a hora da PROJEĂĂO DE MEU NOVO FILME! VOCĂ DEVE IR VER!
â Claro, baby â eu disse, e tirei minha carteira e guardei cuidadosamente o cartĂŁo.
â EstĂĄ uma noite daquelas â disse Rick Talbot.
Falaram-se mais algumas bobagens, e apareceu Jon Pinchot.
â Estamos quase prontos pra rodar. VocĂȘs podem vir agora, pra eu arranjar lugares pra vocĂȘs?
Todos nos levantamos para segui-lo, exceto Illiantovitch. Ele afundou no reservado.
â Foda-se! Vou tomar mais vodcas duplas! VĂŁo vocĂȘs!
Aquele bastardo roubara-me uma ou duas påginas. Acenou para o garçom, puxou um cigarro, meteu-o entre os låbios, acendeu o isqueiro e queimou um pedaço do nariz.
Bastardo.
Nós avançamos noite adentro.
â Hollywood
Jantar, 1933
quando meu pai comia
seus lĂĄbios ficam
gordurosos
de comida.
e quando ele comia
falava sobre como
a comida
estava boa
e como
a maioria das outras pessoas
nĂŁo comia
tĂŁo bem
como
a gente.
gostava de
esfregar
o que sobrava
em seu prato
com um pedaço de
pĂŁo,
enquanto emitia
sons de apreciação
que estavam a meio caminho
entre o gemido e o
ronco.
sorvia o café fazendo
barulho
produzindo
um alto
gorgolejar.
entĂŁo baixava
a xĂcara sobre a
mesa:
âsobremesa? Ă©
gelatina?â
minha mĂŁe lhe
traria o doce
numa enorme taça
e meu pai ali
meteria a
colher.
assim que ela
afundava
a gelatina produzia
sons estranhos,
quase como
o som de
peidos.
entĂŁo vinha o
creme batido,
montanhas brancas
sobre a
gelatina.
âah! gelatina e
creme batido!â
meu pai sugava a
gelatina e o creme
batido
de sua colher â
era como se ela
entrasse em
um tĂșnel de
vento.
o doce
terminado
ele limparia a
boca
com um descomunal guardanapo
branco,
esfregando com força
num movimento
circular,
o guardanapo quase
escondendo
seu rosto
todo.
depois disso
vinham os
cigarros
Camel.
ele acendia um
com um fĂłsforo
de cozinha,
que ele largava,
ainda em chamas,
no
cinzeiro.
entĂŁo mais um gole barulhento de
cafĂ©, a xĂcara novamente
sobre a mesa, uma boa
tragada no
Camel.
âah, isso Ă© o que eu chamo de uma
boa
refeição!â
um pouco mais tarde
em meu quarto
na minha cama
no escuro
a comida que eu
havia ingerido
e o que eu havia
visto
jå começavam
a me revirar
o estĂŽmago.
a Ășnica coisa
boa
era
ouvir os
grilos
do lado de fora,
lĂĄ fora
num outro mundo
do qual eu nĂŁo
fazia
parte.
Um dia, semelhante ao que acontecera na escola fundamental com David, um garoto se apegou a mim. Era pequeno e magro e nĂŁo tinha quase nenhum fio de cabelo no topo da cabeça. Os caras o chamavam de Carequinha. Seu nome verdadeiro era Eli LaCrosse. Eu gostava de seu nome real, mas nĂŁo gostava da sua pessoa. Ele se grudara em mim. Era uma figura tĂŁo lastimĂĄvel que nĂŁo podia dizer a ele simplesmente que sumisse. Era como um cachorro vira-lata, faminto, cansado de ser expulso a patadas. Ainda assim, era desagradĂĄvel tĂȘ-lo Ă minha volta. Contudo, desde que eu percebera sua aura de vira-lata, deixei que ficasse por perto. Usava uma praga em quase todas as frases que saĂam de sua boca, no mĂnimo uma praga, mas era tudo pose, estava longe de ser um cara durĂŁo, era medo puro. Eu nĂŁo tinha medo, mas era um sujeito confuso. Assim, talvez formĂĄssemos um par adequado.
Acompanhava-o até em casa todos os dias depois das aulas. Vivia com sua mãe, seu pai e seu avÎ. Tinham uma casinha do lado de lå de um pequeno parque. Eu gostava do lugar, tinha grandes årvores que davam sombra, e, desde que algumas pessoas haviam me dito que eu era feio, sempre preferi a sombra ao sol, a escuridão à luz.
Durante nossas caminhadas para casa, Carequinha tinha me falado de seu pai. Ele fora médico, um cirurgião de sucesso, mas tinha perdido sua licença em função da bebida. Um dia conheci o pai do Carequinha. Estava sentado numa cadeira debaixo de uma årvore, sem fazer nada.
â Pai â ele disse â, esse Ă© o Henry.
â OlĂĄ, Henry.
Lembrei-me de quando vira meu avĂŽ pela primeira vez, parado nos degraus em frente Ă sua casa. A diferença Ă© que o pai do Carequinha tinha a barba e o cabelo pretos, mas seus olhos eram iguais â brilhantes e luminosos, tĂŁo estranhos. E ali estava Carequinha, o filho, sem qualquer tipo de brilho.
â Vamos â disse Carequinha â, venha comigo.
Entramos em uma adega, debaixo da casa. Era escura e Ășmida e ficamos parados atĂ© que nossos olhos se acostumassem Ă escuridĂŁo. EntĂŁo pude ver uma porção de barris.
â Esses barris estĂŁo cheios de diferentes qualidades de vinho â disse Carequinha. â Cada barril tem uma torneira. Quer experimentar algum deles?
â NĂŁo.
â Vamos lĂĄ, apenas tome um maldito gole.
â Pra quĂȘ?
â Mas que maldição, vocĂȘ se considera um homem ou nĂŁo?
â Sou durĂŁo â eu disse.
â EntĂŁo experimenta, caralho!
Ali estava o Carequinha querendo me desafiar. Nenhum problema. Fui até um barril e abaixei a cabeça.
â Abra a maldita torneira! Abra essa maldita boca!
â HĂĄ alguma aranha por aqui?
â VĂĄ em frente, desgraçado!
Abri a boca e a torneira. Um lĂquido malcheiroso jorrou para dentro da minha goela. Cuspi tudo.
â NĂŁo seja um veadinho! Engula, caralho!
Abri novamente a torneira e minha boca. O lĂquido malcheiroso entrou e eu o engoli. Fechei a torneira e fiquei ali parado. Pensei que fosse vomitar.
â Agora Ă© a sua vez de beber um pouco â eu disse ao Carequinha.
â Claro â ele disse â, nĂŁo estou me cagando de medo!
Abaixou-se na frente de um barril e deu uma boa golada. Um merdinha daqueles não ia me superar. Fui até outro barril, abri a torneira e dei um gole. Fiquei de pé. Começava a me sentir bem.
â Ei, Carequinha â eu disse â, gostei desse negĂłcio.
â EntĂŁo, caralho, beba um pouco mais.
E foi o que fiz. O gosto estava melhorando. Eu estava melhorando.
â Esse negĂłcio Ă© do seu pai, Carequinha. Eu nĂŁo devia beber tudo.
â Ele nĂŁo se importa. Parou de beber.
Nunca me sentira tão bem. Era melhor do que masturbação.
Fui de barril em barril. Era mågico. Por que ninguém havia me falado a respeito disso? Com a bebida, a vida era maravilhosa, um homem era perfeito, nada mais poderia feri-lo.
Fiquei de pé, ereto, e encarei o Carequinha.
â Onde estĂĄ a sua mĂŁe? Vou foder sua mĂŁe!
â Mato vocĂȘ, seu filho da puta, fique longe da minha mĂŁe!
â VocĂȘ sabe que eu posso lhe dar uma surra, Carequinha?
â Sim.
â Tudo bem, vou deixar sua mĂŁe em paz.
â Vamos embora entĂŁo, Henry.
â Mais um trago...
Fui atĂ© um barril e dei uma longa talagada. Depois subimos a escada da adega. Quando saĂmos, o pai do Carequinha ainda estava sentado na sua cadeira.
â VocĂȘs estavam na adega, nĂŁo?
â Sim â respondeu o Carequinha.
â Começando um pouco cedo, nĂŁo acham?
NĂŁo respondemos. Caminhamos atĂ© a avenida e Carequinha e eu fomos atĂ© uma loja que vendia chicletes. Compramos vĂĄrias caixas e enfiamos todos os chicletes em nossas bocas. Ele estava preocupado que sua mĂŁe descobrisse. Eu nĂŁo me preocupava com nada. Sentamos num banco de parque e mascamos nossos chicletes. Pensei: bem, agora descobri alguma coisa, alguma coisa que irĂĄ me ajudar nos tantos dias que ainda hĂŁo de vir. A grama do parque parecia mais verde, os bancos do parque se tornaram mais bonitos, e as flores se esforçavam nesse sentido. Talvez essa coisa nĂŁo fosse boa para cirurgiĂ”es, mas alguĂ©m que escolhia essa carreira jĂĄ devia ter algo de errado na cabeça desde o princĂpio.
â Misto-quente
seus lĂĄbios ficam
gordurosos
de comida.
e quando ele comia
falava sobre como
a comida
estava boa
e como
a maioria das outras pessoas
nĂŁo comia
tĂŁo bem
como
a gente.
gostava de
esfregar
o que sobrava
em seu prato
com um pedaço de
pĂŁo,
enquanto emitia
sons de apreciação
que estavam a meio caminho
entre o gemido e o
ronco.
sorvia o café fazendo
barulho
produzindo
um alto
gorgolejar.
entĂŁo baixava
a xĂcara sobre a
mesa:
âsobremesa? Ă©
gelatina?â
minha mĂŁe lhe
traria o doce
numa enorme taça
e meu pai ali
meteria a
colher.
assim que ela
afundava
a gelatina produzia
sons estranhos,
quase como
o som de
peidos.
entĂŁo vinha o
creme batido,
montanhas brancas
sobre a
gelatina.
âah! gelatina e
creme batido!â
meu pai sugava a
gelatina e o creme
batido
de sua colher â
era como se ela
entrasse em
um tĂșnel de
vento.
o doce
terminado
ele limparia a
boca
com um descomunal guardanapo
branco,
esfregando com força
num movimento
circular,
o guardanapo quase
escondendo
seu rosto
todo.
depois disso
vinham os
cigarros
Camel.
ele acendia um
com um fĂłsforo
de cozinha,
que ele largava,
ainda em chamas,
no
cinzeiro.
entĂŁo mais um gole barulhento de
cafĂ©, a xĂcara novamente
sobre a mesa, uma boa
tragada no
Camel.
âah, isso Ă© o que eu chamo de uma
boa
refeição!â
um pouco mais tarde
em meu quarto
na minha cama
no escuro
a comida que eu
havia ingerido
e o que eu havia
visto
jå começavam
a me revirar
o estĂŽmago.
a Ășnica coisa
boa
era
ouvir os
grilos
do lado de fora,
lĂĄ fora
num outro mundo
do qual eu nĂŁo
fazia
parte.
Um dia, semelhante ao que acontecera na escola fundamental com David, um garoto se apegou a mim. Era pequeno e magro e nĂŁo tinha quase nenhum fio de cabelo no topo da cabeça. Os caras o chamavam de Carequinha. Seu nome verdadeiro era Eli LaCrosse. Eu gostava de seu nome real, mas nĂŁo gostava da sua pessoa. Ele se grudara em mim. Era uma figura tĂŁo lastimĂĄvel que nĂŁo podia dizer a ele simplesmente que sumisse. Era como um cachorro vira-lata, faminto, cansado de ser expulso a patadas. Ainda assim, era desagradĂĄvel tĂȘ-lo Ă minha volta. Contudo, desde que eu percebera sua aura de vira-lata, deixei que ficasse por perto. Usava uma praga em quase todas as frases que saĂam de sua boca, no mĂnimo uma praga, mas era tudo pose, estava longe de ser um cara durĂŁo, era medo puro. Eu nĂŁo tinha medo, mas era um sujeito confuso. Assim, talvez formĂĄssemos um par adequado.
Acompanhava-o até em casa todos os dias depois das aulas. Vivia com sua mãe, seu pai e seu avÎ. Tinham uma casinha do lado de lå de um pequeno parque. Eu gostava do lugar, tinha grandes årvores que davam sombra, e, desde que algumas pessoas haviam me dito que eu era feio, sempre preferi a sombra ao sol, a escuridão à luz.
Durante nossas caminhadas para casa, Carequinha tinha me falado de seu pai. Ele fora médico, um cirurgião de sucesso, mas tinha perdido sua licença em função da bebida. Um dia conheci o pai do Carequinha. Estava sentado numa cadeira debaixo de uma årvore, sem fazer nada.
â Pai â ele disse â, esse Ă© o Henry.
â OlĂĄ, Henry.
Lembrei-me de quando vira meu avĂŽ pela primeira vez, parado nos degraus em frente Ă sua casa. A diferença Ă© que o pai do Carequinha tinha a barba e o cabelo pretos, mas seus olhos eram iguais â brilhantes e luminosos, tĂŁo estranhos. E ali estava Carequinha, o filho, sem qualquer tipo de brilho.
â Vamos â disse Carequinha â, venha comigo.
Entramos em uma adega, debaixo da casa. Era escura e Ășmida e ficamos parados atĂ© que nossos olhos se acostumassem Ă escuridĂŁo. EntĂŁo pude ver uma porção de barris.
â Esses barris estĂŁo cheios de diferentes qualidades de vinho â disse Carequinha. â Cada barril tem uma torneira. Quer experimentar algum deles?
â NĂŁo.
â Vamos lĂĄ, apenas tome um maldito gole.
â Pra quĂȘ?
â Mas que maldição, vocĂȘ se considera um homem ou nĂŁo?
â Sou durĂŁo â eu disse.
â EntĂŁo experimenta, caralho!
Ali estava o Carequinha querendo me desafiar. Nenhum problema. Fui até um barril e abaixei a cabeça.
â Abra a maldita torneira! Abra essa maldita boca!
â HĂĄ alguma aranha por aqui?
â VĂĄ em frente, desgraçado!
Abri a boca e a torneira. Um lĂquido malcheiroso jorrou para dentro da minha goela. Cuspi tudo.
â NĂŁo seja um veadinho! Engula, caralho!
Abri novamente a torneira e minha boca. O lĂquido malcheiroso entrou e eu o engoli. Fechei a torneira e fiquei ali parado. Pensei que fosse vomitar.
â Agora Ă© a sua vez de beber um pouco â eu disse ao Carequinha.
â Claro â ele disse â, nĂŁo estou me cagando de medo!
Abaixou-se na frente de um barril e deu uma boa golada. Um merdinha daqueles não ia me superar. Fui até outro barril, abri a torneira e dei um gole. Fiquei de pé. Começava a me sentir bem.
â Ei, Carequinha â eu disse â, gostei desse negĂłcio.
â EntĂŁo, caralho, beba um pouco mais.
E foi o que fiz. O gosto estava melhorando. Eu estava melhorando.
â Esse negĂłcio Ă© do seu pai, Carequinha. Eu nĂŁo devia beber tudo.
â Ele nĂŁo se importa. Parou de beber.
Nunca me sentira tão bem. Era melhor do que masturbação.
Fui de barril em barril. Era mågico. Por que ninguém havia me falado a respeito disso? Com a bebida, a vida era maravilhosa, um homem era perfeito, nada mais poderia feri-lo.
Fiquei de pé, ereto, e encarei o Carequinha.
â Onde estĂĄ a sua mĂŁe? Vou foder sua mĂŁe!
â Mato vocĂȘ, seu filho da puta, fique longe da minha mĂŁe!
â VocĂȘ sabe que eu posso lhe dar uma surra, Carequinha?
â Sim.
â Tudo bem, vou deixar sua mĂŁe em paz.
â Vamos embora entĂŁo, Henry.
â Mais um trago...
Fui atĂ© um barril e dei uma longa talagada. Depois subimos a escada da adega. Quando saĂmos, o pai do Carequinha ainda estava sentado na sua cadeira.
â VocĂȘs estavam na adega, nĂŁo?
â Sim â respondeu o Carequinha.
â Começando um pouco cedo, nĂŁo acham?
NĂŁo respondemos. Caminhamos atĂ© a avenida e Carequinha e eu fomos atĂ© uma loja que vendia chicletes. Compramos vĂĄrias caixas e enfiamos todos os chicletes em nossas bocas. Ele estava preocupado que sua mĂŁe descobrisse. Eu nĂŁo me preocupava com nada. Sentamos num banco de parque e mascamos nossos chicletes. Pensei: bem, agora descobri alguma coisa, alguma coisa que irĂĄ me ajudar nos tantos dias que ainda hĂŁo de vir. A grama do parque parecia mais verde, os bancos do parque se tornaram mais bonitos, e as flores se esforçavam nesse sentido. Talvez essa coisa nĂŁo fosse boa para cirurgiĂ”es, mas alguĂ©m que escolhia essa carreira jĂĄ devia ter algo de errado na cabeça desde o princĂpio.
â Misto-quente
John Dillinger E Le Chasseur Maudit
Ă© uma pena, e simplesmente foge ao estilo, mas nĂŁo dou a mĂnima:
as garotas me lembram cabelos no ralo, garotas me lembram intestinos
e bexigas e movimentos excretórios; é uma pena também que
bolas de sorvete, bebĂȘs, vĂĄlvulas de motor, plagiĂłstomos, palmeiras,
passos no hall... tudo me excita com a calma fria
da lĂĄpide do tĂșmulo; em nenhum lugar, talvez, hĂĄ refĂșgio exceto
em ouvir falar que houve outros homens desesperados:
Dillinger, Rimbaud, Villon, Babyface Nelson, SĂȘneca, Van Gogh,
ou mulheres desesperadas: lutadoras de vale-tudo, enfermeiras, garçonetes, putas
poetisas... contudo,
suponho que o retirar dos cubos de gelo Ă© importante
ou um rato farejando uma garrafa de cerveja vazia â
dois vazios profundos se encarando,
ou o mar Ă noite entupido de navios imundos
que penetram a teia relutante de seu cérebro com suas luzes,
com suas luzes salgadas
que te tocam e te abandonam
pelo amor mais sĂłlido de alguma Ăndia;
ou dirigir por grandes distĂąncias sem razĂŁo
dopado através de janelas abertas que
rasgam e desfraldam sua camiseta como um pĂĄssaro temeroso,
e sempre as sinaleiras, sempre o vermelho,
fogo noturno e derrota, derrota...
escorpiÔes, pedaços, fardéis,
ex-empregos, ex-mulheres, ex-rostos, ex-vidas,
Beethoven em sua cova tĂŁo surdo quanto uma beterraba;
carrinhos de mĂŁo vermelhos, sim, talvez,
ou uma carta do Inferno assinada pelo diabo
ou dois bons garotos espancando outro pra valer
em algum estådio barato cheio de ululante fumaça,
mas basicamente, nĂŁo dou a mĂnima, sentado aqui
com uma boca cheia de dentes apodrecidos
sentado aqui lendo Herrick e Spenser e
Marvell e Hopkins e Brönte (Emily, hoje);
e escutando Midday Witch de Dvorak
ou Le Chasseur Maudit,
nĂŁo dou a mĂnima de fato, e Ă© uma pena:
tenho recebido cartas de um jovem poeta
(bem jovem, ao que parece) me dizendo que um dia
certamente serei reconhecido como
um dos maiores poetas do mundo. Poeta!
uma malversação: hoje caminhei pelo sol e pelas ruas
da cidade: vendo nada, aprendendo nada, sendo
nada, e ao voltar ao meu quarto
passei por uma velha senhora que me sorriu um riso tenebroso;
ela jĂĄ estava morta, e em todos os lugares eu me lembrava de fios:
fios de telefone, fios elétricos rostos elétricos
presos como peixinhos dourados em um copo e sorrindo,
e os pĂĄssaros se foram, nenhum dos pĂĄssaros quer fios
ou o sorriso dos fios
e eu fecho minha porta (enfim)
mas através da janela tudo segue igual:
uma buzina soou, alguém riu, um puxão de descarga,
e entĂŁo o mais estranho
pensei em todos os cavalos com seus nĂșmeros
que haviam passado em meio Ă gritaria,
passado como SĂłcrates, como Lorca,
como Chatterton...
prefiro imaginar que nossas mortes nĂŁo terĂŁo muita importĂąncia
exceto por uma questĂŁo de preparativo, um problema,
como jogar o lixo fora,
e embora eu tenha guardado as cartas do jovem poeta,
nĂŁo acredito nelas
mas de vez em quando
como Ă s palmeiras doentes
e ao sol que se pÔe,
eu as vejo.
as garotas me lembram cabelos no ralo, garotas me lembram intestinos
e bexigas e movimentos excretórios; é uma pena também que
bolas de sorvete, bebĂȘs, vĂĄlvulas de motor, plagiĂłstomos, palmeiras,
passos no hall... tudo me excita com a calma fria
da lĂĄpide do tĂșmulo; em nenhum lugar, talvez, hĂĄ refĂșgio exceto
em ouvir falar que houve outros homens desesperados:
Dillinger, Rimbaud, Villon, Babyface Nelson, SĂȘneca, Van Gogh,
ou mulheres desesperadas: lutadoras de vale-tudo, enfermeiras, garçonetes, putas
poetisas... contudo,
suponho que o retirar dos cubos de gelo Ă© importante
ou um rato farejando uma garrafa de cerveja vazia â
dois vazios profundos se encarando,
ou o mar Ă noite entupido de navios imundos
que penetram a teia relutante de seu cérebro com suas luzes,
com suas luzes salgadas
que te tocam e te abandonam
pelo amor mais sĂłlido de alguma Ăndia;
ou dirigir por grandes distĂąncias sem razĂŁo
dopado através de janelas abertas que
rasgam e desfraldam sua camiseta como um pĂĄssaro temeroso,
e sempre as sinaleiras, sempre o vermelho,
fogo noturno e derrota, derrota...
escorpiÔes, pedaços, fardéis,
ex-empregos, ex-mulheres, ex-rostos, ex-vidas,
Beethoven em sua cova tĂŁo surdo quanto uma beterraba;
carrinhos de mĂŁo vermelhos, sim, talvez,
ou uma carta do Inferno assinada pelo diabo
ou dois bons garotos espancando outro pra valer
em algum estådio barato cheio de ululante fumaça,
mas basicamente, nĂŁo dou a mĂnima, sentado aqui
com uma boca cheia de dentes apodrecidos
sentado aqui lendo Herrick e Spenser e
Marvell e Hopkins e Brönte (Emily, hoje);
e escutando Midday Witch de Dvorak
ou Le Chasseur Maudit,
nĂŁo dou a mĂnima de fato, e Ă© uma pena:
tenho recebido cartas de um jovem poeta
(bem jovem, ao que parece) me dizendo que um dia
certamente serei reconhecido como
um dos maiores poetas do mundo. Poeta!
uma malversação: hoje caminhei pelo sol e pelas ruas
da cidade: vendo nada, aprendendo nada, sendo
nada, e ao voltar ao meu quarto
passei por uma velha senhora que me sorriu um riso tenebroso;
ela jĂĄ estava morta, e em todos os lugares eu me lembrava de fios:
fios de telefone, fios elétricos rostos elétricos
presos como peixinhos dourados em um copo e sorrindo,
e os pĂĄssaros se foram, nenhum dos pĂĄssaros quer fios
ou o sorriso dos fios
e eu fecho minha porta (enfim)
mas através da janela tudo segue igual:
uma buzina soou, alguém riu, um puxão de descarga,
e entĂŁo o mais estranho
pensei em todos os cavalos com seus nĂșmeros
que haviam passado em meio Ă gritaria,
passado como SĂłcrates, como Lorca,
como Chatterton...
prefiro imaginar que nossas mortes nĂŁo terĂŁo muita importĂąncia
exceto por uma questĂŁo de preparativo, um problema,
como jogar o lixo fora,
e embora eu tenha guardado as cartas do jovem poeta,
nĂŁo acredito nelas
mas de vez em quando
como Ă s palmeiras doentes
e ao sol que se pÔe,
eu as vejo.
Jovem Em Nova Orleans
morrendo de fome por ali, percorrendo os bares,
e Ă noite caminhando pelas ruas por
horas,
a luz do luar sempre me parecia
falsa, talvez fosse mesmo,
e no Bairro FrancĂȘs eu via
passar os cavalos e as carroças,
todos sentados muito eretos nos carros
abertos, o motorista negro, e na
traseira o homem e a mulher,
frequentemente jovens e sempre brancos.
e eu estava sempre branco.
e muito pouco encantado com o
mundo.
Nova Orleans era um lugar onde se
esconder.
eu podia jogar fora a minha vida,
sem ser molestado.
exceto pelos ratos.
os ratos no meu quarto acanhado e escuro
profundamente ressentidos por terem de dividi-lo
comigo.
eles eram grandes e destemidos
e me encaravam com olhos
que comunicavam
sem pestanejar
uma ideia de morte.
as mulheres estavam fora do meu alcance.
viam em mim algo de
depravado.
havia uma garçonete
um pouco mais velha do que
eu, que esboçava um sorriso,
demorando-se ao me
trazer o
café.
aquilo me bastava,
era o
suficiente.
havia alguma coisa, porém,
naquela cidade:
ela nĂŁo me deixava sentir culpa
por não ter sentimentos em relação à s
coisas que tantos outros
precisavam.
ela me deixava em paz.
sentado em minha cama
as luzes apagadas,
ouvindo os sons que vinham
de fora,
erguendo a minha garrafa
de vinho barato,
deixando o calor
da uva
entrar
em mim
enquanto eu escutava os ratos
movendo-se ao redor do
quarto,
eu os preferia
aos
humanos.
estar perdido
quem sabe louco
nĂŁo era tĂŁo mau
se vocĂȘ pudesse
ficar assim:
quieto no seu canto.
foi algo que Nova Orleans me
deu.
ninguém jamais chamou
meu nome.
nada de telefonemas,
nem carro,
nem emprego,
nada de
nada.
apenas eu e os
ratos
e minha juventude,
naquele tempo,
aquele tempo
eu sabia
mesmo através do
vazio,
era uma
celebração
nĂŁo de algo a ser
feito
mas apenas
conhecido.
e Ă noite caminhando pelas ruas por
horas,
a luz do luar sempre me parecia
falsa, talvez fosse mesmo,
e no Bairro FrancĂȘs eu via
passar os cavalos e as carroças,
todos sentados muito eretos nos carros
abertos, o motorista negro, e na
traseira o homem e a mulher,
frequentemente jovens e sempre brancos.
e eu estava sempre branco.
e muito pouco encantado com o
mundo.
Nova Orleans era um lugar onde se
esconder.
eu podia jogar fora a minha vida,
sem ser molestado.
exceto pelos ratos.
os ratos no meu quarto acanhado e escuro
profundamente ressentidos por terem de dividi-lo
comigo.
eles eram grandes e destemidos
e me encaravam com olhos
que comunicavam
sem pestanejar
uma ideia de morte.
as mulheres estavam fora do meu alcance.
viam em mim algo de
depravado.
havia uma garçonete
um pouco mais velha do que
eu, que esboçava um sorriso,
demorando-se ao me
trazer o
café.
aquilo me bastava,
era o
suficiente.
havia alguma coisa, porém,
naquela cidade:
ela nĂŁo me deixava sentir culpa
por não ter sentimentos em relação à s
coisas que tantos outros
precisavam.
ela me deixava em paz.
sentado em minha cama
as luzes apagadas,
ouvindo os sons que vinham
de fora,
erguendo a minha garrafa
de vinho barato,
deixando o calor
da uva
entrar
em mim
enquanto eu escutava os ratos
movendo-se ao redor do
quarto,
eu os preferia
aos
humanos.
estar perdido
quem sabe louco
nĂŁo era tĂŁo mau
se vocĂȘ pudesse
ficar assim:
quieto no seu canto.
foi algo que Nova Orleans me
deu.
ninguém jamais chamou
meu nome.
nada de telefonemas,
nem carro,
nem emprego,
nada de
nada.
apenas eu e os
ratos
e minha juventude,
naquele tempo,
aquele tempo
eu sabia
mesmo através do
vazio,
era uma
celebração
nĂŁo de algo a ser
feito
mas apenas
conhecido.
Junk
sentado num quarto escuro com 3 junkies,
mulheres.
sacos de papel cheios de lixo estĂŁo por toda
parte.
Ă© uma e meia da tarde.
elas falam de manicĂŽmios,
hospitais.
esperam por uma dose.
nenhuma delas trabalha.
Ă© a assistĂȘncia e os vale-refeiçÔes e
plano de saĂșde.
os homens se tornam objetos
Ă espera de uma dose.
Ă© uma e meia da tarde
e do lado de fora crescem pequenas plantas.
os filhos delas ainda estĂŁo na escola.
as mulheres fumam cigarros
e tragam indiferentes suas cervejas e
tequilas
pagas por mim.
me sento com elas.
espero pela minha dose:
sou uma poesia junkie.
eles empurraram Ezra pelas ruas
numa gaiola de madeira.
Blake estava certo da existĂȘncia de Deus.
Villon era um embusteiro.
Lorca chupava paus.
T.S. Eliot estava preso a um caixa de banco.
grande parte dos poetas sĂŁo cisnes,
garças-reais.
eu me sento com 3 junkies
Ă uma e meia da tarde.
a fumaça mija para cima.
eu espero.
a morte nĂŁo Ă© nada descomunal.
uma das mulheres diz que curte
minha camisa amarela.
acredito numa violĂȘncia simples.
isto Ă©
uma parte dela.
mulheres.
sacos de papel cheios de lixo estĂŁo por toda
parte.
Ă© uma e meia da tarde.
elas falam de manicĂŽmios,
hospitais.
esperam por uma dose.
nenhuma delas trabalha.
Ă© a assistĂȘncia e os vale-refeiçÔes e
plano de saĂșde.
os homens se tornam objetos
Ă espera de uma dose.
Ă© uma e meia da tarde
e do lado de fora crescem pequenas plantas.
os filhos delas ainda estĂŁo na escola.
as mulheres fumam cigarros
e tragam indiferentes suas cervejas e
tequilas
pagas por mim.
me sento com elas.
espero pela minha dose:
sou uma poesia junkie.
eles empurraram Ezra pelas ruas
numa gaiola de madeira.
Blake estava certo da existĂȘncia de Deus.
Villon era um embusteiro.
Lorca chupava paus.
T.S. Eliot estava preso a um caixa de banco.
grande parte dos poetas sĂŁo cisnes,
garças-reais.
eu me sento com 3 junkies
Ă uma e meia da tarde.
a fumaça mija para cima.
eu espero.
a morte nĂŁo Ă© nada descomunal.
uma das mulheres diz que curte
minha camisa amarela.
acredito numa violĂȘncia simples.
isto Ă©
uma parte dela.
Lava-Rápido
saĂ, o camarada disse, âei!â, caminhando na minha
direção, apertamos as mãos, ele me passou 2 cupons
vermelhos para lavar o carro de graça, ânos encontramos depoisâ,
eu lhe disse, segui em frente até årea de
espera com a esposa, sentamos num banco do lado de fora.
um negro manco de uma perna apareceu, disse,
âei, cara, como vai a parada?â
respondi, âbeleza, mermĂŁo, e com tu?â
âna pazâ, ele disse, entĂŁo se afastou para
secar uma van.
âessas pessoas o conhecem?â, perguntou minha esposa.
ânĂŁoâ.
âentĂŁo por que elas vĂȘm falar com vocĂȘ?â
âgostam de mim, as pessoas sempre gostaram de mim,
Ă© minha sina.â
entĂŁo nosso carro ficou pronto, o camarada acenou com
a flanela pra mim, levantamos, fomos até o
carro, dei-lhe um dĂłlar, entramos,
dei a partida, o gerente se
aproximou, um cara grande de Ăłculos escuros, um cara enorme,
abriu um sorriso largo, âbom ver vocĂȘ,
cara!â
sorri de volta, âobrigado, gentileza sua,
cara!â
misturei-me ao trĂĄfego, âeles te conhecemâ,
disse minha esposa.
âclaroâ, eu disse, âjĂĄ estive ali.â
direção, apertamos as mãos, ele me passou 2 cupons
vermelhos para lavar o carro de graça, ânos encontramos depoisâ,
eu lhe disse, segui em frente até årea de
espera com a esposa, sentamos num banco do lado de fora.
um negro manco de uma perna apareceu, disse,
âei, cara, como vai a parada?â
respondi, âbeleza, mermĂŁo, e com tu?â
âna pazâ, ele disse, entĂŁo se afastou para
secar uma van.
âessas pessoas o conhecem?â, perguntou minha esposa.
ânĂŁoâ.
âentĂŁo por que elas vĂȘm falar com vocĂȘ?â
âgostam de mim, as pessoas sempre gostaram de mim,
Ă© minha sina.â
entĂŁo nosso carro ficou pronto, o camarada acenou com
a flanela pra mim, levantamos, fomos até o
carro, dei-lhe um dĂłlar, entramos,
dei a partida, o gerente se
aproximou, um cara grande de Ăłculos escuros, um cara enorme,
abriu um sorriso largo, âbom ver vocĂȘ,
cara!â
sorri de volta, âobrigado, gentileza sua,
cara!â
misturei-me ao trĂĄfego, âeles te conhecemâ,
disse minha esposa.
âclaroâ, eu disse, âjĂĄ estive ali.â
Liberdade
ela estava sentada na janela
do quarto 1010 no Chelsea
em Nova York,
o antigo quarto de Janis Joplin.
fazia 40 graus
e ela estava alterada
e tinha uma perna para fora
do peitoril,
e se inclinava para fora e dizia,
âDeus isso Ă© Ăłtimo!â
e entĂŁo ela escorregou
e quase caiu lĂĄ embaixo,
agarrando-se no momento final.
foi por pouco.
voltou para dentro e se esticou
na cama.
jĂĄ perdi um bocado de mulheres
de um bocado de modos diferentes
mas teria sido
a primeira vez
desse modo.
entĂŁo ela rolou da cama
caindo de costas
e quando me aproximei
ela estava dormindo.
ela passara o dia todo querendo
ver a EstĂĄtua da Liberdade.
agora por um tempo ela nĂŁo me incomodaria
com isso.
do quarto 1010 no Chelsea
em Nova York,
o antigo quarto de Janis Joplin.
fazia 40 graus
e ela estava alterada
e tinha uma perna para fora
do peitoril,
e se inclinava para fora e dizia,
âDeus isso Ă© Ăłtimo!â
e entĂŁo ela escorregou
e quase caiu lĂĄ embaixo,
agarrando-se no momento final.
foi por pouco.
voltou para dentro e se esticou
na cama.
jĂĄ perdi um bocado de mulheres
de um bocado de modos diferentes
mas teria sido
a primeira vez
desse modo.
entĂŁo ela rolou da cama
caindo de costas
e quando me aproximei
ela estava dormindo.
ela passara o dia todo querendo
ver a EstĂĄtua da Liberdade.
agora por um tempo ela nĂŁo me incomodaria
com isso.
Maja Thurup
Houve ampla cobertura da imprensa e da televisĂŁo, e a senhora estava para escrever um livro sobre tudo isso. O nome da senhora era Hester Adams, duas vezes divorciada, dois filhos. Tinha 35 anos, e alguĂ©m poderia imaginar que essa seria sua Ășltima jogada. As rugas estavam aparecendo, os peitos estavam caindo jĂĄ hĂĄ algum tempo, os tornozelos e as panturrilhas estavam engrossando, jĂĄ havia sinais de uma barriga. A AmĂ©rica aprendeu que a beleza reside apenas na juventude, especialmente para a mulher. Mas Hester Adams tinha a sombria beleza da frustração e da perda vindoura; era algo que rastejava por cima dela, a perda vindoura, e dava-lhe alguma coisa sexualmente atrativa, como uma mulher desesperada para quem o tempo estĂĄ passando enquanto ela continua sentada em um bar cheio de homens. Hester tinha olhado ao redor, visto poucos sinais de ajuda vindos dos homens americanos e entrou em um aviĂŁo para a AmĂ©rica do Sul. Entrou na selva com sua cĂąmera, sua mĂĄquina de escrever portĂĄtil, seus tornozelos que estĂŁo engrossando, sua pele branca e arranjou para si um canibal, um canibal negro: Maja Thurup. Maja Thurup tinha uma cara com um bom aspecto. Seu rosto parecia estar marcado por mil ressacas e mil tragĂ©dias. E era verdade: passara por mil ressacas, mas todas as tragĂ©dias tinham a mesma origem: Maja Thurup tinha o pau maior do que a mĂ©dia, muito maior do que a mĂ©dia. Nenhuma garota na aldeia o aceitava. Tinha provocado a morte de duas garotas com seu instrumento. Uma tinha sido penetrada pela frente e a outra por trĂĄs. NĂŁo fazia diferença.
Maja era um homem solitĂĄrio que bebia e pensava em sua solidĂŁo atĂ© que Hester Adams chegou com um guia e sua pele branca e uma cĂąmera. Depois das apresentaçÔes formais e algumas bebidas perto do fogo, Hester tinha entrado na cabana de Maja e aguentado tudo o que Maja Thurup podia meter e ainda pediu por mais. Era um milagre para ambos, e os dois se casaram em uma cerimĂŽnia tribal de trĂȘs dias, durante a qual homens capturados de tribos inimigas eram assados e comidos em meio a danças, encantamentos e embriaguez. Foi depois da cerimĂŽnia, depois que as ressacas passaram que os problemas começaram. O pajĂ©, notando que Hester nĂŁo partilhara da carne assada do homem da tribo inimiga (decorada com abacaxi, azeitona e nozes), anunciou para todos que nĂŁo se tratava de uma deusa branca, mas uma das filhas de um deus mau chamado Ritikan. (SĂ©culos atrĂĄs, Ritikan tinha sido expulso do cĂ©u tribal por se recusar a comer qualquer coisa alĂ©m de vegetais, frutas e nozes.) O anĂșncio causou dissensĂŁo na tribo, e dois amigos de Maja Thurup foram imediatamente assassinados por terem sugerido que a habilidade de Hester de lidar com todo o tamanho do pau de Maja era em si um milagre e o fato de que ela nĂŁo ingeria outras formas de carne humana poderia ser perdoado, pelo menos temporariamente. Hester e Maja fugiram para a AmĂ©rica, para North Hollywood para ser mais preciso, onde Hester deu inĂcio aos procedimentos para tornar Maja Thurup um cidadĂŁo americano. Sendo uma antiga professora de colĂ©gio, Hester começou a instruir Maja no uso de roupas e da lĂngua inglesa, a beber cervejas e vinhos da CalifĂłrnia, a assistir a televisĂŁo e a se alimentar de comidas compradas no Safety Market mais prĂłximo. Maja nĂŁo apenas via televisĂŁo, mas tambĂ©m aparecia nela com Hester, e eles declararam seu amor publicamente. EntĂŁo voltaram para seu apartamento em North Hollywood e fizeram amor. Depois Maja sentou no meio do tapete com seus livros de gramĂĄtica inglesa, bebendo cerveja e vinho e cantando cantos nativos e tocando bongĂŽ. Hester trabalhava em seu livro sobre Maja e Hester. Uma grande editora estava esperando. Tudo que Hester precisava fazer era escrever.
Certa manhĂŁ, eu estava na cama lĂĄ pelas oito horas. No dia anterior eu perdera quarenta dĂłlares em Santa Anita, minhas economias na conta do California Federal estavam se tornando perigosamente baixas e eu nĂŁo tinha escrito uma histĂłria decente em um mĂȘs. O telefone tocou. Levantei, pigarreei, tossi e atendi ao telefone.
â Chinaski?
â Sim?
â Aqui Ă© Dan Hudson.
Dan dirigia a revista Flare de Chicago. Ele pagava bem. Era o editor e o diretor.
â OlĂĄ, Dan, nossa.
â Olha, tenho algo para vocĂȘ.
â Claro, Dan. O que Ă©?
â Quero que vocĂȘ entreviste uma puta que casou com um canibal. Torne o sexo GRANDE. Misture amor com horror, sabe?
â Sei. Tenho feito isso minha vida toda.
â Pago quinhentos dĂłlares se conseguir entregar antes do prazo final, que Ă© 27 de março.
â Dan, por quinhentos dĂłlares consigo fazer do Burt Reynolds uma lĂ©sbica.
Dan me passou o endereço e um nĂșmero de telefone. Levantei, joguei ĂĄgua na cara, tomei dois Alka-Seltezers, abri uma garrafa de cerveja e telefonei para Hester Adams. Contei-lhe que queria dar publicidade a sua relação com Maja Thurup como uma das maiores histĂłrias de amor do sĂ©culo XX. Para os leitores da revista Flare. Afirmei-lhe que isso ajudaria Maja a obter sua cidadania americana. Ela concordou com a entrevista, e marcamos para a primeira hora da tarde.
Era um apartamento no terceiro andar de um prĂ©dio sem elevador. Ela abriu a porta. Maja estava sentado no chĂŁo, com seu bongĂŽ, bebendo uma garrafa de um vinho do Porto direto do gargalo. Estava descalço, vestia calças jeans apertadas e uma camiseta branca com listras pretas, zebrada. Hester estava vestindo uma roupa idĂȘntica. Trouxe-me uma garrafa de cerveja, peguei um cigarro do maço na mesa de cafĂ© e comecei a entrevista.
â Quando vocĂȘ viu Maja pela primeira vez?
Hester me deu uma data. Também disse a hora com exatidão e o lugar.
â Quando vocĂȘ começou a perceber os primeiros sentimentos de amor por Maja? Quais foram exatamente as circunstĂąncias que desencadearam a relação?
â Bem â disse Hester â, foi quando...
â Ela me ama quando eu meto o troço nela â disse Maja do tapete.
â Ele aprendeu inglĂȘs muito rapidamente, nĂŁo Ă© mesmo?
â Sim, ele Ă© brilhante.
Maja pegou a garrafa e tomou um bom gole.
â Meto o troço nela, ela dizer âOh meu deus oh meu deus oh meu deus!â RĂĄ, rĂĄ, rĂĄ, rĂĄ!
â Maja tem um corpo fantĂĄstico â ela disse.
â Ela engole tambĂ©m â disse Maja â, ela engole bem. Garganta profunda, rĂĄ, rĂĄ, rĂĄ!
â Amei Maja desde o começo â disse Hester. â Foram seus olhos, seu rosto... tĂŁo trĂĄgico. E o jeito que ele caminhava. Ele caminha, bem, ele caminha meio que como um tigre.
â Porra â disse Maja â, trepamos e esporreamos, porra, foda, porra. Estou ficando cansado.
Maja bebeu mais um pouco. Ele me olhou.
â VocĂȘ fode ela. Eu cansei. Ela grande tĂșnel faminto.
â Maja tem um senso de humor muito peculiar â disse Hester. â Isso foi outra coisa que me fez amĂĄ-lo ainda mais.
â A Ășnica coisa que vocĂȘ gosta em mim â disse Maja â Ă© o meu caralho poste telefĂŽnico.
â Maja estĂĄ bebendo desde a manhĂŁ â disse Hester â, vocĂȘ terĂĄ de perdoĂĄ-lo.
â Talvez seja mais adequado que eu volte quando ele estiver melhor.
â Acho que sim.
Hester marcou um novo horĂĄrio comigo, duas da tarde do dia seguinte.
Tudo corria bem. Eu precisava de fotografias. Conhecia um fotógrafo totalmente arruinado, um tal de Sam Jacoby que era bom e cobraria barato. Levei-o até lå comigo. Era uma tarde ensolarada com apenas uma fina camada de poluição no ar. Subimos e toquei a campainha. Não houve resposta. Toquei a campainha mais uma vez. Maja abriu a porta.
â Hester nĂŁo estĂĄ â ele disse. â Foi Ă loja de conveniĂȘncias.
â TĂnhamos hora marcada para as duas da tarde em ponto. Gostaria de entrar e esperar.
Entramos e sentamos.
â Mim tocar tambor para vocĂȘ â disse Maja.
Ele tocou o tambor e cantou alguns cantos da floresta. Ele era muito bom. Estava bebendo outra garrafa de vinho do Porto. Ainda estava vestindo sua camiseta listrada ao estilo zebra e seus jeans.
â Foder, foder, foder â ele disse. â Ă sĂł o que ela quer. Ela me deixa louco.
â Sente falta da floresta, Maja?
â VocĂȘ nĂŁo caga contra a corrente, paizinho.
â Mas ela ama vocĂȘ, Maja.
â RĂĄ, rĂĄ, rĂĄ!
Maja fez outro solo no tambor. Mesmo bĂȘbado ele era bom.
Quando Maja acabou, Sam me perguntou:
â VocĂȘ acha que ela pode ter uma cerveja na geladeira?
â Pode ser.
â Minha cabeça nĂŁo estĂĄ boa. Preciso de uma cerveja.
â Vai lĂĄ. Traga duas. Depois compro mais para ela. Eu devia ter trazido algumas.
Sam levantou-se e foi até a cozinha. Ouvi a porta da geladeira se abrindo.
â Estou escrevendo um artigo sobre vocĂȘ e Hester â disse para Maja.
â Mulher buracĂŁo. Nunca enche. Como um vulcĂŁo.
Ouvi Sam vomitando na cozinha. Ele bebia muito. Sabia que estava de ressaca. Mas ainda assim era um dos melhores fotĂłgrafos em atividade. EntĂŁo tudo ficou quieto. Sam voltou caminhando. Sentou-se. NĂŁo trouxe a cerveja.
â Eu tocar tambor mais uma vez â disse Maja.
Ele tocou novamente. Ainda estava tocando bem. Embora nĂŁo tĂŁo bem como da outra vez. O vinho estava pegando.
â Vamos sair daqui â Sam me disse.
â Tenho que esperar por Hester â respondi.
â Cara, vamos embora â disse Sam.
â VocĂȘs querem um pouco de vinho? â Maja ofereceu.
Levantei e fui até a cozinha buscar uma cerveja. Sam me seguiu. Fui em direção à geladeira.
â Por favor, nĂŁo abra essa porta! â ele disse.
Sam caminhou até a pia e vomitou mais uma vez. Olhei para a porta da geladeira. Não a abri. Quando Sam acabou, eu disse:
â Tudo bem. Vamos embora.
Caminhamos até a sala da frente, onde Maja ainda estava sentado tocando seu bongÎ.
â Eu tocar tambor mais uma vez â ele disse.
â NĂŁo, obrigado, Maja.
SaĂmos e descemos a escada e ganhamos a rua. Entramos no meu carro. Dei a partida e arranquei. NĂŁo sabia o que dizer. Sam nĂŁo disse nada. EstĂĄvamos no bairro comercial. Dirigi atĂ© um posto de gasolina e disse ao frentista para encher o tanque com gasolina comum. Sam saiu do carro e foi atĂ© um telefone pĂșblico para ligar para a polĂcia. Vi Sam sair da cabine telefĂŽnica. Paguei pela gasolina. NĂŁo consegui minha entrevista. Fiquei sem os meus quinhentos dĂłlares. Esperei enquanto Sam voltava para o carro.
â Ao sul de lugar nenhum
Maja era um homem solitĂĄrio que bebia e pensava em sua solidĂŁo atĂ© que Hester Adams chegou com um guia e sua pele branca e uma cĂąmera. Depois das apresentaçÔes formais e algumas bebidas perto do fogo, Hester tinha entrado na cabana de Maja e aguentado tudo o que Maja Thurup podia meter e ainda pediu por mais. Era um milagre para ambos, e os dois se casaram em uma cerimĂŽnia tribal de trĂȘs dias, durante a qual homens capturados de tribos inimigas eram assados e comidos em meio a danças, encantamentos e embriaguez. Foi depois da cerimĂŽnia, depois que as ressacas passaram que os problemas começaram. O pajĂ©, notando que Hester nĂŁo partilhara da carne assada do homem da tribo inimiga (decorada com abacaxi, azeitona e nozes), anunciou para todos que nĂŁo se tratava de uma deusa branca, mas uma das filhas de um deus mau chamado Ritikan. (SĂ©culos atrĂĄs, Ritikan tinha sido expulso do cĂ©u tribal por se recusar a comer qualquer coisa alĂ©m de vegetais, frutas e nozes.) O anĂșncio causou dissensĂŁo na tribo, e dois amigos de Maja Thurup foram imediatamente assassinados por terem sugerido que a habilidade de Hester de lidar com todo o tamanho do pau de Maja era em si um milagre e o fato de que ela nĂŁo ingeria outras formas de carne humana poderia ser perdoado, pelo menos temporariamente. Hester e Maja fugiram para a AmĂ©rica, para North Hollywood para ser mais preciso, onde Hester deu inĂcio aos procedimentos para tornar Maja Thurup um cidadĂŁo americano. Sendo uma antiga professora de colĂ©gio, Hester começou a instruir Maja no uso de roupas e da lĂngua inglesa, a beber cervejas e vinhos da CalifĂłrnia, a assistir a televisĂŁo e a se alimentar de comidas compradas no Safety Market mais prĂłximo. Maja nĂŁo apenas via televisĂŁo, mas tambĂ©m aparecia nela com Hester, e eles declararam seu amor publicamente. EntĂŁo voltaram para seu apartamento em North Hollywood e fizeram amor. Depois Maja sentou no meio do tapete com seus livros de gramĂĄtica inglesa, bebendo cerveja e vinho e cantando cantos nativos e tocando bongĂŽ. Hester trabalhava em seu livro sobre Maja e Hester. Uma grande editora estava esperando. Tudo que Hester precisava fazer era escrever.
Certa manhĂŁ, eu estava na cama lĂĄ pelas oito horas. No dia anterior eu perdera quarenta dĂłlares em Santa Anita, minhas economias na conta do California Federal estavam se tornando perigosamente baixas e eu nĂŁo tinha escrito uma histĂłria decente em um mĂȘs. O telefone tocou. Levantei, pigarreei, tossi e atendi ao telefone.
â Chinaski?
â Sim?
â Aqui Ă© Dan Hudson.
Dan dirigia a revista Flare de Chicago. Ele pagava bem. Era o editor e o diretor.
â OlĂĄ, Dan, nossa.
â Olha, tenho algo para vocĂȘ.
â Claro, Dan. O que Ă©?
â Quero que vocĂȘ entreviste uma puta que casou com um canibal. Torne o sexo GRANDE. Misture amor com horror, sabe?
â Sei. Tenho feito isso minha vida toda.
â Pago quinhentos dĂłlares se conseguir entregar antes do prazo final, que Ă© 27 de março.
â Dan, por quinhentos dĂłlares consigo fazer do Burt Reynolds uma lĂ©sbica.
Dan me passou o endereço e um nĂșmero de telefone. Levantei, joguei ĂĄgua na cara, tomei dois Alka-Seltezers, abri uma garrafa de cerveja e telefonei para Hester Adams. Contei-lhe que queria dar publicidade a sua relação com Maja Thurup como uma das maiores histĂłrias de amor do sĂ©culo XX. Para os leitores da revista Flare. Afirmei-lhe que isso ajudaria Maja a obter sua cidadania americana. Ela concordou com a entrevista, e marcamos para a primeira hora da tarde.
Era um apartamento no terceiro andar de um prĂ©dio sem elevador. Ela abriu a porta. Maja estava sentado no chĂŁo, com seu bongĂŽ, bebendo uma garrafa de um vinho do Porto direto do gargalo. Estava descalço, vestia calças jeans apertadas e uma camiseta branca com listras pretas, zebrada. Hester estava vestindo uma roupa idĂȘntica. Trouxe-me uma garrafa de cerveja, peguei um cigarro do maço na mesa de cafĂ© e comecei a entrevista.
â Quando vocĂȘ viu Maja pela primeira vez?
Hester me deu uma data. Também disse a hora com exatidão e o lugar.
â Quando vocĂȘ começou a perceber os primeiros sentimentos de amor por Maja? Quais foram exatamente as circunstĂąncias que desencadearam a relação?
â Bem â disse Hester â, foi quando...
â Ela me ama quando eu meto o troço nela â disse Maja do tapete.
â Ele aprendeu inglĂȘs muito rapidamente, nĂŁo Ă© mesmo?
â Sim, ele Ă© brilhante.
Maja pegou a garrafa e tomou um bom gole.
â Meto o troço nela, ela dizer âOh meu deus oh meu deus oh meu deus!â RĂĄ, rĂĄ, rĂĄ, rĂĄ!
â Maja tem um corpo fantĂĄstico â ela disse.
â Ela engole tambĂ©m â disse Maja â, ela engole bem. Garganta profunda, rĂĄ, rĂĄ, rĂĄ!
â Amei Maja desde o começo â disse Hester. â Foram seus olhos, seu rosto... tĂŁo trĂĄgico. E o jeito que ele caminhava. Ele caminha, bem, ele caminha meio que como um tigre.
â Porra â disse Maja â, trepamos e esporreamos, porra, foda, porra. Estou ficando cansado.
Maja bebeu mais um pouco. Ele me olhou.
â VocĂȘ fode ela. Eu cansei. Ela grande tĂșnel faminto.
â Maja tem um senso de humor muito peculiar â disse Hester. â Isso foi outra coisa que me fez amĂĄ-lo ainda mais.
â A Ășnica coisa que vocĂȘ gosta em mim â disse Maja â Ă© o meu caralho poste telefĂŽnico.
â Maja estĂĄ bebendo desde a manhĂŁ â disse Hester â, vocĂȘ terĂĄ de perdoĂĄ-lo.
â Talvez seja mais adequado que eu volte quando ele estiver melhor.
â Acho que sim.
Hester marcou um novo horĂĄrio comigo, duas da tarde do dia seguinte.
Tudo corria bem. Eu precisava de fotografias. Conhecia um fotógrafo totalmente arruinado, um tal de Sam Jacoby que era bom e cobraria barato. Levei-o até lå comigo. Era uma tarde ensolarada com apenas uma fina camada de poluição no ar. Subimos e toquei a campainha. Não houve resposta. Toquei a campainha mais uma vez. Maja abriu a porta.
â Hester nĂŁo estĂĄ â ele disse. â Foi Ă loja de conveniĂȘncias.
â TĂnhamos hora marcada para as duas da tarde em ponto. Gostaria de entrar e esperar.
Entramos e sentamos.
â Mim tocar tambor para vocĂȘ â disse Maja.
Ele tocou o tambor e cantou alguns cantos da floresta. Ele era muito bom. Estava bebendo outra garrafa de vinho do Porto. Ainda estava vestindo sua camiseta listrada ao estilo zebra e seus jeans.
â Foder, foder, foder â ele disse. â Ă sĂł o que ela quer. Ela me deixa louco.
â Sente falta da floresta, Maja?
â VocĂȘ nĂŁo caga contra a corrente, paizinho.
â Mas ela ama vocĂȘ, Maja.
â RĂĄ, rĂĄ, rĂĄ!
Maja fez outro solo no tambor. Mesmo bĂȘbado ele era bom.
Quando Maja acabou, Sam me perguntou:
â VocĂȘ acha que ela pode ter uma cerveja na geladeira?
â Pode ser.
â Minha cabeça nĂŁo estĂĄ boa. Preciso de uma cerveja.
â Vai lĂĄ. Traga duas. Depois compro mais para ela. Eu devia ter trazido algumas.
Sam levantou-se e foi até a cozinha. Ouvi a porta da geladeira se abrindo.
â Estou escrevendo um artigo sobre vocĂȘ e Hester â disse para Maja.
â Mulher buracĂŁo. Nunca enche. Como um vulcĂŁo.
Ouvi Sam vomitando na cozinha. Ele bebia muito. Sabia que estava de ressaca. Mas ainda assim era um dos melhores fotĂłgrafos em atividade. EntĂŁo tudo ficou quieto. Sam voltou caminhando. Sentou-se. NĂŁo trouxe a cerveja.
â Eu tocar tambor mais uma vez â disse Maja.
Ele tocou novamente. Ainda estava tocando bem. Embora nĂŁo tĂŁo bem como da outra vez. O vinho estava pegando.
â Vamos sair daqui â Sam me disse.
â Tenho que esperar por Hester â respondi.
â Cara, vamos embora â disse Sam.
â VocĂȘs querem um pouco de vinho? â Maja ofereceu.
Levantei e fui até a cozinha buscar uma cerveja. Sam me seguiu. Fui em direção à geladeira.
â Por favor, nĂŁo abra essa porta! â ele disse.
Sam caminhou até a pia e vomitou mais uma vez. Olhei para a porta da geladeira. Não a abri. Quando Sam acabou, eu disse:
â Tudo bem. Vamos embora.
Caminhamos até a sala da frente, onde Maja ainda estava sentado tocando seu bongÎ.
â Eu tocar tambor mais uma vez â ele disse.
â NĂŁo, obrigado, Maja.
SaĂmos e descemos a escada e ganhamos a rua. Entramos no meu carro. Dei a partida e arranquei. NĂŁo sabia o que dizer. Sam nĂŁo disse nada. EstĂĄvamos no bairro comercial. Dirigi atĂ© um posto de gasolina e disse ao frentista para encher o tanque com gasolina comum. Sam saiu do carro e foi atĂ© um telefone pĂșblico para ligar para a polĂcia. Vi Sam sair da cabine telefĂŽnica. Paguei pela gasolina. NĂŁo consegui minha entrevista. Fiquei sem os meus quinhentos dĂłlares. Esperei enquanto Sam voltava para o carro.
â Ao sul de lugar nenhum
Marina:
majestosa, mĂĄgica
infinita
minha garotinha Ă© o
sol
sobre o tapete â
porta afora
apanhando uma
flor, rĂĄ!,
um velho,
cansado de guerra
emerge de sua
cadeira
e ela me olha
mas vĂȘ apenas
amor,
rĂĄ!, e eu me torno
rĂĄpido com o mundo
e amo de imediato
assim como eu havia sido criado
para fazer.
O bebĂȘ engatinhava, descobrindo o mundo. Marina dormia na cama com a gente Ă noite. LĂĄ estava Marina, Fay, o gato e eu. O gato tambĂ©m dormia na cama. Veja sĂł, pensei, tenho trĂȘs bocas dependendo de mim. Que estranho. Eu ficava ali sentado, vendo os trĂȘs dormirem.
EntĂŁo, por duas noites seguidas, ao chegar em casa ao amanhecer, ainda madrugada, Fay estava por ali, sentada, lendo os classificados.
â Todos esses quartos sĂŁo o olho da cara â ela disse.
â Claro â eu disse.
Na noite seguinte, enquanto ela lia o jornal, eu lhe perguntei:
â VocĂȘ estĂĄ se mudando?
â Sim.
â Tudo bem. Eu ajudo vocĂȘ a encontrar um lugar amanhĂŁ. Damos uma volta por aĂ.
Concordei em lhe pagar uma soma cada mĂȘs. Ela disse:
â Tudo bem.
Fay ficou com a garota. Eu com o gato.
Encontramos um lugar que ficava a oito ou dez quadras. Ajudei-a na mudança, disse adeus à menina e dirigi de volta pra casa.
Eu aparecia para ver Marina duas ou trĂȘs ou quatro vezes por semana. Sabia que enquanto pudesse ver a garota eu estaria bem.
Fay continuava se vestindo de preto em protesto contra a guerra. Participava de manifestaçÔes locais pela paz, encontros de amor livre, ia a leituras de poesia, oficinas, reuniĂ”es do partido comunista, e ficava sentada num cafĂ© hippie. Levava a menina consigo. Se ela nĂŁo saĂa, ficava em casa, sentada numa cadeira, fumando cigarro atrĂĄs de cigarro e lendo. Usava buttons de protesto em sua blusa preta. Mas normalmente ela estava na rua com a menina quando eu ia lĂĄ visitĂĄ-la.
Um dia, afinal, consegui pegĂĄ-las em casa. Fay comia sementes de girassol com iogurte. Ela assava o prĂłprio pĂŁo, mas nĂŁo era lĂĄ muito comestĂvel.
â Conheci Andy, um cara que Ă© motorista de caminhĂŁo â ela me disse. â Ele pinta nas horas vagas. AĂ estĂĄ um dos quadros. â Fay apontou para a parede.
Eu brincava com a garota. Olhei para a pintura. NĂŁo disse nada.
â Ele tem um pau enorme â disse Fay. â Ele esteve aqui noite dessas e me perguntou, âComo vocĂȘ quer que eu coma vocĂȘ com o meu pauzĂŁo?â e eu lhe disse que âpreferia ser comida com amor!â.
â Ele fala como um desses caras que conhecem a vida â eu disse a ela.
Brinquei com a menina por mais um tempo, então parti. Eu tinha uma prova de método se aproximando.
Logo depois disso, recebi uma carta de Fay. Ela e a criança estavam vivendo numa comunidade hippie no Novo México. Era um lugar legal, ela disse. Marina poderia respirar ar puro por lå. Mandou junto um pequeno desenho que a menina havia feito para mim.
â Cartas na rua
infinita
minha garotinha Ă© o
sol
sobre o tapete â
porta afora
apanhando uma
flor, rĂĄ!,
um velho,
cansado de guerra
emerge de sua
cadeira
e ela me olha
mas vĂȘ apenas
amor,
rĂĄ!, e eu me torno
rĂĄpido com o mundo
e amo de imediato
assim como eu havia sido criado
para fazer.
O bebĂȘ engatinhava, descobrindo o mundo. Marina dormia na cama com a gente Ă noite. LĂĄ estava Marina, Fay, o gato e eu. O gato tambĂ©m dormia na cama. Veja sĂł, pensei, tenho trĂȘs bocas dependendo de mim. Que estranho. Eu ficava ali sentado, vendo os trĂȘs dormirem.
EntĂŁo, por duas noites seguidas, ao chegar em casa ao amanhecer, ainda madrugada, Fay estava por ali, sentada, lendo os classificados.
â Todos esses quartos sĂŁo o olho da cara â ela disse.
â Claro â eu disse.
Na noite seguinte, enquanto ela lia o jornal, eu lhe perguntei:
â VocĂȘ estĂĄ se mudando?
â Sim.
â Tudo bem. Eu ajudo vocĂȘ a encontrar um lugar amanhĂŁ. Damos uma volta por aĂ.
Concordei em lhe pagar uma soma cada mĂȘs. Ela disse:
â Tudo bem.
Fay ficou com a garota. Eu com o gato.
Encontramos um lugar que ficava a oito ou dez quadras. Ajudei-a na mudança, disse adeus à menina e dirigi de volta pra casa.
Eu aparecia para ver Marina duas ou trĂȘs ou quatro vezes por semana. Sabia que enquanto pudesse ver a garota eu estaria bem.
Fay continuava se vestindo de preto em protesto contra a guerra. Participava de manifestaçÔes locais pela paz, encontros de amor livre, ia a leituras de poesia, oficinas, reuniĂ”es do partido comunista, e ficava sentada num cafĂ© hippie. Levava a menina consigo. Se ela nĂŁo saĂa, ficava em casa, sentada numa cadeira, fumando cigarro atrĂĄs de cigarro e lendo. Usava buttons de protesto em sua blusa preta. Mas normalmente ela estava na rua com a menina quando eu ia lĂĄ visitĂĄ-la.
Um dia, afinal, consegui pegĂĄ-las em casa. Fay comia sementes de girassol com iogurte. Ela assava o prĂłprio pĂŁo, mas nĂŁo era lĂĄ muito comestĂvel.
â Conheci Andy, um cara que Ă© motorista de caminhĂŁo â ela me disse. â Ele pinta nas horas vagas. AĂ estĂĄ um dos quadros. â Fay apontou para a parede.
Eu brincava com a garota. Olhei para a pintura. NĂŁo disse nada.
â Ele tem um pau enorme â disse Fay. â Ele esteve aqui noite dessas e me perguntou, âComo vocĂȘ quer que eu coma vocĂȘ com o meu pauzĂŁo?â e eu lhe disse que âpreferia ser comida com amor!â.
â Ele fala como um desses caras que conhecem a vida â eu disse a ela.
Brinquei com a menina por mais um tempo, então parti. Eu tinha uma prova de método se aproximando.
Logo depois disso, recebi uma carta de Fay. Ela e a criança estavam vivendo numa comunidade hippie no Novo México. Era um lugar legal, ela disse. Marina poderia respirar ar puro por lå. Mandou junto um pequeno desenho que a menina havia feito para mim.
â Cartas na rua
Menos Delicado Que Os Gafanhotos
â Bolas â ele disse. â Estou cansado de pintar. Vamos sair. Estou cheio desse fedor de tinta, estou cansado de ser grande. Estou cansado de esperar pela morte. Vamos sair.
â Sair pra onde? â ela perguntou.
â Pra qualquer lugar. Comer, beber, ver.
â Jorg â ela disse â, que Ă© que eu vou fazer quando vocĂȘ morrer?
â Vai comer, dormir, foder, mijar, se vestir, andar por aĂ e encher o saco dos outros.
â Eu preciso de segurança.
â Todos nĂłs.
â Quer dizer, nĂŁo somos casados. Eu nĂŁo vou poder nem receber o seu seguro.
â TĂĄ tudo bem, nĂŁo esquenta com isso. AlĂ©m do mais, vocĂȘ nĂŁo acredita em casamento, Arlene.
Arlene sentava-se na poltrona cor-de-rosa lendo o jornal da tarde.
â VocĂȘ diz que cinco mil mulheres querem dormir com vocĂȘ. Onde Ă© que eu fico?
â Cinco mil e uma.
â Acha que eu nĂŁo consigo outro homem?
â NĂŁo, pra vocĂȘ nĂŁo tem problema. Pode arranjar outro homem em trĂȘs minutos.
â Acha que eu preciso de um grande pintor?
â NĂŁo precisa, nĂŁo. Um bom bombeiro serve.
â Ă, desde que ele me ame.
â Claro. Ponha o casaco. Vamos sair.
Desceram a escada do sótão. Para todos os lados, quartos baratos, entupidos de baratas, mas ninguém parecia passar fome: pareciam viver cozinhando coisas em panelÔes e sentados por toda parte, fumando, limpando as unhas, bebendo latas de cerveja ou dividindo uma comprida garrafa azul de vinho branco, gritando ou rindo uns com os outros, ou peidando, arrotando ou dormindo diante da TV. Não havia muita gente com dinheiro no mundo, mas quanto menos dinheiro tinham melhor pareciam viver. Só precisavam de sono, lençóis limpos, comida, bebida e pomada para hemorroidas. E sempre deixavam os quartos um pouco abertos.
â Idiotas â disse Jorg, quando desciam a escada â, passam a vida fofocando e enchendo a minha vida.
â Oh, Jorg â suspirou Arlene. â VocĂȘ simplesmente nĂŁo gosta das pessoas, gosta?
Jorg ergueu uma sobrancelha para ela, mas nĂŁo respondeu. A reação de Arlene ao que ele sentia pelas massas era sempre a mesma â como se nĂŁo amar as pessoas fosse algo que revelasse uma imperdoĂĄvel deficiĂȘncia espiritual. Mas ela era uma foda excelente e uma companhia agradĂĄvel â a maior parte do tempo.
Chegaram ao boulevard e seguiram andando, Jorg com a barba vermelha e branca, os dentes amarelos podres e o mau hĂĄlito, as orelhas roxas, os olhos assustados, o casaco fedorento rasgado e a bengala branca de marfim. Sentia-se melhor quando estava pior.
â Merda â disse â, tudo morre cagando.
Arlene rebolava o rabo, nĂŁo fazendo segredo dele, Jorg batia na calçada com a bengala, e atĂ© o sol olhava lĂĄ de cima e dizia Ă-hĂŽ! Chegaram finalmente ao velho prĂ©dio miserĂĄvel onde morava Serge. Jorg e Serge vinham ambos pintando hĂĄ anos, mas sĂł recentemente tinham vendido suas obras por mais que peidos de porco. Tinham passado fome juntos, agora se tornavam famosos separados. Jorg e Arlene entraram no hotel e subiram a escada. O cheiro de iodo e fritura de frango enchia os corredores. Num quarto, alguĂ©m fodia sem fazer segredo disso. Eles subiram atĂ© o sĂłtĂŁo e Arlene bateu. Abriu-se a porta, e lĂĄ estava Serge.
â Tchan-tchan! â ele disse. E corou. â Oh, desculpem... entrem.
â Que diabos deu em vocĂȘ? â perguntou Jorg.
â Senta aĂ. Pensei que fosse Lila...
â VocĂȘ brinca de esconder com Lila?
â Esquece.
â Serge, vocĂȘ precisa se livrar dessa dona, ela estĂĄ fundindo sua cuca.
â Ela aponta meus lĂĄpis.
â Serge, ela Ă© jovem demais pra vocĂȘ.
â Tem trinta anos.
â E vocĂȘ sessenta. SĂŁo trinta anos.
â Trinta anos Ă© demais?
â Claro.
â E vinte? â perguntou Serge, olhando para Arlene.
â Vinte anos Ă© aceitĂĄvel. Trinta anos Ă© obsceno.
â Por que vocĂȘs dois nĂŁo arranjam mulheres da sua idade? â perguntou Arlene.
Os dois olharam-na.
â Ela gosta de fazer piadinhas â disse Jorg.
â Ă â disse Serge â, Ă© engraçada. Vamos lĂĄ, escuta, eu mostro a vocĂȘs o que estou fazendo.
Seguiram-no até o quarto. Ele tirou os sapatos e estendeu-se na cama.
â EstĂŁo vendo? Ă assim, olha. Todos os confortos. â Serge amarrara os pincĂ©is em longos cabos e pintava numa tela presa ao teto. â Ă minhas costas. NĂŁo posso pintar dez minutos sem parar. Assim, pinto horas.
â Quem mistura suas tintas?
â Lila. Eu digo a ela: âMergulhe no azul. Agora um pouco de verde.â Ela Ă© muito boa. Posso acabar deixando os pincĂ©is a ela e ficar por aĂ lendo revistas.
EntĂŁo ouviram Lila subindo a escada. Ela abriu a porta, atravessou a sala da frente e entrou no quarto.
â Opa â disse â, vejo que o velho vagabundo tĂĄ pintando.
â Ă... â disse Jorg â diz que vocĂȘ machucou as costas dele.
â Eu nĂŁo falei nada disso.
â Vamos sair pra comer â disse Arlene.
Serge gemeu e levantou-se.
â Palavra de honra â disse Lila. â Ele sĂł fica por aĂ deitado como uma rĂŁ doente, a maior parte do tempo.
â Preciso de um trago â disse Serge. â AĂ volto Ă forma.
Desceram juntos para a rua e foram a The Sheepâs Tick. Dois rapazes em meados da casa dos vinte se aproximaram. Usavam suĂ©teres de gola rolĂȘ.
â Oi, vocĂȘs sĂŁo os pintores Jorg Swenson e Serge Maro!
â Sai da frente, porra! â disse Serge.
Jorg brandiu sua bengala de marfim. Atingiu o mais jovem dos rapazes bem no joelho.
â Merda â disse o rapaz â, me quebrou a perna!
â Espero â disse Jorg. â Talvez vocĂȘ aprenda um pouco de boas maneiras!
Seguiram para The Sheepâs Tick. Quando entraram, subiu um zunzum dos comensais. O chefe dos garçons acorreu imediatamente, curvando-se e acenando com menus e falando coisas lisonjeiras em italiano, francĂȘs e russo.
â Veja esses pelos negros, compridos, nas narinas dele â disse Serge. â Realmente nojento.
â Ă â disse Jorg, e gritou para o garçom: â ESCONDA O NARIZ!
â Cinco garrafas de seu melhor vinho! â berrou Serge, enquanto se sentavam Ă melhor mesa.
O chefe dos garçons desapareceu.
â VocĂȘs dois sĂŁo dois babacas â disse Lila.
Jorg correu a mĂŁo pela perna dela acima.
â Dois imortais vivos tĂȘm direito a algumas indiscriçÔes.
â Tira a mĂŁo de minha xoxota, Jorg.
â A xoxota nĂŁo Ă© sua, Ă© de Serge.
â Tira a mĂŁo da xoxota de Serge, senĂŁo eu grito.
â Minha vontade Ă© fraca.
Ela gritou. Jorg tirou a mão. O chefe dos garçons aproximou-se com o carrinho contendo um balde de vinho. Rolou as garrafas no gelo, curvou-se e tirou uma rolha. Encheu a taça de Jorg. Jorg esvaziou-a.
â Ă merda â disse â, mas tudo bem. Abra as garrafas!
â Todas?
â Todas, seu babaca, e depressa com isso!
â Ă um trapalhĂŁo â disse Jorg. â Olha sĂł pra ele. Vamos jantar?
â Jantar? â disse Arlene. â VocĂȘs sĂł fazem beber. Acho que nunca vi nenhum dos dois comer mais que um ovo mole.
â Suma de minha vista, covarde â disse Serge ao garçom.
O chefe dos garçons sumiu.
â VocĂȘs nĂŁo deviam falar assim com os outros â disse Lila.
â Pagamos nossas contas â disse Serge.
â NĂŁo tĂȘm o direito â disse Arlene.
â Acho que nĂŁo â disse Jorg â, mas Ă© interessante.
â Os outros nĂŁo tĂȘm de aceitar essa merda â disse Lila.
â Os outros aceitam o que tĂȘm de aceitar â disse Jorg. â Aceitam muito pior.
â SĂł o que eles querem sĂŁo os quadros de vocĂȘs â disse Arlene.
â NĂłs somos nossos quadros â disse Serge.
â As mulheres sĂŁo idiotas â disse Jorg.
â Cuidado â disse Serge. â TambĂ©m sĂŁo capazes de terrĂveis atos de vingança...
Ficaram umas duas horas tomando vinho.
â O homem Ă© menos delicado que o gafanhoto â disse Jorg por fim.
â O homem Ă© a cloaca do universo â disse Serge.
â VocĂȘs sĂŁo dois babacas mesmo â disse Lila.
â Claro que sĂŁo â disse Arlene.
â Vamos trocar esta noite â disse Jorg. â Eu fodo sua xoxota e vocĂȘ fode a minha.
â Ah, nĂŁo â disse Arlene â nada disso.
â E isso aĂ â disse Lila.
â Estou com vontade de pintar â disse Jorg. â Estou chateado de beber.
â Eu tambĂ©m estou com vontade de pintar â disse Serge.
â Vamos dar o fora daqui â disse Jorg.
â Escuta â disse Lila â, ainda nĂŁo pagaram a conta.
â Conta? â berrou Serge. â VocĂȘ nĂŁo acha que a gente vai pagar por essa merda?
â Vamos â disse Jorg.
Quando se levantavam, surgiu o chefe dos garçons com a conta.
â Essa merda fede â berrou Serge, dando saltos. â Eu jamais pediria a ninguĂ©m que pagasse por uma coisa dessas! Quero que vocĂȘ saiba que a prova estĂĄ no mijo!
Serge agarrou uma meia garrafa de vinho, abriu Ă força a camisa do garçom e despejou o vinho no peito. Jorg mantinha a bengala como uma espada. O chefe dos garçons parecia confuso. Era um belo rapaz com unhas compridas e um caro apartamento. Estudava quĂmica e certa vez ganhara o segundo prĂȘmio num concurso de Ăłpera. Jorg brandiu a bengala e atingiu o garçom, com força, pouco abaixo da orelha esquerda. O garçom ficou muito pĂĄlido e oscilou. Jorg atingiu-o mais trĂȘs vezes no mesmo lugar, e ele desabou.
SaĂram juntos, Serge, Jorg, Lila e Arlene. Estavam todos bĂȘbados, mas tinham um certo porte, uma coisa singular. SaĂram pela porta e alcançaram a rua.
Um jovem casal sentado a uma mesa prĂłxima tinha visto tudo. O rapaz parecia inteligente, sĂł uma grande bolota de carne perto da ponta do nariz estragava esse efeito. A garota era gorda mas linda, num vestido azul-escuro. Um dia quisera ser freira.
â Eles nĂŁo foram magnĂficos? â perguntou o rapaz.
â Foram babacas â disse a garota.
O rapaz acenou pedindo uma terceira garrafa de vinho. Ia ser outra noite difĂcil.
â Numa fria
â Sair pra onde? â ela perguntou.
â Pra qualquer lugar. Comer, beber, ver.
â Jorg â ela disse â, que Ă© que eu vou fazer quando vocĂȘ morrer?
â Vai comer, dormir, foder, mijar, se vestir, andar por aĂ e encher o saco dos outros.
â Eu preciso de segurança.
â Todos nĂłs.
â Quer dizer, nĂŁo somos casados. Eu nĂŁo vou poder nem receber o seu seguro.
â TĂĄ tudo bem, nĂŁo esquenta com isso. AlĂ©m do mais, vocĂȘ nĂŁo acredita em casamento, Arlene.
Arlene sentava-se na poltrona cor-de-rosa lendo o jornal da tarde.
â VocĂȘ diz que cinco mil mulheres querem dormir com vocĂȘ. Onde Ă© que eu fico?
â Cinco mil e uma.
â Acha que eu nĂŁo consigo outro homem?
â NĂŁo, pra vocĂȘ nĂŁo tem problema. Pode arranjar outro homem em trĂȘs minutos.
â Acha que eu preciso de um grande pintor?
â NĂŁo precisa, nĂŁo. Um bom bombeiro serve.
â Ă, desde que ele me ame.
â Claro. Ponha o casaco. Vamos sair.
Desceram a escada do sótão. Para todos os lados, quartos baratos, entupidos de baratas, mas ninguém parecia passar fome: pareciam viver cozinhando coisas em panelÔes e sentados por toda parte, fumando, limpando as unhas, bebendo latas de cerveja ou dividindo uma comprida garrafa azul de vinho branco, gritando ou rindo uns com os outros, ou peidando, arrotando ou dormindo diante da TV. Não havia muita gente com dinheiro no mundo, mas quanto menos dinheiro tinham melhor pareciam viver. Só precisavam de sono, lençóis limpos, comida, bebida e pomada para hemorroidas. E sempre deixavam os quartos um pouco abertos.
â Idiotas â disse Jorg, quando desciam a escada â, passam a vida fofocando e enchendo a minha vida.
â Oh, Jorg â suspirou Arlene. â VocĂȘ simplesmente nĂŁo gosta das pessoas, gosta?
Jorg ergueu uma sobrancelha para ela, mas nĂŁo respondeu. A reação de Arlene ao que ele sentia pelas massas era sempre a mesma â como se nĂŁo amar as pessoas fosse algo que revelasse uma imperdoĂĄvel deficiĂȘncia espiritual. Mas ela era uma foda excelente e uma companhia agradĂĄvel â a maior parte do tempo.
Chegaram ao boulevard e seguiram andando, Jorg com a barba vermelha e branca, os dentes amarelos podres e o mau hĂĄlito, as orelhas roxas, os olhos assustados, o casaco fedorento rasgado e a bengala branca de marfim. Sentia-se melhor quando estava pior.
â Merda â disse â, tudo morre cagando.
Arlene rebolava o rabo, nĂŁo fazendo segredo dele, Jorg batia na calçada com a bengala, e atĂ© o sol olhava lĂĄ de cima e dizia Ă-hĂŽ! Chegaram finalmente ao velho prĂ©dio miserĂĄvel onde morava Serge. Jorg e Serge vinham ambos pintando hĂĄ anos, mas sĂł recentemente tinham vendido suas obras por mais que peidos de porco. Tinham passado fome juntos, agora se tornavam famosos separados. Jorg e Arlene entraram no hotel e subiram a escada. O cheiro de iodo e fritura de frango enchia os corredores. Num quarto, alguĂ©m fodia sem fazer segredo disso. Eles subiram atĂ© o sĂłtĂŁo e Arlene bateu. Abriu-se a porta, e lĂĄ estava Serge.
â Tchan-tchan! â ele disse. E corou. â Oh, desculpem... entrem.
â Que diabos deu em vocĂȘ? â perguntou Jorg.
â Senta aĂ. Pensei que fosse Lila...
â VocĂȘ brinca de esconder com Lila?
â Esquece.
â Serge, vocĂȘ precisa se livrar dessa dona, ela estĂĄ fundindo sua cuca.
â Ela aponta meus lĂĄpis.
â Serge, ela Ă© jovem demais pra vocĂȘ.
â Tem trinta anos.
â E vocĂȘ sessenta. SĂŁo trinta anos.
â Trinta anos Ă© demais?
â Claro.
â E vinte? â perguntou Serge, olhando para Arlene.
â Vinte anos Ă© aceitĂĄvel. Trinta anos Ă© obsceno.
â Por que vocĂȘs dois nĂŁo arranjam mulheres da sua idade? â perguntou Arlene.
Os dois olharam-na.
â Ela gosta de fazer piadinhas â disse Jorg.
â Ă â disse Serge â, Ă© engraçada. Vamos lĂĄ, escuta, eu mostro a vocĂȘs o que estou fazendo.
Seguiram-no até o quarto. Ele tirou os sapatos e estendeu-se na cama.
â EstĂŁo vendo? Ă assim, olha. Todos os confortos. â Serge amarrara os pincĂ©is em longos cabos e pintava numa tela presa ao teto. â Ă minhas costas. NĂŁo posso pintar dez minutos sem parar. Assim, pinto horas.
â Quem mistura suas tintas?
â Lila. Eu digo a ela: âMergulhe no azul. Agora um pouco de verde.â Ela Ă© muito boa. Posso acabar deixando os pincĂ©is a ela e ficar por aĂ lendo revistas.
EntĂŁo ouviram Lila subindo a escada. Ela abriu a porta, atravessou a sala da frente e entrou no quarto.
â Opa â disse â, vejo que o velho vagabundo tĂĄ pintando.
â Ă... â disse Jorg â diz que vocĂȘ machucou as costas dele.
â Eu nĂŁo falei nada disso.
â Vamos sair pra comer â disse Arlene.
Serge gemeu e levantou-se.
â Palavra de honra â disse Lila. â Ele sĂł fica por aĂ deitado como uma rĂŁ doente, a maior parte do tempo.
â Preciso de um trago â disse Serge. â AĂ volto Ă forma.
Desceram juntos para a rua e foram a The Sheepâs Tick. Dois rapazes em meados da casa dos vinte se aproximaram. Usavam suĂ©teres de gola rolĂȘ.
â Oi, vocĂȘs sĂŁo os pintores Jorg Swenson e Serge Maro!
â Sai da frente, porra! â disse Serge.
Jorg brandiu sua bengala de marfim. Atingiu o mais jovem dos rapazes bem no joelho.
â Merda â disse o rapaz â, me quebrou a perna!
â Espero â disse Jorg. â Talvez vocĂȘ aprenda um pouco de boas maneiras!
Seguiram para The Sheepâs Tick. Quando entraram, subiu um zunzum dos comensais. O chefe dos garçons acorreu imediatamente, curvando-se e acenando com menus e falando coisas lisonjeiras em italiano, francĂȘs e russo.
â Veja esses pelos negros, compridos, nas narinas dele â disse Serge. â Realmente nojento.
â Ă â disse Jorg, e gritou para o garçom: â ESCONDA O NARIZ!
â Cinco garrafas de seu melhor vinho! â berrou Serge, enquanto se sentavam Ă melhor mesa.
O chefe dos garçons desapareceu.
â VocĂȘs dois sĂŁo dois babacas â disse Lila.
Jorg correu a mĂŁo pela perna dela acima.
â Dois imortais vivos tĂȘm direito a algumas indiscriçÔes.
â Tira a mĂŁo de minha xoxota, Jorg.
â A xoxota nĂŁo Ă© sua, Ă© de Serge.
â Tira a mĂŁo da xoxota de Serge, senĂŁo eu grito.
â Minha vontade Ă© fraca.
Ela gritou. Jorg tirou a mão. O chefe dos garçons aproximou-se com o carrinho contendo um balde de vinho. Rolou as garrafas no gelo, curvou-se e tirou uma rolha. Encheu a taça de Jorg. Jorg esvaziou-a.
â Ă merda â disse â, mas tudo bem. Abra as garrafas!
â Todas?
â Todas, seu babaca, e depressa com isso!
â Ă um trapalhĂŁo â disse Jorg. â Olha sĂł pra ele. Vamos jantar?
â Jantar? â disse Arlene. â VocĂȘs sĂł fazem beber. Acho que nunca vi nenhum dos dois comer mais que um ovo mole.
â Suma de minha vista, covarde â disse Serge ao garçom.
O chefe dos garçons sumiu.
â VocĂȘs nĂŁo deviam falar assim com os outros â disse Lila.
â Pagamos nossas contas â disse Serge.
â NĂŁo tĂȘm o direito â disse Arlene.
â Acho que nĂŁo â disse Jorg â, mas Ă© interessante.
â Os outros nĂŁo tĂȘm de aceitar essa merda â disse Lila.
â Os outros aceitam o que tĂȘm de aceitar â disse Jorg. â Aceitam muito pior.
â SĂł o que eles querem sĂŁo os quadros de vocĂȘs â disse Arlene.
â NĂłs somos nossos quadros â disse Serge.
â As mulheres sĂŁo idiotas â disse Jorg.
â Cuidado â disse Serge. â TambĂ©m sĂŁo capazes de terrĂveis atos de vingança...
Ficaram umas duas horas tomando vinho.
â O homem Ă© menos delicado que o gafanhoto â disse Jorg por fim.
â O homem Ă© a cloaca do universo â disse Serge.
â VocĂȘs sĂŁo dois babacas mesmo â disse Lila.
â Claro que sĂŁo â disse Arlene.
â Vamos trocar esta noite â disse Jorg. â Eu fodo sua xoxota e vocĂȘ fode a minha.
â Ah, nĂŁo â disse Arlene â nada disso.
â E isso aĂ â disse Lila.
â Estou com vontade de pintar â disse Jorg. â Estou chateado de beber.
â Eu tambĂ©m estou com vontade de pintar â disse Serge.
â Vamos dar o fora daqui â disse Jorg.
â Escuta â disse Lila â, ainda nĂŁo pagaram a conta.
â Conta? â berrou Serge. â VocĂȘ nĂŁo acha que a gente vai pagar por essa merda?
â Vamos â disse Jorg.
Quando se levantavam, surgiu o chefe dos garçons com a conta.
â Essa merda fede â berrou Serge, dando saltos. â Eu jamais pediria a ninguĂ©m que pagasse por uma coisa dessas! Quero que vocĂȘ saiba que a prova estĂĄ no mijo!
Serge agarrou uma meia garrafa de vinho, abriu Ă força a camisa do garçom e despejou o vinho no peito. Jorg mantinha a bengala como uma espada. O chefe dos garçons parecia confuso. Era um belo rapaz com unhas compridas e um caro apartamento. Estudava quĂmica e certa vez ganhara o segundo prĂȘmio num concurso de Ăłpera. Jorg brandiu a bengala e atingiu o garçom, com força, pouco abaixo da orelha esquerda. O garçom ficou muito pĂĄlido e oscilou. Jorg atingiu-o mais trĂȘs vezes no mesmo lugar, e ele desabou.
SaĂram juntos, Serge, Jorg, Lila e Arlene. Estavam todos bĂȘbados, mas tinham um certo porte, uma coisa singular. SaĂram pela porta e alcançaram a rua.
Um jovem casal sentado a uma mesa prĂłxima tinha visto tudo. O rapaz parecia inteligente, sĂł uma grande bolota de carne perto da ponta do nariz estragava esse efeito. A garota era gorda mas linda, num vestido azul-escuro. Um dia quisera ser freira.
â Eles nĂŁo foram magnĂficos? â perguntou o rapaz.
â Foram babacas â disse a garota.
O rapaz acenou pedindo uma terceira garrafa de vinho. Ia ser outra noite difĂcil.
â Numa fria
Metamorfose
uma namorada chegou
me construiu uma cama
esfregou e encerou o chĂŁo da cozinha
esfregou as paredes
aspirou o pĂł
limpou a patente
a banheira
esfregou o chĂŁo do banheiro
e cortou minhas unhas e
meus cabelos.
entĂŁo
naquele mesmo dia
o encanador veio e consertou a torneira da cozinha
e a patente
e o homem do gĂĄs consertou o aquecedor
e o homem do telefone, o telefone.
agora me sento aqui em meio a tanta perfeição.
tudo estĂĄ tranquilo.
rompi com as minhas 3 namoradas.
me sinto melhor quando tudo estĂĄ
bagunçado.
vai levar alguns meses até que as coisas voltem ao
normal:
nĂŁo consigo encontrar sequer uma barata para viver em comunhĂŁo.
perdi meu ritmo.
nĂŁo consigo dormir.
nĂŁo consigo comer.
roubaram-me
minha sujeira.
me construiu uma cama
esfregou e encerou o chĂŁo da cozinha
esfregou as paredes
aspirou o pĂł
limpou a patente
a banheira
esfregou o chĂŁo do banheiro
e cortou minhas unhas e
meus cabelos.
entĂŁo
naquele mesmo dia
o encanador veio e consertou a torneira da cozinha
e a patente
e o homem do gĂĄs consertou o aquecedor
e o homem do telefone, o telefone.
agora me sento aqui em meio a tanta perfeição.
tudo estĂĄ tranquilo.
rompi com as minhas 3 namoradas.
me sinto melhor quando tudo estĂĄ
bagunçado.
vai levar alguns meses até que as coisas voltem ao
normal:
nĂŁo consigo encontrar sequer uma barata para viver em comunhĂŁo.
perdi meu ritmo.
nĂŁo consigo dormir.
nĂŁo consigo comer.
roubaram-me
minha sujeira.
Meu Primeiro Poema de Computador
serĂĄ que jĂĄ tomei o caminho para a morte certa?
serĂĄ esta mĂĄquina meu algoz
quando nem o trago nem as mulheres nem a pobreza
conseguiram me dar cabo?
estarĂĄ Whitman rindo de mim na sua cova?
serĂĄ que Creeley se importa?
estarå isto aqui devidamente espaçado?
estou eu?
uivarĂĄ o Ginsberg?
me acalme!
me dĂȘ sorte!
me faça bem!
me faça seguir em frente!
sou virgem outra vez.
um virgem de 70 anos.
nĂŁo me foda, mĂĄquina
foda.
quem se importa?
fale comigo, mĂĄquina!
podemos tomar um trago juntos.
podemos nos divertir.
pense em todas as pessoas que irĂŁo me odiar neste
computador.
vamos somĂĄ-las aos outros
e seguir sempre em
frente.
então isto é o começo
e nĂŁo o
fim.
serĂĄ esta mĂĄquina meu algoz
quando nem o trago nem as mulheres nem a pobreza
conseguiram me dar cabo?
estarĂĄ Whitman rindo de mim na sua cova?
serĂĄ que Creeley se importa?
estarå isto aqui devidamente espaçado?
estou eu?
uivarĂĄ o Ginsberg?
me acalme!
me dĂȘ sorte!
me faça bem!
me faça seguir em frente!
sou virgem outra vez.
um virgem de 70 anos.
nĂŁo me foda, mĂĄquina
foda.
quem se importa?
fale comigo, mĂĄquina!
podemos tomar um trago juntos.
podemos nos divertir.
pense em todas as pessoas que irĂŁo me odiar neste
computador.
vamos somĂĄ-las aos outros
e seguir sempre em
frente.
então isto é o começo
e nĂŁo o
fim.
Meu Velho
16 anos de idade
durante a depressĂŁo
cheguei em casa bĂȘbado
e todas as minhas roupas â
calçÔes, camisas, meias â
pastas, e pĂĄginas de
contos
tinham sido jogadas fora
sobre o gramado da frente e na
rua.
minha mĂŁe estava me
esperando atrĂĄs de uma ĂĄrvore:
âHenry, Henry, nĂŁo
entre... ele vai
matar vocĂȘ, leu
suas histĂłrias...â
âposso chutar a
bunda dele...â
âHenry, pegue isso
por favor... e
procure um quarto para vocĂȘ.â
mas o que o preocupava era
que eu talvez nĂŁo
terminasse o colegial
entĂŁo eu voltaria
outra vez.
uma noite ele entrou
com as pĂĄginas de
um dos meus contos
(que eu nunca submeti a ele)
e disse, âeste Ă©
um grande contoâ.
eu disse, âo.k.â
e ele me alcançou
e eu li.
era uma histĂłria sobre
um homem rico
que teve uma briga com
sua esposa e se
foi pela noite
atrĂĄs de uma xĂcara de cafĂ©
e ficou observando
a garçonete e as colheres
e os garfos e o
sal e o pimenteiro
e o letreiro de néon
na janela
foi entĂŁo que voltou
para seu estĂĄbulo
para ver e tocar seu
cavalo favorito
que
deu-lhe um coice na cabeça
e o matou.
de alguma maneira
a histĂłria em suas mĂŁos
tinha um significado para ele
apesar
de que quando a escrevi
nĂŁo tinha nenhuma ideia
a respeito do que
tratava.
entĂŁo eu lhe disse,
âo.k., velho, vocĂȘ pode
ficar com elaâ.
e ele a pegou
e caiu fora
e fechou a porta.
acho que foi
o mais prĂłximo
que jamais estivemos.
Podia ver a estrada Ă minha frente. Eu era pobre e ficaria pobre. Mas eu nĂŁo queria particularmente dinheiro. Eu sequer sabia o que desejava. Sim, eu sabia. Queria algum lugar para me esconder, um lugar em que ninguĂ©m tivesse que fazer nada. O pensamento de ser alguĂ©m na vida nĂŁo apenas me apavorava mas tambĂ©m me deixava enojado. Pensar em ser um advogado ou um professor ou um engenheiro, qualquer coisa desse tipo, parecia-me impossĂvel. Casar, ter filhos, ficar preso a uma estrutura familiar. Ir e retornar de um local de trabalho todos os dias. Era impossĂvel. Fazer coisas, coisas simples, participar de piqueniques em famĂlia, festas de Natal, 4 de Julho, Dia do Trabalho, Dia das MĂŁes... afinal, Ă© para isso que nasce um homem, para enfrentar essas coisas atĂ© o dia de sua morte? Preferia ser um lavador de pratos, retornar para a solidĂŁo de um cubĂculo e beber atĂ© dormir.
Meu pai tinha um plano perfeito. Ele me disse:
â Meu filho, cada homem, durante seu perĂodo de vida, deveria comprar uma casa. Pois finalmente, quando morresse, deixaria essa casa para o filho. EntĂŁo, esse filho tambĂ©m compraria uma casa que, ao morrer, seria herdada pelo filho, neto do primeiro. JĂĄ sĂŁo duas. Este Ășltimo compraria uma nova e aĂ seriam trĂȘs casas...
A estrutura familiar. A vitĂłria sobre a adversidade por meio da famĂlia. Ele acreditava nisso. Pegue a famĂlia, misture com Deus e a PĂĄtria, acrescente a jornada de trabalho de dez horas e vocĂȘ teria o necessĂĄrio.
Olhei para meu pai, para suas mĂŁos, seu rosto, suas sobrancelhas, e soube que esse homem nada tinha a ver comigo. Ele era um estranho. Minha mĂŁe simplesmente nĂŁo existia. Eu era um amaldiçoado. Olhando para meu pai eu nĂŁo enxergava nada alĂ©m de uma obtusidade indecente. Pior, ele tinha inclusive mais medo de falhar do que a maioria das outras pessoas. SĂ©culos de sangue de camponĂȘs e de treinamento servil. A linha dos Chinaski vinha sendo enfraquecida por uma sĂ©rie de camponeses servis que haviam aberto mĂŁo de suas vidas reais em troca da ilusĂŁo de lucros esporĂĄdicos e ilusĂłrios. Nenhum homem em toda a linhagem que dissesse:
â NĂŁo quero uma casa. Quero mil casas, e quero agora!
Ele havia me enviado para aquela escola de ricaços na expectativa de que o ambiente e a convivĂȘncia pudessem me moldar, enquanto eu assistia Ă queles garotos ricos desfilarem em seus cupĂȘs cor de creme ao lado de suas garotas em vestidos cintilantes. Em vez disso, aprendi que os pobres sempre permanecem pobres. Que os jovens ricos sentem o fedor dos pobres e passam a achĂĄ-los atĂ© um pouco divertido. Eles precisam rir, pois, de outro modo, seria algo por demais aterrorizante. Eles aprenderam a agir assim, atravĂ©s dos sĂ©culos. Jamais perdoaria as garotas por entrarem naqueles cupĂȘs creme com os rapazes sorridentes. Elas nĂŁo podiam fazer nada, Ă© claro, muito embora vocĂȘ sempre acabe pensando que talvez... Mas nĂŁo, nĂŁo havia nenhum tipo de talvez. Riqueza significava vitĂłria, e vitĂłria era a Ășnica realidade.
Que tipo de mulher escolheria viver com um lavador de pratos?
Durante todo o ensino fundamental, tentei nĂŁo pensar muito em como as coisas eventualmente se dariam comigo. Tinha a impressĂŁo de que o mais prudente era adiar esse tipo de pensamento...
Finalmente chegou o dia do Baile de Formatura. Foi realizado no ginĂĄsio feminino com mĂșsica ao vivo, uma banda de verdade. NĂŁo sei bem por que, mas andei atĂ© lĂĄ naquela noite, os quatro quilĂŽmetros que separavam a escola da casa dos meus pais. Fiquei do lado de fora, no escuro, olhando para o baile, atravĂ©s das janelas gradeadas, completamente admirado. Todas as garotas pareciam extremamente crescidas, imponentes, adorĂĄveis, trajando vestidos longos, e todas exalando beleza. Quase nĂŁo as reconheci. E os garotos em seus smokings estavam muito bem, dançavam com perfeição, cada qual segurando uma garota nos braços, seus rostos pressionados contra os cabelos delas. Todos dançavam com extrema graça, e a mĂșsica vinha alta e lĂmpida e boa, potente.
EntĂŁo vislumbrei o reflexo do meu rosto a admirĂĄ-los â marcado por espinhas e cicatrizes, minha camisa surrada. Eu era como uma fera da selva atraĂda pela luz, olhando para dentro. Por que eu tinha vindo? Sentia-me mal. Mas continuava assistindo a tudo. A dança terminou. Houve uma pausa. Os casais trocavam palavras com facilidade. Era algo natural e civilizado. Onde eles tinham aprendido a conversar e a dançar? Eu nĂŁo podia conversar ou dançar. Todo mundo sabia alguma coisa que eu desconhecia. As garotas eram tĂŁo lindas; os rapazes, tĂŁo elegantes. Eu ficaria aterrorizado sĂł de olhar para uma daquelas garotas, o que dizer ficar sozinho em sua companhia. MirĂĄ-la nos olhos ou dançar com ela estaria alĂ©m das minhas forças.
E ainda assim eu tinha consciĂȘncia de que o que via nĂŁo era tĂŁo simples nem bonito como aparentava ser. Havia um preço a ser pago por aquilo tudo, uma falsidade generalizada na qual facilmente se poderia acreditar e que poderia ser o primeiro passo para um beco sem saĂda. A banda voltou a tocar e as garotas e os garotos recomeçaram a dança, e as luzes sobre suas cabeças giravam, lançando sobre os casais reflexos dourados, depois vermelhos, azuis, verdes e entĂŁo novamente dourados. Enquanto eu os observava, dizia para mim mesmo que um dia minha dança iria começar. Quando esse dia chegasse teria alguma coisa que eles nĂŁo tĂȘm.
De repente, contudo, aquilo se tornou demais para mim. Eu os odiei. Odiei sua beleza, sua juventude sem problemas e, enquanto os via dançar por entre o mar de luzes mĂĄgicas e coloridas, abraçados uns aos outros, sentindo-se tĂŁo bem, pequenas crianças ilesas, desfrutando de sua sorte temporĂĄria, odiei-os por terem algo que eu ainda nĂŁo tinha, e disse para mim mesmo, repeti para mim mesmo, algum dia serei tĂŁo feliz quanto vocĂȘs, esperem para ver.
Seguiram dançando, enquanto eu repetia minha frase para eles.
EntĂŁo ouvi um barulho Ă s minhas costas.
â Ei, o que vocĂȘ estĂĄ fazendo?
Era um velho com uma lanterna. Sua cabeça parecia a de um sapo.
â Estou olhando o baile.
Ele manteve a lanterna bem debaixo de seu nariz. Seus olhos eram redondos e grandes, brilhavam como os olhos de um gato sob a luz do luar. Mas sua boca era enrugada, murcha, e sua cabeça era redonda. Havia nessa redondeza tamanha falta de sentido que me fazia lembrar uma abóbora tentando parecer inteligente.
â Tire seu rabo daqui!
Dirigiu o foco da lanterna para cima de mim.
â Quem Ă© vocĂȘ? â perguntei.
â Sou o guarda noturno. Tire seu rabo jĂĄ daqui antes que eu chame a polĂcia!
â Por quĂȘ? Esse Ă© o Baile de Formatura e estou entre os formandos.
Focou a luz bem na minha cara. A banda tocava Deep Purple.
â NĂŁo vem com essa â ele disse. â VocĂȘ tem pelo menos uns 22 anos!
â Estou no livro do ano da escola, classe de 1939, classe dos formandos, Henry Chinaski.
â Por que vocĂȘ nĂŁo estĂĄ lĂĄ dentro dançando?
â Esqueça. Estou indo pra casa.
â Faça isso.
Afastei-me e comecei a andar. Sua lanterna enfocou o caminho, a luz me seguindo. Abandonei o campus. Era uma noite agradĂĄvel e quente, quase abafada. Pensei ter visto alguns vaga-lumes, mas nĂŁo tive certeza.
â Misto-quente
durante a depressĂŁo
cheguei em casa bĂȘbado
e todas as minhas roupas â
calçÔes, camisas, meias â
pastas, e pĂĄginas de
contos
tinham sido jogadas fora
sobre o gramado da frente e na
rua.
minha mĂŁe estava me
esperando atrĂĄs de uma ĂĄrvore:
âHenry, Henry, nĂŁo
entre... ele vai
matar vocĂȘ, leu
suas histĂłrias...â
âposso chutar a
bunda dele...â
âHenry, pegue isso
por favor... e
procure um quarto para vocĂȘ.â
mas o que o preocupava era
que eu talvez nĂŁo
terminasse o colegial
entĂŁo eu voltaria
outra vez.
uma noite ele entrou
com as pĂĄginas de
um dos meus contos
(que eu nunca submeti a ele)
e disse, âeste Ă©
um grande contoâ.
eu disse, âo.k.â
e ele me alcançou
e eu li.
era uma histĂłria sobre
um homem rico
que teve uma briga com
sua esposa e se
foi pela noite
atrĂĄs de uma xĂcara de cafĂ©
e ficou observando
a garçonete e as colheres
e os garfos e o
sal e o pimenteiro
e o letreiro de néon
na janela
foi entĂŁo que voltou
para seu estĂĄbulo
para ver e tocar seu
cavalo favorito
que
deu-lhe um coice na cabeça
e o matou.
de alguma maneira
a histĂłria em suas mĂŁos
tinha um significado para ele
apesar
de que quando a escrevi
nĂŁo tinha nenhuma ideia
a respeito do que
tratava.
entĂŁo eu lhe disse,
âo.k., velho, vocĂȘ pode
ficar com elaâ.
e ele a pegou
e caiu fora
e fechou a porta.
acho que foi
o mais prĂłximo
que jamais estivemos.
Podia ver a estrada Ă minha frente. Eu era pobre e ficaria pobre. Mas eu nĂŁo queria particularmente dinheiro. Eu sequer sabia o que desejava. Sim, eu sabia. Queria algum lugar para me esconder, um lugar em que ninguĂ©m tivesse que fazer nada. O pensamento de ser alguĂ©m na vida nĂŁo apenas me apavorava mas tambĂ©m me deixava enojado. Pensar em ser um advogado ou um professor ou um engenheiro, qualquer coisa desse tipo, parecia-me impossĂvel. Casar, ter filhos, ficar preso a uma estrutura familiar. Ir e retornar de um local de trabalho todos os dias. Era impossĂvel. Fazer coisas, coisas simples, participar de piqueniques em famĂlia, festas de Natal, 4 de Julho, Dia do Trabalho, Dia das MĂŁes... afinal, Ă© para isso que nasce um homem, para enfrentar essas coisas atĂ© o dia de sua morte? Preferia ser um lavador de pratos, retornar para a solidĂŁo de um cubĂculo e beber atĂ© dormir.
Meu pai tinha um plano perfeito. Ele me disse:
â Meu filho, cada homem, durante seu perĂodo de vida, deveria comprar uma casa. Pois finalmente, quando morresse, deixaria essa casa para o filho. EntĂŁo, esse filho tambĂ©m compraria uma casa que, ao morrer, seria herdada pelo filho, neto do primeiro. JĂĄ sĂŁo duas. Este Ășltimo compraria uma nova e aĂ seriam trĂȘs casas...
A estrutura familiar. A vitĂłria sobre a adversidade por meio da famĂlia. Ele acreditava nisso. Pegue a famĂlia, misture com Deus e a PĂĄtria, acrescente a jornada de trabalho de dez horas e vocĂȘ teria o necessĂĄrio.
Olhei para meu pai, para suas mĂŁos, seu rosto, suas sobrancelhas, e soube que esse homem nada tinha a ver comigo. Ele era um estranho. Minha mĂŁe simplesmente nĂŁo existia. Eu era um amaldiçoado. Olhando para meu pai eu nĂŁo enxergava nada alĂ©m de uma obtusidade indecente. Pior, ele tinha inclusive mais medo de falhar do que a maioria das outras pessoas. SĂ©culos de sangue de camponĂȘs e de treinamento servil. A linha dos Chinaski vinha sendo enfraquecida por uma sĂ©rie de camponeses servis que haviam aberto mĂŁo de suas vidas reais em troca da ilusĂŁo de lucros esporĂĄdicos e ilusĂłrios. Nenhum homem em toda a linhagem que dissesse:
â NĂŁo quero uma casa. Quero mil casas, e quero agora!
Ele havia me enviado para aquela escola de ricaços na expectativa de que o ambiente e a convivĂȘncia pudessem me moldar, enquanto eu assistia Ă queles garotos ricos desfilarem em seus cupĂȘs cor de creme ao lado de suas garotas em vestidos cintilantes. Em vez disso, aprendi que os pobres sempre permanecem pobres. Que os jovens ricos sentem o fedor dos pobres e passam a achĂĄ-los atĂ© um pouco divertido. Eles precisam rir, pois, de outro modo, seria algo por demais aterrorizante. Eles aprenderam a agir assim, atravĂ©s dos sĂ©culos. Jamais perdoaria as garotas por entrarem naqueles cupĂȘs creme com os rapazes sorridentes. Elas nĂŁo podiam fazer nada, Ă© claro, muito embora vocĂȘ sempre acabe pensando que talvez... Mas nĂŁo, nĂŁo havia nenhum tipo de talvez. Riqueza significava vitĂłria, e vitĂłria era a Ășnica realidade.
Que tipo de mulher escolheria viver com um lavador de pratos?
Durante todo o ensino fundamental, tentei nĂŁo pensar muito em como as coisas eventualmente se dariam comigo. Tinha a impressĂŁo de que o mais prudente era adiar esse tipo de pensamento...
Finalmente chegou o dia do Baile de Formatura. Foi realizado no ginĂĄsio feminino com mĂșsica ao vivo, uma banda de verdade. NĂŁo sei bem por que, mas andei atĂ© lĂĄ naquela noite, os quatro quilĂŽmetros que separavam a escola da casa dos meus pais. Fiquei do lado de fora, no escuro, olhando para o baile, atravĂ©s das janelas gradeadas, completamente admirado. Todas as garotas pareciam extremamente crescidas, imponentes, adorĂĄveis, trajando vestidos longos, e todas exalando beleza. Quase nĂŁo as reconheci. E os garotos em seus smokings estavam muito bem, dançavam com perfeição, cada qual segurando uma garota nos braços, seus rostos pressionados contra os cabelos delas. Todos dançavam com extrema graça, e a mĂșsica vinha alta e lĂmpida e boa, potente.
EntĂŁo vislumbrei o reflexo do meu rosto a admirĂĄ-los â marcado por espinhas e cicatrizes, minha camisa surrada. Eu era como uma fera da selva atraĂda pela luz, olhando para dentro. Por que eu tinha vindo? Sentia-me mal. Mas continuava assistindo a tudo. A dança terminou. Houve uma pausa. Os casais trocavam palavras com facilidade. Era algo natural e civilizado. Onde eles tinham aprendido a conversar e a dançar? Eu nĂŁo podia conversar ou dançar. Todo mundo sabia alguma coisa que eu desconhecia. As garotas eram tĂŁo lindas; os rapazes, tĂŁo elegantes. Eu ficaria aterrorizado sĂł de olhar para uma daquelas garotas, o que dizer ficar sozinho em sua companhia. MirĂĄ-la nos olhos ou dançar com ela estaria alĂ©m das minhas forças.
E ainda assim eu tinha consciĂȘncia de que o que via nĂŁo era tĂŁo simples nem bonito como aparentava ser. Havia um preço a ser pago por aquilo tudo, uma falsidade generalizada na qual facilmente se poderia acreditar e que poderia ser o primeiro passo para um beco sem saĂda. A banda voltou a tocar e as garotas e os garotos recomeçaram a dança, e as luzes sobre suas cabeças giravam, lançando sobre os casais reflexos dourados, depois vermelhos, azuis, verdes e entĂŁo novamente dourados. Enquanto eu os observava, dizia para mim mesmo que um dia minha dança iria começar. Quando esse dia chegasse teria alguma coisa que eles nĂŁo tĂȘm.
De repente, contudo, aquilo se tornou demais para mim. Eu os odiei. Odiei sua beleza, sua juventude sem problemas e, enquanto os via dançar por entre o mar de luzes mĂĄgicas e coloridas, abraçados uns aos outros, sentindo-se tĂŁo bem, pequenas crianças ilesas, desfrutando de sua sorte temporĂĄria, odiei-os por terem algo que eu ainda nĂŁo tinha, e disse para mim mesmo, repeti para mim mesmo, algum dia serei tĂŁo feliz quanto vocĂȘs, esperem para ver.
Seguiram dançando, enquanto eu repetia minha frase para eles.
EntĂŁo ouvi um barulho Ă s minhas costas.
â Ei, o que vocĂȘ estĂĄ fazendo?
Era um velho com uma lanterna. Sua cabeça parecia a de um sapo.
â Estou olhando o baile.
Ele manteve a lanterna bem debaixo de seu nariz. Seus olhos eram redondos e grandes, brilhavam como os olhos de um gato sob a luz do luar. Mas sua boca era enrugada, murcha, e sua cabeça era redonda. Havia nessa redondeza tamanha falta de sentido que me fazia lembrar uma abóbora tentando parecer inteligente.
â Tire seu rabo daqui!
Dirigiu o foco da lanterna para cima de mim.
â Quem Ă© vocĂȘ? â perguntei.
â Sou o guarda noturno. Tire seu rabo jĂĄ daqui antes que eu chame a polĂcia!
â Por quĂȘ? Esse Ă© o Baile de Formatura e estou entre os formandos.
Focou a luz bem na minha cara. A banda tocava Deep Purple.
â NĂŁo vem com essa â ele disse. â VocĂȘ tem pelo menos uns 22 anos!
â Estou no livro do ano da escola, classe de 1939, classe dos formandos, Henry Chinaski.
â Por que vocĂȘ nĂŁo estĂĄ lĂĄ dentro dançando?
â Esqueça. Estou indo pra casa.
â Faça isso.
Afastei-me e comecei a andar. Sua lanterna enfocou o caminho, a luz me seguindo. Abandonei o campus. Era uma noite agradĂĄvel e quente, quase abafada. Pensei ter visto alguns vaga-lumes, mas nĂŁo tive certeza.
â Misto-quente
Minha Tiete
fiz uma leitura no Ășltimo sĂĄbado no
bosque para além de Santa Cruz
e estava a 3/4 do final
quando escutei um grito longo e desesperado
e uma jovem bastante
atraente veio correndo em minha direção
vestido longo & fogo divino nos olhos
e invadiu o palco
e gritou: âEU QUERO VOCĂ!
EU QUERO VOCĂ! ME LEVE! ME
LEVE!â
eu disse a ela: âolhe, fique longe
de mimâ.
mas ela continuava agarrada Ă s minhas
roupas e se esfregando em
mim.
âonde vocĂȘ estavaâ, eu lhe perguntei, âquando eu
vivia com apenas uma barra de doce por dia e
mandava meus contos para a
Atlantic Monthly?â
ela agarrou minhas bolas e quase
as arrancou. seus beijos
tinham gosto de sopa de merda.
2 mulheres subiram no palco
e
a carregaram para dentro do
bosque.
eu ainda podia ouvir seus gritos
quando comecei o poema seguinte.
talvez, pensei, eu devesse
tĂȘ-la possuĂdo naquele palco na frente
de todos aqueles olhos.
mas alguém nunca pode ter certeza
se isso Ă© boa poesia ou
ĂĄcido de mĂĄ qualidade.
Fiquei dois dias sem ver Lydia, embora tenha dado um jeito de telefonar para ela umas sete ou oito vezes nesse perĂodo. EntĂŁo o fim de semana chegou. Seu ex-marido, Gerald, costumava ficar com as crianças nos fins de semana.
Peguei o carro e fui atĂ© onde ela morava naquele sĂĄbado, Ă s onze da manhĂŁ, e bati na porta. Ela estava com um jeans apertado, botas, blusa laranja. Seus olhos castanhos pareciam mais escuros do que nunca e, Ă luz do sol, ela abriu a porta, fazendo com que eu notasse um tom natural em seus cabelos escuros. Aquilo foi surpreendente. Me deixou beijĂĄ-la; entĂŁo fechou a porta atrĂĄs de nĂłs e fomos atĂ© o meu carro. A gente tinha decidido ir Ă praia â nĂŁo para tomar banho â, pois era pleno inverno, mas sĂł para fazer alguma coisa.
Seguimos. Era bom ter Lydia no carro comigo.
â Que festa aquela â ela disse. â VocĂȘ chama aquilo de festa de colação? Aquilo era uma festa da copulação, isso sim. Uma festa da copulação!
Eu dirigia com uma das mĂŁos, enquanto a outra descansava na parte interna da coxa de Lydia. NĂŁo conseguia evitar. Ela nĂŁo parecia se importar. Eu ia dirigindo, e a mĂŁo escorregou por entre suas pernas. Ela continuou a conversar. De repente, ela disse:
â Tire a mĂŁo. AĂ Ă© a minha buceta!
â Desculpe â eu disse.
Nenhum de nós disse nada até chegarmos ao estacionamento em Venice Beach.
â VocĂȘ quer um sanduĂche e uma coca, algo assim? â perguntei.
â Beleza â ela disse.
Entramos num mercadinho judeu pra comprar as coisas e as levamos para um montinho gramado que dava para o mar. TĂnhamos sanduĂches, picles, batatas fritas e refrigerantes. A praia estava quase deserta e a comida estava com um gosto bom. Lydia nĂŁo dizia nada. Fiquei espantado com a rapidez com que ela comia. Estraçalhava o sanduĂche com selvageria, tomava grandes goles de coca, comia metade de um picles com uma sĂł mordida e pegava enormes punhados de batata frita. Eu, ao contrĂĄrio, como muito devagar.
PaixĂŁo, pensei, ela exalava paixĂŁo.
â Que tal esse sanduĂche? â perguntei.
â Uma beleza. Eu estava com fome.
â Eles fazem sanduĂches legais. Quer mais alguma coisa?
â Sim, queria um doce.
â De que tipo?
â Ah, qualquer um. Um que fosse gostoso.
Dei uma mordida no meu sanduĂche, tomei um gole de Coca, larguei tudo e fui atĂ© o mercadinho. Comprei dois doces, assim ela poderia escolher. Na volta, vi que um negro alto se dirigia ate o montinho. Era um dia frio, mas o cara estava sem camisa e tinha um corpo bem musculoso. Parecia ter vinte e poucos anos. Andava devagar e ereto. Tinha um pescoço longo, magro, e um brinco de ouro pendurado na orelha esquerda. Passou na frente de Lydia, pela areia, entre ela e o mar. Subi no montinho e sentei ao lado de Lydia.
â VocĂȘ viu aquele cara? â ela perguntou.
â Sim.
â Jesus, e eu estou com vocĂȘ, vinte anos mais velho do que eu. Podia pegar alguĂ©m como ele... O que hĂĄ de errado comigo, afinal?
â Olhe. Trouxe dois doces. Pegue um.
Pegou um, rasgou o invĂłlucro, deu uma mordida e ficou olhando o rapaz negro que se afastava ao longo da praia.
â Cansei da praia â ela disse â, vamos voltar para minha casa.
Ficamos uma semana sem nos ver. EntĂŁo, certa tarde, lĂĄ estava eu na casa de Lydia, os dois na cama, nos beijando. Lydia se afastou.
â VocĂȘ nĂŁo entende nada de mulher, nĂŁo Ă© mesmo?
â Do que vocĂȘ estĂĄ falando?
â Quero dizer, ao ler seus poemas e seus contos dĂĄ pra ver que vocĂȘ nĂŁo entende nada de mulher.
â Me fale mais.
â Bem, Ă© que para eu me interessar por um homem ele tem que chupar minha buceta. VocĂȘ jĂĄ chupou uma buceta?
â NĂŁo.
â VocĂȘ tem mais de cinquenta anos e nunca chupou uma buceta?
â NĂŁo.
â Tarde demais.
â Por quĂȘ?
â NĂŁo dĂĄ pra ensinar truque novo pra cachorro velho.
â Claro que dĂĄ.
â NĂŁo, Ă© tarde demais pra vocĂȘ.
â Sempre demorei pra arrancar na largada.
Lydia se levantou e foi até a sala. Voltou com um låpis e um pedaço de papel.
â Agora, veja bem, vou mostrar uma coisa pra vocĂȘ. â Começou a desenhar no papel. â Bem, isso Ă© uma buceta, e aqui fica um negĂłcio de que vocĂȘ provavelmente nunca ouviu falar: o clitĂłris. Aqui Ă© o lugar onde estĂŁo as sensaçÔes. O clitĂłris se esconde, consegue ver, ele sai pra fora de vez em quando, Ă© cor-de-rosa e muito sensĂvel. Ăs vezes ele se esconde de vocĂȘ e Ă© preciso achĂĄ-lo. Basta tocar nele com a ponta da lĂngua...
â Ok â eu disse â, entendi tudo.
â Acho que vocĂȘ nĂŁo vai conseguir. JĂĄ disse, nĂŁo dĂĄ pra ensinar truque novo pra um cachorro velho.
â Vamos tirar a roupa e nos deitar.
A gente se despiu e se esticou na cama. Comecei a beijar Lydia. Desci dos låbios para o pescoço, e daà para os peitos. Depois, deslizei até o umbigo. Desci mais.
â VocĂȘ nĂŁo conseguirĂĄ â ela disse. â Sai sangue e urina daĂ; pense nisso, sangue e urina...
Fui lĂĄ embaixo e comecei a lamber. Ela fizera um desenho acurado para mim. Tudo estava onde devia estar. Ouvi sua respiração ficar pesada; depois gemidos. Aquilo me excitou. Fiquei de pau duro. O clitĂłris se revelou, mas nĂŁo era exatamente rosado, era de um rosa-pĂșrpura. Aticei o clitĂłris. Brotaram uns sucos que se misturaram com os pentelhos. Lydia gemia sem parar. EntĂŁo escutei a porta da frente abrir e fechar. Ouvi passos. Ergui os olhos. Um negrinho de uns cinco anos estava ali parado, ao lado da cama.
â Mas que diabos vocĂȘ quer aqui? â perguntei.
â Tem alguma garrafa vazia? â perguntou.
â NĂŁo, nĂŁo tenho nenhuma garrafa vazia â respondi.
Ele saiu do quarto para a sala, saiu pela porta da frente e se foi.
â Deus â disse Lydia â, achei que a porta da frente estava trancada. Era o garotinho da Bonnie.
Lydia se levantou e trancou a porta da frente. Voltou e se estendeu na cama. Eram umas quatro horas da tarde de sĂĄbado.
Voltei a mergulhar ali.
â Mulheres
bosque para além de Santa Cruz
e estava a 3/4 do final
quando escutei um grito longo e desesperado
e uma jovem bastante
atraente veio correndo em minha direção
vestido longo & fogo divino nos olhos
e invadiu o palco
e gritou: âEU QUERO VOCĂ!
EU QUERO VOCĂ! ME LEVE! ME
LEVE!â
eu disse a ela: âolhe, fique longe
de mimâ.
mas ela continuava agarrada Ă s minhas
roupas e se esfregando em
mim.
âonde vocĂȘ estavaâ, eu lhe perguntei, âquando eu
vivia com apenas uma barra de doce por dia e
mandava meus contos para a
Atlantic Monthly?â
ela agarrou minhas bolas e quase
as arrancou. seus beijos
tinham gosto de sopa de merda.
2 mulheres subiram no palco
e
a carregaram para dentro do
bosque.
eu ainda podia ouvir seus gritos
quando comecei o poema seguinte.
talvez, pensei, eu devesse
tĂȘ-la possuĂdo naquele palco na frente
de todos aqueles olhos.
mas alguém nunca pode ter certeza
se isso Ă© boa poesia ou
ĂĄcido de mĂĄ qualidade.
Fiquei dois dias sem ver Lydia, embora tenha dado um jeito de telefonar para ela umas sete ou oito vezes nesse perĂodo. EntĂŁo o fim de semana chegou. Seu ex-marido, Gerald, costumava ficar com as crianças nos fins de semana.
Peguei o carro e fui atĂ© onde ela morava naquele sĂĄbado, Ă s onze da manhĂŁ, e bati na porta. Ela estava com um jeans apertado, botas, blusa laranja. Seus olhos castanhos pareciam mais escuros do que nunca e, Ă luz do sol, ela abriu a porta, fazendo com que eu notasse um tom natural em seus cabelos escuros. Aquilo foi surpreendente. Me deixou beijĂĄ-la; entĂŁo fechou a porta atrĂĄs de nĂłs e fomos atĂ© o meu carro. A gente tinha decidido ir Ă praia â nĂŁo para tomar banho â, pois era pleno inverno, mas sĂł para fazer alguma coisa.
Seguimos. Era bom ter Lydia no carro comigo.
â Que festa aquela â ela disse. â VocĂȘ chama aquilo de festa de colação? Aquilo era uma festa da copulação, isso sim. Uma festa da copulação!
Eu dirigia com uma das mĂŁos, enquanto a outra descansava na parte interna da coxa de Lydia. NĂŁo conseguia evitar. Ela nĂŁo parecia se importar. Eu ia dirigindo, e a mĂŁo escorregou por entre suas pernas. Ela continuou a conversar. De repente, ela disse:
â Tire a mĂŁo. AĂ Ă© a minha buceta!
â Desculpe â eu disse.
Nenhum de nós disse nada até chegarmos ao estacionamento em Venice Beach.
â VocĂȘ quer um sanduĂche e uma coca, algo assim? â perguntei.
â Beleza â ela disse.
Entramos num mercadinho judeu pra comprar as coisas e as levamos para um montinho gramado que dava para o mar. TĂnhamos sanduĂches, picles, batatas fritas e refrigerantes. A praia estava quase deserta e a comida estava com um gosto bom. Lydia nĂŁo dizia nada. Fiquei espantado com a rapidez com que ela comia. Estraçalhava o sanduĂche com selvageria, tomava grandes goles de coca, comia metade de um picles com uma sĂł mordida e pegava enormes punhados de batata frita. Eu, ao contrĂĄrio, como muito devagar.
PaixĂŁo, pensei, ela exalava paixĂŁo.
â Que tal esse sanduĂche? â perguntei.
â Uma beleza. Eu estava com fome.
â Eles fazem sanduĂches legais. Quer mais alguma coisa?
â Sim, queria um doce.
â De que tipo?
â Ah, qualquer um. Um que fosse gostoso.
Dei uma mordida no meu sanduĂche, tomei um gole de Coca, larguei tudo e fui atĂ© o mercadinho. Comprei dois doces, assim ela poderia escolher. Na volta, vi que um negro alto se dirigia ate o montinho. Era um dia frio, mas o cara estava sem camisa e tinha um corpo bem musculoso. Parecia ter vinte e poucos anos. Andava devagar e ereto. Tinha um pescoço longo, magro, e um brinco de ouro pendurado na orelha esquerda. Passou na frente de Lydia, pela areia, entre ela e o mar. Subi no montinho e sentei ao lado de Lydia.
â VocĂȘ viu aquele cara? â ela perguntou.
â Sim.
â Jesus, e eu estou com vocĂȘ, vinte anos mais velho do que eu. Podia pegar alguĂ©m como ele... O que hĂĄ de errado comigo, afinal?
â Olhe. Trouxe dois doces. Pegue um.
Pegou um, rasgou o invĂłlucro, deu uma mordida e ficou olhando o rapaz negro que se afastava ao longo da praia.
â Cansei da praia â ela disse â, vamos voltar para minha casa.
Ficamos uma semana sem nos ver. EntĂŁo, certa tarde, lĂĄ estava eu na casa de Lydia, os dois na cama, nos beijando. Lydia se afastou.
â VocĂȘ nĂŁo entende nada de mulher, nĂŁo Ă© mesmo?
â Do que vocĂȘ estĂĄ falando?
â Quero dizer, ao ler seus poemas e seus contos dĂĄ pra ver que vocĂȘ nĂŁo entende nada de mulher.
â Me fale mais.
â Bem, Ă© que para eu me interessar por um homem ele tem que chupar minha buceta. VocĂȘ jĂĄ chupou uma buceta?
â NĂŁo.
â VocĂȘ tem mais de cinquenta anos e nunca chupou uma buceta?
â NĂŁo.
â Tarde demais.
â Por quĂȘ?
â NĂŁo dĂĄ pra ensinar truque novo pra cachorro velho.
â Claro que dĂĄ.
â NĂŁo, Ă© tarde demais pra vocĂȘ.
â Sempre demorei pra arrancar na largada.
Lydia se levantou e foi até a sala. Voltou com um låpis e um pedaço de papel.
â Agora, veja bem, vou mostrar uma coisa pra vocĂȘ. â Começou a desenhar no papel. â Bem, isso Ă© uma buceta, e aqui fica um negĂłcio de que vocĂȘ provavelmente nunca ouviu falar: o clitĂłris. Aqui Ă© o lugar onde estĂŁo as sensaçÔes. O clitĂłris se esconde, consegue ver, ele sai pra fora de vez em quando, Ă© cor-de-rosa e muito sensĂvel. Ăs vezes ele se esconde de vocĂȘ e Ă© preciso achĂĄ-lo. Basta tocar nele com a ponta da lĂngua...
â Ok â eu disse â, entendi tudo.
â Acho que vocĂȘ nĂŁo vai conseguir. JĂĄ disse, nĂŁo dĂĄ pra ensinar truque novo pra um cachorro velho.
â Vamos tirar a roupa e nos deitar.
A gente se despiu e se esticou na cama. Comecei a beijar Lydia. Desci dos låbios para o pescoço, e daà para os peitos. Depois, deslizei até o umbigo. Desci mais.
â VocĂȘ nĂŁo conseguirĂĄ â ela disse. â Sai sangue e urina daĂ; pense nisso, sangue e urina...
Fui lĂĄ embaixo e comecei a lamber. Ela fizera um desenho acurado para mim. Tudo estava onde devia estar. Ouvi sua respiração ficar pesada; depois gemidos. Aquilo me excitou. Fiquei de pau duro. O clitĂłris se revelou, mas nĂŁo era exatamente rosado, era de um rosa-pĂșrpura. Aticei o clitĂłris. Brotaram uns sucos que se misturaram com os pentelhos. Lydia gemia sem parar. EntĂŁo escutei a porta da frente abrir e fechar. Ouvi passos. Ergui os olhos. Um negrinho de uns cinco anos estava ali parado, ao lado da cama.
â Mas que diabos vocĂȘ quer aqui? â perguntei.
â Tem alguma garrafa vazia? â perguntou.
â NĂŁo, nĂŁo tenho nenhuma garrafa vazia â respondi.
Ele saiu do quarto para a sala, saiu pela porta da frente e se foi.
â Deus â disse Lydia â, achei que a porta da frente estava trancada. Era o garotinho da Bonnie.
Lydia se levantou e trancou a porta da frente. Voltou e se estendeu na cama. Eram umas quatro horas da tarde de sĂĄbado.
Voltei a mergulhar ali.
â Mulheres
Morda-Se de Raiva
vim até aqui, ela diz, para lhe falar
que estĂĄ tudo acabado. nĂŁo estou de brincadeira,
acabou. ficamos assim.
sento no sofĂĄ olhando ela ajeitar
seus cabelos longos e ruivos em frente ao espelho
do meu quarto.
ela ergue os cabelos e
faz um coque no topo da cabeça â
ela deixa que seus olhos encontrem
os meus â
entĂŁo ela solta os cabelos e
deixa que eles lhe cubram o rosto.
vamos para a cama e eu a seguro
de costas sem dizer uma palavra
meu braço em volta de seu pescoço
toco seus pulsos e mĂŁos
sinto-a até chegar
aos cotovelos
mas não além.
ela se levanta.
estĂĄ tudo acabado, ela diz,
morda-se de raiva. vocĂȘ
tem alguma borrachinha?
nĂŁo sei.
achei uma, ela diz,
vai servir. bem,
vou indo.
me levanto e a levo
até a porta
logo ao sair
ela diz,
quero que vocĂȘ me compre
um sapato de salto alto
salto agulha
sapatos pretos de salto.
nĂŁo, quero um par
vermelho.
vejo ela seguir pela passagem de cimento
debaixo das ĂĄrvores
ela caminha direitinho e
enquanto as poinsétias gotejam ao sol
eu fecho a porta.
que estĂĄ tudo acabado. nĂŁo estou de brincadeira,
acabou. ficamos assim.
sento no sofĂĄ olhando ela ajeitar
seus cabelos longos e ruivos em frente ao espelho
do meu quarto.
ela ergue os cabelos e
faz um coque no topo da cabeça â
ela deixa que seus olhos encontrem
os meus â
entĂŁo ela solta os cabelos e
deixa que eles lhe cubram o rosto.
vamos para a cama e eu a seguro
de costas sem dizer uma palavra
meu braço em volta de seu pescoço
toco seus pulsos e mĂŁos
sinto-a até chegar
aos cotovelos
mas não além.
ela se levanta.
estĂĄ tudo acabado, ela diz,
morda-se de raiva. vocĂȘ
tem alguma borrachinha?
nĂŁo sei.
achei uma, ela diz,
vai servir. bem,
vou indo.
me levanto e a levo
até a porta
logo ao sair
ela diz,
quero que vocĂȘ me compre
um sapato de salto alto
salto agulha
sapatos pretos de salto.
nĂŁo, quero um par
vermelho.
vejo ela seguir pela passagem de cimento
debaixo das ĂĄrvores
ela caminha direitinho e
enquanto as poinsétias gotejam ao sol
eu fecho a porta.
Não Temos Grana, Querida, mas temos a Chuva
chame isso de efeito estufa ou do que quiser
mas jĂĄ nĂŁo chove mais como antes
lembro particularmente das chuvas na época da
depressĂŁo.
estavam todos sem grana mas havia
muita chuva.
nĂŁo era chuva que durava uma noite ou
um dia,
CHOVIA por 7 dias e 7
noites
e em Los Angeles as bocas de lobo
nĂŁo eram construĂdas para suportar essa quantidade de
ĂĄgua
e a chuva caĂa PESADA e
INCLEMENTE e
CONSTANTE
e vocĂȘ a OUVIA bater contra
os telhados e descer até o chão
cascatas de ĂĄgua desciam
dos telhados
e de vez em quando havia GRANIZOS
grandes PEDRAS DE GELO
bombardeando
explodindo
chocando-se contra as coisas
e a chuva
simplesmente
NĂO PARAVA
começavam as goteiras...
bacias,
panelas
eram espalhadas por toda parte;
todo aquele gotejar barulhento
e a necessidade de esvaziĂĄ-las
vez apĂłs
vez.
a chuva inundava as ruas e os meio-fios
invadia os gramados, escalava os degraus e
entrava nas casas.
havia panos de chĂŁo e toalhas de banho,
e a chuva com frequĂȘncia subia pelas
privadas: borbulhante, marrom, enlouquecida, a girar,
e os carros velhos ficavam nas ruas,
carros que jĂĄ tinham problemas para dar a partida num
dia ensolarado,
e os homens sem emprego plantados
acompanhando das janelas
o perecer das velhas carroças
como criaturas vivas
lĂĄ fora.
os homens sem emprego,
fracassados em um tempo fracassado
tornavam-se prisioneiros em suas casas com suas
mulheres e crianças
e seus animais de
estimação.
os bichos se recusavam a sair
e deixavam seus dejetos em
lugares estranhos.
os homens sem emprego enlouqueciam
confinados com
suas mulheres que um dia foram belas.
havia terrĂveis discussĂ”es
assim que as açÔes de despejo
chegavam pelo correio.
chuva e granizo, latas de feijĂŁo,
pĂŁo sem manteiga; ovos
fritos, ovos cozidos, ovos
mexidos; sanduĂches de manteiga de
amendoim, e uma galinha
invisĂvel
em cada panela.
meu pai, nem de longe um homem
decente, batia em minha mĂŁe
quando chovia
enquanto eu me lançava
entre eles,
as pernas, os joelhos, os
gritos
até que eles se
separassem.
âEu te matoâ, eu gritava
para ele. âSe bater de novo nela
eu acabo com a tua raça!â
âTire esse fedelho filho da puta
daqui!â
ânĂŁo, Henry, vocĂȘ fica com
a sua mĂŁe!â
todas as famĂlias estavam
sitiadas mas creio que a nossa
continha mais terror do que o
normal.
e Ă noite
quando tentĂĄvamos dormir
o dilĂșvio continuava caindo
e foi na cama
no escuro
observando a lua contra
a janela marcada
cheia de bravura
suportando
grande parte da chuva,
que pensei em Noé e na
Arca
e que estava acontecendo
de novo.
todos pensamos
isso.
e entĂŁo, de sĂșbito, ela
parava.
sempre por volta das 5 ou 6 da manhĂŁ,
e havia paz,
mas nĂŁo um silĂȘncio enxuto
porque as coisas continuavam a
pingar
pingar
pingar
e entĂŁo nĂŁo havia a cerração poluĂda
e lĂĄ pelas oito da manhĂŁ
surgia
um sol amarelo e escaldante,
um amarelo de Van Gogh â
ofuscante, enlouquecedor!
e entĂŁo
os telhados escoavam
aliviados das correntes de
ĂĄgua
e começavam a se dilatar
com o calor:
PLAC! PLAC! PLAC!
e todos se levantavam
e davam uma olhada para fora
lĂĄ estavam todos os gramados
ainda encharcados
mais verdes do que o prĂłprio verde poderia
ser
e lĂĄ estavam os pĂĄssaros
sobre o gramado
PIANDO como loucos,
nĂŁo haviam se alimentado decentemente
hĂĄ 7 dias e 7 noites
e estavam fartos de
frutinhas
e
esperavam que as minhocas
viessem Ă superfĂcie,
minhocas semiafogadas.
os pĂĄssaros as arrancavam
e
as tragavam com
voracidade; havia
melros e pardais.
os melros tentavam
afugentar os pardais
mas os pardais,
ensandecidos pela fome,
menores e mais rĂĄpidos,
pegavam a maior
parte.
os homens ficavam nas varandas
fumando cigarros,
sabendo que agora
teriam que sair
para
procurar aquele emprego
que provavelmente nĂŁo estaria
lĂĄ, que teriam que dar partida num carro
que provavelmente nĂŁo iria
pegar.
e as mulheres que um dia foram
belas
ficavam nos banheiros
penteando os cabelos,
passando maquiagem,
tentando recompor outra vez o que lhes
restava do mundo,
tentando esquecer a
medonha tristeza que se lhes
aferrava,
perguntando-se o que podiam
arrumar para o
café da manhã.
e pelo rĂĄdio
sabĂamos que
as escolas jĂĄ estavam
abertas.
e
logo
lĂĄ estava eu
a caminho da escola,
poças imensas pela
rua,
o sol como um novo
mundo,
meus pais voltando para dentro de
casa,
e eu entrando na sala de aula
no horĂĄrio.
a sra. Sorenson nos saudou
com ânĂŁo teremos o nosso
recreio de sempre, o pĂĄtio estĂĄ
muito molhadoâ.
âAh, nĂŁoâ, disseram quase todos os
garotos.
âmas vamos fazer
algo especial na hora do
recreioâ, ela prosseguiu,
âe serĂĄ bem
divertido!â
bem, ficamos nos perguntando
o que
seria
e as duas horas de espera
pareceram infinitas
enquanto a sra. Sorenson
seguia
com sua
lição.
Eu olhava para as
garotinhas, todas eram tĂŁo
bonitas e limpas e
espertas,
sentavam-se aprumadas e
eretas
e seus cabelos eram
lindos
debaixo do sol da
CalifĂłrnia.
entĂŁo a sineta do recreio soou
e todos esperĂĄvamos pela
diversĂŁo.
entĂŁo a sra. Sorenson nos
disse:
âagora, o que faremos
Ă© dizer uns aos
outros o que fizemos
durante o temporal!
começaremos pela fila da
frente e iremos até o fundo!
bem, Michael, vocĂȘ Ă©
o primeiro!...â
bem, nós todos começamos a contar
nossas histĂłrias, Michael foi o primeiro
e depois aquilo seguiu,
e logo percebemos que
todos mentĂamos, nĂŁo
exatamente em tudo mas em boa parte
sim e alguns dos garotos
começaram a dar risadinhas e algumas
das garotas começaram a
olhar feio para eles e
a sra. Sorenson disse,
âtudo bem, exijo que se faça
um pouquinho de silĂȘncio
aqui!
estou interessada no que
vocĂȘs fizeram
durante o temporal
ainda que vocĂȘs
nĂŁo estejam!â
entĂŁo tivemos que seguir com nossas
histĂłrias e eram histĂłrias
inventadas.
uma garota disse que
assim que o arco-Ăris
apareceu
ela viu a face de Deus
numa das extremidades.
esqueceu apenas de dizer
em qual delas.
um dos garotos disse que estendeu
sua vara de pescar
pela janela
e apanhou um
peixinho
e deu para o seu gato
comer.
quase todo mundo contou
uma mentira.
a verdade era simplesmente
terrĂvel e por demais
embaraçosa para ser
dita.
entĂŁo a sineta soou
e o recreio chegou ao
fim.
âobrigadaâ, disse a sra.
Sorenson, âisso foi muito
legal.
e amanhĂŁ o pĂĄtio
estarĂĄ seco
e poderemos
usĂĄ-lo
outra vez.â
boa parte dos garotos
sorriu
e as garotinhas
sentaram-se bem eretas e
aprumadas,
parecendo tĂŁo bonitas e
limpas e
espertas,
seus cabelos lindos
debaixo de um sol que
o mundo talvez
jamais voltasse
a ver.
Uma noite meu pai me levou com ele na entrega do leite. Não havia mais carroça puxada a cavalo. Os caminhÔes de leite agora eram movidos a motor. Após carregar a caçamba lå na companhia de leite, seguimos o trajeto das entregas. Era bom jå estar na rua antes do amanhecer. A lua ainda estava no céu, e eu podia ver as estrelas. Fazia frio, mas era excitante. Perguntava-me por que meu pai me convidara para vir com ele uma vez que dera para me bater com o amolador da navalha uma ou duas vezes por semana e não havia entre nós qualquer intimidade.
A cada parada, ele saltava e entregava uma ou duas garrafas de leite. Ăs vezes era queijo cottage, ou coalhada, ou manteiga e, de vez em quando, uma garrafa de suco de laranja. A maioria das pessoas deixava bilhetes nas garrafas vazias explicando o que queriam.
Meu pai ia guiando, parando e dando a partida no motor, fazendo entregas.
â Bem, garoto, em que direção estamos indo agora?
â Norte.
â VocĂȘ estĂĄ certo, estamos indo pro norte.
PercorrĂamos as ruas, parando e seguindo adiante.
â Bem, e agora? Em qual direção?
â Oeste.
â NĂŁo, estamos indo pro sul.
Seguimos mais um tempo, em silĂȘncio.
â Vamos supor que eu expulse vocĂȘ do caminhĂŁo agora e o deixe no meio da calçada. O que vocĂȘ faria?
â NĂŁo sei.
â Quero dizer, como vocĂȘ sobreviveria?
â Bem, acho que voltaria atĂ© a Ășltima casa e pegaria o leite e o suco de laranja que vocĂȘ deixou nos degraus.
â E depois disso? O que faria?
â Encontraria um policial e contaria a ele o que vocĂȘ fez comigo.
â Contaria, hein? E o que Ă© que vocĂȘ iria contar?
â Diria a ele que vocĂȘ quis que eu me perdesse afirmando que o âoesteâ era o âsulâ.
O dia começava a raiar. Logo todas as entregas haviam sido feitas e paramos para tomar café numa lancheria. A garçonete se aproximou.
â OlĂĄ, Henry â ela disse a meu pai.
â OlĂĄ, Betty.
â Quem Ă© o garoto?
â Este Ă© o pequeno Henry.
â Ă a sua cara.
â Mas nĂŁo tem meus miolos, acho.
â Espero que nĂŁo.
Fizemos o pedido. Ovos com bacon. Enquanto comĂamos, meu pai disse:
â Agora vem a parte mais difĂcil.
â Qual?
â Tenho que recolher o dinheiro que as pessoas me devem. Algumas delas nĂŁo querem pagar.
â Mas elas tĂȘm que pagar.
â Ă o que sempre lhes digo.
Terminamos de comer e voltamos ao trabalho. Meu pai descia e batia nas portas. Eu podia ouvi-lo reclamar aos berros:
â COMO, DIABOS, PENSA QUE EU VOU TER O QUE COMER? VOCĂ JĂ SECOU O LEITE, AGORA Ă HORA DE CAGAR O DINHEIRO!
Usava um discurso diferente a cada cobrança. Ăs vezes voltava com o dinheiro, em outras nĂŁo.
Então o vi entrar numa espécie de cortiço. Uma porta se abriu, e uma mulher ficou ali parada, vestida num quimono de seda desatado. Ela fumava um cigarro.
â Escute, boneca, preciso receber o dinheiro. VocĂȘ Ă© minha maior devedora!
Ela riu na cara dele.
â Veja, boneca, me dĂȘ a metade, me pague alguma coisa, dĂȘ algum sinal.
Ela fez um anel de fumaça e em seguida o rompeu com o dedo.
â Escute, vocĂȘ precisa me pagar â disse meu pai. â Esta Ă© uma situação desesperadora.
â Entre. Falaremos sobre isso â disse a mulher.
Meu pai entrou, e a porta se fechou. Ficou lĂĄ dentro por uma eternidade. O sol jĂĄ ia alto. Quando meu pai saiu, o cabelo lhe caĂa sobre o rosto e ele colocava a barra da camisa para dentro das calças. Subiu no caminhĂŁo.
â A mulher deu o dinheiro? â perguntei.
â Esta foi a Ășltima parada â disse meu pai. â Estou exausto. Vamos devolver o caminhĂŁo e voltar para casa...
Eu voltaria a ver aquela mulher. Um dia voltei para casa depois da escola, e ela estava sentada numa cadeira na nossa sala da frente. Minha mãe e meu pai também estavam sentados ali, e minha mãe chorava. Quando me viu, correu em minha direção e me agarrou. Levou-me para o quarto e fez com que eu sentasse na cama.
â Henry, vocĂȘ ama sua mĂŁe?
Eu na verdade nĂŁo a amava, mas ela parecia tĂŁo triste que respondi:
â Sim.
Ela me levou de volta para a sala.
â Seu pai estĂĄ dizendo que ama essa mulher â ela me disse.
â Amo vocĂȘs duas! Agora, tire esse garoto daqui!
Senti que meu pai estava fazendo minha mĂŁe muito infeliz.
â Vou matar vocĂȘ â eu disse a meu pai.
â Tire esse garoto daqui!
â Como vocĂȘ pode amar essa mulher? â perguntei. â Veja o nariz dela. O nariz parece uma tromba de elefante!
â Cristo! â exclamou a mulher. â NĂŁo sou obrigada a ouvir isso! â Olhou para o meu pai: â Escolha, Henry! Uma ou outra! Agora!
â Mas nĂŁo consigo! Amo vocĂȘs duas!
â Vou matar vocĂȘ! â eu disse a meu pai.
Ele veio em minha direção e me deu um tapa no ouvido, me derrubando no chão. A mulher se levantou e saiu correndo da casa, e meu pai foi atrås dela. A mulher saltou para dentro do carro do meu pai, deu a partida e seguiu. Tudo se deu de maneira muito råpida. Meu pai saiu correndo rua afora atrås dela e do carro.
â EDNA! EDNA, VOLTE!
Meu pai conseguiu alcançar o carro, pÎs a mão no banco da frente e agarrou a bolsa de Edna. Então o carro acelerou e meu pai ficou para trås com a bolsa.
â Eu sabia que algo estava acontecendo â me disse minha mĂŁe. â EntĂŁo, me escondi no porta-malas e peguei os dois juntos. Seu pai me trouxe atĂ© aqui na companhia daquela mulher horrĂvel. Agora ela levou o carro dele.
Meu pai retornou com a bolsa de Edna.
â Todo mundo pra dentro de casa!
Entramos, e meu pai me trancou no quarto. Os dois começaram a discutir. Gritavam e se diziam coisas pavorosas. Então meu pai começou a bater na minha mãe. Ela gritava e ele seguia lhe dando uma surra. Pulei pela janela e tentei entrar pela porta da frente. Estava trancada. Tentei a porta dos fundos, as janelas. Tudo estava trancado. Fiquei plantado no påtio dos fundos, ouvindo os gritos e a pancadaria.
Então os gritos e a pancadaria cessaram e tudo o que eu podia ouvir era minha mãe soluçando. Soluçou por um longo tempo. Gradualmente, os espasmos foram diminuindo e diminuindo, até que ela silenciou.
â Misto-quente
mas jĂĄ nĂŁo chove mais como antes
lembro particularmente das chuvas na época da
depressĂŁo.
estavam todos sem grana mas havia
muita chuva.
nĂŁo era chuva que durava uma noite ou
um dia,
CHOVIA por 7 dias e 7
noites
e em Los Angeles as bocas de lobo
nĂŁo eram construĂdas para suportar essa quantidade de
ĂĄgua
e a chuva caĂa PESADA e
INCLEMENTE e
CONSTANTE
e vocĂȘ a OUVIA bater contra
os telhados e descer até o chão
cascatas de ĂĄgua desciam
dos telhados
e de vez em quando havia GRANIZOS
grandes PEDRAS DE GELO
bombardeando
explodindo
chocando-se contra as coisas
e a chuva
simplesmente
NĂO PARAVA
começavam as goteiras...
bacias,
panelas
eram espalhadas por toda parte;
todo aquele gotejar barulhento
e a necessidade de esvaziĂĄ-las
vez apĂłs
vez.
a chuva inundava as ruas e os meio-fios
invadia os gramados, escalava os degraus e
entrava nas casas.
havia panos de chĂŁo e toalhas de banho,
e a chuva com frequĂȘncia subia pelas
privadas: borbulhante, marrom, enlouquecida, a girar,
e os carros velhos ficavam nas ruas,
carros que jĂĄ tinham problemas para dar a partida num
dia ensolarado,
e os homens sem emprego plantados
acompanhando das janelas
o perecer das velhas carroças
como criaturas vivas
lĂĄ fora.
os homens sem emprego,
fracassados em um tempo fracassado
tornavam-se prisioneiros em suas casas com suas
mulheres e crianças
e seus animais de
estimação.
os bichos se recusavam a sair
e deixavam seus dejetos em
lugares estranhos.
os homens sem emprego enlouqueciam
confinados com
suas mulheres que um dia foram belas.
havia terrĂveis discussĂ”es
assim que as açÔes de despejo
chegavam pelo correio.
chuva e granizo, latas de feijĂŁo,
pĂŁo sem manteiga; ovos
fritos, ovos cozidos, ovos
mexidos; sanduĂches de manteiga de
amendoim, e uma galinha
invisĂvel
em cada panela.
meu pai, nem de longe um homem
decente, batia em minha mĂŁe
quando chovia
enquanto eu me lançava
entre eles,
as pernas, os joelhos, os
gritos
até que eles se
separassem.
âEu te matoâ, eu gritava
para ele. âSe bater de novo nela
eu acabo com a tua raça!â
âTire esse fedelho filho da puta
daqui!â
ânĂŁo, Henry, vocĂȘ fica com
a sua mĂŁe!â
todas as famĂlias estavam
sitiadas mas creio que a nossa
continha mais terror do que o
normal.
e Ă noite
quando tentĂĄvamos dormir
o dilĂșvio continuava caindo
e foi na cama
no escuro
observando a lua contra
a janela marcada
cheia de bravura
suportando
grande parte da chuva,
que pensei em Noé e na
Arca
e que estava acontecendo
de novo.
todos pensamos
isso.
e entĂŁo, de sĂșbito, ela
parava.
sempre por volta das 5 ou 6 da manhĂŁ,
e havia paz,
mas nĂŁo um silĂȘncio enxuto
porque as coisas continuavam a
pingar
pingar
pingar
e entĂŁo nĂŁo havia a cerração poluĂda
e lĂĄ pelas oito da manhĂŁ
surgia
um sol amarelo e escaldante,
um amarelo de Van Gogh â
ofuscante, enlouquecedor!
e entĂŁo
os telhados escoavam
aliviados das correntes de
ĂĄgua
e começavam a se dilatar
com o calor:
PLAC! PLAC! PLAC!
e todos se levantavam
e davam uma olhada para fora
lĂĄ estavam todos os gramados
ainda encharcados
mais verdes do que o prĂłprio verde poderia
ser
e lĂĄ estavam os pĂĄssaros
sobre o gramado
PIANDO como loucos,
nĂŁo haviam se alimentado decentemente
hĂĄ 7 dias e 7 noites
e estavam fartos de
frutinhas
e
esperavam que as minhocas
viessem Ă superfĂcie,
minhocas semiafogadas.
os pĂĄssaros as arrancavam
e
as tragavam com
voracidade; havia
melros e pardais.
os melros tentavam
afugentar os pardais
mas os pardais,
ensandecidos pela fome,
menores e mais rĂĄpidos,
pegavam a maior
parte.
os homens ficavam nas varandas
fumando cigarros,
sabendo que agora
teriam que sair
para
procurar aquele emprego
que provavelmente nĂŁo estaria
lĂĄ, que teriam que dar partida num carro
que provavelmente nĂŁo iria
pegar.
e as mulheres que um dia foram
belas
ficavam nos banheiros
penteando os cabelos,
passando maquiagem,
tentando recompor outra vez o que lhes
restava do mundo,
tentando esquecer a
medonha tristeza que se lhes
aferrava,
perguntando-se o que podiam
arrumar para o
café da manhã.
e pelo rĂĄdio
sabĂamos que
as escolas jĂĄ estavam
abertas.
e
logo
lĂĄ estava eu
a caminho da escola,
poças imensas pela
rua,
o sol como um novo
mundo,
meus pais voltando para dentro de
casa,
e eu entrando na sala de aula
no horĂĄrio.
a sra. Sorenson nos saudou
com ânĂŁo teremos o nosso
recreio de sempre, o pĂĄtio estĂĄ
muito molhadoâ.
âAh, nĂŁoâ, disseram quase todos os
garotos.
âmas vamos fazer
algo especial na hora do
recreioâ, ela prosseguiu,
âe serĂĄ bem
divertido!â
bem, ficamos nos perguntando
o que
seria
e as duas horas de espera
pareceram infinitas
enquanto a sra. Sorenson
seguia
com sua
lição.
Eu olhava para as
garotinhas, todas eram tĂŁo
bonitas e limpas e
espertas,
sentavam-se aprumadas e
eretas
e seus cabelos eram
lindos
debaixo do sol da
CalifĂłrnia.
entĂŁo a sineta do recreio soou
e todos esperĂĄvamos pela
diversĂŁo.
entĂŁo a sra. Sorenson nos
disse:
âagora, o que faremos
Ă© dizer uns aos
outros o que fizemos
durante o temporal!
começaremos pela fila da
frente e iremos até o fundo!
bem, Michael, vocĂȘ Ă©
o primeiro!...â
bem, nós todos começamos a contar
nossas histĂłrias, Michael foi o primeiro
e depois aquilo seguiu,
e logo percebemos que
todos mentĂamos, nĂŁo
exatamente em tudo mas em boa parte
sim e alguns dos garotos
começaram a dar risadinhas e algumas
das garotas começaram a
olhar feio para eles e
a sra. Sorenson disse,
âtudo bem, exijo que se faça
um pouquinho de silĂȘncio
aqui!
estou interessada no que
vocĂȘs fizeram
durante o temporal
ainda que vocĂȘs
nĂŁo estejam!â
entĂŁo tivemos que seguir com nossas
histĂłrias e eram histĂłrias
inventadas.
uma garota disse que
assim que o arco-Ăris
apareceu
ela viu a face de Deus
numa das extremidades.
esqueceu apenas de dizer
em qual delas.
um dos garotos disse que estendeu
sua vara de pescar
pela janela
e apanhou um
peixinho
e deu para o seu gato
comer.
quase todo mundo contou
uma mentira.
a verdade era simplesmente
terrĂvel e por demais
embaraçosa para ser
dita.
entĂŁo a sineta soou
e o recreio chegou ao
fim.
âobrigadaâ, disse a sra.
Sorenson, âisso foi muito
legal.
e amanhĂŁ o pĂĄtio
estarĂĄ seco
e poderemos
usĂĄ-lo
outra vez.â
boa parte dos garotos
sorriu
e as garotinhas
sentaram-se bem eretas e
aprumadas,
parecendo tĂŁo bonitas e
limpas e
espertas,
seus cabelos lindos
debaixo de um sol que
o mundo talvez
jamais voltasse
a ver.
Uma noite meu pai me levou com ele na entrega do leite. Não havia mais carroça puxada a cavalo. Os caminhÔes de leite agora eram movidos a motor. Após carregar a caçamba lå na companhia de leite, seguimos o trajeto das entregas. Era bom jå estar na rua antes do amanhecer. A lua ainda estava no céu, e eu podia ver as estrelas. Fazia frio, mas era excitante. Perguntava-me por que meu pai me convidara para vir com ele uma vez que dera para me bater com o amolador da navalha uma ou duas vezes por semana e não havia entre nós qualquer intimidade.
A cada parada, ele saltava e entregava uma ou duas garrafas de leite. Ăs vezes era queijo cottage, ou coalhada, ou manteiga e, de vez em quando, uma garrafa de suco de laranja. A maioria das pessoas deixava bilhetes nas garrafas vazias explicando o que queriam.
Meu pai ia guiando, parando e dando a partida no motor, fazendo entregas.
â Bem, garoto, em que direção estamos indo agora?
â Norte.
â VocĂȘ estĂĄ certo, estamos indo pro norte.
PercorrĂamos as ruas, parando e seguindo adiante.
â Bem, e agora? Em qual direção?
â Oeste.
â NĂŁo, estamos indo pro sul.
Seguimos mais um tempo, em silĂȘncio.
â Vamos supor que eu expulse vocĂȘ do caminhĂŁo agora e o deixe no meio da calçada. O que vocĂȘ faria?
â NĂŁo sei.
â Quero dizer, como vocĂȘ sobreviveria?
â Bem, acho que voltaria atĂ© a Ășltima casa e pegaria o leite e o suco de laranja que vocĂȘ deixou nos degraus.
â E depois disso? O que faria?
â Encontraria um policial e contaria a ele o que vocĂȘ fez comigo.
â Contaria, hein? E o que Ă© que vocĂȘ iria contar?
â Diria a ele que vocĂȘ quis que eu me perdesse afirmando que o âoesteâ era o âsulâ.
O dia começava a raiar. Logo todas as entregas haviam sido feitas e paramos para tomar café numa lancheria. A garçonete se aproximou.
â OlĂĄ, Henry â ela disse a meu pai.
â OlĂĄ, Betty.
â Quem Ă© o garoto?
â Este Ă© o pequeno Henry.
â Ă a sua cara.
â Mas nĂŁo tem meus miolos, acho.
â Espero que nĂŁo.
Fizemos o pedido. Ovos com bacon. Enquanto comĂamos, meu pai disse:
â Agora vem a parte mais difĂcil.
â Qual?
â Tenho que recolher o dinheiro que as pessoas me devem. Algumas delas nĂŁo querem pagar.
â Mas elas tĂȘm que pagar.
â Ă o que sempre lhes digo.
Terminamos de comer e voltamos ao trabalho. Meu pai descia e batia nas portas. Eu podia ouvi-lo reclamar aos berros:
â COMO, DIABOS, PENSA QUE EU VOU TER O QUE COMER? VOCĂ JĂ SECOU O LEITE, AGORA Ă HORA DE CAGAR O DINHEIRO!
Usava um discurso diferente a cada cobrança. Ăs vezes voltava com o dinheiro, em outras nĂŁo.
Então o vi entrar numa espécie de cortiço. Uma porta se abriu, e uma mulher ficou ali parada, vestida num quimono de seda desatado. Ela fumava um cigarro.
â Escute, boneca, preciso receber o dinheiro. VocĂȘ Ă© minha maior devedora!
Ela riu na cara dele.
â Veja, boneca, me dĂȘ a metade, me pague alguma coisa, dĂȘ algum sinal.
Ela fez um anel de fumaça e em seguida o rompeu com o dedo.
â Escute, vocĂȘ precisa me pagar â disse meu pai. â Esta Ă© uma situação desesperadora.
â Entre. Falaremos sobre isso â disse a mulher.
Meu pai entrou, e a porta se fechou. Ficou lĂĄ dentro por uma eternidade. O sol jĂĄ ia alto. Quando meu pai saiu, o cabelo lhe caĂa sobre o rosto e ele colocava a barra da camisa para dentro das calças. Subiu no caminhĂŁo.
â A mulher deu o dinheiro? â perguntei.
â Esta foi a Ășltima parada â disse meu pai. â Estou exausto. Vamos devolver o caminhĂŁo e voltar para casa...
Eu voltaria a ver aquela mulher. Um dia voltei para casa depois da escola, e ela estava sentada numa cadeira na nossa sala da frente. Minha mãe e meu pai também estavam sentados ali, e minha mãe chorava. Quando me viu, correu em minha direção e me agarrou. Levou-me para o quarto e fez com que eu sentasse na cama.
â Henry, vocĂȘ ama sua mĂŁe?
Eu na verdade nĂŁo a amava, mas ela parecia tĂŁo triste que respondi:
â Sim.
Ela me levou de volta para a sala.
â Seu pai estĂĄ dizendo que ama essa mulher â ela me disse.
â Amo vocĂȘs duas! Agora, tire esse garoto daqui!
Senti que meu pai estava fazendo minha mĂŁe muito infeliz.
â Vou matar vocĂȘ â eu disse a meu pai.
â Tire esse garoto daqui!
â Como vocĂȘ pode amar essa mulher? â perguntei. â Veja o nariz dela. O nariz parece uma tromba de elefante!
â Cristo! â exclamou a mulher. â NĂŁo sou obrigada a ouvir isso! â Olhou para o meu pai: â Escolha, Henry! Uma ou outra! Agora!
â Mas nĂŁo consigo! Amo vocĂȘs duas!
â Vou matar vocĂȘ! â eu disse a meu pai.
Ele veio em minha direção e me deu um tapa no ouvido, me derrubando no chão. A mulher se levantou e saiu correndo da casa, e meu pai foi atrås dela. A mulher saltou para dentro do carro do meu pai, deu a partida e seguiu. Tudo se deu de maneira muito råpida. Meu pai saiu correndo rua afora atrås dela e do carro.
â EDNA! EDNA, VOLTE!
Meu pai conseguiu alcançar o carro, pÎs a mão no banco da frente e agarrou a bolsa de Edna. Então o carro acelerou e meu pai ficou para trås com a bolsa.
â Eu sabia que algo estava acontecendo â me disse minha mĂŁe. â EntĂŁo, me escondi no porta-malas e peguei os dois juntos. Seu pai me trouxe atĂ© aqui na companhia daquela mulher horrĂvel. Agora ela levou o carro dele.
Meu pai retornou com a bolsa de Edna.
â Todo mundo pra dentro de casa!
Entramos, e meu pai me trancou no quarto. Os dois começaram a discutir. Gritavam e se diziam coisas pavorosas. Então meu pai começou a bater na minha mãe. Ela gritava e ele seguia lhe dando uma surra. Pulei pela janela e tentei entrar pela porta da frente. Estava trancada. Tentei a porta dos fundos, as janelas. Tudo estava trancado. Fiquei plantado no påtio dos fundos, ouvindo os gritos e a pancadaria.
Então os gritos e a pancadaria cessaram e tudo o que eu podia ouvir era minha mãe soluçando. Soluçou por um longo tempo. Gradualmente, os espasmos foram diminuindo e diminuindo, até que ela silenciou.
â Misto-quente
Nenhum Caminho Para o Paraíso
Eu estava sentado em um bar na avenida Western. Era perto da meia-noite e estava metido em uma das minhas habituais confusĂ”es. Quero dizer, vocĂȘ sabe, nada dĂĄ certo: as mulheres, os trabalhos, a falta de trabalhos, o tempo, os cĂŁes. Por fim, vocĂȘ simplesmente senta em uma espĂ©cie de estado de transe e espera como se estivesse no banco da parada de ĂŽnibus aguardando a morte.
Bem, estava sentado lĂĄ e entĂŁo chega essa mulher com cabelo preto e longo, bom corpo, olhos castanhos e tristes. NĂŁo me virei para olhĂĄ-la. Ignorei-a, mesmo ela tendo sentado no banco ao lado do meu, quando havia uma dĂșzia de outros lugares vagos. Na verdade, Ă©ramos os Ășnicos no bar, exceto pelo balconista. Ela pediu um vinho seco. Depois me perguntou o que eu estava bebendo.
â Scotch com ĂĄgua.
â DĂȘ-lhe um scotch com ĂĄgua â ela disse ao balconista.
Bem, isso era incomum.
Abriu a bolsa, removeu uma pequena gaiola de arame e tirou algumas pessoas pequenas e as colocou no balcĂŁo. Tinham todos aproximadamente dez centĂmetros de altura e estavam vivos e bem vestidos. Havia quatro deles, dois homens e duas mulheres.
â Fazem desses agora â ela disse. â SĂŁo muito caros. Custaram quase dois mil dĂłlares cada um quando comprei. Agora jĂĄ estĂŁo chegando aos 2.400 dĂłlares. NĂŁo sei como sĂŁo feitos, mas provavelmente Ă© coisa fora da lei.
As pessoas em miniatura estavam caminhando por cima do balcĂŁo. Repentinamente um dos pequenos homens deu um tapa na cara de uma das pequenas mulheres.
â Sua vagabunda â ele disse â, jĂĄ chega!
â NĂŁo, George, vocĂȘ nĂŁo pode â ela gritou â, eu te amo! Vou me matar! Tenho que ter vocĂȘ!
â NĂŁo me importo! â disse o pequeno sujeito e puxou um cigarrinho e o acendeu. â Tenho o direito de viver.
â Se vocĂȘ nĂŁo a quer â disse o outro sujeitinho â, fico com ela, eu a amo.
â Mas nĂŁo quero vocĂȘ, Marty. Estou apaixonada pelo George.
â Mas ele Ă© um idiota, Anna, um idiota completo!
â Eu sei, mas o amo de qualquer forma.
O idiotinha caminhou pelo balcĂŁo e beijou a outra mulherzinha.
â Estou com um triĂąngulo amoroso em andamento â disse a mulher que havia me pagado uma bebida. â Esses sĂŁo Marty e George e Anna e Ruthie. George vai se dar mal, muito mal. Marty Ă© meio quadrado.
â NĂŁo Ă© triste ver tudo isso? Errr, qual o seu nome?
â Dawn.[13] Ă um nome terrĂvel. Mas Ă© o que as mĂŁes fazem com suas crianças Ă s vezes.
â O meu Ă© Hank. Mas nĂŁo Ă© triste...
â NĂŁo, nĂŁo Ă© triste observar isso tudo. NĂŁo tive muita sorte com os meus prĂłprios amores, pĂ©ssima sorte, aliĂĄs...
â Passa o mesmo com todos nĂłs.
â Parece que sim. De qualquer forma, comprei essas pessoinhas e agora fico olhando pra elas. E Ă© como ter e nĂŁo ter esses problemas. Mas fico muito excitada quando começam a fazer amor. Ă aĂ que fica difĂcil.
â SĂŁo excitantes?
â Muito, muito excitantes. Meu Deus, me deixam louca!
â Por que vocĂȘ nĂŁo os obriga a fazer sexo? Quero dizer agora. Ficaremos olhando juntos.
â NĂŁo se pode forçå-los. TĂȘm de fazer por conta prĂłpria.
â Com que frequĂȘncia acontece?
â Oh, eles sĂŁo bem bons. Quatro ou cinco vezes por semana.
Estavam caminhando pelo balcĂŁo.
â Escute â disse Marty â, me dĂȘ uma chance. Apenas uma chance, Anna.
â NĂŁo â disse Anna. â Meu coração pertence ao George. NĂŁo pode ser de nenhuma outra maneira.
George estava beijando Ruthie, apalpando seus peitos. Ruthie estava ficando excitada.
â Ruthie estĂĄ ficando excitada â eu disse a Dawn.
â EstĂĄ, estĂĄ mesmo.
Eu também estava ficando. Agarrei Dawn e a beijei.
â Escute â ela disse. â NĂŁo gosto que eles façam sexo em pĂșblico. Vou levĂĄ-los para casa e colocĂĄ-los para transar.
â Mas aĂ nĂŁo poderei olhar.
â Bem, terĂĄ que vir comigo.
â Tudo bem â respondi. â Vamos lĂĄ.
Acabei minha bebida e saĂmos juntos. Ela carregava as criaturas em uma pequena gaiola de arame. Entramos no carro dela e colocamos o pessoal entre nĂłs, no banco da frente. Olhei para Dawn. Era realmente jovem e bonita. Parecia ser boa tambĂ©m por dentro. Como podia ter fracassado com os homens? HĂĄ tantas maneiras de as coisas saĂrem erradas. Os quatro pequenos custaram-na oito mil. Tudo isso para se afastar de relacionamentos e na verdade nĂŁo se afastar de relacionamentos.
A casa era perto dos morros, um lugar com uma aparĂȘncia agradĂĄvel. Descemos do carro e caminhamos atĂ© a porta. Segurei a gaiola com os pequenos enquanto ela abria a porta.
â Ouvi Randy Newman semana passada no The Troubador. â Ele nĂŁo Ă© Ăłtimo? â perguntou.
â Sim, Ă© Ăłtimo.
Entramos na sala, e Dawn tirou os pequenos da gaiola e os colocou em uma mesinha. Então caminhou até a cozinha, abriu o refrigerador e pegou uma garrafa de vinho. Trouxe dois copos.
â PerdĂŁo â ela disse. â Mas vocĂȘ parece um pouco louco. O que vocĂȘ faz?
â Sou escritor.
â E irĂĄ escrever sobre isso?
â NinguĂ©m jamais acreditarĂĄ, mas vou.
â Olha â disse Dawn. â George tirou as calcinhas de Ruthie. Ele estĂĄ enfiando os dedos nela. Gelo?
â Sim, estĂĄ fazendo isso. NĂŁo, sem gelo. Puro estĂĄ Ăłtimo.
â NĂŁo sei o que acontece â disse Dawn â, mas fico realmente excitada quando os observo. Talvez seja porque sĂŁo tĂŁo pequenos. Realmente me excita.
â Entendo o que quer dizer.
â Olhe, o George estĂĄ chupando ela.
â Ă mesmo.
â Olhe pra eles!
â Deus do cĂ©u!
Agarrei Dawn. Ficamos ali em pé nos beijando. Enquanto isso, seus olhos iam dos meus para eles e novamente para os meus.
O pequeno Marty e a pequena Anna também estavam olhando.
â Olhe â disse Marty â, eles vĂŁo trepar. NĂłs bem que podĂamos trepar tambĂ©m. AtĂ© os grandes vĂŁo transar. Olhe pra eles!
â VocĂȘ ouviu isso? â perguntei a Dawn. â Eles disseram que nĂłs vamos trepar. Ă verdade?
â Espero que sim â disse Dawn.
Levei-a para o sofå e levantei o vestido acima da cintura. Beijei seu pescoço.
â Eu te amo â eu disse.
â Mesmo? Ama?
â Sim, de alguma forma, sim...
â Tudo bem â disse a pequena Anna ao pequeno Marty. â TambĂ©m podemos trepar, mesmo que eu nĂŁo ame vocĂȘ.
Eles se abraçaram no meio da mesinha. Eu jå tinha tirado as calcinhas de Dawn. Ela gemia. Ruthie gemia. Marty se aproximava de Anna. Estava acontecendo por toda parte. Tive a ideia de que todas as pessoas no mundo estavam trepando. Então esqueci do resto do mundo. De alguma forma fomos para o quarto. Então penetrei Dawn para a longa e lenta cavalgada.
Quando ela saiu do banheiro, eu estava lendo uma histĂłria muito idiota na Playboy.
â Foi tĂŁo bom â ela disse.
â O prazer foi meu â respondi.
Ela voltou para a cama. Pus a revista de lado.
â Acha que daremos certo juntos? â perguntou.
â O que quer dizer?
â Acha que vamos conseguir ficar juntos por algum tempo?
â NĂŁo sei. Coisas acontecem. O começo Ă© sempre mais fĂĄcil.
EntĂŁo ouvimos um grito vindo da sala.
â Ai, ai â ela disse.
Saltou da cama e correu para a sala. Segui logo atrĂĄs. Quando cheguei lĂĄ, ela estava segurando George nas mĂŁos.
â Oh, meu Deus!
â O que aconteceu?
â Foi a Anna!
â O que tem a Anna?
â Cortou fora as bolas dele! George Ă© um eunuco!
â Uau!
â Pegue papel higiĂȘnico, rĂĄpido! Ele pode sangrar atĂ© morrer!
â Esse filho da puta â disse Anna da mesinha â, se nĂŁo posso ter o George, ninguĂ©m mais terĂĄ.
â Agora vocĂȘs duas sĂŁo minhas! â disse Marty.
â NĂŁo, agora vocĂȘ tem que escolher uma de nĂłs â disse Anna.
â EntĂŁo, com qual vai ficar? â perguntou Ruthie.
â Amo as duas â disse Marty.
â Parou de sangrar â disse Dawn. â Ele estĂĄ frio.
Ela embrulhou George em um lenço e o colocou sobre a borda da lareira.
â Quero dizer â seguiu Dawn â que se vocĂȘ acha que nĂŁo daremos certo, nĂŁo vou insistir.
â Acho que amo vocĂȘ, Dawn.
â Olhe â ela disse. â Marty estĂĄ abraçando Ruthie!
â VĂŁo trepar?
â NĂŁo sei. Parecem excitados.
Dawn pegou Anna e a colocou na gaiola de arame.
â Deixe-me sair daqui! Vou matar os dois! Deixe-me sair daqui!
George gemeu de dentro do lenço sobre a borda. Marty jĂĄ tirara as calcinhas de Ruthie. Puxei Dawn para perto de mim. Era bonita e jovem e boa por dentro. Eu podia estar apaixonado novamente. Era possĂvel, nos beijamos. Mergulhei fundo em seus olhos. EntĂŁo emergi e comecei a correr. Eu sabia onde estava. Uma barata e uma ĂĄguia faziam amor. O tempo era um idiota com um banjo na mĂŁo. Continuei correndo. Seu cabelo longo caĂa sobre meu rosto.
â Vou matar todo mundo! â gritava a pequena Anna. Agitava-se na gaiola de arame Ă s trĂȘs horas da manhĂŁ.
â Ao sul de lugar nenhum
Bem, estava sentado lĂĄ e entĂŁo chega essa mulher com cabelo preto e longo, bom corpo, olhos castanhos e tristes. NĂŁo me virei para olhĂĄ-la. Ignorei-a, mesmo ela tendo sentado no banco ao lado do meu, quando havia uma dĂșzia de outros lugares vagos. Na verdade, Ă©ramos os Ășnicos no bar, exceto pelo balconista. Ela pediu um vinho seco. Depois me perguntou o que eu estava bebendo.
â Scotch com ĂĄgua.
â DĂȘ-lhe um scotch com ĂĄgua â ela disse ao balconista.
Bem, isso era incomum.
Abriu a bolsa, removeu uma pequena gaiola de arame e tirou algumas pessoas pequenas e as colocou no balcĂŁo. Tinham todos aproximadamente dez centĂmetros de altura e estavam vivos e bem vestidos. Havia quatro deles, dois homens e duas mulheres.
â Fazem desses agora â ela disse. â SĂŁo muito caros. Custaram quase dois mil dĂłlares cada um quando comprei. Agora jĂĄ estĂŁo chegando aos 2.400 dĂłlares. NĂŁo sei como sĂŁo feitos, mas provavelmente Ă© coisa fora da lei.
As pessoas em miniatura estavam caminhando por cima do balcĂŁo. Repentinamente um dos pequenos homens deu um tapa na cara de uma das pequenas mulheres.
â Sua vagabunda â ele disse â, jĂĄ chega!
â NĂŁo, George, vocĂȘ nĂŁo pode â ela gritou â, eu te amo! Vou me matar! Tenho que ter vocĂȘ!
â NĂŁo me importo! â disse o pequeno sujeito e puxou um cigarrinho e o acendeu. â Tenho o direito de viver.
â Se vocĂȘ nĂŁo a quer â disse o outro sujeitinho â, fico com ela, eu a amo.
â Mas nĂŁo quero vocĂȘ, Marty. Estou apaixonada pelo George.
â Mas ele Ă© um idiota, Anna, um idiota completo!
â Eu sei, mas o amo de qualquer forma.
O idiotinha caminhou pelo balcĂŁo e beijou a outra mulherzinha.
â Estou com um triĂąngulo amoroso em andamento â disse a mulher que havia me pagado uma bebida. â Esses sĂŁo Marty e George e Anna e Ruthie. George vai se dar mal, muito mal. Marty Ă© meio quadrado.
â NĂŁo Ă© triste ver tudo isso? Errr, qual o seu nome?
â Dawn.[13] Ă um nome terrĂvel. Mas Ă© o que as mĂŁes fazem com suas crianças Ă s vezes.
â O meu Ă© Hank. Mas nĂŁo Ă© triste...
â NĂŁo, nĂŁo Ă© triste observar isso tudo. NĂŁo tive muita sorte com os meus prĂłprios amores, pĂ©ssima sorte, aliĂĄs...
â Passa o mesmo com todos nĂłs.
â Parece que sim. De qualquer forma, comprei essas pessoinhas e agora fico olhando pra elas. E Ă© como ter e nĂŁo ter esses problemas. Mas fico muito excitada quando começam a fazer amor. Ă aĂ que fica difĂcil.
â SĂŁo excitantes?
â Muito, muito excitantes. Meu Deus, me deixam louca!
â Por que vocĂȘ nĂŁo os obriga a fazer sexo? Quero dizer agora. Ficaremos olhando juntos.
â NĂŁo se pode forçå-los. TĂȘm de fazer por conta prĂłpria.
â Com que frequĂȘncia acontece?
â Oh, eles sĂŁo bem bons. Quatro ou cinco vezes por semana.
Estavam caminhando pelo balcĂŁo.
â Escute â disse Marty â, me dĂȘ uma chance. Apenas uma chance, Anna.
â NĂŁo â disse Anna. â Meu coração pertence ao George. NĂŁo pode ser de nenhuma outra maneira.
George estava beijando Ruthie, apalpando seus peitos. Ruthie estava ficando excitada.
â Ruthie estĂĄ ficando excitada â eu disse a Dawn.
â EstĂĄ, estĂĄ mesmo.
Eu também estava ficando. Agarrei Dawn e a beijei.
â Escute â ela disse. â NĂŁo gosto que eles façam sexo em pĂșblico. Vou levĂĄ-los para casa e colocĂĄ-los para transar.
â Mas aĂ nĂŁo poderei olhar.
â Bem, terĂĄ que vir comigo.
â Tudo bem â respondi. â Vamos lĂĄ.
Acabei minha bebida e saĂmos juntos. Ela carregava as criaturas em uma pequena gaiola de arame. Entramos no carro dela e colocamos o pessoal entre nĂłs, no banco da frente. Olhei para Dawn. Era realmente jovem e bonita. Parecia ser boa tambĂ©m por dentro. Como podia ter fracassado com os homens? HĂĄ tantas maneiras de as coisas saĂrem erradas. Os quatro pequenos custaram-na oito mil. Tudo isso para se afastar de relacionamentos e na verdade nĂŁo se afastar de relacionamentos.
A casa era perto dos morros, um lugar com uma aparĂȘncia agradĂĄvel. Descemos do carro e caminhamos atĂ© a porta. Segurei a gaiola com os pequenos enquanto ela abria a porta.
â Ouvi Randy Newman semana passada no The Troubador. â Ele nĂŁo Ă© Ăłtimo? â perguntou.
â Sim, Ă© Ăłtimo.
Entramos na sala, e Dawn tirou os pequenos da gaiola e os colocou em uma mesinha. Então caminhou até a cozinha, abriu o refrigerador e pegou uma garrafa de vinho. Trouxe dois copos.
â PerdĂŁo â ela disse. â Mas vocĂȘ parece um pouco louco. O que vocĂȘ faz?
â Sou escritor.
â E irĂĄ escrever sobre isso?
â NinguĂ©m jamais acreditarĂĄ, mas vou.
â Olha â disse Dawn. â George tirou as calcinhas de Ruthie. Ele estĂĄ enfiando os dedos nela. Gelo?
â Sim, estĂĄ fazendo isso. NĂŁo, sem gelo. Puro estĂĄ Ăłtimo.
â NĂŁo sei o que acontece â disse Dawn â, mas fico realmente excitada quando os observo. Talvez seja porque sĂŁo tĂŁo pequenos. Realmente me excita.
â Entendo o que quer dizer.
â Olhe, o George estĂĄ chupando ela.
â Ă mesmo.
â Olhe pra eles!
â Deus do cĂ©u!
Agarrei Dawn. Ficamos ali em pé nos beijando. Enquanto isso, seus olhos iam dos meus para eles e novamente para os meus.
O pequeno Marty e a pequena Anna também estavam olhando.
â Olhe â disse Marty â, eles vĂŁo trepar. NĂłs bem que podĂamos trepar tambĂ©m. AtĂ© os grandes vĂŁo transar. Olhe pra eles!
â VocĂȘ ouviu isso? â perguntei a Dawn. â Eles disseram que nĂłs vamos trepar. Ă verdade?
â Espero que sim â disse Dawn.
Levei-a para o sofå e levantei o vestido acima da cintura. Beijei seu pescoço.
â Eu te amo â eu disse.
â Mesmo? Ama?
â Sim, de alguma forma, sim...
â Tudo bem â disse a pequena Anna ao pequeno Marty. â TambĂ©m podemos trepar, mesmo que eu nĂŁo ame vocĂȘ.
Eles se abraçaram no meio da mesinha. Eu jå tinha tirado as calcinhas de Dawn. Ela gemia. Ruthie gemia. Marty se aproximava de Anna. Estava acontecendo por toda parte. Tive a ideia de que todas as pessoas no mundo estavam trepando. Então esqueci do resto do mundo. De alguma forma fomos para o quarto. Então penetrei Dawn para a longa e lenta cavalgada.
Quando ela saiu do banheiro, eu estava lendo uma histĂłria muito idiota na Playboy.
â Foi tĂŁo bom â ela disse.
â O prazer foi meu â respondi.
Ela voltou para a cama. Pus a revista de lado.
â Acha que daremos certo juntos? â perguntou.
â O que quer dizer?
â Acha que vamos conseguir ficar juntos por algum tempo?
â NĂŁo sei. Coisas acontecem. O começo Ă© sempre mais fĂĄcil.
EntĂŁo ouvimos um grito vindo da sala.
â Ai, ai â ela disse.
Saltou da cama e correu para a sala. Segui logo atrĂĄs. Quando cheguei lĂĄ, ela estava segurando George nas mĂŁos.
â Oh, meu Deus!
â O que aconteceu?
â Foi a Anna!
â O que tem a Anna?
â Cortou fora as bolas dele! George Ă© um eunuco!
â Uau!
â Pegue papel higiĂȘnico, rĂĄpido! Ele pode sangrar atĂ© morrer!
â Esse filho da puta â disse Anna da mesinha â, se nĂŁo posso ter o George, ninguĂ©m mais terĂĄ.
â Agora vocĂȘs duas sĂŁo minhas! â disse Marty.
â NĂŁo, agora vocĂȘ tem que escolher uma de nĂłs â disse Anna.
â EntĂŁo, com qual vai ficar? â perguntou Ruthie.
â Amo as duas â disse Marty.
â Parou de sangrar â disse Dawn. â Ele estĂĄ frio.
Ela embrulhou George em um lenço e o colocou sobre a borda da lareira.
â Quero dizer â seguiu Dawn â que se vocĂȘ acha que nĂŁo daremos certo, nĂŁo vou insistir.
â Acho que amo vocĂȘ, Dawn.
â Olhe â ela disse. â Marty estĂĄ abraçando Ruthie!
â VĂŁo trepar?
â NĂŁo sei. Parecem excitados.
Dawn pegou Anna e a colocou na gaiola de arame.
â Deixe-me sair daqui! Vou matar os dois! Deixe-me sair daqui!
George gemeu de dentro do lenço sobre a borda. Marty jĂĄ tirara as calcinhas de Ruthie. Puxei Dawn para perto de mim. Era bonita e jovem e boa por dentro. Eu podia estar apaixonado novamente. Era possĂvel, nos beijamos. Mergulhei fundo em seus olhos. EntĂŁo emergi e comecei a correr. Eu sabia onde estava. Uma barata e uma ĂĄguia faziam amor. O tempo era um idiota com um banjo na mĂŁo. Continuei correndo. Seu cabelo longo caĂa sobre meu rosto.
â Vou matar todo mundo! â gritava a pequena Anna. Agitava-se na gaiola de arame Ă s trĂȘs horas da manhĂŁ.
â Ao sul de lugar nenhum
Nirvana
sem grandes chances,
completamente desprovido de
propĂłsito,
ele era um jovem
seguindo de ĂŽnibus
cruzando a Carolina do Norte
em direção a
alguma parte
e então começou a nevar
e o ĂŽnibus parou
num pequeno café
nas montanhas
e os passageiros
ali entraram.
sentou juntou ao balcĂŁo
com os outros,
fez o pedido e a
comida chegou.
a refeição estava
especialmente
gostosa
assim como o
café.
a garçonete era
diferente das mulheres
que ele
conhecera.
nĂŁo era afetada,
sentia que dela
emanava um humor
natural.
a frigideira dizia
coisas malucas.
a pia,
logo atrĂĄs,
ria, uma risada
boa
limpa e
prazenteira.
o jovem assistiu
à neve cair através da
janela.
queria ficar
naquele café
para sempre.
um sentimento curioso
perpassou-o por completo
de que tudo
era
lindo
ali,
de que sempre seria
maravilhoso ficar
por ali.
entĂŁo o motorista do ĂŽnibus
disse aos passageiros
que era hora de
partir.
o jovem pensou,
ficarei sentado
aqui, apenas ficarei onde
estou.
mas entĂŁo
ele se ergueu e seguiu
os outros até o
ĂŽnibus.
encontrou seu assento
e olhou para o café
através da janela do
ĂŽnibus.
entĂŁo a partida do
veĂculo, logo uma curva,
em declive, afastando-se
das montanhas.
o jovem
olhou diretamente
para frente.
ouviu os outros
passageiros
falando
de outras coisas,
ou entĂŁo eles
liam
ou
tentavam
dormir.
nĂŁo haviam
percebido
a
mĂĄgica.
o jovem
virou a cabeça para
o lado,
fechou os
olhos,
fingiu
dormir.
nĂŁo havia mais nada
a fazer â
apenas escutar
o som do
motor,
o som dos
pneus
sobre a
neve.
Depois de chegar à Filadélfia, encontrei uma pensão e paguei uma semana de aluguel adiantado. O bar mais próximo devia ter uns cinquenta anos. Dava para sentir o cheiro de urina, merda e vÎmito acumulados ao longo de meio século brotando das frestas do piso, visto que os banheiros ficavam no andar de baixo.
Eram quatro e meia. Dois homens brigavam no meio do bar.
O cara Ă minha direita disse que seu nome era Danny. O da esquerda, que se chamava Jim.
Danny trazia um cigarro na boca, a ponta brilhando. Uma garrafa de cerveja vazia cruzou o ar. Por um triz, nĂŁo lhe acertou em cheio no cigarro e no nariz. NĂŁo se moveu nem olhou ao redor, bateu a cinza do cigarro no cinzeiro.
â Essa foi perto, seu filho da puta! Mande mais uma dessas e a pancadaria começa!
Todos os lugares estavam ocupados. Havia umas mulheres por ali, algumas donas de casa, gordas e meio estĂșpidas, e duas ou trĂȘs senhoras que enfrentavam dificuldades. Ao me sentar por ali, uma garota levantou e se foi com um homem. Retornou em cinco minutos.
â Helen! Helen! Como vocĂȘ consegue fazer isso?
Ela gargalhou.
Outro se lançou sobre ela para experimentar.
â Deve ser bom. Tenho que provar!
SaĂram juntos. Helen retornou em cinco minutos.
â Ela deve ter uma bomba de sucção na buceta!
â Tenho que tentar tambĂ©m â disse um velho sentado no fundo do bar. â NĂŁo tenho uma ereção desde que Teddy Roosevelt tomou sua Ășltima colina.
Com ele, Helen levou dez minutos.
â Quero um sanduĂche â disse um gordo. â Quem vai buscar pra mim por uma graninha?
Eu lhe disse que iria.
â Bife no pĂŁo, com tudo o que tem direito.
Deu-me algum dinheiro.
â Fique com o troco.
Fui atĂ© o lugar onde se faziam os sanduĂches. Um velho meio esquisito apareceu.
â Bife no pĂŁo, com tudo o que der pra botar em cima. E uma garrafa de cerveja enquanto espero.
Tomei a cerveja, levei o sanduĂche atĂ© o gordo e procurei outro lugar. Apareceu uma dose de uĂsque. Virei. Outra surgiu. Virei. A jukebox tocava.
Um jovem, que devia ter uns 24, veio lĂĄ dos fundos do bar.
â Preciso que as persianas sejam limpas â ele me disse.
â Sem dĂșvida.
â O que vocĂȘ faz?
â Nada. Bebo. Vario entre isso.
â Que tal cuidar das persianas?
â Cinco pratas.
â Contratado.
Eles o chamavam de Billy-Boy. Billy-Boy havia se casado com a dona do bar. Ela estava com 45.
Trouxe-me dois baldes, ågua e sabão, uns esfregÔes e esponjas. Retirei as persianas, removi as lùminas e comecei.
â Bebida de graça â disse Tommy, o atendente da noite â enquanto vocĂȘ estiver trabalhando.
â Uma dose de uĂsque, Tommy.
Era um trabalho lento; o pó havia endurecido, formando uma espécie de laca. Cortei minha mão diversas vezes nas plaquetas de metal. A ågua ensaboada ardia.
â Uma dose de uĂsque, Tommy.
Terminei o primeiro jogo de persianas e o coloquei no lugar. Os fregueses do bar deram uma olhada no que eu havia feito.
â Maravilha!
â Com certeza vai ajudar o lugar.
â Na certa vĂŁo subir o preço das bebidas.
â Uma dose de uĂsque, Tommy â eu disse.
Baixei outro jogo de persianas, retirei as plaquetas. Desafiei Jim para uma partida de pinball e lhe tomei vinte e cinco centavos, esvaziei os baldes na privada e os enchi com ĂĄgua limpa.
O segundo jogo progrediu ainda mais devagar. Minhas mĂŁos receberam mais cortes. Duvido que essas persianas tivessem sido limpas em dez anos. Ganhei mais 25 centavos no pinball, e entĂŁo Billy-Boy ordenou que eu voltasse ao trabalho.
Helen passou em direção ao banheiro feminino.
â Helen, vou lhe dar cinco pratas assim que acabar. SerĂĄ que dĂĄ?
â Claro, mas vocĂȘ nĂŁo vai nem levantar o negĂłcio quando for a hora.
â Levanto sim.
â Estarei aqui quando fecharem. Se vocĂȘ ainda conseguir ficar de pĂ©, faço de graça!
â Estarei firme, baby!
Helen retornou ao banheiro.
â Uma dose de uĂsque.
â Ei, vĂĄ devagar â disse Billy-Boy â ou jamais terminarĂĄ o trabalho nesta noite.
â Billy, se eu nĂŁo terminar, vocĂȘ pode ficar com os cinco.
â Fechado. Ouviram isso?
â A gente ouviu, Billy, seu mĂŁo-de-vaca.
â A saideira, Tommy.
Tommy me serviu o uĂsque. Bebi o copo e entĂŁo fui trabalhar. Consegui progredir. ApĂłs mais umas doses de uĂsque, consegui deixar os trĂȘs jogos de persianas limpos e brilhantes.
â Tudo pronto, Billy. Pague o que deve.
â Ainda nĂŁo acabou.
â Como?
â HĂĄ mais trĂȘs janelas no salĂŁo dos fundos.
â SalĂŁo dos fundos?
â SalĂŁo dos fundos. O salĂŁo de festas.
Billy-Boy me mostrou o salĂŁo dos fundos. Havia mais trĂȘs janelas, mais trĂȘs jogos de persianas.
â Deixo por 2,50, Billy.
â Negativo. Ou faz todo o trabalho, ou nĂŁo recebe nada.
Apanhei os baldes, esvaziei a ĂĄgua suja, enchi de ĂĄgua limpa, sabĂŁo, depois desci um novo jogo de persianas. Retirei as plaquetas, depositei-as sobre uma mesa e fiquei olhando para elas.
Jim parou no meio do caminho até o banheiro.
â O que estĂĄ acontecendo?
â NĂŁo conseguirei limpar outro jogo.
Quando Jim saiu do banheiro, foi até o bar e retornou com sua cerveja. Começou a limpar as persianas.
â Jim, deixe disso.
Fui até o bar, peguei mais uma dose. Quando voltei, uma das garotas descia um dos jogos.
â Tome cuidado, nĂŁo vĂĄ se cortar â eu disse a ela.
Alguns minutos depois, havia umas quatro ou cinco pessoas por ali, falando e sorrindo, até mesmo Helen. Todas trabalhavam na limpeza. Logo quase todos os fregueses do bar estavam por lå. Concentrei-me em esvaziar mais dois copos. Finalmente, as persianas estavam limpas e no lugar. Não levou muito tempo. Cintilavam. Billy-Boy apareceu:
â NĂŁo tenho que lhe pagar nada.
â O trabalho estĂĄ terminado.
â Mas nĂŁo foi vocĂȘ quem terminou.
â NĂŁo seja um mĂŁo-de-vaca, Billy â alguĂ©m disse.
Billy-Boy desencavou uma nota de US$ 5, eu a peguei. Fomos até o bar.
â Uma rodada por minha conta!
Coloquei a nota de US$ 5 sobre o balcĂŁo.
â E uma bebida pra mim.
Tommy deu uma volta distribuindo as bebidas.
Tomei a minha e Tommy pegou o dinheiro.
â VocĂȘ deve US$ 3,15 para o bar.
â Ponha na conta.
â O.k., qual Ă© seu sobrenome?
â Chinaski.
â Conhece aquela do polaco que teve que usar a casinha?
â Sim.
Os drinques continuaram chegando para mim atĂ© a hora do fechamento. ApĂłs o Ășltimo, dei uma olhada em volta. Helen tinha desaparecido. Ela mentira.
Como fazem as putas, pensei, assustada com o trabalho que teria...
Ergui-me e tomei o rumo de minha pensĂŁo. A lua brilhava. Meus passos ecoavam pela rua vazia, parecendo os passos de um perseguidor. Olhei ao redor. Eu estava enganado. Somente a solidĂŁo me acompanhava.
Quando cheguei a St. Louis, fazia muito frio, estava prestes a nevar. Encontrei um quarto num lugar legal e limpo, um segundo andar de fundos. Era cedo da noite e me atacava uma de minhas crises depressivas, o que me fez ir cedo para cama, buscando, de alguma maneira, adormecer.
Quando despertei pela manhã, estava muito frio. Eu tremia de modo incontrolåvel. Levantei e descobri que uma das janelas estava aberta. Fechei-a e voltei para a cama. Comecei a me sentir nauseado. Consegui dormir mais uma hora, depois acordei. Fiquei de pé, me vesti, mal alcançara o banheiro do corredor quando vomitei. Despi-me novamente e voltei a me deitar. Logo houve uma batida à porta. Não respondi. As batidas continuaram.
â Sim? â respondi.
â VocĂȘ estĂĄ bem?
â Sim.
â Podemos entrar?
â Entrem.
Eram duas garotas. Uma estava um pouco acima do peso, mas parecia limpa, radiante, em um vestido florido e rosado. Tinha um rosto gentil. A outra usava um cinto bem apertado que acentuava sua maravilhosa figura. Seu cabelo era longo, negro, e tinha um nariz delicado; usava saltos, dona de pernas perfeitas, vestia uma blusa branca decotada. Seus olhos eram de um castanho-escuro, muito escuro, e seguiam cravados em mim, marotos, muito marotos.
â Sou Gertrude â ela disse â e esta Ă© Hilda.
Hilda se ruborizou quando Gertrude cruzou o quarto em direção à cama.
â Escutamos vocĂȘ no banheiro. VocĂȘ estĂĄ passando mal?
â Sim. Mas nĂŁo Ă© nada sĂ©rio, tenho certeza. Uma janela aberta.
â A sra. Downing, a senhoria, estĂĄ fazendo uma sopa para vocĂȘ.
â NĂŁo precisa, estĂĄ tudo bem.
â Vai lhe fazer bem.
Gertrude se aproximou da minha cama. Hilda permaneceu onde estava, rosa e luzidia e ruborizada. Gertrude andava para lĂĄ e para cĂĄ em seus saltos agudĂssimos.
â VocĂȘ Ă© novo na cidade?
â Sim.
â NĂŁo estĂĄ no exĂ©rcito?
â NĂŁo.
â O que vocĂȘ faz?
â Nada.
â NĂŁo trabalha?
â NĂŁo trabalho.
â Sim â disse Gertrude a Hilda â, olhe essas mĂŁos. Tem as mĂŁos mais lindas que jĂĄ vi. DĂĄ pra ver que nunca pegaram no batente.
A senhoria, sra. Downing, bateu. Ela era gorda e simpåtica. Imaginei que seu marido estava morto e que ela era uma pessoa religiosa. Trazia uma enorme tigela de caldo de carne. Podia ver a fumaça subindo. Peguei a tigela. Trocamos gentilezas. Sim, seu marido falecera. Ela era extremamente religiosa. Havia ainda umas bolachas, mais sal e pimenta.
â Muito obrigado.
A sra. Downing olhou para as duas garotas.
â Bem, estĂĄ na hora de a gente ir. E espero que as garotas nĂŁo o tenham incomodado muito.
â Oh, nĂŁo!
Sorri em direção à sopa. Ela gostou do gesto.
â Vamos, garotas.
A sra. Downing deixou a porta aberta. Hilda deu um jeito de ruborizar mais uma vez, deu-me um sorriso discreto, depois saiu. Gertrude permaneceu. Observou-me tomar umas colheradas do caldo.
â EstĂĄ gostoso?
â Quero agradecer a todas vocĂȘs. Tudo isso... nĂŁo Ă© algo a que eu esteja acostumado.
â Vou indo.
Ela deu meia-volta e caminhou lentamente até a porta. Sua bunda se movia sob a saia negra apertada; suas pernas eram douradas. Junto à soleira, ela parou e se virou, deitando seus olhos negros novamente sobre mim, deixando-os ficar. Fiquei pasmado, em brasa. No momento em que percebeu minha reação, lançou a cabeça para trås e deu uma gargalhada. Tinha um pescoço adoråvel e toda aquela cabeleira negra. Ela desapareceu no corredor, deixando a porta entreaberta.
Peguei o sal e a pimenta, temperei o caldo, quebrei as bolachas de ågua e sal e as coloquei na tigela, aplacando minha doença a colheradas.
ApĂłs perder vĂĄrias mĂĄquinas de escrever no prego, simplesmente desisti da ideia de possuir uma. Compunha minhas histĂłrias Ă mĂŁo e as enviava dessa maneira. Escrevia-as Ă pena. Eu precisava ser um calĂgrafo veloz. Tinha que conseguir executar as letras mais rĂĄpido do que as ideias que elas continham. Escrevia trĂȘs ou quatro contos por semana. Colocava-os no correio. Imaginava os editores da The Atlantic Monthly e da Harperâs dizendo: âEi, aqui estĂĄ mais uma das coisas daquele louco...â.
Certa noite, levei Gertrude a um bar. Sentamos lado a lado em uma mesa e bebemos cerveja. Nevava lĂĄ fora. Sentia-me um pouco melhor do que de costume. Bebemos e conversamos. Uma hora, ou por volta disso, se passou. Comecei a me fixar nos olhos de Gertrude, e ela me respondia da mesma maneira. âNos dias de hoje, Ă© difĂcil encontrar um bom homem!â, dizia a jukebox. Gertrude acompanhava a mĂșsica com o corpo, com a cabeça, olhava-me nos olhos.
â VocĂȘ tem uma cara muito estranha â ela disse. â VocĂȘ nĂŁo Ă© realmente feio.
â NĂșmero quatro no setor de envio de mercadorias, galgando posiçÔes.
â Alguma vez vocĂȘ jĂĄ se apaixonou?
â Isso Ă© para pessoas de verdade.
â VocĂȘ me parece de verdade.
â NĂŁo gosto de pessoas de verdade.
â NĂŁo gosta?
â Eu as odeio.
Bebemos mais um pouco, sem falar muito. Continuava a nevar. Gertrude virou a cabeça e ficou olhando para o aglomerado de pessoas. Então voltou a me olhar.
â Ele nĂŁo Ă© bonito?
â Quem?
â O soldado lĂĄ adiante. EstĂĄ sentado sozinho. TĂŁo ereto. E tem todas as medalhas no uniforme.
â Vamos, Ă© hora de dar o fora daqui.
â Mas ainda Ă© cedo.
â VocĂȘ pode ficar.
â NĂŁo, quero ir com vocĂȘ.
â NĂŁo me importo com o que vocĂȘ fizer.
â Ă por causa do soldado? VocĂȘ ficou assim por causa do soldado?
â Oh, merda!
â Foi o soldado!
â Estou indo.
Levantei-me, deixei uma gorjeta e caminhei em direção à porta. Ouvi Gertrude atrås de mim. Segui pela rua cortando a neve. Logo ela estava ao meu lado.
â VocĂȘ nem ao menos pegou um tĂĄxi. Andar de salto alto na neve!
Não respondi. Caminhamos as quatro ou cinco quadras até a pensão. Subi os degraus lado a lado com ela. Então entrei em meu quarto, fechei a porta, me despi e fui para a cama. Escutei-a jogar alguma coisa contra a parede em seu quarto.
Filas e mais filas de bicicletas silenciosas. Caixas cheias de peças para bicicleta. Filas e mais filas de bicicletas pendendo do teto: bicicletas verdes, bicicletas vermelhas, bicicletas roxas, bicicletas azuis, bicicletas para meninas, bicicletas para meninos, todas penduradas ali; aros brilhantes, as rodas, os pneus, as tintas, os assentos de couro, as luzes traseiras, os faroletes, os freios de mão; centenas de bicicletas, fila após fila.
TĂnhamos uma hora para o almoço. Eu comia depressa, tendo estado desperto ao longo de toda a noite e alvorada, sentia-me cansado e todo dolorido. Havia conseguido encontrar um local escondido debaixo das bicicletas. Eu me arrastava atĂ© ali, debaixo de trĂȘs fileiras de bicicletas imaculadamente arranjadas. Deitava-me ali de costas, e suspensas sobre mim, alinhados com precisĂŁo, pendiam pneus, aros prateados e reluzentes, pinturas novas, tudo em perfeita ordem. Tudo era grandioso, correto, ordenado â 500 ou 600 bicicletas se estendendo sobre mim, cobrindo-me, tudo no seu devido lugar. De algum modo, aquilo tinha um profundo significado. Eu as olhava e sabia que tinha 45 minutos de descanso sob aquela ĂĄrvore de bicicletas.
Ao mesmo tempo, eu sabia, em outra parte da minha consciĂȘncia, que, se alguma vez eu me deixasse cair no meio de todas aquelas bicicletas cintilantes, seria meu fim, que eu nunca poderia me salvar. Assim, eu ficava ali deitado de costas, deixando que as rodas e os aros e as cores de alguma forma me acalmassem.
Um homem de ressaca jamais deveria deitar de costas e olhar para o telhado de um galpĂŁo. As vigas de madeira, por fim, apoderam-se de vocĂȘ; e as claraboias â vocĂȘ pode ver o gradeado para os pĂĄssaros sobre as claraboias de vidro â que formam esse gradeado de certa maneira trazem Ă mente de um homem a imagem de uma prisĂŁo. EntĂŁo hĂĄ todo aquele peso sobre os olhos, o desejo desesperado por um gole apenas, e o som das pessoas se movendo, vocĂȘ as escuta, sabe que seu tempo estĂĄ se esgotando, de alguma maneira vocĂȘ terĂĄ que se levantar e tambĂ©m entrar nesse movimento, preenchendo ordens e empacotando pedidos...
Ela era a secretĂĄria do gerente. Seu nome era Carmen â mas, apesar do nome espanhol, ela era loira e usava vestidos colados de tricĂŽ, sapatos de salto agulha, meias de nĂĄilon, cinta-liga, trazia a boca muito pintada, porĂ©m, ah, ela sabia rebolar, sabia mexer, ondulava os quadris quando vinha com os pedidos atĂ© a mesa, voltava do mesmo modo para o escritĂłrio, a rapaziada de olho em cada movimento, em cada contração de sua bunda; oscilando, serpenteando, rebolando. NĂŁo sou um galanteador. Nunca fui. Para ser um galĂŁ, Ă© preciso ter a lĂĄbia doce. Nunca fui bom em passar a lĂĄbia numa mulher. Mas, finalmente, com Carmen me pressionando, levei-a atĂ© um dos transportes de carga que descarregĂĄvamos nos fundos do galpĂŁo e a peguei de pĂ©, atrĂĄs de um desses caminhĂ”es. Foi bom, foi quente; pensei no cĂ©u azul e em praias amplas e limpas, porĂ©m ao mesmo tempo foi triste â faltava, na certa, algum sentimento humano que eu desconhecia ou com o qual nĂŁo sabia lidar. Eu tinha erguido aquele vestido de tricĂŽ acima de seus quadris e fiquei ali, a bombeĂĄ-la, apertando, por fim, minha boca contra seus lĂĄbios carregados de batom escarlate e gozei entre duas caixas lacradas com o ar cheio de cinzas e com ela pressionada contra um caminhĂŁo imundo e descascado na misericordiosa escuridĂŁo.
â FactĂłtum
completamente desprovido de
propĂłsito,
ele era um jovem
seguindo de ĂŽnibus
cruzando a Carolina do Norte
em direção a
alguma parte
e então começou a nevar
e o ĂŽnibus parou
num pequeno café
nas montanhas
e os passageiros
ali entraram.
sentou juntou ao balcĂŁo
com os outros,
fez o pedido e a
comida chegou.
a refeição estava
especialmente
gostosa
assim como o
café.
a garçonete era
diferente das mulheres
que ele
conhecera.
nĂŁo era afetada,
sentia que dela
emanava um humor
natural.
a frigideira dizia
coisas malucas.
a pia,
logo atrĂĄs,
ria, uma risada
boa
limpa e
prazenteira.
o jovem assistiu
à neve cair através da
janela.
queria ficar
naquele café
para sempre.
um sentimento curioso
perpassou-o por completo
de que tudo
era
lindo
ali,
de que sempre seria
maravilhoso ficar
por ali.
entĂŁo o motorista do ĂŽnibus
disse aos passageiros
que era hora de
partir.
o jovem pensou,
ficarei sentado
aqui, apenas ficarei onde
estou.
mas entĂŁo
ele se ergueu e seguiu
os outros até o
ĂŽnibus.
encontrou seu assento
e olhou para o café
através da janela do
ĂŽnibus.
entĂŁo a partida do
veĂculo, logo uma curva,
em declive, afastando-se
das montanhas.
o jovem
olhou diretamente
para frente.
ouviu os outros
passageiros
falando
de outras coisas,
ou entĂŁo eles
liam
ou
tentavam
dormir.
nĂŁo haviam
percebido
a
mĂĄgica.
o jovem
virou a cabeça para
o lado,
fechou os
olhos,
fingiu
dormir.
nĂŁo havia mais nada
a fazer â
apenas escutar
o som do
motor,
o som dos
pneus
sobre a
neve.
Depois de chegar à Filadélfia, encontrei uma pensão e paguei uma semana de aluguel adiantado. O bar mais próximo devia ter uns cinquenta anos. Dava para sentir o cheiro de urina, merda e vÎmito acumulados ao longo de meio século brotando das frestas do piso, visto que os banheiros ficavam no andar de baixo.
Eram quatro e meia. Dois homens brigavam no meio do bar.
O cara Ă minha direita disse que seu nome era Danny. O da esquerda, que se chamava Jim.
Danny trazia um cigarro na boca, a ponta brilhando. Uma garrafa de cerveja vazia cruzou o ar. Por um triz, nĂŁo lhe acertou em cheio no cigarro e no nariz. NĂŁo se moveu nem olhou ao redor, bateu a cinza do cigarro no cinzeiro.
â Essa foi perto, seu filho da puta! Mande mais uma dessas e a pancadaria começa!
Todos os lugares estavam ocupados. Havia umas mulheres por ali, algumas donas de casa, gordas e meio estĂșpidas, e duas ou trĂȘs senhoras que enfrentavam dificuldades. Ao me sentar por ali, uma garota levantou e se foi com um homem. Retornou em cinco minutos.
â Helen! Helen! Como vocĂȘ consegue fazer isso?
Ela gargalhou.
Outro se lançou sobre ela para experimentar.
â Deve ser bom. Tenho que provar!
SaĂram juntos. Helen retornou em cinco minutos.
â Ela deve ter uma bomba de sucção na buceta!
â Tenho que tentar tambĂ©m â disse um velho sentado no fundo do bar. â NĂŁo tenho uma ereção desde que Teddy Roosevelt tomou sua Ășltima colina.
Com ele, Helen levou dez minutos.
â Quero um sanduĂche â disse um gordo. â Quem vai buscar pra mim por uma graninha?
Eu lhe disse que iria.
â Bife no pĂŁo, com tudo o que tem direito.
Deu-me algum dinheiro.
â Fique com o troco.
Fui atĂ© o lugar onde se faziam os sanduĂches. Um velho meio esquisito apareceu.
â Bife no pĂŁo, com tudo o que der pra botar em cima. E uma garrafa de cerveja enquanto espero.
Tomei a cerveja, levei o sanduĂche atĂ© o gordo e procurei outro lugar. Apareceu uma dose de uĂsque. Virei. Outra surgiu. Virei. A jukebox tocava.
Um jovem, que devia ter uns 24, veio lĂĄ dos fundos do bar.
â Preciso que as persianas sejam limpas â ele me disse.
â Sem dĂșvida.
â O que vocĂȘ faz?
â Nada. Bebo. Vario entre isso.
â Que tal cuidar das persianas?
â Cinco pratas.
â Contratado.
Eles o chamavam de Billy-Boy. Billy-Boy havia se casado com a dona do bar. Ela estava com 45.
Trouxe-me dois baldes, ågua e sabão, uns esfregÔes e esponjas. Retirei as persianas, removi as lùminas e comecei.
â Bebida de graça â disse Tommy, o atendente da noite â enquanto vocĂȘ estiver trabalhando.
â Uma dose de uĂsque, Tommy.
Era um trabalho lento; o pó havia endurecido, formando uma espécie de laca. Cortei minha mão diversas vezes nas plaquetas de metal. A ågua ensaboada ardia.
â Uma dose de uĂsque, Tommy.
Terminei o primeiro jogo de persianas e o coloquei no lugar. Os fregueses do bar deram uma olhada no que eu havia feito.
â Maravilha!
â Com certeza vai ajudar o lugar.
â Na certa vĂŁo subir o preço das bebidas.
â Uma dose de uĂsque, Tommy â eu disse.
Baixei outro jogo de persianas, retirei as plaquetas. Desafiei Jim para uma partida de pinball e lhe tomei vinte e cinco centavos, esvaziei os baldes na privada e os enchi com ĂĄgua limpa.
O segundo jogo progrediu ainda mais devagar. Minhas mĂŁos receberam mais cortes. Duvido que essas persianas tivessem sido limpas em dez anos. Ganhei mais 25 centavos no pinball, e entĂŁo Billy-Boy ordenou que eu voltasse ao trabalho.
Helen passou em direção ao banheiro feminino.
â Helen, vou lhe dar cinco pratas assim que acabar. SerĂĄ que dĂĄ?
â Claro, mas vocĂȘ nĂŁo vai nem levantar o negĂłcio quando for a hora.
â Levanto sim.
â Estarei aqui quando fecharem. Se vocĂȘ ainda conseguir ficar de pĂ©, faço de graça!
â Estarei firme, baby!
Helen retornou ao banheiro.
â Uma dose de uĂsque.
â Ei, vĂĄ devagar â disse Billy-Boy â ou jamais terminarĂĄ o trabalho nesta noite.
â Billy, se eu nĂŁo terminar, vocĂȘ pode ficar com os cinco.
â Fechado. Ouviram isso?
â A gente ouviu, Billy, seu mĂŁo-de-vaca.
â A saideira, Tommy.
Tommy me serviu o uĂsque. Bebi o copo e entĂŁo fui trabalhar. Consegui progredir. ApĂłs mais umas doses de uĂsque, consegui deixar os trĂȘs jogos de persianas limpos e brilhantes.
â Tudo pronto, Billy. Pague o que deve.
â Ainda nĂŁo acabou.
â Como?
â HĂĄ mais trĂȘs janelas no salĂŁo dos fundos.
â SalĂŁo dos fundos?
â SalĂŁo dos fundos. O salĂŁo de festas.
Billy-Boy me mostrou o salĂŁo dos fundos. Havia mais trĂȘs janelas, mais trĂȘs jogos de persianas.
â Deixo por 2,50, Billy.
â Negativo. Ou faz todo o trabalho, ou nĂŁo recebe nada.
Apanhei os baldes, esvaziei a ĂĄgua suja, enchi de ĂĄgua limpa, sabĂŁo, depois desci um novo jogo de persianas. Retirei as plaquetas, depositei-as sobre uma mesa e fiquei olhando para elas.
Jim parou no meio do caminho até o banheiro.
â O que estĂĄ acontecendo?
â NĂŁo conseguirei limpar outro jogo.
Quando Jim saiu do banheiro, foi até o bar e retornou com sua cerveja. Começou a limpar as persianas.
â Jim, deixe disso.
Fui até o bar, peguei mais uma dose. Quando voltei, uma das garotas descia um dos jogos.
â Tome cuidado, nĂŁo vĂĄ se cortar â eu disse a ela.
Alguns minutos depois, havia umas quatro ou cinco pessoas por ali, falando e sorrindo, até mesmo Helen. Todas trabalhavam na limpeza. Logo quase todos os fregueses do bar estavam por lå. Concentrei-me em esvaziar mais dois copos. Finalmente, as persianas estavam limpas e no lugar. Não levou muito tempo. Cintilavam. Billy-Boy apareceu:
â NĂŁo tenho que lhe pagar nada.
â O trabalho estĂĄ terminado.
â Mas nĂŁo foi vocĂȘ quem terminou.
â NĂŁo seja um mĂŁo-de-vaca, Billy â alguĂ©m disse.
Billy-Boy desencavou uma nota de US$ 5, eu a peguei. Fomos até o bar.
â Uma rodada por minha conta!
Coloquei a nota de US$ 5 sobre o balcĂŁo.
â E uma bebida pra mim.
Tommy deu uma volta distribuindo as bebidas.
Tomei a minha e Tommy pegou o dinheiro.
â VocĂȘ deve US$ 3,15 para o bar.
â Ponha na conta.
â O.k., qual Ă© seu sobrenome?
â Chinaski.
â Conhece aquela do polaco que teve que usar a casinha?
â Sim.
Os drinques continuaram chegando para mim atĂ© a hora do fechamento. ApĂłs o Ășltimo, dei uma olhada em volta. Helen tinha desaparecido. Ela mentira.
Como fazem as putas, pensei, assustada com o trabalho que teria...
Ergui-me e tomei o rumo de minha pensĂŁo. A lua brilhava. Meus passos ecoavam pela rua vazia, parecendo os passos de um perseguidor. Olhei ao redor. Eu estava enganado. Somente a solidĂŁo me acompanhava.
Quando cheguei a St. Louis, fazia muito frio, estava prestes a nevar. Encontrei um quarto num lugar legal e limpo, um segundo andar de fundos. Era cedo da noite e me atacava uma de minhas crises depressivas, o que me fez ir cedo para cama, buscando, de alguma maneira, adormecer.
Quando despertei pela manhã, estava muito frio. Eu tremia de modo incontrolåvel. Levantei e descobri que uma das janelas estava aberta. Fechei-a e voltei para a cama. Comecei a me sentir nauseado. Consegui dormir mais uma hora, depois acordei. Fiquei de pé, me vesti, mal alcançara o banheiro do corredor quando vomitei. Despi-me novamente e voltei a me deitar. Logo houve uma batida à porta. Não respondi. As batidas continuaram.
â Sim? â respondi.
â VocĂȘ estĂĄ bem?
â Sim.
â Podemos entrar?
â Entrem.
Eram duas garotas. Uma estava um pouco acima do peso, mas parecia limpa, radiante, em um vestido florido e rosado. Tinha um rosto gentil. A outra usava um cinto bem apertado que acentuava sua maravilhosa figura. Seu cabelo era longo, negro, e tinha um nariz delicado; usava saltos, dona de pernas perfeitas, vestia uma blusa branca decotada. Seus olhos eram de um castanho-escuro, muito escuro, e seguiam cravados em mim, marotos, muito marotos.
â Sou Gertrude â ela disse â e esta Ă© Hilda.
Hilda se ruborizou quando Gertrude cruzou o quarto em direção à cama.
â Escutamos vocĂȘ no banheiro. VocĂȘ estĂĄ passando mal?
â Sim. Mas nĂŁo Ă© nada sĂ©rio, tenho certeza. Uma janela aberta.
â A sra. Downing, a senhoria, estĂĄ fazendo uma sopa para vocĂȘ.
â NĂŁo precisa, estĂĄ tudo bem.
â Vai lhe fazer bem.
Gertrude se aproximou da minha cama. Hilda permaneceu onde estava, rosa e luzidia e ruborizada. Gertrude andava para lĂĄ e para cĂĄ em seus saltos agudĂssimos.
â VocĂȘ Ă© novo na cidade?
â Sim.
â NĂŁo estĂĄ no exĂ©rcito?
â NĂŁo.
â O que vocĂȘ faz?
â Nada.
â NĂŁo trabalha?
â NĂŁo trabalho.
â Sim â disse Gertrude a Hilda â, olhe essas mĂŁos. Tem as mĂŁos mais lindas que jĂĄ vi. DĂĄ pra ver que nunca pegaram no batente.
A senhoria, sra. Downing, bateu. Ela era gorda e simpåtica. Imaginei que seu marido estava morto e que ela era uma pessoa religiosa. Trazia uma enorme tigela de caldo de carne. Podia ver a fumaça subindo. Peguei a tigela. Trocamos gentilezas. Sim, seu marido falecera. Ela era extremamente religiosa. Havia ainda umas bolachas, mais sal e pimenta.
â Muito obrigado.
A sra. Downing olhou para as duas garotas.
â Bem, estĂĄ na hora de a gente ir. E espero que as garotas nĂŁo o tenham incomodado muito.
â Oh, nĂŁo!
Sorri em direção à sopa. Ela gostou do gesto.
â Vamos, garotas.
A sra. Downing deixou a porta aberta. Hilda deu um jeito de ruborizar mais uma vez, deu-me um sorriso discreto, depois saiu. Gertrude permaneceu. Observou-me tomar umas colheradas do caldo.
â EstĂĄ gostoso?
â Quero agradecer a todas vocĂȘs. Tudo isso... nĂŁo Ă© algo a que eu esteja acostumado.
â Vou indo.
Ela deu meia-volta e caminhou lentamente até a porta. Sua bunda se movia sob a saia negra apertada; suas pernas eram douradas. Junto à soleira, ela parou e se virou, deitando seus olhos negros novamente sobre mim, deixando-os ficar. Fiquei pasmado, em brasa. No momento em que percebeu minha reação, lançou a cabeça para trås e deu uma gargalhada. Tinha um pescoço adoråvel e toda aquela cabeleira negra. Ela desapareceu no corredor, deixando a porta entreaberta.
Peguei o sal e a pimenta, temperei o caldo, quebrei as bolachas de ågua e sal e as coloquei na tigela, aplacando minha doença a colheradas.
ApĂłs perder vĂĄrias mĂĄquinas de escrever no prego, simplesmente desisti da ideia de possuir uma. Compunha minhas histĂłrias Ă mĂŁo e as enviava dessa maneira. Escrevia-as Ă pena. Eu precisava ser um calĂgrafo veloz. Tinha que conseguir executar as letras mais rĂĄpido do que as ideias que elas continham. Escrevia trĂȘs ou quatro contos por semana. Colocava-os no correio. Imaginava os editores da The Atlantic Monthly e da Harperâs dizendo: âEi, aqui estĂĄ mais uma das coisas daquele louco...â.
Certa noite, levei Gertrude a um bar. Sentamos lado a lado em uma mesa e bebemos cerveja. Nevava lĂĄ fora. Sentia-me um pouco melhor do que de costume. Bebemos e conversamos. Uma hora, ou por volta disso, se passou. Comecei a me fixar nos olhos de Gertrude, e ela me respondia da mesma maneira. âNos dias de hoje, Ă© difĂcil encontrar um bom homem!â, dizia a jukebox. Gertrude acompanhava a mĂșsica com o corpo, com a cabeça, olhava-me nos olhos.
â VocĂȘ tem uma cara muito estranha â ela disse. â VocĂȘ nĂŁo Ă© realmente feio.
â NĂșmero quatro no setor de envio de mercadorias, galgando posiçÔes.
â Alguma vez vocĂȘ jĂĄ se apaixonou?
â Isso Ă© para pessoas de verdade.
â VocĂȘ me parece de verdade.
â NĂŁo gosto de pessoas de verdade.
â NĂŁo gosta?
â Eu as odeio.
Bebemos mais um pouco, sem falar muito. Continuava a nevar. Gertrude virou a cabeça e ficou olhando para o aglomerado de pessoas. Então voltou a me olhar.
â Ele nĂŁo Ă© bonito?
â Quem?
â O soldado lĂĄ adiante. EstĂĄ sentado sozinho. TĂŁo ereto. E tem todas as medalhas no uniforme.
â Vamos, Ă© hora de dar o fora daqui.
â Mas ainda Ă© cedo.
â VocĂȘ pode ficar.
â NĂŁo, quero ir com vocĂȘ.
â NĂŁo me importo com o que vocĂȘ fizer.
â Ă por causa do soldado? VocĂȘ ficou assim por causa do soldado?
â Oh, merda!
â Foi o soldado!
â Estou indo.
Levantei-me, deixei uma gorjeta e caminhei em direção à porta. Ouvi Gertrude atrås de mim. Segui pela rua cortando a neve. Logo ela estava ao meu lado.
â VocĂȘ nem ao menos pegou um tĂĄxi. Andar de salto alto na neve!
Não respondi. Caminhamos as quatro ou cinco quadras até a pensão. Subi os degraus lado a lado com ela. Então entrei em meu quarto, fechei a porta, me despi e fui para a cama. Escutei-a jogar alguma coisa contra a parede em seu quarto.
Filas e mais filas de bicicletas silenciosas. Caixas cheias de peças para bicicleta. Filas e mais filas de bicicletas pendendo do teto: bicicletas verdes, bicicletas vermelhas, bicicletas roxas, bicicletas azuis, bicicletas para meninas, bicicletas para meninos, todas penduradas ali; aros brilhantes, as rodas, os pneus, as tintas, os assentos de couro, as luzes traseiras, os faroletes, os freios de mão; centenas de bicicletas, fila após fila.
TĂnhamos uma hora para o almoço. Eu comia depressa, tendo estado desperto ao longo de toda a noite e alvorada, sentia-me cansado e todo dolorido. Havia conseguido encontrar um local escondido debaixo das bicicletas. Eu me arrastava atĂ© ali, debaixo de trĂȘs fileiras de bicicletas imaculadamente arranjadas. Deitava-me ali de costas, e suspensas sobre mim, alinhados com precisĂŁo, pendiam pneus, aros prateados e reluzentes, pinturas novas, tudo em perfeita ordem. Tudo era grandioso, correto, ordenado â 500 ou 600 bicicletas se estendendo sobre mim, cobrindo-me, tudo no seu devido lugar. De algum modo, aquilo tinha um profundo significado. Eu as olhava e sabia que tinha 45 minutos de descanso sob aquela ĂĄrvore de bicicletas.
Ao mesmo tempo, eu sabia, em outra parte da minha consciĂȘncia, que, se alguma vez eu me deixasse cair no meio de todas aquelas bicicletas cintilantes, seria meu fim, que eu nunca poderia me salvar. Assim, eu ficava ali deitado de costas, deixando que as rodas e os aros e as cores de alguma forma me acalmassem.
Um homem de ressaca jamais deveria deitar de costas e olhar para o telhado de um galpĂŁo. As vigas de madeira, por fim, apoderam-se de vocĂȘ; e as claraboias â vocĂȘ pode ver o gradeado para os pĂĄssaros sobre as claraboias de vidro â que formam esse gradeado de certa maneira trazem Ă mente de um homem a imagem de uma prisĂŁo. EntĂŁo hĂĄ todo aquele peso sobre os olhos, o desejo desesperado por um gole apenas, e o som das pessoas se movendo, vocĂȘ as escuta, sabe que seu tempo estĂĄ se esgotando, de alguma maneira vocĂȘ terĂĄ que se levantar e tambĂ©m entrar nesse movimento, preenchendo ordens e empacotando pedidos...
Ela era a secretĂĄria do gerente. Seu nome era Carmen â mas, apesar do nome espanhol, ela era loira e usava vestidos colados de tricĂŽ, sapatos de salto agulha, meias de nĂĄilon, cinta-liga, trazia a boca muito pintada, porĂ©m, ah, ela sabia rebolar, sabia mexer, ondulava os quadris quando vinha com os pedidos atĂ© a mesa, voltava do mesmo modo para o escritĂłrio, a rapaziada de olho em cada movimento, em cada contração de sua bunda; oscilando, serpenteando, rebolando. NĂŁo sou um galanteador. Nunca fui. Para ser um galĂŁ, Ă© preciso ter a lĂĄbia doce. Nunca fui bom em passar a lĂĄbia numa mulher. Mas, finalmente, com Carmen me pressionando, levei-a atĂ© um dos transportes de carga que descarregĂĄvamos nos fundos do galpĂŁo e a peguei de pĂ©, atrĂĄs de um desses caminhĂ”es. Foi bom, foi quente; pensei no cĂ©u azul e em praias amplas e limpas, porĂ©m ao mesmo tempo foi triste â faltava, na certa, algum sentimento humano que eu desconhecia ou com o qual nĂŁo sabia lidar. Eu tinha erguido aquele vestido de tricĂŽ acima de seus quadris e fiquei ali, a bombeĂĄ-la, apertando, por fim, minha boca contra seus lĂĄbios carregados de batom escarlate e gozei entre duas caixas lacradas com o ar cheio de cinzas e com ela pressionada contra um caminhĂŁo imundo e descascado na misericordiosa escuridĂŁo.
â FactĂłtum
Nº 6
vou ficar com o cavalo 6
numa tarde chuvosa
um copo de café de papel
na mĂŁo
tudo prestes a começar,
o vento fazendo rodopiar
pequenas cambaxirras do
grande telhado superior,
os jĂłqueis partindo
para uma corrida intermediĂĄria
silenciosos
e a garoa fazendo
todas as coisas
de uma sĂł vez
quase iguais,
os cavalos em paz uns
com os outros
antes da guerra bĂȘbada
e eu debaixo da tribuna principal
sensĂvel aos
cigarros
conformado com o café,
entĂŁo os cavalos passam
levando seus pequenos homens
consigo â
Ă© fĂșnebre e gracioso
e agradĂĄvel
como o desabrochar
das flores.
De alguma maneira o dinheiro se esvaiu depois disso e logo eu abandonei as corridas e fiquei sentado em meu apartamento, esperando que a licença de noventa dias acabasse. Meus nervos estavam em frangalhos graças Ă bebida e Ă ação. NĂŁo Ă© nenhuma novidade que as mulheres dĂŁo em cima dos homens. Quando vocĂȘ pensa que terĂĄ um tempinho para respirar, basta erguer os olhos e outra jĂĄ estĂĄ por ali. Alguns dias depois de retornar ao trabalho, a outra jĂĄ estava por ali. Fay. Fay era grisalha e sempre se vestia de preto. Dizia que era um protesto contra a guerra. Mas se Fay queria protestar contra a guerra, por mim tudo bem. Era uma espĂ©cie de escritora e frequentava algumas oficinas literĂĄrias. Tinha ideias sobre como Salvar o Mundo. Se ela pudesse salvĂĄ-lo para mim, isto tambĂ©m estaria bem. Estivera vivendo dos cheques da pensĂŁo alimentĂcia de um antigo marido â tinham tido trĂȘs filhos â, e a mĂŁe tambĂ©m lhe mandava algum dinheiro de vez em quando. Fay nunca tivera mais do que um ou dois empregos na vida.
Enquanto isso, Janko tinha uma nova histĂłria de merda. Ele me mandava pra casa a cada manhĂŁ com a cabeça doendo. Naquela Ă©poca eu vinha recebendo inĂșmeras multas de trĂąnsito. Parecia que a cada vez que eu olhava pelo retrovisor lĂĄ estavam as sirenes vermelhas. Um carro-patrulha ou uma moto.
Certa noite cheguei em casa tarde. Estava realmente acabado. Sacar a chave e levå-la até a fechadura estava no limite das minhas forças. Segui até o quarto e lå estava Fay na cama, lendo The New Yorker e comendo chocolates. Ela sequer disse olå.
Fui atĂ© a cozinha e procurei alguma coisa para comer. NĂŁo havia nada na geladeira. Resolvi me servir um copo dâĂĄgua. Fui atĂ© a pia. Estava entulhada de porcaria. Fay gostava de guardar potes vazios e suas tampas. Os pratos sujos enchiam metade da pia e, flutuando sobre a ĂĄgua, junto com alguns pratos de papel, estavam os potes e as tampas.
Retornei ao quarto no exato momento em que Fay punha na boca um pedaço de chocolate.
â Veja bem, Fay â eu disse â, sei que vocĂȘ quer salvar o mundo. Mas serĂĄ que vocĂȘ nĂŁo pode começar pela cozinha?
â Cozinhas nĂŁo sĂŁo importantes â ela disse.
Era difĂcil bater numa mulher grisalha, de modo que eu simplesmente segui para o banheiro e deixei que a ĂĄgua enchesse a banheira. Um banho escaldante talvez pudesse esfriar os nervos. Quando a banheira se encheu tive medo de entrar nela. Meu corpo estropiado havia, Ă quela altura, endurecido de tal maneira que eu temia me afogar ali dentro.
Fui até a sala e depois de um esforço consegui tirar as calças, as cuecas, os sapatos, as meias. Retornei ao quarto e galguei a cama até junto a Fay. Não conseguia me ajeitar. Cada vez que eu me movia, o custo era alto.
O Ășnico momento em que vocĂȘ estĂĄ sozinho, Chinaski, pensei, Ă© quando vocĂȘ dirige para o trabalho ou volta dele.
Finalmente consegui encontrar uma posição sobre minha barriga. Meu corpo todo doĂa. Logo eu estaria de volta no trabalho. Se eu conseguisse dar um jeito de dormir, isso me ajudaria. Com alguma frequĂȘncia, podia ouvir o som de uma pĂĄgina sendo virada, de um chocolate sendo comido. Havia sido uma de suas noites de oficina. Se ela pudesse ao menos apagar as luzes.
â Como estava a oficina? â perguntei, deitado de bruços.
â Estou preocupada com Robby.
â Oh â perguntei â, o que estĂĄ acontecendo?
Robby era um cara perto dos quarenta que tinha vivido com a mãe desde que nascera. Tudo o que ele escrevia, segundo tinham me informado, eram histórias muito engraçadas sobre a Igreja Católica. Robby realmente tirava sarro dos católicos. As revistas apenas não estavam prontas para Robby, embora tivesse sido publicado uma vez num jornal canadense. Certa vez, numa das minhas noites de folga, eu tinha visto Robby. Levei Fay até esta mansão onde eles se encontravam para ler suas coisas.
â Oh! Este Ă© o Robby! â Fay dissera. â Ele escreve essas histĂłrias divertidĂssimas sobre a Igreja CatĂłlica!
Ela havia me apontado o cara. Robby estava de costas para a gente. Sua bunda era larga e grande e molenga; ficava pendurada dentro das calças. Serå que eles não veem isso?, pensei.
â VocĂȘ nĂŁo quer entrar? â Fay tinha perguntado.
â Talvez na prĂłxima semana...
Fay pĂŽs outro chocolate na boca.
â Robby estĂĄ preocupado. Perdeu seu emprego de entregador. Diz que nĂŁo consegue escrever sem estar empregado. Precisa do sentimento de segurança. Diz que nĂŁo serĂĄ capaz de escrever nada enquanto nĂŁo encontrar outro trabalho.
â Caralho â eu disse â, jĂĄ sei onde podemos arranjar um emprego.
â Onde? Como?
â EstĂŁo contratando gente lĂĄ nos Correios, a torto e a direito. O salĂĄrio nĂŁo Ă© mau.
â OS CORREIOS! ROBBY Ă SENSĂVEL DEMAIS PARA TRABALHAR NOS CORREIOS!
â Desculpe â eu disse â, achei que valia a pena tentar. Boa noite.
Fay nĂŁo me respondeu. Estava furiosa.
â Cartas na rua
numa tarde chuvosa
um copo de café de papel
na mĂŁo
tudo prestes a começar,
o vento fazendo rodopiar
pequenas cambaxirras do
grande telhado superior,
os jĂłqueis partindo
para uma corrida intermediĂĄria
silenciosos
e a garoa fazendo
todas as coisas
de uma sĂł vez
quase iguais,
os cavalos em paz uns
com os outros
antes da guerra bĂȘbada
e eu debaixo da tribuna principal
sensĂvel aos
cigarros
conformado com o café,
entĂŁo os cavalos passam
levando seus pequenos homens
consigo â
Ă© fĂșnebre e gracioso
e agradĂĄvel
como o desabrochar
das flores.
De alguma maneira o dinheiro se esvaiu depois disso e logo eu abandonei as corridas e fiquei sentado em meu apartamento, esperando que a licença de noventa dias acabasse. Meus nervos estavam em frangalhos graças Ă bebida e Ă ação. NĂŁo Ă© nenhuma novidade que as mulheres dĂŁo em cima dos homens. Quando vocĂȘ pensa que terĂĄ um tempinho para respirar, basta erguer os olhos e outra jĂĄ estĂĄ por ali. Alguns dias depois de retornar ao trabalho, a outra jĂĄ estava por ali. Fay. Fay era grisalha e sempre se vestia de preto. Dizia que era um protesto contra a guerra. Mas se Fay queria protestar contra a guerra, por mim tudo bem. Era uma espĂ©cie de escritora e frequentava algumas oficinas literĂĄrias. Tinha ideias sobre como Salvar o Mundo. Se ela pudesse salvĂĄ-lo para mim, isto tambĂ©m estaria bem. Estivera vivendo dos cheques da pensĂŁo alimentĂcia de um antigo marido â tinham tido trĂȘs filhos â, e a mĂŁe tambĂ©m lhe mandava algum dinheiro de vez em quando. Fay nunca tivera mais do que um ou dois empregos na vida.
Enquanto isso, Janko tinha uma nova histĂłria de merda. Ele me mandava pra casa a cada manhĂŁ com a cabeça doendo. Naquela Ă©poca eu vinha recebendo inĂșmeras multas de trĂąnsito. Parecia que a cada vez que eu olhava pelo retrovisor lĂĄ estavam as sirenes vermelhas. Um carro-patrulha ou uma moto.
Certa noite cheguei em casa tarde. Estava realmente acabado. Sacar a chave e levå-la até a fechadura estava no limite das minhas forças. Segui até o quarto e lå estava Fay na cama, lendo The New Yorker e comendo chocolates. Ela sequer disse olå.
Fui atĂ© a cozinha e procurei alguma coisa para comer. NĂŁo havia nada na geladeira. Resolvi me servir um copo dâĂĄgua. Fui atĂ© a pia. Estava entulhada de porcaria. Fay gostava de guardar potes vazios e suas tampas. Os pratos sujos enchiam metade da pia e, flutuando sobre a ĂĄgua, junto com alguns pratos de papel, estavam os potes e as tampas.
Retornei ao quarto no exato momento em que Fay punha na boca um pedaço de chocolate.
â Veja bem, Fay â eu disse â, sei que vocĂȘ quer salvar o mundo. Mas serĂĄ que vocĂȘ nĂŁo pode começar pela cozinha?
â Cozinhas nĂŁo sĂŁo importantes â ela disse.
Era difĂcil bater numa mulher grisalha, de modo que eu simplesmente segui para o banheiro e deixei que a ĂĄgua enchesse a banheira. Um banho escaldante talvez pudesse esfriar os nervos. Quando a banheira se encheu tive medo de entrar nela. Meu corpo estropiado havia, Ă quela altura, endurecido de tal maneira que eu temia me afogar ali dentro.
Fui até a sala e depois de um esforço consegui tirar as calças, as cuecas, os sapatos, as meias. Retornei ao quarto e galguei a cama até junto a Fay. Não conseguia me ajeitar. Cada vez que eu me movia, o custo era alto.
O Ășnico momento em que vocĂȘ estĂĄ sozinho, Chinaski, pensei, Ă© quando vocĂȘ dirige para o trabalho ou volta dele.
Finalmente consegui encontrar uma posição sobre minha barriga. Meu corpo todo doĂa. Logo eu estaria de volta no trabalho. Se eu conseguisse dar um jeito de dormir, isso me ajudaria. Com alguma frequĂȘncia, podia ouvir o som de uma pĂĄgina sendo virada, de um chocolate sendo comido. Havia sido uma de suas noites de oficina. Se ela pudesse ao menos apagar as luzes.
â Como estava a oficina? â perguntei, deitado de bruços.
â Estou preocupada com Robby.
â Oh â perguntei â, o que estĂĄ acontecendo?
Robby era um cara perto dos quarenta que tinha vivido com a mãe desde que nascera. Tudo o que ele escrevia, segundo tinham me informado, eram histórias muito engraçadas sobre a Igreja Católica. Robby realmente tirava sarro dos católicos. As revistas apenas não estavam prontas para Robby, embora tivesse sido publicado uma vez num jornal canadense. Certa vez, numa das minhas noites de folga, eu tinha visto Robby. Levei Fay até esta mansão onde eles se encontravam para ler suas coisas.
â Oh! Este Ă© o Robby! â Fay dissera. â Ele escreve essas histĂłrias divertidĂssimas sobre a Igreja CatĂłlica!
Ela havia me apontado o cara. Robby estava de costas para a gente. Sua bunda era larga e grande e molenga; ficava pendurada dentro das calças. Serå que eles não veem isso?, pensei.
â VocĂȘ nĂŁo quer entrar? â Fay tinha perguntado.
â Talvez na prĂłxima semana...
Fay pĂŽs outro chocolate na boca.
â Robby estĂĄ preocupado. Perdeu seu emprego de entregador. Diz que nĂŁo consegue escrever sem estar empregado. Precisa do sentimento de segurança. Diz que nĂŁo serĂĄ capaz de escrever nada enquanto nĂŁo encontrar outro trabalho.
â Caralho â eu disse â, jĂĄ sei onde podemos arranjar um emprego.
â Onde? Como?
â EstĂŁo contratando gente lĂĄ nos Correios, a torto e a direito. O salĂĄrio nĂŁo Ă© mau.
â OS CORREIOS! ROBBY Ă SENSĂVEL DEMAIS PARA TRABALHAR NOS CORREIOS!
â Desculpe â eu disse â, achei que valia a pena tentar. Boa noite.
Fay nĂŁo me respondeu. Estava furiosa.
â Cartas na rua
Nós, Os Artistas...
em SĂŁo Francisco a senhoria, 80, me ajudou a arrastar a vitrola
verde escada acima e eu tocava a Quinta do Beethoven
até que batessem nas paredes.
havia um grande balde no meio do quarto
cheio de garrafas de vinho e cerveja;
entĂŁo, deve ter sido delirium tremens, pois certa tarde
ouvi um som parecido com uma campainha
exceto pelo fato de que a campainha zunia em vez de bater,
e então uma luz dourada apareceu no canto da peça
junto ao teto
a através do som e da luz
brilhou a face de uma mulher, maltratada mas bonita,
e ela me olhou lĂĄ de cima
e depois a face de um homem juntou-se Ă dela,
a luz se tornou mais forte o homem disse:
nĂłs, os artistas, estamos orgulhosos de vocĂȘ!
entĂŁo a mulher disse: o rapazinho estĂĄ assustado,
e eu estava, e logo desapareceram.
levantei, me vesti, e fui para o bar
me perguntando quem eram os artistas e por que deveriam se
orgulhar de mim. havia algumas almas no bar
e descolei uns drinques de graça, pus fogo nas minhas calças com as
cinzas do meu cachimbo de vime, quebrei um copo deliberadamente,
nĂŁo fui expulso, conheci um homem que dizia ser William
Saroyan, e bebemos juntos até uma mulher entrar e
puxĂĄ-lo pela orelha e entĂŁo pensei, nĂŁo, esse nĂŁo pode ser
William, e outro cara entrou e disse: cara, vocĂȘ fala
grosso, bem, escute, acabei de sair por roubo e
agressĂŁo, entĂŁo nĂŁo se meta comigo! fomos para fora do
bar, era um cara legal, sabia como brigar, e aquela luta seguiu
bastante parelha, entĂŁo eles pararam e nĂłs voltamos para
dentro e bebemos por mais um par de horas. Voltei para
casa, coloquei a Quinta de Beethoven e
quando eles batem nas paredes eu bato
de volta.
sigo pensando em quando eu era jovem, naquela época, em como eu era,
e mal posso acreditar nisso tudo, mas nĂŁo importa.
espero que os artistas continuem orgulhosos de mim
mas eles jamais voltaram a
aparecer.
a guerra irrompeu e quando percebi
estava em Nova Orleans
entrando bĂȘbado em um bar
apĂłs ter caĂdo na lama numa noite chuvosa.
Vi um homem esfaquear outro e nĂŁo me importei e
pus um nĂquel no jukebox.
era um jeito de começar. San
Francisco e Nova Orleans eram duas das minhas
cidades favoritas.
verde escada acima e eu tocava a Quinta do Beethoven
até que batessem nas paredes.
havia um grande balde no meio do quarto
cheio de garrafas de vinho e cerveja;
entĂŁo, deve ter sido delirium tremens, pois certa tarde
ouvi um som parecido com uma campainha
exceto pelo fato de que a campainha zunia em vez de bater,
e então uma luz dourada apareceu no canto da peça
junto ao teto
a através do som e da luz
brilhou a face de uma mulher, maltratada mas bonita,
e ela me olhou lĂĄ de cima
e depois a face de um homem juntou-se Ă dela,
a luz se tornou mais forte o homem disse:
nĂłs, os artistas, estamos orgulhosos de vocĂȘ!
entĂŁo a mulher disse: o rapazinho estĂĄ assustado,
e eu estava, e logo desapareceram.
levantei, me vesti, e fui para o bar
me perguntando quem eram os artistas e por que deveriam se
orgulhar de mim. havia algumas almas no bar
e descolei uns drinques de graça, pus fogo nas minhas calças com as
cinzas do meu cachimbo de vime, quebrei um copo deliberadamente,
nĂŁo fui expulso, conheci um homem que dizia ser William
Saroyan, e bebemos juntos até uma mulher entrar e
puxĂĄ-lo pela orelha e entĂŁo pensei, nĂŁo, esse nĂŁo pode ser
William, e outro cara entrou e disse: cara, vocĂȘ fala
grosso, bem, escute, acabei de sair por roubo e
agressĂŁo, entĂŁo nĂŁo se meta comigo! fomos para fora do
bar, era um cara legal, sabia como brigar, e aquela luta seguiu
bastante parelha, entĂŁo eles pararam e nĂłs voltamos para
dentro e bebemos por mais um par de horas. Voltei para
casa, coloquei a Quinta de Beethoven e
quando eles batem nas paredes eu bato
de volta.
sigo pensando em quando eu era jovem, naquela época, em como eu era,
e mal posso acreditar nisso tudo, mas nĂŁo importa.
espero que os artistas continuem orgulhosos de mim
mas eles jamais voltaram a
aparecer.
a guerra irrompeu e quando percebi
estava em Nova Orleans
entrando bĂȘbado em um bar
apĂłs ter caĂdo na lama numa noite chuvosa.
Vi um homem esfaquear outro e nĂŁo me importei e
pus um nĂquel no jukebox.
era um jeito de começar. San
Francisco e Nova Orleans eram duas das minhas
cidades favoritas.
Notas Sobre o Aspecto Linhoso:
uma florzinha do John F. Kennedy bate Ă minha porta Ă© atingida no
pescoço;
os gladĂolos se reĂșnem Ă s dĂșzias ao redor da extremidade da
Ăndia
pingando no CeilĂŁo;
dĂșzias de ostras[12] leem Germaine Greer.
enquanto isso, minha excitação vai da conversa fiada dos filisteus
ao olho do peixinho
o peixinho sendo devorado pelos sonhos cumulativos de
Simon BolĂvar. Ă,
a liberdade da limitação angular da distùncia seria
delicioso.
a guerra Ă© perfeita,
o que Ă© sĂłlido pinga e se dispersa,
Schopenhauer riu por 72 anos,
e um homĂșnculo em Nova York me disse
certa tarde numa
casa de penhores:
âCristo conseguiu atrair mais atenção que eu
mas eu fui mais longe com menos...â
bem, a distĂąncia entre 5 pontos Ă© a mesma assim como a
distĂąncia entre 3 pontos Ă© a mesma distĂąncia
entre um ponto:
tudo Ă© tĂŁo cordial como um bombom:
tudo isso em que estamos
envolvidos:
os eunucos sĂŁo mais precisos que o sono
o selo postal Ă© louco, Indiana Ă© ridĂculo
o camaleĂŁo Ă© a Ășltima flor ambulante.
pescoço;
os gladĂolos se reĂșnem Ă s dĂșzias ao redor da extremidade da
Ăndia
pingando no CeilĂŁo;
dĂșzias de ostras[12] leem Germaine Greer.
enquanto isso, minha excitação vai da conversa fiada dos filisteus
ao olho do peixinho
o peixinho sendo devorado pelos sonhos cumulativos de
Simon BolĂvar. Ă,
a liberdade da limitação angular da distùncia seria
delicioso.
a guerra Ă© perfeita,
o que Ă© sĂłlido pinga e se dispersa,
Schopenhauer riu por 72 anos,
e um homĂșnculo em Nova York me disse
certa tarde numa
casa de penhores:
âCristo conseguiu atrair mais atenção que eu
mas eu fui mais longe com menos...â
bem, a distĂąncia entre 5 pontos Ă© a mesma assim como a
distĂąncia entre 3 pontos Ă© a mesma distĂąncia
entre um ponto:
tudo Ă© tĂŁo cordial como um bombom:
tudo isso em que estamos
envolvidos:
os eunucos sĂŁo mais precisos que o sono
o selo postal Ă© louco, Indiana Ă© ridĂculo
o camaleĂŁo Ă© a Ășltima flor ambulante.
O Assistente Hospitalar
estou sentado numa cadeira de latĂŁo do lado de fora do laboratĂłrio de raio X
enquanto a morte, em asas fétidas, bafeja eternamente
através dos corredores.
lembro dos fedores do hospital de quando
era um garoto e de quando me fiz homem e agora
que sou velho
e me sento, esperando, na minha cadeira de latĂŁo.
entĂŁo um assistente hospitalar
um jovem entre 23 ou 24 anos
surge empurrando um equipamento.
parece uma cesta
com roupas recém-lavadas
mas nĂŁo posso ter certeza.
o assistente Ă© estranho.
nĂŁo chega a ser deformado
mas suas pernas se movem
de um modo desgovernado
como se dissociadas dos
comandos motores cerebrais.
estå vestido de azul, dos pés à cabeça,
empurrando,
empurrando sua carga.
pequeno e desajeitado garoto azul.
então ele vira a cabeça e grita para
a recepcionista junto ao guichĂȘ do raio X:
âse alguĂ©m precisar de mim, estarei no 76
por uns 20 minutos!â
sua face enrubesce enquanto ele grita,
sua boca forma um arco
voltado para baixo como a
boca de uma abĂłbora no dia das bruxas.
entĂŁo ele entrou por alguma porta
provavelmente a do 76.
um camarada nĂŁo muito bem-disposto.
perdido como ser humano,
caminhante avançado de alguma
estrada entorpecente.
mas
ele Ă© saudĂĄvel
ele Ă© saudĂĄvel.
ELE Ă SAUDĂVEL.
enquanto a morte, em asas fétidas, bafeja eternamente
através dos corredores.
lembro dos fedores do hospital de quando
era um garoto e de quando me fiz homem e agora
que sou velho
e me sento, esperando, na minha cadeira de latĂŁo.
entĂŁo um assistente hospitalar
um jovem entre 23 ou 24 anos
surge empurrando um equipamento.
parece uma cesta
com roupas recém-lavadas
mas nĂŁo posso ter certeza.
o assistente Ă© estranho.
nĂŁo chega a ser deformado
mas suas pernas se movem
de um modo desgovernado
como se dissociadas dos
comandos motores cerebrais.
estå vestido de azul, dos pés à cabeça,
empurrando,
empurrando sua carga.
pequeno e desajeitado garoto azul.
então ele vira a cabeça e grita para
a recepcionista junto ao guichĂȘ do raio X:
âse alguĂ©m precisar de mim, estarei no 76
por uns 20 minutos!â
sua face enrubesce enquanto ele grita,
sua boca forma um arco
voltado para baixo como a
boca de uma abĂłbora no dia das bruxas.
entĂŁo ele entrou por alguma porta
provavelmente a do 76.
um camarada nĂŁo muito bem-disposto.
perdido como ser humano,
caminhante avançado de alguma
estrada entorpecente.
mas
ele Ă© saudĂĄvel
ele Ă© saudĂĄvel.
ELE Ă SAUDĂVEL.
O Ato Criativo
para o ovo quebrado no chĂŁo
paro o 5 de julho
para o peixe no tanque
para o velho no quarto 9
para o gato na cerca
para vocĂȘ mesmo
nĂŁo pela fama
nĂŁo pelo dinheiro
vocĂȘ precisa seguir na batalha
quando a idade avança
o glamour esmorece
Ă© mais fĂĄcil quando se Ă© jovem
todo mundo pode se erguer Ă s
alturas vez ou outra
a palavra-chave Ă©
consistĂȘncia
qualquer coisa que mantenha as coisas
em movimento
esta dança da vida em frente Ă
Dona Morte.
E lĂĄ estava. O filme rolava. Eu tomara uma surra do garçom no beco. Como expliquei antes, tenho as mĂŁos pequenas, o que Ă© uma terrĂvel desvantagem numa briga de socos. Aquele garçom em particular tinha umas mĂŁos enormes. Para piorar ainda mais as coisas, eu encaixava bem as porradas, o que me fazia absorver muito mais o castigo. Tinha um pouco de sorte do meu lado: nĂŁo era muito medroso. As brigas com o garçom eram uma forma de passar o tempo. Afinal, a gente nĂŁo podia ficar sentado no tamborete do bar o dia e a noite inteiros. A dor vinha na manhĂŁ seguinte, e nĂŁo era tĂŁo ruim quando a gente tinha conseguido voltar para o quarto.
E brigando duas ou trĂȘs vezes por semana eu ia ficando melhor naquilo. Ou o garçom ficando pior.
Mas isso fora mais de quatro décadas atrås. Agora eu me sentava numa sala de projeção de Hollywood.
NĂŁo Ă© preciso lembrar o filme aqui. Talvez seja melhor falar de uma parte que ficou de fora. Mais adiante, no filme, uma dona quer cuidar de mim. Acha que eu sou um gĂȘnio e quer me proteger das ruas. No filme eu sĂł fico na casa da dona uma noite. Mas na vida real fiquei cerca de um mĂȘs e meio.
A dona, Tully, morava numa grande casa em Hollywood Hills. Dividia-a com outra dona, Nadine. As duas eram altas executivas. Estavam no ramo das diversĂ”es: mĂșsica, editoração, uma coisa assim. Pareciam conhecer todo mundo e davam duas ou trĂȘs festas por semana, um monte de tipos de Nova York. Eu nĂŁo gostava das festas de Tully e me divertia ficando totalmente de porre e insultando o mĂĄximo de pessoas que pudesse.
Nadine morava com um cara um pouco mais jovem que eu. Era compositor, ou diretor, ou alguma coisa assim, temporariamente desempregado. NĂŁo gostei dele de cara. Vivia esbarrando com ele pela casa ou no pĂĄtio de manhĂŁ, quando estĂĄvamos ambos de ressaca. Ele sempre usava uma porra de uma echarpe.
Uma manhĂŁ, lĂĄ pelas 11 horas, estĂĄvamos os dois no pĂĄtio mamando umas cervejas, tentando nos recuperar de nossas ressacas. Ele se chamava Rich. Me olhou.
â Precisa de outra cerveja?
â Claro... Obrigado...
Ele entrou na cozinha, voltou, me entregou minha cerveja e se sentou.
Tomou uma boa golada. Depois deu um profundo suspiro.
â NĂŁo sei por quanto tempo mais vou conseguir enrolar ela...
â QuĂȘ?
â Quer dizer, eu nĂŁo tenho talento nenhum. Ă tudo merda.
â Lindo â eu disse â, isso Ă© realmente lindo. Eu admiro vocĂȘ.
â Obrigado. E vocĂȘ? â ele perguntou.
â Eu bato Ă mĂĄquina. Mas nĂŁo Ă© esse o problema.
â Qual Ă©?
â Estou com o pau esfolado de tanto foder. Ela nunca se satisfaz.
â Eu tenho de chupar Nadine toda noite.
â Nossa...
â Hank, nĂłs somos uma dupla de homens manteĂșdos.
â Rich, essas mulheres liberadas puseram os bagos da gente num saco.
â Acho que a gente devia entrar jĂĄ na vodca â ele disse.
â Ătimo â eu disse.
Nessa noite, quando nossas donas chegaram, nenhum dos dois estava em condiçÔes de cumprir seus deveres.
Rich durou mais uma semana e desapareceu.
Depois disso, eu muitas vezes encontrava Nadine andando nua pela casa, geralmente quando Tully havia saĂdo.
â Que diabos estĂĄ fazendo? â perguntei finalmente.
â Isto aqui Ă© minha casa, e se eu quiser andar com o rabo tomando vento isso nĂŁo Ă© da conta de ninguĂ©m.
â Vamos lĂĄ, Nadine, que Ă© que hĂĄ realmente? Quer uma chupadinha?
â Nem que vocĂȘ fosse o Ășltimo homem da terra.
â Se eu fosse o Ășltimo homem da terra, vocĂȘ ia ter de entrar na fila.
â Fique feliz por eu nĂŁo contar pra Tully.
â Bem, pare de andar por aĂ com a xoxota pendurada.
â Seu porco!
Subiu correndo a escada, plop, plop, plop. Um rabĂŁo. Uma porta bateu lĂĄ em cima. Eu nĂŁo prossegui com a coisa. Uma mercadoria totalmente superestimada.
Nessa noite, quando Tully voltou, me remeteu para Catalina por uma semana. Acho que sabia que Nadine estava no cio.
Isso nĂŁo estava no filme. NĂŁo se pode pĂŽr tudo num filme.
E aĂ, voltando Ă sala de projeção, o filme acabara. Aplaudiram. Todos saĂmos em volta apertando as mĂŁos uns dos outros, abraçando-nos. Ăramos todos sensacionais, diabos, sim.
Harry Friedman me encontrou. Nós nos abraçamos, depois apertamos as mãos.
â Harry â eu disse â, vocĂȘ tem um vencedor!
â Ă, Ă©, um grande argumento! Escuta, eu soube que vocĂȘ escreveu um romance sobre prostitutas.
â Ă.
â Quero que me escreva um argumento sobre ele. Quero fazer!
â Claro, Harry, claro...
EntĂŁo ele avistou Francine Bowers e correu para ela.
â Francine, doçura, vocĂȘ estava magnĂfica!
Aos poucos, as coisas foram se acalmando e a sala ficou quase vazia. Sarah e eu saĂmos.
Lance Edwards e seu carro haviam desaparecido. TĂnhamos o longo percurso de volta atĂ© o nosso carro. Tudo bem. A noite estava fresca e clara. O filme acabara e logo estaria sendo exibido. Os crĂticos dariam sua opiniĂŁo. Eu sabia que se faziam filmes demais, um atrĂĄs do outro atrĂĄs do outro. O pĂșblico via tantos filmes que nĂŁo sabia mais o que era um filme e os crĂticos se achavam na mesma entalada.
E entĂŁo voltĂĄvamos para casa, em nosso carro.
â Eu gostei â disse Sarah. â SĂł que teve umas partes...
â Eu sei. NĂŁo Ă© um filme imortal, mas Ă© bom.
â Ă, Ă©, sim...
EstĂĄvamos na autoestrada.
â Vou ter prazer em ver os gatos â disse Sarah.
â Eu tambĂ©m...
â VocĂȘ vai escrever outro argumento?
â Espero que nĂŁo...
â Harry Friedman quer que a gente vĂĄ a Cannes, Hank.
â QuĂȘ? E deixar os gatos?
â Ele mandou levar os gatos.
â De jeito nenhum!
â Foi o que eu disse a ele.
Fora uma boa noite, e outras haveria. Eu entrei na primeira saĂda e paguei para ver.
â Hollywood
paro o 5 de julho
para o peixe no tanque
para o velho no quarto 9
para o gato na cerca
para vocĂȘ mesmo
nĂŁo pela fama
nĂŁo pelo dinheiro
vocĂȘ precisa seguir na batalha
quando a idade avança
o glamour esmorece
Ă© mais fĂĄcil quando se Ă© jovem
todo mundo pode se erguer Ă s
alturas vez ou outra
a palavra-chave Ă©
consistĂȘncia
qualquer coisa que mantenha as coisas
em movimento
esta dança da vida em frente Ă
Dona Morte.
E lĂĄ estava. O filme rolava. Eu tomara uma surra do garçom no beco. Como expliquei antes, tenho as mĂŁos pequenas, o que Ă© uma terrĂvel desvantagem numa briga de socos. Aquele garçom em particular tinha umas mĂŁos enormes. Para piorar ainda mais as coisas, eu encaixava bem as porradas, o que me fazia absorver muito mais o castigo. Tinha um pouco de sorte do meu lado: nĂŁo era muito medroso. As brigas com o garçom eram uma forma de passar o tempo. Afinal, a gente nĂŁo podia ficar sentado no tamborete do bar o dia e a noite inteiros. A dor vinha na manhĂŁ seguinte, e nĂŁo era tĂŁo ruim quando a gente tinha conseguido voltar para o quarto.
E brigando duas ou trĂȘs vezes por semana eu ia ficando melhor naquilo. Ou o garçom ficando pior.
Mas isso fora mais de quatro décadas atrås. Agora eu me sentava numa sala de projeção de Hollywood.
NĂŁo Ă© preciso lembrar o filme aqui. Talvez seja melhor falar de uma parte que ficou de fora. Mais adiante, no filme, uma dona quer cuidar de mim. Acha que eu sou um gĂȘnio e quer me proteger das ruas. No filme eu sĂł fico na casa da dona uma noite. Mas na vida real fiquei cerca de um mĂȘs e meio.
A dona, Tully, morava numa grande casa em Hollywood Hills. Dividia-a com outra dona, Nadine. As duas eram altas executivas. Estavam no ramo das diversĂ”es: mĂșsica, editoração, uma coisa assim. Pareciam conhecer todo mundo e davam duas ou trĂȘs festas por semana, um monte de tipos de Nova York. Eu nĂŁo gostava das festas de Tully e me divertia ficando totalmente de porre e insultando o mĂĄximo de pessoas que pudesse.
Nadine morava com um cara um pouco mais jovem que eu. Era compositor, ou diretor, ou alguma coisa assim, temporariamente desempregado. NĂŁo gostei dele de cara. Vivia esbarrando com ele pela casa ou no pĂĄtio de manhĂŁ, quando estĂĄvamos ambos de ressaca. Ele sempre usava uma porra de uma echarpe.
Uma manhĂŁ, lĂĄ pelas 11 horas, estĂĄvamos os dois no pĂĄtio mamando umas cervejas, tentando nos recuperar de nossas ressacas. Ele se chamava Rich. Me olhou.
â Precisa de outra cerveja?
â Claro... Obrigado...
Ele entrou na cozinha, voltou, me entregou minha cerveja e se sentou.
Tomou uma boa golada. Depois deu um profundo suspiro.
â NĂŁo sei por quanto tempo mais vou conseguir enrolar ela...
â QuĂȘ?
â Quer dizer, eu nĂŁo tenho talento nenhum. Ă tudo merda.
â Lindo â eu disse â, isso Ă© realmente lindo. Eu admiro vocĂȘ.
â Obrigado. E vocĂȘ? â ele perguntou.
â Eu bato Ă mĂĄquina. Mas nĂŁo Ă© esse o problema.
â Qual Ă©?
â Estou com o pau esfolado de tanto foder. Ela nunca se satisfaz.
â Eu tenho de chupar Nadine toda noite.
â Nossa...
â Hank, nĂłs somos uma dupla de homens manteĂșdos.
â Rich, essas mulheres liberadas puseram os bagos da gente num saco.
â Acho que a gente devia entrar jĂĄ na vodca â ele disse.
â Ătimo â eu disse.
Nessa noite, quando nossas donas chegaram, nenhum dos dois estava em condiçÔes de cumprir seus deveres.
Rich durou mais uma semana e desapareceu.
Depois disso, eu muitas vezes encontrava Nadine andando nua pela casa, geralmente quando Tully havia saĂdo.
â Que diabos estĂĄ fazendo? â perguntei finalmente.
â Isto aqui Ă© minha casa, e se eu quiser andar com o rabo tomando vento isso nĂŁo Ă© da conta de ninguĂ©m.
â Vamos lĂĄ, Nadine, que Ă© que hĂĄ realmente? Quer uma chupadinha?
â Nem que vocĂȘ fosse o Ășltimo homem da terra.
â Se eu fosse o Ășltimo homem da terra, vocĂȘ ia ter de entrar na fila.
â Fique feliz por eu nĂŁo contar pra Tully.
â Bem, pare de andar por aĂ com a xoxota pendurada.
â Seu porco!
Subiu correndo a escada, plop, plop, plop. Um rabĂŁo. Uma porta bateu lĂĄ em cima. Eu nĂŁo prossegui com a coisa. Uma mercadoria totalmente superestimada.
Nessa noite, quando Tully voltou, me remeteu para Catalina por uma semana. Acho que sabia que Nadine estava no cio.
Isso nĂŁo estava no filme. NĂŁo se pode pĂŽr tudo num filme.
E aĂ, voltando Ă sala de projeção, o filme acabara. Aplaudiram. Todos saĂmos em volta apertando as mĂŁos uns dos outros, abraçando-nos. Ăramos todos sensacionais, diabos, sim.
Harry Friedman me encontrou. Nós nos abraçamos, depois apertamos as mãos.
â Harry â eu disse â, vocĂȘ tem um vencedor!
â Ă, Ă©, um grande argumento! Escuta, eu soube que vocĂȘ escreveu um romance sobre prostitutas.
â Ă.
â Quero que me escreva um argumento sobre ele. Quero fazer!
â Claro, Harry, claro...
EntĂŁo ele avistou Francine Bowers e correu para ela.
â Francine, doçura, vocĂȘ estava magnĂfica!
Aos poucos, as coisas foram se acalmando e a sala ficou quase vazia. Sarah e eu saĂmos.
Lance Edwards e seu carro haviam desaparecido. TĂnhamos o longo percurso de volta atĂ© o nosso carro. Tudo bem. A noite estava fresca e clara. O filme acabara e logo estaria sendo exibido. Os crĂticos dariam sua opiniĂŁo. Eu sabia que se faziam filmes demais, um atrĂĄs do outro atrĂĄs do outro. O pĂșblico via tantos filmes que nĂŁo sabia mais o que era um filme e os crĂticos se achavam na mesma entalada.
E entĂŁo voltĂĄvamos para casa, em nosso carro.
â Eu gostei â disse Sarah. â SĂł que teve umas partes...
â Eu sei. NĂŁo Ă© um filme imortal, mas Ă© bom.
â Ă, Ă©, sim...
EstĂĄvamos na autoestrada.
â Vou ter prazer em ver os gatos â disse Sarah.
â Eu tambĂ©m...
â VocĂȘ vai escrever outro argumento?
â Espero que nĂŁo...
â Harry Friedman quer que a gente vĂĄ a Cannes, Hank.
â QuĂȘ? E deixar os gatos?
â Ele mandou levar os gatos.
â De jeito nenhum!
â Foi o que eu disse a ele.
Fora uma boa noite, e outras haveria. Eu entrei na primeira saĂda e paguei para ver.
â Hollywood
O Cadarço
uma mulher, um
pneu que estĂĄ no chĂŁo, uma
doença, um
desejo; medos a sua frente,
medos que de tĂŁo estĂĄticos
permitem que vocĂȘ os estude
como peças num tabuleiro de
xadrez...
nĂŁo sĂŁo as grandes coisas que
mandam um homem para o
hospĂcio. para a morte ele estĂĄ pronto, ou
o assassinato, o incesto, o roubo, incĂȘndios, enchentes...
não, é a ininterrupta série de pequenas tragédias
que manda um homem para o
hospĂcio...
nĂŁo a morte de sua paixĂŁo
mas um cadarço que rebenta
quando jĂĄ nĂŁo hĂĄ mais tempo...
o medonho da vida
Ă© o enxame de trivialidades
capazes de matar mais rĂĄpido que o cĂąncer
e que estĂŁo sempre ali â
emplacamentos ou taxas
ou carteiras de motorista vencidas,
ou contrataçÔes ou demissÔes,
perpetradas ou nĂŁo perpetradas por vocĂȘ, ou
constipação
multas por velocidade
chatos ou grilos ou ratos ou cupins ou
baratas ou moscas ou um
gancho arrebentado numa
rede, ou falta de gĂĄs
ou gĂĄs demais,
a pia entupida, o senhorio bĂȘbado,
o desinteresse do presidente e a loucura do
governador.
interruptor de luz quebrado, colchĂŁo que parece um
porco-espinho;
105 dĂłlares por um conserto, carburador e bomba de gasolina na
Sears Roebuck;
e a conta de telefone sobe e a do mercado
desce
e o cordĂŁo da descarga estĂĄ
estragado,
e a luz se foi â
a luz do hall, a luz da frente, a luz dos fundos;
a luz interna; uma escuridĂŁo
dos infernos
e duas vezes mais
cara.
entĂŁo hĂĄ sempre os chatos e as unhas encravadas
e as pessoas que insistem que sĂŁo
suas amigas;
isso Ă© algo que nĂŁo falta nunca e nĂŁo para por aĂ;
torneira pingando, Jesus e Natal;
salame azulado, 9 dias de chuva,
abacates de 50 centavos
e linguiças
pĂșrpuras.
ou fazendo tudo
como uma garçonete no Normâs na troca de turno,
ou como um limpador de
frigideiras,
ou um sujeito do lava-rĂĄpido ou
um batedor de bolsinhas de velhas senhoras
deixando-as aos gritos nas calçadas
com os braços quebrados aos 80
anos.
de repente
duas luzes vermelhas no seu retrovisor
e sangue nas suas roupas
de baixo;
dor de dente, e US$ 979 por uma ponte
US$ 300 por um dente
de ouro,
e China e RĂșssia e AmĂ©rica, e
e cabelos longos e cabelos curtos e nenhum
cabelo, e barbas e ausĂȘncia de
faces,
com cada cadarço arrebentado
entre uma centena de cadarços arrebentados,
um homem, uma mulher, uma
coisa
entra num
manicĂŽmio.
entĂŁo tome cuidado
ao se
abaixar.
pneu que estĂĄ no chĂŁo, uma
doença, um
desejo; medos a sua frente,
medos que de tĂŁo estĂĄticos
permitem que vocĂȘ os estude
como peças num tabuleiro de
xadrez...
nĂŁo sĂŁo as grandes coisas que
mandam um homem para o
hospĂcio. para a morte ele estĂĄ pronto, ou
o assassinato, o incesto, o roubo, incĂȘndios, enchentes...
não, é a ininterrupta série de pequenas tragédias
que manda um homem para o
hospĂcio...
nĂŁo a morte de sua paixĂŁo
mas um cadarço que rebenta
quando jĂĄ nĂŁo hĂĄ mais tempo...
o medonho da vida
Ă© o enxame de trivialidades
capazes de matar mais rĂĄpido que o cĂąncer
e que estĂŁo sempre ali â
emplacamentos ou taxas
ou carteiras de motorista vencidas,
ou contrataçÔes ou demissÔes,
perpetradas ou nĂŁo perpetradas por vocĂȘ, ou
constipação
multas por velocidade
chatos ou grilos ou ratos ou cupins ou
baratas ou moscas ou um
gancho arrebentado numa
rede, ou falta de gĂĄs
ou gĂĄs demais,
a pia entupida, o senhorio bĂȘbado,
o desinteresse do presidente e a loucura do
governador.
interruptor de luz quebrado, colchĂŁo que parece um
porco-espinho;
105 dĂłlares por um conserto, carburador e bomba de gasolina na
Sears Roebuck;
e a conta de telefone sobe e a do mercado
desce
e o cordĂŁo da descarga estĂĄ
estragado,
e a luz se foi â
a luz do hall, a luz da frente, a luz dos fundos;
a luz interna; uma escuridĂŁo
dos infernos
e duas vezes mais
cara.
entĂŁo hĂĄ sempre os chatos e as unhas encravadas
e as pessoas que insistem que sĂŁo
suas amigas;
isso Ă© algo que nĂŁo falta nunca e nĂŁo para por aĂ;
torneira pingando, Jesus e Natal;
salame azulado, 9 dias de chuva,
abacates de 50 centavos
e linguiças
pĂșrpuras.
ou fazendo tudo
como uma garçonete no Normâs na troca de turno,
ou como um limpador de
frigideiras,
ou um sujeito do lava-rĂĄpido ou
um batedor de bolsinhas de velhas senhoras
deixando-as aos gritos nas calçadas
com os braços quebrados aos 80
anos.
de repente
duas luzes vermelhas no seu retrovisor
e sangue nas suas roupas
de baixo;
dor de dente, e US$ 979 por uma ponte
US$ 300 por um dente
de ouro,
e China e RĂșssia e AmĂ©rica, e
e cabelos longos e cabelos curtos e nenhum
cabelo, e barbas e ausĂȘncia de
faces,
com cada cadarço arrebentado
entre uma centena de cadarços arrebentados,
um homem, uma mulher, uma
coisa
entra num
manicĂŽmio.
entĂŁo tome cuidado
ao se
abaixar.
O Chuveiro
gostamos de um banho depois da função
(gosto da ĂĄgua mais quente do que ela)
e seu rosto estĂĄ sempre suave e pacĂfico
e ela me lavarĂĄ primeiro
espalharĂĄ sabonete sobre minhas bolas
erguerĂĄ as bolas
as esfregarĂĄ
depois lavarĂĄ meu pau:
âei, essa coisa ainda estĂĄ dura!â
entĂŁo pegarĂĄ nos pelos lĂĄ embaixo â
na barriga, nas costas, no pescoço, nas pernas,
eu sorrio, sorrio, sorrio,
e entĂŁo eu a lavarei...
primeiro a buceta
ficarei atrĂĄs dela, meu pau entre sua bunda
ensaboarei com gentileza seus pentelhos,
lavarei tudo ali com movimentos sutis,
uma demora talvez mais longa que o necessĂĄrio,
entĂŁo a parte de trĂĄs das suas coxas, seu rabo,
as costas, o pescoço, para depois virå-la, beijå-la,
ensaboar os seios, tomando-os e depois a barriga, o pescoço,
a parte da frente das pernas, os tornozelos, os pés,
e entĂŁo a buceta, mais uma vez, para a boa sorte...
mais um beijo, e ela sairĂĄ primeiro,
enxugando-se, algumas vezes cantando enquanto eu permaneço lå dentro
abrindo ainda mais a torneira quente
sentindo a bonança do milagre do amor
para sĂł depois sair...
isto ocorre normalmente no meio da tarde e tudo estĂĄ tranquilo,
e ao nos vestirmos falamos sobre o que ainda hĂĄ
para ser feito
mas por estarmos juntos quase tudo estĂĄ resolvido,
de fato, tudo estĂĄ resolvido,
e pelo tempo em que essas coisas estiverem resolvidas
na histĂłria da mulher e
do homem, serĂĄ diferente para cada um
melhor e pior para cada um â
para mim, Ă© esplĂȘndido o suficiente para lembrar
superando os exércitos que marcham
os cavalos que cruzam as ruas lĂĄ fora
superando as memĂłrias da dor e da derrota e da infelicidade:
Linda, vocĂȘ trouxe isso pra mim,
quando me for tirĂĄ-lo
faça-o bem devagar e de mansinho
faça-o como se eu estivesse morrendo entre sonhos e não de
olhos abertos, amém.
Dee Dee tinha uma casa em Hollywood Hills. Dividia o lugar com uma amiga, tambĂ©m uma executiva, chamada Bianca. Bianca morava no andar de cima, Dee Dee, no de baixo. Toquei a campainha. Eram oito e meia quando ela abriu a porta. Dee Dee tinha uns quarenta anos, cabelo preto, batido, era judia, descolada, estranha. Estava voltada para Nova York, conhecia todos os nomes: os bons editores, os melhores poetas, os cartunistas mais talentosos, os grandes revolucionĂĄrios, qualquer um, todo mundo. Fumava maconha sem parar e agia como se estivesse no inĂcio dos anos 1960 e em plena vigĂȘncia do Paz e Amor, quando ela fora razoavelmente famosa e muito mais bonita.
Uma longa sĂ©rie de complicados casos amorosos liquidou-a. Agora, lĂĄ estava eu Ă sua porta. Seu corpo ainda dava para o gasto. Ela era pequena, mas tinha um aspecto saudĂĄvel e muitas garotas gostariam de ter o seu fĂsico.
Entrei atrĂĄs dela.
â EntĂŁo a Lydia se mandou? â perguntou Dee Dee.
â Acho que ela foi para Utah. O baile do Quatro de Julho em Muleshead estĂĄ chegando. Ela nunca perde.
Sentei junto Ă mesa da cozinha enquanto Dee Dee abria uma garrafa de vinho tinto.
â EstĂĄ com saudades dela?
â Claro que sim. Tenho vontade de chorar. Estou com um nĂł aqui dentro. Acho que nĂŁo vou me recuperar.
â Vai sim. Vamos dar um jeito de superar Lydia. Tudo passa.
â EntĂŁo vocĂȘ sabe como estou me sentindo?
â JĂĄ aconteceu com todos nĂłs algumas vezes.
â A cadela nunca ligou a mĂnima para mim.
â Bobagem. Ela ainda liga sim.
Decidi que era melhor estar ali, no casarĂŁo de Dee Dee em Hollywood Hills, do que sozinho em meu apartamento ruminando.
â Deve ser porque eu nĂŁo sou bom para as mulheres â eu disse.
â VocĂȘ Ă© bom o bastante com as mulheres â disse Dee Dee. â AlĂ©m de ser um puta escritor.
â Preferia me dar bem com as mulheres.
Dee Dee estava acendendo um cigarro. Esperei-a terminar, me inclinei sobre a mesa e lhe dei um beijo.
â VocĂȘ me faz sentir bem. Lydia estava sempre na ofensiva.
â Isso nĂŁo significa o que vocĂȘ acha que significa.
â Mas pode se tornar bastante desagradĂĄvel.
â Certamente, um inferno.
â VocĂȘ jĂĄ encontrou um namorado?
â Ainda nĂŁo.
â Gosto desse lugar. Mas como consegue manter tudo tĂŁo limpo e arrumado?
â Temos uma empregada.
â Ah, Ă©?
â VocĂȘ vai gostar dela. Ela Ă© uma negra bem grande e trabalha a toda velocidade assim que eu saio, para acabar logo o serviço. EntĂŁo vai para a minha cama e fica vendo tevĂȘ e comendo biscoito. Todas as noites encontro farelo de biscoito na cama. Vou pedir pra ela preparar um cafĂ© da manhĂŁ pra vocĂȘ, antes de eu sair amanhĂŁ de manhĂŁ.
â Beleza.
â NĂŁo, espere. AmanhĂŁ Ă© domingo. NĂŁo trabalho aos domingos. Vamos comer fora. Conheço um lugar. VocĂȘ vai gostar.
â Beleza.
â Sabe, acho que sempre fui apaixonada por vocĂȘ.
â O que?
â HĂĄ anos. Sabe, quando eu costumava visitar vocĂȘ, primeiro com Bernie, depois com Jack, eu jĂĄ o desejava. Mas vocĂȘ nunca me notou. Estava sempre mamando numa lata de cerveja, ou entĂŁo obcecado por alguma coisa.
â DemĂȘncia â eu acho â, demĂȘncia total. Chamam de demĂȘncia do serviço postal. Desculpe eu nĂŁo ter notado vocĂȘ.
â Pode começar a se recuperar agora.
Dee Dee serviu mais uma taça de vinho. Coisa fina. Eu gostava dela. Era bom ter um lugar para onde ir quando tudo mais dava errado. Me lembrei de antigamente, quando as coisas ficavam feias e eu não tinha para onde ir. Talvez isso até tenha sido bom para mim. Naquela época. Mas agora não queria saber do que tinha sido bom ou mau. Importava o momento, o que estava sentindo e o que fazer para parar de me sentir mal quando as coisas dessem errado. Como voltar a me sentir bem.
â NĂŁo quero jogar com seus sentimentos, Dee Dee â eu disse. â Nem sempre sou bom para as mulheres.
â JĂĄ disse que te amo.
â NĂŁo faça isso. NĂŁo me ame.
â EstĂĄ bem â ela disse â, nĂŁo vou te amar. Vai ser um quase amor. Que tal?
â Ă uma proposta muito melhor que a anterior.
Acabamos nosso vinho e fomos para cama...
â Mulheres
(gosto da ĂĄgua mais quente do que ela)
e seu rosto estĂĄ sempre suave e pacĂfico
e ela me lavarĂĄ primeiro
espalharĂĄ sabonete sobre minhas bolas
erguerĂĄ as bolas
as esfregarĂĄ
depois lavarĂĄ meu pau:
âei, essa coisa ainda estĂĄ dura!â
entĂŁo pegarĂĄ nos pelos lĂĄ embaixo â
na barriga, nas costas, no pescoço, nas pernas,
eu sorrio, sorrio, sorrio,
e entĂŁo eu a lavarei...
primeiro a buceta
ficarei atrĂĄs dela, meu pau entre sua bunda
ensaboarei com gentileza seus pentelhos,
lavarei tudo ali com movimentos sutis,
uma demora talvez mais longa que o necessĂĄrio,
entĂŁo a parte de trĂĄs das suas coxas, seu rabo,
as costas, o pescoço, para depois virå-la, beijå-la,
ensaboar os seios, tomando-os e depois a barriga, o pescoço,
a parte da frente das pernas, os tornozelos, os pés,
e entĂŁo a buceta, mais uma vez, para a boa sorte...
mais um beijo, e ela sairĂĄ primeiro,
enxugando-se, algumas vezes cantando enquanto eu permaneço lå dentro
abrindo ainda mais a torneira quente
sentindo a bonança do milagre do amor
para sĂł depois sair...
isto ocorre normalmente no meio da tarde e tudo estĂĄ tranquilo,
e ao nos vestirmos falamos sobre o que ainda hĂĄ
para ser feito
mas por estarmos juntos quase tudo estĂĄ resolvido,
de fato, tudo estĂĄ resolvido,
e pelo tempo em que essas coisas estiverem resolvidas
na histĂłria da mulher e
do homem, serĂĄ diferente para cada um
melhor e pior para cada um â
para mim, Ă© esplĂȘndido o suficiente para lembrar
superando os exércitos que marcham
os cavalos que cruzam as ruas lĂĄ fora
superando as memĂłrias da dor e da derrota e da infelicidade:
Linda, vocĂȘ trouxe isso pra mim,
quando me for tirĂĄ-lo
faça-o bem devagar e de mansinho
faça-o como se eu estivesse morrendo entre sonhos e não de
olhos abertos, amém.
Dee Dee tinha uma casa em Hollywood Hills. Dividia o lugar com uma amiga, tambĂ©m uma executiva, chamada Bianca. Bianca morava no andar de cima, Dee Dee, no de baixo. Toquei a campainha. Eram oito e meia quando ela abriu a porta. Dee Dee tinha uns quarenta anos, cabelo preto, batido, era judia, descolada, estranha. Estava voltada para Nova York, conhecia todos os nomes: os bons editores, os melhores poetas, os cartunistas mais talentosos, os grandes revolucionĂĄrios, qualquer um, todo mundo. Fumava maconha sem parar e agia como se estivesse no inĂcio dos anos 1960 e em plena vigĂȘncia do Paz e Amor, quando ela fora razoavelmente famosa e muito mais bonita.
Uma longa sĂ©rie de complicados casos amorosos liquidou-a. Agora, lĂĄ estava eu Ă sua porta. Seu corpo ainda dava para o gasto. Ela era pequena, mas tinha um aspecto saudĂĄvel e muitas garotas gostariam de ter o seu fĂsico.
Entrei atrĂĄs dela.
â EntĂŁo a Lydia se mandou? â perguntou Dee Dee.
â Acho que ela foi para Utah. O baile do Quatro de Julho em Muleshead estĂĄ chegando. Ela nunca perde.
Sentei junto Ă mesa da cozinha enquanto Dee Dee abria uma garrafa de vinho tinto.
â EstĂĄ com saudades dela?
â Claro que sim. Tenho vontade de chorar. Estou com um nĂł aqui dentro. Acho que nĂŁo vou me recuperar.
â Vai sim. Vamos dar um jeito de superar Lydia. Tudo passa.
â EntĂŁo vocĂȘ sabe como estou me sentindo?
â JĂĄ aconteceu com todos nĂłs algumas vezes.
â A cadela nunca ligou a mĂnima para mim.
â Bobagem. Ela ainda liga sim.
Decidi que era melhor estar ali, no casarĂŁo de Dee Dee em Hollywood Hills, do que sozinho em meu apartamento ruminando.
â Deve ser porque eu nĂŁo sou bom para as mulheres â eu disse.
â VocĂȘ Ă© bom o bastante com as mulheres â disse Dee Dee. â AlĂ©m de ser um puta escritor.
â Preferia me dar bem com as mulheres.
Dee Dee estava acendendo um cigarro. Esperei-a terminar, me inclinei sobre a mesa e lhe dei um beijo.
â VocĂȘ me faz sentir bem. Lydia estava sempre na ofensiva.
â Isso nĂŁo significa o que vocĂȘ acha que significa.
â Mas pode se tornar bastante desagradĂĄvel.
â Certamente, um inferno.
â VocĂȘ jĂĄ encontrou um namorado?
â Ainda nĂŁo.
â Gosto desse lugar. Mas como consegue manter tudo tĂŁo limpo e arrumado?
â Temos uma empregada.
â Ah, Ă©?
â VocĂȘ vai gostar dela. Ela Ă© uma negra bem grande e trabalha a toda velocidade assim que eu saio, para acabar logo o serviço. EntĂŁo vai para a minha cama e fica vendo tevĂȘ e comendo biscoito. Todas as noites encontro farelo de biscoito na cama. Vou pedir pra ela preparar um cafĂ© da manhĂŁ pra vocĂȘ, antes de eu sair amanhĂŁ de manhĂŁ.
â Beleza.
â NĂŁo, espere. AmanhĂŁ Ă© domingo. NĂŁo trabalho aos domingos. Vamos comer fora. Conheço um lugar. VocĂȘ vai gostar.
â Beleza.
â Sabe, acho que sempre fui apaixonada por vocĂȘ.
â O que?
â HĂĄ anos. Sabe, quando eu costumava visitar vocĂȘ, primeiro com Bernie, depois com Jack, eu jĂĄ o desejava. Mas vocĂȘ nunca me notou. Estava sempre mamando numa lata de cerveja, ou entĂŁo obcecado por alguma coisa.
â DemĂȘncia â eu acho â, demĂȘncia total. Chamam de demĂȘncia do serviço postal. Desculpe eu nĂŁo ter notado vocĂȘ.
â Pode começar a se recuperar agora.
Dee Dee serviu mais uma taça de vinho. Coisa fina. Eu gostava dela. Era bom ter um lugar para onde ir quando tudo mais dava errado. Me lembrei de antigamente, quando as coisas ficavam feias e eu não tinha para onde ir. Talvez isso até tenha sido bom para mim. Naquela época. Mas agora não queria saber do que tinha sido bom ou mau. Importava o momento, o que estava sentindo e o que fazer para parar de me sentir mal quando as coisas dessem errado. Como voltar a me sentir bem.
â NĂŁo quero jogar com seus sentimentos, Dee Dee â eu disse. â Nem sempre sou bom para as mulheres.
â JĂĄ disse que te amo.
â NĂŁo faça isso. NĂŁo me ame.
â EstĂĄ bem â ela disse â, nĂŁo vou te amar. Vai ser um quase amor. Que tal?
â Ă uma proposta muito melhor que a anterior.
Acabamos nosso vinho e fomos para cama...
â Mulheres
O Dia Em Que Mandei Meu Pé-De-Meia Pro Espaço
e, eu disse, vocĂȘ pode pegar seus tios e tias ricos
e avĂłs e pais
e todo o petróleo fétido deles
e seus sete lagos
e todos os seus perus
e bĂșfalos
e o estado inteiro do Texas,
quer dizer, seus espantalhos
e suas caminhadas de såbado à noite no calçadão,
e sua biblioteca de 50 centavos
e seus vereadores corruptos
e seus artistas aveadados â
pode pegar tudo isso
e seu jornal semanal
e seus famosos tornados,
e suas nojentas enchentes
e todos os seus gatos miantes
e sua assinatura da Time,
e enfiar no rabo, baby,
bem no meio do rabo.
posso voltar a manusear uma picareta e um machado (acho)
e posso arranjar
25 pratas por uma luta de 4 assaltos (talvez);
claro, estou com 38
mas um pouco de tintura pode esconder os fios
grisalhos do meu cabelo;
e ainda posso escrever um poema (Ă s vezes),
não se esqueça disso, e mesmo que
nĂŁo rendam nada,
Ă© melhor do que esperar por mortes e petrĂłleo,
e dar tiros em perus selvagens,
e esperar que o mundo
comece a girar.
tudo bem, vagabundo, ela disse,
dĂȘ o fora.
o quĂȘ? eu disse
dĂȘ o fora. vocĂȘ teve seu
Ășltimo acesso de fĂșria.
cansei dos seus acessos de fĂșria:
vocĂȘ sempre atua como um
personagem de uma peça de OâNeill.
mas eu sou diferente, baby,
nĂŁo consigo
evitar.
vocĂȘ Ă© diferente, essa Ă© boa!
Nossa, quanta diferença!
nĂŁo bata
a porta
quando sair.
mas, baby, eu amo o seu
dinheiro!
vocĂȘ nunca me disse
que me ama!
o que vocĂȘ quer afinal
um mentiroso ou um
amante?
de vocĂȘ nĂŁo quero nada! se manda, vagabundo,
se manda!
... mas baby!
volta lĂĄ pro seu OâNeill!
fui até a porta,
fechei-a com cuidado e me afastei,
pensando: tudo o que elas querem
Ă© um Ăndio de madeira
que diga sim e nĂŁo
e fique parado junto ao fogo e
não faça muito barulho;
mas acontece que vocĂȘ jĂĄ nĂŁo Ă© mais
uma criança, rapaz;
da prĂłxima vez jogue visando
o pé-de-
meia.
Passei o Natal com Betty. Ela assou um peru e nĂłs bebemos. Betty sempre gostou de grandes ĂĄrvores de Natal. Essa devia ter uns dois metros de altura por um de largura, coberta com luzes, lĂąmpadas elĂ©tricas, lantejoulas e outras porcarias. Bebemos vĂĄrias doses de uĂsque, fizemos amor, comemos nosso peru, bebemos mais um pouco. O prego da base estava frouxo e a base nĂŁo era grande o suficiente para dar suporte Ă ĂĄrvore. Eu ficava tentando ajeitĂĄ-lo. Betty se esticou na cama e apagou. Eu bebia no chĂŁo, de cuecas. EntĂŁo tambĂ©m me estiquei. Fechei os olhos. Alguma coisa me despertou. Abri os olhos. Bem a tempo de ver a enorme ĂĄrvore coberta de luzes quentes se inclinar devagar em minha direção, a estrela pontuda descendo como uma adaga. NĂŁo consegui entender muito bem o que estava acontecendo. Parecia o fim do mundo. NĂŁo conseguia me mexer. Os galhos da ĂĄrvore me impediam. Eu estava debaixo dela. As lĂąmpadas incandesciam.
â Oh, OH, JESUS CRISTO, TENHA PIEDADE! SENHOR, ME AJUDE! JESUS! JESUS! SOCORRO!
As lĂąmpadas me queimavam. Rolei para a esquerda, mas nĂŁo consegui me libertar, depois rolei para a direita.
â AI!
Finalmente consegui escapar rolando de baixo da årvore. Betty estava de pé, parada.
â O que aconteceu? O que Ă© isso?
â NĂO ESTĂ VENDO? ESSA MALDITA ĂRVORE TENTOU ME MATAR!
â O quĂȘ?
â SIM, OLHA PRA MIM!
Meu corpo estava coberto de marcas vermelhas.
â Oh, pobrezinho!
Segui até a parede e desliguei a årvore da tomada. As luzes se apagaram. A coisa estava morta.
â Oh, minha pobre arvorezinha!
â Pobre arvorezinha?
â Ă, me deu tanta pena!
â AmanhĂŁ de manhĂŁ eu boto ela de pĂ© de novo. NĂŁo confio nela agora. Vou deixar que descanse durante a noite.
Ela não gostou da ideia. Senti que teria de enfrentar um bate-boca, então coloquei o negócio de pé, apoiado numa cadeira, e acendi as luzes outra vez. Se a coisa tivesse queimado seus peitos ou seu rabo, ela teria jogado o negócio pela janela. Aquilo me pareceu uma extrema gentileza da minha parte.
Alguns dias depois do Natal apareci na casa de Betti para vĂȘ-la. Ela estava sentada em seu quarto, bĂȘbada, Ă s 8h45 da manhĂŁ. Seu aspecto nĂŁo era nada bom, o que tambĂ©m se poderia dizer de mim naquela ocasiĂŁo. Era como se cada um dos pensionistas tivesse dado a ela um pouco de bebida. Havia de tudo: vinho, vodca, uĂsque, scotch. Das marcas mais baratas. As garrafas enchiam o quarto.
â Esses cretinos! SerĂĄ que eles nĂŁo conhecem ninguĂ©m melhor? Se vocĂȘ beber todo esse negĂłcio Ă© morte na certa!
Betty apenas me olhou. Pude perceber tudo naquele olhar.
Ela tinha um filho e uma filha que nunca vinham visitĂĄ-la, sequer lhe escreviam. Era uma faxineira num hotel barato. Quando a conheci, suas roupas eram caras, tornozelos bem torneados em sapatos de luxo. Era toda rija, quase bela. Olhos selvagens. Sorridente. Vinda de um marido rico, recĂ©m-divorciada, ele que logo morreria num acidente de carro, bĂȘbado, queimado vivo em Connecticut.
â VocĂȘ jamais irĂĄ domĂĄ-la â me diziam.
Ali estava ela. Mas eu tinha recebido alguma ajuda.
â Escute â eu disse â, tenho que levar uma parte desse negĂłcio. Quero dizer, de vez em quando eu lhe entrego uma garrafa. NĂŁo vou bebĂȘ-las.
â Deixe as garrafas â disse Betty. NĂŁo me olhava. Seu quarto ficava no Ășltimo andar e ela se sentava junto Ă janela, acompanhando o trĂĄfego da manhĂŁ.
Me aproximei.
â Veja, estou acabado. Tenho que ir embora. Mas pelo amor de Deus, pegue leve com esse negĂłcio!
â Claro â ela disse.
Inclinei-me e lhe dei um beijo de despedida.
Retornei cerca de uma semana e meia depois. NĂŁo houve qualquer resposta para as minhas batidas.
â Betty! Betty! VocĂȘ estĂĄ bem?
Girei a maçaneta. A porta estava aberta. A cama estava virada. Havia uma enorme mancha de sangue no lençol.
â Ah, caralho! â eu disse. Olhei em volta. Todas as garrafas tinham sumido.
EntĂŁo olhei mais uma vez ao meu redor. Ali estava a francesa de meia-idade que era dona do lugar. Ficou junto Ă porta.
â Ela estĂĄ no Hospital Geral do Condado. Estava muito doente. Chamei a ambulĂąncia na noite passada.
â Ela bebeu todo aquele negĂłcio?
â Teve alguma ajuda.
Desci correndo as escadas e entrei no meu carro. Logo cheguei lĂĄ. Conhecia bem o lugar. Informaram-me o nĂșmero do quarto.
Havia trĂȘs ou quatro camas num quarto apertado. Uma mulher estava sentada sobre a sua no sentido cruzado, mastigando uma maçã e rindo com duas visitantes do sexo feminino. Puxei a cortina divisĂłria que circundava a cama de Betty, sentei-me no banquinho e me inclinei sobre ela.
â Betty! Betty!
Toquei seu braço.
â Betty!
Seus olhos se abriram. Eram novamente belos. De um azul sereno e brilhante.
â Tinha certeza de que era vocĂȘ â ela disse.
Em seguida voltou a fechar os olhos. Seus lĂĄbios estavam ressecados. Restos de saliva amarelada haviam se acumulado no canto esquerdo de sua boca. Peguei um lenço e removi os resĂduos. Limpei seu rosto, suas mĂŁos, sua garganta. Peguei outro lenço e espremi um pouco de ĂĄgua em sua lĂngua. Depois um pouco mais. Molhei seus lĂĄbios. Ajeitei seus cabelos. Podia ouvir as mulheres rindo atravĂ©s da cortina que nos separava.
â Betty, Betty, Betty. Por favor, quero que vocĂȘ beba um pouco de ĂĄgua, apenas um golinho, nĂŁo precisa ser muito, sĂł um gole.
Ela nĂŁo respondeu. Tentei aquilo por uns dez minutos. Nada.
Mais restos de saliva se formaram em sua boca. Removi-os.
EntĂŁo me levantei e fechei a cortina. Fiquei olhando para as trĂȘs mulheres.
Me afastei e falei com a enfermeira encarregada.
â Escute, por que ninguĂ©m faz nada em relação Ă mulher do 45-c? Betty Williams.
â A gente faz o que pode, senhor.
â Mas nĂŁo hĂĄ ninguĂ©m ali.
â Fazemos nossas rondas regulares.
â Mas onde estĂŁo os mĂ©dicos? NĂŁo vi nenhum mĂ©dico.
â O doutor jĂĄ a examinou, senhor.
â Como Ă© que vocĂȘs a abandonam lĂĄ daquele jeito?
â A gente faz o que pode, senhor.
â SENHOR! SENHOR! SENHOR! ESQUEĂA ESSA PORRA DE âSENHORâ! Aposto que se fosse o presidente ou o governador ou o prefeito ou um filho da puta qualquer cheio da grana, entĂŁo haveria um montĂŁo de mĂ©dicos ao redor do quarto fazendo alguma coisa! Por que vocĂȘs simplesmente nĂŁo deixam o pessoal morrer? Que pecado hĂĄ em ser pobre?
â JĂĄ lhe disse, meu senhor, estamos fazendo TUDO ao nosso alcance.
â Voltarei em duas horas.
â O senhor Ă© o marido?
â Eu vivia com ela em concubinato.
â Pode nos deixar seu nome e um nĂșmero de telefone?
Passei-lhe as informaçÔes e saà apressado.
O funeral estava marcado para as dez e meia e jĂĄ fazia calor. Eu vestia um terno preto barato, comprado e ajustado Ă s pressas. Era o meu primeiro terno novo em anos. Conseguira localizar o filho. Seguimos em seu Mercedes-Benz novinho. Tinha conseguido localizĂĄ-lo com a ajuda de uma tira de papel com o endereço de seu sogro. Duas chamadas de longa distĂąncia e cheguei atĂ© ele. Quando finalmente conseguiu se deslocar atĂ© aqui, sua mĂŁe jĂĄ estava morta. Morreu enquanto eu fazia as ligaçÔes. O rapaz, Larry, jamais tinha se enquadrado nas normas da sociedade. Tinha o hĂĄbito de roubar os carros dos amigos, mas entre os amigos e o tribunal dava um jeito de resolver as coisas. EntĂŁo o exĂ©rcito o apanhou, e, de alguma maneira, entrou para um programa de treinamento, o que fez com que, assim que saĂsse, arranjasse um emprego muito bem pago. Foi quando deixou de ver a mĂŁe, quando conseguiu esse bom emprego.
â Onde estĂĄ sua irmĂŁ? â perguntei.
â NĂŁo sei.
â Ă um carro bacana. NĂŁo dĂĄ nem pra ouvir o motor.
Larry sorriu. Gostou do comentĂĄrio.
Havia apenas trĂȘs pessoas acompanhando o funeral: o filho, o amante e a irmĂŁ retardada da dona do hotel. Seu nome era Marcia. Marcia nunca dizia nada. Ficava apenas sentada, com um sorriso vazio nos lĂĄbios. Sua pele era branca como esmalte. Tinha um cabelo armado, de um amarelo mortiço, e um chapĂ©u que nĂŁo assentava. Marcia havia sido mandada pela dona do hotel para representĂĄ-la. A dona nĂŁo podia perder seu negĂłcio de vista.
Claro, eu estava com uma ressaca dos diabos. Paramos para tomar um café.
Ăquela altura, entĂŁo, jĂĄ tinham ocorrido alguns problemas com o funeral. Larry tivera uma discussĂŁo com o padre catĂłlico. O padre nĂŁo queria realizar o serviço. Finalmente foi decidido que ele faria o serviço pela metade. Bem, metade era melhor do que nada.
Tivemos problemas até com as flores. Eu havia comprado uma coroa de rosas, rosas misturadas, que foram arranjadas de modo a compor uma coroa. A floricultura passou a tarde inteira em cima do arranjo. A dona da floricultura tinha conhecido Betty. Haviam tomado umas e outras na época em que Betty e eu, alguns anos antes, moråvamos numa casa com cachorro. Seu nome era Delsie. Sempre desejara chegar ao que estava debaixo das calcinhas de Delsie, mas nunca tinha conseguido.
Delsie tinha me telefonado.
â Hank, qual Ă© o problema com esses cretinos?
â Que cretinos?
â Esses caras da funerĂĄria.
â Qual Ă© o problema?
â Bem, eu mandei um rapaz na caminhonete para entregar a coroa e eles nĂŁo deixaram ele entrar. Disseram que estavam fechados. VocĂȘ sabe, Ă© uma distĂąncia enorme.
â E aĂ, Delsie?
â Bem, por fim os caras deixaram ele pĂŽr as flores para dentro, mas nĂŁo pĂŽde colocĂĄ-las no refrigerador. EntĂŁo o rapaz teve que deixar elas ali mesmo. Que diabos hĂĄ com essas pessoas?
â NĂŁo sei. Que diabos hĂĄ com todo mundo?
â NĂŁo conseguirei ir ao funeral. VocĂȘ estĂĄ bem, Hank?
â Por que vocĂȘ nĂŁo vem me consolar?
â Teria que levar o Paul.
Paul era seu marido.
â Esqueça.
EntĂŁo assim estĂĄvamos, a caminho de nosso meio-funeral.
Larry ergueu os olhos do café.
â Vou escrever para vocĂȘ mais tarde para a gente ver o negĂłcio da lĂĄpide. Agora estou pelado.
â Tudo bem â eu disse.
Larry pagou os cafĂ©s, entĂŁo nĂłs saĂmos e embarcamos no Mercedes-Benz.
â Espere um minuto â eu disse.
â O que foi? â perguntou Larry.
â Acho que esquecemos alguma coisa.
Retornei ao café.
â Marcia.
Ela seguia sentada Ă mesa.
â Estamos indo, Marcia.
Ela se levantou e me seguiu até a rua.
â Cartas na rua
e avĂłs e pais
e todo o petróleo fétido deles
e seus sete lagos
e todos os seus perus
e bĂșfalos
e o estado inteiro do Texas,
quer dizer, seus espantalhos
e suas caminhadas de såbado à noite no calçadão,
e sua biblioteca de 50 centavos
e seus vereadores corruptos
e seus artistas aveadados â
pode pegar tudo isso
e seu jornal semanal
e seus famosos tornados,
e suas nojentas enchentes
e todos os seus gatos miantes
e sua assinatura da Time,
e enfiar no rabo, baby,
bem no meio do rabo.
posso voltar a manusear uma picareta e um machado (acho)
e posso arranjar
25 pratas por uma luta de 4 assaltos (talvez);
claro, estou com 38
mas um pouco de tintura pode esconder os fios
grisalhos do meu cabelo;
e ainda posso escrever um poema (Ă s vezes),
não se esqueça disso, e mesmo que
nĂŁo rendam nada,
Ă© melhor do que esperar por mortes e petrĂłleo,
e dar tiros em perus selvagens,
e esperar que o mundo
comece a girar.
tudo bem, vagabundo, ela disse,
dĂȘ o fora.
o quĂȘ? eu disse
dĂȘ o fora. vocĂȘ teve seu
Ășltimo acesso de fĂșria.
cansei dos seus acessos de fĂșria:
vocĂȘ sempre atua como um
personagem de uma peça de OâNeill.
mas eu sou diferente, baby,
nĂŁo consigo
evitar.
vocĂȘ Ă© diferente, essa Ă© boa!
Nossa, quanta diferença!
nĂŁo bata
a porta
quando sair.
mas, baby, eu amo o seu
dinheiro!
vocĂȘ nunca me disse
que me ama!
o que vocĂȘ quer afinal
um mentiroso ou um
amante?
de vocĂȘ nĂŁo quero nada! se manda, vagabundo,
se manda!
... mas baby!
volta lĂĄ pro seu OâNeill!
fui até a porta,
fechei-a com cuidado e me afastei,
pensando: tudo o que elas querem
Ă© um Ăndio de madeira
que diga sim e nĂŁo
e fique parado junto ao fogo e
não faça muito barulho;
mas acontece que vocĂȘ jĂĄ nĂŁo Ă© mais
uma criança, rapaz;
da prĂłxima vez jogue visando
o pé-de-
meia.
Passei o Natal com Betty. Ela assou um peru e nĂłs bebemos. Betty sempre gostou de grandes ĂĄrvores de Natal. Essa devia ter uns dois metros de altura por um de largura, coberta com luzes, lĂąmpadas elĂ©tricas, lantejoulas e outras porcarias. Bebemos vĂĄrias doses de uĂsque, fizemos amor, comemos nosso peru, bebemos mais um pouco. O prego da base estava frouxo e a base nĂŁo era grande o suficiente para dar suporte Ă ĂĄrvore. Eu ficava tentando ajeitĂĄ-lo. Betty se esticou na cama e apagou. Eu bebia no chĂŁo, de cuecas. EntĂŁo tambĂ©m me estiquei. Fechei os olhos. Alguma coisa me despertou. Abri os olhos. Bem a tempo de ver a enorme ĂĄrvore coberta de luzes quentes se inclinar devagar em minha direção, a estrela pontuda descendo como uma adaga. NĂŁo consegui entender muito bem o que estava acontecendo. Parecia o fim do mundo. NĂŁo conseguia me mexer. Os galhos da ĂĄrvore me impediam. Eu estava debaixo dela. As lĂąmpadas incandesciam.
â Oh, OH, JESUS CRISTO, TENHA PIEDADE! SENHOR, ME AJUDE! JESUS! JESUS! SOCORRO!
As lĂąmpadas me queimavam. Rolei para a esquerda, mas nĂŁo consegui me libertar, depois rolei para a direita.
â AI!
Finalmente consegui escapar rolando de baixo da årvore. Betty estava de pé, parada.
â O que aconteceu? O que Ă© isso?
â NĂO ESTĂ VENDO? ESSA MALDITA ĂRVORE TENTOU ME MATAR!
â O quĂȘ?
â SIM, OLHA PRA MIM!
Meu corpo estava coberto de marcas vermelhas.
â Oh, pobrezinho!
Segui até a parede e desliguei a årvore da tomada. As luzes se apagaram. A coisa estava morta.
â Oh, minha pobre arvorezinha!
â Pobre arvorezinha?
â Ă, me deu tanta pena!
â AmanhĂŁ de manhĂŁ eu boto ela de pĂ© de novo. NĂŁo confio nela agora. Vou deixar que descanse durante a noite.
Ela não gostou da ideia. Senti que teria de enfrentar um bate-boca, então coloquei o negócio de pé, apoiado numa cadeira, e acendi as luzes outra vez. Se a coisa tivesse queimado seus peitos ou seu rabo, ela teria jogado o negócio pela janela. Aquilo me pareceu uma extrema gentileza da minha parte.
Alguns dias depois do Natal apareci na casa de Betti para vĂȘ-la. Ela estava sentada em seu quarto, bĂȘbada, Ă s 8h45 da manhĂŁ. Seu aspecto nĂŁo era nada bom, o que tambĂ©m se poderia dizer de mim naquela ocasiĂŁo. Era como se cada um dos pensionistas tivesse dado a ela um pouco de bebida. Havia de tudo: vinho, vodca, uĂsque, scotch. Das marcas mais baratas. As garrafas enchiam o quarto.
â Esses cretinos! SerĂĄ que eles nĂŁo conhecem ninguĂ©m melhor? Se vocĂȘ beber todo esse negĂłcio Ă© morte na certa!
Betty apenas me olhou. Pude perceber tudo naquele olhar.
Ela tinha um filho e uma filha que nunca vinham visitĂĄ-la, sequer lhe escreviam. Era uma faxineira num hotel barato. Quando a conheci, suas roupas eram caras, tornozelos bem torneados em sapatos de luxo. Era toda rija, quase bela. Olhos selvagens. Sorridente. Vinda de um marido rico, recĂ©m-divorciada, ele que logo morreria num acidente de carro, bĂȘbado, queimado vivo em Connecticut.
â VocĂȘ jamais irĂĄ domĂĄ-la â me diziam.
Ali estava ela. Mas eu tinha recebido alguma ajuda.
â Escute â eu disse â, tenho que levar uma parte desse negĂłcio. Quero dizer, de vez em quando eu lhe entrego uma garrafa. NĂŁo vou bebĂȘ-las.
â Deixe as garrafas â disse Betty. NĂŁo me olhava. Seu quarto ficava no Ășltimo andar e ela se sentava junto Ă janela, acompanhando o trĂĄfego da manhĂŁ.
Me aproximei.
â Veja, estou acabado. Tenho que ir embora. Mas pelo amor de Deus, pegue leve com esse negĂłcio!
â Claro â ela disse.
Inclinei-me e lhe dei um beijo de despedida.
Retornei cerca de uma semana e meia depois. NĂŁo houve qualquer resposta para as minhas batidas.
â Betty! Betty! VocĂȘ estĂĄ bem?
Girei a maçaneta. A porta estava aberta. A cama estava virada. Havia uma enorme mancha de sangue no lençol.
â Ah, caralho! â eu disse. Olhei em volta. Todas as garrafas tinham sumido.
EntĂŁo olhei mais uma vez ao meu redor. Ali estava a francesa de meia-idade que era dona do lugar. Ficou junto Ă porta.
â Ela estĂĄ no Hospital Geral do Condado. Estava muito doente. Chamei a ambulĂąncia na noite passada.
â Ela bebeu todo aquele negĂłcio?
â Teve alguma ajuda.
Desci correndo as escadas e entrei no meu carro. Logo cheguei lĂĄ. Conhecia bem o lugar. Informaram-me o nĂșmero do quarto.
Havia trĂȘs ou quatro camas num quarto apertado. Uma mulher estava sentada sobre a sua no sentido cruzado, mastigando uma maçã e rindo com duas visitantes do sexo feminino. Puxei a cortina divisĂłria que circundava a cama de Betty, sentei-me no banquinho e me inclinei sobre ela.
â Betty! Betty!
Toquei seu braço.
â Betty!
Seus olhos se abriram. Eram novamente belos. De um azul sereno e brilhante.
â Tinha certeza de que era vocĂȘ â ela disse.
Em seguida voltou a fechar os olhos. Seus lĂĄbios estavam ressecados. Restos de saliva amarelada haviam se acumulado no canto esquerdo de sua boca. Peguei um lenço e removi os resĂduos. Limpei seu rosto, suas mĂŁos, sua garganta. Peguei outro lenço e espremi um pouco de ĂĄgua em sua lĂngua. Depois um pouco mais. Molhei seus lĂĄbios. Ajeitei seus cabelos. Podia ouvir as mulheres rindo atravĂ©s da cortina que nos separava.
â Betty, Betty, Betty. Por favor, quero que vocĂȘ beba um pouco de ĂĄgua, apenas um golinho, nĂŁo precisa ser muito, sĂł um gole.
Ela nĂŁo respondeu. Tentei aquilo por uns dez minutos. Nada.
Mais restos de saliva se formaram em sua boca. Removi-os.
EntĂŁo me levantei e fechei a cortina. Fiquei olhando para as trĂȘs mulheres.
Me afastei e falei com a enfermeira encarregada.
â Escute, por que ninguĂ©m faz nada em relação Ă mulher do 45-c? Betty Williams.
â A gente faz o que pode, senhor.
â Mas nĂŁo hĂĄ ninguĂ©m ali.
â Fazemos nossas rondas regulares.
â Mas onde estĂŁo os mĂ©dicos? NĂŁo vi nenhum mĂ©dico.
â O doutor jĂĄ a examinou, senhor.
â Como Ă© que vocĂȘs a abandonam lĂĄ daquele jeito?
â A gente faz o que pode, senhor.
â SENHOR! SENHOR! SENHOR! ESQUEĂA ESSA PORRA DE âSENHORâ! Aposto que se fosse o presidente ou o governador ou o prefeito ou um filho da puta qualquer cheio da grana, entĂŁo haveria um montĂŁo de mĂ©dicos ao redor do quarto fazendo alguma coisa! Por que vocĂȘs simplesmente nĂŁo deixam o pessoal morrer? Que pecado hĂĄ em ser pobre?
â JĂĄ lhe disse, meu senhor, estamos fazendo TUDO ao nosso alcance.
â Voltarei em duas horas.
â O senhor Ă© o marido?
â Eu vivia com ela em concubinato.
â Pode nos deixar seu nome e um nĂșmero de telefone?
Passei-lhe as informaçÔes e saà apressado.
O funeral estava marcado para as dez e meia e jĂĄ fazia calor. Eu vestia um terno preto barato, comprado e ajustado Ă s pressas. Era o meu primeiro terno novo em anos. Conseguira localizar o filho. Seguimos em seu Mercedes-Benz novinho. Tinha conseguido localizĂĄ-lo com a ajuda de uma tira de papel com o endereço de seu sogro. Duas chamadas de longa distĂąncia e cheguei atĂ© ele. Quando finalmente conseguiu se deslocar atĂ© aqui, sua mĂŁe jĂĄ estava morta. Morreu enquanto eu fazia as ligaçÔes. O rapaz, Larry, jamais tinha se enquadrado nas normas da sociedade. Tinha o hĂĄbito de roubar os carros dos amigos, mas entre os amigos e o tribunal dava um jeito de resolver as coisas. EntĂŁo o exĂ©rcito o apanhou, e, de alguma maneira, entrou para um programa de treinamento, o que fez com que, assim que saĂsse, arranjasse um emprego muito bem pago. Foi quando deixou de ver a mĂŁe, quando conseguiu esse bom emprego.
â Onde estĂĄ sua irmĂŁ? â perguntei.
â NĂŁo sei.
â Ă um carro bacana. NĂŁo dĂĄ nem pra ouvir o motor.
Larry sorriu. Gostou do comentĂĄrio.
Havia apenas trĂȘs pessoas acompanhando o funeral: o filho, o amante e a irmĂŁ retardada da dona do hotel. Seu nome era Marcia. Marcia nunca dizia nada. Ficava apenas sentada, com um sorriso vazio nos lĂĄbios. Sua pele era branca como esmalte. Tinha um cabelo armado, de um amarelo mortiço, e um chapĂ©u que nĂŁo assentava. Marcia havia sido mandada pela dona do hotel para representĂĄ-la. A dona nĂŁo podia perder seu negĂłcio de vista.
Claro, eu estava com uma ressaca dos diabos. Paramos para tomar um café.
Ăquela altura, entĂŁo, jĂĄ tinham ocorrido alguns problemas com o funeral. Larry tivera uma discussĂŁo com o padre catĂłlico. O padre nĂŁo queria realizar o serviço. Finalmente foi decidido que ele faria o serviço pela metade. Bem, metade era melhor do que nada.
Tivemos problemas até com as flores. Eu havia comprado uma coroa de rosas, rosas misturadas, que foram arranjadas de modo a compor uma coroa. A floricultura passou a tarde inteira em cima do arranjo. A dona da floricultura tinha conhecido Betty. Haviam tomado umas e outras na época em que Betty e eu, alguns anos antes, moråvamos numa casa com cachorro. Seu nome era Delsie. Sempre desejara chegar ao que estava debaixo das calcinhas de Delsie, mas nunca tinha conseguido.
Delsie tinha me telefonado.
â Hank, qual Ă© o problema com esses cretinos?
â Que cretinos?
â Esses caras da funerĂĄria.
â Qual Ă© o problema?
â Bem, eu mandei um rapaz na caminhonete para entregar a coroa e eles nĂŁo deixaram ele entrar. Disseram que estavam fechados. VocĂȘ sabe, Ă© uma distĂąncia enorme.
â E aĂ, Delsie?
â Bem, por fim os caras deixaram ele pĂŽr as flores para dentro, mas nĂŁo pĂŽde colocĂĄ-las no refrigerador. EntĂŁo o rapaz teve que deixar elas ali mesmo. Que diabos hĂĄ com essas pessoas?
â NĂŁo sei. Que diabos hĂĄ com todo mundo?
â NĂŁo conseguirei ir ao funeral. VocĂȘ estĂĄ bem, Hank?
â Por que vocĂȘ nĂŁo vem me consolar?
â Teria que levar o Paul.
Paul era seu marido.
â Esqueça.
EntĂŁo assim estĂĄvamos, a caminho de nosso meio-funeral.
Larry ergueu os olhos do café.
â Vou escrever para vocĂȘ mais tarde para a gente ver o negĂłcio da lĂĄpide. Agora estou pelado.
â Tudo bem â eu disse.
Larry pagou os cafĂ©s, entĂŁo nĂłs saĂmos e embarcamos no Mercedes-Benz.
â Espere um minuto â eu disse.
â O que foi? â perguntou Larry.
â Acho que esquecemos alguma coisa.
Retornei ao café.
â Marcia.
Ela seguia sentada Ă mesa.
â Estamos indo, Marcia.
Ela se levantou e me seguiu até a rua.
â Cartas na rua
O Filho do Diabo
Eu tinha onze anos e meus dois amigos, Hass e Morgan, tinham doze, e era verĂŁo, nĂŁo tinha aula, e nos sentamos no gramado, ao sol, atrĂĄs da garagem do meu pai, fumando cigarros.
â Droga! â eu disse.
Eu estava sentado sob uma ĂĄrvore. Morgan e Hass estavam sentados de costas para a garagem.
â O que foi? â perguntou Morgan.
â Temos que pegar aquele filho da puta â eu disse. â Ele Ă© um problema na vizinhança!
â Quem? â perguntou Hass.
â O Simpson â eu disse.
â Ă mesmo â disse Hass â, ele tem sardas demais. Me irrita.
â NĂŁo Ă© isso â eu disse.
â NĂŁo? â disse Morgan.
â NĂŁo. Aquele filho da puta disse que comeu uma garota debaixo da minha casa semana passada. Ă uma baita mentira! â eu disse.
â Sem dĂșvida! â disse Hass.
â Ele nem sabe trepar â disse Morgan.
â O que ele sabe Ă© mentir â eu disse.
â Mentirosos nĂŁo servem pra nada â Hass disse, soprando um arco de fumaça no ar.
â Eu nĂŁo gosto de ouvir esse tipo de baboseira de um cara que tem sardas â disse Morgan.
â Bem, entĂŁo talvez a gente tenha que pegar ele â sugeri.
â Por que nĂŁo? â perguntou Hass.
â Vamos pegar ele â disse Morgan.
Cruzamos a calçada da casa de Simpson e lå estava ele, jogando bola contra a parede da garagem.
â Ei â eu disse â, olhem sĂł quem estĂĄ brincando sozinho!
Simpson pegou a bola num salto e se virou para nĂłs.
â OlĂĄ, companheiros!
NĂłs o cercamos.
â Andou comendo alguma garota embaixo de alguma casa nesses Ășltimos dias? â perguntou Morgan.
â NĂŁo!
â Como nĂŁo?
â Ah, sei lĂĄ.
â Eu nĂŁo acredito que vocĂȘ tenha comido alguĂ©m a nĂŁo ser vocĂȘ mesmo! â eu disse.
â Eu vou entrar agora â disse Simpson. â Minha mĂŁe me pediu para lavar a louça.
â Sua mĂŁe mete a louça na buceta? â provocou Morgan.
NĂłs rimos. Chegamos mais perto de Simpson. De sĂșbito, meti um soco na barriga dele. Ele se curvou para frente, segurando o estĂŽmago. Ficou desse jeito durante meio minuto, depois se endireitou.
â Meu pai vai chegar a qualquer momento â ele nos disse.
â Ah Ă©? Seu pai tambĂ©m come menininhas debaixo das casas? â perguntei.
â NĂŁo.
NĂłs rimos.
Simpson nĂŁo disse nada.
â Olhem pra essas sardas â disse Morgan. â Toda vez que ele come uma menininha embaixo de uma casa nasce uma sarda nova.
Simpson nĂŁo disse nada. Parecia cada vez mais assustado.
â Eu tenho uma irmĂŁ â disse Hass. â Quem me garante que vocĂȘ nĂŁo vai tentar comer a minha irmĂŁ embaixo de uma casa?
â Eu nunca faria isso, Hass, te dou a minha palavra!
â Ah Ă©?
â Sim, de verdade!
â Bem, isso Ă© pra vocĂȘ nĂŁo mudar de ideia!
Hass meteu um soco na barriga de Simpson. Simpson se curvou de novo. Hass se abaixou, pegou um punhado de terra e enfiou na gola da camiseta de Simpson. Simpson se endireitou. Seus olhos estavam cheios de lĂĄgrimas. Um veadinho.
â Deixem eu ir, por favor!
â Ir pra onde? â perguntei. â Quer se esconder debaixo da saia da sua mĂŁe para ver a louça sair da buceta dela?
â VocĂȘ nunca comeu ninguĂ©m â disse Morgan â, vocĂȘ nĂŁo tem nem pau! VocĂȘ mija pelas orelhas!
â Se um dia eu pegar vocĂȘ olhando pra minha irmĂŁ â disse Hass â, vai levar uma surra tĂŁo grande que vai virar uma sarda gigante.
â Me deixem ir embora, por favor!
Senti vontade de deixar ele ir. Talvez ele nĂŁo tivesse comido ninguĂ©m. Talvez sĂł estivesse sonhando acordado. Mas eu era o jovem lĂder. NĂŁo podia mostrar compaixĂŁo.
â VocĂȘ vem conosco, Simpson.
â NĂŁo!
â NĂŁo o caralho! VocĂȘ vem conosco! Agora, anda!
Caminhei ao redor dele e lhe dei um chute na bunda, bem forte. Ele gritou.
â CALE A BOCA! â berrei. â CALE A BOCA OU VAI SER PIOR! AGORA ANDE!
Nós o conduzimos até a calçada, cruzamos o gramado até a calçada da minha casa e seguimos para o meu quintal.
â Agora se endireite! â eu disse. â Solte as mĂŁos! Vamos organizar um tribunal improvisado!
Eu me virei para Morgan e Hass e perguntei:
â Todos aqueles que acham que este homem Ă© culpado por mentir que comeu uma menininha debaixo da minha casa devem dizer âculpadoâ.
â Culpado â disse Hass.
â Culpado â disse Morgan.
â Culpado â eu disse.
Eu me virei para o prisioneiro.
â Simpson, vocĂȘ Ă© considerado culpado!
As lĂĄgrimas agora escorriam de seus olhos.
â Mas eu nĂŁo fiz nada â resmungou.
â Ă disso que vocĂȘ Ă© culpado â disse Hass. â De mentir!
â Mas vocĂȘs mentem o tempo todo!
â NĂŁo sobre trepar â disse Morgan.
â Ă sobre isso que vocĂȘs mais mentem. Foi com vocĂȘs que eu aprendi!
â Sargento â eu me virei para Hass â, amordace o prisioneiro. Estou cansado de suas mentiras de merda!
â Sim, senhor!
Hass correu até o varal. Encontrou um lenço e um pano de prato. Seguramos Simpson, e ele enfiou o lenço em sua boca e amarrou o pano de prato por cima. Simpson emitiu um som abafado e mudou de cor.
â VocĂȘ acha que ele consegue respirar? â perguntou Morgan.
â Ele pode respirar pelo nariz â eu disse.
â Pois Ă© â concordou Hass.
â O que a gente vai fazer agora? â perguntou Morgan.
â O prisioneiro Ă© culpado, nĂŁo Ă©? â perguntei.
â Sim.
â Bem, como juiz eu o sentencio a ser enforcado atĂ© a morte!
Simpson fez uns barulhos por baixo de sua mordaça. Seus olhos nos encaravam, implorando. Corri até a garagem e peguei a corda. Havia uma, cuidadosamente enrolada, pendurada num grande gancho na parede. Eu não fazia a menor ideia de por que meu pai tinha aquela corda. Até onde eu sabia, ele nunca a havia usado. Agora ela teria uma utilidade.
SaĂ da garagem levando a corda.
Simpson começou a correr. Hass estava bem atrås dele. Ele pulou em cima de Simpson e o derrubou no chão. Virou-lhe o corpo e começou a dar socos na cara dele. Eu corri até eles e bati forte com a ponta da corda no rosto de Hass. Ele parou com os socos. Olhou para mim.
â Seu filho da puta, eu vou te dar uma surra!
â Como juiz, meu veredicto foi que esse homem seria enforcado. E assim serĂĄ! SOLTEM O PRISIONEIRO!
â Seu filho da puta, vou te dar uma surra daquelas!
â Primeiro, vamos enforcar o prisioneiro! Depois vocĂȘ e eu resolveremos nossas desavenças.
â Resolveremos mesmo â disse Hass.
â Levante-se, prisioneiro! â eu disse.
Hass se moveu rapidamente e Simpson se ergueu. Seu nariz estava sangrando e havia manchado a parte da frente de sua camiseta. Seu sangue era de um vermelho muito vivo. Mas Simpson parecia resignado. NĂŁo estava mais chorando. Seus olhos, porĂ©m, revelavam traços de pavor, algo terrĂvel de se ver.
â Me dĂȘ um cigarro â eu disse para Morgan.
Ele pĂŽs um na minha boca.
â Acenda â eu disse.
Morgan acendeu o cigarro e eu dei uma tragada, então, segurando o cigarro entre meus låbios, exalei a fumaça pelo nariz enquanto fazia um laço na ponta da corda.
â Levem o prisioneiro para a varanda! â ordenei.
Havia uma varanda nos fundos da casa. Sobre a varanda, havia uma saliĂȘncia. Lancei a corda sobre uma trave, e entĂŁo puxei o laço para baixo, em frente Ă cabeça de Simpson. Eu nĂŁo queria mais ir adiante com aquilo. Achava que Simpson jĂĄ havia sofrido o suficiente, mas eu era o lĂder e ia ter que brigar com Hass depois, assim nĂŁo podia demonstrar nenhum sinal de fraqueza.
â Talvez a gente nĂŁo devesse fazer isso â disse Morgan.
â O homem Ă© culpado! â gritei.
â Isso mesmo! â gritou Hass. â Ele deve ser enforcado!
â Olhem, ele se mijou todo â disse Morgan.
De fato, havia uma mancha escura na parte da frente das calças de Simpson, e ela estava aumentando.
â Covarde â eu disse.
Coloquei o laço sobre a cabeça de Simpson. Dei um puxão na corda e levantei Simpson até a ponta dos seus pés. Então, peguei a outra ponta da corda e amarrei numa torneira no lado da casa. Dei um nó bem apertado na corda e gritei:
â Vamos dar o fora daqui!
Olhamos para Simpson, que se equilibrava na ponta dos pés. Ele estava girando um pouco, devagar, parecia jå estar morto.
Comecei a correr. Morgan e Hass correram tambĂ©m. Corremos atĂ© a calçada e entĂŁo Morgan e Hass foram embora, cada um para a sua casa. Dei-me conta de que eu nĂŁo tinha para onde ir. Hass, eu pensei, ou vocĂȘ se esqueceu da briga ou nĂŁo queria brigar.
Fiquei parado na calçada por alguns instantes, entĂŁo corri de volta ao pĂĄtio. Simpson ainda estava girando. Um pouco, devagar. TĂnhamos esquecido de amarrar suas mĂŁos. Ele estava com as mĂŁos erguidas, tentando aliviar a pressĂŁo em seu pescoço, mas nĂŁo estava conseguindo. Corri atĂ© a torneira, desatei a corda e a soltei. Simpson bateu na varanda, depois tropeçou e caiu no gramado.
Ele estava de bruços. Virei seu corpo e tirei a mordaça. Ele estava mal. Tinha o aspecto de quem poderia morrer a qualquer momento. Me debrucei sobre ele.
â Ouça bem, seu filho da puta, nĂŁo morra, eu nĂŁo queria te matar, de verdade. Se vocĂȘ morrer, vai ser triste. Mas se nĂŁo morrer e contar isso para alguĂ©m, aĂ vocĂȘ nĂŁo me escapa. Entendeu?
Simpson não respondeu. Apenas me olhou. Ele estava péssimo. Seu rosto estava roxo e ele tinha marcas de corda no pescoço.
Eu me levantei. Olhei-o por alguns instantes. Ele não se movia. A coisa estava feia. Fiquei tonto. Depois me recompus. Respirei fundo e caminhei até a calçada. Era cerca de quatro da tarde. Comecei a caminhar. Caminhei até a avenida e segui caminhando. Eu estava pensativo. Sentia que minha vida tinha se acabado. Simpson sempre gostara de andar sozinho. Talvez fosse solitårio. Nunca se misturava com a gente ou com os outros garotos. Ele era estranho nesse sentido. Talvez fosse isso o que nos incomodava nele. Mesmo assim, ele tinha algo de bom. Eu sentia que havia feito algo muito ruim e, ao mesmo tempo, sentia que não. Na maior parte do tempo eu tinha um sentimento vago, que se centrava no meu estÎmago. Caminhei e caminhei. Caminhei até a autoestrada e voltei. Meus sapatos machucavam muito meus pés. Meus pais sempre me compravam sapatos vagabundos. Pareciam bons por mais ou menos uma semana, então o couro rachava e as unhas começavam a atravessar a sola. Eu segui caminhando mesmo assim.
Quando voltei para casa jå era quase noite. Caminhei vagarosamente pela calçada em direção ao quintal. Simpson não estava lå. Nem a corda. Talvez ele estivesse morto. Talvez ele estivesse em outro lugar. Olhei em volta.
Vi o rosto do meu pai pela porta de tela.
â Venha aqui â ele falou.
Subi as escadas da varanda e passei por ele.
â A sua mĂŁe ainda nĂŁo chegou. Melhor assim. VĂĄ para o quarto. Quero ter uma conversinha com vocĂȘ.
Avancei até o quarto, sentei na cama e olhei para os meus sapatos vagabundos. Meu pai era um homem grande, mais de um metro e oitenta de altura. Ele tinha uma cabeça grande e olhos que pareciam pendurados sob suas sobrancelhas bagunçadas. Tinha låbios grossos e orelhas grandes. Era måsculo sem precisar fazer esforço algum.
â Por onde vocĂȘ andava? â ele perguntou.
â Por aĂ, caminhando.
â Caminhando? Por quĂȘ?
â Gosto de caminhar.
â Desde quando?
â Desde hoje.
Fez-se um longo silĂȘncio. EntĂŁo ele falou de novo.
â O que aconteceu no nosso quintal hoje Ă tarde?
â Ele estĂĄ morto?
â Quem?
â Eu disse pra ele nĂŁo contar. Se ele contou, Ă© porque nĂŁo estĂĄ morto.
â NĂŁo, ele nĂŁo estĂĄ morto. E os pais dele iam chamar a polĂcia. Tive que conversar um longo tempo com eles para convencĂȘ-los a nĂŁo fazer isso. Se eles tivessem chamado a polĂcia, sua mĂŁe teria ficado arrasada! EstĂĄ entendendo?
NĂŁo respondi.
â Sua mĂŁe teria ficado arrasada! VocĂȘ entende isso?
NĂŁo respondi.
â Tive que pagar para que ficassem calados. E, alĂ©m disso, vou ter que pagar as despesas mĂ©dicas. VocĂȘ vai levar a surra da sua vida! Eu vou te dar um corretivo! NĂŁo vou criar um filho incapaz de viver em sociedade!
Ele ficou de pé junto à porta, parado. Eu olhei para os seus olhos debaixo daquelas sobrancelhas, para aquele corpo enorme.
â Chame a polĂcia â eu disse. â NĂŁo quero vocĂȘ. Prefiro a polĂcia.
Ele se aproximou de mim devagar.
â A polĂcia nĂŁo entende gente como vocĂȘ.
Levantei da cama e cerrei os pulsos.
â Vamos lĂĄ â eu disse â, vou lutar com vocĂȘ!
Com um rĂĄpido movimento ele estava em cima de mim. Foi como se um raio de luz me cegasse, uma pancada tĂŁo forte que nem cheguei a sentir. Eu estava no chĂŁo. Levantei-me.
â Ă melhor vocĂȘ me matar â eu disse â, porque, quando eu crescer, vou matar vocĂȘ!
A pancada que veio a seguir me arrastou para baixo da cama. Parecia um bom lugar para estar. Olhei para as molas. Eu nunca tinha visto nada mais agradĂĄvel e maravilhoso que aquelas molas acima de mim. EntĂŁo eu ri. Foi um riso apavorado, mas eu ri, e ri porque me veio o pensamento de que talvez o Simpson tivesse de fato comido uma garota debaixo da minha casa.
â De que diabos vocĂȘ estĂĄ rindo? â gritou meu pai. â VocĂȘ Ă© mesmo o filho do Diabo, vocĂȘ nĂŁo Ă© meu filho!
Vi sua enorme mão tatear por baixo da cama, procurando por mim. Quando se aproximou, agarrei a sua mão com as minhas e a mordi com toda a força. Ouvi um gemido feroz e a mão se recolheu. Senti o gosto de sangue e carne em minha boca, cuspi fora. Então eu soube que, apesar de Simpson estar vivo, eu poderia estar morto dentro de poucos instantes.
â Muito bem â ouvi meu pai dizer em voz baixa â, agora vocĂȘ pediu e, por Deus, vocĂȘ vai levar.
Eu esperei. E, enquanto esperava, ouvia apenas alguns sons estranhos. Ouvia os påssaros, o som dos carros que passavam, ouvia até mesmo o som do meu coração batendo forte, o som do sangue correndo em minhas veias. Eu ouvia a respiração do meu pai, e me arrastei até a parte do meio da cama e esperei pelo que viria em seguida.
â Septuagenarian Stew
A quinta sĂ©rie era um pouco melhor. Os outros estudantes pareciam menos hostis, e eu crescia fisicamente. Ainda nĂŁo era escolhido para os times da escola, mas jĂĄ nĂŁo sofria ameaças frequentes. David e seu violino tinham partido. Sua famĂlia se mudara. Agora eu caminhava sozinho para casa. Muitas vezes, um ou dois caras me seguiam, dentre os quais Juan era o pior, mas nĂŁo chegavam a me fazer nada. Juan fumava cigarros. Caminhava atrĂĄs de mim fumando um cigarro e sempre tinha consigo um parceiro diferente. Jamais me seguia sozinho. Isso me assustava. Queria que eles sumissem. Contudo, por outro lado, eu nĂŁo dava muita bola. NĂŁo gostava de Juan. NĂŁo gostava de ninguĂ©m naquela escola. Creio que eles sabiam disso. Devia ser por isso que nĂŁo simpatizavam comigo. NĂŁo gostava do jeito que eles caminhavam, de sua aparĂȘncia, do modo como falavam, mas tambĂ©m nĂŁo gostava dessas coisas em meu pai e minha mĂŁe. Continuava com a sensação de estar cercado por um grande espaço em branco, um vazio. Havia sempre uma sombra de nĂĄusea em meu estĂŽmago. Juan tinha a pele morena e usava uma corrente de metal em vez de cinto. As garotas tinham medo dele, assim como os rapazes. Ele e um dos seus capangas me seguiam quase todos os dias. Eu entrava em casa, e eles ficavam parados lĂĄ fora. Juan fumaria seu cigarro, bancando o durĂŁo, e seu parceiro ficaria ali parado. Eu os observava atravĂ©s das cortinas. Finalmente, depois de um tempo, eles acabavam partindo.
A sra. Fretag era nossa professora de InglĂȘs. No primeiro dia de aula ela perguntou o nome de cada um de nĂłs.
â Quero conhecer cada um de vocĂȘs â ela disse.
Sorriu.
â Bem, cada um de vocĂȘs tem um pai, estou certa. Penso que seria interessante se descobrĂssemos o que eles fazem para viver. Começaremos pelo primeiro da fila e iremos adiante, atĂ© que todos na sala tenham falado. E entĂŁo, Marie, o que seu pai faz da vida?
â Ele Ă© jardineiro.
â Ah, mas que legal! Carteira nĂșmero dois... Andrew, o que seu pai faz?
Foi terrĂvel. Os pais de todos os meus colegas das redondezas tinham perdido seus empregos. Meu pai havia perdido o emprego. O pai de Gene ficava o dia inteiro sentado na varanda. Todos estavam desempregados com exceção do pai de Chuck, que trabalhava num matadouro. Ele dirigia o carro que entregava as carnes, um carro vermelho com o nome do matadouro gravado nos lados.
â Meu pai Ă© bombeiro â disse o nĂșmero dois.
â Ah, isso Ă© interessante â disse a sra. Fretag. â Carteira nĂșmero trĂȘs.
â Meu pai Ă© advogado.
â Carteira quatro.
â Meu pai Ă©... policial...
O que eu iria dizer? Talvez apenas os pais da minha vizinhança estivessem sem emprego. Tinha ouvido falar do crack da bolsa. Significava algo ruim. Talvez o mercado só tivesse entrado em colapso na nossa vizinhança.
â Carteira dezoito.
â Meu pai Ă© ator de cinema...
â Dezenove...
â Meu pai toca violino em concertos...
â Vinte...
â Meu pai trabalha num circo...
â Vinte e um...
â Meu pai Ă© motorista de ĂŽnibus...
â Vinte e dois...
â Meu pai Ă© cantor de Ăłpera...
â Vinte e trĂȘs...
Vinte e trĂȘs. Era eu.
â Meu pai Ă© dentista â eu disse.
A sra Fretag prosseguiu atĂ© que chegou no nĂșmero 33.
â Meu pai nĂŁo tem emprego â disse o nĂșmero 33.
Merda, pensei, queria ter pensado nisso.
Um dia, a sra. Fretag nos passou uma tarefa.
â Nosso ilustrĂssimo senhor presidente, Herbert Hoover, virĂĄ visitar Los Angeles no sĂĄbado e farĂĄ um discurso. Quero que todos vocĂȘs vĂŁo atĂ© lĂĄ ouvir o nosso presidente. E quero que escrevam um ensaio sobre a experiĂȘncia e sobre o que vocĂȘs acharam do discurso do presidente Hoover.
SĂĄbado? NĂŁo havia a mĂnima chance de que eu pudesse ir. Era dia de cortar a grama. Eu tinha que cuidar dos fiapinhos. (Eu nunca conseguia eliminĂĄ-los por completo.) Praticamente todos os sĂĄbados eu apanhava com o amolador de navalha porque meu pai encontrava um fiapo. (TambĂ©m apanhava durante a semana, uma ou duas vezes, por outras coisas que eu deixava de fazer ou nĂŁo fazia corretamente.) NĂŁo tinha como dizer a meu pai que eu iria assistir ao presidente Hoover.
Assim, nĂŁo fui. No dia seguinte, peguei um jornal dominical e me sentei para escrever sobre a aparição do presidente. Seu carro aberto, abrindo caminho entre as bandeiras tremulantes, tinha entrado no estĂĄdio de futebol. Um carro, cheio de agentes do serviço secreto, lhe abria caminho, enquanto outros dois seguiam o carro presidencial de perto. Os agentes eram homens de coragem, armados para proteger nosso presidente. A multidĂŁo se levantou quando o carro presidencial entrou na arena. Nunca acontecera anteriormente nada parecido. Era o presidente. Era ele. Acenou. NĂłs aplaudimos. Uma banda começou a tocar. Gaivotas sobrevoavam em cĂrculos, como se soubessem que se tratava do presidente. E havia ainda aviĂ”es que escreviam mensagens de fumaça no cĂ©u. Escreviam no ar frases como: âA prosperidade estĂĄ logo ali na esquinaâ. O presidente se pĂŽs de pĂ© em seu carro, e, assim que ele fez esse movimento, as nuvens se afastaram e os raios de sol incidiram diretamente em seu rosto. Era quase como se Deus tambĂ©m soubesse quem ele era. EntĂŁo os carros pararam, e nosso grande presidente, rodeado pelos agentes do serviço secreto, caminhou atĂ© o palanque. Ao se posicionar junto ao microfone, um pĂĄssaro desceu do cĂ©u e pousou sobre a bancada em que estava o microfone. O presidente acenou para o pĂĄssaro e riu e todos nĂłs rimos com ele. EntĂŁo ele começou a falar, e as pessoas passaram a ouvi-lo com atenção. Eu quase nĂŁo conseguia ouvir o discurso porque estava sentado muito prĂłximo a uma mĂĄquina de pipocas que fazia muito barulho estourando os grĂŁos, mas creio ter escutado ele falar que os problemas na ManchĂșria nĂŁo eram muito sĂ©rios e que aqui no paĂs as coisas logo entrariam nos eixos, que nĂŁo devĂamos nos preocupar, tudo o que precisĂĄvamos fazer era acreditar na AmĂ©rica. Haveria empregos para todo mundo. Haveria bastantes dentistas e dentes suficientes para arrancar, bastantes incĂȘndios e bombeiros bastantes para apagĂĄ-los. As fĂĄbricas e as indĂșstrias reabririam. Nossos amigos na Ăfrica do Sul pagariam suas dĂvidas. Logo todos dormirĂamos tranquilamente, com os estĂŽmagos cheios e os coraçÔes pacificados. Deus e nosso grande paĂs nos envolveriam em seu amor, nos protegendo do mal, dos socialistas, nos despertando de nosso pesadelo nacional, para sempre...
O presidente ouviu os aplausos, acenou, entĂŁo voltou para o carro, entrou e partiu seguido pelos carros apinhados de agentes do serviço secreto enquanto o sol mergulhava no horizonte e o entardecer se fazia noite, vermelho, dourado e maravilhoso. HavĂamos visto e ouvido o presidente Herbert Hoover.
Entreguei meu ensaio na segunda-feira. Na terça, a sra. Fretag se dirigiu à classe:
â Li os ensaios de todos vocĂȘs sobre a visita do nosso ilustrĂssimo presidente a Los Angeles. Eu estava lĂĄ. Alguns de vocĂȘs, pelo que pude notar, nĂŁo puderam comparecer ao evento por uma ou outra razĂŁo. Para aqueles entre vocĂȘs que nĂŁo puderam estar lĂĄ, gostaria de ler o ensaio escrito por Henry Chinaski.
Um terrĂvel silĂȘncio se abateu sobre a turma. Eu era de longe o aluno mais impopular da classe. Era como se todos eles tivessem levado uma facada no coração.
â Este Ă© um texto muito criativo â disse a sra. Fretag e começou a ler meu ensaio.
As palavras me soavam bem. Todos escutavam. Minhas palavras enchiam a sala, corriam de um lado a outro pelo quadro-negro, ricocheteavam no teto e cobriam os sapatos da sra. Fretag, se amontoando no chão. Algumas das garotas mais lindas da classe começaram a me lançar olhares furtivos. Os caras durÔes estavam putos da cara. Seus ensaios não valiam merda nenhuma. Eu bebia de minhas próprias palavras como se fosse um homem sedento. Comecei, inclusive, a acreditar que elas representassem a verdade. Vi Juan sentado ali como se eu lhe tivesse esmurrado a cara. Estiquei minhas pernas e me recostei na cadeira. Logo, porém, estava tudo terminado.
â Com essa grande redação â disse a sra. Fretag â, encerro a aula...
Todos se levantaram e começaram a guardar seus materiais.
â VocĂȘ nĂŁo, Henry.
Sentei-me na cadeira, e a sra. Fretag ficou ali, me encarando. EntĂŁo disse:
â Henry, vocĂȘ estava lĂĄ?
Tentei encontrar uma resposta. Nada me ocorreu. Eu disse:
â NĂŁo, eu nĂŁo estava lĂĄ.
Ela sorriu.
â Isso faz com que seu ensaio seja ainda mais notĂĄvel.
â Sim, madame...
â VocĂȘ jĂĄ pode ir, Henry.
Levantei-me e deixei a sala. Fui para casa. EntĂŁo era isso que eles queriam: mentiras. Mentiras maravilhosas. Era disso que precisavam. As pessoas eram idiotas. Seria fĂĄcil para mim. Olhei em volta. Juan e seu comparsa nĂŁo estavam me seguindo. As coisas estavam melhorando.
â Misto-quente
â Droga! â eu disse.
Eu estava sentado sob uma ĂĄrvore. Morgan e Hass estavam sentados de costas para a garagem.
â O que foi? â perguntou Morgan.
â Temos que pegar aquele filho da puta â eu disse. â Ele Ă© um problema na vizinhança!
â Quem? â perguntou Hass.
â O Simpson â eu disse.
â Ă mesmo â disse Hass â, ele tem sardas demais. Me irrita.
â NĂŁo Ă© isso â eu disse.
â NĂŁo? â disse Morgan.
â NĂŁo. Aquele filho da puta disse que comeu uma garota debaixo da minha casa semana passada. Ă uma baita mentira! â eu disse.
â Sem dĂșvida! â disse Hass.
â Ele nem sabe trepar â disse Morgan.
â O que ele sabe Ă© mentir â eu disse.
â Mentirosos nĂŁo servem pra nada â Hass disse, soprando um arco de fumaça no ar.
â Eu nĂŁo gosto de ouvir esse tipo de baboseira de um cara que tem sardas â disse Morgan.
â Bem, entĂŁo talvez a gente tenha que pegar ele â sugeri.
â Por que nĂŁo? â perguntou Hass.
â Vamos pegar ele â disse Morgan.
Cruzamos a calçada da casa de Simpson e lå estava ele, jogando bola contra a parede da garagem.
â Ei â eu disse â, olhem sĂł quem estĂĄ brincando sozinho!
Simpson pegou a bola num salto e se virou para nĂłs.
â OlĂĄ, companheiros!
NĂłs o cercamos.
â Andou comendo alguma garota embaixo de alguma casa nesses Ășltimos dias? â perguntou Morgan.
â NĂŁo!
â Como nĂŁo?
â Ah, sei lĂĄ.
â Eu nĂŁo acredito que vocĂȘ tenha comido alguĂ©m a nĂŁo ser vocĂȘ mesmo! â eu disse.
â Eu vou entrar agora â disse Simpson. â Minha mĂŁe me pediu para lavar a louça.
â Sua mĂŁe mete a louça na buceta? â provocou Morgan.
NĂłs rimos. Chegamos mais perto de Simpson. De sĂșbito, meti um soco na barriga dele. Ele se curvou para frente, segurando o estĂŽmago. Ficou desse jeito durante meio minuto, depois se endireitou.
â Meu pai vai chegar a qualquer momento â ele nos disse.
â Ah Ă©? Seu pai tambĂ©m come menininhas debaixo das casas? â perguntei.
â NĂŁo.
NĂłs rimos.
Simpson nĂŁo disse nada.
â Olhem pra essas sardas â disse Morgan. â Toda vez que ele come uma menininha embaixo de uma casa nasce uma sarda nova.
Simpson nĂŁo disse nada. Parecia cada vez mais assustado.
â Eu tenho uma irmĂŁ â disse Hass. â Quem me garante que vocĂȘ nĂŁo vai tentar comer a minha irmĂŁ embaixo de uma casa?
â Eu nunca faria isso, Hass, te dou a minha palavra!
â Ah Ă©?
â Sim, de verdade!
â Bem, isso Ă© pra vocĂȘ nĂŁo mudar de ideia!
Hass meteu um soco na barriga de Simpson. Simpson se curvou de novo. Hass se abaixou, pegou um punhado de terra e enfiou na gola da camiseta de Simpson. Simpson se endireitou. Seus olhos estavam cheios de lĂĄgrimas. Um veadinho.
â Deixem eu ir, por favor!
â Ir pra onde? â perguntei. â Quer se esconder debaixo da saia da sua mĂŁe para ver a louça sair da buceta dela?
â VocĂȘ nunca comeu ninguĂ©m â disse Morgan â, vocĂȘ nĂŁo tem nem pau! VocĂȘ mija pelas orelhas!
â Se um dia eu pegar vocĂȘ olhando pra minha irmĂŁ â disse Hass â, vai levar uma surra tĂŁo grande que vai virar uma sarda gigante.
â Me deixem ir embora, por favor!
Senti vontade de deixar ele ir. Talvez ele nĂŁo tivesse comido ninguĂ©m. Talvez sĂł estivesse sonhando acordado. Mas eu era o jovem lĂder. NĂŁo podia mostrar compaixĂŁo.
â VocĂȘ vem conosco, Simpson.
â NĂŁo!
â NĂŁo o caralho! VocĂȘ vem conosco! Agora, anda!
Caminhei ao redor dele e lhe dei um chute na bunda, bem forte. Ele gritou.
â CALE A BOCA! â berrei. â CALE A BOCA OU VAI SER PIOR! AGORA ANDE!
Nós o conduzimos até a calçada, cruzamos o gramado até a calçada da minha casa e seguimos para o meu quintal.
â Agora se endireite! â eu disse. â Solte as mĂŁos! Vamos organizar um tribunal improvisado!
Eu me virei para Morgan e Hass e perguntei:
â Todos aqueles que acham que este homem Ă© culpado por mentir que comeu uma menininha debaixo da minha casa devem dizer âculpadoâ.
â Culpado â disse Hass.
â Culpado â disse Morgan.
â Culpado â eu disse.
Eu me virei para o prisioneiro.
â Simpson, vocĂȘ Ă© considerado culpado!
As lĂĄgrimas agora escorriam de seus olhos.
â Mas eu nĂŁo fiz nada â resmungou.
â Ă disso que vocĂȘ Ă© culpado â disse Hass. â De mentir!
â Mas vocĂȘs mentem o tempo todo!
â NĂŁo sobre trepar â disse Morgan.
â Ă sobre isso que vocĂȘs mais mentem. Foi com vocĂȘs que eu aprendi!
â Sargento â eu me virei para Hass â, amordace o prisioneiro. Estou cansado de suas mentiras de merda!
â Sim, senhor!
Hass correu até o varal. Encontrou um lenço e um pano de prato. Seguramos Simpson, e ele enfiou o lenço em sua boca e amarrou o pano de prato por cima. Simpson emitiu um som abafado e mudou de cor.
â VocĂȘ acha que ele consegue respirar? â perguntou Morgan.
â Ele pode respirar pelo nariz â eu disse.
â Pois Ă© â concordou Hass.
â O que a gente vai fazer agora? â perguntou Morgan.
â O prisioneiro Ă© culpado, nĂŁo Ă©? â perguntei.
â Sim.
â Bem, como juiz eu o sentencio a ser enforcado atĂ© a morte!
Simpson fez uns barulhos por baixo de sua mordaça. Seus olhos nos encaravam, implorando. Corri até a garagem e peguei a corda. Havia uma, cuidadosamente enrolada, pendurada num grande gancho na parede. Eu não fazia a menor ideia de por que meu pai tinha aquela corda. Até onde eu sabia, ele nunca a havia usado. Agora ela teria uma utilidade.
SaĂ da garagem levando a corda.
Simpson começou a correr. Hass estava bem atrås dele. Ele pulou em cima de Simpson e o derrubou no chão. Virou-lhe o corpo e começou a dar socos na cara dele. Eu corri até eles e bati forte com a ponta da corda no rosto de Hass. Ele parou com os socos. Olhou para mim.
â Seu filho da puta, eu vou te dar uma surra!
â Como juiz, meu veredicto foi que esse homem seria enforcado. E assim serĂĄ! SOLTEM O PRISIONEIRO!
â Seu filho da puta, vou te dar uma surra daquelas!
â Primeiro, vamos enforcar o prisioneiro! Depois vocĂȘ e eu resolveremos nossas desavenças.
â Resolveremos mesmo â disse Hass.
â Levante-se, prisioneiro! â eu disse.
Hass se moveu rapidamente e Simpson se ergueu. Seu nariz estava sangrando e havia manchado a parte da frente de sua camiseta. Seu sangue era de um vermelho muito vivo. Mas Simpson parecia resignado. NĂŁo estava mais chorando. Seus olhos, porĂ©m, revelavam traços de pavor, algo terrĂvel de se ver.
â Me dĂȘ um cigarro â eu disse para Morgan.
Ele pĂŽs um na minha boca.
â Acenda â eu disse.
Morgan acendeu o cigarro e eu dei uma tragada, então, segurando o cigarro entre meus låbios, exalei a fumaça pelo nariz enquanto fazia um laço na ponta da corda.
â Levem o prisioneiro para a varanda! â ordenei.
Havia uma varanda nos fundos da casa. Sobre a varanda, havia uma saliĂȘncia. Lancei a corda sobre uma trave, e entĂŁo puxei o laço para baixo, em frente Ă cabeça de Simpson. Eu nĂŁo queria mais ir adiante com aquilo. Achava que Simpson jĂĄ havia sofrido o suficiente, mas eu era o lĂder e ia ter que brigar com Hass depois, assim nĂŁo podia demonstrar nenhum sinal de fraqueza.
â Talvez a gente nĂŁo devesse fazer isso â disse Morgan.
â O homem Ă© culpado! â gritei.
â Isso mesmo! â gritou Hass. â Ele deve ser enforcado!
â Olhem, ele se mijou todo â disse Morgan.
De fato, havia uma mancha escura na parte da frente das calças de Simpson, e ela estava aumentando.
â Covarde â eu disse.
Coloquei o laço sobre a cabeça de Simpson. Dei um puxão na corda e levantei Simpson até a ponta dos seus pés. Então, peguei a outra ponta da corda e amarrei numa torneira no lado da casa. Dei um nó bem apertado na corda e gritei:
â Vamos dar o fora daqui!
Olhamos para Simpson, que se equilibrava na ponta dos pés. Ele estava girando um pouco, devagar, parecia jå estar morto.
Comecei a correr. Morgan e Hass correram tambĂ©m. Corremos atĂ© a calçada e entĂŁo Morgan e Hass foram embora, cada um para a sua casa. Dei-me conta de que eu nĂŁo tinha para onde ir. Hass, eu pensei, ou vocĂȘ se esqueceu da briga ou nĂŁo queria brigar.
Fiquei parado na calçada por alguns instantes, entĂŁo corri de volta ao pĂĄtio. Simpson ainda estava girando. Um pouco, devagar. TĂnhamos esquecido de amarrar suas mĂŁos. Ele estava com as mĂŁos erguidas, tentando aliviar a pressĂŁo em seu pescoço, mas nĂŁo estava conseguindo. Corri atĂ© a torneira, desatei a corda e a soltei. Simpson bateu na varanda, depois tropeçou e caiu no gramado.
Ele estava de bruços. Virei seu corpo e tirei a mordaça. Ele estava mal. Tinha o aspecto de quem poderia morrer a qualquer momento. Me debrucei sobre ele.
â Ouça bem, seu filho da puta, nĂŁo morra, eu nĂŁo queria te matar, de verdade. Se vocĂȘ morrer, vai ser triste. Mas se nĂŁo morrer e contar isso para alguĂ©m, aĂ vocĂȘ nĂŁo me escapa. Entendeu?
Simpson não respondeu. Apenas me olhou. Ele estava péssimo. Seu rosto estava roxo e ele tinha marcas de corda no pescoço.
Eu me levantei. Olhei-o por alguns instantes. Ele não se movia. A coisa estava feia. Fiquei tonto. Depois me recompus. Respirei fundo e caminhei até a calçada. Era cerca de quatro da tarde. Comecei a caminhar. Caminhei até a avenida e segui caminhando. Eu estava pensativo. Sentia que minha vida tinha se acabado. Simpson sempre gostara de andar sozinho. Talvez fosse solitårio. Nunca se misturava com a gente ou com os outros garotos. Ele era estranho nesse sentido. Talvez fosse isso o que nos incomodava nele. Mesmo assim, ele tinha algo de bom. Eu sentia que havia feito algo muito ruim e, ao mesmo tempo, sentia que não. Na maior parte do tempo eu tinha um sentimento vago, que se centrava no meu estÎmago. Caminhei e caminhei. Caminhei até a autoestrada e voltei. Meus sapatos machucavam muito meus pés. Meus pais sempre me compravam sapatos vagabundos. Pareciam bons por mais ou menos uma semana, então o couro rachava e as unhas começavam a atravessar a sola. Eu segui caminhando mesmo assim.
Quando voltei para casa jå era quase noite. Caminhei vagarosamente pela calçada em direção ao quintal. Simpson não estava lå. Nem a corda. Talvez ele estivesse morto. Talvez ele estivesse em outro lugar. Olhei em volta.
Vi o rosto do meu pai pela porta de tela.
â Venha aqui â ele falou.
Subi as escadas da varanda e passei por ele.
â A sua mĂŁe ainda nĂŁo chegou. Melhor assim. VĂĄ para o quarto. Quero ter uma conversinha com vocĂȘ.
Avancei até o quarto, sentei na cama e olhei para os meus sapatos vagabundos. Meu pai era um homem grande, mais de um metro e oitenta de altura. Ele tinha uma cabeça grande e olhos que pareciam pendurados sob suas sobrancelhas bagunçadas. Tinha låbios grossos e orelhas grandes. Era måsculo sem precisar fazer esforço algum.
â Por onde vocĂȘ andava? â ele perguntou.
â Por aĂ, caminhando.
â Caminhando? Por quĂȘ?
â Gosto de caminhar.
â Desde quando?
â Desde hoje.
Fez-se um longo silĂȘncio. EntĂŁo ele falou de novo.
â O que aconteceu no nosso quintal hoje Ă tarde?
â Ele estĂĄ morto?
â Quem?
â Eu disse pra ele nĂŁo contar. Se ele contou, Ă© porque nĂŁo estĂĄ morto.
â NĂŁo, ele nĂŁo estĂĄ morto. E os pais dele iam chamar a polĂcia. Tive que conversar um longo tempo com eles para convencĂȘ-los a nĂŁo fazer isso. Se eles tivessem chamado a polĂcia, sua mĂŁe teria ficado arrasada! EstĂĄ entendendo?
NĂŁo respondi.
â Sua mĂŁe teria ficado arrasada! VocĂȘ entende isso?
NĂŁo respondi.
â Tive que pagar para que ficassem calados. E, alĂ©m disso, vou ter que pagar as despesas mĂ©dicas. VocĂȘ vai levar a surra da sua vida! Eu vou te dar um corretivo! NĂŁo vou criar um filho incapaz de viver em sociedade!
Ele ficou de pé junto à porta, parado. Eu olhei para os seus olhos debaixo daquelas sobrancelhas, para aquele corpo enorme.
â Chame a polĂcia â eu disse. â NĂŁo quero vocĂȘ. Prefiro a polĂcia.
Ele se aproximou de mim devagar.
â A polĂcia nĂŁo entende gente como vocĂȘ.
Levantei da cama e cerrei os pulsos.
â Vamos lĂĄ â eu disse â, vou lutar com vocĂȘ!
Com um rĂĄpido movimento ele estava em cima de mim. Foi como se um raio de luz me cegasse, uma pancada tĂŁo forte que nem cheguei a sentir. Eu estava no chĂŁo. Levantei-me.
â Ă melhor vocĂȘ me matar â eu disse â, porque, quando eu crescer, vou matar vocĂȘ!
A pancada que veio a seguir me arrastou para baixo da cama. Parecia um bom lugar para estar. Olhei para as molas. Eu nunca tinha visto nada mais agradĂĄvel e maravilhoso que aquelas molas acima de mim. EntĂŁo eu ri. Foi um riso apavorado, mas eu ri, e ri porque me veio o pensamento de que talvez o Simpson tivesse de fato comido uma garota debaixo da minha casa.
â De que diabos vocĂȘ estĂĄ rindo? â gritou meu pai. â VocĂȘ Ă© mesmo o filho do Diabo, vocĂȘ nĂŁo Ă© meu filho!
Vi sua enorme mão tatear por baixo da cama, procurando por mim. Quando se aproximou, agarrei a sua mão com as minhas e a mordi com toda a força. Ouvi um gemido feroz e a mão se recolheu. Senti o gosto de sangue e carne em minha boca, cuspi fora. Então eu soube que, apesar de Simpson estar vivo, eu poderia estar morto dentro de poucos instantes.
â Muito bem â ouvi meu pai dizer em voz baixa â, agora vocĂȘ pediu e, por Deus, vocĂȘ vai levar.
Eu esperei. E, enquanto esperava, ouvia apenas alguns sons estranhos. Ouvia os påssaros, o som dos carros que passavam, ouvia até mesmo o som do meu coração batendo forte, o som do sangue correndo em minhas veias. Eu ouvia a respiração do meu pai, e me arrastei até a parte do meio da cama e esperei pelo que viria em seguida.
â Septuagenarian Stew
A quinta sĂ©rie era um pouco melhor. Os outros estudantes pareciam menos hostis, e eu crescia fisicamente. Ainda nĂŁo era escolhido para os times da escola, mas jĂĄ nĂŁo sofria ameaças frequentes. David e seu violino tinham partido. Sua famĂlia se mudara. Agora eu caminhava sozinho para casa. Muitas vezes, um ou dois caras me seguiam, dentre os quais Juan era o pior, mas nĂŁo chegavam a me fazer nada. Juan fumava cigarros. Caminhava atrĂĄs de mim fumando um cigarro e sempre tinha consigo um parceiro diferente. Jamais me seguia sozinho. Isso me assustava. Queria que eles sumissem. Contudo, por outro lado, eu nĂŁo dava muita bola. NĂŁo gostava de Juan. NĂŁo gostava de ninguĂ©m naquela escola. Creio que eles sabiam disso. Devia ser por isso que nĂŁo simpatizavam comigo. NĂŁo gostava do jeito que eles caminhavam, de sua aparĂȘncia, do modo como falavam, mas tambĂ©m nĂŁo gostava dessas coisas em meu pai e minha mĂŁe. Continuava com a sensação de estar cercado por um grande espaço em branco, um vazio. Havia sempre uma sombra de nĂĄusea em meu estĂŽmago. Juan tinha a pele morena e usava uma corrente de metal em vez de cinto. As garotas tinham medo dele, assim como os rapazes. Ele e um dos seus capangas me seguiam quase todos os dias. Eu entrava em casa, e eles ficavam parados lĂĄ fora. Juan fumaria seu cigarro, bancando o durĂŁo, e seu parceiro ficaria ali parado. Eu os observava atravĂ©s das cortinas. Finalmente, depois de um tempo, eles acabavam partindo.
A sra. Fretag era nossa professora de InglĂȘs. No primeiro dia de aula ela perguntou o nome de cada um de nĂłs.
â Quero conhecer cada um de vocĂȘs â ela disse.
Sorriu.
â Bem, cada um de vocĂȘs tem um pai, estou certa. Penso que seria interessante se descobrĂssemos o que eles fazem para viver. Começaremos pelo primeiro da fila e iremos adiante, atĂ© que todos na sala tenham falado. E entĂŁo, Marie, o que seu pai faz da vida?
â Ele Ă© jardineiro.
â Ah, mas que legal! Carteira nĂșmero dois... Andrew, o que seu pai faz?
Foi terrĂvel. Os pais de todos os meus colegas das redondezas tinham perdido seus empregos. Meu pai havia perdido o emprego. O pai de Gene ficava o dia inteiro sentado na varanda. Todos estavam desempregados com exceção do pai de Chuck, que trabalhava num matadouro. Ele dirigia o carro que entregava as carnes, um carro vermelho com o nome do matadouro gravado nos lados.
â Meu pai Ă© bombeiro â disse o nĂșmero dois.
â Ah, isso Ă© interessante â disse a sra. Fretag. â Carteira nĂșmero trĂȘs.
â Meu pai Ă© advogado.
â Carteira quatro.
â Meu pai Ă©... policial...
O que eu iria dizer? Talvez apenas os pais da minha vizinhança estivessem sem emprego. Tinha ouvido falar do crack da bolsa. Significava algo ruim. Talvez o mercado só tivesse entrado em colapso na nossa vizinhança.
â Carteira dezoito.
â Meu pai Ă© ator de cinema...
â Dezenove...
â Meu pai toca violino em concertos...
â Vinte...
â Meu pai trabalha num circo...
â Vinte e um...
â Meu pai Ă© motorista de ĂŽnibus...
â Vinte e dois...
â Meu pai Ă© cantor de Ăłpera...
â Vinte e trĂȘs...
Vinte e trĂȘs. Era eu.
â Meu pai Ă© dentista â eu disse.
A sra Fretag prosseguiu atĂ© que chegou no nĂșmero 33.
â Meu pai nĂŁo tem emprego â disse o nĂșmero 33.
Merda, pensei, queria ter pensado nisso.
Um dia, a sra. Fretag nos passou uma tarefa.
â Nosso ilustrĂssimo senhor presidente, Herbert Hoover, virĂĄ visitar Los Angeles no sĂĄbado e farĂĄ um discurso. Quero que todos vocĂȘs vĂŁo atĂ© lĂĄ ouvir o nosso presidente. E quero que escrevam um ensaio sobre a experiĂȘncia e sobre o que vocĂȘs acharam do discurso do presidente Hoover.
SĂĄbado? NĂŁo havia a mĂnima chance de que eu pudesse ir. Era dia de cortar a grama. Eu tinha que cuidar dos fiapinhos. (Eu nunca conseguia eliminĂĄ-los por completo.) Praticamente todos os sĂĄbados eu apanhava com o amolador de navalha porque meu pai encontrava um fiapo. (TambĂ©m apanhava durante a semana, uma ou duas vezes, por outras coisas que eu deixava de fazer ou nĂŁo fazia corretamente.) NĂŁo tinha como dizer a meu pai que eu iria assistir ao presidente Hoover.
Assim, nĂŁo fui. No dia seguinte, peguei um jornal dominical e me sentei para escrever sobre a aparição do presidente. Seu carro aberto, abrindo caminho entre as bandeiras tremulantes, tinha entrado no estĂĄdio de futebol. Um carro, cheio de agentes do serviço secreto, lhe abria caminho, enquanto outros dois seguiam o carro presidencial de perto. Os agentes eram homens de coragem, armados para proteger nosso presidente. A multidĂŁo se levantou quando o carro presidencial entrou na arena. Nunca acontecera anteriormente nada parecido. Era o presidente. Era ele. Acenou. NĂłs aplaudimos. Uma banda começou a tocar. Gaivotas sobrevoavam em cĂrculos, como se soubessem que se tratava do presidente. E havia ainda aviĂ”es que escreviam mensagens de fumaça no cĂ©u. Escreviam no ar frases como: âA prosperidade estĂĄ logo ali na esquinaâ. O presidente se pĂŽs de pĂ© em seu carro, e, assim que ele fez esse movimento, as nuvens se afastaram e os raios de sol incidiram diretamente em seu rosto. Era quase como se Deus tambĂ©m soubesse quem ele era. EntĂŁo os carros pararam, e nosso grande presidente, rodeado pelos agentes do serviço secreto, caminhou atĂ© o palanque. Ao se posicionar junto ao microfone, um pĂĄssaro desceu do cĂ©u e pousou sobre a bancada em que estava o microfone. O presidente acenou para o pĂĄssaro e riu e todos nĂłs rimos com ele. EntĂŁo ele começou a falar, e as pessoas passaram a ouvi-lo com atenção. Eu quase nĂŁo conseguia ouvir o discurso porque estava sentado muito prĂłximo a uma mĂĄquina de pipocas que fazia muito barulho estourando os grĂŁos, mas creio ter escutado ele falar que os problemas na ManchĂșria nĂŁo eram muito sĂ©rios e que aqui no paĂs as coisas logo entrariam nos eixos, que nĂŁo devĂamos nos preocupar, tudo o que precisĂĄvamos fazer era acreditar na AmĂ©rica. Haveria empregos para todo mundo. Haveria bastantes dentistas e dentes suficientes para arrancar, bastantes incĂȘndios e bombeiros bastantes para apagĂĄ-los. As fĂĄbricas e as indĂșstrias reabririam. Nossos amigos na Ăfrica do Sul pagariam suas dĂvidas. Logo todos dormirĂamos tranquilamente, com os estĂŽmagos cheios e os coraçÔes pacificados. Deus e nosso grande paĂs nos envolveriam em seu amor, nos protegendo do mal, dos socialistas, nos despertando de nosso pesadelo nacional, para sempre...
O presidente ouviu os aplausos, acenou, entĂŁo voltou para o carro, entrou e partiu seguido pelos carros apinhados de agentes do serviço secreto enquanto o sol mergulhava no horizonte e o entardecer se fazia noite, vermelho, dourado e maravilhoso. HavĂamos visto e ouvido o presidente Herbert Hoover.
Entreguei meu ensaio na segunda-feira. Na terça, a sra. Fretag se dirigiu à classe:
â Li os ensaios de todos vocĂȘs sobre a visita do nosso ilustrĂssimo presidente a Los Angeles. Eu estava lĂĄ. Alguns de vocĂȘs, pelo que pude notar, nĂŁo puderam comparecer ao evento por uma ou outra razĂŁo. Para aqueles entre vocĂȘs que nĂŁo puderam estar lĂĄ, gostaria de ler o ensaio escrito por Henry Chinaski.
Um terrĂvel silĂȘncio se abateu sobre a turma. Eu era de longe o aluno mais impopular da classe. Era como se todos eles tivessem levado uma facada no coração.
â Este Ă© um texto muito criativo â disse a sra. Fretag e começou a ler meu ensaio.
As palavras me soavam bem. Todos escutavam. Minhas palavras enchiam a sala, corriam de um lado a outro pelo quadro-negro, ricocheteavam no teto e cobriam os sapatos da sra. Fretag, se amontoando no chão. Algumas das garotas mais lindas da classe começaram a me lançar olhares furtivos. Os caras durÔes estavam putos da cara. Seus ensaios não valiam merda nenhuma. Eu bebia de minhas próprias palavras como se fosse um homem sedento. Comecei, inclusive, a acreditar que elas representassem a verdade. Vi Juan sentado ali como se eu lhe tivesse esmurrado a cara. Estiquei minhas pernas e me recostei na cadeira. Logo, porém, estava tudo terminado.
â Com essa grande redação â disse a sra. Fretag â, encerro a aula...
Todos se levantaram e começaram a guardar seus materiais.
â VocĂȘ nĂŁo, Henry.
Sentei-me na cadeira, e a sra. Fretag ficou ali, me encarando. EntĂŁo disse:
â Henry, vocĂȘ estava lĂĄ?
Tentei encontrar uma resposta. Nada me ocorreu. Eu disse:
â NĂŁo, eu nĂŁo estava lĂĄ.
Ela sorriu.
â Isso faz com que seu ensaio seja ainda mais notĂĄvel.
â Sim, madame...
â VocĂȘ jĂĄ pode ir, Henry.
Levantei-me e deixei a sala. Fui para casa. EntĂŁo era isso que eles queriam: mentiras. Mentiras maravilhosas. Era disso que precisavam. As pessoas eram idiotas. Seria fĂĄcil para mim. Olhei em volta. Juan e seu comparsa nĂŁo estavam me seguindo. As coisas estavam melhorando.
â Misto-quente
O Gênio
este homem de vez em quando se esquece
quem Ă©.
Ă s vezes ele acha que Ă© o
Papa.
outras vezes Ă© um
coelho caçado
e se esconde debaixo da
cama.
entĂŁo
de uma sĂł vez
ele recuperarĂĄ totalmente
a lucidez
e passarĂĄ a compor
obras de
arte.
entĂŁo ficarĂĄ bem
por algum
tempo.
depois, digamos,
estarĂĄ sentado com sua
esposa
e mais 3 ou 4
pessoas
discutindo vĂĄrios
assuntos
ele serĂĄ encantador,
incisivo,
original.
entĂŁo farĂĄ
algo
estranho.
como certa vez
em que se pÎs de pé
abriu a braguilha
e começou
a mijar
no
tapete.
outra vez
comeu um guardanapo de
papel.
e houve
a ocasiĂŁo em que
entrou no
carro
e dirigiu de
ré
todo o caminho
até o
mercado
e voltou
mais uma vez
de ré
os outros motoristas
gritando com
ele
mas
conseguiu
ir e
voltar
sem qualquer
incidente
e sem
ser
parado
por uma patrulha da
polĂcia.
mas fica bem mesmo
como
Papa
e seu
latim
Ă© muito
bom.
suas obras de
arte
nĂŁo sĂŁo lĂĄ
excepcionais
mas elas permitem que
ele
sobreviva
e que viva com
uma série de
esposas de
19 anos
que lhe
cortam os cabelos
as unhas
dĂŁo de beber
servem-no e
o
alimentam.
ele consome todo mundo
exceto
a si
mesmo.
Eram dez e meia da manhĂŁ quando o telefone tocou. Jon Pinchot.
â O filme foi cancelado...
â Jon, eu nĂŁo acredito mais nessas histĂłrias. Ă sĂł o jeito de eles fazerem pressĂŁo.
â NĂŁo, Ă© verdade, o filme foi cancelado.
â Como podem? JĂĄ investiram demais, ficariam com um enorme prejuĂzo no projeto...
â Hank, a Firepower simplesmente nĂŁo tem mais grana. NĂŁo foi sĂł nosso filme que foi cancelado; todos os filmes foram cancelados. Fui ao prĂ©dio deles hoje de manhĂŁ. SĂł tem os guardas de segurança. NĂŁo tem NINGUĂM no prĂ©dio! Eu percorri ele todo, gritando: âOlĂĄ! OlĂĄ! Tem alguĂ©m aĂ?â Sem resposta. Todo o prĂ©dio estĂĄ vazio.
â Mas, Jon, e a clĂĄusula do âFaça ou pagueâ de Jack Bledsoe?
â NĂŁo podem fazer nem pagar. Todo o pessoal da Firepower, incluindo nĂłs, estĂĄ sem salĂĄrio. Alguns deles jĂĄ vĂȘm trabalhando hĂĄ duas semanas sem receber. Agora nĂŁo tem dinheiro pra ninguĂ©m.
â Que Ă© que vocĂȘ vai fazer?
â Eu nĂŁo sei, Hank, isso parece o fim...
â NĂŁo tome nenhuma medida precipitada, Jon. SerĂĄ que outra empresa nĂŁo assume o filme?
â NĂŁo farĂŁo isso. NinguĂ©m gosta do argumento.
â Oh, sim, estĂĄ certo...
â Que Ă© que vocĂȘ vai fazer?
â Eu? Eu vou Ă s corridas. Mas se quiser aparecer para uns tragos esta noite, eu teria prazer em ver vocĂȘ.
â Obrigado, Hank, mas tenho um encontro com um casal de lĂ©sbicas.
â Boa sorte.
â Boa sorte pra vocĂȘ tambĂ©m.
Eu dirigia pela autoestrada do Porto, em direção a Hollywood Park, ao norte. Jogava nos cavalinhos hå mais de trinta anos. Começara após minha quase fatal hemorragia no Hospital Municipal de Los Angeles. Me disseram que se tomasse outro trago estava morto.
â Que Ă© que vou fazer? â eu tinha perguntado a Jane.
â Sobre o quĂȘ?
â Que vou usar em lugar da bebida?
â Bem, tem os cavalos.
â Cavalos? Que Ă© que a gente faz?
â Aposta neles.
â Aposta neles? Parece idiota.
NĂłs fomos e ganhei uma bela soma. Comecei a ir diariamente. Depois, aos poucos, recomecei a beber um pouco. Depois mais. E nĂŁo morri. E aĂ eu tinha a bebida e os cavalos. Um viciado completo. Naquele tempo nĂŁo havia corridas aos domingos, por isso eu ia com o velho carro atĂ© Ăgua Caliente e voltava no domingo, Ă s vezes ficando para as corridas de cachorros depois que as dos cavalos acabavam, e depois atacando os bares de Caliente. Nunca fui assaltado ou agredido, e era atĂ© tratado com bondade pelos garçons e fregueses mexicanos, mesmo sendo Ă s vezes o Ășnico gringo. A volta de carro, tarde da noite, era legal, e quando chegava em casa eu nĂŁo ligava se Jane estava lĂĄ ou nĂŁo. Dissera a ela que o MĂ©xico era perigoso demais para mulheres. Geralmente ela nĂŁo estava em casa quando eu chegava. Estava num lugar muito mais perigoso: a Rua Alvarado. Mas contanto que houvesse trĂȘs ou quatro cervejas Ă minha espera, tudo bem. Se ela tivesse bebido aquelas e deixado a geladeira vazia, entĂŁo, sim, estaria em verdadeiro apuro.
Quanto aos cavalos, eu me tornei um verdadeiro estudioso do jogo. Tinha umas duas dĂșzias de sistemas. SĂł funcionavam se nĂŁo se aplicassem todos ao mesmo tempo, porque se baseavam em fatores variĂĄveis. Meus sistemas tinham sĂł um fator comum: o pĂșblico deve sempre perder. Precisava determinar qual era o jogo do pĂșblico, e tentar o oposto.
Um de meus sistemas baseava-se em nĂșmeros de Ăndices e pĂłs-posiçÔes. HĂĄ certos nĂșmeros que o pĂșblico reluta em pedir. Quando esses nĂșmeros atingem uma certa quantidade de jogo no placar em relação Ă sua posição, a gente tem um vencedor de alta porcentagem. Estudando durante muitos anos os mapas de corridas no CanadĂĄ, nos Estados Unidos e no MĂ©xico, bolei um jogo vencedor baseado apenas nesses indicadores. (O nĂșmero do Ăndice diz a pista e a corrida em que o cavalo apareceu pela Ășltima vez.) O Racing Form publicava grandes e gordos livros vermelhos de resultados, por 10 dĂłlares. Eu os lia e relia durante horas, durante semanas. Todos os resultados tĂȘm um padrĂŁo. Se a gente o descobre, estĂĄ com tudo. E pode mandar o patrĂŁo tomar no cu. Eu mandara vĂĄrios, apenas para ter de encontrar outros. Sobretudo porque alterava ou trapaceava com meus prĂłprios sistemas. A fraqueza da natureza humana Ă© mais uma coisa que a gente precisa derrotar nas corridas.
Entrei em Hollywood Park e fui para a ĂĄrea reservada. Um treinador de cavalos que eu conhecia me dera um adesivo de âProprietĂĄrio/Treinadorâ para o estacionamento, e tambĂ©m um passe para o clube. Era um homem bom, que tinha como melhor caracterĂstica nĂŁo ser escritor nem ator.
Entrei no clube, peguei uma mesa e trabalhei nos meus nĂșmeros. Sempre fazia isso primeiro, depois pagava um pau para ir ao PavilhĂŁo Cary Grant. NĂŁo tinha muita gente por lĂĄ, e a gente podia pensar melhor. Sobre Cary Grant, hĂĄ uma foto gigantesca dele pendurada no PavilhĂŁo, rindo. Usa uns Ăłculos fora de moda e aquele seu sorriso. Frio. Mas que jogador nos cavalinhos. Era um apostador de dois dĂłlares. E quando perdia corria para a pista gritando, acenando os braços e berrando: âVOCĂS NĂO PODEM FAZER ISSO COMIGO!â. Se a gente vai apostar apenas dois dĂłlares, Ă© melhor ficar em casa, pegar o dinheiro e passĂĄ-lo de um bolso para outro.
Por outro lado, minha maior aposta foi uma vitĂłria de 20 dĂłlares. Ambição em excesso pode criar erros, porque as apostas muito pesadas afetam os processos de pensamento. Mais duas coisas. Nunca aposte no cavalo com a maior cotação resultante de sua Ășltima corrida, e nunca aposte num grande fechador.
Meu passeio atĂ© ali foi muito agradĂĄvel, mas como sempre eu me ressentia da espera de 30 minutos entre as corridas. Era demorada demais. A gente sente a vida sendo reduzida Ă polpa pela inĂștil perda de tempo. Quer dizer, a gente fica ali sentado na cadeira ouvindo vozes que discutem quem vai ganhar e por quĂȘ. Ă realmente nauseante. Ăs vezes a gente pensa que estĂĄ num asilo de loucos. E de certa forma estĂĄ. Cada um daqueles babacas acha que sabe mais que os outros, e lĂĄ estĂŁo todos juntos num mesmo lugar. E lĂĄ estava eu, sentado no meio deles.
Eu gostava era da ação real, aquele momento em que todos os nossos cålculos saem corretos do alto-falante e a vida tem algum sentido, algum ritmo e significado. Mas a espera entre as corridas era um verdadeiro horror: ali sentado com uma humanidade murmurante, tateante, que jamais iria aprender ou melhorar, só piorar com o tempo. Sempre ameacei minha boa esposa Sarah de ficar em casa durante os dias e escrever dezenas e dezenas de poemas imortais.
Assim, consegui atravessar a tarde ali e voltei para casa, ganhador de pouco mais de 100 dĂłlares. Voltei de carro com a multidĂŁo trabalhadora. Que bando formavam. Putos da vida, maus e quebrados. Com pressa de chegar em casa pra trepar, se possĂvel, pra ver TV, pra ir dormir cedo a fim de fazer novamente a mesma coisa no dia seguinte.
Entrei na estradinha de acesso à casa, e Sarah lå estava, regando o jardim. Era uma grande jardineira. E aguentava minhas insanidades. Dava-me comida saudåvel, me cortava os cabelos e as unhas dos pés, e geralmente me mantinha em marcha de vårias formas.
Estacionei o carro e fui ao jardim, dei-lhe um beijo de saudação.
â Ganhou? â ela perguntou.
â Ă. Claro. Um pouco.
â NinguĂ©m ligou â ela disse.
â Isso Ă© mau, isso tudo... â eu disse. â VocĂȘ sabe, depois de Jon ameaçar cortar o dedo e tudo mais. Sinto muito mesmo por ele.
â Talvez devesse ter convidado ele esta noite.
â Eu convidei, mas ele tinha compromisso.
â S&M?
â NĂŁo sei. Um casal de lĂ©sbicas. Uma espĂ©cie de desafogo pra ele.
â Viu as rosas?
â Vi, estĂŁo sensacionais. Aquelas vermelhas, brancas e amarelas. Amarelo Ă© minha cor preferida. Me dĂĄ vontade de comer.
Sarah encaminhou-se com a mangueira até a pia, fechou a ågua, e entramos em casa juntos. A vida não era muito ruim, às vezes.
â Hollywood
quem Ă©.
Ă s vezes ele acha que Ă© o
Papa.
outras vezes Ă© um
coelho caçado
e se esconde debaixo da
cama.
entĂŁo
de uma sĂł vez
ele recuperarĂĄ totalmente
a lucidez
e passarĂĄ a compor
obras de
arte.
entĂŁo ficarĂĄ bem
por algum
tempo.
depois, digamos,
estarĂĄ sentado com sua
esposa
e mais 3 ou 4
pessoas
discutindo vĂĄrios
assuntos
ele serĂĄ encantador,
incisivo,
original.
entĂŁo farĂĄ
algo
estranho.
como certa vez
em que se pÎs de pé
abriu a braguilha
e começou
a mijar
no
tapete.
outra vez
comeu um guardanapo de
papel.
e houve
a ocasiĂŁo em que
entrou no
carro
e dirigiu de
ré
todo o caminho
até o
mercado
e voltou
mais uma vez
de ré
os outros motoristas
gritando com
ele
mas
conseguiu
ir e
voltar
sem qualquer
incidente
e sem
ser
parado
por uma patrulha da
polĂcia.
mas fica bem mesmo
como
Papa
e seu
latim
Ă© muito
bom.
suas obras de
arte
nĂŁo sĂŁo lĂĄ
excepcionais
mas elas permitem que
ele
sobreviva
e que viva com
uma série de
esposas de
19 anos
que lhe
cortam os cabelos
as unhas
dĂŁo de beber
servem-no e
o
alimentam.
ele consome todo mundo
exceto
a si
mesmo.
Eram dez e meia da manhĂŁ quando o telefone tocou. Jon Pinchot.
â O filme foi cancelado...
â Jon, eu nĂŁo acredito mais nessas histĂłrias. Ă sĂł o jeito de eles fazerem pressĂŁo.
â NĂŁo, Ă© verdade, o filme foi cancelado.
â Como podem? JĂĄ investiram demais, ficariam com um enorme prejuĂzo no projeto...
â Hank, a Firepower simplesmente nĂŁo tem mais grana. NĂŁo foi sĂł nosso filme que foi cancelado; todos os filmes foram cancelados. Fui ao prĂ©dio deles hoje de manhĂŁ. SĂł tem os guardas de segurança. NĂŁo tem NINGUĂM no prĂ©dio! Eu percorri ele todo, gritando: âOlĂĄ! OlĂĄ! Tem alguĂ©m aĂ?â Sem resposta. Todo o prĂ©dio estĂĄ vazio.
â Mas, Jon, e a clĂĄusula do âFaça ou pagueâ de Jack Bledsoe?
â NĂŁo podem fazer nem pagar. Todo o pessoal da Firepower, incluindo nĂłs, estĂĄ sem salĂĄrio. Alguns deles jĂĄ vĂȘm trabalhando hĂĄ duas semanas sem receber. Agora nĂŁo tem dinheiro pra ninguĂ©m.
â Que Ă© que vocĂȘ vai fazer?
â Eu nĂŁo sei, Hank, isso parece o fim...
â NĂŁo tome nenhuma medida precipitada, Jon. SerĂĄ que outra empresa nĂŁo assume o filme?
â NĂŁo farĂŁo isso. NinguĂ©m gosta do argumento.
â Oh, sim, estĂĄ certo...
â Que Ă© que vocĂȘ vai fazer?
â Eu? Eu vou Ă s corridas. Mas se quiser aparecer para uns tragos esta noite, eu teria prazer em ver vocĂȘ.
â Obrigado, Hank, mas tenho um encontro com um casal de lĂ©sbicas.
â Boa sorte.
â Boa sorte pra vocĂȘ tambĂ©m.
Eu dirigia pela autoestrada do Porto, em direção a Hollywood Park, ao norte. Jogava nos cavalinhos hå mais de trinta anos. Começara após minha quase fatal hemorragia no Hospital Municipal de Los Angeles. Me disseram que se tomasse outro trago estava morto.
â Que Ă© que vou fazer? â eu tinha perguntado a Jane.
â Sobre o quĂȘ?
â Que vou usar em lugar da bebida?
â Bem, tem os cavalos.
â Cavalos? Que Ă© que a gente faz?
â Aposta neles.
â Aposta neles? Parece idiota.
NĂłs fomos e ganhei uma bela soma. Comecei a ir diariamente. Depois, aos poucos, recomecei a beber um pouco. Depois mais. E nĂŁo morri. E aĂ eu tinha a bebida e os cavalos. Um viciado completo. Naquele tempo nĂŁo havia corridas aos domingos, por isso eu ia com o velho carro atĂ© Ăgua Caliente e voltava no domingo, Ă s vezes ficando para as corridas de cachorros depois que as dos cavalos acabavam, e depois atacando os bares de Caliente. Nunca fui assaltado ou agredido, e era atĂ© tratado com bondade pelos garçons e fregueses mexicanos, mesmo sendo Ă s vezes o Ășnico gringo. A volta de carro, tarde da noite, era legal, e quando chegava em casa eu nĂŁo ligava se Jane estava lĂĄ ou nĂŁo. Dissera a ela que o MĂ©xico era perigoso demais para mulheres. Geralmente ela nĂŁo estava em casa quando eu chegava. Estava num lugar muito mais perigoso: a Rua Alvarado. Mas contanto que houvesse trĂȘs ou quatro cervejas Ă minha espera, tudo bem. Se ela tivesse bebido aquelas e deixado a geladeira vazia, entĂŁo, sim, estaria em verdadeiro apuro.
Quanto aos cavalos, eu me tornei um verdadeiro estudioso do jogo. Tinha umas duas dĂșzias de sistemas. SĂł funcionavam se nĂŁo se aplicassem todos ao mesmo tempo, porque se baseavam em fatores variĂĄveis. Meus sistemas tinham sĂł um fator comum: o pĂșblico deve sempre perder. Precisava determinar qual era o jogo do pĂșblico, e tentar o oposto.
Um de meus sistemas baseava-se em nĂșmeros de Ăndices e pĂłs-posiçÔes. HĂĄ certos nĂșmeros que o pĂșblico reluta em pedir. Quando esses nĂșmeros atingem uma certa quantidade de jogo no placar em relação Ă sua posição, a gente tem um vencedor de alta porcentagem. Estudando durante muitos anos os mapas de corridas no CanadĂĄ, nos Estados Unidos e no MĂ©xico, bolei um jogo vencedor baseado apenas nesses indicadores. (O nĂșmero do Ăndice diz a pista e a corrida em que o cavalo apareceu pela Ășltima vez.) O Racing Form publicava grandes e gordos livros vermelhos de resultados, por 10 dĂłlares. Eu os lia e relia durante horas, durante semanas. Todos os resultados tĂȘm um padrĂŁo. Se a gente o descobre, estĂĄ com tudo. E pode mandar o patrĂŁo tomar no cu. Eu mandara vĂĄrios, apenas para ter de encontrar outros. Sobretudo porque alterava ou trapaceava com meus prĂłprios sistemas. A fraqueza da natureza humana Ă© mais uma coisa que a gente precisa derrotar nas corridas.
Entrei em Hollywood Park e fui para a ĂĄrea reservada. Um treinador de cavalos que eu conhecia me dera um adesivo de âProprietĂĄrio/Treinadorâ para o estacionamento, e tambĂ©m um passe para o clube. Era um homem bom, que tinha como melhor caracterĂstica nĂŁo ser escritor nem ator.
Entrei no clube, peguei uma mesa e trabalhei nos meus nĂșmeros. Sempre fazia isso primeiro, depois pagava um pau para ir ao PavilhĂŁo Cary Grant. NĂŁo tinha muita gente por lĂĄ, e a gente podia pensar melhor. Sobre Cary Grant, hĂĄ uma foto gigantesca dele pendurada no PavilhĂŁo, rindo. Usa uns Ăłculos fora de moda e aquele seu sorriso. Frio. Mas que jogador nos cavalinhos. Era um apostador de dois dĂłlares. E quando perdia corria para a pista gritando, acenando os braços e berrando: âVOCĂS NĂO PODEM FAZER ISSO COMIGO!â. Se a gente vai apostar apenas dois dĂłlares, Ă© melhor ficar em casa, pegar o dinheiro e passĂĄ-lo de um bolso para outro.
Por outro lado, minha maior aposta foi uma vitĂłria de 20 dĂłlares. Ambição em excesso pode criar erros, porque as apostas muito pesadas afetam os processos de pensamento. Mais duas coisas. Nunca aposte no cavalo com a maior cotação resultante de sua Ășltima corrida, e nunca aposte num grande fechador.
Meu passeio atĂ© ali foi muito agradĂĄvel, mas como sempre eu me ressentia da espera de 30 minutos entre as corridas. Era demorada demais. A gente sente a vida sendo reduzida Ă polpa pela inĂștil perda de tempo. Quer dizer, a gente fica ali sentado na cadeira ouvindo vozes que discutem quem vai ganhar e por quĂȘ. Ă realmente nauseante. Ăs vezes a gente pensa que estĂĄ num asilo de loucos. E de certa forma estĂĄ. Cada um daqueles babacas acha que sabe mais que os outros, e lĂĄ estĂŁo todos juntos num mesmo lugar. E lĂĄ estava eu, sentado no meio deles.
Eu gostava era da ação real, aquele momento em que todos os nossos cålculos saem corretos do alto-falante e a vida tem algum sentido, algum ritmo e significado. Mas a espera entre as corridas era um verdadeiro horror: ali sentado com uma humanidade murmurante, tateante, que jamais iria aprender ou melhorar, só piorar com o tempo. Sempre ameacei minha boa esposa Sarah de ficar em casa durante os dias e escrever dezenas e dezenas de poemas imortais.
Assim, consegui atravessar a tarde ali e voltei para casa, ganhador de pouco mais de 100 dĂłlares. Voltei de carro com a multidĂŁo trabalhadora. Que bando formavam. Putos da vida, maus e quebrados. Com pressa de chegar em casa pra trepar, se possĂvel, pra ver TV, pra ir dormir cedo a fim de fazer novamente a mesma coisa no dia seguinte.
Entrei na estradinha de acesso à casa, e Sarah lå estava, regando o jardim. Era uma grande jardineira. E aguentava minhas insanidades. Dava-me comida saudåvel, me cortava os cabelos e as unhas dos pés, e geralmente me mantinha em marcha de vårias formas.
Estacionei o carro e fui ao jardim, dei-lhe um beijo de saudação.
â Ganhou? â ela perguntou.
â Ă. Claro. Um pouco.
â NinguĂ©m ligou â ela disse.
â Isso Ă© mau, isso tudo... â eu disse. â VocĂȘ sabe, depois de Jon ameaçar cortar o dedo e tudo mais. Sinto muito mesmo por ele.
â Talvez devesse ter convidado ele esta noite.
â Eu convidei, mas ele tinha compromisso.
â S&M?
â NĂŁo sei. Um casal de lĂ©sbicas. Uma espĂ©cie de desafogo pra ele.
â Viu as rosas?
â Vi, estĂŁo sensacionais. Aquelas vermelhas, brancas e amarelas. Amarelo Ă© minha cor preferida. Me dĂĄ vontade de comer.
Sarah encaminhou-se com a mangueira até a pia, fechou a ågua, e entramos em casa juntos. A vida não era muito ruim, às vezes.
â Hollywood
O Gênio da Multidão
HĂĄ suficiente violĂȘncia, traição,
Ăłdio
Absurdo no ser humano
comum
Para abastecer qualquer exército a qualquer
dia.
E Os Melhores Assassinos SĂŁo Aqueles
Que Pregam Contra Ele.
E Os Que Melhor Odeiam SĂŁo Aqueles
Que Pregam o AMOR
E OS MELHORES NA GUERRA
â POR FIM â SĂO AQUELES QUE
PREGAM
A PAZ
Aqueles Que Pregam DEUS
PRECISAM de Deus
Aqueles que Pregam A PAZ
NĂŁo TĂȘm Paz.
AQUELES QUE PREGAM O AMOR
NĂO TĂM AMOR
CUIDADO COM OS PREGADORES
Cuidado com Os Conhecedores.
Cuidado
Com Aqueles
que SEMPRE
ESTĂO LENDO
LIVROS
Cuidado com Aqueles Que Detestam a
Pobreza Ou EstĂŁo Orgulhosos Dela
CUIDADO Com Aqueles RĂĄpidos na Prece
Porque Eles Precisam de PRECES em Troca
CUIDADO Com Aqueles RĂĄpidos em Censurar:
Eles TĂȘm Medo Daquilo Que
NĂŁo Conhecem
Cuidado Com Aqueles Que Buscam MultidÔes
Constantes; Eles NĂŁo SĂŁo Nada
Sozinhos
Cuidado Com
O Homem Comum
A Mulher Comum
CUIDADO Com o Amor Deles
O Amor Deles Ă Comum, Busca o
Comum
Mas HĂĄ GĂȘnio No Modo Como Odeiam
HĂĄ GĂȘnio Suficiente No Ădio
Deles Para MatĂĄ-Lo, Para Matar
Qualquer Um.
Por NĂŁo Desejarem a SolidĂŁo
Por NĂŁo Entenderem a SolidĂŁo
TentarĂŁo Destruir
Tudo
Que Seja Diferente
Deles Mesmos
Por Serem Incapazes
De Criar Arte
Eles NĂŁo
EntenderĂŁo a Arte
ConsiderarĂŁo o Fracasso
Como Criadores
Somente Como Uma Falha
Do Mundo
Por Serem Incapazes De Amar Por Completo
ACREDITARĂO Que Seu Amor Ă
Incompleto
E ASSIM ELES ODIARĂO
VOCĂ
E o Ădio Deles SerĂĄ Perfeito
Como Um Diamante Que Cintila
Como Uma Faca
Como Uma Montanha
COMO UM TIGRE
COMO Cicuta
A ARTE Que Lhes Ă
Mais Fina
Ăłdio
Absurdo no ser humano
comum
Para abastecer qualquer exército a qualquer
dia.
E Os Melhores Assassinos SĂŁo Aqueles
Que Pregam Contra Ele.
E Os Que Melhor Odeiam SĂŁo Aqueles
Que Pregam o AMOR
E OS MELHORES NA GUERRA
â POR FIM â SĂO AQUELES QUE
PREGAM
A PAZ
Aqueles Que Pregam DEUS
PRECISAM de Deus
Aqueles que Pregam A PAZ
NĂŁo TĂȘm Paz.
AQUELES QUE PREGAM O AMOR
NĂO TĂM AMOR
CUIDADO COM OS PREGADORES
Cuidado com Os Conhecedores.
Cuidado
Com Aqueles
que SEMPRE
ESTĂO LENDO
LIVROS
Cuidado com Aqueles Que Detestam a
Pobreza Ou EstĂŁo Orgulhosos Dela
CUIDADO Com Aqueles RĂĄpidos na Prece
Porque Eles Precisam de PRECES em Troca
CUIDADO Com Aqueles RĂĄpidos em Censurar:
Eles TĂȘm Medo Daquilo Que
NĂŁo Conhecem
Cuidado Com Aqueles Que Buscam MultidÔes
Constantes; Eles NĂŁo SĂŁo Nada
Sozinhos
Cuidado Com
O Homem Comum
A Mulher Comum
CUIDADO Com o Amor Deles
O Amor Deles Ă Comum, Busca o
Comum
Mas HĂĄ GĂȘnio No Modo Como Odeiam
HĂĄ GĂȘnio Suficiente No Ădio
Deles Para MatĂĄ-Lo, Para Matar
Qualquer Um.
Por NĂŁo Desejarem a SolidĂŁo
Por NĂŁo Entenderem a SolidĂŁo
TentarĂŁo Destruir
Tudo
Que Seja Diferente
Deles Mesmos
Por Serem Incapazes
De Criar Arte
Eles NĂŁo
EntenderĂŁo a Arte
ConsiderarĂŁo o Fracasso
Como Criadores
Somente Como Uma Falha
Do Mundo
Por Serem Incapazes De Amar Por Completo
ACREDITARĂO Que Seu Amor Ă
Incompleto
E ASSIM ELES ODIARĂO
VOCĂ
E o Ădio Deles SerĂĄ Perfeito
Como Um Diamante Que Cintila
Como Uma Faca
Como Uma Montanha
COMO UM TIGRE
COMO Cicuta
A ARTE Que Lhes Ă
Mais Fina
O Incêndio do Sonho
A velha Biblioteca PĂșblica de L.A. pegou
fogo
aquela biblioteca do centro
e com ela se foi
uma grande parte da minha
juventude.
eu estava sentado num daqueles bancos de
pedra com meu amigo
Carequinha quando ele
perguntou,
âvocĂȘ vai se alistar na
brigada
Abraham Lincoln?â
âclaroâ, eu lhe
disse.
mas percebendo que eu nĂŁo era nem
um intelectual nem um polĂtico
idealista
recuei na questĂŁo
mais
tarde.
eu era um leitor
entĂŁo
indo de seção em
seção: literatura, filosofia,
religião, até medicina
e geologia.
desde cedo
decidi ser um escritor
pensei que esse seria o caminho mais fĂĄcil
para
escapar
e os grandes figurÔes do romance não me pareciam
pĂĄreo muito
duro.
eu tinha maiores dificuldades com
Hegel e Kant.
o que me incomodava
em
todos eles
Ă© que levavam um tempo enorme
para finalmente dizer
alguma coisa viva e/
ou
interessante.
pensava entĂŁo ter algo a dizer
mais do que todos
eles.
eu estava para descobrir duas
coisas:
a) a maioria dos editores pensava que tudo que fosse
chato tinha algo a ver com assuntos
profundos.
b) que levaria décadas de
vida e escrita
antes que eu fosse capaz de
colocar no papel
uma frase que estivesse
ao menos prĂłxima
daquilo que eu realmente queria
dizer.
nesse meio-tempo
enquanto outros jovens corriam atrĂĄs de
mulheres
eu corria atrĂĄs dos velhos
livros.
eu era um bibliĂłfilo, quem sabe um
sujeito
desencantado
e isto
e o mundo
me moldaram.
eu vivia numa cabana de madeira
atrĂĄs de uma pensĂŁo
a trĂȘs dĂłlares por
semana
sentindo-me como um
Chatterton
enfiado dentro de algo do
Thomas
Wolfe.
meus maiores problemas eram
selos, envelopes, papéis
e
vinho,
com o mundo no auge
da Segunda Guerra Mundial.
eu ainda nĂŁo tinha sido
desconcertado pelas
mulheres, eu era virgem
e escrevia de 3 a
5 contos por semana
e todos retornavam
rejeitados
por The New Yorker, Harperâs,
The Atlantic Monthly.
eu tinha lido em algum lugar que
Ford Madox Ford costumava usar
como papel higiĂȘnico os pareceres
dos trabalhos rejeitados
mas eu nĂŁo tinha
um banheiro de modo que os enfiava
numa gaveta
e quando não havia mais espaço
e eu mal conseguia
abri-la
eu retirava todos os pareceres
e os jogava fora
junto com os
contos.
enquanto isso
a velha Biblioteca PĂșblica de L.A. seguia sendo
minha casa
e a casa de muitos outros
vagabundos.
discretamente usĂĄvamos os
banheiros
e os Ășnicos entre nĂłs que deveriam
ser
evitados eram aqueles que
pegavam no sono nas mesas da
biblioteca â
ninguém ronca como um
vagabundo
exceto alguĂ©m com quem vocĂȘ Ă©
casado.
bem, eu nĂŁo era propriamente um
vagabundo. eu tinha um cartĂŁo da biblioteca
e eu ia e voltava com os livros
uma
enorme
quantidade deles
sempre levando o limite
mĂĄximo
permitido:
Aldous Huxley, D. H. Lawrence,
e. e. cummings, Conrad Aiken, Fiodor
Dos, Dos Passos, TurguĂȘniev, GĂłrky,
H. D., Freddie Nietzsche,
Schopenhauer,
Steinbeck,
Hemingway,
e assim por
diante...
sempre esperava que a bibliotecĂĄria
dissesse: âvocĂȘ tem um gosto e tanto, meu
jovem...â
mas a puta velha e acabada
nĂŁo sabia nem quem ela
era
que dirĂĄ de
mim.
mas aquelas estantes eram
tremendamente encantadoras: permitiam-me
descobrir
os primeiros poetas chineses
como Tu Fu e Li
Po
que podiam dizer mais em uma
linha do que a maioria em
trinta ou
cem.
Sherwood Anderson deve
tĂȘ-los
lido
também.
eu também levava os Cantos
pra lĂĄ e pra cĂĄ
e Ezra me ajudou
a fortalecer meus braços se não
meu cérebro.
aquele lugar fantĂĄstico
a Biblioteca PĂșblica de L.A.
era um lar para uma pessoa que tinha tido
um
lar dos
infernos
CĂRREGOS AMPLOS DEMAIS PARA SALTAR
LONGE DA MULTIDĂO ESTULTA
CONTRAPONTO
O CORAĂĂO Ă UM CAĂADOR SOLITĂRIO
James Thurber
John Fante
Rabelais
Maupassant
alguns nĂŁo funcionavam para
mim: Shakespeare, G. B. Shaw,
TolstĂłi, Robert Frost, F. Scott
Fitzgerald
Upton Sinclair funcionava melhor para
mim
que Sinclair Lewis
e eu considerava GĂłgol e
Dreiser completos
idiotas
mas tais juĂzos eram produto
mais da maneira
como um homem era forçado a viver do que de
sua razĂŁo.
a velha Biblioteca PĂșblica
muito provavelmente evitou que eu me
tornasse um
suicida
um ladrĂŁo
de bancos
um
espancador
de mulheres
um carniceiro ou um
policial motorizado
e ainda que algumas dessas possibilidades
nĂŁo sejam mĂĄs
Ă©
graças
Ă minha sorte
e a meu destino
que aquela biblioteca estava
lĂĄ quando eu era
jovem e procurava me
agarrar a
alguma coisa
quando parecia nĂŁo haver quase
nada ao meu
redor.
e quando eu abri o
jornal
e soube do incĂȘndio
que havia
destruĂdo a
biblioteca e boa parte de
seu interior
eu disse Ă minha
esposa: âeu costumava passar
meu tempo
lĂĄ...â
O OFICIAL PRUSSIANO
O JOVEM AUDAZ NO TRAPĂZIO VOADOR
TER E NĂO TER
VOCĂ NĂO PODE VOLTAR PARA CASA.
Realizei vĂĄrias incursĂ”es educativas pelos cortiços da cidade a fim de me preparar para o meu futuro. NĂŁo gostei nada do que vi por lĂĄ. Aqueles homens e aquelas mulheres nĂŁo tinham qualquer tipo especial de ousadia ou brilho. Queriam apenas o que todo o resto do mundo queria. Havia tambĂ©m alguns desequilibrados mentais clĂĄssicos que podiam andar com tranquilidade naquelas redondezas. Eu tinha notado que em ambos os extremos da sociedade, tanto entre os ricos quanto entre os pobres, frequentemente se permitia que os loucos se misturassem livremente entre as pessoas. Eu sabia que nĂŁo era inteiramente sĂŁo. TambĂ©m sabia, uma percepção que eu tinha desde a infĂąncia, que havia algo de estranho em mim. Era como se meu destino fosse ser um assassino, um ladrĂŁo de banco, um santo, um estuprador, um monge, um ermitĂŁo. Precisava de um lugar isolado para me esconder. Os cortiços eram lugares nojentos. A vida das pessoas sĂŁs, dos homens comuns, era uma estupidez pior do que a morte. Parecia nĂŁo haver alternativa possĂvel. A educação tambĂ©m parecia uma armadilha. A pouca educação que eu tinha me permitido havia me tornado ainda mais desconfiado. O que eram mĂ©dicos, advogados, cientistas? Apenas homens que tinham permitido que sua liberdade de pensamento e a capacidade de agir como indivĂduos lhes fossem retiradas. Voltei para meu barracĂŁo e enchi a cara...
Sentado ali, bebendo, considerei a opção do suicĂdio, mas me senti estranhamente apaixonado pelo meu corpo, pela minha vida. Apesar das cicatrizes que marcavam meu corpo e minha existĂȘncia, ambos eram propriedades minhas. Eu podia me levantar agora e sorrir com escĂĄrnio para meu reflexo no espelho da cĂŽmoda: se vocĂȘ tem que ir, que leve ao menos uns oito junto, uns dez, uns vinte...
Era uma noite de dezembro, um sĂĄbado. Estava no meu quarto e tinha bebido muito mais que o de costume, acendendo um cigarro no outro, pensando nas garotas e na cidade e nos empregos e nos anos que ainda viriam. Olhando para o devir, eu gostava muito pouco do que via. Eu nĂŁo era um misantropo ou um misĂłgino, mas gostava de estar sozinho. Era bom estar solitĂĄrio num lugarzinho, sentado, fumando e bebendo. Sempre tinha sido uma boa companhia para mim mesmo.
Então escutei o som do rådio que vazava do quarto ao lado. O cara tinha posto o volume muito alto. Era uma canção de amor de embrulhar o estÎmago.
â Ei, camarada! â gritei. â Abaixa essa coisa!
NĂŁo houve resposta.
Fui até a parede e bati com força
â EU DISSE PARA ABAIXAR ESSA MĂSICA DE MERDA!
O volume continuou o mesmo.
Saà e fui até a porta vizinha. Eu estava só de cueca. Ergui minha perna e meti o pé na porta. Ela se escancarou. Havia duas pessoas na cama, um velho gordo e uma velha gorda. Eles estavam trepando. Havia uma pequena vela acesa. O velho estava por cima. Parou, voltou sua cabeça e me olhou. A velha também me deu uma olhada por sobre o ombro dele. O lugar era muito bem arrumado, com cortinas e um pequeno tapete.
â Oh, me desculpem...
Fechei a porta e voltei para o meu quarto. Senti-me péssimo. Os pobres tinham o direito de foder como quisessem para vencer seus pesadelos. Sexo e bebida, e talvez amor, era tudo o que eles tinham.
Sentei-me novamente e servi um copo de vinho. Deixei a minha porta aberta. A luz do luar entrou trazendo consigo os sons da cidade: vitrolas, automĂłveis, palavrĂ”es, latidos, rĂĄdios... EstĂĄvamos todos juntos nisso. Todos juntos num grande vaso cheio de merda. NĂŁo havia escapatĂłria. Todos descerĂamos juntos com a descarga.
Um gatinho que passava do lado de fora parou na frente da minha porta e olhou para dentro. Os olhos brilhavam sob a luz da lua: olhos de um vermelho vivo como fogo. Que olhos maravilhosos.
â Venha, gatinho...
Estiquei minha mĂŁo como se houvesse comida dentro dela.
â Gatinho, gatinho...
O gato seguiu adiante.
Ouvi o rådio na peça ao lado ser desligado.
Terminei meu vinho e fui atĂ© ali fora. Continuava sĂł de cueca. Puxei e ajeitei minhas partes. Fiquei parado na frente da outra porta. Eu havia destruĂdo o trinco. Podia ver a luz da vela lĂĄ dentro. Eles mantinham a porta fechada pela ação de algum mĂłvel, provavelmente uma cadeira.
Bati discretamente.
NĂŁo houve resposta.
Bati outra vez.
Ouvi alguma coisa. EntĂŁo a porta se abriu.
O velho gordo ficou ali plantado. Seu rosto era todo sulcado, transmitindo uma ideia de profunda amargura. Era todo sobrancelhas e bigode e dois olhos tristonhos.
â Ouça â eu disse â, sinto profundamente o que fiz. VocĂȘ e sua garota nĂŁo querem dar uma chegada no meu quarto para tomarmos alguma coisa?
â NĂŁo.
â Ou quem sabe eu possa trazer algo para vocĂȘs beberem?
â NĂŁo â ele disse â, apenas nos deixe em paz.
Ele fechou a porta.
Acordei com uma das minhas piores ressacas. Normalmente dormia até o meio-dia. Naquele dia não consegui. Pus uma roupa, fui até o banheiro na casa principal e fiz minha higiene. Voltei, saà pela ruela e tomei a escadaria, desci o barranco e segui pela rua de baixo.
Domingo, o pior, o mais desgraçado entre todos os dias da semana.
Caminhei pela rua Principal, passei pelos bares. As acompanhantes se sentavam perto da entrada, as saias bem erguidas, balançando as pernas, usando saltos altos.
â Ei, doçura, venha aqui!
Main Street, East 5th Street, Bunker Hill. Os cus da América.
NĂŁo havia lugar para ir. Entrei num fliperama. Andei entre as mĂĄquinas, olhando para os jogos, mas sem desejo algum de jogar. EntĂŁo vi um marinheiro numa mĂĄquina de pinball. Suas duas mĂŁos apertavam as laterais da mĂĄquina, enquanto ele tentava guiar a bolinha como se estivesse usando o prĂłprio corpo para fazĂȘ-lo. Caminhei atĂ© ele e o agarrei pela parte de trĂĄs do colarinho e pelo cinto.
â Becker, eu exijo uma maldita duma revanche!
Soltei-o e ele se virou.
â NĂŁo, estĂĄ fora de questĂŁo â ele disse.
â Uma melhor de trĂȘs.
â Caralho â ele disse â, deixa eu te pagar uma bebida.
SaĂmos do fliperama e descemos a Main Street. Uma acompanhante gritou de um dos bares:
â Ei, marinheiro, venha cĂĄ!
Becker parou.
â Vou entrar â ele disse.
â NĂŁo faça isso â eu disse â, elas sĂŁo baratas humanas.
â Acabei de receber.
â As garotas bebem chĂĄ, e eles pĂ”em ĂĄgua na sua bebida. Cada dose Ă© o dobro do preço, e depois a garota desaparece.
â Estou entrando.
Becker entrou. Um dos melhores escritores inéditos da América, vestido para matar e morrer. Segui-o. Ele foi até uma das garotas e falou com ela. Ela puxou a saia mais para cima, girou em seus saltos altos e sorriu. Foram para um reservado no fundo. O atendente foi até lå pegar o pedido deles. A outra garota junto ao bar me olhou.
â Ei, doçura, quer brincar um pouquinho?
â Claro, desde que a gente brinque do meu jeito.
â Tem medo ou Ă© veado?
â Os dois â eu disse, sentando no canto mais afastado do bar.
Havia um cara entre nĂłs, a cabeça apoiada no balcĂŁo. Sua carteira jĂĄ era. Quando ele acordasse e começasse a reclamar, das duas uma: ou seria jogado no meio da rua pelo atendente, ou seria entregue nas mĂŁos da polĂcia.
Depois de servir Becker e a acompanhante, o atendente voltou para trås do balcão e caminhou em minha direção.
â Sim?
â Nada.
â Ă? EntĂŁo o que cĂȘ tĂĄ fazendo aqui?
â Esperando por um amigo â gesticulei com a cabeça na direção do reservado.
â O negĂłcio aqui Ă© sentou pediu.
â Beleza. Uma ĂĄgua.
O atendente se afastou, voltou, deixou o copo dâĂĄgua.
â Vinte e cinco centavos.
Paguei-o.
A garota junto ao bar disse ao atendente:
â Ele Ă© veado ou medroso.
O atendente nĂŁo disse nada. EntĂŁo Becker lhe fez um sinal e ele foi lĂĄ pegar o pedido.
A garota olhou para mim.
â Como vocĂȘ nĂŁo tĂĄ de uniforme?
â NĂŁo gosto de me vestir como todo mundo.
â NĂŁo existem outras razĂ”es?
â As outras razĂ”es sĂł dizem respeito a mim.
â EntĂŁo vĂĄ se foder â ela disse.
O atendente voltou.
â VocĂȘ precisa de outro copo.
â TĂĄ â eu disse, mandando outro quarto de dĂłlar na sua direção.
Do lado de fora, Becker e eu seguimos pela Main Street.
â Como foi? â perguntei.
â Cobraram pelo uso da mesa, alĂ©m dos dois drinques. Chegou a 32 pratas.
â Cristo. Eu podia ficar bĂȘbado por duas semanas com essa grana.
â Ela agarrou meu pau debaixo da mesa, ficou tocando uma.
â O que ela disse?
â Nada. Apenas tocou uma punheta pra mim.
â Prefiro eu mesmo me bater uma punheta e ficar com os 32 contos.
â Mas ela era tĂŁo linda.
â Maldição, homem. Estou andando ao lado de um perfeito idiota.
â Algum dia vou escrever sobre essas coisas. Estarei nas prateleiras das bibliotecas: BECKER. Os âBsâ sĂŁo muito fracos, precisam de ajuda.
â VocĂȘ fala demais sobre escrever â eu disse.
Encontramos um outro bar perto do terminal de ĂŽnibus. NĂŁo era uma espelunca movimentada. Havia apenas o dono do bar e cinco ou seis viajantes, todos homens. Becker e eu nos sentamos.
â Ă por minha conta â disse Becker.
â Uma Eastside na garrafa.
Becker pediu duas. Olhou para mim.
â Vamos lĂĄ, seja homem, aliste-se. Seja um marinheiro.
â NĂŁo fico nem um pouco empolgado com essa coisa de ser machĂŁo.
â Nem parece o mesmo sujeito que estĂĄ sempre trocando uns sopapos com alguĂ©m.
â Faço isso por puro entretenimento.
â Aliste-se. Isso vai lhe dar algo sobre o que escrever.
â Becker, sempre hĂĄ algo sobre o que escrever.
â E o que vocĂȘ vai fazer, entĂŁo?
Apontei para minha garrafa e a ergui.
â Como vai conseguir sobreviver? â Becker perguntou.
â Tenho a impressĂŁo de ter ouvido essa pergunta ao longo de toda minha vida.
â Bem, nĂŁo sei quanto a vocĂȘ, mas vou tentar de tudo! Guerra, mulheres, viagens, casamento, os trabalhos. O primeiro carro que eu comprar quero desmontar completamente! Para depois remontĂĄ-lo! Quero entender as coisas, o que faz elas funcionarem! Gostaria de ser um correspondente na capital do paĂs, Washington. Quero sempre estar onde as grandes coisas estĂŁo acontecendo.
â Washington Ă© um lixo, Becker.
â E mulheres? Casamento? Crianças?
â Lixo.
â Ă? Mas o que vocĂȘ quer, afinal?
â Me esconder.
â Seu pobre fodido. VocĂȘ precisa de outra cerveja.
â Tudo bem.
A cerveja chegou.
Ficamos sentados em silĂȘncio. Pude perceber que Becker estava imerso em seus prĂłprios pensamentos, pensando em ser marinheiro, em ser escritor, em trepar. Era provĂĄvel que desse um bom escritor. Estava explodindo de entusiasmo. Provavelmente ele amava uma porção de coisas: um falcĂŁo em pleno voo, o maldito oceano, a lua cheia, Balzac, pontes, peças de teatro, o PrĂȘmio Pulitzer, o piano, a maldita BĂblia.
Havia um pequeno rĂĄdio no bar. Uma canção popular estava tocando. EntĂŁo, no meio da mĂșsica houve uma interrupção. O locutor disse:
â Um boletim acaba de chegar. Os japoneses bombardearam Pearl Harbor. Repito: os japoneses acabam de bombardear Pearl Harbor. Todos os militares devem retornar imediatamente para suas bases!
Olhamos um para o outro, ainda aturdidos e sem o total entendimento do que acabĂĄvamos de ouvir.
â Bem â disse Becker em voz baixa â, Ă© isso.
â Termine sua cerveja â eu falei.
Becker tomou tudo num sĂł gole.
â Jesus, imagine se um filho da puta qualquer aponta uma metralhadora pra mim e resolve apertar o gatilho?
â Isso pode muito bem acontecer.
â Hank...
â Fala.
â VocĂȘ me acompanha no ĂŽnibus atĂ© a base?
â NĂŁo posso fazer isso.
O dono do bar, um homem duns 45 anos, com uma barriga que parecia uma melancia e olhos miĂșdos, aproximou-se de nĂłs. Olhou para Becker:
â Bem, marinheiro, parece que vocĂȘ tem que voltar para sua base, nĂŁo?
Aquilo me deixou puto da cara.
â Ei, gordĂŁo, deixe-o terminar sua bebida, certo?
â Claro, claro... Quer uma por conta da casa, marinheiro? Que tal uma dose de um bom uĂsque?
â NĂŁo â disse Becker â, estĂĄ tudo bem.
â Aceite â falei a Becker â, tome a dose. Ele pensa que vocĂȘ vai morrer para salvar o bar dele.
â Tudo bem â disse Becker â, vou aceitar seu uĂsque.
O dono do bar olhou para Becker.
â VocĂȘ tem um amigo desprezĂvel...
â Apenas sirva a bebida â eu disse.
Os outros poucos clientes tagarelavam freneticamente sobre Pearl Harbor. Antes, nĂŁo tinham trocado uma palavra. Agora estavam mobilizados. A Tribo estava em perigo.
Becker pegou sua bebida. Era uma dose dupla de uĂsque. Tomou num talagaço.
â Nunca contei para vocĂȘ â ele disse â, mas sou ĂłrfĂŁo.
â Caralho â eu disse.
â VocĂȘ vai comigo pelo menos atĂ© o terminal de ĂŽnibus?
â Claro.
Levantamos e fomos em direção Ă saĂda.
O dono do bar estava esfregando as mãos no avental. Trazia o avental todo amarrotado e não parava de esfregar as mãos nele, tomado de excitação.
â Boa sorte, marinheiro! â ele gritou.
Becker saiu. Fiquei ainda lĂĄ dentro e olhei para o dono do bar.
â Primeira Guerra Mundial, nĂŁo?
â Ă, Ă©... â ele disse, cheio de alegria.
Juntei-me a Becker. Nós meio que corremos até o terminal. Militares uniformizados jå começavam a chegar. A euforia se espalhava no ar. Um marinheiro passou correndo.
â VOU MATAR UM JAPA COM MINHAS PRĂPRIAS MĂOS! â gritou.
Becker ficou na fila para comprar o bilhete. Um dos soldados tinha a namorada consigo. A garota falava, chorava, agarrada a ele, beijando-o sem parar. O pobre Becker sĂł tinha a mim. Fiquei de lado, esperando. Foi uma espera longa. O mesmo marinheiro que antes passara gritando se aproximou de mim.
â Ei, companheiro, vocĂȘ nĂŁo vai nos ajudar? Por que vocĂȘ estĂĄ aĂ parado? Por que nĂŁo se alista?
Seu hĂĄlito recendia a uĂsque. Ele tinha sardas e um nariz enorme.
â VocĂȘ vai perder seu ĂŽnibus â eu falei.
Ele se afastou em direção ao terminal de saĂda.
â Fodam-se esses malditos japas fodidos! â ele disse.
Becker finalmente conseguiu comprar uma passagem. Caminhei com ele até o Înibus. Ele ficou numa outra fila.
â Algum conselho? â perguntou.
â NĂŁo.
A fila entrava devagar no ĂŽnibus. A garota estava chorando e falando rĂĄpido e baixinho com seu soldado.
Becker chegou Ă porta. Dei-lhe um soco no ombro.
â VocĂȘ Ă© o melhor que eu jĂĄ conheci.
â Obrigado, Hank...
â Adeus...
â Misto-quente
fogo
aquela biblioteca do centro
e com ela se foi
uma grande parte da minha
juventude.
eu estava sentado num daqueles bancos de
pedra com meu amigo
Carequinha quando ele
perguntou,
âvocĂȘ vai se alistar na
brigada
Abraham Lincoln?â
âclaroâ, eu lhe
disse.
mas percebendo que eu nĂŁo era nem
um intelectual nem um polĂtico
idealista
recuei na questĂŁo
mais
tarde.
eu era um leitor
entĂŁo
indo de seção em
seção: literatura, filosofia,
religião, até medicina
e geologia.
desde cedo
decidi ser um escritor
pensei que esse seria o caminho mais fĂĄcil
para
escapar
e os grandes figurÔes do romance não me pareciam
pĂĄreo muito
duro.
eu tinha maiores dificuldades com
Hegel e Kant.
o que me incomodava
em
todos eles
Ă© que levavam um tempo enorme
para finalmente dizer
alguma coisa viva e/
ou
interessante.
pensava entĂŁo ter algo a dizer
mais do que todos
eles.
eu estava para descobrir duas
coisas:
a) a maioria dos editores pensava que tudo que fosse
chato tinha algo a ver com assuntos
profundos.
b) que levaria décadas de
vida e escrita
antes que eu fosse capaz de
colocar no papel
uma frase que estivesse
ao menos prĂłxima
daquilo que eu realmente queria
dizer.
nesse meio-tempo
enquanto outros jovens corriam atrĂĄs de
mulheres
eu corria atrĂĄs dos velhos
livros.
eu era um bibliĂłfilo, quem sabe um
sujeito
desencantado
e isto
e o mundo
me moldaram.
eu vivia numa cabana de madeira
atrĂĄs de uma pensĂŁo
a trĂȘs dĂłlares por
semana
sentindo-me como um
Chatterton
enfiado dentro de algo do
Thomas
Wolfe.
meus maiores problemas eram
selos, envelopes, papéis
e
vinho,
com o mundo no auge
da Segunda Guerra Mundial.
eu ainda nĂŁo tinha sido
desconcertado pelas
mulheres, eu era virgem
e escrevia de 3 a
5 contos por semana
e todos retornavam
rejeitados
por The New Yorker, Harperâs,
The Atlantic Monthly.
eu tinha lido em algum lugar que
Ford Madox Ford costumava usar
como papel higiĂȘnico os pareceres
dos trabalhos rejeitados
mas eu nĂŁo tinha
um banheiro de modo que os enfiava
numa gaveta
e quando não havia mais espaço
e eu mal conseguia
abri-la
eu retirava todos os pareceres
e os jogava fora
junto com os
contos.
enquanto isso
a velha Biblioteca PĂșblica de L.A. seguia sendo
minha casa
e a casa de muitos outros
vagabundos.
discretamente usĂĄvamos os
banheiros
e os Ășnicos entre nĂłs que deveriam
ser
evitados eram aqueles que
pegavam no sono nas mesas da
biblioteca â
ninguém ronca como um
vagabundo
exceto alguĂ©m com quem vocĂȘ Ă©
casado.
bem, eu nĂŁo era propriamente um
vagabundo. eu tinha um cartĂŁo da biblioteca
e eu ia e voltava com os livros
uma
enorme
quantidade deles
sempre levando o limite
mĂĄximo
permitido:
Aldous Huxley, D. H. Lawrence,
e. e. cummings, Conrad Aiken, Fiodor
Dos, Dos Passos, TurguĂȘniev, GĂłrky,
H. D., Freddie Nietzsche,
Schopenhauer,
Steinbeck,
Hemingway,
e assim por
diante...
sempre esperava que a bibliotecĂĄria
dissesse: âvocĂȘ tem um gosto e tanto, meu
jovem...â
mas a puta velha e acabada
nĂŁo sabia nem quem ela
era
que dirĂĄ de
mim.
mas aquelas estantes eram
tremendamente encantadoras: permitiam-me
descobrir
os primeiros poetas chineses
como Tu Fu e Li
Po
que podiam dizer mais em uma
linha do que a maioria em
trinta ou
cem.
Sherwood Anderson deve
tĂȘ-los
lido
também.
eu também levava os Cantos
pra lĂĄ e pra cĂĄ
e Ezra me ajudou
a fortalecer meus braços se não
meu cérebro.
aquele lugar fantĂĄstico
a Biblioteca PĂșblica de L.A.
era um lar para uma pessoa que tinha tido
um
lar dos
infernos
CĂRREGOS AMPLOS DEMAIS PARA SALTAR
LONGE DA MULTIDĂO ESTULTA
CONTRAPONTO
O CORAĂĂO Ă UM CAĂADOR SOLITĂRIO
James Thurber
John Fante
Rabelais
Maupassant
alguns nĂŁo funcionavam para
mim: Shakespeare, G. B. Shaw,
TolstĂłi, Robert Frost, F. Scott
Fitzgerald
Upton Sinclair funcionava melhor para
mim
que Sinclair Lewis
e eu considerava GĂłgol e
Dreiser completos
idiotas
mas tais juĂzos eram produto
mais da maneira
como um homem era forçado a viver do que de
sua razĂŁo.
a velha Biblioteca PĂșblica
muito provavelmente evitou que eu me
tornasse um
suicida
um ladrĂŁo
de bancos
um
espancador
de mulheres
um carniceiro ou um
policial motorizado
e ainda que algumas dessas possibilidades
nĂŁo sejam mĂĄs
Ă©
graças
Ă minha sorte
e a meu destino
que aquela biblioteca estava
lĂĄ quando eu era
jovem e procurava me
agarrar a
alguma coisa
quando parecia nĂŁo haver quase
nada ao meu
redor.
e quando eu abri o
jornal
e soube do incĂȘndio
que havia
destruĂdo a
biblioteca e boa parte de
seu interior
eu disse Ă minha
esposa: âeu costumava passar
meu tempo
lĂĄ...â
O OFICIAL PRUSSIANO
O JOVEM AUDAZ NO TRAPĂZIO VOADOR
TER E NĂO TER
VOCĂ NĂO PODE VOLTAR PARA CASA.
Realizei vĂĄrias incursĂ”es educativas pelos cortiços da cidade a fim de me preparar para o meu futuro. NĂŁo gostei nada do que vi por lĂĄ. Aqueles homens e aquelas mulheres nĂŁo tinham qualquer tipo especial de ousadia ou brilho. Queriam apenas o que todo o resto do mundo queria. Havia tambĂ©m alguns desequilibrados mentais clĂĄssicos que podiam andar com tranquilidade naquelas redondezas. Eu tinha notado que em ambos os extremos da sociedade, tanto entre os ricos quanto entre os pobres, frequentemente se permitia que os loucos se misturassem livremente entre as pessoas. Eu sabia que nĂŁo era inteiramente sĂŁo. TambĂ©m sabia, uma percepção que eu tinha desde a infĂąncia, que havia algo de estranho em mim. Era como se meu destino fosse ser um assassino, um ladrĂŁo de banco, um santo, um estuprador, um monge, um ermitĂŁo. Precisava de um lugar isolado para me esconder. Os cortiços eram lugares nojentos. A vida das pessoas sĂŁs, dos homens comuns, era uma estupidez pior do que a morte. Parecia nĂŁo haver alternativa possĂvel. A educação tambĂ©m parecia uma armadilha. A pouca educação que eu tinha me permitido havia me tornado ainda mais desconfiado. O que eram mĂ©dicos, advogados, cientistas? Apenas homens que tinham permitido que sua liberdade de pensamento e a capacidade de agir como indivĂduos lhes fossem retiradas. Voltei para meu barracĂŁo e enchi a cara...
Sentado ali, bebendo, considerei a opção do suicĂdio, mas me senti estranhamente apaixonado pelo meu corpo, pela minha vida. Apesar das cicatrizes que marcavam meu corpo e minha existĂȘncia, ambos eram propriedades minhas. Eu podia me levantar agora e sorrir com escĂĄrnio para meu reflexo no espelho da cĂŽmoda: se vocĂȘ tem que ir, que leve ao menos uns oito junto, uns dez, uns vinte...
Era uma noite de dezembro, um sĂĄbado. Estava no meu quarto e tinha bebido muito mais que o de costume, acendendo um cigarro no outro, pensando nas garotas e na cidade e nos empregos e nos anos que ainda viriam. Olhando para o devir, eu gostava muito pouco do que via. Eu nĂŁo era um misantropo ou um misĂłgino, mas gostava de estar sozinho. Era bom estar solitĂĄrio num lugarzinho, sentado, fumando e bebendo. Sempre tinha sido uma boa companhia para mim mesmo.
Então escutei o som do rådio que vazava do quarto ao lado. O cara tinha posto o volume muito alto. Era uma canção de amor de embrulhar o estÎmago.
â Ei, camarada! â gritei. â Abaixa essa coisa!
NĂŁo houve resposta.
Fui até a parede e bati com força
â EU DISSE PARA ABAIXAR ESSA MĂSICA DE MERDA!
O volume continuou o mesmo.
Saà e fui até a porta vizinha. Eu estava só de cueca. Ergui minha perna e meti o pé na porta. Ela se escancarou. Havia duas pessoas na cama, um velho gordo e uma velha gorda. Eles estavam trepando. Havia uma pequena vela acesa. O velho estava por cima. Parou, voltou sua cabeça e me olhou. A velha também me deu uma olhada por sobre o ombro dele. O lugar era muito bem arrumado, com cortinas e um pequeno tapete.
â Oh, me desculpem...
Fechei a porta e voltei para o meu quarto. Senti-me péssimo. Os pobres tinham o direito de foder como quisessem para vencer seus pesadelos. Sexo e bebida, e talvez amor, era tudo o que eles tinham.
Sentei-me novamente e servi um copo de vinho. Deixei a minha porta aberta. A luz do luar entrou trazendo consigo os sons da cidade: vitrolas, automĂłveis, palavrĂ”es, latidos, rĂĄdios... EstĂĄvamos todos juntos nisso. Todos juntos num grande vaso cheio de merda. NĂŁo havia escapatĂłria. Todos descerĂamos juntos com a descarga.
Um gatinho que passava do lado de fora parou na frente da minha porta e olhou para dentro. Os olhos brilhavam sob a luz da lua: olhos de um vermelho vivo como fogo. Que olhos maravilhosos.
â Venha, gatinho...
Estiquei minha mĂŁo como se houvesse comida dentro dela.
â Gatinho, gatinho...
O gato seguiu adiante.
Ouvi o rådio na peça ao lado ser desligado.
Terminei meu vinho e fui atĂ© ali fora. Continuava sĂł de cueca. Puxei e ajeitei minhas partes. Fiquei parado na frente da outra porta. Eu havia destruĂdo o trinco. Podia ver a luz da vela lĂĄ dentro. Eles mantinham a porta fechada pela ação de algum mĂłvel, provavelmente uma cadeira.
Bati discretamente.
NĂŁo houve resposta.
Bati outra vez.
Ouvi alguma coisa. EntĂŁo a porta se abriu.
O velho gordo ficou ali plantado. Seu rosto era todo sulcado, transmitindo uma ideia de profunda amargura. Era todo sobrancelhas e bigode e dois olhos tristonhos.
â Ouça â eu disse â, sinto profundamente o que fiz. VocĂȘ e sua garota nĂŁo querem dar uma chegada no meu quarto para tomarmos alguma coisa?
â NĂŁo.
â Ou quem sabe eu possa trazer algo para vocĂȘs beberem?
â NĂŁo â ele disse â, apenas nos deixe em paz.
Ele fechou a porta.
Acordei com uma das minhas piores ressacas. Normalmente dormia até o meio-dia. Naquele dia não consegui. Pus uma roupa, fui até o banheiro na casa principal e fiz minha higiene. Voltei, saà pela ruela e tomei a escadaria, desci o barranco e segui pela rua de baixo.
Domingo, o pior, o mais desgraçado entre todos os dias da semana.
Caminhei pela rua Principal, passei pelos bares. As acompanhantes se sentavam perto da entrada, as saias bem erguidas, balançando as pernas, usando saltos altos.
â Ei, doçura, venha aqui!
Main Street, East 5th Street, Bunker Hill. Os cus da América.
NĂŁo havia lugar para ir. Entrei num fliperama. Andei entre as mĂĄquinas, olhando para os jogos, mas sem desejo algum de jogar. EntĂŁo vi um marinheiro numa mĂĄquina de pinball. Suas duas mĂŁos apertavam as laterais da mĂĄquina, enquanto ele tentava guiar a bolinha como se estivesse usando o prĂłprio corpo para fazĂȘ-lo. Caminhei atĂ© ele e o agarrei pela parte de trĂĄs do colarinho e pelo cinto.
â Becker, eu exijo uma maldita duma revanche!
Soltei-o e ele se virou.
â NĂŁo, estĂĄ fora de questĂŁo â ele disse.
â Uma melhor de trĂȘs.
â Caralho â ele disse â, deixa eu te pagar uma bebida.
SaĂmos do fliperama e descemos a Main Street. Uma acompanhante gritou de um dos bares:
â Ei, marinheiro, venha cĂĄ!
Becker parou.
â Vou entrar â ele disse.
â NĂŁo faça isso â eu disse â, elas sĂŁo baratas humanas.
â Acabei de receber.
â As garotas bebem chĂĄ, e eles pĂ”em ĂĄgua na sua bebida. Cada dose Ă© o dobro do preço, e depois a garota desaparece.
â Estou entrando.
Becker entrou. Um dos melhores escritores inéditos da América, vestido para matar e morrer. Segui-o. Ele foi até uma das garotas e falou com ela. Ela puxou a saia mais para cima, girou em seus saltos altos e sorriu. Foram para um reservado no fundo. O atendente foi até lå pegar o pedido deles. A outra garota junto ao bar me olhou.
â Ei, doçura, quer brincar um pouquinho?
â Claro, desde que a gente brinque do meu jeito.
â Tem medo ou Ă© veado?
â Os dois â eu disse, sentando no canto mais afastado do bar.
Havia um cara entre nĂłs, a cabeça apoiada no balcĂŁo. Sua carteira jĂĄ era. Quando ele acordasse e começasse a reclamar, das duas uma: ou seria jogado no meio da rua pelo atendente, ou seria entregue nas mĂŁos da polĂcia.
Depois de servir Becker e a acompanhante, o atendente voltou para trås do balcão e caminhou em minha direção.
â Sim?
â Nada.
â Ă? EntĂŁo o que cĂȘ tĂĄ fazendo aqui?
â Esperando por um amigo â gesticulei com a cabeça na direção do reservado.
â O negĂłcio aqui Ă© sentou pediu.
â Beleza. Uma ĂĄgua.
O atendente se afastou, voltou, deixou o copo dâĂĄgua.
â Vinte e cinco centavos.
Paguei-o.
A garota junto ao bar disse ao atendente:
â Ele Ă© veado ou medroso.
O atendente nĂŁo disse nada. EntĂŁo Becker lhe fez um sinal e ele foi lĂĄ pegar o pedido.
A garota olhou para mim.
â Como vocĂȘ nĂŁo tĂĄ de uniforme?
â NĂŁo gosto de me vestir como todo mundo.
â NĂŁo existem outras razĂ”es?
â As outras razĂ”es sĂł dizem respeito a mim.
â EntĂŁo vĂĄ se foder â ela disse.
O atendente voltou.
â VocĂȘ precisa de outro copo.
â TĂĄ â eu disse, mandando outro quarto de dĂłlar na sua direção.
Do lado de fora, Becker e eu seguimos pela Main Street.
â Como foi? â perguntei.
â Cobraram pelo uso da mesa, alĂ©m dos dois drinques. Chegou a 32 pratas.
â Cristo. Eu podia ficar bĂȘbado por duas semanas com essa grana.
â Ela agarrou meu pau debaixo da mesa, ficou tocando uma.
â O que ela disse?
â Nada. Apenas tocou uma punheta pra mim.
â Prefiro eu mesmo me bater uma punheta e ficar com os 32 contos.
â Mas ela era tĂŁo linda.
â Maldição, homem. Estou andando ao lado de um perfeito idiota.
â Algum dia vou escrever sobre essas coisas. Estarei nas prateleiras das bibliotecas: BECKER. Os âBsâ sĂŁo muito fracos, precisam de ajuda.
â VocĂȘ fala demais sobre escrever â eu disse.
Encontramos um outro bar perto do terminal de ĂŽnibus. NĂŁo era uma espelunca movimentada. Havia apenas o dono do bar e cinco ou seis viajantes, todos homens. Becker e eu nos sentamos.
â Ă por minha conta â disse Becker.
â Uma Eastside na garrafa.
Becker pediu duas. Olhou para mim.
â Vamos lĂĄ, seja homem, aliste-se. Seja um marinheiro.
â NĂŁo fico nem um pouco empolgado com essa coisa de ser machĂŁo.
â Nem parece o mesmo sujeito que estĂĄ sempre trocando uns sopapos com alguĂ©m.
â Faço isso por puro entretenimento.
â Aliste-se. Isso vai lhe dar algo sobre o que escrever.
â Becker, sempre hĂĄ algo sobre o que escrever.
â E o que vocĂȘ vai fazer, entĂŁo?
Apontei para minha garrafa e a ergui.
â Como vai conseguir sobreviver? â Becker perguntou.
â Tenho a impressĂŁo de ter ouvido essa pergunta ao longo de toda minha vida.
â Bem, nĂŁo sei quanto a vocĂȘ, mas vou tentar de tudo! Guerra, mulheres, viagens, casamento, os trabalhos. O primeiro carro que eu comprar quero desmontar completamente! Para depois remontĂĄ-lo! Quero entender as coisas, o que faz elas funcionarem! Gostaria de ser um correspondente na capital do paĂs, Washington. Quero sempre estar onde as grandes coisas estĂŁo acontecendo.
â Washington Ă© um lixo, Becker.
â E mulheres? Casamento? Crianças?
â Lixo.
â Ă? Mas o que vocĂȘ quer, afinal?
â Me esconder.
â Seu pobre fodido. VocĂȘ precisa de outra cerveja.
â Tudo bem.
A cerveja chegou.
Ficamos sentados em silĂȘncio. Pude perceber que Becker estava imerso em seus prĂłprios pensamentos, pensando em ser marinheiro, em ser escritor, em trepar. Era provĂĄvel que desse um bom escritor. Estava explodindo de entusiasmo. Provavelmente ele amava uma porção de coisas: um falcĂŁo em pleno voo, o maldito oceano, a lua cheia, Balzac, pontes, peças de teatro, o PrĂȘmio Pulitzer, o piano, a maldita BĂblia.
Havia um pequeno rĂĄdio no bar. Uma canção popular estava tocando. EntĂŁo, no meio da mĂșsica houve uma interrupção. O locutor disse:
â Um boletim acaba de chegar. Os japoneses bombardearam Pearl Harbor. Repito: os japoneses acabam de bombardear Pearl Harbor. Todos os militares devem retornar imediatamente para suas bases!
Olhamos um para o outro, ainda aturdidos e sem o total entendimento do que acabĂĄvamos de ouvir.
â Bem â disse Becker em voz baixa â, Ă© isso.
â Termine sua cerveja â eu falei.
Becker tomou tudo num sĂł gole.
â Jesus, imagine se um filho da puta qualquer aponta uma metralhadora pra mim e resolve apertar o gatilho?
â Isso pode muito bem acontecer.
â Hank...
â Fala.
â VocĂȘ me acompanha no ĂŽnibus atĂ© a base?
â NĂŁo posso fazer isso.
O dono do bar, um homem duns 45 anos, com uma barriga que parecia uma melancia e olhos miĂșdos, aproximou-se de nĂłs. Olhou para Becker:
â Bem, marinheiro, parece que vocĂȘ tem que voltar para sua base, nĂŁo?
Aquilo me deixou puto da cara.
â Ei, gordĂŁo, deixe-o terminar sua bebida, certo?
â Claro, claro... Quer uma por conta da casa, marinheiro? Que tal uma dose de um bom uĂsque?
â NĂŁo â disse Becker â, estĂĄ tudo bem.
â Aceite â falei a Becker â, tome a dose. Ele pensa que vocĂȘ vai morrer para salvar o bar dele.
â Tudo bem â disse Becker â, vou aceitar seu uĂsque.
O dono do bar olhou para Becker.
â VocĂȘ tem um amigo desprezĂvel...
â Apenas sirva a bebida â eu disse.
Os outros poucos clientes tagarelavam freneticamente sobre Pearl Harbor. Antes, nĂŁo tinham trocado uma palavra. Agora estavam mobilizados. A Tribo estava em perigo.
Becker pegou sua bebida. Era uma dose dupla de uĂsque. Tomou num talagaço.
â Nunca contei para vocĂȘ â ele disse â, mas sou ĂłrfĂŁo.
â Caralho â eu disse.
â VocĂȘ vai comigo pelo menos atĂ© o terminal de ĂŽnibus?
â Claro.
Levantamos e fomos em direção Ă saĂda.
O dono do bar estava esfregando as mãos no avental. Trazia o avental todo amarrotado e não parava de esfregar as mãos nele, tomado de excitação.
â Boa sorte, marinheiro! â ele gritou.
Becker saiu. Fiquei ainda lĂĄ dentro e olhei para o dono do bar.
â Primeira Guerra Mundial, nĂŁo?
â Ă, Ă©... â ele disse, cheio de alegria.
Juntei-me a Becker. Nós meio que corremos até o terminal. Militares uniformizados jå começavam a chegar. A euforia se espalhava no ar. Um marinheiro passou correndo.
â VOU MATAR UM JAPA COM MINHAS PRĂPRIAS MĂOS! â gritou.
Becker ficou na fila para comprar o bilhete. Um dos soldados tinha a namorada consigo. A garota falava, chorava, agarrada a ele, beijando-o sem parar. O pobre Becker sĂł tinha a mim. Fiquei de lado, esperando. Foi uma espera longa. O mesmo marinheiro que antes passara gritando se aproximou de mim.
â Ei, companheiro, vocĂȘ nĂŁo vai nos ajudar? Por que vocĂȘ estĂĄ aĂ parado? Por que nĂŁo se alista?
Seu hĂĄlito recendia a uĂsque. Ele tinha sardas e um nariz enorme.
â VocĂȘ vai perder seu ĂŽnibus â eu falei.
Ele se afastou em direção ao terminal de saĂda.
â Fodam-se esses malditos japas fodidos! â ele disse.
Becker finalmente conseguiu comprar uma passagem. Caminhei com ele até o Înibus. Ele ficou numa outra fila.
â Algum conselho? â perguntou.
â NĂŁo.
A fila entrava devagar no ĂŽnibus. A garota estava chorando e falando rĂĄpido e baixinho com seu soldado.
Becker chegou Ă porta. Dei-lhe um soco no ombro.
â VocĂȘ Ă© o melhor que eu jĂĄ conheci.
â Obrigado, Hank...
â Adeus...
â Misto-quente
O Maior Fracassado do Mundo
ele costumava vender jornais ali em frente:
âEscolha os vencedores! Fique rico apostando um centavo!â
e lĂĄ pela terceira ou quarta corrida
vocĂȘ poderia vĂȘ-lo deslizando em seu carrinho estropiado
equipado com rodinhas de patins.
impulsionava-se com as mĂŁos;
suas pernas nĂŁo passavam de dois cotos
e os aros das rodinhas estavam gastos.
dava para ver a parte interna das rodinhas e elas oscilavam
algo terrĂvel
disparando e reluzindo
faĂscas supremas!
movia-se mais rĂĄpido do que qualquer um, o cigarro pendendo dos lĂĄbios,
dava para ouvir sua aproximação
âoh, Deus, mas que diabos Ă© isso?â, perguntavam os mais novos.
ele era o maior fracassado do mundo
mas jamais desistia
deslizando atĂ© o guichĂȘ das apostas de 2 dĂłlares, gritando:
âĂ O CAVALO NĂMERO 4, SEUS OTĂRIOS! COMO CONSEGUIRĂO
VENCER O CAVALO
4?â
no placar o 4 estava pagando
60 para 1.
nunca ouvi que ele tivesse escolhido um vencedor.
diziam que ele dormia no meio do mato. acho que foi por ali que
ele morreu. nĂŁo tem mais
aparecido.
havia uma puta gorda e loira
que vivia tocando nele para dar sorte, e ela
ria.
ninguém jamais teve sorte. a puta também se
foi.
acho que nada nunca funciona para nĂłs. somos otĂĄrios, claro â
patrocinando aquilo tudo e ainda pagando um ĂĄgio de 15 por cento,
mas como diremos a um sonhador
que hĂĄ um ĂĄgio de 15 por cento no
sonho? ele apenas vai rir e dizer,
isso Ă© tudo?
eu perdi essas
faĂscas.
âEscolha os vencedores! Fique rico apostando um centavo!â
e lĂĄ pela terceira ou quarta corrida
vocĂȘ poderia vĂȘ-lo deslizando em seu carrinho estropiado
equipado com rodinhas de patins.
impulsionava-se com as mĂŁos;
suas pernas nĂŁo passavam de dois cotos
e os aros das rodinhas estavam gastos.
dava para ver a parte interna das rodinhas e elas oscilavam
algo terrĂvel
disparando e reluzindo
faĂscas supremas!
movia-se mais rĂĄpido do que qualquer um, o cigarro pendendo dos lĂĄbios,
dava para ouvir sua aproximação
âoh, Deus, mas que diabos Ă© isso?â, perguntavam os mais novos.
ele era o maior fracassado do mundo
mas jamais desistia
deslizando atĂ© o guichĂȘ das apostas de 2 dĂłlares, gritando:
âĂ O CAVALO NĂMERO 4, SEUS OTĂRIOS! COMO CONSEGUIRĂO
VENCER O CAVALO
4?â
no placar o 4 estava pagando
60 para 1.
nunca ouvi que ele tivesse escolhido um vencedor.
diziam que ele dormia no meio do mato. acho que foi por ali que
ele morreu. nĂŁo tem mais
aparecido.
havia uma puta gorda e loira
que vivia tocando nele para dar sorte, e ela
ria.
ninguém jamais teve sorte. a puta também se
foi.
acho que nada nunca funciona para nĂłs. somos otĂĄrios, claro â
patrocinando aquilo tudo e ainda pagando um ĂĄgio de 15 por cento,
mas como diremos a um sonhador
que hĂĄ um ĂĄgio de 15 por cento no
sonho? ele apenas vai rir e dizer,
isso Ă© tudo?
eu perdi essas
faĂscas.
O Mais Forte dos Estranhos
vocĂȘ nĂŁo os verĂĄ seguidamente
pois onde quer que esteja a multidĂŁo
eles nĂŁo
estarĂŁo lĂĄ.
esses tipos bizarros, nĂŁo
muitos
mas deles
vĂȘm
os poucos
pintores decentes
as poucas
sinfonias decentes
os poucos
livros decentes
e outras
obras.
e dos
melhores entre
esses estranhos
talvez
nada.
eles sĂŁo
suas prĂłprias
pinturas
seus prĂłprios
livros
suas prĂłprias
mĂșsicas
suas prĂłprias
obras.
Ă s vezes eu penso
eu os
vejo â digamos
um certo
velho
sentado num
certo banco
de uma certa
maneira
ou
hĂĄ um certo movimento
das mĂŁos
de um empacotador ou
empacotadora
quando guardam
as compras do
supermercado.
Ă s vezes chega
a ser alguém com quem
vocĂȘ esteve morando
por algum
tempo â
vocĂȘ perceberĂĄ
um
rĂĄpido e fugaz
lampejo
nunca antes
percebido
neles.
algumas vezes
vocĂȘ sĂł notarĂĄ
suas
existĂȘncias
subitamente
em
vĂvidas
lembranças
alguns meses
alguns anos
depois que eles tiverem
partido.
me lembro
de um
deles â
tinha cerca de
20 anos
bĂȘbado Ă s
10 da manhĂŁ
mirando fixo
um espelho
rachado em
Nova Orleans
o rosto sonhador
contra as
paredes do
mundo
onde
eu fui
parar?
pois onde quer que esteja a multidĂŁo
eles nĂŁo
estarĂŁo lĂĄ.
esses tipos bizarros, nĂŁo
muitos
mas deles
vĂȘm
os poucos
pintores decentes
as poucas
sinfonias decentes
os poucos
livros decentes
e outras
obras.
e dos
melhores entre
esses estranhos
talvez
nada.
eles sĂŁo
suas prĂłprias
pinturas
seus prĂłprios
livros
suas prĂłprias
mĂșsicas
suas prĂłprias
obras.
Ă s vezes eu penso
eu os
vejo â digamos
um certo
velho
sentado num
certo banco
de uma certa
maneira
ou
hĂĄ um certo movimento
das mĂŁos
de um empacotador ou
empacotadora
quando guardam
as compras do
supermercado.
Ă s vezes chega
a ser alguém com quem
vocĂȘ esteve morando
por algum
tempo â
vocĂȘ perceberĂĄ
um
rĂĄpido e fugaz
lampejo
nunca antes
percebido
neles.
algumas vezes
vocĂȘ sĂł notarĂĄ
suas
existĂȘncias
subitamente
em
vĂvidas
lembranças
alguns meses
alguns anos
depois que eles tiverem
partido.
me lembro
de um
deles â
tinha cerca de
20 anos
bĂȘbado Ă s
10 da manhĂŁ
mirando fixo
um espelho
rachado em
Nova Orleans
o rosto sonhador
contra as
paredes do
mundo
onde
eu fui
parar?
O Mockingbird
o mockingbird estivera seguindo o gato
por todo o verĂŁo
zombando zombando zombando
provocador e arrogante;
o gato se arrastava debaixo dos ganchos nas varandas
a cauda lampejando
e dizia alguma coisa raivosa ao mockingbird
que eu nĂŁo conseguia entender.
ontem o gato caminhava calmamente pela entrada da garagem
com o mockingbird vivo em sua boca,
as asas como leques, belas asas abanando e se deixando desfalecer,
as penas separadas como pernas de mulher,
e o pĂĄssaro jĂĄ nĂŁo zombava,
perguntava, rezava
mas o gato
avançando a passos largos através dos séculos
nĂŁo lhe daria ouvidos.
vi quando ele rastejou para baixo de um carro amarelo
com o pĂĄssaro
para dar-lhe cabo em outro lugar.
o verĂŁo estava encerrado.
por todo o verĂŁo
zombando zombando zombando
provocador e arrogante;
o gato se arrastava debaixo dos ganchos nas varandas
a cauda lampejando
e dizia alguma coisa raivosa ao mockingbird
que eu nĂŁo conseguia entender.
ontem o gato caminhava calmamente pela entrada da garagem
com o mockingbird vivo em sua boca,
as asas como leques, belas asas abanando e se deixando desfalecer,
as penas separadas como pernas de mulher,
e o pĂĄssaro jĂĄ nĂŁo zombava,
perguntava, rezava
mas o gato
avançando a passos largos através dos séculos
nĂŁo lhe daria ouvidos.
vi quando ele rastejou para baixo de um carro amarelo
com o pĂĄssaro
para dar-lhe cabo em outro lugar.
o verĂŁo estava encerrado.
O Pássaro Azul
hĂĄ um pĂĄssaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo, fique aĂ, nĂŁo deixarei
que ninguém o
veja.
hĂĄ um pĂĄssaro azul em meu peito que
quer sair
mas eu despejo uĂsque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os atendentes dos bares
e das mercearias
nunca saberĂŁo que
ele estĂĄ
lĂĄ dentro.
hĂĄ um pĂĄssaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo,
fique aĂ, quer acabar
comigo?
quer foder com minha
escrita?
quer arruinar a venda dos meus livros na
Europa?
hĂĄ um pĂĄssaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou bastante esperto, deixo que ele saia
somente em algumas noites
quando todos estĂŁo dormindo.
eu digo, sei que vocĂȘ estĂĄ aĂ,
entĂŁo nĂŁo fique
triste.
depois o coloco de volta em seu lugar,
mas ele ainda canta um pouquinho
lĂĄ dentro, nĂŁo deixo que morra
completamente
e nĂłs dormimos juntos
assim
com nosso pacto secreto
e isto Ă© bom o suficiente para
fazer um homem
chorar, mas eu nĂŁo
choro, e
vocĂȘ?
quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo, fique aĂ, nĂŁo deixarei
que ninguém o
veja.
hĂĄ um pĂĄssaro azul em meu peito que
quer sair
mas eu despejo uĂsque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os atendentes dos bares
e das mercearias
nunca saberĂŁo que
ele estĂĄ
lĂĄ dentro.
hĂĄ um pĂĄssaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo,
fique aĂ, quer acabar
comigo?
quer foder com minha
escrita?
quer arruinar a venda dos meus livros na
Europa?
hĂĄ um pĂĄssaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou bastante esperto, deixo que ele saia
somente em algumas noites
quando todos estĂŁo dormindo.
eu digo, sei que vocĂȘ estĂĄ aĂ,
entĂŁo nĂŁo fique
triste.
depois o coloco de volta em seu lugar,
mas ele ainda canta um pouquinho
lĂĄ dentro, nĂŁo deixo que morra
completamente
e nĂłs dormimos juntos
assim
com nosso pacto secreto
e isto Ă© bom o suficiente para
fazer um homem
chorar, mas eu nĂŁo
choro, e
vocĂȘ?
O Perdedor
e quando dei por mim estava numa mesa
todos se foram: o exemplo de bravura
sob as luzes, franzindo a testa, me açoitandoâŠ
e entĂŁo um cretino ficou ali parado, fumando um charuto
âGaroto, vocĂȘ nĂŁo Ă© um lutadorâ, ele me disse
e eu me levantei e o derrubei sobre a cadeira com uma pancada;
foi como uma cena de filme, e
e ele ficou lĂĄ sentado sobre seu traseiro gordo e disse
sem parar: âJesus, Jesus, qualĂ© o seu
problema?â e eu me levantei e me vesti,
ainda com o esparadrapo nas mĂŁos, e quando cheguei em casa
arranquei o esparadrapo das minhas mĂŁos e
escrevi meu primeiro poema,
e venho lutando
desde entĂŁo.
todos se foram: o exemplo de bravura
sob as luzes, franzindo a testa, me açoitandoâŠ
e entĂŁo um cretino ficou ali parado, fumando um charuto
âGaroto, vocĂȘ nĂŁo Ă© um lutadorâ, ele me disse
e eu me levantei e o derrubei sobre a cadeira com uma pancada;
foi como uma cena de filme, e
e ele ficou lĂĄ sentado sobre seu traseiro gordo e disse
sem parar: âJesus, Jesus, qualĂ© o seu
problema?â e eu me levantei e me vesti,
ainda com o esparadrapo nas mĂŁos, e quando cheguei em casa
arranquei o esparadrapo das minhas mĂŁos e
escrevi meu primeiro poema,
e venho lutando
desde entĂŁo.
O Pior E o Melhor
nos hospitais e nas cadeias
estĂĄ o pior
nos hospĂcios
estĂĄ o pior
nas coberturas
estĂĄ o pior
nos albergues vagabundos
estĂĄ o pior
nas leituras de poesia
nos concertos de rock
nos shows beneficentes para os invĂĄlidos
estĂĄ o pior
nos funerais
nos casamentos
estĂĄ o pior
nas paradas
nos rinques de patinação
nas orgias sexuais
estĂĄ o pior
Ă meia-noite
Ă s 3 da manhĂŁ
Ă s 5h45 da tarde
estĂĄ o pior
pelotÔes de fuzilamento
rasgando o céu
isto Ă© o melhor
pensar na Ăndia
olhando para as carrocinhas de pipoca
assistindo ao touro pegar o matador
isto Ă© o melhor
lĂąmpadas encaixotadas
um velho cão se coçando
amendoins em um saquinho
isto Ă© o melhor
jogar inseticida nas baratas
um par de meias limpas
coragem natural vencendo o talento natural
isto Ă© o melhor
de frente para pelotÔes de fuzilamento
lançar pedaços de pão às gaivotas
fatiar tomates
isto Ă© o melhor
tapetes com marcas de cigarro
fendas nas calçadas
garçonetes que mantĂȘm a sanidade
isto Ă© o melhor
minhas mĂŁos mortas
meu coração morto
silĂȘncio
adĂĄgio de pedras
o mundo em chamas
isto Ă© o melhor
para mim.
O carteiro favorito de Stone era Matthew Battles. Battles nunca aparecia com um amassadinho na camisa. De fato, tudo o que ele usava era novo, parecia novo. Os sapatos, as camisas, as calças, o quepe. Seus sapatos brilhavam de verdade e nenhuma de suas roupas parecia ter sido lavada mais do que uma vez. Assim que uma camisa ou um par de calças apresentavam algum sinal de uso, ele os jogava fora.
Quando Matthew passava, o Stone frequentemente nos dizia:
â Olhem bem, isso sim Ă© um carteiro!
E o Stone dizia aquilo a sério. Seus olhos quase faiscavam de amor.
E Matthew ficava lå em pé em frente à sua caixa, limpo e ereto, penteado e com um rosto descansado, os sapatos brilhando de um jeito vitorioso, jogando suas cartas com alegria.
â VocĂȘ Ă© um autĂȘntico carteiro, Matthew!
â Obrigado, sr. Jonstone!
Certa vez, Ă s cinco da manhĂŁ, entrei e fiquei esperando bem atrĂĄs do Stone. Ele parecia um pouco curvo debaixo de sua camisa vermelha.
Moto estava ao meu lado. Ele me disse:
â Flagraram o Matthew ontem.
â Flagraram ele?
â Ă, ele andava abrindo as correspondĂȘncias. Tirava o dinheiro das cartas para o Templo Nekalayla. Depois de quinze anos de serviço.
â Como descobriram?
â Graças a umas senhoras. As velhas mandavam donativos em dinheiro para o Nekalayla e nĂŁo estavam recebendo nem um cartĂŁo de agradecimento. Nekalayla avisou os Correios e os Correios ficaram de olho em Matthew. Pegaram ele tirando o dinheiro das cartas no banheiro.
â NĂŁo brinca?
â SĂ©rio. Foi pego em plena luz do dia.
Encostei-me na parede.
Nekalayla tinha construĂdo um enorme templo, pintando-o de um verde horrendo, acho que aquele verde lhe lembrava a cor de dinheiro, e tinha um escritĂłrio com uma equipe de trinta ou quarenta pessoas que nĂŁo faziam nada alĂ©m de abrir envelopes, retirar os cheques e o dinheiro, registrar o montante, o nome do remetente, a data e assim por diante. Outros se ocupavam enviando livros e panfletos escritos por Nekalayla, sua foto estava na parede, uma foto enorme dele com roupas religiosas e barba, havia tambĂ©m um quadro muito grande de N., voltado para o escritĂłrio, como se vigiasse a todos.
Nekalayla declarava que certa vez, em suas andanças pelo deserto, encontrou Jesus Cristo e que Ele tinha lhe contado tudo. Sentaram juntos numa pedra, e J.C. foi desembuchando tudo. Agora ele transmitia os segredos para os que pudessem pagar por eles. Também celebrava uma cerimÎnia todo domingo. Seus ajudantes, que eram também seus seguidores, viviam tocando sinos e campainhas.
Imagine Matthew Battles tentando sacanear Nekalayla, o mesmo cara que tinha se encontrado com Jesus Cristo num deserto!
â AlguĂ©m jĂĄ comentou algo com o Stone? â perguntei.
â VocĂȘ estĂĄ brincando?
Ficamos sentados por mais ou menos uma hora. Um estagiårio foi designado para substituir o Matthew. Os outros foram escalados pra outros serviços. Fiquei sentado sozinho atrås do Stone. Então levantei e fui até sua mesa.
â Sr. Jonstone?
â Sim, Chinaski?
â Onde estĂĄ Matthew hoje? Doente?
O Stone baixou a cabeça. Olhou o jornal que tinha nas mãos e fingiu continuar a sua leitura. Voltei para o meu lugar e me sentei.
Ăs sete da manhĂŁ, o Stone se virou:
â NĂŁo hĂĄ nada pra vocĂȘ hoje, Chinaski!
Levantei e fui em direção à porta. Parei bem ali.
â Bom dia, sr. Jonstone. Tenha um bom dia.
Ele não respondeu. Desci até a loja de bebidas e comprei uma garrafinha de Grandad para o café da manhã.
As vozes das pessoas eram as mesmas, nĂŁo importa onde vocĂȘ entregasse a correspondĂȘncia, vocĂȘ escutava sempre as mesmas coisas.
â VocĂȘ estĂĄ atrasado, nĂŁo estĂĄ?
â Onde estĂĄ o carteiro de sempre?
â OlĂĄ, Tio Sam!
â Carteiro! Carteiro! Essa carta nĂŁo Ă© daqui!
As ruas estavam cheias de pessoas insanas e estĂșpidas. A maioria delas morava em belas casas e nĂŁo parecia trabalhar, e vocĂȘ se perguntava como elas faziam para sobreviver. Havia um cara que nunca deixava vocĂȘ colocar a correspondĂȘncia em sua caixa. Ficava parado na calçada, esperando vocĂȘ aparecer a duas ou trĂȘs quadras de distĂąncia e lĂĄ ficava, a mĂŁo estendida.
Perguntei a alguns dos outros que jĂĄ tinham feito aquela rota:
â O que hĂĄ de errado com aquele cara que fica lĂĄ parado com a mĂŁo estendida?
â Que cara que fica parado com a mĂŁo estendida? â perguntaram.
Todos eles também tinham a mesma voz.
Um dia, quando eu fazia essa rota, o homem-que-estende-a-mĂŁo estava a meia quadra, rua acima. Conversava com um vizinho, olhou para trĂĄs em minha direção a mais de uma quadra de distĂąncia e achou que daria tempo de voltar e me alcançar. Quando se virou de costas para mim, comecei a correr. Nem acredito que eu possa ter entregado as cartas tĂŁo depressa, todo avanço e movimento, sem fazer uma pausa, eu ia batĂȘ-lo. JĂĄ estava com meia carta em sua caixa quando ele se voltou e me viu.
â OH, NĂO, NĂO, NĂO! â gritou. â NĂO A COLOQUE NA CAIXA!
Desceu a rua correndo em minha direção. Tudo o que eu vi foi o movimento indistinto de seus pés. Ele deve ter corrido cem metros em 9,2 segundos.
Pus a carta em sua mão. Olhei-o abrir a carta, andar em direção à varanda, abrir a porta e entrar em casa. Alguém um dia terå de me dizer o que significava tudo aquilo.
Outra vez eu estava numa nova rota. O Stone sempre me colocava em rotas difĂceis, mas de vez em quando, dadas as circunstĂąncias das coisas, ele era obrigado a me deslocar para uma menos perigosa. Com a rota 511 eu ia me dando muito bem e lĂĄ estava eu pensando novamente na hora do almoço, o almoço que nunca chegava.
Era um bairro residencial de classe média. Sem apartamentos. Somente casas e mais casas com seus jardins bem cuidados. Mas era uma nova rota e eu ia me perguntando onde estaria a armadilha. Até o tempo estava agradåvel.
Por Deus, pensei, desta vez vou conseguir! Almoço e volto ainda em tempo! A vida, finalmente, era suportåvel!
As pessoas por aqui não tinham nem cachorro. Ninguém parado do lado de fora esperando a sua carta. Eu não ouvia uma voz humana por horas. Talvez eu tivesse atingido a minha maturidade como carteiro, o que quer que isto significasse. Eu seguia em frente, eficiente, quase dedicado.
Lembrei-me de um dos carteiros mais velhos, apontando o peito e dizendo:
â Chinaski, um dia esse negĂłcio vai pegar vocĂȘ, vai pegar bem aqui!
â Ataque cardĂaco?
â Dedicação ao serviço. Espere e verĂĄ. VocĂȘ sentirĂĄ orgulho com o trabalho.
â Bobagem!
Mas o homem tinha sido sincero.
Pensava nele enquanto caminhava.
Agora eu levava uma carta registrada com recibo a ser assinado.
Avancei e toquei a campainha. Alguém abriu o postigo da porta. Não pude ver o rosto.
â Carta registrada!
â Para trĂĄs! â exclamou uma voz de mulher. Para trĂĄs para que eu possa ver o seu rosto!
Bem, aĂ estava, pensei, mais uma louca.
â Escute, minha senhora, a senhora nĂŁo precisa ver o meu rosto. Vou enfiar este canhoto na sua caixa de correio e a senhora pode apanhar a sua carta lĂĄ no posto. Leve um documento de identidade.
Deixei o canhoto em sua caixa e fui me afastando.
A porta se abriu e ela veio correndo. Usava uma dessas combinaçÔes transparentes e estava sem sutiã. Apenas uma calcinha azul-marinho. Seu cabelo estava despenteado e armado como se tentasse fugir da cabeça. Parecia haver algum tipo de creme em seu rosto, principalmente debaixo dos olhos. O seu corpo era branco, como se o sol jamais tivesse tocado sua pele e seu rosto tinha um aspecto pouco saudåvel. Sua boca estava escancarada. Usava um risco de batom e era bem torneada de cima a baixo...
Percebi tudo isso quando ela correu em minha direção. Jå estava deslizando a carta registrada de volta ao malote.
Ela gritou:
â Me dĂȘ a carta!
Eu disse:
â Espere, a senhora terĂĄ...
Ela agarrou a carta, correu até a porta, abriu-a e correu para dentro.
Droga! VocĂȘ nĂŁo podia voltar sem a carta registrada ou ao menos a assinatura! Era preciso registrar, assinar, dar baixa nessas coisas.
â Ei!
Fui atrås dela e meti o pé na porta bem a tempo.
â EI! SUA DESGRAĂADA!
â VĂĄ embora! VĂĄ embora! VocĂȘ Ă© um bandido!
â Olhe, senhora! Tente entender! A senhora precisa assinar a carta. NĂŁo pode ficar com ela assim! A senhora estĂĄ roubando os Correios dos Estados Unidos!
â VĂĄ embora, seu bandido!
Joguei todo o meu peso contra a porta e entrei sala adentro. A escuridĂŁo era total. Todas as persianas estavam baixadas. Todas as persianas da casa estavam baixadas.
â O SENHOR NĂO TEM O DIREITO DE ENTRAR NA MINHA CASA! SAIA!
â E a senhora nĂŁo tem o direito de roubar os Correios! Ou devolve a carta ou terĂĄ de assinĂĄ-la. Depois disso eu saio.
â EstĂĄ bem! EstĂĄ bem! Eu assinarei!
Mostrei onde assinar e lhe entreguei uma caneta. Olhei para os seus peitos e para o resto do corpo e pensei, que pena que ela seja louca, que pena, que pena.
Ela me devolveu a caneta e a sua assinatura â era simplesmente um rabisco. Abriu a carta e começou a ler, enquanto me virava para sair.
Então se posicionou em frente à porta, os braços em cruz. A carta estava no chão.
â Bandido! Bandido! Bandido! VocĂȘ veio aqui para me estuprar!
â Escute, senhora, deixe eu passar!
â A MALDADE ESTĂ ESTAMPADA NA SUA CARA!
â E a senhora acha que eu nĂŁo sei? Agora me deixe sair!
Com uma das mãos tentei empurrå-la para o lado. Ela cravou as unhas em meu rosto, de jeito. Deixei cair o malote, o meu quepe escorregou, e, enquanto eu pegava um lenço para estancar o sangue, ela avançou e atacou a outra face.
â SUA VADIA! QUE DIABOS HĂ DE ERRADO COM VOCĂ?
â Viu? Viu sĂł? VocĂȘ Ă© um bandido!
Ela estava de pé bem junto de mim. Agarrei-a pela bunda e lhe beijei a boca. Aqueles peitos roçavam em mim, ela toda estava junto a mim. Afastou a cabeça para trås, distanciando-se:
â Estuprador! Estuprador! Maldito estuprador!
Me inclinei e levei minha boca a um dos peitos, depois beijei o outro.
â Estupro! Estupro! Estou sendo estuprada!
Ela estava certa. Puxei suas calcinhas, abri o zĂper, coloquei meu pau para dentro. EntĂŁo fui conduzindo-a em direção ao sofĂĄ. CaĂmos sobre ele.
Ela ergueu as pernas bem alto.
â ESTUPRO! â gritou.
Meti atĂ© gozar, fechei o zĂper, apanhei a mala do correio e me afastei enquanto ela olhava absorta e em silĂȘncio para o teto...
Perdi o almoço, mas nem assim consegui cumprir a tabela.
â VocĂȘ estĂĄ quinze minutos atrasado â disse o Stone.
Eu nĂŁo disse nada.
O Stone olhou pra mim.
â Por Deus, o que houve com o seu rosto? â perguntou.
â O que houve com o seu? â perguntei.
â O que vocĂȘ quer dizer?
â Esquece.
â Cartas na rua
estĂĄ o pior
nos hospĂcios
estĂĄ o pior
nas coberturas
estĂĄ o pior
nos albergues vagabundos
estĂĄ o pior
nas leituras de poesia
nos concertos de rock
nos shows beneficentes para os invĂĄlidos
estĂĄ o pior
nos funerais
nos casamentos
estĂĄ o pior
nas paradas
nos rinques de patinação
nas orgias sexuais
estĂĄ o pior
Ă meia-noite
Ă s 3 da manhĂŁ
Ă s 5h45 da tarde
estĂĄ o pior
pelotÔes de fuzilamento
rasgando o céu
isto Ă© o melhor
pensar na Ăndia
olhando para as carrocinhas de pipoca
assistindo ao touro pegar o matador
isto Ă© o melhor
lĂąmpadas encaixotadas
um velho cão se coçando
amendoins em um saquinho
isto Ă© o melhor
jogar inseticida nas baratas
um par de meias limpas
coragem natural vencendo o talento natural
isto Ă© o melhor
de frente para pelotÔes de fuzilamento
lançar pedaços de pão às gaivotas
fatiar tomates
isto Ă© o melhor
tapetes com marcas de cigarro
fendas nas calçadas
garçonetes que mantĂȘm a sanidade
isto Ă© o melhor
minhas mĂŁos mortas
meu coração morto
silĂȘncio
adĂĄgio de pedras
o mundo em chamas
isto Ă© o melhor
para mim.
O carteiro favorito de Stone era Matthew Battles. Battles nunca aparecia com um amassadinho na camisa. De fato, tudo o que ele usava era novo, parecia novo. Os sapatos, as camisas, as calças, o quepe. Seus sapatos brilhavam de verdade e nenhuma de suas roupas parecia ter sido lavada mais do que uma vez. Assim que uma camisa ou um par de calças apresentavam algum sinal de uso, ele os jogava fora.
Quando Matthew passava, o Stone frequentemente nos dizia:
â Olhem bem, isso sim Ă© um carteiro!
E o Stone dizia aquilo a sério. Seus olhos quase faiscavam de amor.
E Matthew ficava lå em pé em frente à sua caixa, limpo e ereto, penteado e com um rosto descansado, os sapatos brilhando de um jeito vitorioso, jogando suas cartas com alegria.
â VocĂȘ Ă© um autĂȘntico carteiro, Matthew!
â Obrigado, sr. Jonstone!
Certa vez, Ă s cinco da manhĂŁ, entrei e fiquei esperando bem atrĂĄs do Stone. Ele parecia um pouco curvo debaixo de sua camisa vermelha.
Moto estava ao meu lado. Ele me disse:
â Flagraram o Matthew ontem.
â Flagraram ele?
â Ă, ele andava abrindo as correspondĂȘncias. Tirava o dinheiro das cartas para o Templo Nekalayla. Depois de quinze anos de serviço.
â Como descobriram?
â Graças a umas senhoras. As velhas mandavam donativos em dinheiro para o Nekalayla e nĂŁo estavam recebendo nem um cartĂŁo de agradecimento. Nekalayla avisou os Correios e os Correios ficaram de olho em Matthew. Pegaram ele tirando o dinheiro das cartas no banheiro.
â NĂŁo brinca?
â SĂ©rio. Foi pego em plena luz do dia.
Encostei-me na parede.
Nekalayla tinha construĂdo um enorme templo, pintando-o de um verde horrendo, acho que aquele verde lhe lembrava a cor de dinheiro, e tinha um escritĂłrio com uma equipe de trinta ou quarenta pessoas que nĂŁo faziam nada alĂ©m de abrir envelopes, retirar os cheques e o dinheiro, registrar o montante, o nome do remetente, a data e assim por diante. Outros se ocupavam enviando livros e panfletos escritos por Nekalayla, sua foto estava na parede, uma foto enorme dele com roupas religiosas e barba, havia tambĂ©m um quadro muito grande de N., voltado para o escritĂłrio, como se vigiasse a todos.
Nekalayla declarava que certa vez, em suas andanças pelo deserto, encontrou Jesus Cristo e que Ele tinha lhe contado tudo. Sentaram juntos numa pedra, e J.C. foi desembuchando tudo. Agora ele transmitia os segredos para os que pudessem pagar por eles. Também celebrava uma cerimÎnia todo domingo. Seus ajudantes, que eram também seus seguidores, viviam tocando sinos e campainhas.
Imagine Matthew Battles tentando sacanear Nekalayla, o mesmo cara que tinha se encontrado com Jesus Cristo num deserto!
â AlguĂ©m jĂĄ comentou algo com o Stone? â perguntei.
â VocĂȘ estĂĄ brincando?
Ficamos sentados por mais ou menos uma hora. Um estagiårio foi designado para substituir o Matthew. Os outros foram escalados pra outros serviços. Fiquei sentado sozinho atrås do Stone. Então levantei e fui até sua mesa.
â Sr. Jonstone?
â Sim, Chinaski?
â Onde estĂĄ Matthew hoje? Doente?
O Stone baixou a cabeça. Olhou o jornal que tinha nas mãos e fingiu continuar a sua leitura. Voltei para o meu lugar e me sentei.
Ăs sete da manhĂŁ, o Stone se virou:
â NĂŁo hĂĄ nada pra vocĂȘ hoje, Chinaski!
Levantei e fui em direção à porta. Parei bem ali.
â Bom dia, sr. Jonstone. Tenha um bom dia.
Ele não respondeu. Desci até a loja de bebidas e comprei uma garrafinha de Grandad para o café da manhã.
As vozes das pessoas eram as mesmas, nĂŁo importa onde vocĂȘ entregasse a correspondĂȘncia, vocĂȘ escutava sempre as mesmas coisas.
â VocĂȘ estĂĄ atrasado, nĂŁo estĂĄ?
â Onde estĂĄ o carteiro de sempre?
â OlĂĄ, Tio Sam!
â Carteiro! Carteiro! Essa carta nĂŁo Ă© daqui!
As ruas estavam cheias de pessoas insanas e estĂșpidas. A maioria delas morava em belas casas e nĂŁo parecia trabalhar, e vocĂȘ se perguntava como elas faziam para sobreviver. Havia um cara que nunca deixava vocĂȘ colocar a correspondĂȘncia em sua caixa. Ficava parado na calçada, esperando vocĂȘ aparecer a duas ou trĂȘs quadras de distĂąncia e lĂĄ ficava, a mĂŁo estendida.
Perguntei a alguns dos outros que jĂĄ tinham feito aquela rota:
â O que hĂĄ de errado com aquele cara que fica lĂĄ parado com a mĂŁo estendida?
â Que cara que fica parado com a mĂŁo estendida? â perguntaram.
Todos eles também tinham a mesma voz.
Um dia, quando eu fazia essa rota, o homem-que-estende-a-mĂŁo estava a meia quadra, rua acima. Conversava com um vizinho, olhou para trĂĄs em minha direção a mais de uma quadra de distĂąncia e achou que daria tempo de voltar e me alcançar. Quando se virou de costas para mim, comecei a correr. Nem acredito que eu possa ter entregado as cartas tĂŁo depressa, todo avanço e movimento, sem fazer uma pausa, eu ia batĂȘ-lo. JĂĄ estava com meia carta em sua caixa quando ele se voltou e me viu.
â OH, NĂO, NĂO, NĂO! â gritou. â NĂO A COLOQUE NA CAIXA!
Desceu a rua correndo em minha direção. Tudo o que eu vi foi o movimento indistinto de seus pés. Ele deve ter corrido cem metros em 9,2 segundos.
Pus a carta em sua mão. Olhei-o abrir a carta, andar em direção à varanda, abrir a porta e entrar em casa. Alguém um dia terå de me dizer o que significava tudo aquilo.
Outra vez eu estava numa nova rota. O Stone sempre me colocava em rotas difĂceis, mas de vez em quando, dadas as circunstĂąncias das coisas, ele era obrigado a me deslocar para uma menos perigosa. Com a rota 511 eu ia me dando muito bem e lĂĄ estava eu pensando novamente na hora do almoço, o almoço que nunca chegava.
Era um bairro residencial de classe média. Sem apartamentos. Somente casas e mais casas com seus jardins bem cuidados. Mas era uma nova rota e eu ia me perguntando onde estaria a armadilha. Até o tempo estava agradåvel.
Por Deus, pensei, desta vez vou conseguir! Almoço e volto ainda em tempo! A vida, finalmente, era suportåvel!
As pessoas por aqui não tinham nem cachorro. Ninguém parado do lado de fora esperando a sua carta. Eu não ouvia uma voz humana por horas. Talvez eu tivesse atingido a minha maturidade como carteiro, o que quer que isto significasse. Eu seguia em frente, eficiente, quase dedicado.
Lembrei-me de um dos carteiros mais velhos, apontando o peito e dizendo:
â Chinaski, um dia esse negĂłcio vai pegar vocĂȘ, vai pegar bem aqui!
â Ataque cardĂaco?
â Dedicação ao serviço. Espere e verĂĄ. VocĂȘ sentirĂĄ orgulho com o trabalho.
â Bobagem!
Mas o homem tinha sido sincero.
Pensava nele enquanto caminhava.
Agora eu levava uma carta registrada com recibo a ser assinado.
Avancei e toquei a campainha. Alguém abriu o postigo da porta. Não pude ver o rosto.
â Carta registrada!
â Para trĂĄs! â exclamou uma voz de mulher. Para trĂĄs para que eu possa ver o seu rosto!
Bem, aĂ estava, pensei, mais uma louca.
â Escute, minha senhora, a senhora nĂŁo precisa ver o meu rosto. Vou enfiar este canhoto na sua caixa de correio e a senhora pode apanhar a sua carta lĂĄ no posto. Leve um documento de identidade.
Deixei o canhoto em sua caixa e fui me afastando.
A porta se abriu e ela veio correndo. Usava uma dessas combinaçÔes transparentes e estava sem sutiã. Apenas uma calcinha azul-marinho. Seu cabelo estava despenteado e armado como se tentasse fugir da cabeça. Parecia haver algum tipo de creme em seu rosto, principalmente debaixo dos olhos. O seu corpo era branco, como se o sol jamais tivesse tocado sua pele e seu rosto tinha um aspecto pouco saudåvel. Sua boca estava escancarada. Usava um risco de batom e era bem torneada de cima a baixo...
Percebi tudo isso quando ela correu em minha direção. Jå estava deslizando a carta registrada de volta ao malote.
Ela gritou:
â Me dĂȘ a carta!
Eu disse:
â Espere, a senhora terĂĄ...
Ela agarrou a carta, correu até a porta, abriu-a e correu para dentro.
Droga! VocĂȘ nĂŁo podia voltar sem a carta registrada ou ao menos a assinatura! Era preciso registrar, assinar, dar baixa nessas coisas.
â Ei!
Fui atrås dela e meti o pé na porta bem a tempo.
â EI! SUA DESGRAĂADA!
â VĂĄ embora! VĂĄ embora! VocĂȘ Ă© um bandido!
â Olhe, senhora! Tente entender! A senhora precisa assinar a carta. NĂŁo pode ficar com ela assim! A senhora estĂĄ roubando os Correios dos Estados Unidos!
â VĂĄ embora, seu bandido!
Joguei todo o meu peso contra a porta e entrei sala adentro. A escuridĂŁo era total. Todas as persianas estavam baixadas. Todas as persianas da casa estavam baixadas.
â O SENHOR NĂO TEM O DIREITO DE ENTRAR NA MINHA CASA! SAIA!
â E a senhora nĂŁo tem o direito de roubar os Correios! Ou devolve a carta ou terĂĄ de assinĂĄ-la. Depois disso eu saio.
â EstĂĄ bem! EstĂĄ bem! Eu assinarei!
Mostrei onde assinar e lhe entreguei uma caneta. Olhei para os seus peitos e para o resto do corpo e pensei, que pena que ela seja louca, que pena, que pena.
Ela me devolveu a caneta e a sua assinatura â era simplesmente um rabisco. Abriu a carta e começou a ler, enquanto me virava para sair.
Então se posicionou em frente à porta, os braços em cruz. A carta estava no chão.
â Bandido! Bandido! Bandido! VocĂȘ veio aqui para me estuprar!
â Escute, senhora, deixe eu passar!
â A MALDADE ESTĂ ESTAMPADA NA SUA CARA!
â E a senhora acha que eu nĂŁo sei? Agora me deixe sair!
Com uma das mãos tentei empurrå-la para o lado. Ela cravou as unhas em meu rosto, de jeito. Deixei cair o malote, o meu quepe escorregou, e, enquanto eu pegava um lenço para estancar o sangue, ela avançou e atacou a outra face.
â SUA VADIA! QUE DIABOS HĂ DE ERRADO COM VOCĂ?
â Viu? Viu sĂł? VocĂȘ Ă© um bandido!
Ela estava de pé bem junto de mim. Agarrei-a pela bunda e lhe beijei a boca. Aqueles peitos roçavam em mim, ela toda estava junto a mim. Afastou a cabeça para trås, distanciando-se:
â Estuprador! Estuprador! Maldito estuprador!
Me inclinei e levei minha boca a um dos peitos, depois beijei o outro.
â Estupro! Estupro! Estou sendo estuprada!
Ela estava certa. Puxei suas calcinhas, abri o zĂper, coloquei meu pau para dentro. EntĂŁo fui conduzindo-a em direção ao sofĂĄ. CaĂmos sobre ele.
Ela ergueu as pernas bem alto.
â ESTUPRO! â gritou.
Meti atĂ© gozar, fechei o zĂper, apanhei a mala do correio e me afastei enquanto ela olhava absorta e em silĂȘncio para o teto...
Perdi o almoço, mas nem assim consegui cumprir a tabela.
â VocĂȘ estĂĄ quinze minutos atrasado â disse o Stone.
Eu nĂŁo disse nada.
O Stone olhou pra mim.
â Por Deus, o que houve com o seu rosto? â perguntou.
â O que houve com o seu? â perguntei.
â O que vocĂȘ quer dizer?
â Esquece.
â Cartas na rua
O Principal
aà vem a cabeça de peixe cantante
aĂ vem a batata assada em sua roupa bizarra
aĂ vem nada para fazer o dia todo
aĂ vem outra noite sem conciliar o sono
aĂ vem o telefone e sua campainha errada
aĂ vem um cupim com um banjo
aĂ vem um mastro com olhos vazios
aĂ vem um gato e um cachorro usando meias de nĂĄilon
aĂ vem uma metralhadora em cantoria
aĂ vem o bacon numa frigideira
aĂ vem uma voz dizendo qualquer coisa tola
aĂ vem um jornal recheado com pequenos pĂĄssaros vermelhos
com bicos marrons e retos
aĂ vem uma buceta carregando uma tocha
uma granada
um amor fatal
aĂ vem a vitĂłria carregando
um balde de sangue
e tropeçando num arbusto
e os lençóis pendurados nas janelas
e os bombardeiros em direção a leste oeste norte sul
se perdem
se reviram como salada
enquanto todos os peixes no mar se alinham em fila
Ășnica
uma longa fila
muito longa e fina
a linha mais longa que vocĂȘ puder imaginar
e nĂłs nos perdemos
cruzando montanhas pĂșrpuras
caminhamos a esmo
por fim nus como a faca
tendo desistido
tendo posto tudo pra fora como uma inesperada semente de azeitona
enquanto a garota da central telefĂŽnica
grita ao telefone:
ânĂŁo retorne a ligação! vocĂȘ parece um cretino!â
aĂ vem a batata assada em sua roupa bizarra
aĂ vem nada para fazer o dia todo
aĂ vem outra noite sem conciliar o sono
aĂ vem o telefone e sua campainha errada
aĂ vem um cupim com um banjo
aĂ vem um mastro com olhos vazios
aĂ vem um gato e um cachorro usando meias de nĂĄilon
aĂ vem uma metralhadora em cantoria
aĂ vem o bacon numa frigideira
aĂ vem uma voz dizendo qualquer coisa tola
aĂ vem um jornal recheado com pequenos pĂĄssaros vermelhos
com bicos marrons e retos
aĂ vem uma buceta carregando uma tocha
uma granada
um amor fatal
aĂ vem a vitĂłria carregando
um balde de sangue
e tropeçando num arbusto
e os lençóis pendurados nas janelas
e os bombardeiros em direção a leste oeste norte sul
se perdem
se reviram como salada
enquanto todos os peixes no mar se alinham em fila
Ășnica
uma longa fila
muito longa e fina
a linha mais longa que vocĂȘ puder imaginar
e nĂłs nos perdemos
cruzando montanhas pĂșrpuras
caminhamos a esmo
por fim nus como a faca
tendo desistido
tendo posto tudo pra fora como uma inesperada semente de azeitona
enquanto a garota da central telefĂŽnica
grita ao telefone:
ânĂŁo retorne a ligação! vocĂȘ parece um cretino!â
O Soldado, Sua Mulher e o Vagabundo
eu vivia como um vagabundo em SĂŁo Francisco mas certa vez consegui
ir a um concerto sinfĂŽnico junto com pessoas
bem-vestidas
e a mĂșsica era boa mas algo relacionado Ă
audiĂȘncia nĂŁo era
e algo relacionado Ă orquestra
e ao maestro nĂŁo
era,
embora o prédio fosse ótimo e a
acĂșstica perfeita
eu preferia escutar mĂșsica sozinho
no meu rĂĄdio
e depois disso eu voltei para o meu quarto e
liguei o rĂĄdio mas
veio entĂŁo uma pancada na parede:
âDESLIGA ESSE MALDITO NEGĂCIO!â
havia um soldado no quarto ao lado
vivendo com sua mulher
e logo ele seria mandado para o front para me proteger
de Hitler e entĂŁo
eu desliguei o rĂĄdio e ouvi sua
mulher dizer, âvocĂȘ nĂŁo devia ter feito issoâ.
e o soldado disse, âPOR QUE ESSE OTĂRIO NĂO VAI SE FODER?!â
o que me pareceu ser uma Ăłtima coisa para
fazer com sua mulher.
claro,
isso nunca aconteceu.
de qualquer modo, jamais voltei a pÎr meus pés num concerto
e naquela noite escutei o rĂĄdio bem
baixinho, meu ouvido colado ao
alto-falante.
a guerra tem seu preço e a paz nunca dura e
milhĂ”es de homens na flor da idade iriam morrer por aĂ
e enquanto eu escutava mĂșsica clĂĄssica
ouvi os dois fazendo amor, desesperados e
lastimosos, através de Shostakovich, Brahms,
Mozart, atravĂ©s do crescendo e do clĂmax
e através da parede
dividida de nossas escuridÔes.
ir a um concerto sinfĂŽnico junto com pessoas
bem-vestidas
e a mĂșsica era boa mas algo relacionado Ă
audiĂȘncia nĂŁo era
e algo relacionado Ă orquestra
e ao maestro nĂŁo
era,
embora o prédio fosse ótimo e a
acĂșstica perfeita
eu preferia escutar mĂșsica sozinho
no meu rĂĄdio
e depois disso eu voltei para o meu quarto e
liguei o rĂĄdio mas
veio entĂŁo uma pancada na parede:
âDESLIGA ESSE MALDITO NEGĂCIO!â
havia um soldado no quarto ao lado
vivendo com sua mulher
e logo ele seria mandado para o front para me proteger
de Hitler e entĂŁo
eu desliguei o rĂĄdio e ouvi sua
mulher dizer, âvocĂȘ nĂŁo devia ter feito issoâ.
e o soldado disse, âPOR QUE ESSE OTĂRIO NĂO VAI SE FODER?!â
o que me pareceu ser uma Ăłtima coisa para
fazer com sua mulher.
claro,
isso nunca aconteceu.
de qualquer modo, jamais voltei a pÎr meus pés num concerto
e naquela noite escutei o rĂĄdio bem
baixinho, meu ouvido colado ao
alto-falante.
a guerra tem seu preço e a paz nunca dura e
milhĂ”es de homens na flor da idade iriam morrer por aĂ
e enquanto eu escutava mĂșsica clĂĄssica
ouvi os dois fazendo amor, desesperados e
lastimosos, através de Shostakovich, Brahms,
Mozart, atravĂ©s do crescendo e do clĂmax
e através da parede
dividida de nossas escuridÔes.
Os Lixeiros
aĂ vĂȘm eles
esses caras
caminhĂŁo cinza
rĂĄdio ligado
estĂŁo com pressa
Ă© muito excitante:
camisa aberta
as barrigas pendendo
recolhem as latas de lixo
esvaziam-nas na compactadora
e entĂŁo o mecanismo sobe
barulhento demais...
eles precisam preencher formulĂĄrios de requerimento
para conseguir esses trabalhos
precisam pagar as prestaçÔes da casa e
dirigem carros do ano
embebedam-se sĂĄbado Ă noite
agora sob o sol de Los Angeles
correm pra lĂĄ e pra cĂĄ atrĂĄs de latas de lixo
todo o lixo vai pra algum lugar
e eles gritam uns para os outros
entĂŁo estĂŁo todos no caminhĂŁo
seguindo para oeste em direção ao mar
nenhum deles sabe
que estou vivo
REX DISPOSAL CO.
esses caras
caminhĂŁo cinza
rĂĄdio ligado
estĂŁo com pressa
Ă© muito excitante:
camisa aberta
as barrigas pendendo
recolhem as latas de lixo
esvaziam-nas na compactadora
e entĂŁo o mecanismo sobe
barulhento demais...
eles precisam preencher formulĂĄrios de requerimento
para conseguir esses trabalhos
precisam pagar as prestaçÔes da casa e
dirigem carros do ano
embebedam-se sĂĄbado Ă noite
agora sob o sol de Los Angeles
correm pra lĂĄ e pra cĂĄ atrĂĄs de latas de lixo
todo o lixo vai pra algum lugar
e eles gritam uns para os outros
entĂŁo estĂŁo todos no caminhĂŁo
seguindo para oeste em direção ao mar
nenhum deles sabe
que estou vivo
REX DISPOSAL CO.
Os Últimos Dias do Garoto Suicida
posso me ver agora
depois de todos esses dias e noites de suicĂdio
sendo arrastado em uma cadeira de rodas numa dessas casas de repouso estéreis
(claro, isto apenas se eu tiver sorte e for famoso)
por uma enfermeira retardada e aborrecida...
entĂŁo me sentarei muito ereto em minha cadeira...
quase cego, os olhos voltados para a parte escura de meu crĂąnio
Ă procura da
misericĂłrdia da morte...
âNĂŁo Ă© um dia lindo, sr. Bukowski?â
âĂ, claro, claro...â
as crianças cruzam por mim e eu sequer existo
e mulheres adorĂĄveis passeiam por ali
com quadris enormes e deliciosos
e traseiros fogosos e firmes e quentes e tudo o mais
implorando para serem amadas
e eu sequer
existo...
âĂ o primeiro dia de sol em 3 dias,
sr. Bukowski.â
âĂ, claro, claro.â
lĂĄ estou eu sentado muito ereto em minha cadeira de rodas,
mais branco do que uma folha de papel
exangue,
desmiolado, uma aposta perdida, eu, Bukowski,
perdido...
âNĂŁo Ă© um dia lindo, sr. Bukowski?â
âĂ, claro, claro...â mijando no meu pijama, a baba me escorrendo
da boca.
2 jovens estudantes passam correndo â
âEi, vocĂȘ viu aquele velho?â
âDeus, sim, Ă© de embrulhar o estĂŽmago!â
depois de todas as ameaças em fazĂȘ-lo
uma outra pessoa cometeu suicĂdio por mim
afinal.
a enfermeira detém a cadeira, arranca uma rosa do canteiro próximo,
coloca-a na minha mĂŁo.
nĂŁo sei nem mesmo
o que ela Ă©. poderia ser muito bem o meu pau
por todo o bem
que faz.
depois de todos esses dias e noites de suicĂdio
sendo arrastado em uma cadeira de rodas numa dessas casas de repouso estéreis
(claro, isto apenas se eu tiver sorte e for famoso)
por uma enfermeira retardada e aborrecida...
entĂŁo me sentarei muito ereto em minha cadeira...
quase cego, os olhos voltados para a parte escura de meu crĂąnio
Ă procura da
misericĂłrdia da morte...
âNĂŁo Ă© um dia lindo, sr. Bukowski?â
âĂ, claro, claro...â
as crianças cruzam por mim e eu sequer existo
e mulheres adorĂĄveis passeiam por ali
com quadris enormes e deliciosos
e traseiros fogosos e firmes e quentes e tudo o mais
implorando para serem amadas
e eu sequer
existo...
âĂ o primeiro dia de sol em 3 dias,
sr. Bukowski.â
âĂ, claro, claro.â
lĂĄ estou eu sentado muito ereto em minha cadeira de rodas,
mais branco do que uma folha de papel
exangue,
desmiolado, uma aposta perdida, eu, Bukowski,
perdido...
âNĂŁo Ă© um dia lindo, sr. Bukowski?â
âĂ, claro, claro...â mijando no meu pijama, a baba me escorrendo
da boca.
2 jovens estudantes passam correndo â
âEi, vocĂȘ viu aquele velho?â
âDeus, sim, Ă© de embrulhar o estĂŽmago!â
depois de todas as ameaças em fazĂȘ-lo
uma outra pessoa cometeu suicĂdio por mim
afinal.
a enfermeira detém a cadeira, arranca uma rosa do canteiro próximo,
coloca-a na minha mĂŁo.
nĂŁo sei nem mesmo
o que ela Ă©. poderia ser muito bem o meu pau
por todo o bem
que faz.
Para Jane
225 dias sob a relva
e vocĂȘ sabe mais do que eu.
hĂĄ muito que eles secaram seu sangue,
vocĂȘ nĂŁo Ă© mais que um graveto seco numa lixeira.
Ă© assim que as coisas funcionam?
neste quarto
as horas de amor
ainda fazem sombras.
quando vocĂȘ se foi
levou quase
tudo junto.
Ă s noites me ajoelho
diante de tigres
que nĂŁo deixarĂŁo que eu exista.
o que vocĂȘ foi
nĂŁo voltarĂĄ a se repetir.
os tigres me encontraram
e eu jĂĄ nĂŁo me importo.
e vocĂȘ sabe mais do que eu.
hĂĄ muito que eles secaram seu sangue,
vocĂȘ nĂŁo Ă© mais que um graveto seco numa lixeira.
Ă© assim que as coisas funcionam?
neste quarto
as horas de amor
ainda fazem sombras.
quando vocĂȘ se foi
levou quase
tudo junto.
Ă s noites me ajoelho
diante de tigres
que nĂŁo deixarĂŁo que eu exista.
o que vocĂȘ foi
nĂŁo voltarĂĄ a se repetir.
os tigres me encontraram
e eu jĂĄ nĂŁo me importo.
Para Jane: Com Todo Amor Que Tive, Que Não Foi Suficiente: –
recolho a saia,
recolho as luminosas contas negras
do colar,
esta coisa que uma vez se moveu
em torno da carne,
e chamo Deus de mentiroso,
digo que qualquer coisa que
como esta
tenha se movido
ou conhecido
meu nome
jamais poderia morrer
na verdade comum da morte,
e eu recolho
seu vestido
amado,
esvaziado do amor que dela emanava,
e falo
com todos os deuses,
deuses judeus, deuses cristĂŁos,
pedacinhos de coisas brilhantes
Ădolos, pĂlulas, pĂŁo,
compreensÔes, riscos,
renĂșncias conscientes,
ratos na complacĂȘncia de dois que foram Ă s raias da loucura
sem qualquer chance,
consciĂȘncia de colibri, sorte de colibri
apoio-me nisso,
apoio-me em tudo isso
e sei:
seu vestido sobre meus braços:
mas
ninguém irå
devolvĂȘ-la para mim.
recolho as luminosas contas negras
do colar,
esta coisa que uma vez se moveu
em torno da carne,
e chamo Deus de mentiroso,
digo que qualquer coisa que
como esta
tenha se movido
ou conhecido
meu nome
jamais poderia morrer
na verdade comum da morte,
e eu recolho
seu vestido
amado,
esvaziado do amor que dela emanava,
e falo
com todos os deuses,
deuses judeus, deuses cristĂŁos,
pedacinhos de coisas brilhantes
Ădolos, pĂlulas, pĂŁo,
compreensÔes, riscos,
renĂșncias conscientes,
ratos na complacĂȘncia de dois que foram Ă s raias da loucura
sem qualquer chance,
consciĂȘncia de colibri, sorte de colibri
apoio-me nisso,
apoio-me em tudo isso
e sei:
seu vestido sobre meus braços:
mas
ninguém irå
devolvĂȘ-la para mim.
Parque de Diversões
dirijo à noite até a praia
no inverno
e me sento e olho para o pĂer queimado, onde estava o parque de diversĂ”es
me pergunto por que o deixam ali
na ĂĄgua.
quero que desapareça,
implodido,
varrido,
apagado;
aquele pĂer nĂŁo deveria estar mais ali
com loucos vivendo lĂĄ dentro
as entranhas queimadas do parque de diversÔes...
Ă© terrĂvel, digo, liquidem essa coisa desgraçada,
tirem isso da minha frente,
essa lĂĄpide em pleno mar.
os loucos podem arranjar outros buracos
para se enfiar.
eu costumava caminhar por aquele pĂer quando tinha 8
anos de idade.
no inverno
e me sento e olho para o pĂer queimado, onde estava o parque de diversĂ”es
me pergunto por que o deixam ali
na ĂĄgua.
quero que desapareça,
implodido,
varrido,
apagado;
aquele pĂer nĂŁo deveria estar mais ali
com loucos vivendo lĂĄ dentro
as entranhas queimadas do parque de diversÔes...
Ă© terrĂvel, digo, liquidem essa coisa desgraçada,
tirem isso da minha frente,
essa lĂĄpide em pleno mar.
os loucos podem arranjar outros buracos
para se enfiar.
eu costumava caminhar por aquele pĂer quando tinha 8
anos de idade.
Paz
perto da mesa de canto no
café
senta-se um casal de
meia-idade.
jĂĄ terminaram seu
jantar
e cada um deles bebe uma
cerveja.
sĂŁo 9 da noite.
ela fuma um
cigarro.
entĂŁo ele diz alguma coisa.
ela concorda.
depois fala.
ele sorri, move a
mĂŁo.
os dois estĂŁo
sossegados.
atravĂ©s das persianas junto Ă
sua mesa
luzes fulgurantes de néon vermelho
nĂŁo param de
piscar.
nĂŁo hĂĄ guerra nenhuma.
nĂŁo hĂĄ inferno nenhum.
entĂŁo ele ergue a sua garrafa de
cerveja.
Ă© verde.
leva-a aos lĂĄbios,
inclina-a.
Ă© uma pequena coroa.
o cotovelo esquerdo dela estĂĄ
sobre a mesa
e em sua mĂŁo
ela segura o
cigarro
entre o polegar e o
indicador
e
enquanto ela o
observa
as ruas lĂĄ fora
florescem
sob a
noite.
café
senta-se um casal de
meia-idade.
jĂĄ terminaram seu
jantar
e cada um deles bebe uma
cerveja.
sĂŁo 9 da noite.
ela fuma um
cigarro.
entĂŁo ele diz alguma coisa.
ela concorda.
depois fala.
ele sorri, move a
mĂŁo.
os dois estĂŁo
sossegados.
atravĂ©s das persianas junto Ă
sua mesa
luzes fulgurantes de néon vermelho
nĂŁo param de
piscar.
nĂŁo hĂĄ guerra nenhuma.
nĂŁo hĂĄ inferno nenhum.
entĂŁo ele ergue a sua garrafa de
cerveja.
Ă© verde.
leva-a aos lĂĄbios,
inclina-a.
Ă© uma pequena coroa.
o cotovelo esquerdo dela estĂĄ
sobre a mesa
e em sua mĂŁo
ela segura o
cigarro
entre o polegar e o
indicador
e
enquanto ela o
observa
as ruas lĂĄ fora
florescem
sob a
noite.
Poema de Amor Para Uma Stripper
50 anos atrĂĄs eu assistia Ă s garotas
balançarem seus rabos e se despir
no Burbank e no Follies
e era muito triste
e muito dramĂĄtico
assim que a luz ia do verde para
o pĂșrpura e para o rosa
e a mĂșsica era alta e
vibrante,
agora fico sentado aqui
fumando e
ouvindo mĂșsica
clĂĄssica
mas ainda me lembro de alguns de seus
nomes: Darlene, Candy, Jeanette
e Rosalie.
Rosalie era a
melhor, tinha a manha,
e nĂłs nos revirĂĄvamos em nossas poltronas e
fazĂamos barulho
enquanto Rosalie levava mĂĄgica
aos solitĂĄrios
de tanto tempo atrĂĄs.
escute Rosalie
ou velha demais ou
tranquila demais debaixo da
terra,
aqui fala o garoto
espinhento
que mentia a
idade
sĂł para
te ver.
vocĂȘ era boa, Rosalie
em 1935,
suficientemente boa para ser lembrada
agora
que a luz Ă©
amarela
e as noites correm
mansas.
O tempo do colĂ©gio passou com rapidez suficiente. Por volta da oitava sĂ©rie, indo para a nona, comecei a ter acne. Muitos dos caras tinham esse problema, mas nĂŁo no mesmo grau que eu. Meu caso era realmente terrĂvel. Era o mais grave em toda a cidade. Eu tinha espinhas e erupçÔes por toda a face, costas, todo o pescoço e um pouco no peito. Isso aconteceu no exato momento em que eu começava a ser aceito como um cara durĂŁo e um lĂder. Eu continuava durĂŁo, mas nĂŁo era a mesma coisa. Tive que me retirar. Observava as pessoas Ă distĂąncia, como numa peça de teatro. Apenas eles estavam no palco, e eu era plateia de um homem sĂł. Eu sempre tivera problema com as garotas, mas agora, coberto de acnes, eu estava condenado. As garotas ficaram mais distantes do que nunca. Algumas delas eram verdadeiramente belas â seus vestidos, seus cabelos, seus olhos, o jeito como se moviam. Simplesmente caminhar rua abaixo durante uma tarde com uma delas, vocĂȘ sabe, falando qualquer coisa sobre qualquer assunto, creio que isso teria me feito sentir bastante bem.
AlĂ©m disso, havia algo em mim que continuava sendo fonte de constantes problemas. A maioria dos professores nĂŁo gostava ou nĂŁo confiava em mim, especialmente as professoras. Nunca disse nada fora do convencional, mas alegavam que se tratava da minha âatitudeâ. Era algo relacionado com o modo como eu sentava com desleixo na cadeira e tambĂ©m meu âtom de vozâ. Eu era frequentemente acusado de estar âescarnecendoâ, embora eu nĂŁo tivesse consciĂȘncia disso. Constantemente, me faziam ficar do lado de fora da sala, de pĂ©, no corredor, ou me mandavam para a sala da direção. O diretor sempre fazia a mesma coisa. Ele tinha uma cabine telefĂŽnica em sua sala. Obrigava-me a ficar de pĂ© dentro da cabine e a fechava. Passei muitas horas dentro daquela cabine. A Ășnica coisa que havia para ler ali dentro era a Ladies Home Journal[4]. Era tortura deliberada. De qualquer forma, eu acabava lendo as revistas. Tinha que ler cada novo nĂșmero. Eu esperava que talvez pudesse aprender alguma coisa sobre as mulheres.
Eu devia ter uns cinco mil demĂ©ritos acumulados Ă Ă©poca da graduação, mas isso nĂŁo teve importĂąncia. Queriam se livrar de mim. Eu estava de pĂ© do lado de fora, na fila que entrava no auditĂłrio ao ritmo de um por vez. Todos nĂłs estĂĄvamos com a toga e o barrete vagabundos que jĂĄ tinham atravessado geraçÔes e geraçÔes de formandos antes de nĂłs. PodĂamos ouvir o nome de cada pessoa Ă medida que ela entrava no palco. Estavam transformando nossa graduação numa maldita comĂ©dia. A banda tocou o hino do colĂ©gio:
Ă, Mt. Justin, Ă, Mt. Justin
NĂłs seremos leais
Nossos coraçÔes cantam fervorosos
A certeza de amanhĂŁs celestiais...
Ficamos alinhados, cada qual esperando sua hora de marchar pelo palco. Na plateia estavam nossos pais e amigos.
â Estou quase vomitando â disse um dos caras.
â SaĂmos de uma merda para nos metermos em outra â disse um segundo.
As garotas pareciam encarar a coisa com maior seriedade. Era por isso que nĂŁo se podia confiar nelas. Pareciam compactuar com as coisas erradas. Elas e o colĂ©gio pareciam cantar em unĂssono o mesmo hino.
â Esse negĂłcio me deixa deprimido â disse um dos caras. â Queria fumar um cigarro.
â Aqui tem um...
Um dos outros caras lhe alcançou um cigarro. Nós o passamos, éramos quatro ou cinco. Dei uma tragada e exalei a fumaça pelo nariz. Então vi Curly Wagner se aproximar.
â Apaguem o cigarro! â eu disse. â AĂ vem o cabeça de vĂŽmito!
Wagner caminhou reto na minha direção. Usava o seu abrigo cinza, incluindo a camiseta, exatamente como eu o vira da primeira vez e em todas as oportunidades seguintes. Parou na minha frente.
â Escute â ele disse â, se vocĂȘ acha que estĂĄ se livrando de mim porque estĂĄ saindo daqui estĂĄ muito enganado! Vou seguir vocĂȘ pelo resto da vida. Vou seguir vocĂȘ atĂ© os confins da Terra e vou pegĂĄ-lo!
Simplesmente o encarei, sem nenhum comentĂĄrio, e ele se afastou. O discursinho de Wagner serviu para aumentar meu prestĂgio entre os rapazes. Pensaram que eu tinha feito algo realmente diabĂłlico para deixĂĄ-lo tĂŁo irritado. Mas nĂŁo era verdade. Wagner era simplesmente maluco.
Nos aproximĂĄvamos cada vez mais da porta do auditĂłrio. NĂŁo sĂł podĂamos ouvir cada nome que era pronunciado e os aplausos na sequĂȘncia, mas tambĂ©m vĂamos a plateia. EntĂŁo, chegou a minha vez.
â Henry Chinaski â o diretor disse ao microfone.
E avancei. NĂŁo houve nenhum aplauso. EntĂŁo uma alma gentil na plateia bateu duas ou trĂȘs palmas.
Havia algumas filas de cadeiras dispostas no palco para a turma que se graduava. Sentamos lå e esperamos. O diretor fez o seu discurso sobre a América ser a terra das oportunidades e do sucesso. Então tudo acabou. A banda atacou novamente o hino do colégio Mt. Justin. Os estudantes e seus pais e seus amigos se ergueram e se congregaram. Andei por ali, procurando. Meus pais não estavam lå. Quis ter certeza. Dei mais uma volta, procurando com afinco.
Estava tudo bem. Um cara durĂŁo nĂŁo precisava dessas coisas. Tirei o barrete e a toga e os alcancei ao cara no fim do corredor â o porteiro. Ele guardou as peças para a prĂłxima formatura.
Ganhei a rua. O primeiro a sair. Mas para onde eu poderia ir? Tinha onze centavos no bolso. Segui de volta para o lugar em que eu vivia.
â Misto-quente
balançarem seus rabos e se despir
no Burbank e no Follies
e era muito triste
e muito dramĂĄtico
assim que a luz ia do verde para
o pĂșrpura e para o rosa
e a mĂșsica era alta e
vibrante,
agora fico sentado aqui
fumando e
ouvindo mĂșsica
clĂĄssica
mas ainda me lembro de alguns de seus
nomes: Darlene, Candy, Jeanette
e Rosalie.
Rosalie era a
melhor, tinha a manha,
e nĂłs nos revirĂĄvamos em nossas poltronas e
fazĂamos barulho
enquanto Rosalie levava mĂĄgica
aos solitĂĄrios
de tanto tempo atrĂĄs.
escute Rosalie
ou velha demais ou
tranquila demais debaixo da
terra,
aqui fala o garoto
espinhento
que mentia a
idade
sĂł para
te ver.
vocĂȘ era boa, Rosalie
em 1935,
suficientemente boa para ser lembrada
agora
que a luz Ă©
amarela
e as noites correm
mansas.
O tempo do colĂ©gio passou com rapidez suficiente. Por volta da oitava sĂ©rie, indo para a nona, comecei a ter acne. Muitos dos caras tinham esse problema, mas nĂŁo no mesmo grau que eu. Meu caso era realmente terrĂvel. Era o mais grave em toda a cidade. Eu tinha espinhas e erupçÔes por toda a face, costas, todo o pescoço e um pouco no peito. Isso aconteceu no exato momento em que eu começava a ser aceito como um cara durĂŁo e um lĂder. Eu continuava durĂŁo, mas nĂŁo era a mesma coisa. Tive que me retirar. Observava as pessoas Ă distĂąncia, como numa peça de teatro. Apenas eles estavam no palco, e eu era plateia de um homem sĂł. Eu sempre tivera problema com as garotas, mas agora, coberto de acnes, eu estava condenado. As garotas ficaram mais distantes do que nunca. Algumas delas eram verdadeiramente belas â seus vestidos, seus cabelos, seus olhos, o jeito como se moviam. Simplesmente caminhar rua abaixo durante uma tarde com uma delas, vocĂȘ sabe, falando qualquer coisa sobre qualquer assunto, creio que isso teria me feito sentir bastante bem.
AlĂ©m disso, havia algo em mim que continuava sendo fonte de constantes problemas. A maioria dos professores nĂŁo gostava ou nĂŁo confiava em mim, especialmente as professoras. Nunca disse nada fora do convencional, mas alegavam que se tratava da minha âatitudeâ. Era algo relacionado com o modo como eu sentava com desleixo na cadeira e tambĂ©m meu âtom de vozâ. Eu era frequentemente acusado de estar âescarnecendoâ, embora eu nĂŁo tivesse consciĂȘncia disso. Constantemente, me faziam ficar do lado de fora da sala, de pĂ©, no corredor, ou me mandavam para a sala da direção. O diretor sempre fazia a mesma coisa. Ele tinha uma cabine telefĂŽnica em sua sala. Obrigava-me a ficar de pĂ© dentro da cabine e a fechava. Passei muitas horas dentro daquela cabine. A Ășnica coisa que havia para ler ali dentro era a Ladies Home Journal[4]. Era tortura deliberada. De qualquer forma, eu acabava lendo as revistas. Tinha que ler cada novo nĂșmero. Eu esperava que talvez pudesse aprender alguma coisa sobre as mulheres.
Eu devia ter uns cinco mil demĂ©ritos acumulados Ă Ă©poca da graduação, mas isso nĂŁo teve importĂąncia. Queriam se livrar de mim. Eu estava de pĂ© do lado de fora, na fila que entrava no auditĂłrio ao ritmo de um por vez. Todos nĂłs estĂĄvamos com a toga e o barrete vagabundos que jĂĄ tinham atravessado geraçÔes e geraçÔes de formandos antes de nĂłs. PodĂamos ouvir o nome de cada pessoa Ă medida que ela entrava no palco. Estavam transformando nossa graduação numa maldita comĂ©dia. A banda tocou o hino do colĂ©gio:
Ă, Mt. Justin, Ă, Mt. Justin
NĂłs seremos leais
Nossos coraçÔes cantam fervorosos
A certeza de amanhĂŁs celestiais...
Ficamos alinhados, cada qual esperando sua hora de marchar pelo palco. Na plateia estavam nossos pais e amigos.
â Estou quase vomitando â disse um dos caras.
â SaĂmos de uma merda para nos metermos em outra â disse um segundo.
As garotas pareciam encarar a coisa com maior seriedade. Era por isso que nĂŁo se podia confiar nelas. Pareciam compactuar com as coisas erradas. Elas e o colĂ©gio pareciam cantar em unĂssono o mesmo hino.
â Esse negĂłcio me deixa deprimido â disse um dos caras. â Queria fumar um cigarro.
â Aqui tem um...
Um dos outros caras lhe alcançou um cigarro. Nós o passamos, éramos quatro ou cinco. Dei uma tragada e exalei a fumaça pelo nariz. Então vi Curly Wagner se aproximar.
â Apaguem o cigarro! â eu disse. â AĂ vem o cabeça de vĂŽmito!
Wagner caminhou reto na minha direção. Usava o seu abrigo cinza, incluindo a camiseta, exatamente como eu o vira da primeira vez e em todas as oportunidades seguintes. Parou na minha frente.
â Escute â ele disse â, se vocĂȘ acha que estĂĄ se livrando de mim porque estĂĄ saindo daqui estĂĄ muito enganado! Vou seguir vocĂȘ pelo resto da vida. Vou seguir vocĂȘ atĂ© os confins da Terra e vou pegĂĄ-lo!
Simplesmente o encarei, sem nenhum comentĂĄrio, e ele se afastou. O discursinho de Wagner serviu para aumentar meu prestĂgio entre os rapazes. Pensaram que eu tinha feito algo realmente diabĂłlico para deixĂĄ-lo tĂŁo irritado. Mas nĂŁo era verdade. Wagner era simplesmente maluco.
Nos aproximĂĄvamos cada vez mais da porta do auditĂłrio. NĂŁo sĂł podĂamos ouvir cada nome que era pronunciado e os aplausos na sequĂȘncia, mas tambĂ©m vĂamos a plateia. EntĂŁo, chegou a minha vez.
â Henry Chinaski â o diretor disse ao microfone.
E avancei. NĂŁo houve nenhum aplauso. EntĂŁo uma alma gentil na plateia bateu duas ou trĂȘs palmas.
Havia algumas filas de cadeiras dispostas no palco para a turma que se graduava. Sentamos lå e esperamos. O diretor fez o seu discurso sobre a América ser a terra das oportunidades e do sucesso. Então tudo acabou. A banda atacou novamente o hino do colégio Mt. Justin. Os estudantes e seus pais e seus amigos se ergueram e se congregaram. Andei por ali, procurando. Meus pais não estavam lå. Quis ter certeza. Dei mais uma volta, procurando com afinco.
Estava tudo bem. Um cara durĂŁo nĂŁo precisava dessas coisas. Tirei o barrete e a toga e os alcancei ao cara no fim do corredor â o porteiro. Ele guardou as peças para a prĂłxima formatura.
Ganhei a rua. O primeiro a sair. Mas para onde eu poderia ir? Tinha onze centavos no bolso. Segui de volta para o lugar em que eu vivia.
â Misto-quente
Poema Para Chefes de Departamento Pessoal:
Um velho me pediu um cigarro
e eu cuidadosamente saquei dois.
âTĂŽ procurando emprego. Vou ficar aqui,
debaixo do sol e fumando.â
Ele estava no limite da mendicĂąncia e da fĂșria
e se escorava na morte.
Era um dia frio, de fato, e os caminhÔes
carregados e pesados como putas velhas
batiam e chacoalhavam pelas ruas...
CaĂmos como placas de um teto podre
enquanto o mundo luta para se livrar do peso
que lhe atrapalha as ideias.
(Deus Ă© um lugar solitĂĄrio e sem bife.)
Somos pĂĄssaros agonizantes
navios Ă deriva â
o mundo se choca contra nĂłs
e nĂłs
estendemos nossos braços
e nĂłs
estendemos nossas pernas
como o beijo da morte da centopeia:
mas eles, gentis, nos dĂŁo um tapinha nas costas
e chamam nosso veneno de âpolĂticaâ.
Bem, nĂłs fumamos, ele e eu â homenzinhos
mordiscando pensamentos medĂocres...
Nenhum dos cavalos entra,
e enquanto vocĂȘ vĂȘ as luzes das cadeias
e dos hospitais cintilarem,
e homens carregando bandeiras com o cuidado dispensado aos bebĂȘs,
lembre-se disso:
vocĂȘ Ă© um instrumento cheio de tripas
coração e barriga, cuidadosamente planejado â
de modo que se vocĂȘ pegar um aviĂŁo para Savannah,
pegue o melhor aviĂŁo;
ou se vocĂȘ comer frango feito na pedra quente,
faça-o com um animal nobre.
(VocĂȘ o chama de ave; eu chamo as aves de
flores.)
E se vocĂȘ decidir matar alguĂ©m,
que seja qualquer um e não alguém importante:
alguns homens sĂŁo feitos de partes mais especiais e
preciosas: nĂŁo mate
se puder
um presidente ou um Rei
ou um homem
atrĂĄs de uma escrivaninha â
estes possuem longitudes celestiais
atitudes luminais.
Se essa for sua decisĂŁo,
escolha um de nĂłs
que estamos aqui parados, fumando, furiosos;
estamos entorpecidos pela tristeza e
pela febre
por escalar escadas rotas.
Leve-nos
nunca fomos crianças
como as suas crianças.
Não entendemos de cançÔes de amor
como a sua namorada.
Nossos rostos sĂŁo como linĂłleo rachado
fendido sob o peso dos passos resolutos
de nossos mestres.
Estamos misturados a cabeças de cenoura
e semente de papoula e a uma gramĂĄtica bĂȘbada;
desperdiçamos os dias como melros loucos
ansiando pelas noites de trago.
Nossos sorrisos humanos e descoloridos
nos envolvem como os confetes de outra pessoa:
nĂłs sequer pertencemos ao Partido.
Somos uma cena apagada
com o branco e doentio apagador do Tempo.
Fumamos, insones como um prato de figos.
Fumamos, tĂŁo mortos quanto um nevoeiro.
Leve-nos.
Um assassinato na banheira
ou algo rĂĄpido e certeiro; nossos nomes
nos jornais.
Conhecidos, por um momento, enfim
por milhÔes de olhos indiferentes de um violeta apagado
que se mantĂȘm ocupados
apenas com os lampejos
das caricaturas de pobres feitas
por seus comediantes conceituados, mal-acostumados
e corretos.
Conhecidos, por um momento, enfim,
como eles também serão conhecidos
como vocĂȘ serĂĄ conhecido
por um homem todo cinza em uma casa toda cinza
que se senta e acaricia uma espada
mais longa que a noite
mais longa que a dor de coluna da montanha
mais longa que todos os prantos
que tĂȘm uma bomba atĂŽmica sendo expelida das gargantas
e explodindo em uma terra nova,
menos planejada.
Fumamos e as nuvens nĂŁo nos notam.
Um gato caminha e sacode o Shakespeare
de suas costas.
Sebo, sebo, vela como cera: nossas espinhas
sĂŁo curvadas e nossas consciĂȘncias queimam
de um jeito inocente
o que ainda restava do pavio da vida nos
foi distribuĂdo.
Um velho me pede um cigarro
e me conta seus problemas
e isto
Ă© o que ele disse:
que a Idade era um crime
e que a CompaixĂŁo apanhou as bolinhas de gude
e que o Ădio apanhou a
grana.
Ele poderia ter sido seu pai
ou o meu.
Ele poderia ter sido um garanhĂŁo
ou um santo.
Mas o que quer que ele tenha sido
agora estava condenado
e nĂłs ficamos debaixo do sol e
fumamos
e olhamos em volta
em nosso Ăłcio
para ver quem era o prĂłximo da
fila.
e eu cuidadosamente saquei dois.
âTĂŽ procurando emprego. Vou ficar aqui,
debaixo do sol e fumando.â
Ele estava no limite da mendicĂąncia e da fĂșria
e se escorava na morte.
Era um dia frio, de fato, e os caminhÔes
carregados e pesados como putas velhas
batiam e chacoalhavam pelas ruas...
CaĂmos como placas de um teto podre
enquanto o mundo luta para se livrar do peso
que lhe atrapalha as ideias.
(Deus Ă© um lugar solitĂĄrio e sem bife.)
Somos pĂĄssaros agonizantes
navios Ă deriva â
o mundo se choca contra nĂłs
e nĂłs
estendemos nossos braços
e nĂłs
estendemos nossas pernas
como o beijo da morte da centopeia:
mas eles, gentis, nos dĂŁo um tapinha nas costas
e chamam nosso veneno de âpolĂticaâ.
Bem, nĂłs fumamos, ele e eu â homenzinhos
mordiscando pensamentos medĂocres...
Nenhum dos cavalos entra,
e enquanto vocĂȘ vĂȘ as luzes das cadeias
e dos hospitais cintilarem,
e homens carregando bandeiras com o cuidado dispensado aos bebĂȘs,
lembre-se disso:
vocĂȘ Ă© um instrumento cheio de tripas
coração e barriga, cuidadosamente planejado â
de modo que se vocĂȘ pegar um aviĂŁo para Savannah,
pegue o melhor aviĂŁo;
ou se vocĂȘ comer frango feito na pedra quente,
faça-o com um animal nobre.
(VocĂȘ o chama de ave; eu chamo as aves de
flores.)
E se vocĂȘ decidir matar alguĂ©m,
que seja qualquer um e não alguém importante:
alguns homens sĂŁo feitos de partes mais especiais e
preciosas: nĂŁo mate
se puder
um presidente ou um Rei
ou um homem
atrĂĄs de uma escrivaninha â
estes possuem longitudes celestiais
atitudes luminais.
Se essa for sua decisĂŁo,
escolha um de nĂłs
que estamos aqui parados, fumando, furiosos;
estamos entorpecidos pela tristeza e
pela febre
por escalar escadas rotas.
Leve-nos
nunca fomos crianças
como as suas crianças.
Não entendemos de cançÔes de amor
como a sua namorada.
Nossos rostos sĂŁo como linĂłleo rachado
fendido sob o peso dos passos resolutos
de nossos mestres.
Estamos misturados a cabeças de cenoura
e semente de papoula e a uma gramĂĄtica bĂȘbada;
desperdiçamos os dias como melros loucos
ansiando pelas noites de trago.
Nossos sorrisos humanos e descoloridos
nos envolvem como os confetes de outra pessoa:
nĂłs sequer pertencemos ao Partido.
Somos uma cena apagada
com o branco e doentio apagador do Tempo.
Fumamos, insones como um prato de figos.
Fumamos, tĂŁo mortos quanto um nevoeiro.
Leve-nos.
Um assassinato na banheira
ou algo rĂĄpido e certeiro; nossos nomes
nos jornais.
Conhecidos, por um momento, enfim
por milhÔes de olhos indiferentes de um violeta apagado
que se mantĂȘm ocupados
apenas com os lampejos
das caricaturas de pobres feitas
por seus comediantes conceituados, mal-acostumados
e corretos.
Conhecidos, por um momento, enfim,
como eles também serão conhecidos
como vocĂȘ serĂĄ conhecido
por um homem todo cinza em uma casa toda cinza
que se senta e acaricia uma espada
mais longa que a noite
mais longa que a dor de coluna da montanha
mais longa que todos os prantos
que tĂȘm uma bomba atĂŽmica sendo expelida das gargantas
e explodindo em uma terra nova,
menos planejada.
Fumamos e as nuvens nĂŁo nos notam.
Um gato caminha e sacode o Shakespeare
de suas costas.
Sebo, sebo, vela como cera: nossas espinhas
sĂŁo curvadas e nossas consciĂȘncias queimam
de um jeito inocente
o que ainda restava do pavio da vida nos
foi distribuĂdo.
Um velho me pede um cigarro
e me conta seus problemas
e isto
Ă© o que ele disse:
que a Idade era um crime
e que a CompaixĂŁo apanhou as bolinhas de gude
e que o Ădio apanhou a
grana.
Ele poderia ter sido seu pai
ou o meu.
Ele poderia ter sido um garanhĂŁo
ou um santo.
Mas o que quer que ele tenha sido
agora estava condenado
e nĂłs ficamos debaixo do sol e
fumamos
e olhamos em volta
em nosso Ăłcio
para ver quem era o prĂłximo da
fila.
Poema Para Os Cachorros Perdidos
aquele sentimento bom e raro vem nos momentos mais estranhos: certa vez,
depois de dormir
no banco de um parque numa cidade estranha acordei, minhas roupas
Ășmidas pelo leve sereno e me levantei e comecei a seguir para leste
direto para
a direção em que se erguia o sol e dentro de mim havia uma alegria sutil que
simplesmente estava ali.
em outra ocasiĂŁo depois de pegar uma prostituta de rua seguimos Ă s
duas da manhĂŁ lado a lado sob o luar
em direção ao meu quarto barato mas eu não desejava levå-la para cama.
a alegria cĂąndida brotou do simples fato de caminhar ao lado dela neste
universo
confuso â Ă©ramos companheiros, estranhos companheiros caminhando
juntos,
sem dizer nada.
sua echarpe branca e pĂșrpura pendia de sua bolsa â flutuando no
escuro
enquanto caminhĂĄvamos
e a mĂșsica poderia ter vindo da luz da lua.
entĂŁo houve o tempo
em que fui despejado por nĂŁo pagar o aluguel e carreguei as coisas da minha
mulher até a porta de um estranho e a vi desaparecer lå
dentro, fiquei ali um instante, ouvi primeiro a risada dela, depois a dele, entĂŁo
parti.
eu seguia sozinho, eram dez da manhĂŁ e fazia calor, o
sol me cegava e tudo o que eu percebia era o som de
meus sapatos no calçamento. então
ouvi uma voz. âei, parceiro, tem algum aĂ?â
olhei naquela direção e vi trĂȘs mendigos de meia-idade sentados contra o muro,
as faces coradas,
ridiculamente acabados e perdidos. âquanto falta para
completar a garrafa?â perguntei. â24 centavosâ, disse um
deles. Meti a mĂŁo no
bolso, apanhei todos os trocados que eu tinha e lhe entreguei. âporra, meu velho,
muito
obrigado!â ele disse.
Segui em frente, entĂŁo senti vontade de um cigarro, vasculhei
meus
bolsos, senti um pedaço de papel, puxei-o
para fora: uma nota de 5 dĂłlares.
noutra vez aconteceu enquanto eu brigava com o garçom, Tommy (de novo),
no
beco atrĂĄs do bar para divertimento dos fregueses, eu levava a
costumeira
surra, todas as garotas em suas calcinhas provocantes torcendo pelo seu
irlandĂȘs musculoso (âoh, Tommy, acabe com ele, cague a pau o veado!â)
quando alguma coisa estalou em meu cérebro, meu cérebro disse apenas,
âĂ© hora de algo a maisâ, e acertei um mata-cobra pesado na parte lateral
da cabeça de Tommy e ele me olhou como dizendo: espere, isso
nĂŁo estĂĄ no script, e entĂŁo disparei outro e pude ver o medo emergir
de dentro dele numa torrente, e o
liquidei com rapidez e entĂŁo os fregueses o ajudaram a voltar para dentro
enquanto
me amaldiçoavam. O que me encheu de alegria
aquela silenciosa risada lĂĄ no fundo do peito foi saber que fiz o que fiz
porque hĂĄ um limite para a resistĂȘncia de qualquer homem.
segui até um bar desconhecido na outra quadra, sentei e pedi uma
cerveja.
ânĂŁo servimos mendigos aquiâ, me disse o atendente. ânĂŁo sou um mendigoâ,
eu disse, âtraga a cerveja duma vez.â a cerveja
chegou, tomei logo um gole e lĂĄ estava eu.
sentimentos bons e raros surgem nos momentos mais estranhos, como agora
enquanto lhes conto tudo isso.
depois de dormir
no banco de um parque numa cidade estranha acordei, minhas roupas
Ășmidas pelo leve sereno e me levantei e comecei a seguir para leste
direto para
a direção em que se erguia o sol e dentro de mim havia uma alegria sutil que
simplesmente estava ali.
em outra ocasiĂŁo depois de pegar uma prostituta de rua seguimos Ă s
duas da manhĂŁ lado a lado sob o luar
em direção ao meu quarto barato mas eu não desejava levå-la para cama.
a alegria cĂąndida brotou do simples fato de caminhar ao lado dela neste
universo
confuso â Ă©ramos companheiros, estranhos companheiros caminhando
juntos,
sem dizer nada.
sua echarpe branca e pĂșrpura pendia de sua bolsa â flutuando no
escuro
enquanto caminhĂĄvamos
e a mĂșsica poderia ter vindo da luz da lua.
entĂŁo houve o tempo
em que fui despejado por nĂŁo pagar o aluguel e carreguei as coisas da minha
mulher até a porta de um estranho e a vi desaparecer lå
dentro, fiquei ali um instante, ouvi primeiro a risada dela, depois a dele, entĂŁo
parti.
eu seguia sozinho, eram dez da manhĂŁ e fazia calor, o
sol me cegava e tudo o que eu percebia era o som de
meus sapatos no calçamento. então
ouvi uma voz. âei, parceiro, tem algum aĂ?â
olhei naquela direção e vi trĂȘs mendigos de meia-idade sentados contra o muro,
as faces coradas,
ridiculamente acabados e perdidos. âquanto falta para
completar a garrafa?â perguntei. â24 centavosâ, disse um
deles. Meti a mĂŁo no
bolso, apanhei todos os trocados que eu tinha e lhe entreguei. âporra, meu velho,
muito
obrigado!â ele disse.
Segui em frente, entĂŁo senti vontade de um cigarro, vasculhei
meus
bolsos, senti um pedaço de papel, puxei-o
para fora: uma nota de 5 dĂłlares.
noutra vez aconteceu enquanto eu brigava com o garçom, Tommy (de novo),
no
beco atrĂĄs do bar para divertimento dos fregueses, eu levava a
costumeira
surra, todas as garotas em suas calcinhas provocantes torcendo pelo seu
irlandĂȘs musculoso (âoh, Tommy, acabe com ele, cague a pau o veado!â)
quando alguma coisa estalou em meu cérebro, meu cérebro disse apenas,
âĂ© hora de algo a maisâ, e acertei um mata-cobra pesado na parte lateral
da cabeça de Tommy e ele me olhou como dizendo: espere, isso
nĂŁo estĂĄ no script, e entĂŁo disparei outro e pude ver o medo emergir
de dentro dele numa torrente, e o
liquidei com rapidez e entĂŁo os fregueses o ajudaram a voltar para dentro
enquanto
me amaldiçoavam. O que me encheu de alegria
aquela silenciosa risada lĂĄ no fundo do peito foi saber que fiz o que fiz
porque hĂĄ um limite para a resistĂȘncia de qualquer homem.
segui até um bar desconhecido na outra quadra, sentei e pedi uma
cerveja.
ânĂŁo servimos mendigos aquiâ, me disse o atendente. ânĂŁo sou um mendigoâ,
eu disse, âtraga a cerveja duma vez.â a cerveja
chegou, tomei logo um gole e lĂĄ estava eu.
sentimentos bons e raros surgem nos momentos mais estranhos, como agora
enquanto lhes conto tudo isso.
Posto de Bombeiros
(Para Jane, com amor)
saĂmos do bar
porque estĂĄvamos sem dinheiro
mas ainda tĂnhamos algumas garrafas de vinho
no quarto.
era cerca de quatro da tarde
e passamos por um posto de bombeiros
e ela
enlouqueceu:
âum POSTO DE BOMBEIROS! ah, eu adoro
os CAMINHĂES, sĂŁo tĂŁo vermelhos e tudo o
mais! vamos entrar!â
eu a segui.
âCAMINHĂES DE BOMBEIRO!â ela gritou
rebolando seu grande
rabo.
ela jĂĄ tentava subir num
deles, erguendo a saia até
a cintura, tentando alcançar o
banco.
âaqui, aqui, deixe eu ajudar vocĂȘ!â correu um
bombeiro.
outro bombeiro se aproximou de
mim: ânossos cidadĂŁos sĂŁo sempre bem-vindosâ,
ele me
disse.
o outro cara jĂĄ estava ao lado dela no
banco. âvocĂȘ tem uma dessas COISAS enormes?â
ela lhe perguntou. âdigo, hahaha!, quero dizer um
desses CAPACETES enormes!
âtenho um outro capacete que tambĂ©m Ă© enormeâ, ele lhe
disse.
âhum, hahaha!â
âvocĂȘ joga cartas?â perguntei ao meu
bombeiro. tenho 43 centavos e todo o tempo do
mundo.
âvenha comigo atĂ© os fundosâ ele
disse. âclaro, nada de jogo por aqui.
Ă© contra as
regras.â
âentendoâ, eu lhe
disse.
jĂĄ havia transformado meus 43 centavos em
um dĂłlar e noventa
quando a vi subir as escadas com
seu bombeiro.
âele vai me mostrar seus
alojamentosâ, ela me
disse.
âentendoâ, eu lhe
respondi.
quando o bombeiro dela desceu deslizando pelo mastro
dez minutos depois
eu lhe fiz um aceno
com a cabeça.
âsĂŁo 5
dĂłlares.â
â5 dĂłlares pelo
quĂȘ?â
ânĂŁo queremos um escĂąndalo, nĂŁo Ă©
mesmo? nĂłs dois poderĂamos perder nossos
empregos. claro, eu nĂŁo estou
trabalhando.
ele me passou os
5.
âsente aĂ, vocĂȘ pode
recuperĂĄ-los.â
âqual que Ă© o jogo?â
âblackjack.â
âjogar Ă© contra a
lei.â
âtudo que Ă© interessante Ă©. alĂ©m disso,
vocĂȘ estĂĄ vendo algum dinheiro sobre a
mesa?â
ele se sentou.
agora éramos
5.
âque tal a parada, Harry?â alguĂ©m
perguntou.
ânada mal, nada
mal.â
o outro cara subia as
escadas.
jogavam muito mal.
nĂŁo se davam ao trabalho de memorizar o
baralho. nĂŁo sabiam se sobravam mais
cartas altas do que baixas. e basicamente jogavam até estourar,
nĂŁo sabiam garantir uma mĂŁo
baixa.
quando o outro cara desceu
me passou uma nota de
cinco.
âcomo estava, Marty?â
ânada mal. ela conhece... uns movimentos
bacanas.â
âmais uma carta!â eu disse. âuma Ăłtima garota. vou
eu mesmo lĂĄ.â
ninguém disse
nada.
âalgum incĂȘndio sĂ©rio nos Ășltimos tempos?â
perguntei.
ânĂŁo. nada de
mais.â
âcaras, vocĂȘs precisam
se exercitar. mais uma carta para
mim!â
um garoto grande e ruivo, que estava dando um lustre num
caminhĂŁo
largou sua flanela e
subiu as escadas.
ao descer me jogou uma nota de
cinco.
quando o quarto cara desceu eu lhe dei
3 de cinco por uma de
vinte.
nĂŁo sei quantos bombeiros
estavam no prédio ou onde eles
estavam. notei que alguns haviam escapado da minha cobrança
mas eu era um bom
esportista.
estava escurecendo
quando o alarme
tocou.
começaram a correr pra lå e pra cå
caras surgiram deslizando pelo
mastro.
entĂŁo ela surgiu deslizando pelo
mastro. era boa nesse negĂłcio do
mastro. uma mulher de verdade. nada além de tripas
e
rabo.
âvamos emboraâ, eu lhe
disse.
ela ficou ali, dando tchauzinho para os
bombeiros mas eles jĂĄ nĂŁo
pareciam
muito interessados.
âvamos voltar para o barâ, eu lhe
disse.
âah, vocĂȘ arrumou uma
grana?â
âachei uns trocos que eu achava que tinha
perdido...â
sentamos no fundo do bar
com uĂsque e cerveja para dar uma
amaciada.
âpreciso dar uma boa
dormida.â
âclaro, baby, vocĂȘ precisa de um bom
sono.â
âolha aquele marinheiro me encarando!
deve achar que eu sou... uma...â
ânĂŁo, ele nĂŁo acha nada disso. relaxe, vocĂȘ tem
classe, muita classe. Ă s vezes vocĂȘ me lembra uma
cantora de Ăłpera. vocĂȘ sabe, uma daquelas prima-donas.
vocĂȘ exala classe.
bebe
aĂ.â
pedi mais 2
rodadas.
âsabe, paizinho, vocĂȘ Ă© o Ășnico homem que eu
AMO! digo, de verdade... AMO! sabe disso,
nĂ©?â
âclaro que sei. Ă s vezes penso que sou um rei
apesar de ser quem sou.â
âsim, sim, Ă© isso que estou dizendo, algo
assim.â
tive que ir mijar. quando voltei
o marinheiro estava sentado no meu
lugar. a perna dela roçava a do marinheiro
enquanto ele falava.
me afastei e fui jogar dardos com
Harry o Cavalo e com o jornaleiro da
esquina.
O Hotel Sans era o melhor da cidade de Los Angeles. Era um hotel antigo, mas tinha a classe e o charme que faltavam aos mais novos. Ficava de frente para o parque do centro da cidade.
Era famoso por suas convençÔes de negĂłcio e pelas putas carĂssimas, de talento quase legendĂĄrio que, no final de uma noite lucrativa, costumavam presentear os mensageiros com boas gorjetas. Havia tambĂ©m histĂłrias de mensageiros que haviam se tornado milionĂĄrios â mensageiros desgraçados, com cacetes de 27 centĂmetros que haviam tirado a sorte grande ao conhecer e se casar com alguma velhota rica que se hospedara no hotel. E a comida, as LAGOSTAS, os enormes chefs negros em seus altos e brancos chapĂ©us de mestre-cuca, que sabiam de tudo, nĂŁo apenas sobre comida, mas sobre a vida e sobre mim e sobre todas as coisas.
Fui contratado para trabalhar na seção de abastecimento. O setor de descarga tinha estilo: para cada caminhão que chegava, havia dez caras a postos para descarregar, quando na verdade dois bastariam. Eu vestia minhas melhores roupas. Nunca tive que tocar em nada.
DescarregĂĄvamos (eles descarregavam) tudo o que chegava ao hotel, em sua maioria itens alimentĂcios. Minha impressĂŁo era de que os ricos comiam mais lagostas do que qualquer outra coisa. Caixas e mais caixas do bicho nĂŁo paravam de chegar, criaturas deliciosamente rosadas e grandes, balançando suas garras e barbas.
â VocĂȘ gosta desse negĂłcio, nĂŁo, Chinaski?
â Claro. Maravilha â eu concordava.
Um dia, a mulher encarregada dos empregados me chamou. O escritĂłrio ficava atrĂĄs do setor de descarga.
â Quero que vocĂȘ gerencie este escritĂłrio aos domingos, Chinaski.
â E o que tenho que fazer?
â Basta atender ao telefone e contratar os lavadores de prato dos domingos.
â Tudo bem!
O primeiro domingo foi Ăłtimo. SĂł tive que ficar ali sentado. Logo entrou um velho.
â Pois nĂŁo, camarada? â perguntei.
Ele vestia um terno caro, mas estava cheio de vincos e um pouco sujo; e os punhos estavam puĂdos. Segurava o chapĂ©u em uma das mĂŁos.
â Escute, vocĂȘs precisam de um cara que seja bom de conversa? AlguĂ©m que possa tratar com o pĂșblico? Tenho uma certa dose de charme, sei contar histĂłrias engraçadas, sou capaz de fazer as pessoas darem boas risadas.
â Ă?
â Ah, sim.
â Faça-me rir.
â Oh, vocĂȘ nĂŁo entende. Tem que ser no cenĂĄrio adequado, Ă© preciso clima, decoração, vocĂȘ entende...
â Faça-me rir.
â Senhor...
â VocĂȘ nĂŁo serve, nĂŁo passa de um bĂȘbado!
Os lavadores de pratos eram contratados pela tarde. SaĂ do escritĂłrio. Quarenta vagabundos de rua estavam por ali.
â Prestem atenção! Precisamos de cinco homens de qualidade! Cinco! Nada de bĂȘbados, pervertidos, comunistas ou molestadores de criança! E Ă© preciso ter o cartĂŁo da previdĂȘncia! Vamos lĂĄ, tirem o cartĂŁo do bolso e ergam sobre suas cabeças!
Os cartÔes começaram a aparecer. Eles os agitavam.
â Ei, eu tenho um!
â Ei, camarada, olhe eu aqui! Me dĂȘ essa chance, cara!
Olhei para eles devagar.
â VocĂȘ, com essa marca de merda no colarinho â apontei. â DĂȘ um passo Ă frente.
â Isso nĂŁo Ă© uma marca de merda, senhor. Ă molho de carne.
â Bem, sei nĂŁo, camarada, me parece que vocĂȘ anda comendo mais merda do que rosbife!
â Ha, ha, ha, ha â gargalharam os vagabundos. â Ha, ha, ha, ha.
â Certo. Ainda preciso de quatro bons lavadores! Tenho aqui quatro moedinhas na mĂŁo. Vou jogar pra cima. Os quatro que me trouxerem as moedinhas lavarĂŁo os pratos hoje!
Lancei as moedas bem alto sobre a multidĂŁo. Corpos saltaram e caĂram, roupas se rasgaram, muitos praguejares, um homem gritou, vĂĄrios socos foram trocados. EntĂŁo os quatro sortudos se aproximaram, um por vez, ofegando, cada qual com sua moedinha. Dei-lhes seus cartĂ”es de trabalho e lhes indiquei a cantina dos empregados, onde, antes de mais nada, receberiam comida. Os outros vagabundos foram se retirando vagarosamente pela rampa de carregamento, desceram e seguiram pela viela em direção Ă terra devastada que Ă© o centro de Los Angeles aos domingos.
O Mercado dos Trabalhadores Rurais[10] ficava na Fifth Street com a San Pedro. VocĂȘ tinha que se apresentar Ă s cinco da manhĂŁ. Ainda estava escuro quando eu cheguei lĂĄ. Alguns homens estavam sentados, outros de pĂ©, enrolando seus cigarros e conversando baixinho. Tais lugares sempre tĂȘm o mesmo cheiro â suor velho, urina e vinho barato.
No dia anterior, eu tinha ajudado Jan a se mudar para a casa de um corretor de imĂłveis, um gordo que morava na Kingsley Drive. Fiquei escondido num canto do saguĂŁo e a vi beijĂĄ-lo. Logo os dois entraram no apartamento dele e a porta se fechou. Retornei sozinho para a rua, notando pela primeira vez os papĂ©is esvoaçantes e o lixo que se acumulava pelas calçadas. HavĂamos sido despejados de nosso apartamento. Eu tinha US$ 2,08. Jan me prometeu que esperaria minha sorte mudar, mas era difĂcil de acreditar nisso. O nome do corretor era Jim Bemis, tinha um escritĂłrio na Alvarado Street e era cheio da grana.
â Odeio quando ele trepa comigo â ela tinha dito.
Agora, provavelmente, ela estava dizendo a mesma coisa de mim.
Laranjas e tomates eram empilhados em diversas caixas e, aparentemente, eram de graça. Apanhei uma laranja, fiz um buraco com os dentes na casca e chupei o suco. Eu havia exaurido os meus benefĂcios do seguro-desemprego desde que deixara o Hotel Sans.
Um cara de cerca de quarenta anos veio em minha direção. Seu cabelo parecia morto, de fato nem parecia cabelo humano, lembrando mais fios de linha. A luz branca que vinha do teto lhe atingia em cheio. Ele tinha verrugas marrons na cara, muitas delas concentradas ao redor de sua boca. Um ou dois pelos negros brotavam de cada uma delas.
â Como vai?
â Tudo bem.
â EstĂĄ a fim de um boquete?
â NĂŁo, acho que nĂŁo.
â Estou com tesĂŁo, cara. Estou excitado. Sei realmente fazer um.
â Escute, sinto muito. NĂŁo estou a fim.
Ele se afastou tomado de fĂșria. Dei uma olhada pelo galpĂŁo. Havia cerca de cinquenta homens esperando. Havia dez ou doze funcionĂĄrios do governo sentados em suas mesas ou caminhando ao redor. Eles fumavam e pareciam mais preocupados que os vagabundos de rua. Os funcionĂĄrios estavam separados dos vagabundos por uma sĂłlida tela de metal entrelaçada, que ia do teto ao chĂŁo. AlguĂ©m a tinha pintado de amarelo. Era um amarelo bastante apagado.
Quando um dos funcionårios tinha que fazer uma transação com um dos vagabundos, ele destravava e corria uma portinhola de vidro presa à tela. Quando a questão da papelada se resolvia, o funcionårio fechava a portinhola, trancava-a por dentro e, toda vez que isso ocorria, a esperança parecia desaparecer. Todos despertåvamos quando a portinhola deslizava, a chance de cada homem era a chance de todos nós, mas, quando ela se fechava, a esperança evaporava. Então restava apenas olhar para as caras uns dos outros.
Na parede dos fundos, atrĂĄs da tela amarela e dos funcionĂĄrios, havia seis quadros-negros. Havia giz branco e apagadores, como na escola. Cinco dos quadros estavam vazios, embora ainda fosse possĂvel enxergar os resquĂcios das mensagens anteriores, de trabalhos havia muito preenchidos e naquele momento perdidos para sempre, ao menos no que nos dizia respeito.
Havia uma mensagem no sexto quadro:
PRECISA-SE DE COLHEDORES DE TOMATES EM
BAKERSFIELD
Eu pensara que as colheitadeiras automĂĄticas haviam extinguido esse trabalho. No entanto, ali estava o anĂșncio. Seres humanos, aparentemente, saem mais barato que mĂĄquinas. E mĂĄquinas quebram. Ă isso.
Dei uma olhada ao redor do recinto â nĂŁo havia orientais nem judeus, pouquĂssimos negros. A maioria dos vagabundos ou era composta de brancos pobres ou de mexicanos. Os dois negros, naquele momento, jĂĄ iam altos no vinho.
EntĂŁo um dos funcionĂĄrios se pĂŽs de pĂ©. Era um homem grande, com uma proeminente barriga de cerveja. O que vocĂȘ podia notar era sua camisa amarela com listras pretas verticais. A camisa estava esturricada, e ele usava braçadeiras â para segurar suas mangas como nas fotografias tiradas em 1890. Ele se aproximou e destravou uma das janelas de vidro na tela amarela.
â Muito bem! HĂĄ um caminhĂŁo lĂĄ nos fundos recolhendo gente pra trabalhar em Bakersfield!
Correu a janela, trancou-a, sentou-se Ă sua mesa e acendeu um cigarro.
Por um momento, ninguĂ©m se mexeu. EntĂŁo, um a um, aqueles que estavam sentados nos bancos começaram a se levantar, os rostos sem expressĂŁo. Os homens que jĂĄ aguardavam de pĂ© deixaram cair seus cigarros e os apagaram cuidadosamente com as solas de seus sapatos. Depois disso, começou um ĂȘxodo vagaroso e geral; todos saĂram em fila por uma porta lateral que dava para um pĂĄtio cercado.
O sol nascia. Na verdade, olhĂĄvamos pela primeira vez uns para os outros. Uns poucos homens sorriam ao reconhecer um rosto familiar.
Permanecemos enfileirados, lutando para conseguir chegar atĂ© a caçamba, o dia começando a raiar. Era hora de partir. SubĂamos em um caminhĂŁo de exĂ©rcito usado na Segunda Guerra Mundial, a cobertura de lona toda rasgada. Fomos avançando, aos encontrĂ”es, mas ao mesmo tempo tentando manter a mĂnima polidez. EntĂŁo, cansado das cotoveladas, dei um passo para o lado.
A capacidade do caminhão era admiråvel. O grande capataz mexicano acompanhava a tudo em um dos lados da traseira da caçamba, acenando sem parar:
â Isso aĂ, isso aĂ, vamos lĂĄ, vamos lĂĄ...
Os homens avançavam devagar, como se entrassem na boca de uma baleia.
Pela lateral do caminhĂŁo eu podia ver os rostos deles; falavam baixinho e sorriam. Sentia a um sĂł tempo repugnĂąncia por aquelas pessoas, mas tambĂ©m minha solidĂŁo. EntĂŁo decidi que era capaz de colher tomates. Decidi embarcar. AlguĂ©m bateu em mim pelas costas. Era uma mexicana gorda e ela parecia bastante sentimental. Agarrei-a pelos quadris para ajudĂĄ-la a subir. Ela era muito pesada, difĂcil de manejar. Finalmente encontrei apoio em algo; aparentemente uma de minhas mĂŁos se atolou no fundo da sua virilha. Consegui colocĂĄ-la para dentro. EntĂŁo fui em busca de um apoio para tambĂ©m subir. Eu era o Ășltimo. O capataz mexicano pĂŽs o pĂ© sobre minha mĂŁo.
â NĂŁo â ele disse â, jĂĄ temos gente que chega.
O motor do caminhĂŁo deu a partida, engasgou e apagou. O motorista tentou novamente. Desta vez pegou, e eles seguiram em frente.
A Associação de Trabalhadores para a IndĂșstria ficava nos limites da periferia. Aqui os vagabundos de rua eram mais bem vestidos, mais jovens, porĂ©m igualmente indiferentes. Sentavam-se por ali, nas bordas das janelas, inclinados para frente, aquecendo-se ao sol e bebendo o cafĂ© grĂĄtis que a A.T.I. oferecia. NĂŁo havia creme e açĂșcar, mas era de graça. NĂŁo havia qualquer tela nos separando dos funcionĂĄrios. Os telefones tocavam com mais frequĂȘncia, e os empregados aqui tinham um aspecto muito mais descontraĂdo que os do Mercado dos Trabalhadores Rurais.
Aproximei-me de um balcĂŁo e me foi dada uma ficha e uma caneta presa por corrente.
â Preencha â disse o funcionĂĄrio, um rapaz mexicano de boa aparĂȘncia que tentava esconder sua cordialidade atrĂĄs de uma postura profissional.
Comecei a preencher a ficha. Na lacuna para o nĂșmero de telefone, escrevi: nenhum. ApĂłs grau de escolaridade e capacitação profissional, escrevi: dois anos na L.A. City College. Jornalismo e belas-artes.
EntĂŁo eu disse ao funcionĂĄrio:
â Rasurei a ficha. Poderia me conseguir outra?
Ele me passou uma nova em branco. Em vez daquilo, escrevi: ensino mĂ©dio, L. A. High School. Carregador, almoxarife, trabalhador braçal. Alguma experiĂȘncia como datilĂłgrafo.
Devolvi-lhe a ficha.
â Muito bem â disse o funcionĂĄrio â, sente aĂ e vamos ver se aparece alguma coisa.
Encontrei um espaço na borda de uma das janelas e me sentei. Um negro velho estava sentado próximo de mim. Ele tinha um rosto interessante; não trazia aquele olhar resignado que a maioria dos que estavam ali mostrava. Era como se ele tentasse não rir de si mesmo nem do resto de nós.
Ele viu que eu o olhava. Sorriu com malĂcia.
â O cara que chefia esse lugar Ă© muito esperto. Foi demitido dos Trabalhadores Rurais, ficou puto da vida, veio pra cĂĄ e abriu isso aqui. Especializado em serviços de meio turno. Um cara que quer descarregar um vagĂŁo, rĂĄpido e barato, liga pra cĂĄ.
â Pois Ă©, ouvi falar.
â O cara quer descarregar um vagĂŁo, rĂĄpido e barato, liga pra cĂĄ. O chefe desse lugar leva cinquenta por cento. A gente nĂŁo reclama, pega o que aparece.
â Pra mim estĂĄ beleza. Merda.
â VocĂȘ parece desanimado. Tudo certo?
â Perdi uma mulher.
â Logo vĂȘm outras, e vocĂȘ tambĂ©m vai acabar perdendo elas.
â Pra onde elas vĂŁo?
â Experimente isso aqui.
Era uma garrafa em um saco. Tomei um gole. Vinho do porto.
â Obrigado.
â NĂŁo hĂĄ mulheres quando se estĂĄ na rua.
Ele me passou novamente a garrafa.
â NĂŁo deixe ele ver nĂłs dois bebendo. Isso deixa ele louco.
Enquanto eståvamos ali sentados, vårios homens foram chamados e seguiram para algum posto. Aquilo nos alegrou. Pelo menos havia alguma ação.
Meu amigo negro e eu ficamos esperando, revezando a garrafa.
Até que ela acabou vazia.
â Onde Ă© a loja de bebidas mais prĂłxima? â perguntei.
Recebi o endereço e fui atĂ© lĂĄ. De alguma maneira, durante o dia, o calor sempre era escaldante nas periferias de Los Angeles. VocĂȘ avistava os vagabundos caminhando nas redondezas com pesados sobretudos. Mas quando a noite caĂa, e o albergue estava cheio, aqueles sobretudos vinham a calhar.
Quando retornei da loja, meu amigo continuava ali.
Sentei-me e abri a garrafa, passei o saco.
â PĂŽ, mantĂ©m o negĂłcio na moita â ele disse.
Era agradĂĄvel ficar bebendo aquele vinho.
Alguns mosquitos começaram a se reunir e a circular ao nosso redor.
â Mosquitinhos do vinho â ele disse.
â Os filhos da puta ficam viciados nisso.
â Sabem o que Ă© bom.
â Bebem pra esquecer suas mulheres.
â SĂł bebem.
Dei um golpe com a mĂŁo no ar e apanhei um dos mosquitinhos. Quando a abri a Ășnica coisa que pude ver foi uma mancha negra e a estranha visĂŁo de duas asinhas. Nada mais.
â AĂ vem ele!
Era o jovem de boa aparĂȘncia que comandava o lugar. Apressou-se em nossa direção.
â Muito bem! Caiam fora daqui! Sumam, seus bebuns de merda! Deem o fora daqui antes que eu chame a polĂcia!
Ele nos conduziu atĂ© a porta, aos empurrĂ”es e nos maldizendo. Senti culpa, mas nenhuma raiva. Mesmo enquanto nos empurrava, eu sabia que ele nĂŁo dava a mĂnima para o que fazĂamos. Ele usava um anel enorme na mĂŁo direita.
NĂŁo avançåvamos com a pressa necessĂĄria, e recebi um golpe com a mĂŁo do anel no meu supercĂlio esquerdo; logo senti o sangue começar a correr e depois meu olho inchar. Meu amigo e eu estĂĄvamos de volta para as ruas.
Afastamo-nos. Encontramos um pĂłrtico e sentamos sobre os degraus. Passei-lhe a garrafa. Ele deu um gole.
â Coisa fina.
Devolveu-me a garrafa. Dei um gole.
â Ă, coisa fina.
â O sol jĂĄ vai alto.
â Ă, o sol jĂĄ vai alto mesmo.
Ficamos em silĂȘncio, revezando a garrafa.
EntĂŁo a bebida chegou ao fim.
â Bem â ele disse, estĂĄ na minha hora.
â Nos falamos.
Ele se afastou. Levantei-me, segui na direção contråria, dobrei a esquina e ganhei a Main Street. Segui até chegar ao Roxie.
As fotos das strippers estavam expostas atrĂĄs de um vidro junto Ă porta de entrada. Aproximei-me e comprei um ingresso. A garota no guichĂȘ parecia melhor do que as fotos. Naquele momento me restavam 38 centavos. Entrei no teatro escuro equipado com oito fileiras de poltronas. As trĂȘs primeiras estavam lotadas.
Tive sorte. O filme jĂĄ havia terminado, e a primeira stripper jĂĄ estava no palco. Darlene. A primeira geralmente era a pior, uma veterana decadente que nĂŁo conseguiria, no mais das vezes, nada alĂ©m de uns nĂșmeros de bailado na segunda linha do coro. Seja como fosse, tĂnhamos Darlene para a abertura. Era provĂĄvel que alguma das dançarinas tivesse sido assassinada, ou estivesse menstruada, ou tivesse tido uma crise histĂ©rica, explicando assim a nova oportunidade para Darlene de um nĂșmero solo.
Darlene, no entanto, era boa. Magra, mas peituda. Um corpo que lembrava um salgueiro. Ao fim daquelas costas esguias, no meio daquele corpo magro, brotava um enorme traseiro. Era como um milagre â o suficiente para levar um homem Ă loucura.
Darlene trajava um vestido negro de veludo, longo e muito justo â suas panturrilhas e pernas pareciam de um branco mortiço contra aquela negrura. Ela dançava e nos olhava com olhos de maquiagem extremamente carregada. Era sua chance. Ela queria retornar â ter novamente o seu nĂșmero no programa. Eu estava com ela. Ă medida que o zĂper descia, mais e mais do seu corpo ficava Ă mostra, saltando para fora daquele sofisticado vestido de veludo negro, pernas e carne branca. Logo ela estava apenas com seu sutiĂŁ cor-de-rosa e uma tanga cheia de penduricalhos, falsos diamantes que balançavam e reluziam aos seus movimentos.
Darlene seguiu dançando e se agarrou Ă cortina do palco, que estava puĂda e coberta por uma grossa camada de pĂł. Ela se agarrou ao pano, dançando no compasso que o quarteto de mĂșsicos impunha e sob a luz rosada dos holofotes.
Começou a trepar com a cortina. A banda acelerou o ritmo. Darlene realmente se entregou para a cortina. As luzes rosadas passaram de sĂșbito a pĂșrpuras. A banda veio com tudo. Ela pareceu chegar ao orgasmo. Sua cabeça se curvou para trĂĄs, sua boca se abriu.
EntĂŁo ela se endireitou e voltou dançando para o centro do palco. De onde eu estava sentado, podia escutĂĄ-la cantar para si mesma por sobre a mĂșsica. Agarrou seu sutiĂŁ cor-de-rosa e o arrancou, enquanto um cara trĂȘs filas abaixo acendia um cigarro. Agora restava apenas a tanga. Empurrou o dedo contra o umbigo e gemeu.
Darlene seguiu dançando no centro do palco. A banda tocava com mais sutileza. Ela começou a se mexer com doçura. EntĂŁo o quarteto começou a esquentar a coisa novamente. Os mĂșsicos avançavam para o ato culminante; o baterista atacava o aro da caixa lembrando o fogo de uma metralhadora; eles pareciam extenuados, desesperados.
Darlene manipulou seus seios nus, mostrando-os para a gente, seus olhos reluziam com a plenitude do sonho, seus lĂĄbios Ășmidos e entreabertos. De repente, ela se voltou e balançou seu imenso rabo para nĂłs. As contas tremularam e brilharam em um bailado louco e cintilante. O canhĂŁo de luz acompanhava a dança e os movimentos como uma espĂ©cie de sol. O quarteto seguia botando para quebrar. Darlene girava e girava. Ela lançou as contas para longe. Eu olhei, eles olharam. PodĂamos ver os pelos de sua buceta atravĂ©s de sua segunda pele. A banda realmente fazia sua bunda vibrar.
E eu nĂŁo conseguia ficar de pau duro.
â FactĂłtum
saĂmos do bar
porque estĂĄvamos sem dinheiro
mas ainda tĂnhamos algumas garrafas de vinho
no quarto.
era cerca de quatro da tarde
e passamos por um posto de bombeiros
e ela
enlouqueceu:
âum POSTO DE BOMBEIROS! ah, eu adoro
os CAMINHĂES, sĂŁo tĂŁo vermelhos e tudo o
mais! vamos entrar!â
eu a segui.
âCAMINHĂES DE BOMBEIRO!â ela gritou
rebolando seu grande
rabo.
ela jĂĄ tentava subir num
deles, erguendo a saia até
a cintura, tentando alcançar o
banco.
âaqui, aqui, deixe eu ajudar vocĂȘ!â correu um
bombeiro.
outro bombeiro se aproximou de
mim: ânossos cidadĂŁos sĂŁo sempre bem-vindosâ,
ele me
disse.
o outro cara jĂĄ estava ao lado dela no
banco. âvocĂȘ tem uma dessas COISAS enormes?â
ela lhe perguntou. âdigo, hahaha!, quero dizer um
desses CAPACETES enormes!
âtenho um outro capacete que tambĂ©m Ă© enormeâ, ele lhe
disse.
âhum, hahaha!â
âvocĂȘ joga cartas?â perguntei ao meu
bombeiro. tenho 43 centavos e todo o tempo do
mundo.
âvenha comigo atĂ© os fundosâ ele
disse. âclaro, nada de jogo por aqui.
Ă© contra as
regras.â
âentendoâ, eu lhe
disse.
jĂĄ havia transformado meus 43 centavos em
um dĂłlar e noventa
quando a vi subir as escadas com
seu bombeiro.
âele vai me mostrar seus
alojamentosâ, ela me
disse.
âentendoâ, eu lhe
respondi.
quando o bombeiro dela desceu deslizando pelo mastro
dez minutos depois
eu lhe fiz um aceno
com a cabeça.
âsĂŁo 5
dĂłlares.â
â5 dĂłlares pelo
quĂȘ?â
ânĂŁo queremos um escĂąndalo, nĂŁo Ă©
mesmo? nĂłs dois poderĂamos perder nossos
empregos. claro, eu nĂŁo estou
trabalhando.
ele me passou os
5.
âsente aĂ, vocĂȘ pode
recuperĂĄ-los.â
âqual que Ă© o jogo?â
âblackjack.â
âjogar Ă© contra a
lei.â
âtudo que Ă© interessante Ă©. alĂ©m disso,
vocĂȘ estĂĄ vendo algum dinheiro sobre a
mesa?â
ele se sentou.
agora éramos
5.
âque tal a parada, Harry?â alguĂ©m
perguntou.
ânada mal, nada
mal.â
o outro cara subia as
escadas.
jogavam muito mal.
nĂŁo se davam ao trabalho de memorizar o
baralho. nĂŁo sabiam se sobravam mais
cartas altas do que baixas. e basicamente jogavam até estourar,
nĂŁo sabiam garantir uma mĂŁo
baixa.
quando o outro cara desceu
me passou uma nota de
cinco.
âcomo estava, Marty?â
ânada mal. ela conhece... uns movimentos
bacanas.â
âmais uma carta!â eu disse. âuma Ăłtima garota. vou
eu mesmo lĂĄ.â
ninguém disse
nada.
âalgum incĂȘndio sĂ©rio nos Ășltimos tempos?â
perguntei.
ânĂŁo. nada de
mais.â
âcaras, vocĂȘs precisam
se exercitar. mais uma carta para
mim!â
um garoto grande e ruivo, que estava dando um lustre num
caminhĂŁo
largou sua flanela e
subiu as escadas.
ao descer me jogou uma nota de
cinco.
quando o quarto cara desceu eu lhe dei
3 de cinco por uma de
vinte.
nĂŁo sei quantos bombeiros
estavam no prédio ou onde eles
estavam. notei que alguns haviam escapado da minha cobrança
mas eu era um bom
esportista.
estava escurecendo
quando o alarme
tocou.
começaram a correr pra lå e pra cå
caras surgiram deslizando pelo
mastro.
entĂŁo ela surgiu deslizando pelo
mastro. era boa nesse negĂłcio do
mastro. uma mulher de verdade. nada além de tripas
e
rabo.
âvamos emboraâ, eu lhe
disse.
ela ficou ali, dando tchauzinho para os
bombeiros mas eles jĂĄ nĂŁo
pareciam
muito interessados.
âvamos voltar para o barâ, eu lhe
disse.
âah, vocĂȘ arrumou uma
grana?â
âachei uns trocos que eu achava que tinha
perdido...â
sentamos no fundo do bar
com uĂsque e cerveja para dar uma
amaciada.
âpreciso dar uma boa
dormida.â
âclaro, baby, vocĂȘ precisa de um bom
sono.â
âolha aquele marinheiro me encarando!
deve achar que eu sou... uma...â
ânĂŁo, ele nĂŁo acha nada disso. relaxe, vocĂȘ tem
classe, muita classe. Ă s vezes vocĂȘ me lembra uma
cantora de Ăłpera. vocĂȘ sabe, uma daquelas prima-donas.
vocĂȘ exala classe.
bebe
aĂ.â
pedi mais 2
rodadas.
âsabe, paizinho, vocĂȘ Ă© o Ășnico homem que eu
AMO! digo, de verdade... AMO! sabe disso,
nĂ©?â
âclaro que sei. Ă s vezes penso que sou um rei
apesar de ser quem sou.â
âsim, sim, Ă© isso que estou dizendo, algo
assim.â
tive que ir mijar. quando voltei
o marinheiro estava sentado no meu
lugar. a perna dela roçava a do marinheiro
enquanto ele falava.
me afastei e fui jogar dardos com
Harry o Cavalo e com o jornaleiro da
esquina.
O Hotel Sans era o melhor da cidade de Los Angeles. Era um hotel antigo, mas tinha a classe e o charme que faltavam aos mais novos. Ficava de frente para o parque do centro da cidade.
Era famoso por suas convençÔes de negĂłcio e pelas putas carĂssimas, de talento quase legendĂĄrio que, no final de uma noite lucrativa, costumavam presentear os mensageiros com boas gorjetas. Havia tambĂ©m histĂłrias de mensageiros que haviam se tornado milionĂĄrios â mensageiros desgraçados, com cacetes de 27 centĂmetros que haviam tirado a sorte grande ao conhecer e se casar com alguma velhota rica que se hospedara no hotel. E a comida, as LAGOSTAS, os enormes chefs negros em seus altos e brancos chapĂ©us de mestre-cuca, que sabiam de tudo, nĂŁo apenas sobre comida, mas sobre a vida e sobre mim e sobre todas as coisas.
Fui contratado para trabalhar na seção de abastecimento. O setor de descarga tinha estilo: para cada caminhão que chegava, havia dez caras a postos para descarregar, quando na verdade dois bastariam. Eu vestia minhas melhores roupas. Nunca tive que tocar em nada.
DescarregĂĄvamos (eles descarregavam) tudo o que chegava ao hotel, em sua maioria itens alimentĂcios. Minha impressĂŁo era de que os ricos comiam mais lagostas do que qualquer outra coisa. Caixas e mais caixas do bicho nĂŁo paravam de chegar, criaturas deliciosamente rosadas e grandes, balançando suas garras e barbas.
â VocĂȘ gosta desse negĂłcio, nĂŁo, Chinaski?
â Claro. Maravilha â eu concordava.
Um dia, a mulher encarregada dos empregados me chamou. O escritĂłrio ficava atrĂĄs do setor de descarga.
â Quero que vocĂȘ gerencie este escritĂłrio aos domingos, Chinaski.
â E o que tenho que fazer?
â Basta atender ao telefone e contratar os lavadores de prato dos domingos.
â Tudo bem!
O primeiro domingo foi Ăłtimo. SĂł tive que ficar ali sentado. Logo entrou um velho.
â Pois nĂŁo, camarada? â perguntei.
Ele vestia um terno caro, mas estava cheio de vincos e um pouco sujo; e os punhos estavam puĂdos. Segurava o chapĂ©u em uma das mĂŁos.
â Escute, vocĂȘs precisam de um cara que seja bom de conversa? AlguĂ©m que possa tratar com o pĂșblico? Tenho uma certa dose de charme, sei contar histĂłrias engraçadas, sou capaz de fazer as pessoas darem boas risadas.
â Ă?
â Ah, sim.
â Faça-me rir.
â Oh, vocĂȘ nĂŁo entende. Tem que ser no cenĂĄrio adequado, Ă© preciso clima, decoração, vocĂȘ entende...
â Faça-me rir.
â Senhor...
â VocĂȘ nĂŁo serve, nĂŁo passa de um bĂȘbado!
Os lavadores de pratos eram contratados pela tarde. SaĂ do escritĂłrio. Quarenta vagabundos de rua estavam por ali.
â Prestem atenção! Precisamos de cinco homens de qualidade! Cinco! Nada de bĂȘbados, pervertidos, comunistas ou molestadores de criança! E Ă© preciso ter o cartĂŁo da previdĂȘncia! Vamos lĂĄ, tirem o cartĂŁo do bolso e ergam sobre suas cabeças!
Os cartÔes começaram a aparecer. Eles os agitavam.
â Ei, eu tenho um!
â Ei, camarada, olhe eu aqui! Me dĂȘ essa chance, cara!
Olhei para eles devagar.
â VocĂȘ, com essa marca de merda no colarinho â apontei. â DĂȘ um passo Ă frente.
â Isso nĂŁo Ă© uma marca de merda, senhor. Ă molho de carne.
â Bem, sei nĂŁo, camarada, me parece que vocĂȘ anda comendo mais merda do que rosbife!
â Ha, ha, ha, ha â gargalharam os vagabundos. â Ha, ha, ha, ha.
â Certo. Ainda preciso de quatro bons lavadores! Tenho aqui quatro moedinhas na mĂŁo. Vou jogar pra cima. Os quatro que me trouxerem as moedinhas lavarĂŁo os pratos hoje!
Lancei as moedas bem alto sobre a multidĂŁo. Corpos saltaram e caĂram, roupas se rasgaram, muitos praguejares, um homem gritou, vĂĄrios socos foram trocados. EntĂŁo os quatro sortudos se aproximaram, um por vez, ofegando, cada qual com sua moedinha. Dei-lhes seus cartĂ”es de trabalho e lhes indiquei a cantina dos empregados, onde, antes de mais nada, receberiam comida. Os outros vagabundos foram se retirando vagarosamente pela rampa de carregamento, desceram e seguiram pela viela em direção Ă terra devastada que Ă© o centro de Los Angeles aos domingos.
O Mercado dos Trabalhadores Rurais[10] ficava na Fifth Street com a San Pedro. VocĂȘ tinha que se apresentar Ă s cinco da manhĂŁ. Ainda estava escuro quando eu cheguei lĂĄ. Alguns homens estavam sentados, outros de pĂ©, enrolando seus cigarros e conversando baixinho. Tais lugares sempre tĂȘm o mesmo cheiro â suor velho, urina e vinho barato.
No dia anterior, eu tinha ajudado Jan a se mudar para a casa de um corretor de imĂłveis, um gordo que morava na Kingsley Drive. Fiquei escondido num canto do saguĂŁo e a vi beijĂĄ-lo. Logo os dois entraram no apartamento dele e a porta se fechou. Retornei sozinho para a rua, notando pela primeira vez os papĂ©is esvoaçantes e o lixo que se acumulava pelas calçadas. HavĂamos sido despejados de nosso apartamento. Eu tinha US$ 2,08. Jan me prometeu que esperaria minha sorte mudar, mas era difĂcil de acreditar nisso. O nome do corretor era Jim Bemis, tinha um escritĂłrio na Alvarado Street e era cheio da grana.
â Odeio quando ele trepa comigo â ela tinha dito.
Agora, provavelmente, ela estava dizendo a mesma coisa de mim.
Laranjas e tomates eram empilhados em diversas caixas e, aparentemente, eram de graça. Apanhei uma laranja, fiz um buraco com os dentes na casca e chupei o suco. Eu havia exaurido os meus benefĂcios do seguro-desemprego desde que deixara o Hotel Sans.
Um cara de cerca de quarenta anos veio em minha direção. Seu cabelo parecia morto, de fato nem parecia cabelo humano, lembrando mais fios de linha. A luz branca que vinha do teto lhe atingia em cheio. Ele tinha verrugas marrons na cara, muitas delas concentradas ao redor de sua boca. Um ou dois pelos negros brotavam de cada uma delas.
â Como vai?
â Tudo bem.
â EstĂĄ a fim de um boquete?
â NĂŁo, acho que nĂŁo.
â Estou com tesĂŁo, cara. Estou excitado. Sei realmente fazer um.
â Escute, sinto muito. NĂŁo estou a fim.
Ele se afastou tomado de fĂșria. Dei uma olhada pelo galpĂŁo. Havia cerca de cinquenta homens esperando. Havia dez ou doze funcionĂĄrios do governo sentados em suas mesas ou caminhando ao redor. Eles fumavam e pareciam mais preocupados que os vagabundos de rua. Os funcionĂĄrios estavam separados dos vagabundos por uma sĂłlida tela de metal entrelaçada, que ia do teto ao chĂŁo. AlguĂ©m a tinha pintado de amarelo. Era um amarelo bastante apagado.
Quando um dos funcionårios tinha que fazer uma transação com um dos vagabundos, ele destravava e corria uma portinhola de vidro presa à tela. Quando a questão da papelada se resolvia, o funcionårio fechava a portinhola, trancava-a por dentro e, toda vez que isso ocorria, a esperança parecia desaparecer. Todos despertåvamos quando a portinhola deslizava, a chance de cada homem era a chance de todos nós, mas, quando ela se fechava, a esperança evaporava. Então restava apenas olhar para as caras uns dos outros.
Na parede dos fundos, atrĂĄs da tela amarela e dos funcionĂĄrios, havia seis quadros-negros. Havia giz branco e apagadores, como na escola. Cinco dos quadros estavam vazios, embora ainda fosse possĂvel enxergar os resquĂcios das mensagens anteriores, de trabalhos havia muito preenchidos e naquele momento perdidos para sempre, ao menos no que nos dizia respeito.
Havia uma mensagem no sexto quadro:
PRECISA-SE DE COLHEDORES DE TOMATES EM
BAKERSFIELD
Eu pensara que as colheitadeiras automĂĄticas haviam extinguido esse trabalho. No entanto, ali estava o anĂșncio. Seres humanos, aparentemente, saem mais barato que mĂĄquinas. E mĂĄquinas quebram. Ă isso.
Dei uma olhada ao redor do recinto â nĂŁo havia orientais nem judeus, pouquĂssimos negros. A maioria dos vagabundos ou era composta de brancos pobres ou de mexicanos. Os dois negros, naquele momento, jĂĄ iam altos no vinho.
EntĂŁo um dos funcionĂĄrios se pĂŽs de pĂ©. Era um homem grande, com uma proeminente barriga de cerveja. O que vocĂȘ podia notar era sua camisa amarela com listras pretas verticais. A camisa estava esturricada, e ele usava braçadeiras â para segurar suas mangas como nas fotografias tiradas em 1890. Ele se aproximou e destravou uma das janelas de vidro na tela amarela.
â Muito bem! HĂĄ um caminhĂŁo lĂĄ nos fundos recolhendo gente pra trabalhar em Bakersfield!
Correu a janela, trancou-a, sentou-se Ă sua mesa e acendeu um cigarro.
Por um momento, ninguĂ©m se mexeu. EntĂŁo, um a um, aqueles que estavam sentados nos bancos começaram a se levantar, os rostos sem expressĂŁo. Os homens que jĂĄ aguardavam de pĂ© deixaram cair seus cigarros e os apagaram cuidadosamente com as solas de seus sapatos. Depois disso, começou um ĂȘxodo vagaroso e geral; todos saĂram em fila por uma porta lateral que dava para um pĂĄtio cercado.
O sol nascia. Na verdade, olhĂĄvamos pela primeira vez uns para os outros. Uns poucos homens sorriam ao reconhecer um rosto familiar.
Permanecemos enfileirados, lutando para conseguir chegar atĂ© a caçamba, o dia começando a raiar. Era hora de partir. SubĂamos em um caminhĂŁo de exĂ©rcito usado na Segunda Guerra Mundial, a cobertura de lona toda rasgada. Fomos avançando, aos encontrĂ”es, mas ao mesmo tempo tentando manter a mĂnima polidez. EntĂŁo, cansado das cotoveladas, dei um passo para o lado.
A capacidade do caminhão era admiråvel. O grande capataz mexicano acompanhava a tudo em um dos lados da traseira da caçamba, acenando sem parar:
â Isso aĂ, isso aĂ, vamos lĂĄ, vamos lĂĄ...
Os homens avançavam devagar, como se entrassem na boca de uma baleia.
Pela lateral do caminhĂŁo eu podia ver os rostos deles; falavam baixinho e sorriam. Sentia a um sĂł tempo repugnĂąncia por aquelas pessoas, mas tambĂ©m minha solidĂŁo. EntĂŁo decidi que era capaz de colher tomates. Decidi embarcar. AlguĂ©m bateu em mim pelas costas. Era uma mexicana gorda e ela parecia bastante sentimental. Agarrei-a pelos quadris para ajudĂĄ-la a subir. Ela era muito pesada, difĂcil de manejar. Finalmente encontrei apoio em algo; aparentemente uma de minhas mĂŁos se atolou no fundo da sua virilha. Consegui colocĂĄ-la para dentro. EntĂŁo fui em busca de um apoio para tambĂ©m subir. Eu era o Ășltimo. O capataz mexicano pĂŽs o pĂ© sobre minha mĂŁo.
â NĂŁo â ele disse â, jĂĄ temos gente que chega.
O motor do caminhĂŁo deu a partida, engasgou e apagou. O motorista tentou novamente. Desta vez pegou, e eles seguiram em frente.
A Associação de Trabalhadores para a IndĂșstria ficava nos limites da periferia. Aqui os vagabundos de rua eram mais bem vestidos, mais jovens, porĂ©m igualmente indiferentes. Sentavam-se por ali, nas bordas das janelas, inclinados para frente, aquecendo-se ao sol e bebendo o cafĂ© grĂĄtis que a A.T.I. oferecia. NĂŁo havia creme e açĂșcar, mas era de graça. NĂŁo havia qualquer tela nos separando dos funcionĂĄrios. Os telefones tocavam com mais frequĂȘncia, e os empregados aqui tinham um aspecto muito mais descontraĂdo que os do Mercado dos Trabalhadores Rurais.
Aproximei-me de um balcĂŁo e me foi dada uma ficha e uma caneta presa por corrente.
â Preencha â disse o funcionĂĄrio, um rapaz mexicano de boa aparĂȘncia que tentava esconder sua cordialidade atrĂĄs de uma postura profissional.
Comecei a preencher a ficha. Na lacuna para o nĂșmero de telefone, escrevi: nenhum. ApĂłs grau de escolaridade e capacitação profissional, escrevi: dois anos na L.A. City College. Jornalismo e belas-artes.
EntĂŁo eu disse ao funcionĂĄrio:
â Rasurei a ficha. Poderia me conseguir outra?
Ele me passou uma nova em branco. Em vez daquilo, escrevi: ensino mĂ©dio, L. A. High School. Carregador, almoxarife, trabalhador braçal. Alguma experiĂȘncia como datilĂłgrafo.
Devolvi-lhe a ficha.
â Muito bem â disse o funcionĂĄrio â, sente aĂ e vamos ver se aparece alguma coisa.
Encontrei um espaço na borda de uma das janelas e me sentei. Um negro velho estava sentado próximo de mim. Ele tinha um rosto interessante; não trazia aquele olhar resignado que a maioria dos que estavam ali mostrava. Era como se ele tentasse não rir de si mesmo nem do resto de nós.
Ele viu que eu o olhava. Sorriu com malĂcia.
â O cara que chefia esse lugar Ă© muito esperto. Foi demitido dos Trabalhadores Rurais, ficou puto da vida, veio pra cĂĄ e abriu isso aqui. Especializado em serviços de meio turno. Um cara que quer descarregar um vagĂŁo, rĂĄpido e barato, liga pra cĂĄ.
â Pois Ă©, ouvi falar.
â O cara quer descarregar um vagĂŁo, rĂĄpido e barato, liga pra cĂĄ. O chefe desse lugar leva cinquenta por cento. A gente nĂŁo reclama, pega o que aparece.
â Pra mim estĂĄ beleza. Merda.
â VocĂȘ parece desanimado. Tudo certo?
â Perdi uma mulher.
â Logo vĂȘm outras, e vocĂȘ tambĂ©m vai acabar perdendo elas.
â Pra onde elas vĂŁo?
â Experimente isso aqui.
Era uma garrafa em um saco. Tomei um gole. Vinho do porto.
â Obrigado.
â NĂŁo hĂĄ mulheres quando se estĂĄ na rua.
Ele me passou novamente a garrafa.
â NĂŁo deixe ele ver nĂłs dois bebendo. Isso deixa ele louco.
Enquanto eståvamos ali sentados, vårios homens foram chamados e seguiram para algum posto. Aquilo nos alegrou. Pelo menos havia alguma ação.
Meu amigo negro e eu ficamos esperando, revezando a garrafa.
Até que ela acabou vazia.
â Onde Ă© a loja de bebidas mais prĂłxima? â perguntei.
Recebi o endereço e fui atĂ© lĂĄ. De alguma maneira, durante o dia, o calor sempre era escaldante nas periferias de Los Angeles. VocĂȘ avistava os vagabundos caminhando nas redondezas com pesados sobretudos. Mas quando a noite caĂa, e o albergue estava cheio, aqueles sobretudos vinham a calhar.
Quando retornei da loja, meu amigo continuava ali.
Sentei-me e abri a garrafa, passei o saco.
â PĂŽ, mantĂ©m o negĂłcio na moita â ele disse.
Era agradĂĄvel ficar bebendo aquele vinho.
Alguns mosquitos começaram a se reunir e a circular ao nosso redor.
â Mosquitinhos do vinho â ele disse.
â Os filhos da puta ficam viciados nisso.
â Sabem o que Ă© bom.
â Bebem pra esquecer suas mulheres.
â SĂł bebem.
Dei um golpe com a mĂŁo no ar e apanhei um dos mosquitinhos. Quando a abri a Ășnica coisa que pude ver foi uma mancha negra e a estranha visĂŁo de duas asinhas. Nada mais.
â AĂ vem ele!
Era o jovem de boa aparĂȘncia que comandava o lugar. Apressou-se em nossa direção.
â Muito bem! Caiam fora daqui! Sumam, seus bebuns de merda! Deem o fora daqui antes que eu chame a polĂcia!
Ele nos conduziu atĂ© a porta, aos empurrĂ”es e nos maldizendo. Senti culpa, mas nenhuma raiva. Mesmo enquanto nos empurrava, eu sabia que ele nĂŁo dava a mĂnima para o que fazĂamos. Ele usava um anel enorme na mĂŁo direita.
NĂŁo avançåvamos com a pressa necessĂĄria, e recebi um golpe com a mĂŁo do anel no meu supercĂlio esquerdo; logo senti o sangue começar a correr e depois meu olho inchar. Meu amigo e eu estĂĄvamos de volta para as ruas.
Afastamo-nos. Encontramos um pĂłrtico e sentamos sobre os degraus. Passei-lhe a garrafa. Ele deu um gole.
â Coisa fina.
Devolveu-me a garrafa. Dei um gole.
â Ă, coisa fina.
â O sol jĂĄ vai alto.
â Ă, o sol jĂĄ vai alto mesmo.
Ficamos em silĂȘncio, revezando a garrafa.
EntĂŁo a bebida chegou ao fim.
â Bem â ele disse, estĂĄ na minha hora.
â Nos falamos.
Ele se afastou. Levantei-me, segui na direção contråria, dobrei a esquina e ganhei a Main Street. Segui até chegar ao Roxie.
As fotos das strippers estavam expostas atrĂĄs de um vidro junto Ă porta de entrada. Aproximei-me e comprei um ingresso. A garota no guichĂȘ parecia melhor do que as fotos. Naquele momento me restavam 38 centavos. Entrei no teatro escuro equipado com oito fileiras de poltronas. As trĂȘs primeiras estavam lotadas.
Tive sorte. O filme jĂĄ havia terminado, e a primeira stripper jĂĄ estava no palco. Darlene. A primeira geralmente era a pior, uma veterana decadente que nĂŁo conseguiria, no mais das vezes, nada alĂ©m de uns nĂșmeros de bailado na segunda linha do coro. Seja como fosse, tĂnhamos Darlene para a abertura. Era provĂĄvel que alguma das dançarinas tivesse sido assassinada, ou estivesse menstruada, ou tivesse tido uma crise histĂ©rica, explicando assim a nova oportunidade para Darlene de um nĂșmero solo.
Darlene, no entanto, era boa. Magra, mas peituda. Um corpo que lembrava um salgueiro. Ao fim daquelas costas esguias, no meio daquele corpo magro, brotava um enorme traseiro. Era como um milagre â o suficiente para levar um homem Ă loucura.
Darlene trajava um vestido negro de veludo, longo e muito justo â suas panturrilhas e pernas pareciam de um branco mortiço contra aquela negrura. Ela dançava e nos olhava com olhos de maquiagem extremamente carregada. Era sua chance. Ela queria retornar â ter novamente o seu nĂșmero no programa. Eu estava com ela. Ă medida que o zĂper descia, mais e mais do seu corpo ficava Ă mostra, saltando para fora daquele sofisticado vestido de veludo negro, pernas e carne branca. Logo ela estava apenas com seu sutiĂŁ cor-de-rosa e uma tanga cheia de penduricalhos, falsos diamantes que balançavam e reluziam aos seus movimentos.
Darlene seguiu dançando e se agarrou Ă cortina do palco, que estava puĂda e coberta por uma grossa camada de pĂł. Ela se agarrou ao pano, dançando no compasso que o quarteto de mĂșsicos impunha e sob a luz rosada dos holofotes.
Começou a trepar com a cortina. A banda acelerou o ritmo. Darlene realmente se entregou para a cortina. As luzes rosadas passaram de sĂșbito a pĂșrpuras. A banda veio com tudo. Ela pareceu chegar ao orgasmo. Sua cabeça se curvou para trĂĄs, sua boca se abriu.
EntĂŁo ela se endireitou e voltou dançando para o centro do palco. De onde eu estava sentado, podia escutĂĄ-la cantar para si mesma por sobre a mĂșsica. Agarrou seu sutiĂŁ cor-de-rosa e o arrancou, enquanto um cara trĂȘs filas abaixo acendia um cigarro. Agora restava apenas a tanga. Empurrou o dedo contra o umbigo e gemeu.
Darlene seguiu dançando no centro do palco. A banda tocava com mais sutileza. Ela começou a se mexer com doçura. EntĂŁo o quarteto começou a esquentar a coisa novamente. Os mĂșsicos avançavam para o ato culminante; o baterista atacava o aro da caixa lembrando o fogo de uma metralhadora; eles pareciam extenuados, desesperados.
Darlene manipulou seus seios nus, mostrando-os para a gente, seus olhos reluziam com a plenitude do sonho, seus lĂĄbios Ășmidos e entreabertos. De repente, ela se voltou e balançou seu imenso rabo para nĂłs. As contas tremularam e brilharam em um bailado louco e cintilante. O canhĂŁo de luz acompanhava a dança e os movimentos como uma espĂ©cie de sol. O quarteto seguia botando para quebrar. Darlene girava e girava. Ela lançou as contas para longe. Eu olhei, eles olharam. PodĂamos ver os pelos de sua buceta atravĂ©s de sua segunda pele. A banda realmente fazia sua bunda vibrar.
E eu nĂŁo conseguia ficar de pau duro.
â FactĂłtum
Prato Feito
levei minha amiga Ă sua Ășltima leitura de poesia,
ela disse.
sim, sim? perguntei.
ela Ă© jovem e bonita, ela disse.
e? perguntei.
ela achou um
lixo.
entĂŁo ela esticou as pernas no sofĂĄ
e tirou as
botas.
minhas pernas nĂŁo sĂŁo lĂĄ essas coisas,
ela disse.
tudo bem, pensei, minha poesia nĂŁo Ă© lĂĄ
essas coisas; suas pernas nĂŁo sĂŁo lĂĄ essas
coisas.
misturemos as duas.
ela disse.
sim, sim? perguntei.
ela Ă© jovem e bonita, ela disse.
e? perguntei.
ela achou um
lixo.
entĂŁo ela esticou as pernas no sofĂĄ
e tirou as
botas.
minhas pernas nĂŁo sĂŁo lĂĄ essas coisas,
ela disse.
tudo bem, pensei, minha poesia nĂŁo Ă© lĂĄ
essas coisas; suas pernas nĂŁo sĂŁo lĂĄ essas
coisas.
misturemos as duas.
Prece Debaixo de Mau Tempo
por Deus, nĂŁo sei o que
fazer.
elas sĂŁo tĂŁo legais de se ter por perto.
elas tĂȘm um jeito de tocar
as bolas
e olhar para o pau muito
seriamente
virando-o
puxando-o
examinando cada parte
enquanto seus longos cabelos caem
sobre a sua barriga.
nĂŁo Ă© apenas o foder e o chupar
que alcançam o interior do homem
e o amaciam, sĂŁo os extras,
estĂĄ tudo nos extras.
agora Ă© noite e estĂĄ chovendo
e não hå ninguém
estĂŁo todas em outros lugares
examinando coisas
em novos quartos
com novos humores
mesmo que em velhos
quartos.
seja o que for, Ă© noite e estĂĄ chovendo,
uma chuva torrencial, maldita e
pesada...
muito pouco a fazer.
jĂĄ li o jornal
paguei a conta do gĂĄs
a conta de luz
a conta do telefone.
continua chovendo.
elas amaciam um homem
e entĂŁo o deixam a nadar
em seu prĂłprio suco.
preciso de uma vagabunda no velho estilo
batendo Ă porta esta noite
fechando seu guarda-chuva verde,
gotas de chuva enluarada sobre
sua bolsa, dizendo, âmerda, cara,
nĂŁo consegue achar uma mĂșsica melhor do que
essa no seu rĂĄdio?
e aumente o aquecimento...â
Ă© sempre quando um homem estĂĄ tomado
de amor e tudo
mais
que continua chovendo
alagadoura
encharcante
chuva
boa para as ĂĄrvores e para a
grama e para o ar...
boa para coisas que
vivem sozinhas.
eu daria qualquer coisa
pela mĂŁo de uma fĂȘmea em mim
esta noite.
elas amaciam um homem e
depois o deixam
escutando a chuva.
fazer.
elas sĂŁo tĂŁo legais de se ter por perto.
elas tĂȘm um jeito de tocar
as bolas
e olhar para o pau muito
seriamente
virando-o
puxando-o
examinando cada parte
enquanto seus longos cabelos caem
sobre a sua barriga.
nĂŁo Ă© apenas o foder e o chupar
que alcançam o interior do homem
e o amaciam, sĂŁo os extras,
estĂĄ tudo nos extras.
agora Ă© noite e estĂĄ chovendo
e não hå ninguém
estĂŁo todas em outros lugares
examinando coisas
em novos quartos
com novos humores
mesmo que em velhos
quartos.
seja o que for, Ă© noite e estĂĄ chovendo,
uma chuva torrencial, maldita e
pesada...
muito pouco a fazer.
jĂĄ li o jornal
paguei a conta do gĂĄs
a conta de luz
a conta do telefone.
continua chovendo.
elas amaciam um homem
e entĂŁo o deixam a nadar
em seu prĂłprio suco.
preciso de uma vagabunda no velho estilo
batendo Ă porta esta noite
fechando seu guarda-chuva verde,
gotas de chuva enluarada sobre
sua bolsa, dizendo, âmerda, cara,
nĂŁo consegue achar uma mĂșsica melhor do que
essa no seu rĂĄdio?
e aumente o aquecimento...â
Ă© sempre quando um homem estĂĄ tomado
de amor e tudo
mais
que continua chovendo
alagadoura
encharcante
chuva
boa para as ĂĄrvores e para a
grama e para o ar...
boa para coisas que
vivem sozinhas.
eu daria qualquer coisa
pela mĂŁo de uma fĂȘmea em mim
esta noite.
elas amaciam um homem e
depois o deixam
escutando a chuva.
Putrefação
nos Ășltimos tempos
tenho pensado
que este paĂs
retrocedeu
4 ou 5 décadas
e que todos os
avanços sociais
os bons sentimentos de
uma pessoa para com a
outra
foram varridos do
mapa
sendo substituĂdos pelos mesmos
velhos
fanatismos.
temos
mais do que nunca
a sede egoĂsta de poder
o descaso pelos
fracos
pelos velhos
pelos empobrecidos
pelos
desamparados.
estamos substituindo a vontade pela
guerra
salvação por
escravidĂŁo.
desperdiçamos os
ganhos
tornamo-nos
rapidamente
menos.
temos nossa Bomba
Ă© nosso modo
nossa perdição
e nossa
vergonha.
agora
alguma coisa tĂŁo triste
tomou conta de nĂłs
que
a respiração
se esvai
e nĂłs nĂŁo podemos sequer
chorar.
tenho pensado
que este paĂs
retrocedeu
4 ou 5 décadas
e que todos os
avanços sociais
os bons sentimentos de
uma pessoa para com a
outra
foram varridos do
mapa
sendo substituĂdos pelos mesmos
velhos
fanatismos.
temos
mais do que nunca
a sede egoĂsta de poder
o descaso pelos
fracos
pelos velhos
pelos empobrecidos
pelos
desamparados.
estamos substituindo a vontade pela
guerra
salvação por
escravidĂŁo.
desperdiçamos os
ganhos
tornamo-nos
rapidamente
menos.
temos nossa Bomba
Ă© nosso modo
nossa perdição
e nossa
vergonha.
agora
alguma coisa tĂŁo triste
tomou conta de nĂłs
que
a respiração
se esvai
e nĂłs nĂŁo podemos sequer
chorar.
Quem, Diabos, É Tom Jones?
por duas semanas
estive dormindo com uma
garota de 24 anos de
Nova York â na Ă©poca
em que ocorria a greve dos
lixeiros, e certa noite
minha antiga mulher de 34 anos
chegou e disse, âquero ver
minha rivalâ. foi o que ela fez
e entĂŁo disse, âĂł, vocĂȘ
Ă© a coisinha mais querida!â
depois disso reparei que houve uma
gritaria de gatas selvagens â
urros e unhadas,
lamentos de animal ferido,
sangue e mijo...
eu estava bĂȘbado e sĂł de
calção. tentei
separar as duas e caĂ,
torcendo o joelho. entĂŁo
atravessaram a porta e
avançaram rua
afora.
chegaram viaturas cheias
de policiais. um helicĂłptero da
polĂcia sobrevoou o local.
fiquei no banheiro
e sorri para o espelho.
nĂŁo Ă© comum que coisas
tĂŁo esplĂȘndidas assim
aconteçam aos 55 anos.
muito melhor do que os distĂșrbios em
Watts[15].
a de 34 retornou
para dentro. estava toda
mijada e sua roupa
transformada em farrapos e era
seguida por dois policiais que
queriam saber a razĂŁo daquilo tudo.
erguendo meus calçÔes
eu tentava explicar.
estive dormindo com uma
garota de 24 anos de
Nova York â na Ă©poca
em que ocorria a greve dos
lixeiros, e certa noite
minha antiga mulher de 34 anos
chegou e disse, âquero ver
minha rivalâ. foi o que ela fez
e entĂŁo disse, âĂł, vocĂȘ
Ă© a coisinha mais querida!â
depois disso reparei que houve uma
gritaria de gatas selvagens â
urros e unhadas,
lamentos de animal ferido,
sangue e mijo...
eu estava bĂȘbado e sĂł de
calção. tentei
separar as duas e caĂ,
torcendo o joelho. entĂŁo
atravessaram a porta e
avançaram rua
afora.
chegaram viaturas cheias
de policiais. um helicĂłptero da
polĂcia sobrevoou o local.
fiquei no banheiro
e sorri para o espelho.
nĂŁo Ă© comum que coisas
tĂŁo esplĂȘndidas assim
aconteçam aos 55 anos.
muito melhor do que os distĂșrbios em
Watts[15].
a de 34 retornou
para dentro. estava toda
mijada e sua roupa
transformada em farrapos e era
seguida por dois policiais que
queriam saber a razĂŁo daquilo tudo.
erguendo meus calçÔes
eu tentava explicar.
Rosto de Um Candidato Num Cartaz de Rua
lĂĄ estĂĄ ele:
umas poucas ressacas
umas poucas brigas com mulheres
uns poucos pneus furados
nunca um pensamento suicida
nĂŁo mais que trĂȘs dores de dente
nunca perdeu uma refeição
nunca uma cadeia
nunca um amor
7 pares de sapatos
um filho na faculdade
um carro com um ano de uso
apĂłlices de seguro
um gramado verdejante
latas de lixo com tampas perfeitas
na certa serĂĄ eleito.
umas poucas ressacas
umas poucas brigas com mulheres
uns poucos pneus furados
nunca um pensamento suicida
nĂŁo mais que trĂȘs dores de dente
nunca perdeu uma refeição
nunca uma cadeia
nunca um amor
7 pares de sapatos
um filho na faculdade
um carro com um ano de uso
apĂłlices de seguro
um gramado verdejante
latas de lixo com tampas perfeitas
na certa serĂĄ eleito.
Saboreio As Cinzas de Tua Morte
as floraçÔes espargem
ĂĄgua inesperada
pela manga da minha camisa,
ĂĄgua inesperada
fresca e pura
como neve â
enquanto espadas
afiadas como talos
penetram
em seu peito
e as doces e selvagens
pedras
caem sobre nĂłs
e
nos encerram.
Foi quando desenvolvi um novo sistema para usar no hipĂłdromo. Eu tinha arrumado trĂȘs mil dĂłlares em um mĂȘs e meio, indo Ă s corridas apenas duas ou trĂȘs vezes por semana. Comecei a sonhar. Vi uma casinha Ă beira-mar. Vi-me vestido com roupas caras, calmo, levantando de manhĂŁ, entrando em meu carro importado, dirigindo com suavidade na saĂda da garagem. Vi jantares prazerosos com belos filĂ©s, precedidos e sucedidos por deliciosos drinques gelados em copos coloridos. A bela gorjeta. O charuto. E mulheres a mancheias. Ă fĂĄcil se deixar levar por esse tipo de pensamento quando os homens lhe entregam notas graĂșdas no guichĂȘ das apostas. Quando numa corrida de 1.200 m, que leva, digamos, um minuto e nove segundos, vocĂȘ ganha o equivalente a um mĂȘs de salĂĄrio.
EntĂŁo ali estava eu, de pĂ© no escritĂłrio do superintendente. LĂĄ estava ele atrĂĄs de sua mesa. Eu tinha um charuto na boca e uĂsque no meu hĂĄlito. Sentia-me endinheirado. Eu parecia endinheirado.
â Sr. Winters â eu disse â, os Correios sempre me trataram bem. Mas hĂĄ interesses externos que simplesmente exigem minha atenção. Se o senhor nĂŁo puder me dar uma licença, serei obrigado a me demitir.
â JĂĄ nĂŁo lhe dei uma licença no inĂcio do ano, Chinaski?
â NĂŁo, sr. Winters, o senhor rejeitou o meu pedido de licença. Desta vez isto nĂŁo serĂĄ possĂvel. Ou a licença ou a demissĂŁo.
â Tudo bem, preencha o formulĂĄrio e eu o assinarei. Mas sĂł posso lhe dar noventa dias de dispensa.
â Aceito â eu disse, exalando uma longa coluna de fumaça azul de meu charuto caro.
â Cartas na rua
ĂĄgua inesperada
pela manga da minha camisa,
ĂĄgua inesperada
fresca e pura
como neve â
enquanto espadas
afiadas como talos
penetram
em seu peito
e as doces e selvagens
pedras
caem sobre nĂłs
e
nos encerram.
Foi quando desenvolvi um novo sistema para usar no hipĂłdromo. Eu tinha arrumado trĂȘs mil dĂłlares em um mĂȘs e meio, indo Ă s corridas apenas duas ou trĂȘs vezes por semana. Comecei a sonhar. Vi uma casinha Ă beira-mar. Vi-me vestido com roupas caras, calmo, levantando de manhĂŁ, entrando em meu carro importado, dirigindo com suavidade na saĂda da garagem. Vi jantares prazerosos com belos filĂ©s, precedidos e sucedidos por deliciosos drinques gelados em copos coloridos. A bela gorjeta. O charuto. E mulheres a mancheias. Ă fĂĄcil se deixar levar por esse tipo de pensamento quando os homens lhe entregam notas graĂșdas no guichĂȘ das apostas. Quando numa corrida de 1.200 m, que leva, digamos, um minuto e nove segundos, vocĂȘ ganha o equivalente a um mĂȘs de salĂĄrio.
EntĂŁo ali estava eu, de pĂ© no escritĂłrio do superintendente. LĂĄ estava ele atrĂĄs de sua mesa. Eu tinha um charuto na boca e uĂsque no meu hĂĄlito. Sentia-me endinheirado. Eu parecia endinheirado.
â Sr. Winters â eu disse â, os Correios sempre me trataram bem. Mas hĂĄ interesses externos que simplesmente exigem minha atenção. Se o senhor nĂŁo puder me dar uma licença, serei obrigado a me demitir.
â JĂĄ nĂŁo lhe dei uma licença no inĂcio do ano, Chinaski?
â NĂŁo, sr. Winters, o senhor rejeitou o meu pedido de licença. Desta vez isto nĂŁo serĂĄ possĂvel. Ou a licença ou a demissĂŁo.
â Tudo bem, preencha o formulĂĄrio e eu o assinarei. Mas sĂł posso lhe dar noventa dias de dispensa.
â Aceito â eu disse, exalando uma longa coluna de fumaça azul de meu charuto caro.
â Cartas na rua
Saindo À Rua Para Apanhar a Correspondência
o cĂŽmico meio-dia
em que esquadrÔes de minhocas emergem como
dançarinas de strip-tease
para serem levadas à força pelos melros.
saio
e por todos os lados da rua
o exército verde lança suas cores
como num eterno 4 de Julho,
e eu também parecia imerso naquele mar,
uma espécie desconhecida de explosão,
uma sensação, talvez, de que não havia um
inimigo
em nenhum lugar.
e eu cheguei atĂ© a caixa de correspondĂȘncia
e nĂŁo havia nada ali
dentro â nem sequer uma
conta da companhia de gås ameaçando um
novo corte no
serviço.
nem sequer um bilhete da minha ex-mulher
jactando-se de sua felicidade
atual.
minha mão vasculha a caixa numa espécie de
descrença muito tempo depois da mente jå ter
desistido.
nĂŁo hĂĄ sequer uma mosca morta
lĂĄ dentro.
sou um cretino, penso, eu deveria saber a essa altura
como as coisas funcionam.
volto para dentro enquanto todas as flores saltam para
me agradar.
alguma coisa? a mulher
pergunta.
nada, respondo, o que tem pro
café da manhã?
em que esquadrÔes de minhocas emergem como
dançarinas de strip-tease
para serem levadas à força pelos melros.
saio
e por todos os lados da rua
o exército verde lança suas cores
como num eterno 4 de Julho,
e eu também parecia imerso naquele mar,
uma espécie desconhecida de explosão,
uma sensação, talvez, de que não havia um
inimigo
em nenhum lugar.
e eu cheguei atĂ© a caixa de correspondĂȘncia
e nĂŁo havia nada ali
dentro â nem sequer uma
conta da companhia de gås ameaçando um
novo corte no
serviço.
nem sequer um bilhete da minha ex-mulher
jactando-se de sua felicidade
atual.
minha mão vasculha a caixa numa espécie de
descrença muito tempo depois da mente jå ter
desistido.
nĂŁo hĂĄ sequer uma mosca morta
lĂĄ dentro.
sou um cretino, penso, eu deveria saber a essa altura
como as coisas funcionam.
volto para dentro enquanto todas as flores saltam para
me agradar.
alguma coisa? a mulher
pergunta.
nada, respondo, o que tem pro
café da manhã?
Sandra
Ă© a alta e magra
donzela do quarto
de brincos
coberta por um longo
vestido
estĂĄ sempre alta
em sapatos de salto
espĂrito
boletas
trago
Sandra se inclina
em sua cadeira
inclina-se em direção a
Glendale
aguardo que sua cabeça
bata na maçaneta
do guarda-roupa
enquanto ela tenta
acender
um novo cigarro num
outro jĂĄ quase
consumido
aos 32 ela gosta de
jovens limpos
imaculados
com rostos semelhantes ao fundo
de pires recém-comprados
depois de se vangloriar
a nĂŁo mais poder
acabou me trazendo seus prĂȘmios
para que eu desse uma olhada:
garotos nulos, loiros e silenciosos
que
a) sentam
b) levantam
c) falam
ao seu comando
Ă s vezes ela traz um
Ă s vezes dois
Ă s vezes trĂȘs
para que eu os
veja
Sandra fica muito bem em
vestidos longos
Sandra pode partir provavelmente
o coração de um homem
espero que ela encontre
um.
Comecei a receber cartas de uma garota de Nova York. Seu nome era Mindy. Ela havia encontrado alguns dos meus livros por acaso, mas o melhor a respeito de suas cartas era que ela raramente mencionava algo sobre escrita exceto para dizer que ela nĂŁo era uma escritora. Escrevia sobre as mais variadas coisas e sobre homens e sobre sexo em particular. Mindy tinha 25, escrevia Ă mĂŁo, e sua caligrafia era estĂĄvel, sensĂvel, com uma pitada de humor. Eu respondia suas cartas e era sempre uma alegria encontrar uma das dela na minha caixa de correio. Muitas pessoas dizem as coisas bem melhor em cartas do que em conversas, e algumas pessoas conseguem escrever cartas criativas, artĂsticas, mas quando tentam um poema, um conto ou um romance, tornam-se pretensiosas.
Então Mindy mandou algumas fotografias. Caso se pudesse confiar em sua veracidade, ela era bem bonita. Escrevemo-nos por mais algumas semanas e então ela mencionou que em breve tiraria duas semanas de férias.
â Por que vocĂȘ nĂŁo pega um aviĂŁo atĂ© aqui? â sugeri.
â Tudo bem â ela respondeu.
Começamos a nos telefonar. Por fim ela me deu a data de chegada de seu voo no L.A. International.
â Estarei lĂĄ â disse a ela â, nada poderĂĄ me impedir.
Sentei-me no aeroporto e esperei. Nunca se pode ter certeza com esse negĂłcio de fotos. NĂŁo hĂĄ garantias. Sentia-me prestes a vomitar. Acendi um cigarro e me veio um engulho. Por que eu fazia essas coisas? NĂŁo a queria mais agora. E Mindy voava de Nova York para cĂĄ. Eu conhecia um nĂșmero grande de mulheres. Por que esse negĂłcio de mais e mais mulheres? O que eu estava tentando fazer? Casos novos sĂŁo excitantes, mas tambĂ©m dĂŁo um trabalho dos diabos. O primeiro beijo, a primeira foda sempre sĂŁo um pouco dramĂĄticos. As pessoas eram interessantes no inĂcio. EntĂŁo mais tarde, devagar mas inevitavelmente, todas as imperfeiçÔes e as demĂȘncias começariam a se manifestar. Eu seria entĂŁo cada vez menos interessante para elas; e elas se tornariam cada vez menos importantes para mim.
Eu era velho e feio. Talvez por isso fosse tĂŁo bom meter nessas jovens garotas. Eu era o King Kong e elas flexĂveis e macias. SerĂĄ que eu estava tentando enganar a morte? Ficando com essas jovens eu tinha esperanças de nĂŁo envelhecer, nĂŁo me sentir um caco? Eu sĂł nĂŁo queria envelhecer sem dignidade, simplesmente desistir, estar morto antes da morte chegar.
O avião de Mindy pousou e começou a taxiar. Senti que estava a perigo. As mulheres me conheciam de antemão, pois haviam lido meus livros. Eu jå havia me exposto. Por outro lado, eu não sabia nada delas. Eu era o verdadeiro jogador. Eu podia ser morto, ter minhas bolas cortadas. Chinaski castrado. Poemas de amor de um eunuco.
Fiquei esperando por Mindy. Os passageiros saĂram pelo portĂŁo.
Oh, tomara que nĂŁo seja aquela.
Ou aquela.
Especialmente aquela outra.
Bem, aquela ali estaria bem! Veja que pernas, que rabo, e esses olhos...
Uma delas veio em minha direção. Torci para que fosse ela. Era a melhor de todo o grupo. Eu não podia ter tanta sorte. Ela se aproximou e sorriu:
â Eu sou a Mindy.
â Estou feliz que vocĂȘ seja a Mindy.
â Estou feliz que vocĂȘ seja o Chinaski.
â VocĂȘ precisa pegar alguma bagagem?
â Sim, trouxe o suficiente para uma longa estada!
â Vamos esperar no bar.
Entramos e encontramos uma mesa. Mindy pediu uma vodca com tĂŽnica. Pedi uma vodca-7.[14] Ah, quase em perfeita harmonia. Acendi-lhe o cigarro. Ela tinha uma Ăłtima aparĂȘncia, quase virginal. Era difĂcil de acreditar. Era baixinha, loira e perfeita de corpo. Era mais natural do que sofisticada. Era fĂĄcil olhĂĄ-la nos olhos, de um azul-esverdeado. Usava dois brincos pequenos. E usava sapatos de salto. Havia dito a Mindy que saltos altos me excitavam.
â Bem â ela disse â, vocĂȘ estĂĄ assustado?
â Agora nem tanto. Gosto de vocĂȘ.
â VocĂȘ Ă© bem melhor pessoalmente do que nas fotos â ela disse. â NĂŁo acho vocĂȘ nem um pouco feio.
â Obrigado.
â Oh, nĂŁo quis dizer que vocĂȘ Ă© bonito, nĂŁo no sentido que as pessoas dĂŁo pro termo. Seu rosto parece comum. Mas seus olhos... eles sĂŁo lindos. SĂŁo selvagens, loucos, como os olhos de um animal surgindo de uma floresta em chamas. Deus, alguma coisa desse tipo. NĂŁo sou muito boa com as palavras.
â Acho que vocĂȘ Ă© linda â eu disse. â E muito gentil. Ă bom estar perto de vocĂȘ. Estou feliz de estarmos juntos. Beba. Precisamos de mais bebida. VocĂȘ Ă© como suas cartas.
Tomamos a segunda rodada e fomos buscar sua bagagem. Orgulhava-me estar ao lado de Mindy. Ela caminhava com estilo. Muitas mulheres com belos corpos apenas se arrastavam, como se fossem criaturas sobrecarregadas de peso. Mindy deslizava.
Eu seguia pensando, isso Ă© bom demais. Isso simplesmente nĂŁo Ă© possĂvel.
â Mulheres
donzela do quarto
de brincos
coberta por um longo
vestido
estĂĄ sempre alta
em sapatos de salto
espĂrito
boletas
trago
Sandra se inclina
em sua cadeira
inclina-se em direção a
Glendale
aguardo que sua cabeça
bata na maçaneta
do guarda-roupa
enquanto ela tenta
acender
um novo cigarro num
outro jĂĄ quase
consumido
aos 32 ela gosta de
jovens limpos
imaculados
com rostos semelhantes ao fundo
de pires recém-comprados
depois de se vangloriar
a nĂŁo mais poder
acabou me trazendo seus prĂȘmios
para que eu desse uma olhada:
garotos nulos, loiros e silenciosos
que
a) sentam
b) levantam
c) falam
ao seu comando
Ă s vezes ela traz um
Ă s vezes dois
Ă s vezes trĂȘs
para que eu os
veja
Sandra fica muito bem em
vestidos longos
Sandra pode partir provavelmente
o coração de um homem
espero que ela encontre
um.
Comecei a receber cartas de uma garota de Nova York. Seu nome era Mindy. Ela havia encontrado alguns dos meus livros por acaso, mas o melhor a respeito de suas cartas era que ela raramente mencionava algo sobre escrita exceto para dizer que ela nĂŁo era uma escritora. Escrevia sobre as mais variadas coisas e sobre homens e sobre sexo em particular. Mindy tinha 25, escrevia Ă mĂŁo, e sua caligrafia era estĂĄvel, sensĂvel, com uma pitada de humor. Eu respondia suas cartas e era sempre uma alegria encontrar uma das dela na minha caixa de correio. Muitas pessoas dizem as coisas bem melhor em cartas do que em conversas, e algumas pessoas conseguem escrever cartas criativas, artĂsticas, mas quando tentam um poema, um conto ou um romance, tornam-se pretensiosas.
Então Mindy mandou algumas fotografias. Caso se pudesse confiar em sua veracidade, ela era bem bonita. Escrevemo-nos por mais algumas semanas e então ela mencionou que em breve tiraria duas semanas de férias.
â Por que vocĂȘ nĂŁo pega um aviĂŁo atĂ© aqui? â sugeri.
â Tudo bem â ela respondeu.
Começamos a nos telefonar. Por fim ela me deu a data de chegada de seu voo no L.A. International.
â Estarei lĂĄ â disse a ela â, nada poderĂĄ me impedir.
Sentei-me no aeroporto e esperei. Nunca se pode ter certeza com esse negĂłcio de fotos. NĂŁo hĂĄ garantias. Sentia-me prestes a vomitar. Acendi um cigarro e me veio um engulho. Por que eu fazia essas coisas? NĂŁo a queria mais agora. E Mindy voava de Nova York para cĂĄ. Eu conhecia um nĂșmero grande de mulheres. Por que esse negĂłcio de mais e mais mulheres? O que eu estava tentando fazer? Casos novos sĂŁo excitantes, mas tambĂ©m dĂŁo um trabalho dos diabos. O primeiro beijo, a primeira foda sempre sĂŁo um pouco dramĂĄticos. As pessoas eram interessantes no inĂcio. EntĂŁo mais tarde, devagar mas inevitavelmente, todas as imperfeiçÔes e as demĂȘncias começariam a se manifestar. Eu seria entĂŁo cada vez menos interessante para elas; e elas se tornariam cada vez menos importantes para mim.
Eu era velho e feio. Talvez por isso fosse tĂŁo bom meter nessas jovens garotas. Eu era o King Kong e elas flexĂveis e macias. SerĂĄ que eu estava tentando enganar a morte? Ficando com essas jovens eu tinha esperanças de nĂŁo envelhecer, nĂŁo me sentir um caco? Eu sĂł nĂŁo queria envelhecer sem dignidade, simplesmente desistir, estar morto antes da morte chegar.
O avião de Mindy pousou e começou a taxiar. Senti que estava a perigo. As mulheres me conheciam de antemão, pois haviam lido meus livros. Eu jå havia me exposto. Por outro lado, eu não sabia nada delas. Eu era o verdadeiro jogador. Eu podia ser morto, ter minhas bolas cortadas. Chinaski castrado. Poemas de amor de um eunuco.
Fiquei esperando por Mindy. Os passageiros saĂram pelo portĂŁo.
Oh, tomara que nĂŁo seja aquela.
Ou aquela.
Especialmente aquela outra.
Bem, aquela ali estaria bem! Veja que pernas, que rabo, e esses olhos...
Uma delas veio em minha direção. Torci para que fosse ela. Era a melhor de todo o grupo. Eu não podia ter tanta sorte. Ela se aproximou e sorriu:
â Eu sou a Mindy.
â Estou feliz que vocĂȘ seja a Mindy.
â Estou feliz que vocĂȘ seja o Chinaski.
â VocĂȘ precisa pegar alguma bagagem?
â Sim, trouxe o suficiente para uma longa estada!
â Vamos esperar no bar.
Entramos e encontramos uma mesa. Mindy pediu uma vodca com tĂŽnica. Pedi uma vodca-7.[14] Ah, quase em perfeita harmonia. Acendi-lhe o cigarro. Ela tinha uma Ăłtima aparĂȘncia, quase virginal. Era difĂcil de acreditar. Era baixinha, loira e perfeita de corpo. Era mais natural do que sofisticada. Era fĂĄcil olhĂĄ-la nos olhos, de um azul-esverdeado. Usava dois brincos pequenos. E usava sapatos de salto. Havia dito a Mindy que saltos altos me excitavam.
â Bem â ela disse â, vocĂȘ estĂĄ assustado?
â Agora nem tanto. Gosto de vocĂȘ.
â VocĂȘ Ă© bem melhor pessoalmente do que nas fotos â ela disse. â NĂŁo acho vocĂȘ nem um pouco feio.
â Obrigado.
â Oh, nĂŁo quis dizer que vocĂȘ Ă© bonito, nĂŁo no sentido que as pessoas dĂŁo pro termo. Seu rosto parece comum. Mas seus olhos... eles sĂŁo lindos. SĂŁo selvagens, loucos, como os olhos de um animal surgindo de uma floresta em chamas. Deus, alguma coisa desse tipo. NĂŁo sou muito boa com as palavras.
â Acho que vocĂȘ Ă© linda â eu disse. â E muito gentil. Ă bom estar perto de vocĂȘ. Estou feliz de estarmos juntos. Beba. Precisamos de mais bebida. VocĂȘ Ă© como suas cartas.
Tomamos a segunda rodada e fomos buscar sua bagagem. Orgulhava-me estar ao lado de Mindy. Ela caminhava com estilo. Muitas mulheres com belos corpos apenas se arrastavam, como se fossem criaturas sobrecarregadas de peso. Mindy deslizava.
Eu seguia pensando, isso Ă© bom demais. Isso simplesmente nĂŁo Ă© possĂvel.
â Mulheres
Se Aguentássemos...
se aguentĂĄssemos o que podemos ver...
os motores a nos pĂŽr malucos,
amantes enfim se odiando;
este peixe no mercado
subindo em direção às nossas mentes;
flores apodrecendo, moscas presas nas teias;
revoltas, rugidos de leÔes enjaulados,
palhaços fazendo amor com notas de dólar,
naçÔes movendo gente como peÔes;
ladrÔes à luz do dia com maravilhosas
esposas Ă noite e vinhos;
as cadeias superlotadas,
o desempregado padrĂŁo,
a relva que morre, fogos de quarto de dĂłlar
homens velhos o suficiente para amar a cova.
Essas coisas, e outras, em essĂȘncia
mostram a vida oscilando sobre um eixo podre.
Mas elas nos deixam um pouquinho de mĂșsica
e um show apimentado na esquina
um trago de scotch, uma gravata azul,
um pequeno volume com poemas de Rimbaud,
um cavalo correndo como se o demĂŽnio lhe
torcesse o rabo
sobre os capinzais e gritando, e entĂŁo
o amor de volta
como um bonde dobrando a esquina
no horĂĄrio certo,
a cidade esperando,
o vinho e as flores,
a ĂĄgua atravessando o lago
e verĂŁo e inverno e verĂŁo e verĂŁo
e outra vez inverno.
os motores a nos pĂŽr malucos,
amantes enfim se odiando;
este peixe no mercado
subindo em direção às nossas mentes;
flores apodrecendo, moscas presas nas teias;
revoltas, rugidos de leÔes enjaulados,
palhaços fazendo amor com notas de dólar,
naçÔes movendo gente como peÔes;
ladrÔes à luz do dia com maravilhosas
esposas Ă noite e vinhos;
as cadeias superlotadas,
o desempregado padrĂŁo,
a relva que morre, fogos de quarto de dĂłlar
homens velhos o suficiente para amar a cova.
Essas coisas, e outras, em essĂȘncia
mostram a vida oscilando sobre um eixo podre.
Mas elas nos deixam um pouquinho de mĂșsica
e um show apimentado na esquina
um trago de scotch, uma gravata azul,
um pequeno volume com poemas de Rimbaud,
um cavalo correndo como se o demĂŽnio lhe
torcesse o rabo
sobre os capinzais e gritando, e entĂŁo
o amor de volta
como um bonde dobrando a esquina
no horĂĄrio certo,
a cidade esperando,
o vinho e as flores,
a ĂĄgua atravessando o lago
e verĂŁo e inverno e verĂŁo e verĂŁo
e outra vez inverno.
Seja Gentil
sempre nos Ă© pedido
que entendamos os pontos de vista das
outras pessoas
nĂŁo importa o quĂŁo
ultrapassado
tolo ou
odioso.
exige-se de alguém
que encare
os erros totais dos outros
os desperdĂcios de suas vidas
com
gentileza,
especialmente se eles jĂĄ forem
velhos.
mas a idade Ă© a soma de
nossos atos.
eles envelheceram
sem dignidade
porque
viveram
desfocados,
recusaram-se a
enxergar.
e nĂŁo por culpa deles?
entĂŁo de quem Ă© a culpa?
minha?
pedem-me para esconder
dessas pessoas
meu ponto de vista
por medo do medo
delas.
envelhecer nĂŁo Ă© nenhum crime.
mas a vergonha
de uma vida
deliberadamente
desperdiçada
entre tantas outras
vidas
deliberadamente
desperdiçadas
Ă©.
Eu estava lĂĄ Ă s 8h50 da manhĂŁ. Estacionei e esperei por Jon. Ele apareceu Ă s 8h55. Saltei e me aproximei do carro dele.
â Bom dia, Jon...
â OlĂĄ, Hank... Como vai?
â Ătimo. Escuta, que aconteceu com a greve de fome?
â Oh, ainda estou nela. Mas mais importante Ă© cortar os pedaços.
Trazia a Black and Decker consigo. Enrolada numa toalha verde-escuro. Entramos no prédio da Firepower juntos. O elevador nos levou ao escritório do advogado. Neeli Zutnick. A recepcionista aguardava a nossa chegada.
â Por favor, entrem direto â disse.
Neeli Zutnick esperava. Levantou-se de detrĂĄs de sua mesa e apertou-nos a mĂŁo. Depois voltou, sentou-se atrĂĄs da mesa.
â Os cavalheiros gostariam de um cafezinho? â perguntou.
â NĂŁo â disse Jon.
â Eu tomo um â eu disse.
Zutnick apertou o botĂŁo do intercomunicador.
â Rose? Rose, minha querida... um cafĂ©, por favor... â Olhou para mim. â Creme e açĂșcar?
â Preto.
â Preto. Obrigado, Rose... Agora, cavalheiros...
â Onde estĂĄ Friedman? â perguntou Jon.
â O sr. Friedman me deu instruçÔes completas. Agora...
â Onde fica sua tomada? â perguntou Jon.
â Tomada?
â Pra isso... â Jon puxou a toalha, revelando a Black and Decker.
â Por favor, sr. Pinchot...
â Onde fica a tomada? Deixa pra lĂĄ, jĂĄ achei...
Jon adiantou-se e ligou a Black and Decker na tomada.
â VocĂȘ deve entender â disse Zutnick â que, se eu soubesse que ia trazer esse instrumento, teria mandado desligar a eletricidade.
â TĂĄ tudo bem â disse Jon.
â NĂŁo hĂĄ necessidade desse instrumento â disse Zutnick.
â Espero que nĂŁo. Ă sĂł... para o caso...
Rose entrou com o meu café. Jon apertou o botão da Black and Decker. A lùmina entrou em ação, zumbindo.
Rose ficou nervosa e entornou o café, só um pouquinho... o bastante para deixar cair uma gota no vestido. Era um belo vestido vermelho, e ela, gorda, recheava-o lindamente.
â Uau! Me deu um susto!
â Desculpe â disse Jon. â Eu estava sĂł... testando...
â De quem Ă© o cafĂ©?
â Meu â eu disse. â Obrigado.
Ela me trouxe o café. Eu bem que precisava.
Rose saiu, lançando-nos um olhar preocupado por cima do ombro.
â Os srs. Friedman e Fischman manifestaram consternação por seu atual estado mental...
â Corta essa merda, Zutnick! Ou eu consigo a liberação ou o primeiro pedaço de minha carne serĂĄ depositado... aqui!
Jon bateu no centro da mesa do advogado com a ponta da Black and Decker.
â Ora, sr. Pinchot, nĂŁo hĂĄ necessidade...
â HĂ NECESSIDADE, SIM! E O TEMPO ESTĂ SE ESGOTANDO! EU QUERO AQUELA LIBERAĂĂO JĂ!
Zutnick olhou para mim.
â Que tal seu cafĂ©, sr. Chinaski?
Jon apertou o gatilho da Black and Decker e ergueu a mĂŁo esquerda, o dedo mindinho esticado. Volteou a Black and Decker em torno do dedo, a lĂąmina funcionando furiosamente.
â JĂ!
â TUDO BEM! â berrou Zutnick.
Jon tirou o dedo do gatilho.
Zutnick abriu a gaveta de cima da sua mesa e puxou duas folhas de papel tamanho ofĂcio. Empurrou-as para Jon. Jon aproximou-se, pegou-as, sentou-se e começou a ler.
â Sr. Zutnick â perguntei â, posso tomar outra xĂcara de cafĂ©?
Ele me fuzilou com o olhar, apertou o botĂŁo do intercomunicador.
â Outra xĂcara de cafĂ©, Rose. Preto...
â Como em Black and Decker â eu disse.
â Sr. Chinaski, isso nĂŁo tem graça nenhuma.
Jon continuou a ler.
Chegou meu café.
â Obrigado, Rose...
Jon continuava a ler e nĂłs esperĂĄvamos. Ele pusera a Black and Decker atravessada no colo.
EntĂŁo disse:
â NĂŁo, isso nĂŁo serve...
â QUĂ? â perguntou Zutnick. â Ă UMA LIBERAĂĂO TOTAL!
â Toda a clĂĄusula âeâ deve ser retirada. ContĂ©m ambiguidades demais.
â Posso ver esses papĂ©is? â perguntou Zutnick.
â Certamente...
Jon colocou-os sobre a lĂąmina da Black and Decker e passou-os para Zutnick. O advogado tirou-os da lĂąmina com certa repugnĂąncia. Começou a ler a clĂĄusula âeâ.
â NĂŁo estou vendo nada de errado aqui...
â Retire...
â VocĂȘ realmente pretende cortar um de seus dedos?
â Pretendo. E posso atĂ© cortar um dos seus.
â Isso Ă© uma ameaça? EstĂĄ me ameaçando?
â Pense no seguinte: eu nĂŁo tenho nada a perder aqui. SĂł vocĂȘs.
â Um contrato assinado sob essas condiçÔes pode ser considerado invĂĄlido.
â VocĂȘ me dĂĄ nojo, Zutnick! Elimine a clĂĄusula âeâ ou meu dedo se vai! JĂ!
Jon apertou o botão. A Black and Decker tornou a saltar em ação. Jon Pinchot estendeu o dedo mindinho da mão esquerda.
â PARE! â gritou Zutnick.
Jon parou.
Zutnick falava no intercomunicador.
â ROSE! Preciso de vocĂȘ...
Rose entrou.
â Mais cafĂ© para os cavalheiros?
â NĂŁo, Rose. Quero todo este contrato revisto e rodado de novo, mas elimine a clĂĄusula âeâ, e depois me devolva.
â Pois nĂŁo, sr. Zutnick.
Ficamos ali sentados por algum tempo.
EntĂŁo Zutnick disse:
â Pode tirar essa coisa da tomada agora.
â Ainda nĂŁo â disse Jon. â SĂł quando tudo estiver finalizado.
â VocĂȘ tem realmente outro produtor pra essa coisa?
â Ă claro...
â Se importa de me dizer quem Ă©?
â Claro que nĂŁo. Hal Edleman. Friedman sabe disso.
Zutnick piscou os olhos. Edleman significava dinheiro. Ele conhecia o nome.
â Eu li o argumento. Parece muito... cru... pra mim.
â JĂĄ leu outra obra do sr. Chinaski? â perguntou Jon.
â NĂŁo. Mas minha filha leu. Ela tem o livro de contos dele, Sonhos da piscina.
â E?
â Detestou.
Rose voltava com o novo contrato. Entregou-o a Zutnick. O advogado deu uma olhada, levantou-se e aproximou-se de Jon.
Jon releu a coisa toda.
â Muito bem.
Dirigiu-se com o documento para a mesa, curvou-se e assinou-o. Zutnick assinou por Friedman e Fischman. Estava feito. Uma cĂłpia para cada.
EntĂŁo Zutnick deu uma risada. Parecia aliviado.
â A prĂĄtica da advocacia se torna cada vez mais estranha...
Jon tirou a Black and Decker da tomada. Zutnick encaminhou-se para um pequeno armĂĄrio na parede, abriu-o, pegou uma garrafa e trĂȘs copos. Colocou-os sobre a mesa e serviu a todos.
â Ao acordo, cavalheiros...
â Ao acordo... â disse Jon.
â Ao acordo â disse o escritor.
Bebemos. Era conhaque. E tĂnhamos o filme de novo.
Acompanhei Jon até o seu carro. Ele jogou a Black and Decker no banco de trås, e entrou na frente.
â Jon â perguntei da calçada â, posso testar vocĂȘ com a grande pergunta?
â Claro.
â Pode me dizer a verdade sobre a Black and Decker. Jamais sairĂĄ daqui. VocĂȘ ia realmente fazer aquilo?
â Mas Ă© claro...
â Mas as outras partes depois? Os outros pedaços. Ia fazer isso?
â Claro. Uma vez que a gente começa uma coisa dessas, nĂŁo tem como parar.
â VocĂȘ tem raça, cara.
â NĂŁo Ă© nada. Agora estou com fome.
â Posso te pagar um cafĂ©?
â Bem, tudo bem... Eu sei o lugar certo... Entre no carro e me siga...
â Tudo bem.
Segui Jon de um lado a outro de Hollywood, as luzes e as sombras de Alfred Hitchcock, o Gordo e o Magro, Clark Gable, Gloria Swanson, Mickey Mouse e Humphrey Bogart caindo ao nosso redor.
â Hollywood
que entendamos os pontos de vista das
outras pessoas
nĂŁo importa o quĂŁo
ultrapassado
tolo ou
odioso.
exige-se de alguém
que encare
os erros totais dos outros
os desperdĂcios de suas vidas
com
gentileza,
especialmente se eles jĂĄ forem
velhos.
mas a idade Ă© a soma de
nossos atos.
eles envelheceram
sem dignidade
porque
viveram
desfocados,
recusaram-se a
enxergar.
e nĂŁo por culpa deles?
entĂŁo de quem Ă© a culpa?
minha?
pedem-me para esconder
dessas pessoas
meu ponto de vista
por medo do medo
delas.
envelhecer nĂŁo Ă© nenhum crime.
mas a vergonha
de uma vida
deliberadamente
desperdiçada
entre tantas outras
vidas
deliberadamente
desperdiçadas
Ă©.
Eu estava lĂĄ Ă s 8h50 da manhĂŁ. Estacionei e esperei por Jon. Ele apareceu Ă s 8h55. Saltei e me aproximei do carro dele.
â Bom dia, Jon...
â OlĂĄ, Hank... Como vai?
â Ătimo. Escuta, que aconteceu com a greve de fome?
â Oh, ainda estou nela. Mas mais importante Ă© cortar os pedaços.
Trazia a Black and Decker consigo. Enrolada numa toalha verde-escuro. Entramos no prédio da Firepower juntos. O elevador nos levou ao escritório do advogado. Neeli Zutnick. A recepcionista aguardava a nossa chegada.
â Por favor, entrem direto â disse.
Neeli Zutnick esperava. Levantou-se de detrĂĄs de sua mesa e apertou-nos a mĂŁo. Depois voltou, sentou-se atrĂĄs da mesa.
â Os cavalheiros gostariam de um cafezinho? â perguntou.
â NĂŁo â disse Jon.
â Eu tomo um â eu disse.
Zutnick apertou o botĂŁo do intercomunicador.
â Rose? Rose, minha querida... um cafĂ©, por favor... â Olhou para mim. â Creme e açĂșcar?
â Preto.
â Preto. Obrigado, Rose... Agora, cavalheiros...
â Onde estĂĄ Friedman? â perguntou Jon.
â O sr. Friedman me deu instruçÔes completas. Agora...
â Onde fica sua tomada? â perguntou Jon.
â Tomada?
â Pra isso... â Jon puxou a toalha, revelando a Black and Decker.
â Por favor, sr. Pinchot...
â Onde fica a tomada? Deixa pra lĂĄ, jĂĄ achei...
Jon adiantou-se e ligou a Black and Decker na tomada.
â VocĂȘ deve entender â disse Zutnick â que, se eu soubesse que ia trazer esse instrumento, teria mandado desligar a eletricidade.
â TĂĄ tudo bem â disse Jon.
â NĂŁo hĂĄ necessidade desse instrumento â disse Zutnick.
â Espero que nĂŁo. Ă sĂł... para o caso...
Rose entrou com o meu café. Jon apertou o botão da Black and Decker. A lùmina entrou em ação, zumbindo.
Rose ficou nervosa e entornou o café, só um pouquinho... o bastante para deixar cair uma gota no vestido. Era um belo vestido vermelho, e ela, gorda, recheava-o lindamente.
â Uau! Me deu um susto!
â Desculpe â disse Jon. â Eu estava sĂł... testando...
â De quem Ă© o cafĂ©?
â Meu â eu disse. â Obrigado.
Ela me trouxe o café. Eu bem que precisava.
Rose saiu, lançando-nos um olhar preocupado por cima do ombro.
â Os srs. Friedman e Fischman manifestaram consternação por seu atual estado mental...
â Corta essa merda, Zutnick! Ou eu consigo a liberação ou o primeiro pedaço de minha carne serĂĄ depositado... aqui!
Jon bateu no centro da mesa do advogado com a ponta da Black and Decker.
â Ora, sr. Pinchot, nĂŁo hĂĄ necessidade...
â HĂ NECESSIDADE, SIM! E O TEMPO ESTĂ SE ESGOTANDO! EU QUERO AQUELA LIBERAĂĂO JĂ!
Zutnick olhou para mim.
â Que tal seu cafĂ©, sr. Chinaski?
Jon apertou o gatilho da Black and Decker e ergueu a mĂŁo esquerda, o dedo mindinho esticado. Volteou a Black and Decker em torno do dedo, a lĂąmina funcionando furiosamente.
â JĂ!
â TUDO BEM! â berrou Zutnick.
Jon tirou o dedo do gatilho.
Zutnick abriu a gaveta de cima da sua mesa e puxou duas folhas de papel tamanho ofĂcio. Empurrou-as para Jon. Jon aproximou-se, pegou-as, sentou-se e começou a ler.
â Sr. Zutnick â perguntei â, posso tomar outra xĂcara de cafĂ©?
Ele me fuzilou com o olhar, apertou o botĂŁo do intercomunicador.
â Outra xĂcara de cafĂ©, Rose. Preto...
â Como em Black and Decker â eu disse.
â Sr. Chinaski, isso nĂŁo tem graça nenhuma.
Jon continuou a ler.
Chegou meu café.
â Obrigado, Rose...
Jon continuava a ler e nĂłs esperĂĄvamos. Ele pusera a Black and Decker atravessada no colo.
EntĂŁo disse:
â NĂŁo, isso nĂŁo serve...
â QUĂ? â perguntou Zutnick. â Ă UMA LIBERAĂĂO TOTAL!
â Toda a clĂĄusula âeâ deve ser retirada. ContĂ©m ambiguidades demais.
â Posso ver esses papĂ©is? â perguntou Zutnick.
â Certamente...
Jon colocou-os sobre a lĂąmina da Black and Decker e passou-os para Zutnick. O advogado tirou-os da lĂąmina com certa repugnĂąncia. Começou a ler a clĂĄusula âeâ.
â NĂŁo estou vendo nada de errado aqui...
â Retire...
â VocĂȘ realmente pretende cortar um de seus dedos?
â Pretendo. E posso atĂ© cortar um dos seus.
â Isso Ă© uma ameaça? EstĂĄ me ameaçando?
â Pense no seguinte: eu nĂŁo tenho nada a perder aqui. SĂł vocĂȘs.
â Um contrato assinado sob essas condiçÔes pode ser considerado invĂĄlido.
â VocĂȘ me dĂĄ nojo, Zutnick! Elimine a clĂĄusula âeâ ou meu dedo se vai! JĂ!
Jon apertou o botão. A Black and Decker tornou a saltar em ação. Jon Pinchot estendeu o dedo mindinho da mão esquerda.
â PARE! â gritou Zutnick.
Jon parou.
Zutnick falava no intercomunicador.
â ROSE! Preciso de vocĂȘ...
Rose entrou.
â Mais cafĂ© para os cavalheiros?
â NĂŁo, Rose. Quero todo este contrato revisto e rodado de novo, mas elimine a clĂĄusula âeâ, e depois me devolva.
â Pois nĂŁo, sr. Zutnick.
Ficamos ali sentados por algum tempo.
EntĂŁo Zutnick disse:
â Pode tirar essa coisa da tomada agora.
â Ainda nĂŁo â disse Jon. â SĂł quando tudo estiver finalizado.
â VocĂȘ tem realmente outro produtor pra essa coisa?
â Ă claro...
â Se importa de me dizer quem Ă©?
â Claro que nĂŁo. Hal Edleman. Friedman sabe disso.
Zutnick piscou os olhos. Edleman significava dinheiro. Ele conhecia o nome.
â Eu li o argumento. Parece muito... cru... pra mim.
â JĂĄ leu outra obra do sr. Chinaski? â perguntou Jon.
â NĂŁo. Mas minha filha leu. Ela tem o livro de contos dele, Sonhos da piscina.
â E?
â Detestou.
Rose voltava com o novo contrato. Entregou-o a Zutnick. O advogado deu uma olhada, levantou-se e aproximou-se de Jon.
Jon releu a coisa toda.
â Muito bem.
Dirigiu-se com o documento para a mesa, curvou-se e assinou-o. Zutnick assinou por Friedman e Fischman. Estava feito. Uma cĂłpia para cada.
EntĂŁo Zutnick deu uma risada. Parecia aliviado.
â A prĂĄtica da advocacia se torna cada vez mais estranha...
Jon tirou a Black and Decker da tomada. Zutnick encaminhou-se para um pequeno armĂĄrio na parede, abriu-o, pegou uma garrafa e trĂȘs copos. Colocou-os sobre a mesa e serviu a todos.
â Ao acordo, cavalheiros...
â Ao acordo... â disse Jon.
â Ao acordo â disse o escritor.
Bebemos. Era conhaque. E tĂnhamos o filme de novo.
Acompanhei Jon até o seu carro. Ele jogou a Black and Decker no banco de trås, e entrou na frente.
â Jon â perguntei da calçada â, posso testar vocĂȘ com a grande pergunta?
â Claro.
â Pode me dizer a verdade sobre a Black and Decker. Jamais sairĂĄ daqui. VocĂȘ ia realmente fazer aquilo?
â Mas Ă© claro...
â Mas as outras partes depois? Os outros pedaços. Ia fazer isso?
â Claro. Uma vez que a gente começa uma coisa dessas, nĂŁo tem como parar.
â VocĂȘ tem raça, cara.
â NĂŁo Ă© nada. Agora estou com fome.
â Posso te pagar um cafĂ©?
â Bem, tudo bem... Eu sei o lugar certo... Entre no carro e me siga...
â Tudo bem.
Segui Jon de um lado a outro de Hollywood, as luzes e as sombras de Alfred Hitchcock, o Gordo e o Magro, Clark Gable, Gloria Swanson, Mickey Mouse e Humphrey Bogart caindo ao nosso redor.
â Hollywood
Solidão
Edna estava caminhando pela rua com sua sacola de compras quando passou pelo carro. Havia um cartaz na janela lateral:
PROCURA-SE MULHER
Ela parou. Havia um grande pedaço de papelĂŁo grudado na janela com alguma substĂąncia. A maior parte estava datilografada. De onde estava na calçada, Edna nĂŁo conseguia ler o aviso. Podia apenas ver as letras graĂșdas:
PROCURA-SE MULHER
Era um carro novo e caro. Edna deu um passo sobre a grama para ler a parte datilografada:
Homem, 49 anos. Divorciado. Procura mulher para casamento. Deve ter entre 35 e 44 anos. Gosta de televisĂŁo e pelĂculas cinematogrĂĄficas. Boa comida. Sou especialista em custos de produção, com estabilidade no emprego. Dinheiro no banco. Gosto de mulheres acima do peso.
Edna tinha 37 anos e estava acima do peso. Havia um nĂșmero de telefone. TambĂ©m havia trĂȘs fotos do cavalheiro em busca de uma mulher. Ele parecia bem sĂ©rio de terno e gravata. TambĂ©m parecia estĂșpido e um pouco cruel. E feito de madeira, pensou Edna, feito de madeira.
Edna se afastou, sorrindo um pouco. Sentia também uma espécie de repulsa. Ao chegar ao seu apartamento, ela o tinha esquecido. Apenas algumas horas depois, sentada na banheira, voltou a pensar nele e, dessa vez, pensou em como ele devia estar realmente sozinho para fazer tal coisa:
PROCURA-SE MULHER
Imaginou-o chegando em casa, encontrando as contas de gås e telefone na caixa de correio, despindo-se, tomando um banho, a televisão ligada. Então leria o jornal da tarde. Depois iria para a cozinha preparar sua refeição. De pé, de cuecas, olhando para a frigideira. Pegando sua comida e caminhando para uma mesa, comendo. Bebendo seu café. Então mais televisão. E talvez uma solitåria lata de cerveja antes de se deitar. Havia milhÔes de homens como ele por toda a América.
Edna saiu da banheira, enrolou-se na toalha, vestiu-se e saiu do apartamento. O carro ainda estava lĂĄ. Anotou o nome do homem, Joe Lighthill, e o nĂșmero do telefone. Leu a parte datilografada novamente. âPelĂculas cinematogrĂĄficas.â Que termo estranho para se usar. Agora as pessoas dizem âfilmesâ. PROCURA-SE MULHER. O aviso era muito ousado. Estava diante de um sujeito original.
Quando Edna chegou em casa, tomou trĂȘs xĂcaras de cafĂ© antes de discar o nĂșmero. O telefone chamou quatro vezes.
â AlĂŽ? â ele respondeu.
â Sr. Lighthill?
â Sim?
â Vi seu anĂșncio. Seu anĂșncio no carro.
â Ah, sim.
â Meu nome Ă© Edna.
â Como vai, Edna?
â Ah, vou bem. Tem feito tanto calor. Esse tempo estĂĄ demais.
â Sim, nada fĂĄcil.
â Bem, sr. Lighthill...
â Me chame apenas de Joe.
â Bem, Joe, rĂĄ rĂĄ rĂĄ, me sinto tĂŁo boba. Sabe por que estou telefonando?
â VocĂȘ viu meu aviso?
â Quero dizer, rĂĄ rĂĄ rĂĄ, o que hĂĄ de errado com vocĂȘ? NĂŁo consegue arranjar uma mulher?
â Acho que nĂŁo, Edna. Me diga, onde elas estĂŁo?
â As mulheres?
â Sim.
â Ah, por toda parte, veja bem.
â Onde? Me diga. Onde?
â Bem, na igreja, veja bem. HĂĄ mulheres na igreja.
â NĂŁo gosto de igrejas.
â Ah.
â Escute, por que vocĂȘ nĂŁo vem para cĂĄ, Edna?
â Quer dizer para sua casa?
â Sim. Moro em um lugar legal. Podemos tomar um drinque, conversar. Sem pressĂŁo.
â EstĂĄ tarde.
â NĂŁo estĂĄ tĂŁo tarde. Escute, vocĂȘ viu meu aviso. Deve estar interessada.
â Bem...
â VocĂȘ estĂĄ com medo, Ă© sĂł isso. EstĂĄ apenas com medo.
â NĂŁo, nĂŁo estou com medo.
â EntĂŁo venha pra cĂĄ, Edna.
â Bem...
â Venha.
â Certo. Vejo vocĂȘ em quinze minutos.
O apartamento ficava no Ășltimo andar de um condomĂnio moderno. NĂșmero 17. A piscina abaixo refletia as luzes. Edna bateu. A porta se abriu, e lĂĄ estava o sr. Lighthill: entradas frontais, nariz aquilino com pelos que saĂam pelas narinas, a camisa aberta na altura do pescoço.
â Entre, Edna...
Entrou, e a porta se fechou atrĂĄs dela. Trazia seu vestido azul de seda. Estava sem meias, de sandĂĄlias, e fumando um cigarro.
â Sente-se, vou pegar uma bebida para vocĂȘ.
Era um lugar agradĂĄvel. Tudo nas cores azul e verde e muito limpo. Ela ouviu o sr. Lighthill cantarolar surdamente, enquanto preparava as bebidas, hmmmmmmm, hmmmmmmm, hmmmmmmm... Ele parecia tranquilo e isso a ajudou a descontrair.
O sr. Lighthill â Joe â voltou com as bebidas. Alcançou a Edna a sua e entĂŁo sentou-se em uma cadeira do outro lado da sala.
â Sim â ele disse â, tem feito muito calor, um calor infernal. Mas tenho ar-condicionado.
â Notei. Ă muito bom.
â Tome a sua bebida.
â Ah, claro.
Edna tomou um gole. Era uma boa bebida, um pouco forte, mas com um gosto agradĂĄvel. Observou Joe inclinar a cabeça enquanto bebia. Ele parecia ter rugas profundas em torno do pescoço. E suas calças estavam muito folgadas. Pareciam ser de uma numeração muito maior. Davam a suas pernas uma aparĂȘncia cĂŽmica.
â Ă um belo vestido, Edna.
â Gosta?
â Oh, sim. VocĂȘ Ă© bem fornida. O vestido fica muito bem em vocĂȘ, muito bem.
Edna não disse nada. E Joe também não. Apenas permaneceram sentados, olhando um para o outro e bebericando suas bebidas.
Por que ele nĂŁo fala?, pensou Edna. Ă ele quem tem de falar. Havia nele algo que lembrava madeira, sim. Ela terminou seu drinque.
â Deixe-me preparar outra bebida para vocĂȘ â disse Joe.
â NĂŁo, realmente estĂĄ na minha hora.
â Ora, vamos lĂĄ â ele disse â, deixe-me preparar outra bebida. Precisamos de algo para relaxar.
â Tudo bem, mas depois vou embora.
Joe foi até a cozinha com os copos. Ele não estava mais cantarolando. Voltou, alcançou a Edna um copo e sentou-se novamente em sua cadeira do outro lado da sala, em frente à cadeira dela. A bebida estava ainda mais forte.
â Sabe â ele disse â, me dou bem nesses testes sobre sexo das revistas.
Edna tomou um gole de sua bebida e nĂŁo respondeu.
â Como vocĂȘ se sai nesses testes? â Joe perguntou.
â Nunca fiz nenhum.
â Deveria, sabe, assim vocĂȘ descobre quem e o que vocĂȘ Ă©.
â Acha que esses testes funcionam? JĂĄ vi nos jornais. Nunca fiz nenhum, mas jĂĄ vi â disse Edna.
â Claro que funcionam.
â Talvez eu nĂŁo seja boa em sexo â disse Edna â, talvez seja por isso que estou sozinha.
Ela bebeu um longo gole de seu copo.
â Cada um de nĂłs estĂĄ, no final, sozinho â disse Joe.
â Como assim?
â Quero dizer, nĂŁo importa quĂŁo bem a coisa esteja indo no sexo, no amor ou em ambos, chega um dia em que tudo acaba.
â Isso Ă© triste â disse Edna.
â Claro que Ă©. EntĂŁo chega o dia em que tudo acaba. Ou hĂĄ uma separação ou a coisa toda se resolve em uma trĂ©gua: duas pessoas vivendo juntas sem sentir nada. Acho que ficar sozinho Ă© melhor.
â VocĂȘ se divorciou da sua esposa, Joe?
â NĂŁo. Ela se divorciou de mim.
â O que deu errado?
â Orgias sexuais.
â Orgias sexuais?
â Veja bem, uma orgia sexual Ă© o lugar mais solitĂĄrio do mundo. Essas orgias... fiquei com uma sensação de desespero... aqueles caralhos entrando e saindo... me desculpe...
â Tudo bem.
â Aqueles caralhos entrando e saindo, pernas enlaçadas, dedos trabalhando, bocas, todo mundo se agarrando e suando e determinado a fazer a coisa toda... de alguma forma.
â NĂŁo sei muito sobre essas coisas, Joe â disse Edna.
â Acho que sem amor, sexo nĂŁo Ă© nada. As coisas sĂł podem representar alguma coisa quando existe algum sentimento entre os participantes.
â Quer dizer que as pessoas tĂȘm que gostar umas das outras?
â Ajuda.
â Imagine que eles se cansem uns dos outros? Imagine que tenham que continuar juntos? Por economia? Filhos? Essas coisas?
â Orgias nĂŁo os manterĂŁo juntos.
â E o que manteria?
â Bem, nĂŁo sei. Talvez o suingue.
â O suingue?
â VocĂȘ sabe, quando dois casais se conhecem muito bem e trocam parceiros. Os sentimentos tĂȘm, pelo menos, uma chance. Por exemplo, digamos que eu sempre tenha gostado da esposa de Mike. Gosto dela hĂĄ meses. JĂĄ a observei caminhar pela sala. Gosto dos movimentos dela. Os movimentos me deixaram curioso. Imagino, vocĂȘ sabe, o que vem depois desses movimentos. JĂĄ a vi braba, jĂĄ a vi bĂȘbada, jĂĄ a vi sĂłbria. E entĂŁo, vem o suingue. VocĂȘ estĂĄ no quarto com ela, finalmente vocĂȘ a estĂĄ conhecendo. HĂĄ uma chance de algo real. Ă claro, Mike estĂĄ com a sua esposa no outro quarto. VocĂȘ pensa: âBoa sorte, Mike, e espero que vocĂȘ seja tĂŁo bom amante quanto euâ.
â E isso dĂĄ certo?
â Bem, nĂŁo sei... Suingues podem causar dificuldades... mais tarde. Tudo tem que ser combinado... muito bem combinado, antecipadamente. E entĂŁo pode ter pessoas que nĂŁo se conheçam bem o suficiente, nĂŁo importa quanto tenham conversado.
â VocĂȘ Ă© um desses, Joe?
â Bem, esse negĂłcio de suingue pode ser bom para alguns... talvez seja bom para muitos. Acho que nĂŁo daria certo para mim. Sou muito puritano.
Joe terminou sua bebida. Edna bebeu o restante da sua e se levantou.
â Escute, Joe, tenho que ir...
Joe caminhou através da sala na direção dela. Ele parecia um elefante naquelas calças. Ela viu suas orelhas grandes. Então ele a agarrou e começou a beijå-la. Seu mau hålito vencia todas as bebidas. Ele tinha um cheiro muito azedo. Parte de sua boca não estava fazendo contato. Era forte, mas sua força não era pura, sua força claudicava. Ela afastou seu rosto para longe e mesmo assim ele a mantinha presa.
PROCURA-SE MULHER
â Joe, me solta! VocĂȘ estĂĄ indo muito rĂĄpido, Joe! Me solte!
â Para que vocĂȘ veio aqui, sua puta?
Ele tentou beijĂĄ-la novamente e conseguiu. Era horrĂvel. Edna ergueu o joelho. Acertou-o em cheio. Ele se dobrou e caiu no tapete.
â Deus, deus... por que vocĂȘ fez isso? VocĂȘ tentou me matar...
Ele rolava no chĂŁo.
Seu traseiro, ela pensou, ele tinha uma bunda tĂŁo feia.
Deixou-o rolando no tapete e desceu as escadas correndo. O ar estava limpo lå fora. Ela ouviu pessoas conversando, ouviu seus aparelhos de televisão. Não era uma caminhada muito longa até seu apartamento. Sentiu necessidade de outro banho, livrou-se do seu vestido de seda azul e se lavou. Então saiu da banheira, secou-se com a toalha e ajeitou os rolos em seus cabelos. Decidiu que nunca mais o veria.
â Ao sul de lugar nenhum
PROCURA-SE MULHER
Ela parou. Havia um grande pedaço de papelĂŁo grudado na janela com alguma substĂąncia. A maior parte estava datilografada. De onde estava na calçada, Edna nĂŁo conseguia ler o aviso. Podia apenas ver as letras graĂșdas:
PROCURA-SE MULHER
Era um carro novo e caro. Edna deu um passo sobre a grama para ler a parte datilografada:
Homem, 49 anos. Divorciado. Procura mulher para casamento. Deve ter entre 35 e 44 anos. Gosta de televisĂŁo e pelĂculas cinematogrĂĄficas. Boa comida. Sou especialista em custos de produção, com estabilidade no emprego. Dinheiro no banco. Gosto de mulheres acima do peso.
Edna tinha 37 anos e estava acima do peso. Havia um nĂșmero de telefone. TambĂ©m havia trĂȘs fotos do cavalheiro em busca de uma mulher. Ele parecia bem sĂ©rio de terno e gravata. TambĂ©m parecia estĂșpido e um pouco cruel. E feito de madeira, pensou Edna, feito de madeira.
Edna se afastou, sorrindo um pouco. Sentia também uma espécie de repulsa. Ao chegar ao seu apartamento, ela o tinha esquecido. Apenas algumas horas depois, sentada na banheira, voltou a pensar nele e, dessa vez, pensou em como ele devia estar realmente sozinho para fazer tal coisa:
PROCURA-SE MULHER
Imaginou-o chegando em casa, encontrando as contas de gås e telefone na caixa de correio, despindo-se, tomando um banho, a televisão ligada. Então leria o jornal da tarde. Depois iria para a cozinha preparar sua refeição. De pé, de cuecas, olhando para a frigideira. Pegando sua comida e caminhando para uma mesa, comendo. Bebendo seu café. Então mais televisão. E talvez uma solitåria lata de cerveja antes de se deitar. Havia milhÔes de homens como ele por toda a América.
Edna saiu da banheira, enrolou-se na toalha, vestiu-se e saiu do apartamento. O carro ainda estava lĂĄ. Anotou o nome do homem, Joe Lighthill, e o nĂșmero do telefone. Leu a parte datilografada novamente. âPelĂculas cinematogrĂĄficas.â Que termo estranho para se usar. Agora as pessoas dizem âfilmesâ. PROCURA-SE MULHER. O aviso era muito ousado. Estava diante de um sujeito original.
Quando Edna chegou em casa, tomou trĂȘs xĂcaras de cafĂ© antes de discar o nĂșmero. O telefone chamou quatro vezes.
â AlĂŽ? â ele respondeu.
â Sr. Lighthill?
â Sim?
â Vi seu anĂșncio. Seu anĂșncio no carro.
â Ah, sim.
â Meu nome Ă© Edna.
â Como vai, Edna?
â Ah, vou bem. Tem feito tanto calor. Esse tempo estĂĄ demais.
â Sim, nada fĂĄcil.
â Bem, sr. Lighthill...
â Me chame apenas de Joe.
â Bem, Joe, rĂĄ rĂĄ rĂĄ, me sinto tĂŁo boba. Sabe por que estou telefonando?
â VocĂȘ viu meu aviso?
â Quero dizer, rĂĄ rĂĄ rĂĄ, o que hĂĄ de errado com vocĂȘ? NĂŁo consegue arranjar uma mulher?
â Acho que nĂŁo, Edna. Me diga, onde elas estĂŁo?
â As mulheres?
â Sim.
â Ah, por toda parte, veja bem.
â Onde? Me diga. Onde?
â Bem, na igreja, veja bem. HĂĄ mulheres na igreja.
â NĂŁo gosto de igrejas.
â Ah.
â Escute, por que vocĂȘ nĂŁo vem para cĂĄ, Edna?
â Quer dizer para sua casa?
â Sim. Moro em um lugar legal. Podemos tomar um drinque, conversar. Sem pressĂŁo.
â EstĂĄ tarde.
â NĂŁo estĂĄ tĂŁo tarde. Escute, vocĂȘ viu meu aviso. Deve estar interessada.
â Bem...
â VocĂȘ estĂĄ com medo, Ă© sĂł isso. EstĂĄ apenas com medo.
â NĂŁo, nĂŁo estou com medo.
â EntĂŁo venha pra cĂĄ, Edna.
â Bem...
â Venha.
â Certo. Vejo vocĂȘ em quinze minutos.
O apartamento ficava no Ășltimo andar de um condomĂnio moderno. NĂșmero 17. A piscina abaixo refletia as luzes. Edna bateu. A porta se abriu, e lĂĄ estava o sr. Lighthill: entradas frontais, nariz aquilino com pelos que saĂam pelas narinas, a camisa aberta na altura do pescoço.
â Entre, Edna...
Entrou, e a porta se fechou atrĂĄs dela. Trazia seu vestido azul de seda. Estava sem meias, de sandĂĄlias, e fumando um cigarro.
â Sente-se, vou pegar uma bebida para vocĂȘ.
Era um lugar agradĂĄvel. Tudo nas cores azul e verde e muito limpo. Ela ouviu o sr. Lighthill cantarolar surdamente, enquanto preparava as bebidas, hmmmmmmm, hmmmmmmm, hmmmmmmm... Ele parecia tranquilo e isso a ajudou a descontrair.
O sr. Lighthill â Joe â voltou com as bebidas. Alcançou a Edna a sua e entĂŁo sentou-se em uma cadeira do outro lado da sala.
â Sim â ele disse â, tem feito muito calor, um calor infernal. Mas tenho ar-condicionado.
â Notei. Ă muito bom.
â Tome a sua bebida.
â Ah, claro.
Edna tomou um gole. Era uma boa bebida, um pouco forte, mas com um gosto agradĂĄvel. Observou Joe inclinar a cabeça enquanto bebia. Ele parecia ter rugas profundas em torno do pescoço. E suas calças estavam muito folgadas. Pareciam ser de uma numeração muito maior. Davam a suas pernas uma aparĂȘncia cĂŽmica.
â Ă um belo vestido, Edna.
â Gosta?
â Oh, sim. VocĂȘ Ă© bem fornida. O vestido fica muito bem em vocĂȘ, muito bem.
Edna não disse nada. E Joe também não. Apenas permaneceram sentados, olhando um para o outro e bebericando suas bebidas.
Por que ele nĂŁo fala?, pensou Edna. Ă ele quem tem de falar. Havia nele algo que lembrava madeira, sim. Ela terminou seu drinque.
â Deixe-me preparar outra bebida para vocĂȘ â disse Joe.
â NĂŁo, realmente estĂĄ na minha hora.
â Ora, vamos lĂĄ â ele disse â, deixe-me preparar outra bebida. Precisamos de algo para relaxar.
â Tudo bem, mas depois vou embora.
Joe foi até a cozinha com os copos. Ele não estava mais cantarolando. Voltou, alcançou a Edna um copo e sentou-se novamente em sua cadeira do outro lado da sala, em frente à cadeira dela. A bebida estava ainda mais forte.
â Sabe â ele disse â, me dou bem nesses testes sobre sexo das revistas.
Edna tomou um gole de sua bebida e nĂŁo respondeu.
â Como vocĂȘ se sai nesses testes? â Joe perguntou.
â Nunca fiz nenhum.
â Deveria, sabe, assim vocĂȘ descobre quem e o que vocĂȘ Ă©.
â Acha que esses testes funcionam? JĂĄ vi nos jornais. Nunca fiz nenhum, mas jĂĄ vi â disse Edna.
â Claro que funcionam.
â Talvez eu nĂŁo seja boa em sexo â disse Edna â, talvez seja por isso que estou sozinha.
Ela bebeu um longo gole de seu copo.
â Cada um de nĂłs estĂĄ, no final, sozinho â disse Joe.
â Como assim?
â Quero dizer, nĂŁo importa quĂŁo bem a coisa esteja indo no sexo, no amor ou em ambos, chega um dia em que tudo acaba.
â Isso Ă© triste â disse Edna.
â Claro que Ă©. EntĂŁo chega o dia em que tudo acaba. Ou hĂĄ uma separação ou a coisa toda se resolve em uma trĂ©gua: duas pessoas vivendo juntas sem sentir nada. Acho que ficar sozinho Ă© melhor.
â VocĂȘ se divorciou da sua esposa, Joe?
â NĂŁo. Ela se divorciou de mim.
â O que deu errado?
â Orgias sexuais.
â Orgias sexuais?
â Veja bem, uma orgia sexual Ă© o lugar mais solitĂĄrio do mundo. Essas orgias... fiquei com uma sensação de desespero... aqueles caralhos entrando e saindo... me desculpe...
â Tudo bem.
â Aqueles caralhos entrando e saindo, pernas enlaçadas, dedos trabalhando, bocas, todo mundo se agarrando e suando e determinado a fazer a coisa toda... de alguma forma.
â NĂŁo sei muito sobre essas coisas, Joe â disse Edna.
â Acho que sem amor, sexo nĂŁo Ă© nada. As coisas sĂł podem representar alguma coisa quando existe algum sentimento entre os participantes.
â Quer dizer que as pessoas tĂȘm que gostar umas das outras?
â Ajuda.
â Imagine que eles se cansem uns dos outros? Imagine que tenham que continuar juntos? Por economia? Filhos? Essas coisas?
â Orgias nĂŁo os manterĂŁo juntos.
â E o que manteria?
â Bem, nĂŁo sei. Talvez o suingue.
â O suingue?
â VocĂȘ sabe, quando dois casais se conhecem muito bem e trocam parceiros. Os sentimentos tĂȘm, pelo menos, uma chance. Por exemplo, digamos que eu sempre tenha gostado da esposa de Mike. Gosto dela hĂĄ meses. JĂĄ a observei caminhar pela sala. Gosto dos movimentos dela. Os movimentos me deixaram curioso. Imagino, vocĂȘ sabe, o que vem depois desses movimentos. JĂĄ a vi braba, jĂĄ a vi bĂȘbada, jĂĄ a vi sĂłbria. E entĂŁo, vem o suingue. VocĂȘ estĂĄ no quarto com ela, finalmente vocĂȘ a estĂĄ conhecendo. HĂĄ uma chance de algo real. Ă claro, Mike estĂĄ com a sua esposa no outro quarto. VocĂȘ pensa: âBoa sorte, Mike, e espero que vocĂȘ seja tĂŁo bom amante quanto euâ.
â E isso dĂĄ certo?
â Bem, nĂŁo sei... Suingues podem causar dificuldades... mais tarde. Tudo tem que ser combinado... muito bem combinado, antecipadamente. E entĂŁo pode ter pessoas que nĂŁo se conheçam bem o suficiente, nĂŁo importa quanto tenham conversado.
â VocĂȘ Ă© um desses, Joe?
â Bem, esse negĂłcio de suingue pode ser bom para alguns... talvez seja bom para muitos. Acho que nĂŁo daria certo para mim. Sou muito puritano.
Joe terminou sua bebida. Edna bebeu o restante da sua e se levantou.
â Escute, Joe, tenho que ir...
Joe caminhou através da sala na direção dela. Ele parecia um elefante naquelas calças. Ela viu suas orelhas grandes. Então ele a agarrou e começou a beijå-la. Seu mau hålito vencia todas as bebidas. Ele tinha um cheiro muito azedo. Parte de sua boca não estava fazendo contato. Era forte, mas sua força não era pura, sua força claudicava. Ela afastou seu rosto para longe e mesmo assim ele a mantinha presa.
PROCURA-SE MULHER
â Joe, me solta! VocĂȘ estĂĄ indo muito rĂĄpido, Joe! Me solte!
â Para que vocĂȘ veio aqui, sua puta?
Ele tentou beijĂĄ-la novamente e conseguiu. Era horrĂvel. Edna ergueu o joelho. Acertou-o em cheio. Ele se dobrou e caiu no tapete.
â Deus, deus... por que vocĂȘ fez isso? VocĂȘ tentou me matar...
Ele rolava no chĂŁo.
Seu traseiro, ela pensou, ele tinha uma bunda tĂŁo feia.
Deixou-o rolando no tapete e desceu as escadas correndo. O ar estava limpo lå fora. Ela ouviu pessoas conversando, ouviu seus aparelhos de televisão. Não era uma caminhada muito longa até seu apartamento. Sentiu necessidade de outro banho, livrou-se do seu vestido de seda azul e se lavou. Então saiu da banheira, secou-se com a toalha e ajeitou os rolos em seus cabelos. Decidiu que nunca mais o veria.
â Ao sul de lugar nenhum
Sorte
certa vez
fomos jovens
diante desta
mĂĄquina...
bebendo
fumando
escrevendo
foi o mais
esplĂȘndido e
miraculoso
dos tempos
ainda
Ă©
acontece que agora
em vez de
nos movermos na direção
do tempo
ele
se move na nossa
direção
faz com que cada palavra
perfure
o
papel
clara
veloz
dura
alimentando um
espaço que se
fecha.
fomos jovens
diante desta
mĂĄquina...
bebendo
fumando
escrevendo
foi o mais
esplĂȘndido e
miraculoso
dos tempos
ainda
Ă©
acontece que agora
em vez de
nos movermos na direção
do tempo
ele
se move na nossa
direção
faz com que cada palavra
perfure
o
papel
clara
veloz
dura
alimentando um
espaço que se
fecha.
Sozinho Com Todo Mundo
a carne cobre os ossos
e eles colocam uma mente
ali dentro e
algumas vezes uma alma,
e as mulheres quebram
vasos contra as paredes
e os homens bebem
demais
e ninguém encontra o
par ideal
mas seguem na
procura
rastejando para dentro e para fora
dos leitos.
a carne cobre
os ossos e a
carne busca
muito mais do que mera
carne.
de fato, nĂŁo hĂĄ qualquer
chance:
estamos todos presos
a um destino
singular.
ninguém nunca encontra
o par ideal.
as lixeiras da cidade se completam
os ferros-velhos se completam
os hospĂcios se completam
as sepulturas se completam
nada mais
se completa.
Eu tinha cinquenta anos e hĂĄ quatro nĂŁo ia para cama com mulher nenhuma. NĂŁo tinha amigas. Olhava-as passarem pelas ruas ou em qualquer lugar que as visse, mas as olhava sem desejo e com uma sensação de futilidade. Eu me masturbava regularmente, mas a ideia de ter uma relação com uma mulher â mesmo em termos nĂŁo-sexuais â estava alĂ©m da minha imaginação. Eu tinha uma filha ilegĂtima de seis anos. Vivia com a mĂŁe e eu pagava pensĂŁo alimentĂcia. Antes disso, aos 35, eu tinha me casado. O casamento durou dois anos e meio. Minha mulher pediu o divĂłrcio. SĂł estive apaixonado uma vez. Ela morreu de alcoolismo agudo. Tinha 48 quando eu tinha 38. Minha mulher era doze anos mais jovem que eu. A esta altura deve estar morta tambĂ©m, embora eu nĂŁo tenha certeza. Escrevia-me uma longa carta todo Natal, nos primeiros seis anos depois do divĂłrcio. Nunca as respondi...
NĂŁo tenho bem certeza de quando vi Lydia Vance pela primeira vez. Foi cerca de seis anos atrĂĄs, eu tinha acabado de largar um emprego de doze anos como funcionĂĄrio dos Correios tentando viver como escritor. Eu estava apavorado e bebia mais do que nunca. Tentava escrever meu primeiro romance. Bebia meio litro de uĂsque e uma dĂșzia de cervejas, todas as noites, enquanto escrevia. Fumava charutos baratos e datilografava e bebia e escutava mĂșsica clĂĄssica no rĂĄdio atĂ© de madrugada. Fixei como objetivo uma mĂ©dia de dez pĂĄginas por noite, mas nunca sabia antes da manhĂŁ seguinte quantas pĂĄginas tinha escrito. Levantava de manhĂŁ, vomitava, entĂŁo ia atĂ© a sala e dava uma olhada no sofĂĄ para ver quantas pĂĄginas havia ali. Excediam sempre as minhas dez. Ăs vezes eram 17, 18, 23, 25 pĂĄginas. Claro, o trabalho de cada noite precisava ser revisado, e o que nĂŁo prestava, jogado fora. Foram necessĂĄrias 21 noites para escrever meu primeiro romance.
Os proprietĂĄrios do condomĂnio onde eu morava entĂŁo viviam nos fundos e achavam que eu era louco. Todas as manhĂŁs, ao acordar, havia um enorme saco de papel pardo na minha porta. O conteĂșdo variava, mas, na maior parte das vezes, eram tomates, rabanetes, laranjas, cebolinhas, latas de sopa, cebolas roxas. Em certas noites eu bebia cerveja com eles atĂ© as quatro ou cinco da manhĂŁ. O velho apagava, e a velha e eu ficĂĄvamos de mĂŁos dadas, e eu a beijava de vez em quando. Sempre dava um dos caprichados na hora da despedida. Era terrivelmente enrugada, mas o que ela podia fazer? Era catĂłlica e ficava uma gracinha quando botava seu chapĂ©u cor-de-rosa e saĂa para ir Ă igreja domingo de manhĂŁ.
Acho que conheci Lydia Vance na minha primeira leitura de poesia. Foi numa livraria da Avenida Kenmore, chamada The Drawbridge. Mais uma vez eu estava apavorado. Mantive um ar superior, mas estava apavorado. Quando entrei, só tinha lugar de pé. Peter, que dirigia a livraria e vivia com uma garota negra, tinha uma pilha de dinheiro à sua frente.
â Porra â ele me disse â, se eu conseguisse juntar sempre esse pessoal todo, teria dinheiro suficiente pra fazer outra viagem Ă Ăndia!
Entrei e eles começaram a aplaudir. No que dizia respeito a leituras de poesia, eu estava prestes a perder o cabaço.
Li por trinta minutos, entĂŁo pedi um intervalo. Ainda estava sĂłbrio e podia sentir os olhos me encarando da escuridĂŁo. Algumas pessoas chegaram e falaram comigo. EntĂŁo, durante uma brecha, Lydia Vance se aproximou. Eu estava sentado numa mesa, bebendo cerveja. Ela apoiou as duas mĂŁos na beirada da mesa, debruçou-se, e me encarou. Tinha cabelos longos e castanhos, muito longos, um nariz proeminente, e um olho que nĂŁo combinava muito bem com o outro. Mas emanava vitalidade â era impossĂvel nĂŁo notĂĄ-la. Podia sentir as vibraçÔes circulando entre a gente. Algumas das vibraçÔes eram confusas, nĂŁo eram boas, mas tambĂ©m estavam lĂĄ. Ela me olhou, e eu respondi seu olhar. Lydia Vance estava com uma jaqueta de camurça, ao estilo cowgirl, com uma franja ao redor do pescoço. Tinha uns peitos legais. Eu lhe disse:
â Gostaria de arrancar essa franja da sua jaqueta, a gente podia começar por aĂ!
Lydia se afastou. Que fracasso. Nunca soube o que dizer Ă s mulheres. Mas seu rabo era maravilhoso. Fiquei olhando aquele rabo enquanto ela se afastava. A parte traseira do jeans o envolvia, e eu fiquei olhando aquilo tudo enquanto ela se afastava.
Acabei a segunda parte do recital e esqueci de Lydia, assim como eu esquecia das mulheres com quem cruzava nas calçadas. Peguei meu dinheiro, autografei alguns guardanapos, alguns pedaços de papel, depois saĂ, guiando de volta para casa.
â Mulheres
e eles colocam uma mente
ali dentro e
algumas vezes uma alma,
e as mulheres quebram
vasos contra as paredes
e os homens bebem
demais
e ninguém encontra o
par ideal
mas seguem na
procura
rastejando para dentro e para fora
dos leitos.
a carne cobre
os ossos e a
carne busca
muito mais do que mera
carne.
de fato, nĂŁo hĂĄ qualquer
chance:
estamos todos presos
a um destino
singular.
ninguém nunca encontra
o par ideal.
as lixeiras da cidade se completam
os ferros-velhos se completam
os hospĂcios se completam
as sepulturas se completam
nada mais
se completa.
Eu tinha cinquenta anos e hĂĄ quatro nĂŁo ia para cama com mulher nenhuma. NĂŁo tinha amigas. Olhava-as passarem pelas ruas ou em qualquer lugar que as visse, mas as olhava sem desejo e com uma sensação de futilidade. Eu me masturbava regularmente, mas a ideia de ter uma relação com uma mulher â mesmo em termos nĂŁo-sexuais â estava alĂ©m da minha imaginação. Eu tinha uma filha ilegĂtima de seis anos. Vivia com a mĂŁe e eu pagava pensĂŁo alimentĂcia. Antes disso, aos 35, eu tinha me casado. O casamento durou dois anos e meio. Minha mulher pediu o divĂłrcio. SĂł estive apaixonado uma vez. Ela morreu de alcoolismo agudo. Tinha 48 quando eu tinha 38. Minha mulher era doze anos mais jovem que eu. A esta altura deve estar morta tambĂ©m, embora eu nĂŁo tenha certeza. Escrevia-me uma longa carta todo Natal, nos primeiros seis anos depois do divĂłrcio. Nunca as respondi...
NĂŁo tenho bem certeza de quando vi Lydia Vance pela primeira vez. Foi cerca de seis anos atrĂĄs, eu tinha acabado de largar um emprego de doze anos como funcionĂĄrio dos Correios tentando viver como escritor. Eu estava apavorado e bebia mais do que nunca. Tentava escrever meu primeiro romance. Bebia meio litro de uĂsque e uma dĂșzia de cervejas, todas as noites, enquanto escrevia. Fumava charutos baratos e datilografava e bebia e escutava mĂșsica clĂĄssica no rĂĄdio atĂ© de madrugada. Fixei como objetivo uma mĂ©dia de dez pĂĄginas por noite, mas nunca sabia antes da manhĂŁ seguinte quantas pĂĄginas tinha escrito. Levantava de manhĂŁ, vomitava, entĂŁo ia atĂ© a sala e dava uma olhada no sofĂĄ para ver quantas pĂĄginas havia ali. Excediam sempre as minhas dez. Ăs vezes eram 17, 18, 23, 25 pĂĄginas. Claro, o trabalho de cada noite precisava ser revisado, e o que nĂŁo prestava, jogado fora. Foram necessĂĄrias 21 noites para escrever meu primeiro romance.
Os proprietĂĄrios do condomĂnio onde eu morava entĂŁo viviam nos fundos e achavam que eu era louco. Todas as manhĂŁs, ao acordar, havia um enorme saco de papel pardo na minha porta. O conteĂșdo variava, mas, na maior parte das vezes, eram tomates, rabanetes, laranjas, cebolinhas, latas de sopa, cebolas roxas. Em certas noites eu bebia cerveja com eles atĂ© as quatro ou cinco da manhĂŁ. O velho apagava, e a velha e eu ficĂĄvamos de mĂŁos dadas, e eu a beijava de vez em quando. Sempre dava um dos caprichados na hora da despedida. Era terrivelmente enrugada, mas o que ela podia fazer? Era catĂłlica e ficava uma gracinha quando botava seu chapĂ©u cor-de-rosa e saĂa para ir Ă igreja domingo de manhĂŁ.
Acho que conheci Lydia Vance na minha primeira leitura de poesia. Foi numa livraria da Avenida Kenmore, chamada The Drawbridge. Mais uma vez eu estava apavorado. Mantive um ar superior, mas estava apavorado. Quando entrei, só tinha lugar de pé. Peter, que dirigia a livraria e vivia com uma garota negra, tinha uma pilha de dinheiro à sua frente.
â Porra â ele me disse â, se eu conseguisse juntar sempre esse pessoal todo, teria dinheiro suficiente pra fazer outra viagem Ă Ăndia!
Entrei e eles começaram a aplaudir. No que dizia respeito a leituras de poesia, eu estava prestes a perder o cabaço.
Li por trinta minutos, entĂŁo pedi um intervalo. Ainda estava sĂłbrio e podia sentir os olhos me encarando da escuridĂŁo. Algumas pessoas chegaram e falaram comigo. EntĂŁo, durante uma brecha, Lydia Vance se aproximou. Eu estava sentado numa mesa, bebendo cerveja. Ela apoiou as duas mĂŁos na beirada da mesa, debruçou-se, e me encarou. Tinha cabelos longos e castanhos, muito longos, um nariz proeminente, e um olho que nĂŁo combinava muito bem com o outro. Mas emanava vitalidade â era impossĂvel nĂŁo notĂĄ-la. Podia sentir as vibraçÔes circulando entre a gente. Algumas das vibraçÔes eram confusas, nĂŁo eram boas, mas tambĂ©m estavam lĂĄ. Ela me olhou, e eu respondi seu olhar. Lydia Vance estava com uma jaqueta de camurça, ao estilo cowgirl, com uma franja ao redor do pescoço. Tinha uns peitos legais. Eu lhe disse:
â Gostaria de arrancar essa franja da sua jaqueta, a gente podia começar por aĂ!
Lydia se afastou. Que fracasso. Nunca soube o que dizer Ă s mulheres. Mas seu rabo era maravilhoso. Fiquei olhando aquele rabo enquanto ela se afastava. A parte traseira do jeans o envolvia, e eu fiquei olhando aquilo tudo enquanto ela se afastava.
Acabei a segunda parte do recital e esqueci de Lydia, assim como eu esquecia das mulheres com quem cruzava nas calçadas. Peguei meu dinheiro, autografei alguns guardanapos, alguns pedaços de papel, depois saĂ, guiando de volta para casa.
â Mulheres
Sua Mulher, a Pintora
Havia esboços de homens, mulheres e patos sobre as paredes,
e do lado de fora um grande ĂŽnibus verde cortava o trĂĄfego como
a insanidade que saltasse de uma linha ondulada, TurguĂȘniev, TurguĂȘniev,
diz o rådio, e Jane Austen, Jane Austen, também.
âVou fazer o retrato dela no dia 28, quando vocĂȘ estiver
no trabalho.â
Ele estava a um passo da obesidade e caminhava constantemente,
espatifava-se; eles o tinham; esvaziavam-no por dentro como
uma mosca na teia, e seus olhos eram injetados de raiva-medo.
Ele sente o Ăłdio e o descartar do mundo, mais afiados que sua
gilete, e sua intuição estĂĄ suspensa como um pĂłlipo Ășmido; e
ele se julga derrotado ao tentar remover os fios de barba
presos Ă lĂąmina sob a ĂĄgua (como a vida), nĂŁo tĂŁo quente como deveria.
Daumier. Rue Transnonain, le 15 Avril, 1843. (Litografia.)
Paris, BibliothĂšque Nationale.
âEla tem um rosto como nunca vi em outra mulher.â
âO que Ă© isso? Um caso amoroso?â
âTolinho. NĂŁo posso amar uma mulher. AlĂ©m disso, ela estĂĄ grĂĄvida.â
NĂŁo posso pintar â uma flor devorada por uma cobra; aquela luz do sol Ă© uma
mentira; e aqueles mercados cheiram a sapatos e a nudez de garotos vestidos,
e abaixo de tudo isso algum rio, algum movimento, alguma virada que
suba ao longo do limite de meu templo e morda com uma picada atordoante...
homens dirigem carros e pintam suas casas,
mas eles são loucos; homens se sentam nas barbearias, compram chapéus.
Corot. Lembrança de Mortefontaine.
Paris, Louvre.
âTenho que escrever para o Kaiser, embora eu ache que ele Ă© homossexual.â
âVocĂȘ segue lendo Freud?â
âPĂĄgina 299.â
Ela produziu um pequeno chapéu e ele fez dois estalos com a mão debaixo do
braço, erguendo-o da cama como uma longa antena de
lesma, e ela foi Ă igreja, e ele pensou agora eu tenho
tempo e o cachorro.
Sobre a igreja: o problema de uma mĂĄscara Ă© que ela
nunca muda.
TĂŁo rude as flores que crescem e nĂŁo crescem belas.
TĂŁo incrĂvel a cadeira no pĂĄtio que nĂŁo precisa sustentar pernas
e barriga e braço e pescoço e boca que morde o
vento como o fim de um tĂșnel.
Ele se voltou na cama e pensou: estou procurando algum
segmento no ar. Ele flutua sobre a cabeça das pessoas.
Quando chove sobre as ĂĄrvores ele se acomoda entre os galhos
mais quente e mais verdadeiramente sanguĂneo que a pomba.
Orozco. Cristo Destruindo a Cruz.
Hanover, Dartmouth College, Baker Library.
Deixou-se consumir pelo sono.
Fay estava grĂĄvida. Mas isso nĂŁo a fez mudar nem as coisas nos Correios mudaram.
Os mesmos funcionĂĄrios faziam todo o trabalho enquanto o resto do pessoal, a equipe mista, ficava por ali, discutindo esportes. Eram todos caras negros, grandes â com uma constituição de profissionais da luta livre. Sempre que um novato entrava no serviço, era enviado para a equipe mista. Isso evitava que eles assassinassem os supervisores. Se as equipes mistas tinham um supervisor, jamais se conseguia avistĂĄ-lo. A equipe carregava os caminhĂ”es com as cartas que chegavam atravĂ©s do elevador de carga. Isso ocupava cinco minutos de uma hora de trabalho. Ăs vezes, eles contavam as cartas, ou ao menos fingiam. Pareciam bastante calmos e inteligentes, fazendo suas contas com um lĂĄpis comprido atrĂĄs da orelha. Mas na maior parte do tempo eles discutiam sobre esporte, de um modo violento. Todos eram especialistas â liam os mesmos comentaristas esportivos.
â Muito bem, cara, quem Ă© pra vocĂȘ o melhor jogador de todos os tempos do campo externo?
â Bem, Willie Mays, Ted Williams, Cobb.
â O quĂȘ? O quĂȘ?
â Ă isso aĂ, meu!
â E quanto ao Babe? Como deixar o Babe de fora?
â Ok, Ok, quem Ă© o seu jogador cinco estrelas na posição?
â NĂŁo Ă© cinco estrelas, Ă© o melhor de todos os tempos!
â Ok, Ok, vocĂȘ sabe o que eu quero dizer, meu, vocĂȘ sabe o que eu quero
dizer!
â Bem, fico com Mays, Ruth e Di Maj!
â VocĂȘs dois perderam a noção! E o Hank Aaron, rapaziada? Como deixar o Hank de fora?
Certa vez, todos os cargos da equipe mista foram postos à disposição. As vagas eram preenchidas principalmente em função do tempo de trabalho. A equipe mista se organizou e rasgou as fichas de preenchimentos de vagas do livro de pedidos. Eles não podiam fazer nada. Ninguém deu queixa por escrito. Era um caminho comprido e escuro até o estacionamento à noite.
Comecei a sentir tonturas. Podia senti-las vindo. A caixa começava a girar. As crises duravam um minuto. Não conseguia entender o que se passava. Cada carta se tornava mais e mais pesada. Os funcionårios começavam a ter aquele aspecto de um cinza esmaecido. Eu começava a deslizar de meu banquinho. Minhas pernas mal eram capazes de me sustentar. O trabalho estava me matando.
Fui até meu médico e lhe disse o que estava acontecendo. Ele mediu minha pressão.
â NĂŁo, nĂŁo, nĂŁo hĂĄ nada de errado com sua pressĂŁo.
EntĂŁo ele me auscultou e me pesou.
â NĂŁo vejo nada de errado.
Depois resolveu fazer um exame de sangue especial. Fez trĂȘs coletas de sangue, sucessivas, em intervalos, cada um parecendo maior do que o anterior.
â Importa-se de esperar na outra sala?
â NĂŁo, nĂŁo, vou dar uma volta por aĂ e retorno na hora combinada.
â Certo, mas volte mesmo na hora combinada.
Cheguei a tempo para a segunda coleta. EntĂŁo houve uma espera maior para a terceira, cerca de vinte ou 25 minutos. Dei uma volta pela rua. Nada de especial estava acontecendo. Fui atĂ© uma loja de conveniĂȘncias e fiquei lendo uma revista. Coloquei-a de volta em seu lugar, olhei para o relĂłgio e saĂ. Vi aquela mulher sentada na parada de ĂŽnibus. Era uma dessas que a gente vĂȘ raramente. Mostrava boa parte das pernas. NĂŁo conseguia desviar meus olhos. Atravessei a rua e fiquei a uns vinte metros de distĂąncia.
EntĂŁo ela se levantou. Tive que segui-la. Aquele rabo gostoso acenava para mim. Eu estava hipnotizado. Ela entrou numa agĂȘncia dos Correios. Entrou numa enorme fila e eu fiquei atrĂĄs dela. Trazia dois postais consigo. Comprei doze postais de via aĂ©rea e dois dĂłlares em selos.
Quando saĂ, ela apanhava o ĂŽnibus. Vi ainda um resquĂcio daquelas pernas e daquele rabo deliciosos entrando no ĂŽnibus, ĂŽnibus que a levou embora.
O médico estava esperando.
â O que aconteceu? O senhor estĂĄ cinco minutos atrasado!
â NĂŁo sei. Meu relĂłgio deve ter parado.
â AS COISAS TĂM QUE SER FEITAS COM EXATIDĂO!
â Vamos. Tire meu sangue duma vez.
Ele me enfiou a agulha...
Dois dias depois, os testes disseram que não havia nada de errado comigo. Não sei se foi por causa daquela diferença de cinco minutos. Mas as crises de tontura pioraram. Comecei a sair do trabalho quatro horas antes do previsto, sem preencher corretamente os formulårios.
Eu chegava por volta das onze da noite e lĂĄ estava Fay. Pobre Fay grĂĄvida.
â O que aconteceu?
â NĂŁo conseguia suportar mais â eu disse â, estou muito sensĂvel...
â Cartas na rua
e do lado de fora um grande ĂŽnibus verde cortava o trĂĄfego como
a insanidade que saltasse de uma linha ondulada, TurguĂȘniev, TurguĂȘniev,
diz o rådio, e Jane Austen, Jane Austen, também.
âVou fazer o retrato dela no dia 28, quando vocĂȘ estiver
no trabalho.â
Ele estava a um passo da obesidade e caminhava constantemente,
espatifava-se; eles o tinham; esvaziavam-no por dentro como
uma mosca na teia, e seus olhos eram injetados de raiva-medo.
Ele sente o Ăłdio e o descartar do mundo, mais afiados que sua
gilete, e sua intuição estĂĄ suspensa como um pĂłlipo Ășmido; e
ele se julga derrotado ao tentar remover os fios de barba
presos Ă lĂąmina sob a ĂĄgua (como a vida), nĂŁo tĂŁo quente como deveria.
Daumier. Rue Transnonain, le 15 Avril, 1843. (Litografia.)
Paris, BibliothĂšque Nationale.
âEla tem um rosto como nunca vi em outra mulher.â
âO que Ă© isso? Um caso amoroso?â
âTolinho. NĂŁo posso amar uma mulher. AlĂ©m disso, ela estĂĄ grĂĄvida.â
NĂŁo posso pintar â uma flor devorada por uma cobra; aquela luz do sol Ă© uma
mentira; e aqueles mercados cheiram a sapatos e a nudez de garotos vestidos,
e abaixo de tudo isso algum rio, algum movimento, alguma virada que
suba ao longo do limite de meu templo e morda com uma picada atordoante...
homens dirigem carros e pintam suas casas,
mas eles são loucos; homens se sentam nas barbearias, compram chapéus.
Corot. Lembrança de Mortefontaine.
Paris, Louvre.
âTenho que escrever para o Kaiser, embora eu ache que ele Ă© homossexual.â
âVocĂȘ segue lendo Freud?â
âPĂĄgina 299.â
Ela produziu um pequeno chapéu e ele fez dois estalos com a mão debaixo do
braço, erguendo-o da cama como uma longa antena de
lesma, e ela foi Ă igreja, e ele pensou agora eu tenho
tempo e o cachorro.
Sobre a igreja: o problema de uma mĂĄscara Ă© que ela
nunca muda.
TĂŁo rude as flores que crescem e nĂŁo crescem belas.
TĂŁo incrĂvel a cadeira no pĂĄtio que nĂŁo precisa sustentar pernas
e barriga e braço e pescoço e boca que morde o
vento como o fim de um tĂșnel.
Ele se voltou na cama e pensou: estou procurando algum
segmento no ar. Ele flutua sobre a cabeça das pessoas.
Quando chove sobre as ĂĄrvores ele se acomoda entre os galhos
mais quente e mais verdadeiramente sanguĂneo que a pomba.
Orozco. Cristo Destruindo a Cruz.
Hanover, Dartmouth College, Baker Library.
Deixou-se consumir pelo sono.
Fay estava grĂĄvida. Mas isso nĂŁo a fez mudar nem as coisas nos Correios mudaram.
Os mesmos funcionĂĄrios faziam todo o trabalho enquanto o resto do pessoal, a equipe mista, ficava por ali, discutindo esportes. Eram todos caras negros, grandes â com uma constituição de profissionais da luta livre. Sempre que um novato entrava no serviço, era enviado para a equipe mista. Isso evitava que eles assassinassem os supervisores. Se as equipes mistas tinham um supervisor, jamais se conseguia avistĂĄ-lo. A equipe carregava os caminhĂ”es com as cartas que chegavam atravĂ©s do elevador de carga. Isso ocupava cinco minutos de uma hora de trabalho. Ăs vezes, eles contavam as cartas, ou ao menos fingiam. Pareciam bastante calmos e inteligentes, fazendo suas contas com um lĂĄpis comprido atrĂĄs da orelha. Mas na maior parte do tempo eles discutiam sobre esporte, de um modo violento. Todos eram especialistas â liam os mesmos comentaristas esportivos.
â Muito bem, cara, quem Ă© pra vocĂȘ o melhor jogador de todos os tempos do campo externo?
â Bem, Willie Mays, Ted Williams, Cobb.
â O quĂȘ? O quĂȘ?
â Ă isso aĂ, meu!
â E quanto ao Babe? Como deixar o Babe de fora?
â Ok, Ok, quem Ă© o seu jogador cinco estrelas na posição?
â NĂŁo Ă© cinco estrelas, Ă© o melhor de todos os tempos!
â Ok, Ok, vocĂȘ sabe o que eu quero dizer, meu, vocĂȘ sabe o que eu quero
dizer!
â Bem, fico com Mays, Ruth e Di Maj!
â VocĂȘs dois perderam a noção! E o Hank Aaron, rapaziada? Como deixar o Hank de fora?
Certa vez, todos os cargos da equipe mista foram postos à disposição. As vagas eram preenchidas principalmente em função do tempo de trabalho. A equipe mista se organizou e rasgou as fichas de preenchimentos de vagas do livro de pedidos. Eles não podiam fazer nada. Ninguém deu queixa por escrito. Era um caminho comprido e escuro até o estacionamento à noite.
Comecei a sentir tonturas. Podia senti-las vindo. A caixa começava a girar. As crises duravam um minuto. Não conseguia entender o que se passava. Cada carta se tornava mais e mais pesada. Os funcionårios começavam a ter aquele aspecto de um cinza esmaecido. Eu começava a deslizar de meu banquinho. Minhas pernas mal eram capazes de me sustentar. O trabalho estava me matando.
Fui até meu médico e lhe disse o que estava acontecendo. Ele mediu minha pressão.
â NĂŁo, nĂŁo, nĂŁo hĂĄ nada de errado com sua pressĂŁo.
EntĂŁo ele me auscultou e me pesou.
â NĂŁo vejo nada de errado.
Depois resolveu fazer um exame de sangue especial. Fez trĂȘs coletas de sangue, sucessivas, em intervalos, cada um parecendo maior do que o anterior.
â Importa-se de esperar na outra sala?
â NĂŁo, nĂŁo, vou dar uma volta por aĂ e retorno na hora combinada.
â Certo, mas volte mesmo na hora combinada.
Cheguei a tempo para a segunda coleta. EntĂŁo houve uma espera maior para a terceira, cerca de vinte ou 25 minutos. Dei uma volta pela rua. Nada de especial estava acontecendo. Fui atĂ© uma loja de conveniĂȘncias e fiquei lendo uma revista. Coloquei-a de volta em seu lugar, olhei para o relĂłgio e saĂ. Vi aquela mulher sentada na parada de ĂŽnibus. Era uma dessas que a gente vĂȘ raramente. Mostrava boa parte das pernas. NĂŁo conseguia desviar meus olhos. Atravessei a rua e fiquei a uns vinte metros de distĂąncia.
EntĂŁo ela se levantou. Tive que segui-la. Aquele rabo gostoso acenava para mim. Eu estava hipnotizado. Ela entrou numa agĂȘncia dos Correios. Entrou numa enorme fila e eu fiquei atrĂĄs dela. Trazia dois postais consigo. Comprei doze postais de via aĂ©rea e dois dĂłlares em selos.
Quando saĂ, ela apanhava o ĂŽnibus. Vi ainda um resquĂcio daquelas pernas e daquele rabo deliciosos entrando no ĂŽnibus, ĂŽnibus que a levou embora.
O médico estava esperando.
â O que aconteceu? O senhor estĂĄ cinco minutos atrasado!
â NĂŁo sei. Meu relĂłgio deve ter parado.
â AS COISAS TĂM QUE SER FEITAS COM EXATIDĂO!
â Vamos. Tire meu sangue duma vez.
Ele me enfiou a agulha...
Dois dias depois, os testes disseram que não havia nada de errado comigo. Não sei se foi por causa daquela diferença de cinco minutos. Mas as crises de tontura pioraram. Comecei a sair do trabalho quatro horas antes do previsto, sem preencher corretamente os formulårios.
Eu chegava por volta das onze da noite e lĂĄ estava Fay. Pobre Fay grĂĄvida.
â O que aconteceu?
â NĂŁo conseguia suportar mais â eu disse â, estou muito sensĂvel...
â Cartas na rua
Tesuda
ela era tesuda, tĂŁo tesuda
que eu não queria que ninguém mais a tivesse,
e se eu nĂŁo chegasse a tempo em casa
ela saĂa, e eu nĂŁo podia suportar aquilo â
eu ficava louco...
sei que era uma tolice, coisa de criança,
mas eu me deixava envolver por isso, me deixava envolver
eu entregava todas as cartas
e entĂŁo Henderson me colocava para apanhar o correio noturno
num velho caminhão do exército,
e o maldito começava a esquentar no meio da corrida
e a noite avançava
comigo pensamentos na tesuda da Miriam
no sobe e desce do caminhĂŁo
enchendo sacos de carta
o motor cada vez mais quente
o ponteiro da temperatura cravado no mĂĄximo
QUENTE QUENTE
como Miriam.
eu pulava para dentro e para fora
mais trĂȘs coletas e depois para a estação
lĂĄ estaria meu carro
esperando para me levar até Miriam que se sentava em meu sofå azul
com um uĂsque com gelo
cruzando as pernas e balançando seus tornozelos
como era seu costume,
mais duas paradas...
o caminhĂŁo apagou junto a um sinal, era o inferno
se impondo
outra vez...
eu tinha que estar em casa Ă s 8, 8 era o prazo final de Miriam.
fiz a Ășltima coleta e o caminhĂŁo apagou junto a um sinal
a meia quadra da estação
nĂŁo dava mais a partida, nĂŁo dava mais a partida...
tranquei as portas, tirei as chaves e corri até a
estação...
joguei as chaves... bati o ponto...
seu maldito caminhĂŁo estĂĄ emperrado junto ao sinal,
gritei,
Pico e Western...
... avancei pelo corredor, enfiei a chave na porta,
abri-a... seu copo estava lĂĄ, e um bilhete:
filho da puta:
esperei até oito e cinco
vocĂȘ nĂŁo me ama
seu filho da puta
alguém vai me amar
esperei o dia inteiro
Miriam
me servi uma bebida e deixei a ĂĄgua encher a banheira
havia 5.000 bares na cidade
e eu percorreria 25 deles
atrĂĄs de Miriam
seu ursinho pĂșrpura de pelĂșcia segurava o bilhete
encostado contra um travesseiro
dei uma bebida para o urso, outra para mim
e entrei na ĂĄgua
quente.
â Chinaski! Pegue a rota 539!
A mais difĂcil de toda a estação. PrĂ©dios com caixas com nomes rabiscados ou sem qualquer identificação, iluminadas por lĂąmpadas amareladas em corredores escuros. Velhas senhoras plantadas nos saguĂ”es, pelas ruas, fazendo sempre as mesmas perguntas, como se fossem uma Ășnica pessoa com uma Ășnica voz:
â Carteiro, o senhor tem alguma carta pra mim?
E vocĂȘ tinha vontade de gritar:
â Senhora, como, diabos, vou saber quem a senhora Ă© ou quem eu sou ou quem qualquer um Ă©?
O suor pingando, a ressaca, a impossibilidade do cronograma, e Jonstone lå no escritório com sua camisa vermelha, sabendo de tudo, saboreando cada gota, fingindo fazer o que fazia por uma questão de contenção de custos. Mas todo mundo conhecia suas razÔes. Oh, que ótimo homem ele era!
As pessoas. As pessoas. E os cachorros.
Deixe-me falar sobre os cachorros. Era um desses dias de 37ÂșC e eu seguia em frente, suando, enjoado, delirante, de ressaca. Parei junto a um pequeno prĂ©dio cuja caixa de correspondĂȘncia ficava escada abaixo, junto Ă calçada da frente. Entrei com minha chave. NĂŁo houve qualquer som. EntĂŁo senti alguma coisa se esfregando contra minha virilha. Escalei os degraus. Olhei para trĂĄs e lĂĄ estava um pastor alemĂŁo, crescido, com o focinho a meio caminho do meu rabo. Com uma abocanhada poderia arrancar fora meus bagos. Decidi que aquelas pessoas nĂŁo receberiam suas cartas naquele dia, e que talvez jamais recebessem nenhuma outra. Cara, o que estou dizendo Ă© que aquele focinho foi longe demais. SNUF! SNUF! SNUF!
Coloquei a correspondĂȘncia de volta na sacola de couro e entĂŁo bem devagar, bem devagarzinho, dei meio passo. O focinho me seguiu. Mais um meio passo com o outro pĂ©. O focinho ali. EntĂŁo dei um passo completo, bem devagar. E depois mais outro. EntĂŁo parei. O focinho jĂĄ nĂŁo estava no meu rabo. E o bicho ficou parado, olhando para mim. Talvez ele nunca tivesse cheirado nada como aquilo e nĂŁo soubesse muito bem o que fazer.
Discretamente me afastei.
â Cartas na rua
que eu não queria que ninguém mais a tivesse,
e se eu nĂŁo chegasse a tempo em casa
ela saĂa, e eu nĂŁo podia suportar aquilo â
eu ficava louco...
sei que era uma tolice, coisa de criança,
mas eu me deixava envolver por isso, me deixava envolver
eu entregava todas as cartas
e entĂŁo Henderson me colocava para apanhar o correio noturno
num velho caminhão do exército,
e o maldito começava a esquentar no meio da corrida
e a noite avançava
comigo pensamentos na tesuda da Miriam
no sobe e desce do caminhĂŁo
enchendo sacos de carta
o motor cada vez mais quente
o ponteiro da temperatura cravado no mĂĄximo
QUENTE QUENTE
como Miriam.
eu pulava para dentro e para fora
mais trĂȘs coletas e depois para a estação
lĂĄ estaria meu carro
esperando para me levar até Miriam que se sentava em meu sofå azul
com um uĂsque com gelo
cruzando as pernas e balançando seus tornozelos
como era seu costume,
mais duas paradas...
o caminhĂŁo apagou junto a um sinal, era o inferno
se impondo
outra vez...
eu tinha que estar em casa Ă s 8, 8 era o prazo final de Miriam.
fiz a Ășltima coleta e o caminhĂŁo apagou junto a um sinal
a meia quadra da estação
nĂŁo dava mais a partida, nĂŁo dava mais a partida...
tranquei as portas, tirei as chaves e corri até a
estação...
joguei as chaves... bati o ponto...
seu maldito caminhĂŁo estĂĄ emperrado junto ao sinal,
gritei,
Pico e Western...
... avancei pelo corredor, enfiei a chave na porta,
abri-a... seu copo estava lĂĄ, e um bilhete:
filho da puta:
esperei até oito e cinco
vocĂȘ nĂŁo me ama
seu filho da puta
alguém vai me amar
esperei o dia inteiro
Miriam
me servi uma bebida e deixei a ĂĄgua encher a banheira
havia 5.000 bares na cidade
e eu percorreria 25 deles
atrĂĄs de Miriam
seu ursinho pĂșrpura de pelĂșcia segurava o bilhete
encostado contra um travesseiro
dei uma bebida para o urso, outra para mim
e entrei na ĂĄgua
quente.
â Chinaski! Pegue a rota 539!
A mais difĂcil de toda a estação. PrĂ©dios com caixas com nomes rabiscados ou sem qualquer identificação, iluminadas por lĂąmpadas amareladas em corredores escuros. Velhas senhoras plantadas nos saguĂ”es, pelas ruas, fazendo sempre as mesmas perguntas, como se fossem uma Ășnica pessoa com uma Ășnica voz:
â Carteiro, o senhor tem alguma carta pra mim?
E vocĂȘ tinha vontade de gritar:
â Senhora, como, diabos, vou saber quem a senhora Ă© ou quem eu sou ou quem qualquer um Ă©?
O suor pingando, a ressaca, a impossibilidade do cronograma, e Jonstone lå no escritório com sua camisa vermelha, sabendo de tudo, saboreando cada gota, fingindo fazer o que fazia por uma questão de contenção de custos. Mas todo mundo conhecia suas razÔes. Oh, que ótimo homem ele era!
As pessoas. As pessoas. E os cachorros.
Deixe-me falar sobre os cachorros. Era um desses dias de 37ÂșC e eu seguia em frente, suando, enjoado, delirante, de ressaca. Parei junto a um pequeno prĂ©dio cuja caixa de correspondĂȘncia ficava escada abaixo, junto Ă calçada da frente. Entrei com minha chave. NĂŁo houve qualquer som. EntĂŁo senti alguma coisa se esfregando contra minha virilha. Escalei os degraus. Olhei para trĂĄs e lĂĄ estava um pastor alemĂŁo, crescido, com o focinho a meio caminho do meu rabo. Com uma abocanhada poderia arrancar fora meus bagos. Decidi que aquelas pessoas nĂŁo receberiam suas cartas naquele dia, e que talvez jamais recebessem nenhuma outra. Cara, o que estou dizendo Ă© que aquele focinho foi longe demais. SNUF! SNUF! SNUF!
Coloquei a correspondĂȘncia de volta na sacola de couro e entĂŁo bem devagar, bem devagarzinho, dei meio passo. O focinho me seguiu. Mais um meio passo com o outro pĂ©. O focinho ali. EntĂŁo dei um passo completo, bem devagar. E depois mais outro. EntĂŁo parei. O focinho jĂĄ nĂŁo estava no meu rabo. E o bicho ficou parado, olhando para mim. Talvez ele nunca tivesse cheirado nada como aquilo e nĂŁo soubesse muito bem o que fazer.
Discretamente me afastei.
â Cartas na rua
Traga-Me Seu Amor
Harry venceu os degraus que o separavam do jardim. Muitos dos pacientes estavam por ali. Haviam-lhe dito que sua esposa, Gloria, estava ali fora. Avistou-a sentada sozinha em uma mesa. Aproximou-se de forma oblĂqua, por um dos lados e um pouco Ă s costas dela. Gloria sentava-se bastante ereta, estava muito pĂĄlida. Olhava para ele, mas nĂŁo o enxergava. AtĂ© que por fim o viu.
â VocĂȘ Ă© o condutor? â ela perguntou
â O condutor do quĂȘ?
â O condutor da verossimilhança?
â NĂŁo, nĂŁo sou.
Ela estava pĂĄlida, seus olhos estavam pĂĄlidos, de um azul pĂĄlido.
â Como vocĂȘ se sente, Gloria?
Era uma mesa de ferro, pintada de branco, uma mesa capaz de resistir à ação dos séculos. Havia um pequeno vaso com flores no centro, flores murchas e mortas pendendo de tristes e curvas hastes.
âVocĂȘ trepa com putas, Harry. VocĂȘ gosta de trepar com putas.
â Isso nĂŁo Ă© verdade, Gloria.
â Elas tambĂ©m chupam vocĂȘ? Elas chupam seu pau?
â Ia trazer sua mĂŁe, Gloria, mas ela ainda nĂŁo melhorou da gripe.
â Aquela velha pilantra estĂĄ sempre armando alguma coisa... VocĂȘ Ă© o condutor?
Os outros pacientes estavam sentados Ă s mesas, escorados nas ĂĄrvores ou estendidos sobre o gramado. Estavam imĂłveis e silenciosos.
â Que tal a comida aqui, Gloria? JĂĄ fez algum amigo?
â TerrĂvel. E nĂŁo. Seu comedor de putas.
â Quer alguma coisa pra ler? Algum tipo de leitura que eu possa trazer?
Gloria não respondeu. Então ela ergueu a mão direita, examinou-a, fechou o punho e golpeou a si mesma no nariz, com toda força. Harry cruzou a mesa e segurou suas duas mãos.
â Gloria, por favor!
Ela começou a chorar.
â Por que vocĂȘ nĂŁo me trouxe chocolates?
â Gloria, vocĂȘ tinha me dito que odiava chocolate.
As lĂĄgrimas desciam em profusĂŁo.
â Eu nĂŁo odeio chocolate! Eu amo chocolate!
â NĂŁo chore, Gloria, por favor... Trarei chocolates, trarei o que vocĂȘ quiser... Escute, aluguei o quarto num motel aqui perto, a umas poucas quadras, sĂł pra estar perto de vocĂȘ.
Seus olhos pĂĄlidos se arregalaram.
â Um quarto de motel? VocĂȘ deve estar lĂĄ com alguma vagabunda! Devem ficar vendo filmes pornĂŽs juntos, espelho no teto e tudo!
â Vou ficar aqui por perto uns dois dias â disse Harry, com suavidade. â Posso trazer o que vocĂȘ quiser.
â Me traga seu amor, entĂŁo â ela gritou. â Por que, diabos, vocĂȘ nĂŁo me traz o seu amor?
Alguns dos pacientes se voltaram para olhar.
â Gloria, tenho certeza que nĂŁo hĂĄ no mundo alguĂ©m que se importe com vocĂȘ mais do que eu.
â Quer me trazer chocolates? Bem, pois enfie os chocolates no olho do cu!
Harry tirou um cartão de sua carteira. Era do motel. Alcançou-o para ela.
â SĂł quero dar isso a vocĂȘ, antes que eu me esqueça. VocĂȘ tem permissĂŁo pra fazer chamadas externas? EstĂĄ aqui o meu nĂșmero, pra tudo o que vocĂȘ precisar.
Gloria não respondeu. Ela pegou o cartão e dobrou-o até que não restasse mais que um pequeno quadrado. Então se abaixou, tirou um dos sapatos, colocou o cartão lå dentro e voltou a calçå-lo.
Em seguida, Harry avistou o dr. Jensen se aproximando pelo gramado. O médico caminhava sorridente e logo disse:
â Bem, bem, bem...
â OlĂĄ, dr. Jensen â falou Gloria sem emoção.
â Posso me sentar? â perguntou o mĂ©dico.
â Claro â disse Gloria.
O mĂ©dico era um homem pesado. Emanava um ar de importĂąncia, autoridade e responsabilidade. Suas sobrancelhas tinham uma aparĂȘncia grossa e pesada, eram, de fato, grossas e pesadas. Pareciam querer deslizar atĂ© sua boca Ășmida e redonda e desaparecer, mas a vida jamais lhes permitiria isso.
O médico olhou para Gloria. Depois para Harry.
â Bem, bem, bem â ele disse. â Estou realmente satisfeito com o progresso que fizemos atĂ© agora...
â Sim, dr. Jensen, eu estava dizendo pro Harry como me sinto mais estĂĄvel, o quanto as consultas e as sessĂ”es de grupo tĂȘm me ajudado. Muito daquela minha raiva sem motivo aparente, daquela minha sensação inĂștil de frustração, da minha autocomiseração destrutiva jĂĄ desapareceram...
Gloria se sentou com as mĂŁos cruzadas sobre o colo, sorrindo.
O médico sorriu para Harry.
â Gloria fez um notĂĄvel progresso!
â Sim â Harry disse â, pude perceber.
â Creio que Ă© questĂŁo de um pouquinho mais de tempo, Harry, e Gloria poderĂĄ voltar pra casa com vocĂȘ.
â Doutor? â perguntou Gloria. â Posso fumar um cigarro?
â Como nĂŁo â disse o mĂ©dico, puxando um maço de cigarros exĂłticos, fazendo, com um tapinha, saltar um deles. Gloria o apanhou e o mĂ©dico estendeu seu isqueiro folhado a ouro, acendendo-o. Gloria inalou, exalou...
â VocĂȘ tem mĂŁos lindas, dr. Jensen â ela disse.
â Oh, muito obrigado, querida.
â E uma gentileza que salva, uma gentileza que cura...
â Bem, fazemos o nosso melhor por aqui... â disse o dr. Jensen, com doçura. â Bem, se vocĂȘs puderem me dar licença, tenho que falar com outros pacientes.
Ergueu o corpanzil com facilidade da cadeira e seguiu na direção de uma mesa onde uma mulher visitava outro homem.
Gloria olhou fixamente para Harry.
â Aquele gordo fodido! Vive lambendo o rabo das enfermeiras...
â Gloria, foi Ăłtimo ter estado com vocĂȘ, mas a viagem foi longa e eu preciso descansar um pouco. E acho que o doutor estĂĄ certo. Pude notar sua melhora.
Ela deu uma risada. Mas nĂŁo uma risada pura, foi mais como uma daquelas gargalhadas de palco, como se fizesse parte de um papel decorado.
â NĂŁo fiz nenhum progresso. Pra falar a verdade, acho atĂ© que piorei...
â Isso nĂŁo Ă© verdade, Gloria...
â Sou eu a paciente, cabeça de peixe. Posso chegar ao diagnĂłstico melhor do que ninguĂ©m.
â Que negĂłcio Ă© esse de âcabeça de peixeâ?
â NinguĂ©m nunca lhe disse que a sua cabeça parece a de um peixe?
â NĂŁo.
â A prĂłxima vez que fizer a barba, repare nisso. E cuidado para nĂŁo cortar suas guelras.
â Tenho que ir embora... mas amanhĂŁ eu venho fazer outra visita...
â Da prĂłxima vez traga o condutor.
â Tem certeza de que nĂŁo quer que eu traga nada?
â Eu sei que vocĂȘ vai voltar pro motel pra comer alguma vagabunda!
â Que tal se eu trouxer um nĂșmero da New York? VocĂȘ costumava gostar dessa revista...
â Enfia a New York no cu, cabeça de peixe. E aproveita o embalo e jĂĄ mete junto uma TIME!
Harry estendeu um dos braços e apertou a mão que ela usara para se golpear, deu meia-volta e se afastou em direção à escada. Quando jå havia subido metade dos degraus, voltou-se e fez um leve aceno para Gloria. Ela ficou sentada, sem esboçar reação.
Estavam no escuro, tudo ia bem, quando o telefone tocou.
Harry continuou metendo, mas o telefone nĂŁo parava de tocar. Aquilo era extremamente perturbador. Logo seu pau amoleceu.
â Merda â ele disse, rolando por sobre o corpo. Acendeu a luz e atendeu o telefone.
â AlĂŽ?
Era Gloria.
â VocĂȘ estĂĄ comendo alguma vagabunda!
â Gloria, eles deixam vocĂȘ ligar a uma hora dessas? NĂŁo dĂŁo uma pĂlula pra vocĂȘ dormir ou algo assim?
â Por que vocĂȘ demorou tanto pra atender o telefone?
â VocĂȘ nunca vai ao banheiro? Eu estava no meio de um cocĂŽ dos bons, tudo saindo que era uma maravilha.
â Sim, eu vou... VocĂȘ ia terminar tudo pra sĂł depois me atender?
â Gloria, tudo isso Ă© culpa dessa sua paranoia extrema. Foi isso que pĂŽs vocĂȘ aĂ onde vocĂȘ estĂĄ.
â Cabeça de peixe, minha paranoia frequentemente tem sido a precursora de uma verdade muito aproximada.
â Escute, o que vocĂȘ estĂĄ dizendo nĂŁo faz nenhum sentido. VĂĄ dormir um pouco. AmanhĂŁ eu lhe faço uma visita.
â Certo, cabeça de peixe, termine a sua TREPADA!
Gloria desligou.
Nan vestia camisola e estava sentada Ă beira do colchĂŁo, com uĂsque e ĂĄgua em sua cabeceira. Acendeu um cigarro e cruzou as pernas.
â Bem â ela perguntou â como vai a sua querida esposa?
Harry serviu uma bebida e se sentou ao lado dela.
â Sinto muito, Nan...
â Sente pelo quĂȘ? Por quem? Por ela, por mim ou o quĂȘ?
Harry secou sua dose de uĂsque.
â Tudo bem, nĂŁo precisamos fazer um dramalhĂŁo por causa disso.
â Ah, nĂŁo? Bem, como vocĂȘ quer encarar o assunto? Como uma trepadinha qualquer? Quer ver se consegue terminar ainda? Ou prefere ir pro banheiro e bater uma?
Harry olhou para Nan.
â Mas que diabos, nĂŁo banque a espertinha. VocĂȘ conhece a situação tĂŁo bem quanto eu. Foi vocĂȘ quem quis vir junto comigo!
â Porque sabia que se eu nĂŁo viesse junto vocĂȘ traria uma vagabunda qualquer com vocĂȘ!
â Caralho â disse Harry â, eis a palavra mĂĄgica outra vez.
â Que palavra? Que palavra? â Nan esvaziou seu copo e o lançou contra a parede.
Harry se levantou, apanhou o copo dela, encheu-o novamente, alcançou-o a Nan, e depois voltou a se servir de uma dose.
Nan olhou para a bebida, tomou-a de um gole sĂł, depositou o copo sobre a mesa de cabeceira.
â Vou ligar pra ela. Vou dizer tudo o que estĂĄ acontecendo entre nĂłs!
â Nem morta! Ela Ă© uma mulher doente!
â E vocĂȘ Ă© um filho da puta doente!
Neste instante o telefone voltou a tocar. Estava posicionado no centro do quarto, no chão, onde Harry o havia deixado. Os dois saltaram da cama ao mesmo tempo em direção ao aparelho. Ao segundo toque os dois jå estavam ali, cada qual segurando uma das extremidades do fone. Rolaram sem parar por sobre o tapete, ofegantes, as pernas e os braços numa justaposição desesperada, assim refletida no espelho que cobria todo o teto.
â Septuagenarian Stew
â VocĂȘ Ă© o condutor? â ela perguntou
â O condutor do quĂȘ?
â O condutor da verossimilhança?
â NĂŁo, nĂŁo sou.
Ela estava pĂĄlida, seus olhos estavam pĂĄlidos, de um azul pĂĄlido.
â Como vocĂȘ se sente, Gloria?
Era uma mesa de ferro, pintada de branco, uma mesa capaz de resistir à ação dos séculos. Havia um pequeno vaso com flores no centro, flores murchas e mortas pendendo de tristes e curvas hastes.
âVocĂȘ trepa com putas, Harry. VocĂȘ gosta de trepar com putas.
â Isso nĂŁo Ă© verdade, Gloria.
â Elas tambĂ©m chupam vocĂȘ? Elas chupam seu pau?
â Ia trazer sua mĂŁe, Gloria, mas ela ainda nĂŁo melhorou da gripe.
â Aquela velha pilantra estĂĄ sempre armando alguma coisa... VocĂȘ Ă© o condutor?
Os outros pacientes estavam sentados Ă s mesas, escorados nas ĂĄrvores ou estendidos sobre o gramado. Estavam imĂłveis e silenciosos.
â Que tal a comida aqui, Gloria? JĂĄ fez algum amigo?
â TerrĂvel. E nĂŁo. Seu comedor de putas.
â Quer alguma coisa pra ler? Algum tipo de leitura que eu possa trazer?
Gloria não respondeu. Então ela ergueu a mão direita, examinou-a, fechou o punho e golpeou a si mesma no nariz, com toda força. Harry cruzou a mesa e segurou suas duas mãos.
â Gloria, por favor!
Ela começou a chorar.
â Por que vocĂȘ nĂŁo me trouxe chocolates?
â Gloria, vocĂȘ tinha me dito que odiava chocolate.
As lĂĄgrimas desciam em profusĂŁo.
â Eu nĂŁo odeio chocolate! Eu amo chocolate!
â NĂŁo chore, Gloria, por favor... Trarei chocolates, trarei o que vocĂȘ quiser... Escute, aluguei o quarto num motel aqui perto, a umas poucas quadras, sĂł pra estar perto de vocĂȘ.
Seus olhos pĂĄlidos se arregalaram.
â Um quarto de motel? VocĂȘ deve estar lĂĄ com alguma vagabunda! Devem ficar vendo filmes pornĂŽs juntos, espelho no teto e tudo!
â Vou ficar aqui por perto uns dois dias â disse Harry, com suavidade. â Posso trazer o que vocĂȘ quiser.
â Me traga seu amor, entĂŁo â ela gritou. â Por que, diabos, vocĂȘ nĂŁo me traz o seu amor?
Alguns dos pacientes se voltaram para olhar.
â Gloria, tenho certeza que nĂŁo hĂĄ no mundo alguĂ©m que se importe com vocĂȘ mais do que eu.
â Quer me trazer chocolates? Bem, pois enfie os chocolates no olho do cu!
Harry tirou um cartão de sua carteira. Era do motel. Alcançou-o para ela.
â SĂł quero dar isso a vocĂȘ, antes que eu me esqueça. VocĂȘ tem permissĂŁo pra fazer chamadas externas? EstĂĄ aqui o meu nĂșmero, pra tudo o que vocĂȘ precisar.
Gloria não respondeu. Ela pegou o cartão e dobrou-o até que não restasse mais que um pequeno quadrado. Então se abaixou, tirou um dos sapatos, colocou o cartão lå dentro e voltou a calçå-lo.
Em seguida, Harry avistou o dr. Jensen se aproximando pelo gramado. O médico caminhava sorridente e logo disse:
â Bem, bem, bem...
â OlĂĄ, dr. Jensen â falou Gloria sem emoção.
â Posso me sentar? â perguntou o mĂ©dico.
â Claro â disse Gloria.
O mĂ©dico era um homem pesado. Emanava um ar de importĂąncia, autoridade e responsabilidade. Suas sobrancelhas tinham uma aparĂȘncia grossa e pesada, eram, de fato, grossas e pesadas. Pareciam querer deslizar atĂ© sua boca Ășmida e redonda e desaparecer, mas a vida jamais lhes permitiria isso.
O médico olhou para Gloria. Depois para Harry.
â Bem, bem, bem â ele disse. â Estou realmente satisfeito com o progresso que fizemos atĂ© agora...
â Sim, dr. Jensen, eu estava dizendo pro Harry como me sinto mais estĂĄvel, o quanto as consultas e as sessĂ”es de grupo tĂȘm me ajudado. Muito daquela minha raiva sem motivo aparente, daquela minha sensação inĂștil de frustração, da minha autocomiseração destrutiva jĂĄ desapareceram...
Gloria se sentou com as mĂŁos cruzadas sobre o colo, sorrindo.
O médico sorriu para Harry.
â Gloria fez um notĂĄvel progresso!
â Sim â Harry disse â, pude perceber.
â Creio que Ă© questĂŁo de um pouquinho mais de tempo, Harry, e Gloria poderĂĄ voltar pra casa com vocĂȘ.
â Doutor? â perguntou Gloria. â Posso fumar um cigarro?
â Como nĂŁo â disse o mĂ©dico, puxando um maço de cigarros exĂłticos, fazendo, com um tapinha, saltar um deles. Gloria o apanhou e o mĂ©dico estendeu seu isqueiro folhado a ouro, acendendo-o. Gloria inalou, exalou...
â VocĂȘ tem mĂŁos lindas, dr. Jensen â ela disse.
â Oh, muito obrigado, querida.
â E uma gentileza que salva, uma gentileza que cura...
â Bem, fazemos o nosso melhor por aqui... â disse o dr. Jensen, com doçura. â Bem, se vocĂȘs puderem me dar licença, tenho que falar com outros pacientes.
Ergueu o corpanzil com facilidade da cadeira e seguiu na direção de uma mesa onde uma mulher visitava outro homem.
Gloria olhou fixamente para Harry.
â Aquele gordo fodido! Vive lambendo o rabo das enfermeiras...
â Gloria, foi Ăłtimo ter estado com vocĂȘ, mas a viagem foi longa e eu preciso descansar um pouco. E acho que o doutor estĂĄ certo. Pude notar sua melhora.
Ela deu uma risada. Mas nĂŁo uma risada pura, foi mais como uma daquelas gargalhadas de palco, como se fizesse parte de um papel decorado.
â NĂŁo fiz nenhum progresso. Pra falar a verdade, acho atĂ© que piorei...
â Isso nĂŁo Ă© verdade, Gloria...
â Sou eu a paciente, cabeça de peixe. Posso chegar ao diagnĂłstico melhor do que ninguĂ©m.
â Que negĂłcio Ă© esse de âcabeça de peixeâ?
â NinguĂ©m nunca lhe disse que a sua cabeça parece a de um peixe?
â NĂŁo.
â A prĂłxima vez que fizer a barba, repare nisso. E cuidado para nĂŁo cortar suas guelras.
â Tenho que ir embora... mas amanhĂŁ eu venho fazer outra visita...
â Da prĂłxima vez traga o condutor.
â Tem certeza de que nĂŁo quer que eu traga nada?
â Eu sei que vocĂȘ vai voltar pro motel pra comer alguma vagabunda!
â Que tal se eu trouxer um nĂșmero da New York? VocĂȘ costumava gostar dessa revista...
â Enfia a New York no cu, cabeça de peixe. E aproveita o embalo e jĂĄ mete junto uma TIME!
Harry estendeu um dos braços e apertou a mão que ela usara para se golpear, deu meia-volta e se afastou em direção à escada. Quando jå havia subido metade dos degraus, voltou-se e fez um leve aceno para Gloria. Ela ficou sentada, sem esboçar reação.
Estavam no escuro, tudo ia bem, quando o telefone tocou.
Harry continuou metendo, mas o telefone nĂŁo parava de tocar. Aquilo era extremamente perturbador. Logo seu pau amoleceu.
â Merda â ele disse, rolando por sobre o corpo. Acendeu a luz e atendeu o telefone.
â AlĂŽ?
Era Gloria.
â VocĂȘ estĂĄ comendo alguma vagabunda!
â Gloria, eles deixam vocĂȘ ligar a uma hora dessas? NĂŁo dĂŁo uma pĂlula pra vocĂȘ dormir ou algo assim?
â Por que vocĂȘ demorou tanto pra atender o telefone?
â VocĂȘ nunca vai ao banheiro? Eu estava no meio de um cocĂŽ dos bons, tudo saindo que era uma maravilha.
â Sim, eu vou... VocĂȘ ia terminar tudo pra sĂł depois me atender?
â Gloria, tudo isso Ă© culpa dessa sua paranoia extrema. Foi isso que pĂŽs vocĂȘ aĂ onde vocĂȘ estĂĄ.
â Cabeça de peixe, minha paranoia frequentemente tem sido a precursora de uma verdade muito aproximada.
â Escute, o que vocĂȘ estĂĄ dizendo nĂŁo faz nenhum sentido. VĂĄ dormir um pouco. AmanhĂŁ eu lhe faço uma visita.
â Certo, cabeça de peixe, termine a sua TREPADA!
Gloria desligou.
Nan vestia camisola e estava sentada Ă beira do colchĂŁo, com uĂsque e ĂĄgua em sua cabeceira. Acendeu um cigarro e cruzou as pernas.
â Bem â ela perguntou â como vai a sua querida esposa?
Harry serviu uma bebida e se sentou ao lado dela.
â Sinto muito, Nan...
â Sente pelo quĂȘ? Por quem? Por ela, por mim ou o quĂȘ?
Harry secou sua dose de uĂsque.
â Tudo bem, nĂŁo precisamos fazer um dramalhĂŁo por causa disso.
â Ah, nĂŁo? Bem, como vocĂȘ quer encarar o assunto? Como uma trepadinha qualquer? Quer ver se consegue terminar ainda? Ou prefere ir pro banheiro e bater uma?
Harry olhou para Nan.
â Mas que diabos, nĂŁo banque a espertinha. VocĂȘ conhece a situação tĂŁo bem quanto eu. Foi vocĂȘ quem quis vir junto comigo!
â Porque sabia que se eu nĂŁo viesse junto vocĂȘ traria uma vagabunda qualquer com vocĂȘ!
â Caralho â disse Harry â, eis a palavra mĂĄgica outra vez.
â Que palavra? Que palavra? â Nan esvaziou seu copo e o lançou contra a parede.
Harry se levantou, apanhou o copo dela, encheu-o novamente, alcançou-o a Nan, e depois voltou a se servir de uma dose.
Nan olhou para a bebida, tomou-a de um gole sĂł, depositou o copo sobre a mesa de cabeceira.
â Vou ligar pra ela. Vou dizer tudo o que estĂĄ acontecendo entre nĂłs!
â Nem morta! Ela Ă© uma mulher doente!
â E vocĂȘ Ă© um filho da puta doente!
Neste instante o telefone voltou a tocar. Estava posicionado no centro do quarto, no chão, onde Harry o havia deixado. Os dois saltaram da cama ao mesmo tempo em direção ao aparelho. Ao segundo toque os dois jå estavam ali, cada qual segurando uma das extremidades do fone. Rolaram sem parar por sobre o tapete, ofegantes, as pernas e os braços numa justaposição desesperada, assim refletida no espelho que cobria todo o teto.
â Septuagenarian Stew
Trapos, Garrafas, Sacos
lembro
na minha infĂąncia do som
de:
âTRAPOS! GARRAFAS! SACOS!â
âTRAPOS! GARRAFAS! SACOS!â
foi durante a
DepressĂŁo
e vocĂȘ podia ouvir as
vozes
muito antes de avistar a
velha carroça
e o
velho
pangaré.
entĂŁo vocĂȘ ouvia os
cascos
clop, clop, clop...
e entĂŁo vocĂȘ avistava
o cavalo e a
carroça
e isso sempre parecia ocorrer
no dia
mais quente do
verĂŁo:
âTRAPOS! GARRAFAS! SACOS!â
oh
aquele cavalo estava tĂŁo
cansado...
fios de saliva
branca
babando
sempre que o freio se enterrava
em sua
boca
ele puxava uma carga
intolerĂĄvel
de
trapos, garrafas, sacos
vi seus olhos
imensos
em agonia
suas costelas
expostas
as moscas gordas
circulavam e pousavam sobre
falhas em seu
couro.
Ă s vezes
um de nossos pais
gritava:
âEi! Por que vocĂȘ nĂŁo
alimenta esse cavalo, seu
merda!â
a resposta do homem era
sempre a
mesma:
âTRAPOS! GARRAFAS! SACOS!â
o homem era
inacreditavelmente
sujo, barba por
fazer, vestindo um chapéu
de feltro manchado e
roto
ele
se sentava sobre
uma enorme pilha de
sacos
e
vez ou
outra
quando o cavalo parecia
vacilar
um passo
este homem
sentava-lhe
o longo chicote...
o som era como o
disparo de um rifle
uma falange de moscas
se erguia
e o cavalo se
lançava para frente
renovado
os cascos resvalando e
escorregando no asfalto
quente
e entĂŁo
tudo o que podĂamos
ver
era a parte de trĂĄs da
carroça
e
o enorme monte de
trapos e garrafas
cobertos pelos
sacos
marrons
e
mais uma vez
a voz:
âTRAPOS! GARRAFAS! SACOS!â
ele foi
o primeiro homem
que tive vontade de
matar
e
desde entĂŁo
nĂŁo houve
mais nenhum.
As lutas seguiam de maneira ininterrupta. Os professores pareciam nĂŁo saber nada a respeito. E sempre tinha problema quando chovia. Qualquer garoto que trouxesse um guarda-chuva ou viesse com uma capa de chuva era discriminado. Nossos pais, em sua maioria, eram pobres demais para comprar esse tipo de coisa. E caso o fizessem, tratĂĄvamos de esconder bem os objetos entre os arbustos. Qualquer um que fosse visto carregando um guarda-chuva ou vestindo uma capa de chuva era tido imediatamente por maricas. Era espancado na saĂda. A mĂŁe de David fazia com que ele carregasse um guarda-chuva mesmo que o dia estivesse apenas um pouco nublado.
Havia dois perĂodos de recreio. Os alunos das primeiras sĂ©ries se reuniam em torno de sua prĂłpria quadra de beisebol e escolhiam os times. Eu e David permanecĂamos juntos. Era sempre assim. Eu era o penĂșltimo a ser escolhido, e David, o Ășltimo. Assim, sempre jogĂĄvamos em times diferentes. David conseguia ser pior do que eu. Com seus olhos oblĂquos, sequer conseguia ver a bola. No meu caso era falta de prĂĄtica. Eu nunca jogara com as crianças da vizinhança. Eu nĂŁo sabia como pegar uma bola ou como rebater. Mas eu queria aprender, era divertido. David tinha medo da bola, eu nĂŁo. Eu movimentava o bastĂŁo com força, com mais força do que qualquer um, mas nunca acertava a bola. Eu sempre era eliminado[2]. Uma vez rebati uma bola. Aquilo foi bom. Noutra vez, iniciei uma corrida. Quando cheguei Ă primeira base, o primeiro basista disse:
â Essa Ă© a Ășnica maneira de vocĂȘ chegar atĂ© aqui.
Parei e o fitei. Ele mascava um chiclete e longos pelos negros saĂam de suas narinas. Seu cabelo estava empapado com vaselina. Sempre tinha um sorrisinho de escĂĄrnio nos lĂĄbios.
â EstĂĄ me achando bonito? â ele perguntou.
NĂŁo sabia o que responder. Eu nĂŁo estava acostumado a conversar.
â Os caras dizem que vocĂȘ Ă© louco â ele falou â, mas em mim vocĂȘ nĂŁo mete medo. Dia desses pego vocĂȘ na saĂda.
Continuei olhando para ele. Seu rosto era horrĂvel. EntĂŁo o arremessador jogou a bola, e eu corri para a segunda base. Corri como um louco e deslizei em direção Ă segunda. A bola chegou depois. Eu estava salvo.
â VocĂȘ estĂĄ fora! â gritou o garoto que servia de ĂĄrbitro.
Levantei-me, sem acreditar.
â Eu disse: VOCĂ ESTĂ FORA! â gritou o ĂĄrbitro.
EntĂŁo eu soube que nĂŁo seria aceito. David e eu nĂŁo serĂamos aceitos. Os outros queriam que eu recebesse o âforaâ porque ali nĂŁo era meu lugar, porque eu devia mesmo ficar de âforaâ. Eles sabiam da minha amizade com David. Era por causa dele que eu nĂŁo era aceito. Enquanto me afastava da quadra, pude ver David na terceira base com suas calças curtas. Suas meias azuis e amarelas estavam arriadas e caĂam sobre seus sapatos. Por que ele tinha me escolhido? Eu era um homem marcado. Naquela tarde depois da escola eu caminhei apressado para casa, logo que a aula terminou, sem esperar por David. NĂŁo queria vĂȘ-lo apanhar novamente dos nossos colegas ou da sua mĂŁe. NĂŁo queria ouvir o seu triste violino. Mas no dia seguinte, na hora do almoço, quando ele se sentou comigo, comi suas batatas fritas.
Meu dia chegou. Eu era alto e me sentia poderoso sobre a base. NĂŁo conseguia acreditar que eu jogasse tĂŁo mal quanto eles queriam me fazer crer. Girei meu bastĂŁo de modo desordenado, mas com muita força. Eu sabia que era forte e talvez, como eles mesmos diziam, âloucoâ. No entanto, tinha essa sensação de que havia algo verdadeiro acontecendo aqui dentro. Talvez fosse a merda endurecida, mas era mais do que qualquer um deles tinha. Eu estava a postos.
â Ei, Ă© o REI DOS REBATEDORES! SR. CATA-VENTO!
A bola chegou. Girei e me senti ligado ao bastĂŁo como hĂĄ muito tempo eu esperava que acontecesse. A bola subiu, subiu Ă s alturas, em direção ao campo da esquerda, passando por sobre a cabeça do jogador que estava Ă esquerda. Seu nome era Don Brubaker, e ele ficou parado vendo a bola passar por sobre sua cabeça. Parecia que ela nunca mais voltaria a tocar a terra. EntĂŁo Brubaker começou a correr atrĂĄs da bola. Ele queria me eliminar. Jamais conseguiu fazĂȘ-lo. A bola aterrissou e rolou para uma outra quadra onde jogavam os garotos da quinta sĂ©rie. Corri lentamente para a primeira base, bati no montinho, olhei para o cara que estava ali posicionado, avancei devagar atĂ© a segunda, toquei-a, corri atĂ© a terceira onde estava David, ignorei-o, bati na terceira e segui para a base final. Nunca houve dia igual. Nunca alguĂ©m da primeira sĂ©rie tinha feito um home run! Ao chegar de volta Ă posição inicial, ouvi um dos jogadores, Irving Bone, dizer ao capitĂŁo do time, Stanley Greenberg:
â Vamos colocĂĄ-lo no time titular. (O time titular enfrentava os times de outras escolas.)
â NĂŁo â disse Stanley Greenberg.
E ele estava certo. Nunca mais acertei um home run. Furava a maior parte do tempo. Mas sempre lhes vinha Ă s mentes o home run daquele dia, e, embora ainda me odiassem, era uma forma melhor de Ăłdio, um Ăłdio que jĂĄ nĂŁo tinha um porquĂȘ.
A temporada de futebol americano foi pior. JogĂĄvamos um futebol de toque[3]. NĂŁo me era permitido agarrar ou lançar a bola, mas mesmo assim entrei no jogo. Quando o corredor passou na minha frente, agarrei-o pelo colarinho e o joguei no chĂŁo. Quando começou a se levantar, o enchi de chutes. NĂŁo gostava dele. Era o cara da primeira base, o de vaselina no cabelo e pelos que saĂam do nariz. Stanley Greenberg chegou. Ele era maior do que qualquer um de nĂłs. Poderia ter me matado, se quisesse. Era nosso lĂder. A palavra final era sua. Ele me falou:
â VocĂȘ nĂŁo entende as regras. Basta de futebol pra vocĂȘ.
Fui encaminhado para o voleibol. Jogava com David e com os outros. Era uma chatice. Meus parceiros gritavam e urravam e ficavam eufĂłricos, mas os outros estavam jogando futebol. Eu queria jogar futebol. SĂł precisava de um pouco de prĂĄtica. O voleibol era vergonhoso. Meninas jogavam voleibol. Depois de um certo tempo, eu jĂĄ nĂŁo jogava mais nada. Ficava apenas parado no meio do pĂĄtio onde ninguĂ©m estava jogando. Eu era o Ășnico que nĂŁo praticava nenhum esporte. Eu ficava plantado lĂĄ, todos os dias, esperando os dois recreios passarem.
Um dia, quando eu estava ali parado, mais problemas apareceram. Uma bola de futebol me pegou desprevenido, atingindo em cheio a minha cabeça. O impacto me nocauteou. Fiquei bastante tonto. Eles se postaram ao meu redor, rindo e fazendo barulhos.
â Oh, vejam, Henry desmaiou! Henry desmaiou como uma donzelinha! Oh, vejam o Henry!
Levantei-me com o sol a girar. Então ele parou. O céu se aproximou e voltou para seu lugar. Era como estar numa jaula. Eles estavam ao meu redor, faces, narizes, bocas e olhos. Como estavam tirando um sarro da minha cara, concluà que tinham me atingido deliberadamente com a bola. Não era justo.
â Quem chutou a bola? â perguntei.
â Quer mesmo saber?
â Sim.
â O que vai fazer quando descobrir?
Fiquei quieto.
â Foi Billy Sherril â alguĂ©m disse.
Billy era um garoto gordo, enorme, mais simpåtico do que a maioria, mas nem por isso deixava de ser um deles. Segui na direção de Billy. Ele ficou parado no mesmo lugar. Quando me aproximei, ele se esquivou. Eu quase não percebi. Acertei-o na orelha esquerda, e quando ele colocou a mão sobre ela, lhe dei um golpe no estÎmago. Ele caiu no chão. E ali ficou.
â Levante e lute com ele, Billy â disse Stanley Greenberg.
Stanley ergueu Billy e o empurrou em minha direção. Dei-lhe um soco na boca, e ele a cobriu com as duas mãos.
â Certo â disse Stanley â, vou tomar o lugar dele!
Os garotos aplaudiram. Decidi correr, ainda nĂŁo era minha hora de passar dessa para melhor. Mas entĂŁo um professor apareceu.
â O que estĂĄ acontecendo aqui?
Era o sr. Hall.
â Henry bateu no Billy â disse Stanley Greenberg.
â Foi isso mesmo, garotos? â perguntou o sr. Hall.
â Sim â responderam.
O sr. Hall me puxou pela orelha por todo o caminho atĂ© a sala do diretor. Forçou-me a sentar numa cadeira em frente a uma mesa vazia e entĂŁo bateu Ă porta do diretor. Ficou lĂĄ dentro por um tempo considerĂĄvel e entĂŁo saiu sem olhar para mim. Fiquei ali sentado por uns cinco ou dez minutos antes que o diretor saĂsse e fosse ocupar o lado da mesa que estava vazio. Tratava-se de um homem com um aspecto bastante digno, com vastos cabelos grisalhos e uma gravata azul com um belo nĂł. Parecia um verdadeiro cavalheiro. Seu nome era sr. Knox. O sr. Knox cruzou os dedos e ficou me olhando, sem dizer nada. Quando começou a falar, porĂ©m, jĂĄ nĂŁo tive tanta certeza de sua cortesia. Seu objetivo parecia ser me humilhar, me tratar como os outros.
â Bem â ele disse por fim â, me conte o que aconteceu.
â NĂŁo aconteceu nada.
â VocĂȘ machucou aquele garoto, Billy Sherril. Os pais dele vĂŁo querer saber por quĂȘ.
NĂŁo respondi.
â Acha que pode resolver seus problemas no braço quando acontece alguma coisa que nĂŁo o agrada?
â NĂŁo.
â EntĂŁo, por que fez isso?
Novamente me calei.
â VocĂȘ se acha melhor do que as outras pessoas?
â NĂŁo.
O sr. Knox continuou sentado em seu lugar. Tinha um abridor de cartas muito comprido, que ele fazia rolar para lå e para cå sobre o feltro verde que cobria a mesa. Tinha também um enorme tinteiro verde e um porta-canetas com quatro delas dentro. Eu me perguntava se ele iria me bater.
â Diga logo: por que vocĂȘ fez isso?
NĂŁo respondi. O sr. Knox continuava movendo o abridor para lĂĄ e para cĂĄ. O telefone tocou. Ele atendeu.
â AlĂŽ? Oh, sra. Kirby? Ele o quĂȘ? QuĂȘ? Escute, serĂĄ que a senhora nĂŁo poderia lhe aplicar um castigo? Estou ocupado no momento. EstĂĄ certo, eu lhe telefono assim que encerrar a questĂŁo com esse aqui...
Ele desligou. Com uma das mĂŁos ele afastou uma mecha do seu belo cabelo branco que lhe caĂa sobre os olhos e me encarou.
â Por que vocĂȘ estĂĄ me causando todo esse problema?
NĂŁo respondi.
â VocĂȘ se acha durĂŁo, nĂ©?
Continuei em silĂȘncio.
â Um garoto durĂŁo, nĂ©?
Uma mosca voava em cĂrculos ao redor da mesa do sr. Knox. Começou a pairar sobre o tinteiro verde. EntĂŁo ela pousou sobre a tampa negra do tinteiro e ficou ali sentada, esfregando as asas.
â Certo, garoto, vocĂȘ Ă© durĂŁo, e eu sou durĂŁo. Vamos selar essa descoberta com um aperto de mĂŁos.
NĂŁo me considerava um cara durĂŁo; por isso, recusei.
â Vamos, me dĂȘ sua mĂŁo.
Estendi minha mão e ele começou a balançå-la. Então ele parou o movimento e me encarou. Ele tinha olhos de um azul cristalino, ainda mais claros do que o azul da sua gravata. Seus olhos eram quase bonitos. Continuava me encarando e segurando minha mão. Seu aperto começou a ficar mais forte.
â Quero cumprimentĂĄ-lo por ser um cara durĂŁo.
Estreitou ainda mais o aperto.
â Acha que eu sou um cara durĂŁo?
NĂŁo respondi.
Esmagou os ossos dos meus dedos. Podia sentir os ossos de cada um dos dedos cortando a carne do dedo seguinte como uma lĂąmina afiada. Manchas vermelhas me turvaram a visĂŁo.
â E agora, me acha um cara durĂŁo? â ele perguntou.
â Vou matar vocĂȘ â eu disse.
â Vai o quĂȘ?
O sr. Knox apertou ainda mais sua pegada. Sua mĂŁo parecia um torno. Eu podia ver cada poro em seu rosto.
â Caras durĂ”es nĂŁo gritam, nĂŁo Ă©?
Apertou atĂ© o limite. Tive que gritar, mas o fiz do modo mais silencioso possĂvel, assim ninguĂ©m nas salas de aula poderia me ouvir.
â E agora, sou um cara durĂŁo?
Esperei. Era odioso dizer isso. Mas, afinal, deixei escapar:
â Sim.
O sr. Knox soltou minha mĂŁo. Tive medo de olhar para ela. Deixei que ela caĂsse ao lado de meu corpo. Percebi que a mosca tinha ido embora e nĂŁo pude deixar de pensar que nĂŁo era tĂŁo ruim ser uma mosca. O sr. Knox escrevia num pedaço de papel.
â Agora, Henry, estou escrevendo um bilhete para os seus pais e vocĂȘ vai entregĂĄ-lo. Vai entregar direitinho para eles, nĂŁo vai?
â Sim.
Ele colocou o bilhete dentro de um envelope e me entregou. O envelope estava selado, e eu nĂŁo tinha nenhum desejo de abri-lo.
â Misto-quente
na minha infĂąncia do som
de:
âTRAPOS! GARRAFAS! SACOS!â
âTRAPOS! GARRAFAS! SACOS!â
foi durante a
DepressĂŁo
e vocĂȘ podia ouvir as
vozes
muito antes de avistar a
velha carroça
e o
velho
pangaré.
entĂŁo vocĂȘ ouvia os
cascos
clop, clop, clop...
e entĂŁo vocĂȘ avistava
o cavalo e a
carroça
e isso sempre parecia ocorrer
no dia
mais quente do
verĂŁo:
âTRAPOS! GARRAFAS! SACOS!â
oh
aquele cavalo estava tĂŁo
cansado...
fios de saliva
branca
babando
sempre que o freio se enterrava
em sua
boca
ele puxava uma carga
intolerĂĄvel
de
trapos, garrafas, sacos
vi seus olhos
imensos
em agonia
suas costelas
expostas
as moscas gordas
circulavam e pousavam sobre
falhas em seu
couro.
Ă s vezes
um de nossos pais
gritava:
âEi! Por que vocĂȘ nĂŁo
alimenta esse cavalo, seu
merda!â
a resposta do homem era
sempre a
mesma:
âTRAPOS! GARRAFAS! SACOS!â
o homem era
inacreditavelmente
sujo, barba por
fazer, vestindo um chapéu
de feltro manchado e
roto
ele
se sentava sobre
uma enorme pilha de
sacos
e
vez ou
outra
quando o cavalo parecia
vacilar
um passo
este homem
sentava-lhe
o longo chicote...
o som era como o
disparo de um rifle
uma falange de moscas
se erguia
e o cavalo se
lançava para frente
renovado
os cascos resvalando e
escorregando no asfalto
quente
e entĂŁo
tudo o que podĂamos
ver
era a parte de trĂĄs da
carroça
e
o enorme monte de
trapos e garrafas
cobertos pelos
sacos
marrons
e
mais uma vez
a voz:
âTRAPOS! GARRAFAS! SACOS!â
ele foi
o primeiro homem
que tive vontade de
matar
e
desde entĂŁo
nĂŁo houve
mais nenhum.
As lutas seguiam de maneira ininterrupta. Os professores pareciam nĂŁo saber nada a respeito. E sempre tinha problema quando chovia. Qualquer garoto que trouxesse um guarda-chuva ou viesse com uma capa de chuva era discriminado. Nossos pais, em sua maioria, eram pobres demais para comprar esse tipo de coisa. E caso o fizessem, tratĂĄvamos de esconder bem os objetos entre os arbustos. Qualquer um que fosse visto carregando um guarda-chuva ou vestindo uma capa de chuva era tido imediatamente por maricas. Era espancado na saĂda. A mĂŁe de David fazia com que ele carregasse um guarda-chuva mesmo que o dia estivesse apenas um pouco nublado.
Havia dois perĂodos de recreio. Os alunos das primeiras sĂ©ries se reuniam em torno de sua prĂłpria quadra de beisebol e escolhiam os times. Eu e David permanecĂamos juntos. Era sempre assim. Eu era o penĂșltimo a ser escolhido, e David, o Ășltimo. Assim, sempre jogĂĄvamos em times diferentes. David conseguia ser pior do que eu. Com seus olhos oblĂquos, sequer conseguia ver a bola. No meu caso era falta de prĂĄtica. Eu nunca jogara com as crianças da vizinhança. Eu nĂŁo sabia como pegar uma bola ou como rebater. Mas eu queria aprender, era divertido. David tinha medo da bola, eu nĂŁo. Eu movimentava o bastĂŁo com força, com mais força do que qualquer um, mas nunca acertava a bola. Eu sempre era eliminado[2]. Uma vez rebati uma bola. Aquilo foi bom. Noutra vez, iniciei uma corrida. Quando cheguei Ă primeira base, o primeiro basista disse:
â Essa Ă© a Ășnica maneira de vocĂȘ chegar atĂ© aqui.
Parei e o fitei. Ele mascava um chiclete e longos pelos negros saĂam de suas narinas. Seu cabelo estava empapado com vaselina. Sempre tinha um sorrisinho de escĂĄrnio nos lĂĄbios.
â EstĂĄ me achando bonito? â ele perguntou.
NĂŁo sabia o que responder. Eu nĂŁo estava acostumado a conversar.
â Os caras dizem que vocĂȘ Ă© louco â ele falou â, mas em mim vocĂȘ nĂŁo mete medo. Dia desses pego vocĂȘ na saĂda.
Continuei olhando para ele. Seu rosto era horrĂvel. EntĂŁo o arremessador jogou a bola, e eu corri para a segunda base. Corri como um louco e deslizei em direção Ă segunda. A bola chegou depois. Eu estava salvo.
â VocĂȘ estĂĄ fora! â gritou o garoto que servia de ĂĄrbitro.
Levantei-me, sem acreditar.
â Eu disse: VOCĂ ESTĂ FORA! â gritou o ĂĄrbitro.
EntĂŁo eu soube que nĂŁo seria aceito. David e eu nĂŁo serĂamos aceitos. Os outros queriam que eu recebesse o âforaâ porque ali nĂŁo era meu lugar, porque eu devia mesmo ficar de âforaâ. Eles sabiam da minha amizade com David. Era por causa dele que eu nĂŁo era aceito. Enquanto me afastava da quadra, pude ver David na terceira base com suas calças curtas. Suas meias azuis e amarelas estavam arriadas e caĂam sobre seus sapatos. Por que ele tinha me escolhido? Eu era um homem marcado. Naquela tarde depois da escola eu caminhei apressado para casa, logo que a aula terminou, sem esperar por David. NĂŁo queria vĂȘ-lo apanhar novamente dos nossos colegas ou da sua mĂŁe. NĂŁo queria ouvir o seu triste violino. Mas no dia seguinte, na hora do almoço, quando ele se sentou comigo, comi suas batatas fritas.
Meu dia chegou. Eu era alto e me sentia poderoso sobre a base. NĂŁo conseguia acreditar que eu jogasse tĂŁo mal quanto eles queriam me fazer crer. Girei meu bastĂŁo de modo desordenado, mas com muita força. Eu sabia que era forte e talvez, como eles mesmos diziam, âloucoâ. No entanto, tinha essa sensação de que havia algo verdadeiro acontecendo aqui dentro. Talvez fosse a merda endurecida, mas era mais do que qualquer um deles tinha. Eu estava a postos.
â Ei, Ă© o REI DOS REBATEDORES! SR. CATA-VENTO!
A bola chegou. Girei e me senti ligado ao bastĂŁo como hĂĄ muito tempo eu esperava que acontecesse. A bola subiu, subiu Ă s alturas, em direção ao campo da esquerda, passando por sobre a cabeça do jogador que estava Ă esquerda. Seu nome era Don Brubaker, e ele ficou parado vendo a bola passar por sobre sua cabeça. Parecia que ela nunca mais voltaria a tocar a terra. EntĂŁo Brubaker começou a correr atrĂĄs da bola. Ele queria me eliminar. Jamais conseguiu fazĂȘ-lo. A bola aterrissou e rolou para uma outra quadra onde jogavam os garotos da quinta sĂ©rie. Corri lentamente para a primeira base, bati no montinho, olhei para o cara que estava ali posicionado, avancei devagar atĂ© a segunda, toquei-a, corri atĂ© a terceira onde estava David, ignorei-o, bati na terceira e segui para a base final. Nunca houve dia igual. Nunca alguĂ©m da primeira sĂ©rie tinha feito um home run! Ao chegar de volta Ă posição inicial, ouvi um dos jogadores, Irving Bone, dizer ao capitĂŁo do time, Stanley Greenberg:
â Vamos colocĂĄ-lo no time titular. (O time titular enfrentava os times de outras escolas.)
â NĂŁo â disse Stanley Greenberg.
E ele estava certo. Nunca mais acertei um home run. Furava a maior parte do tempo. Mas sempre lhes vinha Ă s mentes o home run daquele dia, e, embora ainda me odiassem, era uma forma melhor de Ăłdio, um Ăłdio que jĂĄ nĂŁo tinha um porquĂȘ.
A temporada de futebol americano foi pior. JogĂĄvamos um futebol de toque[3]. NĂŁo me era permitido agarrar ou lançar a bola, mas mesmo assim entrei no jogo. Quando o corredor passou na minha frente, agarrei-o pelo colarinho e o joguei no chĂŁo. Quando começou a se levantar, o enchi de chutes. NĂŁo gostava dele. Era o cara da primeira base, o de vaselina no cabelo e pelos que saĂam do nariz. Stanley Greenberg chegou. Ele era maior do que qualquer um de nĂłs. Poderia ter me matado, se quisesse. Era nosso lĂder. A palavra final era sua. Ele me falou:
â VocĂȘ nĂŁo entende as regras. Basta de futebol pra vocĂȘ.
Fui encaminhado para o voleibol. Jogava com David e com os outros. Era uma chatice. Meus parceiros gritavam e urravam e ficavam eufĂłricos, mas os outros estavam jogando futebol. Eu queria jogar futebol. SĂł precisava de um pouco de prĂĄtica. O voleibol era vergonhoso. Meninas jogavam voleibol. Depois de um certo tempo, eu jĂĄ nĂŁo jogava mais nada. Ficava apenas parado no meio do pĂĄtio onde ninguĂ©m estava jogando. Eu era o Ășnico que nĂŁo praticava nenhum esporte. Eu ficava plantado lĂĄ, todos os dias, esperando os dois recreios passarem.
Um dia, quando eu estava ali parado, mais problemas apareceram. Uma bola de futebol me pegou desprevenido, atingindo em cheio a minha cabeça. O impacto me nocauteou. Fiquei bastante tonto. Eles se postaram ao meu redor, rindo e fazendo barulhos.
â Oh, vejam, Henry desmaiou! Henry desmaiou como uma donzelinha! Oh, vejam o Henry!
Levantei-me com o sol a girar. Então ele parou. O céu se aproximou e voltou para seu lugar. Era como estar numa jaula. Eles estavam ao meu redor, faces, narizes, bocas e olhos. Como estavam tirando um sarro da minha cara, concluà que tinham me atingido deliberadamente com a bola. Não era justo.
â Quem chutou a bola? â perguntei.
â Quer mesmo saber?
â Sim.
â O que vai fazer quando descobrir?
Fiquei quieto.
â Foi Billy Sherril â alguĂ©m disse.
Billy era um garoto gordo, enorme, mais simpåtico do que a maioria, mas nem por isso deixava de ser um deles. Segui na direção de Billy. Ele ficou parado no mesmo lugar. Quando me aproximei, ele se esquivou. Eu quase não percebi. Acertei-o na orelha esquerda, e quando ele colocou a mão sobre ela, lhe dei um golpe no estÎmago. Ele caiu no chão. E ali ficou.
â Levante e lute com ele, Billy â disse Stanley Greenberg.
Stanley ergueu Billy e o empurrou em minha direção. Dei-lhe um soco na boca, e ele a cobriu com as duas mãos.
â Certo â disse Stanley â, vou tomar o lugar dele!
Os garotos aplaudiram. Decidi correr, ainda nĂŁo era minha hora de passar dessa para melhor. Mas entĂŁo um professor apareceu.
â O que estĂĄ acontecendo aqui?
Era o sr. Hall.
â Henry bateu no Billy â disse Stanley Greenberg.
â Foi isso mesmo, garotos? â perguntou o sr. Hall.
â Sim â responderam.
O sr. Hall me puxou pela orelha por todo o caminho atĂ© a sala do diretor. Forçou-me a sentar numa cadeira em frente a uma mesa vazia e entĂŁo bateu Ă porta do diretor. Ficou lĂĄ dentro por um tempo considerĂĄvel e entĂŁo saiu sem olhar para mim. Fiquei ali sentado por uns cinco ou dez minutos antes que o diretor saĂsse e fosse ocupar o lado da mesa que estava vazio. Tratava-se de um homem com um aspecto bastante digno, com vastos cabelos grisalhos e uma gravata azul com um belo nĂł. Parecia um verdadeiro cavalheiro. Seu nome era sr. Knox. O sr. Knox cruzou os dedos e ficou me olhando, sem dizer nada. Quando começou a falar, porĂ©m, jĂĄ nĂŁo tive tanta certeza de sua cortesia. Seu objetivo parecia ser me humilhar, me tratar como os outros.
â Bem â ele disse por fim â, me conte o que aconteceu.
â NĂŁo aconteceu nada.
â VocĂȘ machucou aquele garoto, Billy Sherril. Os pais dele vĂŁo querer saber por quĂȘ.
NĂŁo respondi.
â Acha que pode resolver seus problemas no braço quando acontece alguma coisa que nĂŁo o agrada?
â NĂŁo.
â EntĂŁo, por que fez isso?
Novamente me calei.
â VocĂȘ se acha melhor do que as outras pessoas?
â NĂŁo.
O sr. Knox continuou sentado em seu lugar. Tinha um abridor de cartas muito comprido, que ele fazia rolar para lå e para cå sobre o feltro verde que cobria a mesa. Tinha também um enorme tinteiro verde e um porta-canetas com quatro delas dentro. Eu me perguntava se ele iria me bater.
â Diga logo: por que vocĂȘ fez isso?
NĂŁo respondi. O sr. Knox continuava movendo o abridor para lĂĄ e para cĂĄ. O telefone tocou. Ele atendeu.
â AlĂŽ? Oh, sra. Kirby? Ele o quĂȘ? QuĂȘ? Escute, serĂĄ que a senhora nĂŁo poderia lhe aplicar um castigo? Estou ocupado no momento. EstĂĄ certo, eu lhe telefono assim que encerrar a questĂŁo com esse aqui...
Ele desligou. Com uma das mĂŁos ele afastou uma mecha do seu belo cabelo branco que lhe caĂa sobre os olhos e me encarou.
â Por que vocĂȘ estĂĄ me causando todo esse problema?
NĂŁo respondi.
â VocĂȘ se acha durĂŁo, nĂ©?
Continuei em silĂȘncio.
â Um garoto durĂŁo, nĂ©?
Uma mosca voava em cĂrculos ao redor da mesa do sr. Knox. Começou a pairar sobre o tinteiro verde. EntĂŁo ela pousou sobre a tampa negra do tinteiro e ficou ali sentada, esfregando as asas.
â Certo, garoto, vocĂȘ Ă© durĂŁo, e eu sou durĂŁo. Vamos selar essa descoberta com um aperto de mĂŁos.
NĂŁo me considerava um cara durĂŁo; por isso, recusei.
â Vamos, me dĂȘ sua mĂŁo.
Estendi minha mão e ele começou a balançå-la. Então ele parou o movimento e me encarou. Ele tinha olhos de um azul cristalino, ainda mais claros do que o azul da sua gravata. Seus olhos eram quase bonitos. Continuava me encarando e segurando minha mão. Seu aperto começou a ficar mais forte.
â Quero cumprimentĂĄ-lo por ser um cara durĂŁo.
Estreitou ainda mais o aperto.
â Acha que eu sou um cara durĂŁo?
NĂŁo respondi.
Esmagou os ossos dos meus dedos. Podia sentir os ossos de cada um dos dedos cortando a carne do dedo seguinte como uma lĂąmina afiada. Manchas vermelhas me turvaram a visĂŁo.
â E agora, me acha um cara durĂŁo? â ele perguntou.
â Vou matar vocĂȘ â eu disse.
â Vai o quĂȘ?
O sr. Knox apertou ainda mais sua pegada. Sua mĂŁo parecia um torno. Eu podia ver cada poro em seu rosto.
â Caras durĂ”es nĂŁo gritam, nĂŁo Ă©?
Apertou atĂ© o limite. Tive que gritar, mas o fiz do modo mais silencioso possĂvel, assim ninguĂ©m nas salas de aula poderia me ouvir.
â E agora, sou um cara durĂŁo?
Esperei. Era odioso dizer isso. Mas, afinal, deixei escapar:
â Sim.
O sr. Knox soltou minha mĂŁo. Tive medo de olhar para ela. Deixei que ela caĂsse ao lado de meu corpo. Percebi que a mosca tinha ido embora e nĂŁo pude deixar de pensar que nĂŁo era tĂŁo ruim ser uma mosca. O sr. Knox escrevia num pedaço de papel.
â Agora, Henry, estou escrevendo um bilhete para os seus pais e vocĂȘ vai entregĂĄ-lo. Vai entregar direitinho para eles, nĂŁo vai?
â Sim.
Ele colocou o bilhete dentro de um envelope e me entregou. O envelope estava selado, e eu nĂŁo tinha nenhum desejo de abri-lo.
â Misto-quente
Um Casal Adorável
eu tinha que dar uma cagada
mas em vez disso fui
até essa loja para
fazer uma chave.
a mulher usava um vestido
de algodĂŁo e cheirava
a rato almiscarado.
âRalphâ, ela urrou
e, seu marido,
um porco velho numa
camisa florida
calçando um sapato 39
apareceu e ela disse,
âesse homem quer
uma chaveâ.
ele começou a afiå-la
como se realmente nĂŁo quisesse
fazer aquilo.
havia sombras
furtivas e urina
no ar.
segui ao longo do
balcĂŁo de vidro,
apontei e chamei a
mulher,
âei, eu quero este
aquiâ.
ela me alcançou o
objeto: um canivete
num estojo de um pĂșrpura
claro.
US$ 6,50 mais as taxas.
a chave custou
praticamente
nada.
peguei o troco e
saà em direção
Ă rua.
algumas vezes vocĂȘ precisa
de gente desse tipo.
Depois de trĂȘs anos fui âefetivadoâ. Isso significava receber pelos dias de feriado (os estagiĂĄrios nĂŁo recebiam) e uma jornada semanal de quarenta horas com dois dias de folga. O Stone tambĂ©m foi obrigado a me designar como substituto para cinco rotas diferentes no mĂĄximo. Isso era tudo o que me cabia: cinco rotas diferentes. Com o tempo, aprenderia onde estavam as caixas de correio, alĂ©m dos atalhos e armadilhas de cada rota. Cada dia seria mais fĂĄcil. Poderia começar a cultivar aquele ar de tranquilidade.
De algum modo, porĂ©m, nĂŁo me sentia muito feliz. Eu nĂŁo era do tipo que procura deliberadamente por sofrimento, o trabalho ainda tinha lĂĄ sua variedade, mas aquele velho glamour dos dias de estagiĂĄrio fazia falta â aquele nĂŁo-ter-a-mais-vaga-ideia do que poderia acontecer depois.
Alguns dos funcionĂĄrios de carreira se aproximaram para me cumprimentar.
â ParabĂ©ns â diziam.
â Ă isso aĂ â eu disse.
ParabĂ©ns pelo quĂȘ? Eu nĂŁo tinha feito nada. Agora era um membro do clube. Era um dos caras. Eu poderia estar ali pelos prĂłximos anos, chegar, inclusive, a pleitear minha prĂłpria rota. Comprar presentes de Natal para a famĂlia. E quando eu ligasse dizendo estar doente, diriam para um dos pobres estagiĂĄrios, âOnde estĂĄ o carteiro de sempre? Ele nunca se atrasa.â
EntĂŁo lĂĄ estava eu. Depois disso foi emitido um boletim dizendo que nenhum quepe ou equipamento deveria ser posto sobre a caixa do carteiro. A maioria dos rapazes colocava seus quepes ali. Aquilo nĂŁo fazia mal nenhum e economizava uma viagem atĂ© o vestiĂĄrio. Agora, depois de trĂȘs anos pondo meu quepe ali em cima, recebia uma ordem para nĂŁo fazĂȘ-lo.
Bem, eu continuava chegando de ressaca e não podia me ocupar de coisas tão banais quanto o lugar onde pÎr o quepe. De modo que meu quepe continuou onde sempre esteve, mesmo no dia posterior à expedição da ordem.
O Stone veio correndo com uma advertĂȘncia. Dizia que era contra as regras e o regulamento manter qualquer tipo de objeto sobre a caixa. Pus a advertĂȘncia no bolso e segui distribuindo as cartas. O Stone se sentou, girando em sua cadeira, sem deixar de me observar. Todos os outros carteiros tinham posto os quepes em seus armĂĄrios. A exceção era eu â e um certo Marty. E o Stone tinha se aproximado do Marty e dito:
â Muito bem, Marty, vocĂȘ leu a ordem. Seu quepe nĂŁo deveria estar sobre a caixa.
â Oh, sinto muito, senhor. Ă o hĂĄbito, sabe. Sinto muito. â Marty tirou seu quepe de cima da caixa e subiu as escadas para guardĂĄ-lo no armĂĄrio.
Na manhĂŁ seguinte, esqueci outra vez da regra. O Stone apareceu com sua advertĂȘncia.
O texto dizia que era contra as regras e o regulamento manter qualquer tipo de objeto sobre a caixa.
Pus a advertĂȘncia no bolso e segui distribuindo as cartas.
Na manhã seguinte, assim que entrei, pude ver que o Stone estava à minha espreita. Não fazia nenhuma questão de esconder que me vigiava. Esperava para ver o que eu faria com meu quepe. Deixei-o esperar por um momento. Então retirei o quepe da cabeça e o coloquei sobre a caixa.
O Stone veio correndo com sua advertĂȘncia.
NĂŁo a li. Joguei-a na cesta de lixo, deixei meu quepe ali e segui distribuindo as cartas.
Dava para ouvir o Stone Ă sua mĂĄquina. O prĂłprio som das teclas era raivoso.
Me perguntava como ele teria aprendido a datilografar.
Ele retornou. Estendeu-me uma segunda advertĂȘncia.
Olhei para ele.
â NĂŁo preciso ler esse negĂłcio. Sei o que estĂĄ escrito. Diz que eu nĂŁo li a primeira advertĂȘncia.
Joguei a segunda advertĂȘncia no lixo.
O Stone voltou correndo para sua mĂĄquina.
Apresentou-me uma terceira advertĂȘncia.
â Veja sĂł â eu disse â, sei o que estĂĄ escrito nessas folhas. Na primeira dizia que nĂŁo era para eu pĂŽr meu quepe sobre a caixa. Na segunda, que eu nĂŁo havia lido a primeira. A terceira Ă© por nĂŁo ter lido nem a primeira, nem a segunda.
Olhei-o, e depois deixei a advertĂȘncia cair no lixo, sem lĂȘ-la.
â Agora posso jogĂĄ-las fora tĂŁo rĂĄpido quanto vocĂȘ Ă© capaz de datilografĂĄ-las. Isso pode seguir por horas e horas, e logo um de nĂłs estarĂĄ fazendo papel de ridĂculo. VocĂȘ decide.
O Stone retornou para sua cadeira e se sentou. NĂŁo datilografou mais nada. Ficou apenas olhando para mim.
Não apareci no dia seguinte. Dormi até a hora do almoço. Sequer telefonei para avisar. Então fui até o Escritório Central. Disse-lhes a que vinha. Colocaram-me em frente a uma mesa com uma mulher velha e magra. Seus cabelos eram grisalhos e seu pescoço muito fino, um pescoço que subitamente se inclinava na metade de sua extensão. Isso fazia com que a cabeça se projetasse para frente e que ela me olhasse por sobre os óculos.
â Sim.
â Quero pedir demissĂŁo.
â DemissĂŁo?
â Sim, demissĂŁo.
â E o senhor Ă© um carteiro efetivo?
â Sim â eu disse.
â Tsc, tsc, tsc, tsc, tsc, tsc, tsc â seguiu, produzindo este som com seus lĂĄbios secos.
Passou-me os papĂ©is necessĂĄrios e eu fiquei ali a preenchĂȘ-los.
â HĂĄ quanto tempo trabalha nos Correios?
â TrĂȘs anos e meio.
â Tsc, tsc, tsc, tsc, tsc, tsc, tsc, tsc â ela seguiu â, tsc, tsc, tsc, tsc.
E isso foi tudo. Voltei para casa e para Betty e nĂłs tiramos o selo da garrafa.
Mal eu sabia que em dois anos eu estaria de volta como escrevente e que lĂĄ eu ficaria, encolhido sobre meu assento, por quase doze anos.
â Cartas na rua
mas em vez disso fui
até essa loja para
fazer uma chave.
a mulher usava um vestido
de algodĂŁo e cheirava
a rato almiscarado.
âRalphâ, ela urrou
e, seu marido,
um porco velho numa
camisa florida
calçando um sapato 39
apareceu e ela disse,
âesse homem quer
uma chaveâ.
ele começou a afiå-la
como se realmente nĂŁo quisesse
fazer aquilo.
havia sombras
furtivas e urina
no ar.
segui ao longo do
balcĂŁo de vidro,
apontei e chamei a
mulher,
âei, eu quero este
aquiâ.
ela me alcançou o
objeto: um canivete
num estojo de um pĂșrpura
claro.
US$ 6,50 mais as taxas.
a chave custou
praticamente
nada.
peguei o troco e
saà em direção
Ă rua.
algumas vezes vocĂȘ precisa
de gente desse tipo.
Depois de trĂȘs anos fui âefetivadoâ. Isso significava receber pelos dias de feriado (os estagiĂĄrios nĂŁo recebiam) e uma jornada semanal de quarenta horas com dois dias de folga. O Stone tambĂ©m foi obrigado a me designar como substituto para cinco rotas diferentes no mĂĄximo. Isso era tudo o que me cabia: cinco rotas diferentes. Com o tempo, aprenderia onde estavam as caixas de correio, alĂ©m dos atalhos e armadilhas de cada rota. Cada dia seria mais fĂĄcil. Poderia começar a cultivar aquele ar de tranquilidade.
De algum modo, porĂ©m, nĂŁo me sentia muito feliz. Eu nĂŁo era do tipo que procura deliberadamente por sofrimento, o trabalho ainda tinha lĂĄ sua variedade, mas aquele velho glamour dos dias de estagiĂĄrio fazia falta â aquele nĂŁo-ter-a-mais-vaga-ideia do que poderia acontecer depois.
Alguns dos funcionĂĄrios de carreira se aproximaram para me cumprimentar.
â ParabĂ©ns â diziam.
â Ă isso aĂ â eu disse.
ParabĂ©ns pelo quĂȘ? Eu nĂŁo tinha feito nada. Agora era um membro do clube. Era um dos caras. Eu poderia estar ali pelos prĂłximos anos, chegar, inclusive, a pleitear minha prĂłpria rota. Comprar presentes de Natal para a famĂlia. E quando eu ligasse dizendo estar doente, diriam para um dos pobres estagiĂĄrios, âOnde estĂĄ o carteiro de sempre? Ele nunca se atrasa.â
EntĂŁo lĂĄ estava eu. Depois disso foi emitido um boletim dizendo que nenhum quepe ou equipamento deveria ser posto sobre a caixa do carteiro. A maioria dos rapazes colocava seus quepes ali. Aquilo nĂŁo fazia mal nenhum e economizava uma viagem atĂ© o vestiĂĄrio. Agora, depois de trĂȘs anos pondo meu quepe ali em cima, recebia uma ordem para nĂŁo fazĂȘ-lo.
Bem, eu continuava chegando de ressaca e não podia me ocupar de coisas tão banais quanto o lugar onde pÎr o quepe. De modo que meu quepe continuou onde sempre esteve, mesmo no dia posterior à expedição da ordem.
O Stone veio correndo com uma advertĂȘncia. Dizia que era contra as regras e o regulamento manter qualquer tipo de objeto sobre a caixa. Pus a advertĂȘncia no bolso e segui distribuindo as cartas. O Stone se sentou, girando em sua cadeira, sem deixar de me observar. Todos os outros carteiros tinham posto os quepes em seus armĂĄrios. A exceção era eu â e um certo Marty. E o Stone tinha se aproximado do Marty e dito:
â Muito bem, Marty, vocĂȘ leu a ordem. Seu quepe nĂŁo deveria estar sobre a caixa.
â Oh, sinto muito, senhor. Ă o hĂĄbito, sabe. Sinto muito. â Marty tirou seu quepe de cima da caixa e subiu as escadas para guardĂĄ-lo no armĂĄrio.
Na manhĂŁ seguinte, esqueci outra vez da regra. O Stone apareceu com sua advertĂȘncia.
O texto dizia que era contra as regras e o regulamento manter qualquer tipo de objeto sobre a caixa.
Pus a advertĂȘncia no bolso e segui distribuindo as cartas.
Na manhã seguinte, assim que entrei, pude ver que o Stone estava à minha espreita. Não fazia nenhuma questão de esconder que me vigiava. Esperava para ver o que eu faria com meu quepe. Deixei-o esperar por um momento. Então retirei o quepe da cabeça e o coloquei sobre a caixa.
O Stone veio correndo com sua advertĂȘncia.
NĂŁo a li. Joguei-a na cesta de lixo, deixei meu quepe ali e segui distribuindo as cartas.
Dava para ouvir o Stone Ă sua mĂĄquina. O prĂłprio som das teclas era raivoso.
Me perguntava como ele teria aprendido a datilografar.
Ele retornou. Estendeu-me uma segunda advertĂȘncia.
Olhei para ele.
â NĂŁo preciso ler esse negĂłcio. Sei o que estĂĄ escrito. Diz que eu nĂŁo li a primeira advertĂȘncia.
Joguei a segunda advertĂȘncia no lixo.
O Stone voltou correndo para sua mĂĄquina.
Apresentou-me uma terceira advertĂȘncia.
â Veja sĂł â eu disse â, sei o que estĂĄ escrito nessas folhas. Na primeira dizia que nĂŁo era para eu pĂŽr meu quepe sobre a caixa. Na segunda, que eu nĂŁo havia lido a primeira. A terceira Ă© por nĂŁo ter lido nem a primeira, nem a segunda.
Olhei-o, e depois deixei a advertĂȘncia cair no lixo, sem lĂȘ-la.
â Agora posso jogĂĄ-las fora tĂŁo rĂĄpido quanto vocĂȘ Ă© capaz de datilografĂĄ-las. Isso pode seguir por horas e horas, e logo um de nĂłs estarĂĄ fazendo papel de ridĂculo. VocĂȘ decide.
O Stone retornou para sua cadeira e se sentou. NĂŁo datilografou mais nada. Ficou apenas olhando para mim.
Não apareci no dia seguinte. Dormi até a hora do almoço. Sequer telefonei para avisar. Então fui até o Escritório Central. Disse-lhes a que vinha. Colocaram-me em frente a uma mesa com uma mulher velha e magra. Seus cabelos eram grisalhos e seu pescoço muito fino, um pescoço que subitamente se inclinava na metade de sua extensão. Isso fazia com que a cabeça se projetasse para frente e que ela me olhasse por sobre os óculos.
â Sim.
â Quero pedir demissĂŁo.
â DemissĂŁo?
â Sim, demissĂŁo.
â E o senhor Ă© um carteiro efetivo?
â Sim â eu disse.
â Tsc, tsc, tsc, tsc, tsc, tsc, tsc â seguiu, produzindo este som com seus lĂĄbios secos.
Passou-me os papĂ©is necessĂĄrios e eu fiquei ali a preenchĂȘ-los.
â HĂĄ quanto tempo trabalha nos Correios?
â TrĂȘs anos e meio.
â Tsc, tsc, tsc, tsc, tsc, tsc, tsc, tsc â ela seguiu â, tsc, tsc, tsc, tsc.
E isso foi tudo. Voltei para casa e para Betty e nĂłs tiramos o selo da garrafa.
Mal eu sabia que em dois anos eu estaria de volta como escrevente e que lĂĄ eu ficaria, encolhido sobre meu assento, por quase doze anos.
â Cartas na rua
Um Cavalo de Olhos Azul-Esverdeados
o que vocĂȘ vĂȘ Ă© aquilo que vĂȘ:
os hospĂcios raramente
estĂŁo visĂveis.
que continuemos caminhando por aĂ
e nos coçando e acendendo
cigarros
Ă© mais miraculoso
do que os banhos das beldades
do que as rosas e as mariposas.
sentar-se em um pequeno quarto
e beber uma latinha de cerveja
e fechar um cigarro
ouvindo Brahms
em um radinho vermelho
Ă© como ter voltado
de uma dĂșzia de batalhas
com vida
ouvir o som
da geladeira
enquanto as beldades banhadas apodrecem
e as laranjas e maçãs
rolam para longe.
Um ou dois dias depois recebi um poema de Lydia pelo correio. Era um poema longo e começava com:
Saia, velho ogro
Saia de seu buraco escuro, velho ogro
Saia para a luz do sol conosco e
Deixe que a gente ponha margaridas nos seus cabelos...
O poema seguia dizendo como seria bom dançar pelos campos na companhia de ninfas que me trariam alegria e sabedoria verdadeira. Coloquei a carta numa das gavetas da cÎmoda.
Fui acordado na manhĂŁ seguinte por uma batida na janela da porta da frente. Eram dez e meia.
â Suma â eu disse
â Ă Lydia.
â Tudo bem. Espere um minuto.
Vesti uma camiseta e um par de calças e abri a porta. EntĂŁo corri atĂ© o banheiro e vomitei. Tentei escovar meus dentes, mas lĂĄ veio uma nova golfada â a doçura da pasta de dente revoltou meu estĂŽmago. Retornei para a sala.
â VocĂȘ estĂĄ passando mal â disse Lydia. â Quer que eu vĂĄ embora?
â Oh, nĂŁo, jĂĄ estou bem. Sempre acordo assim.
Lydia estava bonita. A luz entrava através das cortinas e se refletia nela. Trazia uma laranja numa das mãos e ficava jogando-a para cima. A laranja brilhava sob o sol da manhã.
â NĂŁo posso ficar. Mas queria perguntar uma coisa.
â Claro.
â Sou escultora. Queria esculpir sua cabeça.
â Tudo bem.
â VocĂȘ vai ter que ir lĂĄ em casa. NĂŁo tenho um estĂșdio. Vamos ter que fazer por lĂĄ. VocĂȘ nĂŁo vai ficar nervoso, nĂŁo Ă© mesmo?
â NĂŁo.
Anotei seu endereço e as instruçÔes para chegar até lå.
â Tente chegar Ă s onze da manhĂŁ. As crianças chegam da escola no meio da tarde e isso atrapalha bastante.
â Estarei lĂĄ Ă s onze â eu lhe disse.
Sentei de frente para Lydia na mesa da cozinha. Entre nós havia um grande bloco de argila. Começou a fazer perguntas.
â Seus pais ainda estĂŁo vivos?
â NĂŁo.
â VocĂȘ gosta de L.A.?
â Ă minha cidade favorita.
â Por que vocĂȘ escreve sobre as mulheres do modo como faz?
â Como assim?
â VocĂȘ sabe.
â NĂŁo sei, nĂŁo.
â Bem, acho que Ă© uma desgraça que um homem que escreve tĂŁo bem quanto vocĂȘ nĂŁo saiba nada sobre as mulheres.
NĂŁo respondi.
â Merda! O que a Lisa fez com...? â Ela começou a vasculhar a sala. â Ah, essas garotinhas que consomem com as ferramentas de suas mĂŁes!
Lydia encontrou outro objeto. Começou a trabalhar o bloco de argila com uma ferramenta de madeira com um arame curvo na ponta. Ela balançava a ferramenta na minha direção por sobre o bloco. Eu a observava. Seus olhos me encaravam. Eram grandes, castanho-escuros. Mesmo seu olho ruim, aquele que não combinava muito bem com o outro, tinha um aspecto legal. Devolvi seu olhar. Lydia trabalhava. O tempo passou. Eu estava num transe. Então ela disse:
â Que tal uma parada? Toma uma cerveja?
â Beleza. Claro.
Quando ela se levantou para ir até a geladeira eu a segui. Tirou a garrafa e fechou a porta. Ao se voltar, agarrei-a pela cintura e a puxei em minha direção. Colei minha boca e meu corpo nela. Segurava a garrafa numa das mãos com o braço estendido. Beijei-a. Beijei-a de novo. Lydia me afastou.
â EstĂĄ bem â ela disse â, jĂĄ chega. Temos muito trabalho pela frente.
â Mulheres
os hospĂcios raramente
estĂŁo visĂveis.
que continuemos caminhando por aĂ
e nos coçando e acendendo
cigarros
Ă© mais miraculoso
do que os banhos das beldades
do que as rosas e as mariposas.
sentar-se em um pequeno quarto
e beber uma latinha de cerveja
e fechar um cigarro
ouvindo Brahms
em um radinho vermelho
Ă© como ter voltado
de uma dĂșzia de batalhas
com vida
ouvir o som
da geladeira
enquanto as beldades banhadas apodrecem
e as laranjas e maçãs
rolam para longe.
Um ou dois dias depois recebi um poema de Lydia pelo correio. Era um poema longo e começava com:
Saia, velho ogro
Saia de seu buraco escuro, velho ogro
Saia para a luz do sol conosco e
Deixe que a gente ponha margaridas nos seus cabelos...
O poema seguia dizendo como seria bom dançar pelos campos na companhia de ninfas que me trariam alegria e sabedoria verdadeira. Coloquei a carta numa das gavetas da cÎmoda.
Fui acordado na manhĂŁ seguinte por uma batida na janela da porta da frente. Eram dez e meia.
â Suma â eu disse
â Ă Lydia.
â Tudo bem. Espere um minuto.
Vesti uma camiseta e um par de calças e abri a porta. EntĂŁo corri atĂ© o banheiro e vomitei. Tentei escovar meus dentes, mas lĂĄ veio uma nova golfada â a doçura da pasta de dente revoltou meu estĂŽmago. Retornei para a sala.
â VocĂȘ estĂĄ passando mal â disse Lydia. â Quer que eu vĂĄ embora?
â Oh, nĂŁo, jĂĄ estou bem. Sempre acordo assim.
Lydia estava bonita. A luz entrava através das cortinas e se refletia nela. Trazia uma laranja numa das mãos e ficava jogando-a para cima. A laranja brilhava sob o sol da manhã.
â NĂŁo posso ficar. Mas queria perguntar uma coisa.
â Claro.
â Sou escultora. Queria esculpir sua cabeça.
â Tudo bem.
â VocĂȘ vai ter que ir lĂĄ em casa. NĂŁo tenho um estĂșdio. Vamos ter que fazer por lĂĄ. VocĂȘ nĂŁo vai ficar nervoso, nĂŁo Ă© mesmo?
â NĂŁo.
Anotei seu endereço e as instruçÔes para chegar até lå.
â Tente chegar Ă s onze da manhĂŁ. As crianças chegam da escola no meio da tarde e isso atrapalha bastante.
â Estarei lĂĄ Ă s onze â eu lhe disse.
Sentei de frente para Lydia na mesa da cozinha. Entre nós havia um grande bloco de argila. Começou a fazer perguntas.
â Seus pais ainda estĂŁo vivos?
â NĂŁo.
â VocĂȘ gosta de L.A.?
â Ă minha cidade favorita.
â Por que vocĂȘ escreve sobre as mulheres do modo como faz?
â Como assim?
â VocĂȘ sabe.
â NĂŁo sei, nĂŁo.
â Bem, acho que Ă© uma desgraça que um homem que escreve tĂŁo bem quanto vocĂȘ nĂŁo saiba nada sobre as mulheres.
NĂŁo respondi.
â Merda! O que a Lisa fez com...? â Ela começou a vasculhar a sala. â Ah, essas garotinhas que consomem com as ferramentas de suas mĂŁes!
Lydia encontrou outro objeto. Começou a trabalhar o bloco de argila com uma ferramenta de madeira com um arame curvo na ponta. Ela balançava a ferramenta na minha direção por sobre o bloco. Eu a observava. Seus olhos me encaravam. Eram grandes, castanho-escuros. Mesmo seu olho ruim, aquele que não combinava muito bem com o outro, tinha um aspecto legal. Devolvi seu olhar. Lydia trabalhava. O tempo passou. Eu estava num transe. Então ela disse:
â Que tal uma parada? Toma uma cerveja?
â Beleza. Claro.
Quando ela se levantou para ir até a geladeira eu a segui. Tirou a garrafa e fechou a porta. Ao se voltar, agarrei-a pela cintura e a puxei em minha direção. Colei minha boca e meu corpo nela. Segurava a garrafa numa das mãos com o braço estendido. Beijei-a. Beijei-a de novo. Lydia me afastou.
â EstĂĄ bem â ela disse â, jĂĄ chega. Temos muito trabalho pela frente.
â Mulheres
Um Despachante de Nariz Vermelho
Quando conheci Randall Harris, ele estava com 42 anos e vivia com uma mulher de cabelo grisalho, uma tal de Margie Thompson. Margie estava com 45 e não era muito bonita. Naquela época, eu editava uma pequena revista chamada Mad Fly e tinha ido visitå-los numa tentativa de conseguir algum material de Randall.
Randall era conhecido por ser um solitĂĄrio convicto, um bĂȘbado, um homem bruto e amargo, mas seus poemas eram crus, crus e honestos, simples e selvagens. Estava escrevendo como ninguĂ©m mais fazia naquela Ă©poca. Ele trabalhava como despachante em um depĂłsito de autopeças.
Sentei de frente para Randall e Margie. Eram sete e quinze da noite e Harris jĂĄ estava bĂȘbado de cerveja. PĂŽs uma garrafa na minha frente. Eu tinha ouvido falar de Margie Thompson. Ela era uma comunista das antigas, uma salvadora do mundo, uma benfeitora. AlguĂ©m poderia se perguntar o que ela estava fazendo ao lado de Randall, que nĂŁo se importava com nada e nĂŁo fazia questĂŁo de escondĂȘ-lo.
â Gosto de fotografar merda â ele me disse â, essa Ă© a minha arte.
Randall começou a escrever com 38 anos. Com 42, depois de trĂȘs pequenos livros de contos (A morte Ă© uma cadela mais suja que o meu paĂs, Minha mĂŁe trepou com um anjo e Os cavalos desenfreados da loucura), estava começando a receber o que se pode chamar de reconhecimento da crĂtica. Mas nĂŁo ganhava grana com seus textos e disse:
â NĂŁo sou nada alĂ©m de um despachante com uma depressĂŁo profunda.
Vivia em um velho casarĂŁo em Hollywood com Margie, e ele era estranho, de verdade.
â Apenas nĂŁo gosto de gente â ele disse. â Sabe, Will Rogers disse uma vez: âNunca encontrei um homem de quem nĂŁo gostasseâ. Comigo Ă© o contrĂĄrio, nunca encontrei um homem de quem gostasse.
Mas Randall tinha senso de humor, uma capacidade de rir da dor e de si mesmo. Não havia como não gostar dele. Era um homem feio com um cabeção e uma cara amassada... apenas o nariz parecia ter escapado do achatamento generalizado.
â NĂŁo tenho osso suficiente em meu nariz, Ă© como se fosse de borracha â ele explicava. Seu nariz era longo e muito vermelho.
Eu jĂĄ ouvira histĂłrias sobre Randall. Dizia-se que era de quebrar janelas e jogar garrafas contra as paredes. Era um bĂȘbado terrĂvel. TambĂ©m tinha perĂodos em que nĂŁo atendia Ă porta nem ao telefone. NĂŁo tinha televisĂŁo, apenas um radinho e somente ouvia mĂșsica sinfĂŽnica... algo estranho para um sujeito bruto como ele.
Randall tambĂ©m tinha perĂodos em que tirava a parte de baixo do telefone e enchia com papel higiĂȘnico ao redor da campainha para que nĂŁo soasse. Ficava assim por meses. AlguĂ©m poderia se perguntar por que ele tinha um telefone, afinal. Sua educação era precĂĄria, mas ele evidentemente lia boa parte dos melhores escritores.
â Bem, seu merda â ele me disse â, imagino que vocĂȘ esteja se perguntando o que faço ao lado dela? â e apontou para Margie.
NĂŁo respondi.
â Ela Ă© boa de cama â ele disse â e me dĂĄ as melhores fodas a oeste de Saint Louis.
Esse era o mesmo sujeito que tinha escrito quatro ou cinco excelentes poemas de amor para uma mulher chamada Annie. Era de se pensar como tudo isso funcionava.
Margie apenas ficava sentada ali, mostrando os dentes. Ela também escrevia poesia, mas não era muito boa. Frequentava dois workshops por semana, o que não ajudava muito.
â EntĂŁo vocĂȘ quer alguns poemas? â ele me perguntou.
â Sim, gostaria de olhar alguns.
Harris foi até o armårio, abriu a porta e pegou alguns papéis amassados e rasgados do fundo. Entregou-os para mim.
â Escrevi esses aĂ na noite passada.
Então ele foi até a cozinha e voltou com mais duas cervejas. Margie não bebia.
Comecei a ler os poemas. Eram todos poderosos. Ele datilografava com a mĂŁo muito pesada, e as palavras pareciam cinzeladas no papel. A força de sua escrita sempre me surpreendia. Parecia estar dizendo todas as coisas que deverĂamos dizer, mas que nunca terĂamos coragem de pronunciar.
â Vou levar esses poemas â eu disse.
â Ok â ele disse. â Beba.
Quando se visitava Harris, beber era uma obrigação. Ele fumava um cigarro atrĂĄs do outro. Usava calças marrons de algodĂŁo, folgadas, dois nĂșmero acima do que seria o correto, e camisas velhas que estavam sempre em frangalhos. Tinha aproximadamente um metro e oitenta de altura e pesava uns cem quilos, em grande parte decorrentes da cerveja. Tinha os ombros caĂdos e nos espiava por trĂĄs das pĂĄlpebras semicerradas. Bebemos por cerca de duas horas e meia, o ar estava saturado pela fumaça. Subitamente Harris se levantou e disse:
â DĂȘ o fora daqui, seu escroto, vocĂȘ me dĂĄ nojo!
â Calma, Harris, calma...
â Eu disse AGORA! Escroto!
Levantei e parti com os poemas.
Voltei Ă quele casarĂŁo dois meses mais tarde para entregar algumas cĂłpias da Mad Fly para Harris. Tinha publicado todos os dez poemas dele. Margie me deixou entrar. Randall nĂŁo estava lĂĄ.
â Ele estĂĄ em Nova Orleans â disse Margie â, acho que ele estĂĄ tirando uma folga. Jack Teller quer publicar seu prĂłximo livro, mas ele quer conhecer Randall antes. Teller diz que nĂŁo pode editar ninguĂ©m de quem nĂŁo goste. Pagou a passagem ĂĄrea de ida e volta.
â Randall nĂŁo Ă© o que se poderia chamar de um sujeito cativante â eu disse.
â Veremos â disse Margie. â Teller Ă© um bĂȘbado e um ex-presidiĂĄrio. Talvez formem uma bela dupla.
Teller publicava a revista Riftraff e tinha seu prĂłprio prelo. Fazia um belo trabalho. A Ășltima edição de Riftraff tinha a cara feia de Harris na capa mamando em uma garrafa de cerveja e trazia alguns de seus poemas.
Riftraff era amplamente reconhecida como a revista literĂĄria nĂșmero um da Ă©poca. Harris estava começando a ganhar mais e mais destaque. Isso acabaria se tornando uma boa chance para ele, se nĂŁo a estragasse com sua lĂngua pĂ©rfida e seus modos de bĂȘbado. Antes de partir, Margie me disse que estava grĂĄvida... de Harris. Como eu disse, ela tinha 45 anos.
â O que ele disse quando vocĂȘ lhe contou?
â Pareceu indiferente.
Parti.
O livro realmente foi publicado em uma edição de dois mil exemplares, muito bem impressos. A capa era feita de cortiça importada da Irlanda. As pĂĄginas eram multicoloridas e de um papel extremamente bom, impressas em um tipo exĂłtico e entremeadas com alguns desenhos em nanquim que o prĂłprio Harris havia feito. A edição foi aclamada, tanto pelo livro em si quanto pelo conteĂșdo. Mas Teller nĂŁo podia pagar os royalties. Ele e sua esposa viviam com uma margem de lucro muito pequena. Em dez anos o livro passou a custar 75 dĂłlares no mercado de livros raros. Enquanto isso Harris voltou para seu emprego de despachante no armazĂ©m de autopeças.
Quando fui visitĂĄ-lo novamente, quatro ou cinco meses depois, Margie se fora.
â Ela partiu hĂĄ muito tempo â disse Harris. â Beba uma cerveja.
â O que aconteceu?
â Bem, depois que voltei de Nova Orleans, escrevi alguns contos. Enquanto eu estava no trabalho, ela revirou minhas gavetas. Leu algumas das minhas histĂłrias e ficou alterada com o conteĂșdo delas.
â Sobre o que eram?
â Ah, sobre as minhas aventuras amorosas com algumas mulheres em Nova Orleans.
â As histĂłrias eram verdadeiras? â perguntei.
â Como vai a Mad Fly? â perguntou.
A criança nasceu, uma menina, Naomi Louise Harris. Ela e a mĂŁe viviam em Santa MĂŽnica, e Harris dirigia atĂ© lĂĄ uma vez por semana para vĂȘ-las. Pagava pensĂŁo alimentĂcia e continuava bebendo sua cerveja. Depois disso, soube que ele mantinha uma coluna semanal no jornal de vanguarda Los Angeles Lifeline. Chamava suas colunas de ImpressĂ”es de um ManĂaco de Primeira Classe. Sua prosa era como sua poesia: indisciplinada, antissocial e preguiçosa.
Harris deixou crescer um cavanhaque e deixou seu cabelo mais comprido. Na prĂłxima vez que o vi, estava vivendo com uma garota de 35 anos, uma ruiva bonita chamada Susan. Susan trabalhava em uma loja de material de desenho, pintava e tocava violĂŁo razoavelmente. TambĂ©m bebia ocasionalmente uma cerveja com Randall, que era mais do que Margie fazia. O casarĂŁo parecia mais limpo. Quando Harris acabava uma garrafa, atirava-a numa sacola de papel, em vez de atirĂĄ-la no chĂŁo. Mas, ainda assim, era um bĂȘbado terrĂvel.
â Estou escrevendo um romance â ele me disse â e Ă s vezes arranjo alguma leitura de poesia nas universidades da regiĂŁo. TambĂ©m tenho uma leitura marcada em Michigan e outra no Novo MĂ©xico. As ofertas sĂŁo bem boas. NĂŁo sinto vontade de ler, mas sou um bom leitor. Dou a eles um show e um pouco de boa poesia.
Harris tambĂ©m estava começando a pintar. NĂŁo pintava muito bem. Pintava como uma criança de cinco anos que tivesse enchido a cara de vodca, mas dava um jeito de vender um ou dois quadros por quarenta ou cinquenta dĂłlares. Contou-me que estava pensando em abandonar seu emprego. TrĂȘs semanas depois ele realmente largou o emprego para fazer a leitura em Michigan. JĂĄ tinha usado as fĂ©rias a que tinha direto para fazer a viagem a Nova Orleans.
Lembrei de uma vez que em que ele me havia prometido:
â Jamais lerei diante daqueles sanguessugas, Chinaski. Vou pra cova sem nunca fazer uma leitura pĂșblica. Ă pura vaidade, Ă© se vender.
Não o lembrei dessa afirmação.
Seu romance A morte na vida de todos os olhos sobre a face da Terra foi publicado por uma pequena porĂ©m prestigiada editora que pagava royalties regularmente. As crĂticas foram boas, incluindo uma na New York Review of Books. Mas ele ainda era um bĂȘbado terrĂvel e brigava constantemente com Susan por causa da bebida.
Finalmente, depois de um porre homérico, em que ele se enfureceu, amaldiçoou e gritou a noite toda, Susan o deixou. Vi Randall vårios dias depois que ela partira. Harris estava estranhamente quieto, quase normal.
â Eu a amava, Chinaski â ele me disse. â NĂŁo vou conseguir superar essa, meu chapa.
â VocĂȘ vai conseguir, Randall. VocĂȘ vai ver. Vai conseguir. O ser humano Ă© muito mais resistente do que vocĂȘ pensa.
â Merda â ele disse â, espero que vocĂȘ esteja certo. Estou com um buraco danado no peito. As mulheres jĂĄ colocaram muitos homens bons embaixo da ponte. Elas nĂŁo sentem isso da forma que nĂłs sentimos.
â Elas sentem, sim. Ela sĂł nĂŁo conseguia mais suportar as suas bebedeiras.
â Porra, homem, escrevo a maioria dos meus textos quando estou bĂȘbado.
â Ă esse o segredo?
â Merda, claro que Ă©. SĂłbrio, sou apenas um despachante, e nĂŁo dos melhores...
Deixei-o lĂĄ agarrado em sua cerveja.
Voltei a visitĂĄ-lo trĂȘs meses mais tarde. Harris ainda estava em seu casarĂŁo. Ele me apresentou Sandra, uma loira bonita de 27 anos. Seu pai era um juiz da Suprema Corte, e ela era uma estudante de graduação na Universidade do Sul da CalifĂłrnia. AlĂ©m de ter um corpo bem-torneado, tinha certa sofisticação e classe, algo que faltara Ă s outras mulheres de Randall. Estava bebendo uma garrafa de vinho italiano.
O cavanhaque de Randall tinha se transformado em uma barba e seu cabelo estava ainda mais comprido. Suas roupas eram novas e da Ășltima moda. Estava usando sapados de quarenta dĂłlares, um relĂłgio de pulso novo e seu rosto parecia mais magro, suas unhas, limpas... mas seu nariz ainda enrubescia Ă medida que ia bebendo o vinho.
â Randall e eu vamos nos mudar para West L.A. Este fim de semana â ela me disse. â Esse lugar Ă© imundo.
â Escrevi muitas coisas boas aqui â ele disse.
â Randall, querido â ela disse â, nĂŁo Ă© o lugar que escreve, Ă© vocĂȘ. Acho que podemos lhe arranjar um emprego de professor para lecionar trĂȘs dias por semana.
â NĂŁo sei ensinar.
â Querido, vocĂȘ pode lhes ensinar tudo.
â Merda â ele disse.
â EstĂŁo pensando em fazer um filme baseado no livro de Randall. Vimos o roteiro. Ă um belo roteiro.
â Um filme? â perguntei.
â A probabilidade Ă© baixa â disse Harris.
â Querido, estĂŁo trabalhando nele. Tenha um pouco de fĂ©.
Bebi outro cĂĄlice de vinho com eles e entĂŁo parti. Sandra era uma garota bonita.
NĂŁo recebi o endereço de Randall em West L.A. E nĂŁo fiz nenhuma tentativa de localizĂĄ-lo. Cerca de um ano depois, li uma resenha do filme Flor no cu do inferno. Era baseado em seu romance. Era uma crĂtica favorĂĄvel e Harris chegou mesmo a atuar em um pequeno papel.
Fui assistir. Tinham feito um bom trabalho em cima do livro. Harris parecia um pouco mais austero do que quando o havia visto pela Ășltima vez. Decidi encontrĂĄ-lo. Depois de um tempo dando uma de detetive, bati Ă porta de sua cabana em Malibu uma noite por volta das nove. Randall atendeu.
â Chinaski, seu cachorro velho â ele disse. â Entre.
Uma bela garota estava sentada no sofĂĄ. Parecia ter aproximadamente dezenove anos, simplesmente irradiava uma beleza natural.
â Essa Ă© Karilla â ele disse.
Eles estavam bebendo uma garrafa de vinho francĂȘs, dos caros. Sentei com eles e bebi um cĂĄlice. Tomei vĂĄrios cĂĄlices. Outra garrafa apareceu e conversamos calmamente. Harris nĂŁo ficou bĂȘbado e inoportuno e nĂŁo pareceu fumar muito.
â Estou trabalhando numa peça para a Broadway â ele me disse. â Dizem que o teatro estĂĄ morrendo, mas eu tenho algo para eles. Um dos principais produtores estĂĄ interessado. Estou finalizando o Ășltimo ato agora. Ă um gĂȘnero interessante. Sempre fui craque nos diĂĄlogos, vocĂȘ sabe.
â Sim â eu disse.
Fui embora lĂĄ pelas onze e meia naquela noite. A conversa tinha sido agradĂĄvel... As tĂȘmporas de Harris começavam a exibir um respeitĂĄvel tom grisalho, e ele nĂŁo disse âmerdaâ mais do que quatro ou cinco vezes.
A peça Atire em seu pai, atire em seu Deus, livre-se do desembaraço era um sucesso. Estava entre as peças recordistas em tempo de exibição na Broadway. Tinha de tudo: algo para os revolucionĂĄrios, algo para os reacionĂĄrios, algo para os que amavam comĂ©dia, para os que amavam drama, tinha atĂ© mesmo algo para os intelectuais e, ainda assim, fazia sentido. Randall Harris se mudou de Malibu para uma casa maior em Hollywood Hills. Agora Ă© possĂvel saber notĂcias dele pelos tabloides.
ApĂłs algumas dificuldades, encontrei a localização de sua casa em Hollywood Hills, uma mansĂŁo de trĂȘs andares com vista para as luzes de Los Angeles e Hollywood.
Estacionei, saà do carro e caminhei pela passagem que levava até a porta da frente. Era perto das oito e meia da noite, a temperatura estava baixa, quase fazia frio; a lua estava cheia e o ar fresco e limpo.
Toquei a campainha. Pareceu-me uma longa espera. Finalmente a porta se abriu. Era o mordomo.
â Sim, senhor? â me perguntou.
â Vim para ver Randall Harris, da parte de Henry Chinaski â eu disse.
â Um momento, por favor, senhor.
Ele fechou a porta em silĂȘncio e esperei. Mais uma vez, um longo intervalo. EntĂŁo o mordomo voltou.
â Sinto muito, senhor, mas o sr. Harris nĂŁo pode ser perturbado neste momento.
â Oh, tudo bem.
â Gostaria de deixar uma mensagem, senhor?
â Uma mensagem? Sim, dĂȘ-lhe os meus âparabĂ©nsâ.
â âParabĂ©nsâ? Isso Ă© tudo?
â Sim, isso Ă© tudo.
â Boa noite, senhor.
â Boa noite.
Voltei para o meu carro, entrei. Dei a partida e comecei a longa viagem descendo as colinas. Tinha comigo aquela antiga cĂłpia da Mad Fly que queria que ele autografasse. Era a cĂłpia com dez poemas de Randall Harris. Ele provavelmente estava ocupado. Talvez, pensei, se eu mandasse pelo correio a revista com um envelope selado de resposta, ele assinasse.
Eram apenas nove da noite. Havia tempo para ir a um outro lugar.
â Ao sul de lugar nenhum
Randall era conhecido por ser um solitĂĄrio convicto, um bĂȘbado, um homem bruto e amargo, mas seus poemas eram crus, crus e honestos, simples e selvagens. Estava escrevendo como ninguĂ©m mais fazia naquela Ă©poca. Ele trabalhava como despachante em um depĂłsito de autopeças.
Sentei de frente para Randall e Margie. Eram sete e quinze da noite e Harris jĂĄ estava bĂȘbado de cerveja. PĂŽs uma garrafa na minha frente. Eu tinha ouvido falar de Margie Thompson. Ela era uma comunista das antigas, uma salvadora do mundo, uma benfeitora. AlguĂ©m poderia se perguntar o que ela estava fazendo ao lado de Randall, que nĂŁo se importava com nada e nĂŁo fazia questĂŁo de escondĂȘ-lo.
â Gosto de fotografar merda â ele me disse â, essa Ă© a minha arte.
Randall começou a escrever com 38 anos. Com 42, depois de trĂȘs pequenos livros de contos (A morte Ă© uma cadela mais suja que o meu paĂs, Minha mĂŁe trepou com um anjo e Os cavalos desenfreados da loucura), estava começando a receber o que se pode chamar de reconhecimento da crĂtica. Mas nĂŁo ganhava grana com seus textos e disse:
â NĂŁo sou nada alĂ©m de um despachante com uma depressĂŁo profunda.
Vivia em um velho casarĂŁo em Hollywood com Margie, e ele era estranho, de verdade.
â Apenas nĂŁo gosto de gente â ele disse. â Sabe, Will Rogers disse uma vez: âNunca encontrei um homem de quem nĂŁo gostasseâ. Comigo Ă© o contrĂĄrio, nunca encontrei um homem de quem gostasse.
Mas Randall tinha senso de humor, uma capacidade de rir da dor e de si mesmo. Não havia como não gostar dele. Era um homem feio com um cabeção e uma cara amassada... apenas o nariz parecia ter escapado do achatamento generalizado.
â NĂŁo tenho osso suficiente em meu nariz, Ă© como se fosse de borracha â ele explicava. Seu nariz era longo e muito vermelho.
Eu jĂĄ ouvira histĂłrias sobre Randall. Dizia-se que era de quebrar janelas e jogar garrafas contra as paredes. Era um bĂȘbado terrĂvel. TambĂ©m tinha perĂodos em que nĂŁo atendia Ă porta nem ao telefone. NĂŁo tinha televisĂŁo, apenas um radinho e somente ouvia mĂșsica sinfĂŽnica... algo estranho para um sujeito bruto como ele.
Randall tambĂ©m tinha perĂodos em que tirava a parte de baixo do telefone e enchia com papel higiĂȘnico ao redor da campainha para que nĂŁo soasse. Ficava assim por meses. AlguĂ©m poderia se perguntar por que ele tinha um telefone, afinal. Sua educação era precĂĄria, mas ele evidentemente lia boa parte dos melhores escritores.
â Bem, seu merda â ele me disse â, imagino que vocĂȘ esteja se perguntando o que faço ao lado dela? â e apontou para Margie.
NĂŁo respondi.
â Ela Ă© boa de cama â ele disse â e me dĂĄ as melhores fodas a oeste de Saint Louis.
Esse era o mesmo sujeito que tinha escrito quatro ou cinco excelentes poemas de amor para uma mulher chamada Annie. Era de se pensar como tudo isso funcionava.
Margie apenas ficava sentada ali, mostrando os dentes. Ela também escrevia poesia, mas não era muito boa. Frequentava dois workshops por semana, o que não ajudava muito.
â EntĂŁo vocĂȘ quer alguns poemas? â ele me perguntou.
â Sim, gostaria de olhar alguns.
Harris foi até o armårio, abriu a porta e pegou alguns papéis amassados e rasgados do fundo. Entregou-os para mim.
â Escrevi esses aĂ na noite passada.
Então ele foi até a cozinha e voltou com mais duas cervejas. Margie não bebia.
Comecei a ler os poemas. Eram todos poderosos. Ele datilografava com a mĂŁo muito pesada, e as palavras pareciam cinzeladas no papel. A força de sua escrita sempre me surpreendia. Parecia estar dizendo todas as coisas que deverĂamos dizer, mas que nunca terĂamos coragem de pronunciar.
â Vou levar esses poemas â eu disse.
â Ok â ele disse. â Beba.
Quando se visitava Harris, beber era uma obrigação. Ele fumava um cigarro atrĂĄs do outro. Usava calças marrons de algodĂŁo, folgadas, dois nĂșmero acima do que seria o correto, e camisas velhas que estavam sempre em frangalhos. Tinha aproximadamente um metro e oitenta de altura e pesava uns cem quilos, em grande parte decorrentes da cerveja. Tinha os ombros caĂdos e nos espiava por trĂĄs das pĂĄlpebras semicerradas. Bebemos por cerca de duas horas e meia, o ar estava saturado pela fumaça. Subitamente Harris se levantou e disse:
â DĂȘ o fora daqui, seu escroto, vocĂȘ me dĂĄ nojo!
â Calma, Harris, calma...
â Eu disse AGORA! Escroto!
Levantei e parti com os poemas.
Voltei Ă quele casarĂŁo dois meses mais tarde para entregar algumas cĂłpias da Mad Fly para Harris. Tinha publicado todos os dez poemas dele. Margie me deixou entrar. Randall nĂŁo estava lĂĄ.
â Ele estĂĄ em Nova Orleans â disse Margie â, acho que ele estĂĄ tirando uma folga. Jack Teller quer publicar seu prĂłximo livro, mas ele quer conhecer Randall antes. Teller diz que nĂŁo pode editar ninguĂ©m de quem nĂŁo goste. Pagou a passagem ĂĄrea de ida e volta.
â Randall nĂŁo Ă© o que se poderia chamar de um sujeito cativante â eu disse.
â Veremos â disse Margie. â Teller Ă© um bĂȘbado e um ex-presidiĂĄrio. Talvez formem uma bela dupla.
Teller publicava a revista Riftraff e tinha seu prĂłprio prelo. Fazia um belo trabalho. A Ășltima edição de Riftraff tinha a cara feia de Harris na capa mamando em uma garrafa de cerveja e trazia alguns de seus poemas.
Riftraff era amplamente reconhecida como a revista literĂĄria nĂșmero um da Ă©poca. Harris estava começando a ganhar mais e mais destaque. Isso acabaria se tornando uma boa chance para ele, se nĂŁo a estragasse com sua lĂngua pĂ©rfida e seus modos de bĂȘbado. Antes de partir, Margie me disse que estava grĂĄvida... de Harris. Como eu disse, ela tinha 45 anos.
â O que ele disse quando vocĂȘ lhe contou?
â Pareceu indiferente.
Parti.
O livro realmente foi publicado em uma edição de dois mil exemplares, muito bem impressos. A capa era feita de cortiça importada da Irlanda. As pĂĄginas eram multicoloridas e de um papel extremamente bom, impressas em um tipo exĂłtico e entremeadas com alguns desenhos em nanquim que o prĂłprio Harris havia feito. A edição foi aclamada, tanto pelo livro em si quanto pelo conteĂșdo. Mas Teller nĂŁo podia pagar os royalties. Ele e sua esposa viviam com uma margem de lucro muito pequena. Em dez anos o livro passou a custar 75 dĂłlares no mercado de livros raros. Enquanto isso Harris voltou para seu emprego de despachante no armazĂ©m de autopeças.
Quando fui visitĂĄ-lo novamente, quatro ou cinco meses depois, Margie se fora.
â Ela partiu hĂĄ muito tempo â disse Harris. â Beba uma cerveja.
â O que aconteceu?
â Bem, depois que voltei de Nova Orleans, escrevi alguns contos. Enquanto eu estava no trabalho, ela revirou minhas gavetas. Leu algumas das minhas histĂłrias e ficou alterada com o conteĂșdo delas.
â Sobre o que eram?
â Ah, sobre as minhas aventuras amorosas com algumas mulheres em Nova Orleans.
â As histĂłrias eram verdadeiras? â perguntei.
â Como vai a Mad Fly? â perguntou.
A criança nasceu, uma menina, Naomi Louise Harris. Ela e a mĂŁe viviam em Santa MĂŽnica, e Harris dirigia atĂ© lĂĄ uma vez por semana para vĂȘ-las. Pagava pensĂŁo alimentĂcia e continuava bebendo sua cerveja. Depois disso, soube que ele mantinha uma coluna semanal no jornal de vanguarda Los Angeles Lifeline. Chamava suas colunas de ImpressĂ”es de um ManĂaco de Primeira Classe. Sua prosa era como sua poesia: indisciplinada, antissocial e preguiçosa.
Harris deixou crescer um cavanhaque e deixou seu cabelo mais comprido. Na prĂłxima vez que o vi, estava vivendo com uma garota de 35 anos, uma ruiva bonita chamada Susan. Susan trabalhava em uma loja de material de desenho, pintava e tocava violĂŁo razoavelmente. TambĂ©m bebia ocasionalmente uma cerveja com Randall, que era mais do que Margie fazia. O casarĂŁo parecia mais limpo. Quando Harris acabava uma garrafa, atirava-a numa sacola de papel, em vez de atirĂĄ-la no chĂŁo. Mas, ainda assim, era um bĂȘbado terrĂvel.
â Estou escrevendo um romance â ele me disse â e Ă s vezes arranjo alguma leitura de poesia nas universidades da regiĂŁo. TambĂ©m tenho uma leitura marcada em Michigan e outra no Novo MĂ©xico. As ofertas sĂŁo bem boas. NĂŁo sinto vontade de ler, mas sou um bom leitor. Dou a eles um show e um pouco de boa poesia.
Harris tambĂ©m estava começando a pintar. NĂŁo pintava muito bem. Pintava como uma criança de cinco anos que tivesse enchido a cara de vodca, mas dava um jeito de vender um ou dois quadros por quarenta ou cinquenta dĂłlares. Contou-me que estava pensando em abandonar seu emprego. TrĂȘs semanas depois ele realmente largou o emprego para fazer a leitura em Michigan. JĂĄ tinha usado as fĂ©rias a que tinha direto para fazer a viagem a Nova Orleans.
Lembrei de uma vez que em que ele me havia prometido:
â Jamais lerei diante daqueles sanguessugas, Chinaski. Vou pra cova sem nunca fazer uma leitura pĂșblica. Ă pura vaidade, Ă© se vender.
Não o lembrei dessa afirmação.
Seu romance A morte na vida de todos os olhos sobre a face da Terra foi publicado por uma pequena porĂ©m prestigiada editora que pagava royalties regularmente. As crĂticas foram boas, incluindo uma na New York Review of Books. Mas ele ainda era um bĂȘbado terrĂvel e brigava constantemente com Susan por causa da bebida.
Finalmente, depois de um porre homérico, em que ele se enfureceu, amaldiçoou e gritou a noite toda, Susan o deixou. Vi Randall vårios dias depois que ela partira. Harris estava estranhamente quieto, quase normal.
â Eu a amava, Chinaski â ele me disse. â NĂŁo vou conseguir superar essa, meu chapa.
â VocĂȘ vai conseguir, Randall. VocĂȘ vai ver. Vai conseguir. O ser humano Ă© muito mais resistente do que vocĂȘ pensa.
â Merda â ele disse â, espero que vocĂȘ esteja certo. Estou com um buraco danado no peito. As mulheres jĂĄ colocaram muitos homens bons embaixo da ponte. Elas nĂŁo sentem isso da forma que nĂłs sentimos.
â Elas sentem, sim. Ela sĂł nĂŁo conseguia mais suportar as suas bebedeiras.
â Porra, homem, escrevo a maioria dos meus textos quando estou bĂȘbado.
â Ă esse o segredo?
â Merda, claro que Ă©. SĂłbrio, sou apenas um despachante, e nĂŁo dos melhores...
Deixei-o lĂĄ agarrado em sua cerveja.
Voltei a visitĂĄ-lo trĂȘs meses mais tarde. Harris ainda estava em seu casarĂŁo. Ele me apresentou Sandra, uma loira bonita de 27 anos. Seu pai era um juiz da Suprema Corte, e ela era uma estudante de graduação na Universidade do Sul da CalifĂłrnia. AlĂ©m de ter um corpo bem-torneado, tinha certa sofisticação e classe, algo que faltara Ă s outras mulheres de Randall. Estava bebendo uma garrafa de vinho italiano.
O cavanhaque de Randall tinha se transformado em uma barba e seu cabelo estava ainda mais comprido. Suas roupas eram novas e da Ășltima moda. Estava usando sapados de quarenta dĂłlares, um relĂłgio de pulso novo e seu rosto parecia mais magro, suas unhas, limpas... mas seu nariz ainda enrubescia Ă medida que ia bebendo o vinho.
â Randall e eu vamos nos mudar para West L.A. Este fim de semana â ela me disse. â Esse lugar Ă© imundo.
â Escrevi muitas coisas boas aqui â ele disse.
â Randall, querido â ela disse â, nĂŁo Ă© o lugar que escreve, Ă© vocĂȘ. Acho que podemos lhe arranjar um emprego de professor para lecionar trĂȘs dias por semana.
â NĂŁo sei ensinar.
â Querido, vocĂȘ pode lhes ensinar tudo.
â Merda â ele disse.
â EstĂŁo pensando em fazer um filme baseado no livro de Randall. Vimos o roteiro. Ă um belo roteiro.
â Um filme? â perguntei.
â A probabilidade Ă© baixa â disse Harris.
â Querido, estĂŁo trabalhando nele. Tenha um pouco de fĂ©.
Bebi outro cĂĄlice de vinho com eles e entĂŁo parti. Sandra era uma garota bonita.
NĂŁo recebi o endereço de Randall em West L.A. E nĂŁo fiz nenhuma tentativa de localizĂĄ-lo. Cerca de um ano depois, li uma resenha do filme Flor no cu do inferno. Era baseado em seu romance. Era uma crĂtica favorĂĄvel e Harris chegou mesmo a atuar em um pequeno papel.
Fui assistir. Tinham feito um bom trabalho em cima do livro. Harris parecia um pouco mais austero do que quando o havia visto pela Ășltima vez. Decidi encontrĂĄ-lo. Depois de um tempo dando uma de detetive, bati Ă porta de sua cabana em Malibu uma noite por volta das nove. Randall atendeu.
â Chinaski, seu cachorro velho â ele disse. â Entre.
Uma bela garota estava sentada no sofĂĄ. Parecia ter aproximadamente dezenove anos, simplesmente irradiava uma beleza natural.
â Essa Ă© Karilla â ele disse.
Eles estavam bebendo uma garrafa de vinho francĂȘs, dos caros. Sentei com eles e bebi um cĂĄlice. Tomei vĂĄrios cĂĄlices. Outra garrafa apareceu e conversamos calmamente. Harris nĂŁo ficou bĂȘbado e inoportuno e nĂŁo pareceu fumar muito.
â Estou trabalhando numa peça para a Broadway â ele me disse. â Dizem que o teatro estĂĄ morrendo, mas eu tenho algo para eles. Um dos principais produtores estĂĄ interessado. Estou finalizando o Ășltimo ato agora. Ă um gĂȘnero interessante. Sempre fui craque nos diĂĄlogos, vocĂȘ sabe.
â Sim â eu disse.
Fui embora lĂĄ pelas onze e meia naquela noite. A conversa tinha sido agradĂĄvel... As tĂȘmporas de Harris começavam a exibir um respeitĂĄvel tom grisalho, e ele nĂŁo disse âmerdaâ mais do que quatro ou cinco vezes.
A peça Atire em seu pai, atire em seu Deus, livre-se do desembaraço era um sucesso. Estava entre as peças recordistas em tempo de exibição na Broadway. Tinha de tudo: algo para os revolucionĂĄrios, algo para os reacionĂĄrios, algo para os que amavam comĂ©dia, para os que amavam drama, tinha atĂ© mesmo algo para os intelectuais e, ainda assim, fazia sentido. Randall Harris se mudou de Malibu para uma casa maior em Hollywood Hills. Agora Ă© possĂvel saber notĂcias dele pelos tabloides.
ApĂłs algumas dificuldades, encontrei a localização de sua casa em Hollywood Hills, uma mansĂŁo de trĂȘs andares com vista para as luzes de Los Angeles e Hollywood.
Estacionei, saà do carro e caminhei pela passagem que levava até a porta da frente. Era perto das oito e meia da noite, a temperatura estava baixa, quase fazia frio; a lua estava cheia e o ar fresco e limpo.
Toquei a campainha. Pareceu-me uma longa espera. Finalmente a porta se abriu. Era o mordomo.
â Sim, senhor? â me perguntou.
â Vim para ver Randall Harris, da parte de Henry Chinaski â eu disse.
â Um momento, por favor, senhor.
Ele fechou a porta em silĂȘncio e esperei. Mais uma vez, um longo intervalo. EntĂŁo o mordomo voltou.
â Sinto muito, senhor, mas o sr. Harris nĂŁo pode ser perturbado neste momento.
â Oh, tudo bem.
â Gostaria de deixar uma mensagem, senhor?
â Uma mensagem? Sim, dĂȘ-lhe os meus âparabĂ©nsâ.
â âParabĂ©nsâ? Isso Ă© tudo?
â Sim, isso Ă© tudo.
â Boa noite, senhor.
â Boa noite.
Voltei para o meu carro, entrei. Dei a partida e comecei a longa viagem descendo as colinas. Tinha comigo aquela antiga cĂłpia da Mad Fly que queria que ele autografasse. Era a cĂłpia com dez poemas de Randall Harris. Ele provavelmente estava ocupado. Talvez, pensei, se eu mandasse pelo correio a revista com um envelope selado de resposta, ele assinasse.
Eram apenas nove da noite. Havia tempo para ir a um outro lugar.
â Ao sul de lugar nenhum
Um Dia
Brock, o chefe de seção, estava sempre escarafunchando o cu com os dedos, usando a mão esquerda. Sofre de um caso grave de hemorroidas.
Tom percebeu isso ao longo do dia de trabalho.
Brock estivera na sua cola por meses. Aqueles olhos redondos e sem vida pareciam estar sempre Ă espreita de Tom. E entĂŁo Tom acabou notando a mĂŁo esquerda, enfiada no cu, escarafunchando.
E Brock estava realmente na sua cola.
Tom executava seu trabalho tão bem quanto os outros. Talvez não mostrasse exatamente o mesmo entusiasmo dos demais, mas cumpria com suas obrigaçÔes.
Ainda assim, Brock nĂŁo deixava de persegui-lo, fazendo comentĂĄrios, despejando sugestĂ”es inĂșteis.
Brock era parente do dono da loja e um posto lhe fora arranjado: chefe de seção.
Naquele dia, Tom terminava de acondicionar o dispositivo de luz num pacote oblongo de um metro de comprimento e o depositou na pilha que estava atrĂĄs da sua mesa de trabalho. Voltou-se para pegar um novo conjunto da linha de montagem.
Brock estava parado Ă sua frente.
â Quero falar com vocĂȘ, Tom...
Brock era alto e magro. Seu corpo se inclinava para frente a partir da cintura. A cabeça estava sempre curvada, como se pendurada em seu pescoço longo e esguio. A boca ficava sempre aberta. Seu nariz era bastante proeminente com narinas muito grandes. Os pés eram grandes e desajeitados. As calças ficavam frouxas em seu corpo magricelo.
â Tom, vocĂȘ nĂŁo estĂĄ fazendo seu trabalho.
â Estou mantendo a mĂ©dia de produção. Do que vocĂȘ estĂĄ falando?
â NĂŁo acho que vocĂȘ esteja empacotando direito. Ă preciso usar mais fita. Tivemos alguns problemas com quebra de materiais e estamos querendo resolver.
â Por que vocĂȘs nĂŁo colocam as iniciais de cada empacotador nas caixas? Assim, se houver algum estrago por causa de mau acondicionamento, vocĂȘs podem rastrear o culpado.
â Quem deve pensar por aqui sou eu, Tom. Esse Ă© o meu trabalho.
â Claro.
â Venha cĂĄ. Quero que vocĂȘ observe como o Roosevelt faz os pacotes.
Foram até a mesa de Roosevelt.
Roosevelt estava no trabalho havia treze anos.
Ficaram observando Roosevelt embalar os dispositivos de luz.
â VĂȘ como ele faz? â perguntou Brock.
â Bem, sim...
â O que eu quero dizer Ă© o seguinte: veja como ele faz o empacotamento... ele ergue e deixa cair lĂĄ dentro... Ă© como tocar piano.
â Mas desse jeito ele nĂŁo estĂĄ protegendo o dispositivo...
â Claro que estĂĄ. Ele o estĂĄ acomodando, nĂŁo consegue ver?
Tom discretamente inspirou e expirou.
â Tudo bem, Brock, estĂĄ bem acomodado...
â Faça como ele...
Brock deu uma circulada na mĂŁo esquerda e a cravou lĂĄ dentro.
â A propĂłsito, sua linha de montagem estĂĄ atrasada...
â Claro. VocĂȘ estava falando comigo.
â Isso Ă© problema seu. Vai ter que recuperar agora.
Brock enfiou mais uma vez os dedos e depois se afastou.
Roosevelt ria em silĂȘncio.
â Acomode, filho da puta!
Tom riu.
â Quanta merda serĂĄ que um cara tem que aguentar apenas pra se manter vivo?
â Muita â veio a resposta â, e nunca para...
Tom voltou para sua mesa e conseguiu recuperar o prejuĂzo. E quando Brock olhava para ele, empacotava com a tĂ©cnica da âacomodaçãoâ. E Brock sempre parecia estar de olho nele.
Por fim, chegou a hora do almoço, trinta minutos de intervalo. Mas para muitos dos trabalhadores a hora do almoço não significa fazer uma refeição, mas sim descer até a Vila e entornar garrafas e mais garrafas de cerveja, preparando-se para enfrentar o turno da tarde.
Alguns dos caras as misturavam com anfetaminas. Outros, com barbitĂșricos. Muitos com anfetaminas e barbitĂșricos, levando tudo goela abaixo com uma cerveja.
Do lado de fora da fĂĄbrica, no estacionamento, havia mais gente, sentada no interior de carros velhos, reunida em grupos diferentes. Os mexicanos ficavam num, e os negros, noutro, e Ă s vezes, ao contrĂĄrio do que acontecia nos presĂdios, eles se misturavam. NĂŁo havia muitos brancos, apenas alguns sulistas, sempre silenciosos. Mas Tom gostava de toda a rapaziada.
O Ășnico problema no lugar era o Brock.
Durante aquele almoço, Tom estava em seu carro com Ramon.
Ramon abriu a mĂŁo e lhe mostrou um enorme comprimido amarelo. Parecia uma bala quebra-queixo.
â Ei, cara, experimente isso. VocĂȘ vai ficar totalmente na paz. Quatro ou cinco horas parecem cinco minutos. E vocĂȘ vai se sentir FORTE, nada farĂĄ vocĂȘ cansar...
â Obrigado, Ramon, mas eu jĂĄ estou na maior merda.
â Mas isso aqui Ă© justamente pra tirar vocĂȘ da merda, nĂŁo sacou?
Tom nĂŁo respondeu.
â Beleza â disse Ramon â, eu jĂĄ tinha tomado o meu, mas fico com o seu tambĂ©m!
Colocou o comprimido na boca, ergueu a garrafa de cerveja e tomou um bom gole. Tom ficou olhando aquele comprimido gigantesco, dava para vĂȘ-lo descer pela garganta de Ramon. AtĂ© que enfim foi engolido.
Ramon se virou devagar na direção de Tom e sorriu:
â Veja, a porra do negĂłcio nem chegou no meu estĂŽmago e jĂĄ estou me sentindo melhor!
Tom riu.
Ramon tomou mais um gole de cerveja, depois acendeu um cigarro. Para um homem que supostamente estava se sentindo tão bem ele parecia sério demais.
â Sabe, cara, sou um homem de merda... nĂŁo posso nem dizer que sou homem... Olha sĂł, na noite passada tentei comer a minha esposa... Ela engordou uns vinte quilos este ano... Preciso me embebedar pra conseguir... Bombei e bombei, cara, e nada... O pior de tudo, fiquei com pena dela... Disse que era por causa do trabalho. E era por causa do trabalho, mas tambĂ©m nĂŁo era. Ela se levantou e ligou a tevĂȘ...
Ramon continuou:
â Cara, tudo mudou. HĂĄ um ou dois anos atrĂĄs, tudo era divertido entre a gente, interessante, eu e a minha esposa... RĂamos de qualquer coisa... Agora nĂŁo hĂĄ mais nada disso... O que a gente tinha se perdeu, nĂŁo sei onde foi parar...
â Sei como Ă© isso, Ramon...
Ramon se endireitou com rapidez, como se recebesse uma mensagem:
â Merda, cara, estĂĄ na nossa hora!
â Vamos lĂĄ!
Tom retornava da linha de montagem com um dispositivo e Brock o esperava. Brock disse:
â Tudo bem, deixe isso aĂ. Venha comigo.
Seguiram até a linha de montagem.
E lĂĄ estava Ramon com seu pequeno avental marrom e seu bigodinho.
â Fique Ă esquerda dele â disse Brock.
Brock ergueu a mĂŁo e a maquinaria começou a funcionar. A esteira movia os dispositivos de um metro em direção a eles num ritmo firme mas previsĂvel.
Ramon tinha esse enorme rolo de papel à sua frente, uma bobina aparentemente interminåvel de pesado papel marrom. Surgiu o primeiro dispositivo de luz vindo da linha de montagem. Ele rasgou um pedaço de papel, abriu-o sobre a mesa, e em seguida colocou o dispositivo de luz sobre ele. Dobrou o papel ao meio, prendendo-o com durex. Depois dobrou as pontas em triùngulo, primeiro a esquerda, depois a direita, e então o dispositivo seguiu na direção de Tom.
Tom cortou um pedaço de fita adesiva e a fez deslizar com cuidado sobre o topo do dispositivo, onde o papel deveria ser selado. Então, com pedaços menores, terminou de fixar a dobra da esquerda e depois a da direita. Depois ergueu o pesado dispositivo, deu meia-volta, seguiu por um corredor e colocou-o direitinho num suporte de parede, onde aguardaria por um dos empacotadores. Por fim retornou à mesa em que outro dispositivo jå vinha em sua direção.
Era o pior trabalho em toda a fĂĄbrica e todo mundo sabia disso.
â Agora vocĂȘ vai trabalhar com o Ramon, Tom...
Brock se afastou. Não havia necessidade alguma de vigiå-lo: se Tom não executasse a função com propriedade, a linha de montagem inteira pararia.
Ninguém aguentava muito tempo como o segundo de Ramon.
â Sabia que vocĂȘ ia precisar do amarelĂŁo â disse Ramon com um sorriso.
Os dispositivos se moviam sem parar na direção deles. Tom cortava metros e mais metros de fita durex da mĂĄquina Ă sua frente. Era uma fita reluzente, grossa e pegajosa. Esforçava-se ao mĂĄximo para manter o acelerado ritmo de trabalho, mas, para acompanhar Ramon, algumas precauçÔes tinham de ser eliminadas: a ponta cortante da mĂĄquina de durex acabava por provocar, ocasionalmente, cortes longos e profundos em suas mĂŁos. Os cortes eram quase invisĂveis e quase nunca sangravam, mas, ao olhar para seus dedos e suas palmas, podia ver as linhas brilhantes e vermelhas na pele. NĂŁo havia nenhuma pausa. Os dispositivos pareciam se mover cada vez mais rĂĄpido e a cada momento se tornavam mais e mais pesados.
â Caralho â disse Tom â, vou ter que desistir. Acho que atĂ© dormir no banco da praça Ă© melhor.
â Claro â disse Ramon â, claro, qualquer coisa Ă© melhor do que essa merda...
Ramon trabalhava com um sorriso fixo e insano no rosto, negando a impossibilidade daquilo tudo. E entĂŁo a maquinaria parou, como ocorria de vez em quando.
Que dĂĄdiva dos deuses foi aquilo!
Alguma parte havia enguiçado, superaquecido. Sem esses colapsos das mĂĄquinas, muitos dos trabalhadores nĂŁo aguentariam. Durante essas pausas de dois ou trĂȘs minutos, eles conseguiam reorganizar seus sentidos e suas almas. Quase.
Os mecĂąnicos lutavam com energia para encontrar a causa da falha.
Tom espichou os olhos para as garotas mexicanas que trabalhavam na linha de montagem. Para ele, elas eram todas lindas. Desperdiçavam o seu tempo, entregavam-se a uma vida tola e marcada pela rotina do trabalho, mas ainda assim mantinham alguma coisa em si, alguma coisa não identificåvel. Boa parte delas usava pequenas fitas nos cabelos: azuis, amarelas, verdes, vermelhas... E faziam piadas entre si e riam o tempo todo. Mostravam uma coragem enorme. Seus olhos conheciam alguma coisa da vida.
Mas os mecùnicos eram bons, muito bons, e a maquinaria jå voltava a funcionar. Os dispositivos de luz se moviam outra vez na direção de Tom e Ramon. Todos estavam de novo a soldo da Companhia Sunray.
E depois de certo tempo, Tom ficou tĂŁo cansado que hĂĄ muito jĂĄ nĂŁo se poderia mais chamar cansaço o que sentia, era como estar bĂȘbado, era como estar enlouquecendo, era como estar bĂȘbado e louco de uma sĂł vez.
Ao aplicar mais um pedaço de durex em um dispositivo de luz, ele gritou:
â SUNRAY!
Talvez tivesse sido o tom, talvez o momento do grito. Seja como for, todos começaram a rir, as mexicanas, os empacotadores, os mecùnicos, mesmo o velho que se ocupava de lubrificar e conferir a maquinaria, todos riam. Loucura total.
Brock se aproximou.
â O que estĂĄ acontecendo? â perguntou.
Ele ficou em silĂȘncio.
Os dispositivos surgiam e partiam; os trabalhadores permaneciam.
Então, de alguma maneira, como despertar de um pesadelo, o dia terminou. Foram até o painel apanhar seus cartÔes, esperaram na fila para bater o relógio-ponto.
Tom bateu o ponto, colocou o cartĂŁo de volta no painel e seguiu na direção do seu carro. Deu a partida e ganhou a rua, pensando: âEspero que ninguĂ©m se atravesse no meu caminho, estou tĂŁo fraco que acho que nĂŁo conseguiria nem pisar no freioâ.
Tom dirigia com a gasolina no vermelho. Estava cansado demais para parar num posto de gasolina.
Deu um jeito de estacionar, chegou até a porta, abriu-a e entrou.
A primeira coisa que viu foi Helena, sua esposa. Vestia uma camisola suja e frouxa, estirada no sofå, a cabeça sobre um travesseiro. Sua boca estava aberta, ela roncava. Tinha uma boca bastante redonda, e seu ronco era uma mistura de cuspida e engasgo, como se não pudesse se decidir entre cuspir o que lhe restava de vida ou engoli-la.
Era uma mulher infeliz. Sentia que sua vida era incompleta.
Uma garrafa de meio litro de gim estava sobre a mesa de centro. TrĂȘs quartos tinham sido consumidos.
Os dois filhos de Tom, Rob e Bob, de cinco e sete anos, batiam uma bolinha de tĂȘnis contra a parede. Era a parede do lado sul da casa, a que nĂŁo tinha nenhum mĂłvel. A parede uma vez fora branca, mas agora trazia as marcas da sujeira das infinitas rebatidas das bolinhas de tĂȘnis.
Os garotos não prestaram nenhuma atenção à chegada do pai. Haviam parado de jogar a bolinha contra a parede. Discutiam agora.
â EU ELIMINEI VOCĂ!
â NĂO, TEM QUE SER QUATRO BOLAS!
â TRĂS JĂ ESTĂ FORA!
â QUATRO!
â Ei, sĂł um pouquinho â interveio Tom â, posso perguntar uma coisa pra vocĂȘs?
Os dois pararam e o encararam, quase ofendidos.
â Ă isso aĂ â disse Bob por fim. Ele era o garoto de sete anos.
â Como vocĂȘs conseguem jogar basebol batendo uma bolinha de tĂȘnis contra a parede?
Olharam para Tom, mas logo o ignoraram.
â TRĂS ESTĂ FORA!
â NĂO, SĂ NA BOLA QUATRO!
Tom seguiu até a cozinha. Havia uma panela branca no fogão. Uma fumaça negra se erguia de seu interior. Tom ergueu a tampa. O fundo estava enegrecido, com batatas, cenouras e pedaços de carne, tudo queimado. Tom fechou a panela e desligou o fogo.
Avançou até a geladeira. Havia uma latinha de cerveja ali. Pegou e abriu, tomou um gole.
O som da bolinha de tĂȘnis contra a parede recomeçou.
Em seguida um outro som: Helena. Ela havia trombado em alguma coisa. E agora estava ali, de pé na cozinha. Na mão direita segurava a garrafinha de gim.
â VocĂȘ deve estar puto, nĂŁo Ă©?
â SĂł queria que vocĂȘ desse comida para as crianças...
â VocĂȘ me deixa a porra de 3 dĂłlares por dia. O que vou fazer com a porra de 3 dĂłlares?
â Podia ao menos comprar papel higiĂȘnico. Toda vez que quero limpar a bunda, olho em volta e sĂł tem um rolo vazio ali.
â Ei, uma mulher tambĂ©m tem os seus problemas! COMO VOCĂ ACHA QUE EU VIVO? Todo dia vocĂȘ sai pro mundo, vocĂȘ sai e vĂȘ como a vida Ă© lĂĄ fora! Eu tenho que ficar sentada aqui! NĂŁo sabe o que Ă© isso um dia depois do outro.
â Pois Ă©, tem isso...
Helena tomou um gole de gim.
â VocĂȘ sabe que eu te amo, Tommy, e que quando vocĂȘ estĂĄ infeliz isso me machuca, machuca de verdade, aqui no peito.
â Tudo bem, Helena, vamos nos sentar aqui e manter a calma.
Tom foi até a mesa da cozinha e se sentou. Helena trouxe a garrafa consigo e ocupou um lugar na frente dele. Olhou-o.
â Por Deus, o que houve com as suas mĂŁos?
â Trabalho novo. Tenho que descobrir uma maneira de proteger minhas mĂŁos... Uma fita adesiva, luvas de borracha... alguma coisa...
Havia terminado sua latinha.
â Escute, Helena, tem mais desse gim por aĂ?
â Sim, acho que sim...
Observou-a seguir na direção do guarda-louça, esticar o braço e apanhar uma garrafa das de meio litro. Colocou-a sobre a mesa e se sentou. Tom retirou o lacre e a tampa.
â Quantas dessas vocĂȘ tem por aĂ?
â Algumas...
â Bom. Como se bebe esse negĂłcio? Puro?
â Ă...
Tom tomou um bom gole. Depois olhou para as mĂŁos, abrindo e fechando as duas, observando as feridas vermelhas que se expandiam e se contraĂam. Eram fascinantes.
Pegou a garrafa, despejou um pouco de gim sobre uma das palmas e em seguida esfregou uma mĂŁo na outra.
â Ai! Essa porra arde!
Helena tomou outro gole de sua garrafa.
â Tom, por que vocĂȘ nĂŁo arranja outro trabalho?
â Outro trabalho? Onde? Tem uns cem caras querendo o meu...
EntĂŁo Rob e Bob entraram correndo. Detiveram-se junto Ă mesa.
â Ei â disse Bob â, quando a gente vai comer?
Tom olhou para Helena.
â Acho que tenho algumas salsichas â ela disse.
â Salsichas de novo? â perguntou Rob. â Salsichas de novo? Odeio essas salsichas!
Tom olhou para o filho.
â Ei, camarada, pega leve...
â Bem â disse Bob â, entĂŁo que tal um gole dessa bebidinha de merda aĂ?
â Seu miserĂĄvel! â gritou Helena.
Estendeu o braço e mandou um tapa, forte, de mão aberta, na orelha de Bob.
â NĂŁo bata nas crianças, Helena â disse Tom â, jĂĄ tive o bastante disso quando era pequeno.
â NĂŁo me diga como educar os meus filhos!
â SĂŁo meus tambĂ©m...
Bob estava ali de pé, parado. Sua orelha estava muito vermelha.
â EntĂŁo vocĂȘ quer uma bebidinha, nĂŁo Ă©? â perguntou Tom.
Bob nĂŁo respondeu.
â Venha cĂĄ â disse Tom.
Bob se aproximou de seu pai. Tom lhe estendeu a garrafa.
â Vamos lĂĄ, beba. Beba a porra da sua bebida.
â Tom, o que vocĂȘ estĂĄ fazendo? â perguntou Helena.
â Vamos lĂĄ... beba â disse Tom.
Bob ergueu a garrafa de meio litro, tomou um gole. Devolveu-a e ficou ali parado. De repente começou a empalidecer, até mesmo sua orelha vermelha começou a ficar branca. Tossiu.
â Esse negĂłcio Ă© HORRĂVEL! Ă como beber perfume! Por que vocĂȘs bebem isso.
â Porque a gente Ă© idiota. Porque vocĂȘs tĂȘm uns pais idiotas. Agora vĂĄ para o quarto e leve o seu irmĂŁo junto com vocĂȘ...
â A gente pode ver tevĂȘ lĂĄ? â perguntou Rob.
â Tudo bem, mas andem duma vez...
Os dois saĂram.
â SĂł o que falta vocĂȘ transformar os meus filhos em bĂȘbados! â disse Helena.
â Espero apenas que eles tenham mais sorte do que a gente na vida.
Helena tomou um gole de sua garrafa. Secou-a.
Ela se levantou, tirou a panela queimada do fogo e jogou a comida no lixo.
â Pra que fazer tanto barulho? Quem precisa dessa barulheira toda! â disse Tom.
Helena parecia chorar.
â Tom, o que a gente vai fazer?
Ligou a ĂĄgua quente e despejou na panela.
â Fazer? â perguntou Tom. â Do que vocĂȘ estĂĄ falando?
â Desse nosso modo de vida!
â NĂŁo hĂĄ muito que a gente possa fazer.
Helena raspou a comida grudada e despejou um pouco de sabão na panela, depois foi até o guarda-louça e sacou mais uma garrafa de meio litro de gim. Contornou a mesa e se sentou de frente para Tom, abrindo a garrafa.
â Ă preciso deixar a panela de molho por um tempo... Depois eu ponho as salsichas...
Tom bebia da sua garrafa, deixando a bebida assentar.
â Amor, vocĂȘ Ă© uma bebum, uma gambĂĄ.
As lĂĄgrimas ainda estavam lĂĄ.
â Ah, sim, bem, quem vocĂȘ acha que me deixou assim? UMA CHANCE!
â Essa Ă© fĂĄcil â respondeu Tom â, duas pessoas: vocĂȘ e eu.
Helena tomou o primeiro gole da nova garrafa. Com isso, de imediato, as lĂĄgrimas desapareceram. Riu de mansinho.
â Ei, tive uma ideia! Posso conseguir emprego como garçonete ou algo assim... AĂ vocĂȘ poderia descansar um pouco, sabe... O que vocĂȘ acha?
Tom estendeu sua mĂŁo por sobre a mesa e tomou uma das mĂŁos de Helena.
â VocĂȘ Ă© uma boa garota, mas vamos deixar tudo como estĂĄ.
EntĂŁo as lĂĄgrimas voltaram a brotar. Helena era boa com as lĂĄgrimas, principalmente quando bebia gim.
â Tommy, vocĂȘ ainda me ama?
â Claro, baby, vocĂȘ Ă© maravilhosa quando estĂĄ bem.
â Eu tambĂ©m te amo, Tom, vocĂȘ sabe disso...
â Claro, baby, o mesmo aqui!
Tom ergueu sua garrafa. Helena a dela.
Brindaram com as garrafas de gim em pleno ar, entĂŁo cada um bebeu da sua.
No quarto, Rob e Bob mantinham o rĂĄdio ligado, a todo volume. Havia uma claque no programa e as pessoas da claque nĂŁo paravam de gargalhar. Gargalhavam e gargalhavam e gargalhavam
e gargalhavam.
â Septuagenarian Stew
Miami foi o lugar mais distante ao qual conseguir chegar sem deixar o paĂs. Levei Henry Miller comigo e tentei lĂȘ-lo ao longo do percurso. Ele era bom quando era bom, e vice-versa. Tomei uma garrafa de uĂsque. Depois outra e ainda outra. A viagem levou quatro dias e cinco noites. Fora uns amassos com uma jovem morena cujos pais nĂŁo podiam mais lhe pagar a faculdade, nada de mais ocorreu. Ela deixou o ĂŽnibus no meio da noite em uma parte particularmente estĂ©ril e fria do paĂs e desapareceu. Eu sempre tive insĂŽnia na estrada, e o Ășnico modo de dormir em um ĂŽnibus era enchendo completamente a cara. Mas nĂŁo me arriscava a fazer isso. Quando chegamos ao destino, eu mal havia dormido ou cagado por cinco dias e mal conseguia caminhar. Era cedo da noite. A sensação de estar novamente caminhando pelas ruas era deliciosa.
QUARTOS PARA ALUGAR. Aproximei-me e toquei a campainha. Nessas circunstĂąncias, a atitude mais sĂĄbia era deixar a mala fora do alcance da visĂŁo da pessoa que abrisse a porta.
â Procuro um quarto. Quanto custa?
â US$ 6,50 por semana.
â Posso dar uma olhada?
â Claro.
Entrei e a segui pela escada. Devia ter uns 45, mas sua bunda balançava de um modo legal. Sempre que seguia essas mulheres escada acima, como agora, eu pensava que, se uma dessas senhoras se oferecesse para tomar conta de mim, oferecendo-me refeiçÔes quentes e roupas limpas para vestir, eu aceitaria.
Ela abriu a porta, e eu dei uma olhada no interior.
â Tudo bem â eu disse â, parece um bom lugar.
â VocĂȘ tem emprego?
â Mais ou menos.
â Posso perguntar o que vocĂȘ faz?
â Sou escritor.
â Oh, vocĂȘ jĂĄ escreveu livros?
â Oh, ainda nĂŁo estou pronto pra escrever um romance. Por enquanto escrevo artigos, alguma coisa para revistas. Os textos nĂŁo sĂŁo grande coisa, mas estou melhorando.
â Tudo bem. Vou lhe dar uma chave e fazer um recibo.
Seguia-a novamente pela escada. O rabo nĂŁo se movimentava com a mesma beleza descendo os degraus. Olhei sua nuca e me imaginei a beijĂĄ-la atrĂĄs das orelhas.
â Sou a sra. Adams â ela disse. â E vocĂȘ?
â Henry Chinaski.
Enquanto ela preenchia o recibo, eu escutava uns sons que lembravam o de uma madeira sendo serrada, vindos detrĂĄs de uma porta que ficava Ă nossa esquerda. O som de serragem era pontuado pelo ofegar de uma respiração penosa. Cada tomada de ar parecia ser a Ășltima, ainda que logo fosse sucedida por outra mais dolorosa.
â Meu marido estĂĄ doente â disse a sra. Adams ao me passar o recibo e a chave. Sorriu. Seus olhos brilhantes tinham uma adorĂĄvel cor de avelĂŁ. Dei meia-volta e segui pela escada.
Quando entrei no meu quarto, lembrei que havia deixado minha mala lĂĄ embaixo. Fui buscĂĄ-la. Ao passar pela porta da sra. Adams, os ofegos estavam muito mais altos. Levei minha mala escada acima, lancei-a sobre a cama, voltei a descer e ganhei a noite. Encontrei uma espĂ©cie de bulevar principal seguindo um pouco para o norte, entrei em uma mercearia e comprei um pote de manteiga de amendoim e um pĂŁo de sanduĂche. Tinha uma faquinha de bolso e poderia assim espalhar a manteiga no pĂŁo e ter algo para comer.
Quando retornei Ă pensĂŁo, parei no saguĂŁo e fiquei com os ouvidos no sr. Adams, pensando, eis a Morte. Fui para o meu quarto, abri o pote de manteiga de amendoim e, enquanto escutava os sons do moribundo que vinham do tĂ©rreo, mergulhei meus dedos fundo no vidro. Comi a pasta direto dos dedos. Estava uma delĂcia. EntĂŁo abri o pĂŁo. Estava verde e Ășmido, exalando um cheiro azedo e forte. Como podiam vender um pĂŁo nesse estado? Que tipo de lugar era a FlĂłrida? Joguei o pĂŁo no chĂŁo, tirei a roupa, apaguei as luzes, puxei as cobertas e me deitei no escuro, escutando.
Encontrei um emprego nos classificados do jornal. Fui contratado por uma loja de roupas, mas nĂŁo em Miami, e sim em Miami Beach, e a cada manhĂŁ eu tinha que enfrentar uma travessia aquĂĄtica junto com a minha ressaca. O ĂŽnibus corria por uma faixa muito estreita de cimento e ficava junto Ă ĂĄgua sem qualquer forma de guard-rail, nenhuma proteção. SĂł havia a pista. O motorista se recostava, e nĂłs seguĂamos sobre essa faixa estreita de cimento completamente cercada pela ĂĄgua, e todos a bordo, as vinte e cinco ou trinta pessoas, confiavam nele, mas eu jamais. Ăs vezes, era um motorista novo, e eu pensava, como eles selecionam esses filhos da puta? Havia ĂĄgua profunda nos dois lados, e um erro de julgamento mataria a todos nĂłs. Isso era ridĂculo. Suponha que ele tenha brigado com sua mulher naquela manhĂŁ? Ou que tenha cĂąncer? Ou que tenha visĂ”es de Deus? Um dente podre? Qualquer coisa. Seria o suficiente para ele. LĂĄ estarĂamos nĂłs no fundo do mar. Sei que, se eu estivesse dirigindo, consideraria a possibilidade ou o desejo de afogar todo mundo. E algumas vezes, depois de ter feito essas consideração, a possibilidade passaria Ă ação. Para cada Joana dâArc hĂĄ um Hitler suspenso do outro lado da balança. A velha histĂłria do bem e do mal. Mas nenhum dos motoristas jamais nos lançou no mar. Por suas cabeças nĂŁo passava mais do que prestaçÔes do carro, resultados do beisebol, cortes de cabelo, fĂ©rias, enemas, visitas familiares. NĂŁo havia um homem de verdade entre toda aquela merda. Eu sempre chegava enjoado no trabalho, ainda que em segurança. O que demonstra porque Schumann Ă© melhor termo de comparação que Shostakovich...
Fui contratado para o que eles chamavam de bola extra. O bola extra era o cara que fazia de tudo sem ter, ao mesmo tempo, nenhuma atividade especĂfica. Ele devia saber o que fazer apĂłs consultar uma espĂ©cie profunda e infalĂvel de sexto sentido. Instintivamente, esse cara devia saber como manter as coisas funcionando de modo natural, o que era melhor para a empresa, a MĂŁe de todos, e suprir-lhe todas as pequenas necessidades que eram irracionais, contĂnuas e insignificantes.
Um bom bola extra nĂŁo tem face nem sexo e deve estar disposto a se sacrificar pela causa. EstĂĄ sempre esperando junto Ă porta, antes mesmo do primeiro homem chegar. Logo deve lavar a calçada, cumprimentando cada pessoa pelo nome Ă medida que elas chegam, sempre trazendo no rosto um sorriso brilhante e encorajador. Reverente. Isso farĂĄ com que todos se sintam melhores antes que as engrenagens do moedor comecem a funcionar. Ele verifica se os papĂ©is higiĂȘnicos estĂŁo em ordem, principalmente no banheiro feminino. Os cestos nunca devem estar cheios. As janelas nĂŁo podem estar encardidas. Os pequenos reparos sĂŁo prontamente feitos em mesas e cadeiras. Nada de portas que nĂŁo abram facilmente. Os relĂłgios sempre ajustados. Nenhum tapete enrugado. Jamais deixar uma mulher bem-alimentada e forte ficar sobrecarregada por um pacotinho qualquer.
Eu nĂŁo era muito bom nisso. Minha ideia era vagar por aĂ sem fazer nada, evitando sempre cruzar com o chefe, alĂ©m dos puxa-sacos que poderiam me denunciar. Eu nĂŁo era tĂŁo esperto assim. Agia mais por instinto do que qualquer outra coisa. Sempre iniciava um trabalho com a sensação de que, assim que eu o terminasse, seria demitido, e isso me deu um ar tranquilo, que era facilmente confundido com inteligĂȘncia ou algum poder secreto.
Era um comércio de roupas autossuficiente e autoabastecido, combinando fåbrica e venda no atacado. O mostruårio, os produtos finalizados e os vendedores ficavam todos no primeiro andar, enquanto a fåbrica funcionava no segundo. A fåbrica era um labirinto de passarelas e passagens que nem mesmo os ratos conseguiam vencer, longas e estreitas galerias onde homens e mulheres trabalhavam sob lùmpadas de trinta watts, inclinados, movendo os pedais, costurando, sem jamais erguer os olhos ou trocar uma palavra, curvos e calados, trabalhando incessantemente.
Certa vez, em um de meus empregos em Nova York, eu tinha trabalhado transportando tecido para fĂĄbricas como essa. Eu seguia com o caminhĂŁo por uma rua congestionada, vencendo o trĂĄfego, e entĂŁo entrava em uma ruela atrĂĄs de um prĂ©dio encardido. Havia um elevador escuro, e eu tinha que puxar umas cordas por umas roldanas de madeira. Uma das cordas era para subir, a outra para descer. NĂŁo havia luz e, enquanto o elevador subia lentamente, eu ficava de olho nos nĂșmeros brancos sobre a parede nua, nĂșmeros que brotavam da escuridĂŁo â 3, 7, 9, rabiscados a giz por uma mĂŁo esquecida. Chegava ao meu andar, puxava outra corda com meus dedos e, usando toda a minha força, abria com esforço e devagar uma velha e pesada porta de metal, revelando filas e mais filas de velhas senhoras judias sentadas Ă s suas mĂĄquinas, trabalhando nas pilhas de tecidos. A costureira nĂșmero 1 na mĂĄquina 1, inclinada, cuidando do seu espaço. A garota nĂșmero 2 na mĂĄquina 2, pronta para substituĂ-la se fosse necessĂĄrio. Elas jamais erguiam os olhos ou tomavam consciĂȘncia de minha presença.
Nessa mistura de fĂĄbrica e comĂ©rcio em Miami Beach, nĂŁo havia necessidade de entregas. Tudo estava Ă mĂŁo. No meu primeiro dia, andei entre o labirinto de mĂĄquinas de costura olhando para as pessoas. Diferentemente de Nova York, a maioria dos trabalhadores era formada de negros. Aproximei-me de um negro, bem pequeno â quase anĂŁo â, que tinha um rosto mais agradĂĄvel que os outros. Ele fazia algum trabalho de acabamento, com uma agulha. Eu tinha uma garrafinha no bolso.
â Seu trabalho Ă© de matar. Vai um trago?
â Claro â ele disse.
Tomou um bom gole. EntĂŁo devolveu a garrafa. Ofereceu-me um cigarro.
â VocĂȘ Ă© novo na cidade.
â Sim.
â De onde veio?
â Los Angeles.
â Um astro de cinema.
â Sim, de fĂ©rias.
â NĂŁo devia estar falando com um costureiro.
â Eu sei.
Ele ficou em silĂȘncio. Parecia um pequeno macaquinho, um macaco velho e gracioso. Para os caras do andar debaixo, ele era realmente um macaco. Tomei um gole. Sentia-me bem. Observava-os trabalhar, todos quietos sob suas lĂąmpadas de trinta watts, suas mĂŁos movendo-se delicadas e habilidosas.
â Me chamo Henry â eu disse.
â Brad â ele respondeu.
â Escute, Brad, fico muito, mas muito deprimido vendo vocĂȘs trabalharem. Que tal se eu cantar uma mĂșsica pra vocĂȘs?
â NĂŁo.
â Esse seu trabalho aqui Ă© pavoroso. Por que vocĂȘ segue com isso?
â Porra, nĂŁo tenho escolha.
â O Senhor disse que hĂĄ!
â VocĂȘ acredita no Senhor?
â NĂŁo.
â No que vocĂȘ acredita?
â Em nada.
â EntĂŁo estamos quites.
Falei com alguns dos outros empregados. Os homens eram de poucas palavras, algumas das mulheres riam de mim.
â Sou um espiĂŁo â eu ria de volta. â Sou um espiĂŁo da companhia. Estou de olho em todo mundo.
Tomei outro gole. Cantei a eles minha mĂșsica favorita, âMy heart is a Hoboâ. Eles seguiram trabalhando. NinguĂ©m tirou os olhos das roupas. Quando terminei, eles seguiam no labor. Por alguns instantes, houve silĂȘncio. EntĂŁo escutei uma voz:
â Olha sĂł, branquelo, nĂŁo venha mais aqui.
Decidi que o melhor era passar uma mangueira na calçada da frente.
Levou quatro dias e cinco noites para que o ĂŽnibus chegasse a Los Angeles. Como de costume, nĂŁo consegui dormir ou defecar durante a viagem. Houve uma certa excitação quando uma loira enorme embarcou em algum lugar da Louisiana. Naquela noite ela começou a se vender por US$ 2, e todos os homens e uma das mulheres do ĂŽnibus se aproveitaram de sua generosidade, excetuados o motorista e eu. As transaçÔes comerciais se davam Ă noite na parte traseira do veĂculo. Ela se chamava Vera. Usava um batom pĂșrpura e ria por qualquer motivo. Aproximou-se de mim durante uma rĂĄpida parada em uma cafeteria. Plantou-se atrĂĄs de mim e me perguntou:
â Qual Ă©, se acha bom demais pra mim?
NĂŁo respondi.
â Veadinho.
Ao retornar para o lado de um dos seus fregueses, ouvi seus resmungos enojados...
Em Los Angeles, fiz uma ronda nos velhos bares da vizinhança Ă procura de Jan. NĂŁo obtive qualquer sucesso antes de encontrar Whitey Jackson, que estava trabalhando atrĂĄs do balcĂŁo no Pink Mule. Ele me disse que Jan estava trabalhando como camareira no Durham Hotel na Beverly com a Vermont. Fui atĂ© lĂĄ. Eu procurava pelo escritĂłrio da gerĂȘncia quando ela saiu de um dos quartos. Estava com uma boa aparĂȘncia, como se esse tempo longe de mim lhe tivesse feito bem. EntĂŁo ela me viu. NĂŁo fez nada alĂ©m de ficar onde estava, parada, apenas seus olhos foram ficando maiores e mais azuis. AtĂ© que ela disse:
â Hank!
Correu em minha direção e nos abraçamos. Beijou-me com loucura, que tentei retribuir.
â Por Deus â ela disse â, achei que nunca mais fosse ver vocĂȘ!
â Voltei.
â De vez?
â Minha cidade Ă© L.A.
â Afaste-se um pouco â ela disse â, deixe-me ver vocĂȘ.
Dei um passo para trĂĄs, um sorriso aberto no rosto.
â VocĂȘ estĂĄ magro. Perdeu peso â Jan disse.
â VocĂȘ estĂĄ Ăłtima. EstĂĄ com alguĂ©m?
â NĂŁo.
â NĂŁo hĂĄ ninguĂ©m mesmo?
â NinguĂ©m. VocĂȘ sabe que nĂŁo suporto as pessoas.
â Estou feliz que vocĂȘ esteja trabalhando.
â Venha atĂ© o meu quarto â ela disse.
Fui atrĂĄs dela. O quarto era muito pequeno, mas tinha um quĂȘ de agradĂĄvel. VocĂȘ podia olhar o trĂĄfego lĂĄ fora pela janela, ver o semĂĄforo mudar de cor, o garoto vendendo jornal na esquina. Gostei do lugar. Jan se jogou na cama.
â Venha, deite aqui do meu lado â ela disse.
â Estou constrangido.
â Eu te amo, seu idiota, nĂłs jĂĄ trepamos umas 800 vezes, entĂŁo relaxe.
Tirei meus sapatos e me estiquei na cama. Ela ergueu uma das pernas.
â Continua gostando do que vĂȘ?
â Claro que sim! Jan, vocĂȘ terminou seu serviço?
â Sim, com exceção do quarto do sr. Clark. E ele nĂŁo liga muito pra isso. Ele sempre me dĂĄ gorjetas.
â Jan...
â Sim?
â A passagem de ĂŽnibus me deixou pelado. Preciso de um lugar pra ficar atĂ© arranjar um emprego.
â Posso esconder vocĂȘ aqui.
â SĂ©rio?
â Claro.
â Eu te amo, baby â eu disse.
â Cretino â ela respondeu.
Começamos a fazer amor. Estava uma delĂcia. Uma verdadeira e genuĂna delĂcia.
Depois que terminamos, Jan se levantou e abriu uma garrafa de vinho. Abri meu Ășltimo maço de cigarros e sentamos na cama para beber e fumar.
â VocĂȘ estĂĄ todo lĂĄ â ela disse.
â Como assim?
â Digo, nunca conheci um homem como vocĂȘ.
â Ah, Ă©?
â Os outros chegavam sĂł uns dez ou vinte por cento lĂĄ, vocĂȘ estĂĄ lĂĄ inteiro, vocĂȘ todo estĂĄ bem lĂĄ, Ă© tĂŁo diferente.
â NĂŁo sei do que vocĂȘ estĂĄ falando.
â VocĂȘ tem um gancho, vocĂȘ prende as mulheres.
Aquilo fez eu me sentir bem. ApĂłs terminarmos nossos cigarros, voltamos a fazer amor. EntĂŁo Jan me mandou ir buscar mais uma garrafa. Retornei. Eu tinha que retornar.
Fui contratado de imediato por uma companhia de lùmpadas fluorescentes. Ficava na Alameda Street, na direção norte, em um agrupamento de armazéns. Eu trabalhava no balcão. Era uma verdadeira barbada, pois eu apanhava os pedidos em uma cesta, preenchia-os, embrulhava os conjuntos em papelão e os deixava no setor de expedição, cada conjunto etiquetado e com o endereço de entrega. Eu pesava os embrulhos, acrescentava o valor do transporte e ligava para a transportadora para que viesse apanhar as encomendas.
No primeiro dia em que eu estava lĂĄ, no turno da tarde, ouvi um estrondo atrĂĄs de mim, prĂłximo Ă linha de montagem. As velhas caixas de madeira que continham as partes prontas corriam para longe da parede e se espatifavam no chĂŁo â metal e vidro atingindo em cheio o cimento do piso, explodindo, produzindo uma terrĂvel barulheira. Os trabalhadores da linha de montagem correram para o outro lado do prĂ©dio. EntĂŁo tudo ficou em silĂȘncio. O chefe, Mannie Feldman, saiu de seu escritĂłrio.
â Que diabos estĂĄ acontecendo aqui?
Ninguém respondeu.
â Certo, desliguem a linha de montagem! VocĂȘs todos, peguem pregos e martelo e deem um jeito nessas caixas de madeira!
O sr. Feldman retornou para o seu escritĂłrio. NĂŁo havia nada que eu pudesse fazer alĂ©m de me apresentar para ajudĂĄ-los. Nenhum de nĂłs era carpinteiro. Foi preciso toda a tarde e mais da metade da manhĂŁ seguinte para que conseguĂssemos pregar todas as caixas. Ao terminarmos, o sr. Feldman saiu de seu escritĂłrio.
â EntĂŁo, conseguiram? Muito bem, agora me escutem: quero as 939 em cima, as 820 logo abaixo, os lanternins e vidros nas caixas mais de baixo, entenderam? SerĂĄ que hĂĄ alguĂ©m aqui que pode nĂŁo ter entendido o que Ă© pra fazer?
NĂŁo houve nenhuma resposta. As 939 eram as caixas mais pesadas â extremamente pesadas â e ele as queria por cima. Ele era o chefe. Fizemos o que ele mandou. Colocamos as 939 no topo, todo aquele peso, e deixamos as mais leves por baixo. EntĂŁo retornamos ao trabalho. As caixas resistiram o resto do dia e da noite seguinte. Pela manhĂŁ, começamos a ouvir uns rangidos. Eram as caixas cedendo. Os trabalhadores da linha de montagem começaram a se afastar, nĂŁo contendo as gargalhadas. Cerca de dez minutos antes do intervalo da manhĂŁ, todas as caixas desabaram. O sr. Feldman veio correndo de seu escritĂłrio:
â Mas que diabos estĂĄ acontecendo aqui?
Feldman tentava receber seu seguro e decretar falĂȘncia ao mesmo tempo. Na manhĂŁ seguinte, um homem de aspecto muito digno veio da parte do Banco da AmĂ©rica. Ele nos disse para nĂŁo montarmos mais nenhuma caixa. âApenas recolham essa merda do chĂŁoâ, foi o modo como colocou a questĂŁo. Ele se chamava Jennings, Curtis Jennings. Feldman devia ao Banco da AmĂ©rica um caminhĂŁo de dinheiro, e agora eles o queriam de volta, antes que o negĂłcio falisse. Jennings assumiu o controle da companhia. Estava sempre circulando, observando o trabalho de todos. Mergulhou fundo nos livros-caixa de Feldman; verificou as trancas e as janelas e a cerca de segurança em torno ao estacionamento. Veio atĂ© mim:
â NĂŁo use mais a transportadora Sieberling. Foram roubados quatro vezes ao transportarem um de nossos carregamentos entre o Arizona e o Novo MĂ©xico. Alguma razĂŁo em especial pra vocĂȘ estar trabalhando com esse pessoal?
â NĂŁo, nenhuma razĂŁo.
O representante da Sieberling me passava dez centavos por baixo dos panos a cada duzentos quilos em mercadorias despachadas.
Em trĂȘs dias, Jennings demitiu um homem que trabalhava no escritĂłrio principal e o substituiu por trĂȘs jovens mexicanas cheias de disposição para trabalhar por metade do que o outro ganhava. Demitiu tambĂ©m o homem da limpeza e, alĂ©m de ter que despachar as mercadorias, incluiu em meu trabalho a função de motorista da empresa para entregas locais.
Assim que recebi meu primeiro contracheque, me mudei do quartinho de Jan para um apartamento sĂł meu. Ao chegar certa noite, ela havia se mudado para lĂĄ. Ora, foda-se, eu lhe disse, minha terra Ă© sua terra. Pouco tempo depois, tivemos nossa pior briga. Ela foi embora, e eu fiquei bĂȘbado por trĂȘs dias e trĂȘs noites. Assim que recuperei a sobriedade, soube que meu trabalho jĂĄ era. Nunca voltei lĂĄ. Decidi limpar o apartamento. Aspirei o chĂŁo, escovei as esquadrias das janelas, esfreguei a banheira e a pia, encerei o chĂŁo da cozinha, matei todas as aranhas e baratas, esvaziei e lavei os cinzeiros, lavei os pratos, areei a pia da cozinha, estendi toalhas limpas e coloquei um novo rolo de papel higiĂȘnico no banheiro. Devia ser a veadagem chegando, pensei.
Quando Jan finalmente voltou para casa â uma semana depois â, acusou-me de ter trazido uma mulher aqui, pois tudo parecia limpo demais. Ela aparentava uma fĂșria imensa, que nĂŁo passava, obviamente, de disfarce para sua prĂłpria culpabilidade. Eu nĂŁo conseguia entender por que nĂŁo me livrava dela. Era uma adĂșltera compulsiva â ia com qualquer um que conhecesse num bar e, quanto mais baixo e imundo fosse, mais ela gostava. Usava continuamente nossas brigas para se justificar. No Ăntimo, eu seguia me dizendo que todas as mulheres do mundo nĂŁo eram putas, somente a minha.
â FactĂłtum
Tom percebeu isso ao longo do dia de trabalho.
Brock estivera na sua cola por meses. Aqueles olhos redondos e sem vida pareciam estar sempre Ă espreita de Tom. E entĂŁo Tom acabou notando a mĂŁo esquerda, enfiada no cu, escarafunchando.
E Brock estava realmente na sua cola.
Tom executava seu trabalho tão bem quanto os outros. Talvez não mostrasse exatamente o mesmo entusiasmo dos demais, mas cumpria com suas obrigaçÔes.
Ainda assim, Brock nĂŁo deixava de persegui-lo, fazendo comentĂĄrios, despejando sugestĂ”es inĂșteis.
Brock era parente do dono da loja e um posto lhe fora arranjado: chefe de seção.
Naquele dia, Tom terminava de acondicionar o dispositivo de luz num pacote oblongo de um metro de comprimento e o depositou na pilha que estava atrĂĄs da sua mesa de trabalho. Voltou-se para pegar um novo conjunto da linha de montagem.
Brock estava parado Ă sua frente.
â Quero falar com vocĂȘ, Tom...
Brock era alto e magro. Seu corpo se inclinava para frente a partir da cintura. A cabeça estava sempre curvada, como se pendurada em seu pescoço longo e esguio. A boca ficava sempre aberta. Seu nariz era bastante proeminente com narinas muito grandes. Os pés eram grandes e desajeitados. As calças ficavam frouxas em seu corpo magricelo.
â Tom, vocĂȘ nĂŁo estĂĄ fazendo seu trabalho.
â Estou mantendo a mĂ©dia de produção. Do que vocĂȘ estĂĄ falando?
â NĂŁo acho que vocĂȘ esteja empacotando direito. Ă preciso usar mais fita. Tivemos alguns problemas com quebra de materiais e estamos querendo resolver.
â Por que vocĂȘs nĂŁo colocam as iniciais de cada empacotador nas caixas? Assim, se houver algum estrago por causa de mau acondicionamento, vocĂȘs podem rastrear o culpado.
â Quem deve pensar por aqui sou eu, Tom. Esse Ă© o meu trabalho.
â Claro.
â Venha cĂĄ. Quero que vocĂȘ observe como o Roosevelt faz os pacotes.
Foram até a mesa de Roosevelt.
Roosevelt estava no trabalho havia treze anos.
Ficaram observando Roosevelt embalar os dispositivos de luz.
â VĂȘ como ele faz? â perguntou Brock.
â Bem, sim...
â O que eu quero dizer Ă© o seguinte: veja como ele faz o empacotamento... ele ergue e deixa cair lĂĄ dentro... Ă© como tocar piano.
â Mas desse jeito ele nĂŁo estĂĄ protegendo o dispositivo...
â Claro que estĂĄ. Ele o estĂĄ acomodando, nĂŁo consegue ver?
Tom discretamente inspirou e expirou.
â Tudo bem, Brock, estĂĄ bem acomodado...
â Faça como ele...
Brock deu uma circulada na mĂŁo esquerda e a cravou lĂĄ dentro.
â A propĂłsito, sua linha de montagem estĂĄ atrasada...
â Claro. VocĂȘ estava falando comigo.
â Isso Ă© problema seu. Vai ter que recuperar agora.
Brock enfiou mais uma vez os dedos e depois se afastou.
Roosevelt ria em silĂȘncio.
â Acomode, filho da puta!
Tom riu.
â Quanta merda serĂĄ que um cara tem que aguentar apenas pra se manter vivo?
â Muita â veio a resposta â, e nunca para...
Tom voltou para sua mesa e conseguiu recuperar o prejuĂzo. E quando Brock olhava para ele, empacotava com a tĂ©cnica da âacomodaçãoâ. E Brock sempre parecia estar de olho nele.
Por fim, chegou a hora do almoço, trinta minutos de intervalo. Mas para muitos dos trabalhadores a hora do almoço não significa fazer uma refeição, mas sim descer até a Vila e entornar garrafas e mais garrafas de cerveja, preparando-se para enfrentar o turno da tarde.
Alguns dos caras as misturavam com anfetaminas. Outros, com barbitĂșricos. Muitos com anfetaminas e barbitĂșricos, levando tudo goela abaixo com uma cerveja.
Do lado de fora da fĂĄbrica, no estacionamento, havia mais gente, sentada no interior de carros velhos, reunida em grupos diferentes. Os mexicanos ficavam num, e os negros, noutro, e Ă s vezes, ao contrĂĄrio do que acontecia nos presĂdios, eles se misturavam. NĂŁo havia muitos brancos, apenas alguns sulistas, sempre silenciosos. Mas Tom gostava de toda a rapaziada.
O Ășnico problema no lugar era o Brock.
Durante aquele almoço, Tom estava em seu carro com Ramon.
Ramon abriu a mĂŁo e lhe mostrou um enorme comprimido amarelo. Parecia uma bala quebra-queixo.
â Ei, cara, experimente isso. VocĂȘ vai ficar totalmente na paz. Quatro ou cinco horas parecem cinco minutos. E vocĂȘ vai se sentir FORTE, nada farĂĄ vocĂȘ cansar...
â Obrigado, Ramon, mas eu jĂĄ estou na maior merda.
â Mas isso aqui Ă© justamente pra tirar vocĂȘ da merda, nĂŁo sacou?
Tom nĂŁo respondeu.
â Beleza â disse Ramon â, eu jĂĄ tinha tomado o meu, mas fico com o seu tambĂ©m!
Colocou o comprimido na boca, ergueu a garrafa de cerveja e tomou um bom gole. Tom ficou olhando aquele comprimido gigantesco, dava para vĂȘ-lo descer pela garganta de Ramon. AtĂ© que enfim foi engolido.
Ramon se virou devagar na direção de Tom e sorriu:
â Veja, a porra do negĂłcio nem chegou no meu estĂŽmago e jĂĄ estou me sentindo melhor!
Tom riu.
Ramon tomou mais um gole de cerveja, depois acendeu um cigarro. Para um homem que supostamente estava se sentindo tão bem ele parecia sério demais.
â Sabe, cara, sou um homem de merda... nĂŁo posso nem dizer que sou homem... Olha sĂł, na noite passada tentei comer a minha esposa... Ela engordou uns vinte quilos este ano... Preciso me embebedar pra conseguir... Bombei e bombei, cara, e nada... O pior de tudo, fiquei com pena dela... Disse que era por causa do trabalho. E era por causa do trabalho, mas tambĂ©m nĂŁo era. Ela se levantou e ligou a tevĂȘ...
Ramon continuou:
â Cara, tudo mudou. HĂĄ um ou dois anos atrĂĄs, tudo era divertido entre a gente, interessante, eu e a minha esposa... RĂamos de qualquer coisa... Agora nĂŁo hĂĄ mais nada disso... O que a gente tinha se perdeu, nĂŁo sei onde foi parar...
â Sei como Ă© isso, Ramon...
Ramon se endireitou com rapidez, como se recebesse uma mensagem:
â Merda, cara, estĂĄ na nossa hora!
â Vamos lĂĄ!
Tom retornava da linha de montagem com um dispositivo e Brock o esperava. Brock disse:
â Tudo bem, deixe isso aĂ. Venha comigo.
Seguiram até a linha de montagem.
E lĂĄ estava Ramon com seu pequeno avental marrom e seu bigodinho.
â Fique Ă esquerda dele â disse Brock.
Brock ergueu a mĂŁo e a maquinaria começou a funcionar. A esteira movia os dispositivos de um metro em direção a eles num ritmo firme mas previsĂvel.
Ramon tinha esse enorme rolo de papel à sua frente, uma bobina aparentemente interminåvel de pesado papel marrom. Surgiu o primeiro dispositivo de luz vindo da linha de montagem. Ele rasgou um pedaço de papel, abriu-o sobre a mesa, e em seguida colocou o dispositivo de luz sobre ele. Dobrou o papel ao meio, prendendo-o com durex. Depois dobrou as pontas em triùngulo, primeiro a esquerda, depois a direita, e então o dispositivo seguiu na direção de Tom.
Tom cortou um pedaço de fita adesiva e a fez deslizar com cuidado sobre o topo do dispositivo, onde o papel deveria ser selado. Então, com pedaços menores, terminou de fixar a dobra da esquerda e depois a da direita. Depois ergueu o pesado dispositivo, deu meia-volta, seguiu por um corredor e colocou-o direitinho num suporte de parede, onde aguardaria por um dos empacotadores. Por fim retornou à mesa em que outro dispositivo jå vinha em sua direção.
Era o pior trabalho em toda a fĂĄbrica e todo mundo sabia disso.
â Agora vocĂȘ vai trabalhar com o Ramon, Tom...
Brock se afastou. Não havia necessidade alguma de vigiå-lo: se Tom não executasse a função com propriedade, a linha de montagem inteira pararia.
Ninguém aguentava muito tempo como o segundo de Ramon.
â Sabia que vocĂȘ ia precisar do amarelĂŁo â disse Ramon com um sorriso.
Os dispositivos se moviam sem parar na direção deles. Tom cortava metros e mais metros de fita durex da mĂĄquina Ă sua frente. Era uma fita reluzente, grossa e pegajosa. Esforçava-se ao mĂĄximo para manter o acelerado ritmo de trabalho, mas, para acompanhar Ramon, algumas precauçÔes tinham de ser eliminadas: a ponta cortante da mĂĄquina de durex acabava por provocar, ocasionalmente, cortes longos e profundos em suas mĂŁos. Os cortes eram quase invisĂveis e quase nunca sangravam, mas, ao olhar para seus dedos e suas palmas, podia ver as linhas brilhantes e vermelhas na pele. NĂŁo havia nenhuma pausa. Os dispositivos pareciam se mover cada vez mais rĂĄpido e a cada momento se tornavam mais e mais pesados.
â Caralho â disse Tom â, vou ter que desistir. Acho que atĂ© dormir no banco da praça Ă© melhor.
â Claro â disse Ramon â, claro, qualquer coisa Ă© melhor do que essa merda...
Ramon trabalhava com um sorriso fixo e insano no rosto, negando a impossibilidade daquilo tudo. E entĂŁo a maquinaria parou, como ocorria de vez em quando.
Que dĂĄdiva dos deuses foi aquilo!
Alguma parte havia enguiçado, superaquecido. Sem esses colapsos das mĂĄquinas, muitos dos trabalhadores nĂŁo aguentariam. Durante essas pausas de dois ou trĂȘs minutos, eles conseguiam reorganizar seus sentidos e suas almas. Quase.
Os mecĂąnicos lutavam com energia para encontrar a causa da falha.
Tom espichou os olhos para as garotas mexicanas que trabalhavam na linha de montagem. Para ele, elas eram todas lindas. Desperdiçavam o seu tempo, entregavam-se a uma vida tola e marcada pela rotina do trabalho, mas ainda assim mantinham alguma coisa em si, alguma coisa não identificåvel. Boa parte delas usava pequenas fitas nos cabelos: azuis, amarelas, verdes, vermelhas... E faziam piadas entre si e riam o tempo todo. Mostravam uma coragem enorme. Seus olhos conheciam alguma coisa da vida.
Mas os mecùnicos eram bons, muito bons, e a maquinaria jå voltava a funcionar. Os dispositivos de luz se moviam outra vez na direção de Tom e Ramon. Todos estavam de novo a soldo da Companhia Sunray.
E depois de certo tempo, Tom ficou tĂŁo cansado que hĂĄ muito jĂĄ nĂŁo se poderia mais chamar cansaço o que sentia, era como estar bĂȘbado, era como estar enlouquecendo, era como estar bĂȘbado e louco de uma sĂł vez.
Ao aplicar mais um pedaço de durex em um dispositivo de luz, ele gritou:
â SUNRAY!
Talvez tivesse sido o tom, talvez o momento do grito. Seja como for, todos começaram a rir, as mexicanas, os empacotadores, os mecùnicos, mesmo o velho que se ocupava de lubrificar e conferir a maquinaria, todos riam. Loucura total.
Brock se aproximou.
â O que estĂĄ acontecendo? â perguntou.
Ele ficou em silĂȘncio.
Os dispositivos surgiam e partiam; os trabalhadores permaneciam.
Então, de alguma maneira, como despertar de um pesadelo, o dia terminou. Foram até o painel apanhar seus cartÔes, esperaram na fila para bater o relógio-ponto.
Tom bateu o ponto, colocou o cartĂŁo de volta no painel e seguiu na direção do seu carro. Deu a partida e ganhou a rua, pensando: âEspero que ninguĂ©m se atravesse no meu caminho, estou tĂŁo fraco que acho que nĂŁo conseguiria nem pisar no freioâ.
Tom dirigia com a gasolina no vermelho. Estava cansado demais para parar num posto de gasolina.
Deu um jeito de estacionar, chegou até a porta, abriu-a e entrou.
A primeira coisa que viu foi Helena, sua esposa. Vestia uma camisola suja e frouxa, estirada no sofå, a cabeça sobre um travesseiro. Sua boca estava aberta, ela roncava. Tinha uma boca bastante redonda, e seu ronco era uma mistura de cuspida e engasgo, como se não pudesse se decidir entre cuspir o que lhe restava de vida ou engoli-la.
Era uma mulher infeliz. Sentia que sua vida era incompleta.
Uma garrafa de meio litro de gim estava sobre a mesa de centro. TrĂȘs quartos tinham sido consumidos.
Os dois filhos de Tom, Rob e Bob, de cinco e sete anos, batiam uma bolinha de tĂȘnis contra a parede. Era a parede do lado sul da casa, a que nĂŁo tinha nenhum mĂłvel. A parede uma vez fora branca, mas agora trazia as marcas da sujeira das infinitas rebatidas das bolinhas de tĂȘnis.
Os garotos não prestaram nenhuma atenção à chegada do pai. Haviam parado de jogar a bolinha contra a parede. Discutiam agora.
â EU ELIMINEI VOCĂ!
â NĂO, TEM QUE SER QUATRO BOLAS!
â TRĂS JĂ ESTĂ FORA!
â QUATRO!
â Ei, sĂł um pouquinho â interveio Tom â, posso perguntar uma coisa pra vocĂȘs?
Os dois pararam e o encararam, quase ofendidos.
â Ă isso aĂ â disse Bob por fim. Ele era o garoto de sete anos.
â Como vocĂȘs conseguem jogar basebol batendo uma bolinha de tĂȘnis contra a parede?
Olharam para Tom, mas logo o ignoraram.
â TRĂS ESTĂ FORA!
â NĂO, SĂ NA BOLA QUATRO!
Tom seguiu até a cozinha. Havia uma panela branca no fogão. Uma fumaça negra se erguia de seu interior. Tom ergueu a tampa. O fundo estava enegrecido, com batatas, cenouras e pedaços de carne, tudo queimado. Tom fechou a panela e desligou o fogo.
Avançou até a geladeira. Havia uma latinha de cerveja ali. Pegou e abriu, tomou um gole.
O som da bolinha de tĂȘnis contra a parede recomeçou.
Em seguida um outro som: Helena. Ela havia trombado em alguma coisa. E agora estava ali, de pé na cozinha. Na mão direita segurava a garrafinha de gim.
â VocĂȘ deve estar puto, nĂŁo Ă©?
â SĂł queria que vocĂȘ desse comida para as crianças...
â VocĂȘ me deixa a porra de 3 dĂłlares por dia. O que vou fazer com a porra de 3 dĂłlares?
â Podia ao menos comprar papel higiĂȘnico. Toda vez que quero limpar a bunda, olho em volta e sĂł tem um rolo vazio ali.
â Ei, uma mulher tambĂ©m tem os seus problemas! COMO VOCĂ ACHA QUE EU VIVO? Todo dia vocĂȘ sai pro mundo, vocĂȘ sai e vĂȘ como a vida Ă© lĂĄ fora! Eu tenho que ficar sentada aqui! NĂŁo sabe o que Ă© isso um dia depois do outro.
â Pois Ă©, tem isso...
Helena tomou um gole de gim.
â VocĂȘ sabe que eu te amo, Tommy, e que quando vocĂȘ estĂĄ infeliz isso me machuca, machuca de verdade, aqui no peito.
â Tudo bem, Helena, vamos nos sentar aqui e manter a calma.
Tom foi até a mesa da cozinha e se sentou. Helena trouxe a garrafa consigo e ocupou um lugar na frente dele. Olhou-o.
â Por Deus, o que houve com as suas mĂŁos?
â Trabalho novo. Tenho que descobrir uma maneira de proteger minhas mĂŁos... Uma fita adesiva, luvas de borracha... alguma coisa...
Havia terminado sua latinha.
â Escute, Helena, tem mais desse gim por aĂ?
â Sim, acho que sim...
Observou-a seguir na direção do guarda-louça, esticar o braço e apanhar uma garrafa das de meio litro. Colocou-a sobre a mesa e se sentou. Tom retirou o lacre e a tampa.
â Quantas dessas vocĂȘ tem por aĂ?
â Algumas...
â Bom. Como se bebe esse negĂłcio? Puro?
â Ă...
Tom tomou um bom gole. Depois olhou para as mĂŁos, abrindo e fechando as duas, observando as feridas vermelhas que se expandiam e se contraĂam. Eram fascinantes.
Pegou a garrafa, despejou um pouco de gim sobre uma das palmas e em seguida esfregou uma mĂŁo na outra.
â Ai! Essa porra arde!
Helena tomou outro gole de sua garrafa.
â Tom, por que vocĂȘ nĂŁo arranja outro trabalho?
â Outro trabalho? Onde? Tem uns cem caras querendo o meu...
EntĂŁo Rob e Bob entraram correndo. Detiveram-se junto Ă mesa.
â Ei â disse Bob â, quando a gente vai comer?
Tom olhou para Helena.
â Acho que tenho algumas salsichas â ela disse.
â Salsichas de novo? â perguntou Rob. â Salsichas de novo? Odeio essas salsichas!
Tom olhou para o filho.
â Ei, camarada, pega leve...
â Bem â disse Bob â, entĂŁo que tal um gole dessa bebidinha de merda aĂ?
â Seu miserĂĄvel! â gritou Helena.
Estendeu o braço e mandou um tapa, forte, de mão aberta, na orelha de Bob.
â NĂŁo bata nas crianças, Helena â disse Tom â, jĂĄ tive o bastante disso quando era pequeno.
â NĂŁo me diga como educar os meus filhos!
â SĂŁo meus tambĂ©m...
Bob estava ali de pé, parado. Sua orelha estava muito vermelha.
â EntĂŁo vocĂȘ quer uma bebidinha, nĂŁo Ă©? â perguntou Tom.
Bob nĂŁo respondeu.
â Venha cĂĄ â disse Tom.
Bob se aproximou de seu pai. Tom lhe estendeu a garrafa.
â Vamos lĂĄ, beba. Beba a porra da sua bebida.
â Tom, o que vocĂȘ estĂĄ fazendo? â perguntou Helena.
â Vamos lĂĄ... beba â disse Tom.
Bob ergueu a garrafa de meio litro, tomou um gole. Devolveu-a e ficou ali parado. De repente começou a empalidecer, até mesmo sua orelha vermelha começou a ficar branca. Tossiu.
â Esse negĂłcio Ă© HORRĂVEL! Ă como beber perfume! Por que vocĂȘs bebem isso.
â Porque a gente Ă© idiota. Porque vocĂȘs tĂȘm uns pais idiotas. Agora vĂĄ para o quarto e leve o seu irmĂŁo junto com vocĂȘ...
â A gente pode ver tevĂȘ lĂĄ? â perguntou Rob.
â Tudo bem, mas andem duma vez...
Os dois saĂram.
â SĂł o que falta vocĂȘ transformar os meus filhos em bĂȘbados! â disse Helena.
â Espero apenas que eles tenham mais sorte do que a gente na vida.
Helena tomou um gole de sua garrafa. Secou-a.
Ela se levantou, tirou a panela queimada do fogo e jogou a comida no lixo.
â Pra que fazer tanto barulho? Quem precisa dessa barulheira toda! â disse Tom.
Helena parecia chorar.
â Tom, o que a gente vai fazer?
Ligou a ĂĄgua quente e despejou na panela.
â Fazer? â perguntou Tom. â Do que vocĂȘ estĂĄ falando?
â Desse nosso modo de vida!
â NĂŁo hĂĄ muito que a gente possa fazer.
Helena raspou a comida grudada e despejou um pouco de sabão na panela, depois foi até o guarda-louça e sacou mais uma garrafa de meio litro de gim. Contornou a mesa e se sentou de frente para Tom, abrindo a garrafa.
â Ă preciso deixar a panela de molho por um tempo... Depois eu ponho as salsichas...
Tom bebia da sua garrafa, deixando a bebida assentar.
â Amor, vocĂȘ Ă© uma bebum, uma gambĂĄ.
As lĂĄgrimas ainda estavam lĂĄ.
â Ah, sim, bem, quem vocĂȘ acha que me deixou assim? UMA CHANCE!
â Essa Ă© fĂĄcil â respondeu Tom â, duas pessoas: vocĂȘ e eu.
Helena tomou o primeiro gole da nova garrafa. Com isso, de imediato, as lĂĄgrimas desapareceram. Riu de mansinho.
â Ei, tive uma ideia! Posso conseguir emprego como garçonete ou algo assim... AĂ vocĂȘ poderia descansar um pouco, sabe... O que vocĂȘ acha?
Tom estendeu sua mĂŁo por sobre a mesa e tomou uma das mĂŁos de Helena.
â VocĂȘ Ă© uma boa garota, mas vamos deixar tudo como estĂĄ.
EntĂŁo as lĂĄgrimas voltaram a brotar. Helena era boa com as lĂĄgrimas, principalmente quando bebia gim.
â Tommy, vocĂȘ ainda me ama?
â Claro, baby, vocĂȘ Ă© maravilhosa quando estĂĄ bem.
â Eu tambĂ©m te amo, Tom, vocĂȘ sabe disso...
â Claro, baby, o mesmo aqui!
Tom ergueu sua garrafa. Helena a dela.
Brindaram com as garrafas de gim em pleno ar, entĂŁo cada um bebeu da sua.
No quarto, Rob e Bob mantinham o rĂĄdio ligado, a todo volume. Havia uma claque no programa e as pessoas da claque nĂŁo paravam de gargalhar. Gargalhavam e gargalhavam e gargalhavam
e gargalhavam.
â Septuagenarian Stew
Miami foi o lugar mais distante ao qual conseguir chegar sem deixar o paĂs. Levei Henry Miller comigo e tentei lĂȘ-lo ao longo do percurso. Ele era bom quando era bom, e vice-versa. Tomei uma garrafa de uĂsque. Depois outra e ainda outra. A viagem levou quatro dias e cinco noites. Fora uns amassos com uma jovem morena cujos pais nĂŁo podiam mais lhe pagar a faculdade, nada de mais ocorreu. Ela deixou o ĂŽnibus no meio da noite em uma parte particularmente estĂ©ril e fria do paĂs e desapareceu. Eu sempre tive insĂŽnia na estrada, e o Ășnico modo de dormir em um ĂŽnibus era enchendo completamente a cara. Mas nĂŁo me arriscava a fazer isso. Quando chegamos ao destino, eu mal havia dormido ou cagado por cinco dias e mal conseguia caminhar. Era cedo da noite. A sensação de estar novamente caminhando pelas ruas era deliciosa.
QUARTOS PARA ALUGAR. Aproximei-me e toquei a campainha. Nessas circunstĂąncias, a atitude mais sĂĄbia era deixar a mala fora do alcance da visĂŁo da pessoa que abrisse a porta.
â Procuro um quarto. Quanto custa?
â US$ 6,50 por semana.
â Posso dar uma olhada?
â Claro.
Entrei e a segui pela escada. Devia ter uns 45, mas sua bunda balançava de um modo legal. Sempre que seguia essas mulheres escada acima, como agora, eu pensava que, se uma dessas senhoras se oferecesse para tomar conta de mim, oferecendo-me refeiçÔes quentes e roupas limpas para vestir, eu aceitaria.
Ela abriu a porta, e eu dei uma olhada no interior.
â Tudo bem â eu disse â, parece um bom lugar.
â VocĂȘ tem emprego?
â Mais ou menos.
â Posso perguntar o que vocĂȘ faz?
â Sou escritor.
â Oh, vocĂȘ jĂĄ escreveu livros?
â Oh, ainda nĂŁo estou pronto pra escrever um romance. Por enquanto escrevo artigos, alguma coisa para revistas. Os textos nĂŁo sĂŁo grande coisa, mas estou melhorando.
â Tudo bem. Vou lhe dar uma chave e fazer um recibo.
Seguia-a novamente pela escada. O rabo nĂŁo se movimentava com a mesma beleza descendo os degraus. Olhei sua nuca e me imaginei a beijĂĄ-la atrĂĄs das orelhas.
â Sou a sra. Adams â ela disse. â E vocĂȘ?
â Henry Chinaski.
Enquanto ela preenchia o recibo, eu escutava uns sons que lembravam o de uma madeira sendo serrada, vindos detrĂĄs de uma porta que ficava Ă nossa esquerda. O som de serragem era pontuado pelo ofegar de uma respiração penosa. Cada tomada de ar parecia ser a Ășltima, ainda que logo fosse sucedida por outra mais dolorosa.
â Meu marido estĂĄ doente â disse a sra. Adams ao me passar o recibo e a chave. Sorriu. Seus olhos brilhantes tinham uma adorĂĄvel cor de avelĂŁ. Dei meia-volta e segui pela escada.
Quando entrei no meu quarto, lembrei que havia deixado minha mala lĂĄ embaixo. Fui buscĂĄ-la. Ao passar pela porta da sra. Adams, os ofegos estavam muito mais altos. Levei minha mala escada acima, lancei-a sobre a cama, voltei a descer e ganhei a noite. Encontrei uma espĂ©cie de bulevar principal seguindo um pouco para o norte, entrei em uma mercearia e comprei um pote de manteiga de amendoim e um pĂŁo de sanduĂche. Tinha uma faquinha de bolso e poderia assim espalhar a manteiga no pĂŁo e ter algo para comer.
Quando retornei Ă pensĂŁo, parei no saguĂŁo e fiquei com os ouvidos no sr. Adams, pensando, eis a Morte. Fui para o meu quarto, abri o pote de manteiga de amendoim e, enquanto escutava os sons do moribundo que vinham do tĂ©rreo, mergulhei meus dedos fundo no vidro. Comi a pasta direto dos dedos. Estava uma delĂcia. EntĂŁo abri o pĂŁo. Estava verde e Ășmido, exalando um cheiro azedo e forte. Como podiam vender um pĂŁo nesse estado? Que tipo de lugar era a FlĂłrida? Joguei o pĂŁo no chĂŁo, tirei a roupa, apaguei as luzes, puxei as cobertas e me deitei no escuro, escutando.
Encontrei um emprego nos classificados do jornal. Fui contratado por uma loja de roupas, mas nĂŁo em Miami, e sim em Miami Beach, e a cada manhĂŁ eu tinha que enfrentar uma travessia aquĂĄtica junto com a minha ressaca. O ĂŽnibus corria por uma faixa muito estreita de cimento e ficava junto Ă ĂĄgua sem qualquer forma de guard-rail, nenhuma proteção. SĂł havia a pista. O motorista se recostava, e nĂłs seguĂamos sobre essa faixa estreita de cimento completamente cercada pela ĂĄgua, e todos a bordo, as vinte e cinco ou trinta pessoas, confiavam nele, mas eu jamais. Ăs vezes, era um motorista novo, e eu pensava, como eles selecionam esses filhos da puta? Havia ĂĄgua profunda nos dois lados, e um erro de julgamento mataria a todos nĂłs. Isso era ridĂculo. Suponha que ele tenha brigado com sua mulher naquela manhĂŁ? Ou que tenha cĂąncer? Ou que tenha visĂ”es de Deus? Um dente podre? Qualquer coisa. Seria o suficiente para ele. LĂĄ estarĂamos nĂłs no fundo do mar. Sei que, se eu estivesse dirigindo, consideraria a possibilidade ou o desejo de afogar todo mundo. E algumas vezes, depois de ter feito essas consideração, a possibilidade passaria Ă ação. Para cada Joana dâArc hĂĄ um Hitler suspenso do outro lado da balança. A velha histĂłria do bem e do mal. Mas nenhum dos motoristas jamais nos lançou no mar. Por suas cabeças nĂŁo passava mais do que prestaçÔes do carro, resultados do beisebol, cortes de cabelo, fĂ©rias, enemas, visitas familiares. NĂŁo havia um homem de verdade entre toda aquela merda. Eu sempre chegava enjoado no trabalho, ainda que em segurança. O que demonstra porque Schumann Ă© melhor termo de comparação que Shostakovich...
Fui contratado para o que eles chamavam de bola extra. O bola extra era o cara que fazia de tudo sem ter, ao mesmo tempo, nenhuma atividade especĂfica. Ele devia saber o que fazer apĂłs consultar uma espĂ©cie profunda e infalĂvel de sexto sentido. Instintivamente, esse cara devia saber como manter as coisas funcionando de modo natural, o que era melhor para a empresa, a MĂŁe de todos, e suprir-lhe todas as pequenas necessidades que eram irracionais, contĂnuas e insignificantes.
Um bom bola extra nĂŁo tem face nem sexo e deve estar disposto a se sacrificar pela causa. EstĂĄ sempre esperando junto Ă porta, antes mesmo do primeiro homem chegar. Logo deve lavar a calçada, cumprimentando cada pessoa pelo nome Ă medida que elas chegam, sempre trazendo no rosto um sorriso brilhante e encorajador. Reverente. Isso farĂĄ com que todos se sintam melhores antes que as engrenagens do moedor comecem a funcionar. Ele verifica se os papĂ©is higiĂȘnicos estĂŁo em ordem, principalmente no banheiro feminino. Os cestos nunca devem estar cheios. As janelas nĂŁo podem estar encardidas. Os pequenos reparos sĂŁo prontamente feitos em mesas e cadeiras. Nada de portas que nĂŁo abram facilmente. Os relĂłgios sempre ajustados. Nenhum tapete enrugado. Jamais deixar uma mulher bem-alimentada e forte ficar sobrecarregada por um pacotinho qualquer.
Eu nĂŁo era muito bom nisso. Minha ideia era vagar por aĂ sem fazer nada, evitando sempre cruzar com o chefe, alĂ©m dos puxa-sacos que poderiam me denunciar. Eu nĂŁo era tĂŁo esperto assim. Agia mais por instinto do que qualquer outra coisa. Sempre iniciava um trabalho com a sensação de que, assim que eu o terminasse, seria demitido, e isso me deu um ar tranquilo, que era facilmente confundido com inteligĂȘncia ou algum poder secreto.
Era um comércio de roupas autossuficiente e autoabastecido, combinando fåbrica e venda no atacado. O mostruårio, os produtos finalizados e os vendedores ficavam todos no primeiro andar, enquanto a fåbrica funcionava no segundo. A fåbrica era um labirinto de passarelas e passagens que nem mesmo os ratos conseguiam vencer, longas e estreitas galerias onde homens e mulheres trabalhavam sob lùmpadas de trinta watts, inclinados, movendo os pedais, costurando, sem jamais erguer os olhos ou trocar uma palavra, curvos e calados, trabalhando incessantemente.
Certa vez, em um de meus empregos em Nova York, eu tinha trabalhado transportando tecido para fĂĄbricas como essa. Eu seguia com o caminhĂŁo por uma rua congestionada, vencendo o trĂĄfego, e entĂŁo entrava em uma ruela atrĂĄs de um prĂ©dio encardido. Havia um elevador escuro, e eu tinha que puxar umas cordas por umas roldanas de madeira. Uma das cordas era para subir, a outra para descer. NĂŁo havia luz e, enquanto o elevador subia lentamente, eu ficava de olho nos nĂșmeros brancos sobre a parede nua, nĂșmeros que brotavam da escuridĂŁo â 3, 7, 9, rabiscados a giz por uma mĂŁo esquecida. Chegava ao meu andar, puxava outra corda com meus dedos e, usando toda a minha força, abria com esforço e devagar uma velha e pesada porta de metal, revelando filas e mais filas de velhas senhoras judias sentadas Ă s suas mĂĄquinas, trabalhando nas pilhas de tecidos. A costureira nĂșmero 1 na mĂĄquina 1, inclinada, cuidando do seu espaço. A garota nĂșmero 2 na mĂĄquina 2, pronta para substituĂ-la se fosse necessĂĄrio. Elas jamais erguiam os olhos ou tomavam consciĂȘncia de minha presença.
Nessa mistura de fĂĄbrica e comĂ©rcio em Miami Beach, nĂŁo havia necessidade de entregas. Tudo estava Ă mĂŁo. No meu primeiro dia, andei entre o labirinto de mĂĄquinas de costura olhando para as pessoas. Diferentemente de Nova York, a maioria dos trabalhadores era formada de negros. Aproximei-me de um negro, bem pequeno â quase anĂŁo â, que tinha um rosto mais agradĂĄvel que os outros. Ele fazia algum trabalho de acabamento, com uma agulha. Eu tinha uma garrafinha no bolso.
â Seu trabalho Ă© de matar. Vai um trago?
â Claro â ele disse.
Tomou um bom gole. EntĂŁo devolveu a garrafa. Ofereceu-me um cigarro.
â VocĂȘ Ă© novo na cidade.
â Sim.
â De onde veio?
â Los Angeles.
â Um astro de cinema.
â Sim, de fĂ©rias.
â NĂŁo devia estar falando com um costureiro.
â Eu sei.
Ele ficou em silĂȘncio. Parecia um pequeno macaquinho, um macaco velho e gracioso. Para os caras do andar debaixo, ele era realmente um macaco. Tomei um gole. Sentia-me bem. Observava-os trabalhar, todos quietos sob suas lĂąmpadas de trinta watts, suas mĂŁos movendo-se delicadas e habilidosas.
â Me chamo Henry â eu disse.
â Brad â ele respondeu.
â Escute, Brad, fico muito, mas muito deprimido vendo vocĂȘs trabalharem. Que tal se eu cantar uma mĂșsica pra vocĂȘs?
â NĂŁo.
â Esse seu trabalho aqui Ă© pavoroso. Por que vocĂȘ segue com isso?
â Porra, nĂŁo tenho escolha.
â O Senhor disse que hĂĄ!
â VocĂȘ acredita no Senhor?
â NĂŁo.
â No que vocĂȘ acredita?
â Em nada.
â EntĂŁo estamos quites.
Falei com alguns dos outros empregados. Os homens eram de poucas palavras, algumas das mulheres riam de mim.
â Sou um espiĂŁo â eu ria de volta. â Sou um espiĂŁo da companhia. Estou de olho em todo mundo.
Tomei outro gole. Cantei a eles minha mĂșsica favorita, âMy heart is a Hoboâ. Eles seguiram trabalhando. NinguĂ©m tirou os olhos das roupas. Quando terminei, eles seguiam no labor. Por alguns instantes, houve silĂȘncio. EntĂŁo escutei uma voz:
â Olha sĂł, branquelo, nĂŁo venha mais aqui.
Decidi que o melhor era passar uma mangueira na calçada da frente.
Levou quatro dias e cinco noites para que o ĂŽnibus chegasse a Los Angeles. Como de costume, nĂŁo consegui dormir ou defecar durante a viagem. Houve uma certa excitação quando uma loira enorme embarcou em algum lugar da Louisiana. Naquela noite ela começou a se vender por US$ 2, e todos os homens e uma das mulheres do ĂŽnibus se aproveitaram de sua generosidade, excetuados o motorista e eu. As transaçÔes comerciais se davam Ă noite na parte traseira do veĂculo. Ela se chamava Vera. Usava um batom pĂșrpura e ria por qualquer motivo. Aproximou-se de mim durante uma rĂĄpida parada em uma cafeteria. Plantou-se atrĂĄs de mim e me perguntou:
â Qual Ă©, se acha bom demais pra mim?
NĂŁo respondi.
â Veadinho.
Ao retornar para o lado de um dos seus fregueses, ouvi seus resmungos enojados...
Em Los Angeles, fiz uma ronda nos velhos bares da vizinhança Ă procura de Jan. NĂŁo obtive qualquer sucesso antes de encontrar Whitey Jackson, que estava trabalhando atrĂĄs do balcĂŁo no Pink Mule. Ele me disse que Jan estava trabalhando como camareira no Durham Hotel na Beverly com a Vermont. Fui atĂ© lĂĄ. Eu procurava pelo escritĂłrio da gerĂȘncia quando ela saiu de um dos quartos. Estava com uma boa aparĂȘncia, como se esse tempo longe de mim lhe tivesse feito bem. EntĂŁo ela me viu. NĂŁo fez nada alĂ©m de ficar onde estava, parada, apenas seus olhos foram ficando maiores e mais azuis. AtĂ© que ela disse:
â Hank!
Correu em minha direção e nos abraçamos. Beijou-me com loucura, que tentei retribuir.
â Por Deus â ela disse â, achei que nunca mais fosse ver vocĂȘ!
â Voltei.
â De vez?
â Minha cidade Ă© L.A.
â Afaste-se um pouco â ela disse â, deixe-me ver vocĂȘ.
Dei um passo para trĂĄs, um sorriso aberto no rosto.
â VocĂȘ estĂĄ magro. Perdeu peso â Jan disse.
â VocĂȘ estĂĄ Ăłtima. EstĂĄ com alguĂ©m?
â NĂŁo.
â NĂŁo hĂĄ ninguĂ©m mesmo?
â NinguĂ©m. VocĂȘ sabe que nĂŁo suporto as pessoas.
â Estou feliz que vocĂȘ esteja trabalhando.
â Venha atĂ© o meu quarto â ela disse.
Fui atrĂĄs dela. O quarto era muito pequeno, mas tinha um quĂȘ de agradĂĄvel. VocĂȘ podia olhar o trĂĄfego lĂĄ fora pela janela, ver o semĂĄforo mudar de cor, o garoto vendendo jornal na esquina. Gostei do lugar. Jan se jogou na cama.
â Venha, deite aqui do meu lado â ela disse.
â Estou constrangido.
â Eu te amo, seu idiota, nĂłs jĂĄ trepamos umas 800 vezes, entĂŁo relaxe.
Tirei meus sapatos e me estiquei na cama. Ela ergueu uma das pernas.
â Continua gostando do que vĂȘ?
â Claro que sim! Jan, vocĂȘ terminou seu serviço?
â Sim, com exceção do quarto do sr. Clark. E ele nĂŁo liga muito pra isso. Ele sempre me dĂĄ gorjetas.
â Jan...
â Sim?
â A passagem de ĂŽnibus me deixou pelado. Preciso de um lugar pra ficar atĂ© arranjar um emprego.
â Posso esconder vocĂȘ aqui.
â SĂ©rio?
â Claro.
â Eu te amo, baby â eu disse.
â Cretino â ela respondeu.
Começamos a fazer amor. Estava uma delĂcia. Uma verdadeira e genuĂna delĂcia.
Depois que terminamos, Jan se levantou e abriu uma garrafa de vinho. Abri meu Ășltimo maço de cigarros e sentamos na cama para beber e fumar.
â VocĂȘ estĂĄ todo lĂĄ â ela disse.
â Como assim?
â Digo, nunca conheci um homem como vocĂȘ.
â Ah, Ă©?
â Os outros chegavam sĂł uns dez ou vinte por cento lĂĄ, vocĂȘ estĂĄ lĂĄ inteiro, vocĂȘ todo estĂĄ bem lĂĄ, Ă© tĂŁo diferente.
â NĂŁo sei do que vocĂȘ estĂĄ falando.
â VocĂȘ tem um gancho, vocĂȘ prende as mulheres.
Aquilo fez eu me sentir bem. ApĂłs terminarmos nossos cigarros, voltamos a fazer amor. EntĂŁo Jan me mandou ir buscar mais uma garrafa. Retornei. Eu tinha que retornar.
Fui contratado de imediato por uma companhia de lùmpadas fluorescentes. Ficava na Alameda Street, na direção norte, em um agrupamento de armazéns. Eu trabalhava no balcão. Era uma verdadeira barbada, pois eu apanhava os pedidos em uma cesta, preenchia-os, embrulhava os conjuntos em papelão e os deixava no setor de expedição, cada conjunto etiquetado e com o endereço de entrega. Eu pesava os embrulhos, acrescentava o valor do transporte e ligava para a transportadora para que viesse apanhar as encomendas.
No primeiro dia em que eu estava lĂĄ, no turno da tarde, ouvi um estrondo atrĂĄs de mim, prĂłximo Ă linha de montagem. As velhas caixas de madeira que continham as partes prontas corriam para longe da parede e se espatifavam no chĂŁo â metal e vidro atingindo em cheio o cimento do piso, explodindo, produzindo uma terrĂvel barulheira. Os trabalhadores da linha de montagem correram para o outro lado do prĂ©dio. EntĂŁo tudo ficou em silĂȘncio. O chefe, Mannie Feldman, saiu de seu escritĂłrio.
â Que diabos estĂĄ acontecendo aqui?
Ninguém respondeu.
â Certo, desliguem a linha de montagem! VocĂȘs todos, peguem pregos e martelo e deem um jeito nessas caixas de madeira!
O sr. Feldman retornou para o seu escritĂłrio. NĂŁo havia nada que eu pudesse fazer alĂ©m de me apresentar para ajudĂĄ-los. Nenhum de nĂłs era carpinteiro. Foi preciso toda a tarde e mais da metade da manhĂŁ seguinte para que conseguĂssemos pregar todas as caixas. Ao terminarmos, o sr. Feldman saiu de seu escritĂłrio.
â EntĂŁo, conseguiram? Muito bem, agora me escutem: quero as 939 em cima, as 820 logo abaixo, os lanternins e vidros nas caixas mais de baixo, entenderam? SerĂĄ que hĂĄ alguĂ©m aqui que pode nĂŁo ter entendido o que Ă© pra fazer?
NĂŁo houve nenhuma resposta. As 939 eram as caixas mais pesadas â extremamente pesadas â e ele as queria por cima. Ele era o chefe. Fizemos o que ele mandou. Colocamos as 939 no topo, todo aquele peso, e deixamos as mais leves por baixo. EntĂŁo retornamos ao trabalho. As caixas resistiram o resto do dia e da noite seguinte. Pela manhĂŁ, começamos a ouvir uns rangidos. Eram as caixas cedendo. Os trabalhadores da linha de montagem começaram a se afastar, nĂŁo contendo as gargalhadas. Cerca de dez minutos antes do intervalo da manhĂŁ, todas as caixas desabaram. O sr. Feldman veio correndo de seu escritĂłrio:
â Mas que diabos estĂĄ acontecendo aqui?
Feldman tentava receber seu seguro e decretar falĂȘncia ao mesmo tempo. Na manhĂŁ seguinte, um homem de aspecto muito digno veio da parte do Banco da AmĂ©rica. Ele nos disse para nĂŁo montarmos mais nenhuma caixa. âApenas recolham essa merda do chĂŁoâ, foi o modo como colocou a questĂŁo. Ele se chamava Jennings, Curtis Jennings. Feldman devia ao Banco da AmĂ©rica um caminhĂŁo de dinheiro, e agora eles o queriam de volta, antes que o negĂłcio falisse. Jennings assumiu o controle da companhia. Estava sempre circulando, observando o trabalho de todos. Mergulhou fundo nos livros-caixa de Feldman; verificou as trancas e as janelas e a cerca de segurança em torno ao estacionamento. Veio atĂ© mim:
â NĂŁo use mais a transportadora Sieberling. Foram roubados quatro vezes ao transportarem um de nossos carregamentos entre o Arizona e o Novo MĂ©xico. Alguma razĂŁo em especial pra vocĂȘ estar trabalhando com esse pessoal?
â NĂŁo, nenhuma razĂŁo.
O representante da Sieberling me passava dez centavos por baixo dos panos a cada duzentos quilos em mercadorias despachadas.
Em trĂȘs dias, Jennings demitiu um homem que trabalhava no escritĂłrio principal e o substituiu por trĂȘs jovens mexicanas cheias de disposição para trabalhar por metade do que o outro ganhava. Demitiu tambĂ©m o homem da limpeza e, alĂ©m de ter que despachar as mercadorias, incluiu em meu trabalho a função de motorista da empresa para entregas locais.
Assim que recebi meu primeiro contracheque, me mudei do quartinho de Jan para um apartamento sĂł meu. Ao chegar certa noite, ela havia se mudado para lĂĄ. Ora, foda-se, eu lhe disse, minha terra Ă© sua terra. Pouco tempo depois, tivemos nossa pior briga. Ela foi embora, e eu fiquei bĂȘbado por trĂȘs dias e trĂȘs noites. Assim que recuperei a sobriedade, soube que meu trabalho jĂĄ era. Nunca voltei lĂĄ. Decidi limpar o apartamento. Aspirei o chĂŁo, escovei as esquadrias das janelas, esfreguei a banheira e a pia, encerei o chĂŁo da cozinha, matei todas as aranhas e baratas, esvaziei e lavei os cinzeiros, lavei os pratos, areei a pia da cozinha, estendi toalhas limpas e coloquei um novo rolo de papel higiĂȘnico no banheiro. Devia ser a veadagem chegando, pensei.
Quando Jan finalmente voltou para casa â uma semana depois â, acusou-me de ter trazido uma mulher aqui, pois tudo parecia limpo demais. Ela aparentava uma fĂșria imensa, que nĂŁo passava, obviamente, de disfarce para sua prĂłpria culpabilidade. Eu nĂŁo conseguia entender por que nĂŁo me livrava dela. Era uma adĂșltera compulsiva â ia com qualquer um que conhecesse num bar e, quanto mais baixo e imundo fosse, mais ela gostava. Usava continuamente nossas brigas para se justificar. No Ăntimo, eu seguia me dizendo que todas as mulheres do mundo nĂŁo eram putas, somente a minha.
â FactĂłtum
Um Dia de Trabalho
Joe Mayer era escritor freelance. Estava de ressaca e o telefone acordou-o Ă s nove horas da manhĂŁ. Ele levantou-se e atendeu.
â AlĂŽ?
â Oi, Joe. Como vai indo?
â Oh, lindo.
â Lindo, Ă©?
â Ă.
â Vicki e eu acabamos de nos mudar pra nossa nova casa. Ainda nĂŁo temos telefone. Mas posso lhe dar o endereço. Tem uma caneta Ă mĂŁo?
â SĂł um minuto.
Joe tomou o endereço.
â NĂŁo gostei daquele conto seu em Anjo Quente.
â Tudo bem â disse Joe.
â NĂŁo quero dizer que nĂŁo gostei, quero dizer que nĂŁo gostei em comparação com a maioria das outras coisas suas. A propĂłsito, sabe onde anda Buddy Edwards? Griff Martin, que editava HistĂłrias Quentes, estĂĄ procurando ele. Achei que talvez vocĂȘ soubesse.
â NĂŁo sei onde ele estĂĄ.
â Acho que talvez esteja no MĂ©xico.
â Pode ser.
â Bem, escuta, passo aĂ pra ver vocĂȘ em breve.
â Claro.
Joe desligou. PĂŽs dois ovos numa panela dâĂĄgua, pĂŽs a ĂĄgua do cafĂ© para ferver e tomou um alka-seltzer. E voltou para a cama.
O telefone tornou a tocar. Ele se levantou e atendeu.
â Joe?
â Sim?
â Aqui Ă© Eddie Greer.
â Ah, sim.
â Queremos que vocĂȘ faça um recital beneficente...
â Que Ă©?
â Pro I.R.A.
â Escuta, Eddie, eu nĂŁo me ligo em polĂtica nem religiĂŁo, nem seja lĂĄ no que for. Realmente nĂŁo sei o que estĂĄ acontecendo por lĂĄ. NĂŁo tenho TV, nĂŁo leio jornais... nada disso. NĂŁo sei quem estĂĄ certo ou errado, se Ă© que isso existe.
â A Inglaterra estĂĄ errada, cara.
â NĂŁo posso fazer recital pro I.R.A., Eddie.
â Tudo bem entĂŁo...
Os ovos estavam prontos. Ele se sentou, descascou-os, pÎs pão na torradeira e diluiu o Sanka com ågua quente. Comeu os ovos e a torrada e tomou dois cafés. Depois voltou para a cama.
JĂĄ ia dormir quando o telefone tornou a tocar. Levantou-se e atendeu.
â Sr. Mayer?
â Sim?
â Eu me chamo Mike Haven, sou amigo de Stuart Irving. NĂłs publicamos juntos em Mula de Pedra, quando Mula de Pedra era editada em Salt Lake City.
â Sim?
â Eu cheguei de Montana e fico aqui uma semana. Estou no Hotel Sheraton na cidade. Gostaria de fazer uma visita e conversar com vocĂȘ.
â Hoje Ă© um mau dia, Mike.
â Bem, talvez eu possa passar depois, esta semana.
â Ă, por que nĂŁo liga depois?
â Sabe, Joe, eu escrevo como vocĂȘ, poesia e prosa. Quero levar alguns trabalhos meus e ler pra vocĂȘ. VocĂȘ vai ficar surpreso. Meu material Ă© realmente forte.
â Ah, Ă©?
â VocĂȘ vai ver.
Depois foi o carteiro. Uma carta. Joe leu-a:
Caro sr. Mayer:
Peguei seu endereço com Sylvia, a quem o senhor escrevia, para Paris, hå muitos anos. Sylvia ainda estå viva em San Francisco e ainda escreve seus poemas doidos, proféticos e angelicais. Estou morando em Los Angeles agora e adoraria ir visitar o senhor! Por favor, diga-me quando estaria bem para o senhor.
amor, Diana.
Ele despiu o roupĂŁo e vestiu-se. O telefone tornou a tocar. Ele foi atĂ© lĂĄ, olhou-o e nĂŁo atendeu. Saiu, entrou no carro e dirigiu-se a Santa Anita. Dirigia devagar. Ligou o rĂĄdio e sintonizou uma mĂșsica sinfĂŽnica. NĂŁo estava muito nublado. Desceu o Sunset, pegou o atalho favorito, subiu o morro em direção a Chinatown, passando pelo Anexo, pelo Little Joe, Chinatown, e pegou o trecho tranquilo ao lado dos pĂĄtios da ferrovia, olhando os vagĂ”es marrons lĂĄ embaixo. Se soubesse pintar, gostaria de pegar aquilo. Talvez os pintasse mesmo assim. Subiu a Broadway e pegou Huntington Drive para ir ao hipĂłdromo. Comprou um sanduĂche de carne em conserva e um cafĂ©, abriu o programa das corridas e sentou-se. Parecia uma boa cartada.
Pegou Rosalina no primeiro a 10,80 dĂłlares, Wifeâs Objection no segundo a 9,20 e cravou-os na dupla diĂĄria por 48,40. Teve um ganho de 25 dĂłlares em Rosalina e de cinco em Wifeâs Objection, e assim faturou 73,20. Perdeu em Sweetott, ficou em segundo com Harbor Point, segundo com Pitch Out, segundo com Brannan, todas apostas na cabeça, e estava com um lucro de 48,20 quando teve um ganho de 20 dĂłlares em Southern Cream, que o levou de volta a 73,20.
NĂŁo estava ruim no hipĂłdromo. SĂł encontrou trĂȘs conhecidos. OperĂĄrios de fĂĄbrica. Negros. Dos velhos tempos.
A oitava corrida foi o problema. Cougar, que estava pagando 128, corria contra Unconscious, pagando 123. Joe nĂŁo considerou os outros na corrida. NĂŁo conseguia decidir-se. Cougar estava 3 a 5, e Unconscious, 7 a 2. Estando com um ganho de 73,20, ele achou que podia se dar ao luxo de apostar no 3 a 5. Apostou 30 dĂłlares. Cougar partiu mole, como se corresse numa vala. Quando chegou na metade da primeira volta, estava dezessete corpos atrĂĄs do cavalo da frente. Joe sabia que pegara um perdedor. No fim, seu 3 a 5 ficou cinco corpos atrĂĄs e a corrida acabou.
Ele pĂŽs 10 e 10 em Barbizon Jr. e Lost at Sea no nono, perdeu e saiu com 23,20. Era mais fĂĄcil colher tomates. Entrou em seu velho carro e voltou devagar...
Quando entrava na banheira, a campainha da porta tocou. Ele se enxugou e enfiou a camisa e as calças. Era Max Billinghouse. Max tinha vinte e poucos anos, não tinha dentes, era ruivo. Trabalhava como faxineiro e sempre usava blue jeans e uma camiseta branca suja. Sentou-se numa cadeira e cruzou as pernas.
â Bem, Mayer, que Ă© que hĂĄ?
â Que quer dizer?
â Quero dizer: estĂĄ sobrevivendo com sua literatura?
â No momento.
â Tem alguma novidade?
â NĂŁo desde que vocĂȘ esteve aqui na semana passada.
â Como foi seu recital de poesia?
â Foi tudo bem.
â A turma que vai a recital de poesia Ă© bem falsa.
â A maioria das turmas Ă©.
â Tem algum doce? â perguntou Max.
â Doce?
â Ă, eu tenho mania de doces. Tenho mania de doces.
â NĂŁo tenho nenhum doce.
Max levantou-se e foi até a cozinha. Voltou com um tomate e duas fatias de pão. Sentou-se.
â Nossa, vocĂȘ nĂŁo tem nada pra comer por aqui.
â Vou ter de ir ao supermercado.
â Sabe â disse Max â, se eu tivesse de ler diante de uma multidĂŁo, na verdade insultava eles, ia ferir os sentimentos deles.
â Podia.
â Mas eu nĂŁo sei escrever. Acho que vou andar por aĂ com um gravador. Ăs vezes converso comigo mesmo quando estou trabalhando. Depois posso escrever o que digo e fazer um conto.
Max era homem de hora e meia. Servia para uma hora e meia. Jamais ouvia, sĂł falava. ApĂłs uma hora e meia, levantou-se.
â Bem, tenho de ir andando.
â Tudo bem, Max.
Max saiu. Sempre falava das mesmas coisas. Que insultara pessoas num Înibus. Que uma vez se encontrara com Charles Manson. Que um homem estava mais bem servido com uma prostituta que com uma mulher honesta. Tinha sexo na cabeça. Não precisava de roupas novas, de carro novo. Era um solitårio. Não precisava das pessoas.
Joe foi Ă cozinha, pegou uma lata de atum e fez trĂȘs sanduĂches. Pegou a garrafa de uĂsque que vinha poupando e serviu uma boa dose com ĂĄgua. Ligou o rĂĄdio na estação de clĂĄssicos. âDanĂșbio Azulâ. Desligou-o. Acabaram os sanduĂches. A campainha tocou. Joe foi atĂ© a porta e abriu-a. Era Hymie. Hymie tinha um emprego mole em algum lugar de algum governo municipal perto de Los Angeles. Era poeta.
â Escuta â ele disse â, aquele livro que estava pensando, Antologia de poetas de Los Angeles, vamos esquecer.
â Tudo bem.
Hymie sentou-se.
â Precisamos de um novo tĂtulo. Acho que eu tenho. PerdĂŁo aos fomentadores da guerra. Pense nisso.
â Acho que gosto â disse Joe.
â E podemos dizer: âEste livro Ă© para Franco, Lee Harvey Oswald e Adolf Hitlerâ. Ora, eu sou judeu, logo isso exige alguma coragem. Que acha?
â Parece bom.
Hymie levantou-se e fez sua imitação de um judeu gordo tĂpico dos velhos tempos, um judeu muito gordo. Deu uma cuspida e sentou-se. Era muito engraçado. Era o homem mais engraçado que Hymie conhecia. Servia por uma hora. ApĂłs uma hora, levantou-se e foi embora. Sempre falava das mesmas coisas. Que a maioria dos poetas era ruim. Que era trĂĄgico, tĂŁo trĂĄgico que tinha graça. Que se ia fazer?
Joe tomou outro bom uĂsque com ĂĄgua e foi para a mĂĄquina de escrever. Bateu duas linhas, e o telefone tocou. Era Dunning no hospital. Dunning bebia muita cerveja. Cumprira seus vinte anos no exĂ©rcito. O pai de Dunning tinha sido editor de uma revistinha famosa. Morrera em junho. A esposa de Dunning era ambiciosa. Pressionara-o para ser mĂ©dico, muito. Ele conseguira ser quiropaxista. E trabalhava como enfermeiro tentando economizar oito ou dez mil dĂłlares para uma mĂĄquina de raios x.
â Que tal eu aparecer pra tomar umas cervejas com vocĂȘ? â perguntou Dunning.
â Escuta, podemos adiar isso? â perguntou Joe.
â Que Ă© que hĂĄ? EstĂĄ escrevendo?
â Mal comecei.
â Tudo bem, eu espero.
â Obrigado, Dunning.
Joe sentou-se Ă mĂĄquina de escrever. NĂŁo estava mal. Chegou ao meio da pĂĄgina, quando ouviu passos. Depois uma batida. Abriu a porta.
Eram dois rapazinhos. Um de barba negra, o outro barbeado.
O rapaz de barba disse:
â Vi vocĂȘ em seu Ășltimo recital.
â Entre â disse Joe.
Entraram. Tinham seis garrafas de cerveja importada, casco verde.
â Vou pegar um abridor â disse Joe.
Ficaram ali sentados mamando a cerveja.
â Foi um bom recital â disse o rapaz de barba.
â Quem foi sua maior influĂȘncia? â perguntou o sem barba.
â Jeffers. Poemas mais longos. Tamar. GaranhĂŁo RuĂŁo. Por aĂ.
â Alguma coisa nova em literatura que lhe interesse?
â NĂŁo.
â Dizem que vocĂȘ estĂĄ saindo da marginalidade, que faz parte do establishment . Que acha disso?
â Nada.
Houve outras perguntas do mesmo tipo. Os rapazes não aguentavam mais do que uma cerveja por cabeça. Joe cuidou das outras quatro. Eles partiram em 45 minutos.
Mas o sem barba disse, quando saĂam:
â A gente volta.
Joe tornou a sentar-se Ă mĂĄquina de escrever com uma nova bebida. NĂŁo conseguia bater. Levantou-se e foi ao telefone.
Discou. E esperou. Ela estava em casa. Respondeu.
â Escuta â disse Joe â, me deixa sair daqui. Me deixa ir aĂ dar uma foda.
â Quer dizer que pretende passar a noite?
â Ă.
â De novo?
â Ă, de novo.
â Tudo bem.
Joe foi atĂ© o canto da varanda e desceu a rampa da garagem. Ela morava trĂȘs ou quatro casas abaixo. Ele bateu. Lu deixou-o entrar.
Luzes apagadas. Ela estava sĂł de calcinha e levou-o para a cama.
â Deus â ele gemeu.
â Que foi?
â Bem, Ă© tudo inexplicĂĄvel de certa forma, ou quase inexplicĂĄvel.
â E sĂł tirar a roupa e vir pra cama.
Joe fez isso. Deitou-se. A princĂpio nĂŁo sabia se ia funcionar de novo. Tantas noites seguidas. Mas o corpo dela estava ali e era jovem. E os lĂĄbios abertos e concretos. Joe flutuava. Era bom estar no escuro. Ele malhou-a bem. Chegou a baixar lĂĄ embaixo e meter a lĂngua na xoxota. Depois, quando montou, apĂłs quatro ou cinco estocadas, ouviu uma voz...
â Mayer... estou procurando um certo Joe Mayer... â Ouviu a voz do senhorio. O senhorio estava bĂȘbado.
â Bem, se ele nĂŁo estĂĄ nesse apartamento de frente, verifique aquele de trĂĄs. Ele estĂĄ num ou noutro.
Joe deu quatro ou cinco estocadas até começarem as batidas na porta. Ele escorregou para fora e, nu, foi à porta. Abriu uma janela lateral.
â Sim?
â Ei, Joe! Oi, que anda fazendo, Joe?
â Nada.
â Bem, que tal uma cervejinha, Joe?
â NĂŁo â disse Joe.
Bateu a janela lateral e voltou para a cama.
â Quem era? â ela perguntou.
â NĂŁo sei. NĂŁo reconheci o rosto.
â Me beija, Joe. NĂŁo fique aĂ deitado.
Ele beijou-a, enquanto a lua do sul da CalifĂłrnia atravessava as cortinas do sul da CalifĂłrnia. Era Joe Mayer. Escritor freelance.
Conseguiu.
â Numa fria
â AlĂŽ?
â Oi, Joe. Como vai indo?
â Oh, lindo.
â Lindo, Ă©?
â Ă.
â Vicki e eu acabamos de nos mudar pra nossa nova casa. Ainda nĂŁo temos telefone. Mas posso lhe dar o endereço. Tem uma caneta Ă mĂŁo?
â SĂł um minuto.
Joe tomou o endereço.
â NĂŁo gostei daquele conto seu em Anjo Quente.
â Tudo bem â disse Joe.
â NĂŁo quero dizer que nĂŁo gostei, quero dizer que nĂŁo gostei em comparação com a maioria das outras coisas suas. A propĂłsito, sabe onde anda Buddy Edwards? Griff Martin, que editava HistĂłrias Quentes, estĂĄ procurando ele. Achei que talvez vocĂȘ soubesse.
â NĂŁo sei onde ele estĂĄ.
â Acho que talvez esteja no MĂ©xico.
â Pode ser.
â Bem, escuta, passo aĂ pra ver vocĂȘ em breve.
â Claro.
Joe desligou. PĂŽs dois ovos numa panela dâĂĄgua, pĂŽs a ĂĄgua do cafĂ© para ferver e tomou um alka-seltzer. E voltou para a cama.
O telefone tornou a tocar. Ele se levantou e atendeu.
â Joe?
â Sim?
â Aqui Ă© Eddie Greer.
â Ah, sim.
â Queremos que vocĂȘ faça um recital beneficente...
â Que Ă©?
â Pro I.R.A.
â Escuta, Eddie, eu nĂŁo me ligo em polĂtica nem religiĂŁo, nem seja lĂĄ no que for. Realmente nĂŁo sei o que estĂĄ acontecendo por lĂĄ. NĂŁo tenho TV, nĂŁo leio jornais... nada disso. NĂŁo sei quem estĂĄ certo ou errado, se Ă© que isso existe.
â A Inglaterra estĂĄ errada, cara.
â NĂŁo posso fazer recital pro I.R.A., Eddie.
â Tudo bem entĂŁo...
Os ovos estavam prontos. Ele se sentou, descascou-os, pÎs pão na torradeira e diluiu o Sanka com ågua quente. Comeu os ovos e a torrada e tomou dois cafés. Depois voltou para a cama.
JĂĄ ia dormir quando o telefone tornou a tocar. Levantou-se e atendeu.
â Sr. Mayer?
â Sim?
â Eu me chamo Mike Haven, sou amigo de Stuart Irving. NĂłs publicamos juntos em Mula de Pedra, quando Mula de Pedra era editada em Salt Lake City.
â Sim?
â Eu cheguei de Montana e fico aqui uma semana. Estou no Hotel Sheraton na cidade. Gostaria de fazer uma visita e conversar com vocĂȘ.
â Hoje Ă© um mau dia, Mike.
â Bem, talvez eu possa passar depois, esta semana.
â Ă, por que nĂŁo liga depois?
â Sabe, Joe, eu escrevo como vocĂȘ, poesia e prosa. Quero levar alguns trabalhos meus e ler pra vocĂȘ. VocĂȘ vai ficar surpreso. Meu material Ă© realmente forte.
â Ah, Ă©?
â VocĂȘ vai ver.
Depois foi o carteiro. Uma carta. Joe leu-a:
Caro sr. Mayer:
Peguei seu endereço com Sylvia, a quem o senhor escrevia, para Paris, hå muitos anos. Sylvia ainda estå viva em San Francisco e ainda escreve seus poemas doidos, proféticos e angelicais. Estou morando em Los Angeles agora e adoraria ir visitar o senhor! Por favor, diga-me quando estaria bem para o senhor.
amor, Diana.
Ele despiu o roupĂŁo e vestiu-se. O telefone tornou a tocar. Ele foi atĂ© lĂĄ, olhou-o e nĂŁo atendeu. Saiu, entrou no carro e dirigiu-se a Santa Anita. Dirigia devagar. Ligou o rĂĄdio e sintonizou uma mĂșsica sinfĂŽnica. NĂŁo estava muito nublado. Desceu o Sunset, pegou o atalho favorito, subiu o morro em direção a Chinatown, passando pelo Anexo, pelo Little Joe, Chinatown, e pegou o trecho tranquilo ao lado dos pĂĄtios da ferrovia, olhando os vagĂ”es marrons lĂĄ embaixo. Se soubesse pintar, gostaria de pegar aquilo. Talvez os pintasse mesmo assim. Subiu a Broadway e pegou Huntington Drive para ir ao hipĂłdromo. Comprou um sanduĂche de carne em conserva e um cafĂ©, abriu o programa das corridas e sentou-se. Parecia uma boa cartada.
Pegou Rosalina no primeiro a 10,80 dĂłlares, Wifeâs Objection no segundo a 9,20 e cravou-os na dupla diĂĄria por 48,40. Teve um ganho de 25 dĂłlares em Rosalina e de cinco em Wifeâs Objection, e assim faturou 73,20. Perdeu em Sweetott, ficou em segundo com Harbor Point, segundo com Pitch Out, segundo com Brannan, todas apostas na cabeça, e estava com um lucro de 48,20 quando teve um ganho de 20 dĂłlares em Southern Cream, que o levou de volta a 73,20.
NĂŁo estava ruim no hipĂłdromo. SĂł encontrou trĂȘs conhecidos. OperĂĄrios de fĂĄbrica. Negros. Dos velhos tempos.
A oitava corrida foi o problema. Cougar, que estava pagando 128, corria contra Unconscious, pagando 123. Joe nĂŁo considerou os outros na corrida. NĂŁo conseguia decidir-se. Cougar estava 3 a 5, e Unconscious, 7 a 2. Estando com um ganho de 73,20, ele achou que podia se dar ao luxo de apostar no 3 a 5. Apostou 30 dĂłlares. Cougar partiu mole, como se corresse numa vala. Quando chegou na metade da primeira volta, estava dezessete corpos atrĂĄs do cavalo da frente. Joe sabia que pegara um perdedor. No fim, seu 3 a 5 ficou cinco corpos atrĂĄs e a corrida acabou.
Ele pĂŽs 10 e 10 em Barbizon Jr. e Lost at Sea no nono, perdeu e saiu com 23,20. Era mais fĂĄcil colher tomates. Entrou em seu velho carro e voltou devagar...
Quando entrava na banheira, a campainha da porta tocou. Ele se enxugou e enfiou a camisa e as calças. Era Max Billinghouse. Max tinha vinte e poucos anos, não tinha dentes, era ruivo. Trabalhava como faxineiro e sempre usava blue jeans e uma camiseta branca suja. Sentou-se numa cadeira e cruzou as pernas.
â Bem, Mayer, que Ă© que hĂĄ?
â Que quer dizer?
â Quero dizer: estĂĄ sobrevivendo com sua literatura?
â No momento.
â Tem alguma novidade?
â NĂŁo desde que vocĂȘ esteve aqui na semana passada.
â Como foi seu recital de poesia?
â Foi tudo bem.
â A turma que vai a recital de poesia Ă© bem falsa.
â A maioria das turmas Ă©.
â Tem algum doce? â perguntou Max.
â Doce?
â Ă, eu tenho mania de doces. Tenho mania de doces.
â NĂŁo tenho nenhum doce.
Max levantou-se e foi até a cozinha. Voltou com um tomate e duas fatias de pão. Sentou-se.
â Nossa, vocĂȘ nĂŁo tem nada pra comer por aqui.
â Vou ter de ir ao supermercado.
â Sabe â disse Max â, se eu tivesse de ler diante de uma multidĂŁo, na verdade insultava eles, ia ferir os sentimentos deles.
â Podia.
â Mas eu nĂŁo sei escrever. Acho que vou andar por aĂ com um gravador. Ăs vezes converso comigo mesmo quando estou trabalhando. Depois posso escrever o que digo e fazer um conto.
Max era homem de hora e meia. Servia para uma hora e meia. Jamais ouvia, sĂł falava. ApĂłs uma hora e meia, levantou-se.
â Bem, tenho de ir andando.
â Tudo bem, Max.
Max saiu. Sempre falava das mesmas coisas. Que insultara pessoas num Înibus. Que uma vez se encontrara com Charles Manson. Que um homem estava mais bem servido com uma prostituta que com uma mulher honesta. Tinha sexo na cabeça. Não precisava de roupas novas, de carro novo. Era um solitårio. Não precisava das pessoas.
Joe foi Ă cozinha, pegou uma lata de atum e fez trĂȘs sanduĂches. Pegou a garrafa de uĂsque que vinha poupando e serviu uma boa dose com ĂĄgua. Ligou o rĂĄdio na estação de clĂĄssicos. âDanĂșbio Azulâ. Desligou-o. Acabaram os sanduĂches. A campainha tocou. Joe foi atĂ© a porta e abriu-a. Era Hymie. Hymie tinha um emprego mole em algum lugar de algum governo municipal perto de Los Angeles. Era poeta.
â Escuta â ele disse â, aquele livro que estava pensando, Antologia de poetas de Los Angeles, vamos esquecer.
â Tudo bem.
Hymie sentou-se.
â Precisamos de um novo tĂtulo. Acho que eu tenho. PerdĂŁo aos fomentadores da guerra. Pense nisso.
â Acho que gosto â disse Joe.
â E podemos dizer: âEste livro Ă© para Franco, Lee Harvey Oswald e Adolf Hitlerâ. Ora, eu sou judeu, logo isso exige alguma coragem. Que acha?
â Parece bom.
Hymie levantou-se e fez sua imitação de um judeu gordo tĂpico dos velhos tempos, um judeu muito gordo. Deu uma cuspida e sentou-se. Era muito engraçado. Era o homem mais engraçado que Hymie conhecia. Servia por uma hora. ApĂłs uma hora, levantou-se e foi embora. Sempre falava das mesmas coisas. Que a maioria dos poetas era ruim. Que era trĂĄgico, tĂŁo trĂĄgico que tinha graça. Que se ia fazer?
Joe tomou outro bom uĂsque com ĂĄgua e foi para a mĂĄquina de escrever. Bateu duas linhas, e o telefone tocou. Era Dunning no hospital. Dunning bebia muita cerveja. Cumprira seus vinte anos no exĂ©rcito. O pai de Dunning tinha sido editor de uma revistinha famosa. Morrera em junho. A esposa de Dunning era ambiciosa. Pressionara-o para ser mĂ©dico, muito. Ele conseguira ser quiropaxista. E trabalhava como enfermeiro tentando economizar oito ou dez mil dĂłlares para uma mĂĄquina de raios x.
â Que tal eu aparecer pra tomar umas cervejas com vocĂȘ? â perguntou Dunning.
â Escuta, podemos adiar isso? â perguntou Joe.
â Que Ă© que hĂĄ? EstĂĄ escrevendo?
â Mal comecei.
â Tudo bem, eu espero.
â Obrigado, Dunning.
Joe sentou-se Ă mĂĄquina de escrever. NĂŁo estava mal. Chegou ao meio da pĂĄgina, quando ouviu passos. Depois uma batida. Abriu a porta.
Eram dois rapazinhos. Um de barba negra, o outro barbeado.
O rapaz de barba disse:
â Vi vocĂȘ em seu Ășltimo recital.
â Entre â disse Joe.
Entraram. Tinham seis garrafas de cerveja importada, casco verde.
â Vou pegar um abridor â disse Joe.
Ficaram ali sentados mamando a cerveja.
â Foi um bom recital â disse o rapaz de barba.
â Quem foi sua maior influĂȘncia? â perguntou o sem barba.
â Jeffers. Poemas mais longos. Tamar. GaranhĂŁo RuĂŁo. Por aĂ.
â Alguma coisa nova em literatura que lhe interesse?
â NĂŁo.
â Dizem que vocĂȘ estĂĄ saindo da marginalidade, que faz parte do establishment . Que acha disso?
â Nada.
Houve outras perguntas do mesmo tipo. Os rapazes não aguentavam mais do que uma cerveja por cabeça. Joe cuidou das outras quatro. Eles partiram em 45 minutos.
Mas o sem barba disse, quando saĂam:
â A gente volta.
Joe tornou a sentar-se Ă mĂĄquina de escrever com uma nova bebida. NĂŁo conseguia bater. Levantou-se e foi ao telefone.
Discou. E esperou. Ela estava em casa. Respondeu.
â Escuta â disse Joe â, me deixa sair daqui. Me deixa ir aĂ dar uma foda.
â Quer dizer que pretende passar a noite?
â Ă.
â De novo?
â Ă, de novo.
â Tudo bem.
Joe foi atĂ© o canto da varanda e desceu a rampa da garagem. Ela morava trĂȘs ou quatro casas abaixo. Ele bateu. Lu deixou-o entrar.
Luzes apagadas. Ela estava sĂł de calcinha e levou-o para a cama.
â Deus â ele gemeu.
â Que foi?
â Bem, Ă© tudo inexplicĂĄvel de certa forma, ou quase inexplicĂĄvel.
â E sĂł tirar a roupa e vir pra cama.
Joe fez isso. Deitou-se. A princĂpio nĂŁo sabia se ia funcionar de novo. Tantas noites seguidas. Mas o corpo dela estava ali e era jovem. E os lĂĄbios abertos e concretos. Joe flutuava. Era bom estar no escuro. Ele malhou-a bem. Chegou a baixar lĂĄ embaixo e meter a lĂngua na xoxota. Depois, quando montou, apĂłs quatro ou cinco estocadas, ouviu uma voz...
â Mayer... estou procurando um certo Joe Mayer... â Ouviu a voz do senhorio. O senhorio estava bĂȘbado.
â Bem, se ele nĂŁo estĂĄ nesse apartamento de frente, verifique aquele de trĂĄs. Ele estĂĄ num ou noutro.
Joe deu quatro ou cinco estocadas até começarem as batidas na porta. Ele escorregou para fora e, nu, foi à porta. Abriu uma janela lateral.
â Sim?
â Ei, Joe! Oi, que anda fazendo, Joe?
â Nada.
â Bem, que tal uma cervejinha, Joe?
â NĂŁo â disse Joe.
Bateu a janela lateral e voltou para a cama.
â Quem era? â ela perguntou.
â NĂŁo sei. NĂŁo reconheci o rosto.
â Me beija, Joe. NĂŁo fique aĂ deitado.
Ele beijou-a, enquanto a lua do sul da CalifĂłrnia atravessava as cortinas do sul da CalifĂłrnia. Era Joe Mayer. Escritor freelance.
Conseguiu.
â Numa fria
Um Homem
George estava deitado em seu trailer, estirado de costas, vendo televisĂŁo em um pequeno aparelho portĂĄtil. Os pratos da janta nĂŁo estavam lavados, a louça do cafĂ© da manhĂŁ nĂŁo estava lavada, ele precisava se barbear, e as cinzas de seu cigarro de palha caĂam na camiseta de dormir que ele estava usando. Algumas das cinzas ainda estavam queimando. Ăs vezes as cinzas nĂŁo caĂam na camiseta que vestia, mas sim na prĂłpria pele, entĂŁo ele praguejava enquanto as empurrava para longe com pequenos tapas.
Bateram Ă porta do trailer. Lentamente ele se levantou e foi atender. Era Constance. Trazia consigo uma garrafa de uĂsque em uma sacola.
â George, deixei aquele cretino, nĂŁo dava mais para aguentar aquele filho da puta.
â Sente-se.
George abriu a garrafa, pegou dois copos, encheu cada um com um terço de uĂsque e dois terços de ĂĄgua. Sentou-se na cama com Constance. Ela pegou um cigarro de sua bolsa e o acendeu. Estava bĂȘbada, e suas mĂŁos tremiam.
â Levei o dinheiro dele tambĂ©m. Peguei a porra do dinheiro e fugi enquanto ele estava no trabalho. VocĂȘ nĂŁo sabe como sofri nas mĂŁos daquele filho da puta.
â Deixe-me fumar um pouco â disse George.
Ela alcançou o cigarro para ele e, como inclinou o corpo ao se aproximar, George enlaçou-a com um braço, puxou-a e deu-lhe um beijo.
â Seu filho da puta â ela disse. â Senti a sua falta.
â Senti falta dessas suas pernas gostosas, Connie. Realmente senti falta dessas pernas.
â Ainda gosta delas?
â Fico de pau duro sĂł de olhar.
â Eu nunca teria dado certo com um sujeito que estudou em universidade â disse Connie. â SĂŁo muito moles, sĂŁo como biscoitinho molhado no leite. E ele mantinha a casa limpa. George, era como ter uma empregada. Ele fazia tudo. O lugar era impecĂĄvel. Dava para comer um cozido de carne feito na privada. Ele era antissĂ©ptico, Ă© isso o que ele era.
â Beba mais. Vai se sentir melhor.
â E ele nĂŁo conseguia fazer amor.
â Quer dizer que ele nĂŁo conseguia ter uma ereção?
â Oh nĂŁo. Ele conseguia ter uma ereção. Tinha o tempo todo. Mas nĂŁo sabia fazer uma mulher feliz, sabe. NĂŁo sabia o que fazer. Com todo aquele dinheiro, todo aquele estudo, ele era um inĂștil.
â Eu queria ter estudado em uma universidade.
â VocĂȘ nĂŁo precisa. VocĂȘ jĂĄ tem tudo de que precisa, George.
â Sou apenas um peĂŁo. Com empreguinhos de merda.
â Eu disse que vocĂȘ tem tudo o que precisa, George. VocĂȘ sabe como fazer uma mulher feliz.
â Ă?
â Sim. E sabe do que mais? A mĂŁe dele vinha nos visitar! A mĂŁe! Duas ou trĂȘs vezes por semana. E ficava sentada lĂĄ me olhando, fingindo que gostava de mim, mas passava o tempo todo me tratando como se eu fosse uma puta, como se eu fosse uma grande puta, uma puta malvada que estava roubando o filhinho dela! O precioso Walter! Que confusĂŁo!
â Beba, Connie.
George tinha terminado. Esperou que Connie esvaziasse seu copo, entĂŁo pegou ambos e os encheu novamente.
â Ele dizia que me amava. E eu dizia: âOlha a minha buceta, Walter!â. E ele nĂŁo olhava pra minha buceta. Ele dizia: âNĂŁo quero olhar pra essa coisaâ. Essa coisa! Assim ele a chamava! VocĂȘ nĂŁo tem medo da minha buceta, nĂŁo Ă© mesmo, George?
â Ela nunca me mordeu.
â Mas vocĂȘ jĂĄ mordeu ela, jĂĄ mordiscou, nĂŁo Ă©, George?
â Acho que sim.
â E lambeu e chupou?
â Suponho que sim.
â VocĂȘ sabe muito bem, George, o que fez.
â Quanto dinheiro vocĂȘ pegou?
â Seiscentos dĂłlares.
â NĂŁo gosto de pessoas que roubam dos outros, Connie.
â Ă por isso que vocĂȘ nĂŁo passa de um lavador de pratos. VocĂȘ Ă© honesto. Mas ele era tĂŁo idiota, George. E ele tinha dinheiro, e eu mereci a grana... ele e a mĂŁe dele e o amor dele, seu amor maternal, suas pias pequenas e limpas e privadas e sacos de lixo e carros novos e as pastilhas contra mau hĂĄlito e as loçÔes pĂłs-barba e as pequenas ereçÔes e a preciosa fazeção de amor. Tudo para ele, vocĂȘ entende, tudo para ele! VocĂȘ sabe o que uma mulher quer, George...
â Obrigado pelo uĂsque, Connie. Me dĂĄ outro cigarro.
George encheu os copos mais uma vez.
â Senti falta das suas pernas, Connie. Realmente senti falta dessas pernas. Gosto do jeito que vocĂȘ usa esses saltos altos. Me deixa louco. Essas mulheres modernas nĂŁo sabem o que estĂŁo perdendo. O salto alto modela a panturrilha, a coxa, a bunda; pĂ”e ritmo na caminhada. Realmente me excita!
â VocĂȘ fala como um poeta, George. Ăs vezes vocĂȘ fala assim. VocĂȘ Ă© um tremendo lavador de pratos.
â Sabe o que eu realmente gostaria de fazer?
â O quĂȘ?
â Gostaria de chicotear suas pernas com o meu cinto, as pernas, a bunda, as coxas. Gostaria de fazer vocĂȘ tremer e chorar e entĂŁo, quando estivesse tremendo e chorando, eu ia te arrebentar com amor puro.
â NĂŁo quero isso, George. VocĂȘ nunca falou assim antes. Sempre foi correto comigo.
â Levanta um pouco o vestido.
â O quĂȘ?
â Levanta um pouco o vestido, quero ver mais as suas pernas.
â Gosta delas, nĂŁo Ă©, George?
â Deixa a luz bater nelas!
Constance levantou o vestido.
â Jesus Cristo nosso Senhor â disse George.
â Gosta das minhas pernas?
â Amo suas pernas!
Então George se espichou através da cama e deu uma bofetada na cara de Constance. O cigarro caiu de sua boca.
â Por que vocĂȘ fez isso?
â VocĂȘ trepou com o Walter! Trepou com o Walter!
â E daĂ?
â Levanta mais esse vestido!
â NĂŁo!
â Faz o que eu estou mandando!
George deu outro tapa ainda mais forte. Constance levantou a saia um pouco mais.
â Um pouco abaixo da calcinha! â gritou George. â NĂŁo quero ver a calcinha!
â Cristo, George, o que vocĂȘ tem?
â VocĂȘ trepou com Walter!
â George, eu juro, vocĂȘ estĂĄ louco. Quero ir embora. Deixe-me sair daqui, George!
â NĂŁo se mexa ou mato vocĂȘ!
â VocĂȘ me mataria?
â Juro que sim!
George levantou e se serviu de outro copo cheio de uĂsque puro, bebeu e sentou-se ao lado de Constance. Ele pegou seu cigarro e o segurou contra o pulso dela. Ela gritou. Segurou o cigarro ali, firmemente, entĂŁo o afastou.
â Sou um homem, gata, dĂĄ pra entender isso?
â Sei que vocĂȘ Ă© homem, George.
â Aqui, olha para os meus mĂșsculos!
George levantou-se e flexionou os dois braços.
â Lindo, nĂ©, gata? Olha para esses mĂșsculos! Sente isso! Sente isso!
Constance apalpou e sentiu um de seus braços e depois o outro.
â Sim, vocĂȘ tem um corpo lindo, George.
â Sou um homem. Sou um lavador de pratos, mas sou um homem, um homem de verdade.
â Eu sei, George.
â NĂŁo sou como aquele merdinha que vocĂȘ deixou.
â Eu sei disso.
â E tambĂ©m sei cantar. VocĂȘ precisa ouvir a minha voz.
Constance ficou ali sentada. George começou a cantar. Cantou âOld Man Riverâ. Depois âNobody Knows the Trouble Iâve Seenâ. Cantou âSaint Louis Bluesâ e âGod Bless Americaâ, parando vĂĄrias vezes e rindo. EntĂŁo se sentou ao lado de Constance e disse:
â Connie, vocĂȘ tem pernas lindas.
Pediu outro cigarro. Fumou, bebeu mais dois copos, então colocou sua cabeça no colo dela, em cima das coxas, contra as meias, e disse:
â Connie, acho que nĂŁo sou bom, acho que sou louco, sinto muito por ter batido em vocĂȘ, me desculpe por tĂȘ-la queimado com aquele cigarro.
Constance permaneceu sentada. Passou seus dedos pelos cabelos de George, afagando-o e reconfortando-o. Logo ele estava dormindo. Ela esperou um pouco mais. EntĂŁo levantou sua cabeça e a recostou em um travesseiro, levantou suas pernas e as endireitou na cama. Ela levantou-se, caminhou atĂ© a garrafa de uĂsque, serviu uma boa dose em seu copo, acrescentou um toque de ĂĄgua e bebeu tudo de uma vez. Caminhou atĂ© a porta do trailer, abriu-a, saiu e a fechou Ă s suas costas. Caminhou pelo jardim, abriu o portĂŁo da cerca, caminhou pela viela sob o luar da uma da madrugada. O cĂ©u estava limpo e sem nuvens. O mesmo cĂ©u cheio de estrelas estava lĂĄ. Chegou ao bulevar e caminhou para leste, chegou atĂ© a entrada do Blue Mirror. Entrou, olhou ao redor e lĂĄ estava Walter sentado na ponta do balcĂŁo do bar, sozinho e bĂȘbado. Caminhou atĂ© ele e sentou-se ao seu lado.
â Sentiu a minha falta, amor? â ela perguntou. Walter ergueu os olhos e a reconheceu. NĂŁo respondeu. Ele olhou para o balconista, e o balconista olhou para eles. Todos se conheciam.
â Ao sul de lugar nenhum
Bateram Ă porta do trailer. Lentamente ele se levantou e foi atender. Era Constance. Trazia consigo uma garrafa de uĂsque em uma sacola.
â George, deixei aquele cretino, nĂŁo dava mais para aguentar aquele filho da puta.
â Sente-se.
George abriu a garrafa, pegou dois copos, encheu cada um com um terço de uĂsque e dois terços de ĂĄgua. Sentou-se na cama com Constance. Ela pegou um cigarro de sua bolsa e o acendeu. Estava bĂȘbada, e suas mĂŁos tremiam.
â Levei o dinheiro dele tambĂ©m. Peguei a porra do dinheiro e fugi enquanto ele estava no trabalho. VocĂȘ nĂŁo sabe como sofri nas mĂŁos daquele filho da puta.
â Deixe-me fumar um pouco â disse George.
Ela alcançou o cigarro para ele e, como inclinou o corpo ao se aproximar, George enlaçou-a com um braço, puxou-a e deu-lhe um beijo.
â Seu filho da puta â ela disse. â Senti a sua falta.
â Senti falta dessas suas pernas gostosas, Connie. Realmente senti falta dessas pernas.
â Ainda gosta delas?
â Fico de pau duro sĂł de olhar.
â Eu nunca teria dado certo com um sujeito que estudou em universidade â disse Connie. â SĂŁo muito moles, sĂŁo como biscoitinho molhado no leite. E ele mantinha a casa limpa. George, era como ter uma empregada. Ele fazia tudo. O lugar era impecĂĄvel. Dava para comer um cozido de carne feito na privada. Ele era antissĂ©ptico, Ă© isso o que ele era.
â Beba mais. Vai se sentir melhor.
â E ele nĂŁo conseguia fazer amor.
â Quer dizer que ele nĂŁo conseguia ter uma ereção?
â Oh nĂŁo. Ele conseguia ter uma ereção. Tinha o tempo todo. Mas nĂŁo sabia fazer uma mulher feliz, sabe. NĂŁo sabia o que fazer. Com todo aquele dinheiro, todo aquele estudo, ele era um inĂștil.
â Eu queria ter estudado em uma universidade.
â VocĂȘ nĂŁo precisa. VocĂȘ jĂĄ tem tudo de que precisa, George.
â Sou apenas um peĂŁo. Com empreguinhos de merda.
â Eu disse que vocĂȘ tem tudo o que precisa, George. VocĂȘ sabe como fazer uma mulher feliz.
â Ă?
â Sim. E sabe do que mais? A mĂŁe dele vinha nos visitar! A mĂŁe! Duas ou trĂȘs vezes por semana. E ficava sentada lĂĄ me olhando, fingindo que gostava de mim, mas passava o tempo todo me tratando como se eu fosse uma puta, como se eu fosse uma grande puta, uma puta malvada que estava roubando o filhinho dela! O precioso Walter! Que confusĂŁo!
â Beba, Connie.
George tinha terminado. Esperou que Connie esvaziasse seu copo, entĂŁo pegou ambos e os encheu novamente.
â Ele dizia que me amava. E eu dizia: âOlha a minha buceta, Walter!â. E ele nĂŁo olhava pra minha buceta. Ele dizia: âNĂŁo quero olhar pra essa coisaâ. Essa coisa! Assim ele a chamava! VocĂȘ nĂŁo tem medo da minha buceta, nĂŁo Ă© mesmo, George?
â Ela nunca me mordeu.
â Mas vocĂȘ jĂĄ mordeu ela, jĂĄ mordiscou, nĂŁo Ă©, George?
â Acho que sim.
â E lambeu e chupou?
â Suponho que sim.
â VocĂȘ sabe muito bem, George, o que fez.
â Quanto dinheiro vocĂȘ pegou?
â Seiscentos dĂłlares.
â NĂŁo gosto de pessoas que roubam dos outros, Connie.
â Ă por isso que vocĂȘ nĂŁo passa de um lavador de pratos. VocĂȘ Ă© honesto. Mas ele era tĂŁo idiota, George. E ele tinha dinheiro, e eu mereci a grana... ele e a mĂŁe dele e o amor dele, seu amor maternal, suas pias pequenas e limpas e privadas e sacos de lixo e carros novos e as pastilhas contra mau hĂĄlito e as loçÔes pĂłs-barba e as pequenas ereçÔes e a preciosa fazeção de amor. Tudo para ele, vocĂȘ entende, tudo para ele! VocĂȘ sabe o que uma mulher quer, George...
â Obrigado pelo uĂsque, Connie. Me dĂĄ outro cigarro.
George encheu os copos mais uma vez.
â Senti falta das suas pernas, Connie. Realmente senti falta dessas pernas. Gosto do jeito que vocĂȘ usa esses saltos altos. Me deixa louco. Essas mulheres modernas nĂŁo sabem o que estĂŁo perdendo. O salto alto modela a panturrilha, a coxa, a bunda; pĂ”e ritmo na caminhada. Realmente me excita!
â VocĂȘ fala como um poeta, George. Ăs vezes vocĂȘ fala assim. VocĂȘ Ă© um tremendo lavador de pratos.
â Sabe o que eu realmente gostaria de fazer?
â O quĂȘ?
â Gostaria de chicotear suas pernas com o meu cinto, as pernas, a bunda, as coxas. Gostaria de fazer vocĂȘ tremer e chorar e entĂŁo, quando estivesse tremendo e chorando, eu ia te arrebentar com amor puro.
â NĂŁo quero isso, George. VocĂȘ nunca falou assim antes. Sempre foi correto comigo.
â Levanta um pouco o vestido.
â O quĂȘ?
â Levanta um pouco o vestido, quero ver mais as suas pernas.
â Gosta delas, nĂŁo Ă©, George?
â Deixa a luz bater nelas!
Constance levantou o vestido.
â Jesus Cristo nosso Senhor â disse George.
â Gosta das minhas pernas?
â Amo suas pernas!
Então George se espichou através da cama e deu uma bofetada na cara de Constance. O cigarro caiu de sua boca.
â Por que vocĂȘ fez isso?
â VocĂȘ trepou com o Walter! Trepou com o Walter!
â E daĂ?
â Levanta mais esse vestido!
â NĂŁo!
â Faz o que eu estou mandando!
George deu outro tapa ainda mais forte. Constance levantou a saia um pouco mais.
â Um pouco abaixo da calcinha! â gritou George. â NĂŁo quero ver a calcinha!
â Cristo, George, o que vocĂȘ tem?
â VocĂȘ trepou com Walter!
â George, eu juro, vocĂȘ estĂĄ louco. Quero ir embora. Deixe-me sair daqui, George!
â NĂŁo se mexa ou mato vocĂȘ!
â VocĂȘ me mataria?
â Juro que sim!
George levantou e se serviu de outro copo cheio de uĂsque puro, bebeu e sentou-se ao lado de Constance. Ele pegou seu cigarro e o segurou contra o pulso dela. Ela gritou. Segurou o cigarro ali, firmemente, entĂŁo o afastou.
â Sou um homem, gata, dĂĄ pra entender isso?
â Sei que vocĂȘ Ă© homem, George.
â Aqui, olha para os meus mĂșsculos!
George levantou-se e flexionou os dois braços.
â Lindo, nĂ©, gata? Olha para esses mĂșsculos! Sente isso! Sente isso!
Constance apalpou e sentiu um de seus braços e depois o outro.
â Sim, vocĂȘ tem um corpo lindo, George.
â Sou um homem. Sou um lavador de pratos, mas sou um homem, um homem de verdade.
â Eu sei, George.
â NĂŁo sou como aquele merdinha que vocĂȘ deixou.
â Eu sei disso.
â E tambĂ©m sei cantar. VocĂȘ precisa ouvir a minha voz.
Constance ficou ali sentada. George começou a cantar. Cantou âOld Man Riverâ. Depois âNobody Knows the Trouble Iâve Seenâ. Cantou âSaint Louis Bluesâ e âGod Bless Americaâ, parando vĂĄrias vezes e rindo. EntĂŁo se sentou ao lado de Constance e disse:
â Connie, vocĂȘ tem pernas lindas.
Pediu outro cigarro. Fumou, bebeu mais dois copos, então colocou sua cabeça no colo dela, em cima das coxas, contra as meias, e disse:
â Connie, acho que nĂŁo sou bom, acho que sou louco, sinto muito por ter batido em vocĂȘ, me desculpe por tĂȘ-la queimado com aquele cigarro.
Constance permaneceu sentada. Passou seus dedos pelos cabelos de George, afagando-o e reconfortando-o. Logo ele estava dormindo. Ela esperou um pouco mais. EntĂŁo levantou sua cabeça e a recostou em um travesseiro, levantou suas pernas e as endireitou na cama. Ela levantou-se, caminhou atĂ© a garrafa de uĂsque, serviu uma boa dose em seu copo, acrescentou um toque de ĂĄgua e bebeu tudo de uma vez. Caminhou atĂ© a porta do trailer, abriu-a, saiu e a fechou Ă s suas costas. Caminhou pelo jardim, abriu o portĂŁo da cerca, caminhou pela viela sob o luar da uma da madrugada. O cĂ©u estava limpo e sem nuvens. O mesmo cĂ©u cheio de estrelas estava lĂĄ. Chegou ao bulevar e caminhou para leste, chegou atĂ© a entrada do Blue Mirror. Entrou, olhou ao redor e lĂĄ estava Walter sentado na ponta do balcĂŁo do bar, sozinho e bĂȘbado. Caminhou atĂ© ele e sentou-se ao seu lado.
â Sentiu a minha falta, amor? â ela perguntou. Walter ergueu os olhos e a reconheceu. NĂŁo respondeu. Ele olhou para o balconista, e o balconista olhou para eles. Todos se conheciam.
â Ao sul de lugar nenhum
Um Livrinho Grátis de 25 Páginas
matando por uma cerveja morrendo
pela vida e por causa da vida
numa tarde ventosa em Hollywood
escutando mĂșsica sinfĂŽnica no meu radinho vermelho
sobre o chĂŁo.
um amigo disse,
âtudo o que vocĂȘ precisa fazer Ă© ir lĂĄ fora e se deitar
na calçada
alguém aparece e o recolhe
alguĂ©m tomarĂĄ conta de vocĂȘâ.
olhei pela janela para a calçada
vejo uma coisinha maravilhosa caminhando na calçada
ela nĂŁo se deitaria ali,
somente em lugares especiais para pessoas especiais com $$$$ especiais
e
maneiras especiais
enquanto eu estou matando por uma cerveja numa tarde ventosa em
Hollywood,
nada como uma bela jovem que rebola e passa por vocĂȘ na
calçada
rebolando e passando em frente Ă sua janela faminta
estĂĄ vestida nos melhores trajes
nĂŁo dĂĄ bola para o que vocĂȘ diz
para sua aparĂȘncia e o que vocĂȘ faz
contanto que vocĂȘ nĂŁo se ponha em seu
caminho, e deve ser porque ela nĂŁo caga ou
nĂŁo tem sangue
ela deve ser uma nuvem, amigo, o modo como passa flutuando pela gente.
estou enjoado demais para me deitar
as calçadas me assustam
a maldita cidade inteira me assusta,
o que me tornarei
o que jĂĄ me tornei
me assusta.
ah, a bravata se foi
a grande corrida através do centro se foi
numa tarde ventosa em Hollywood
meu rĂĄdio estala e cospe sua mĂșsica suja
cortando um chĂŁo cheio de garrafas de cerveja vazias.
agora escuto uma sirene
ela se aproxima
a mĂșsica para
o homem no rĂĄdio diz,
âvamos mandar um livrinho de 25 pĂĄginas grĂĄtis para vocĂȘ:
ENFRENTANDO OS CUSTOS DA UNIVERSIDADEâ.
a sirene fenece dentro das montanhas de caixa de papelĂŁo
e eu olho outra vez através da janela enquanto o pulso cerrado de
uma nuvem carregada se impÔe...
o vento balança as plantas lå fora
espero pelo entardecer espero pela noite espero sentado numa cadeira
junto Ă janela...
o cozinheiro apanha e joga na ĂĄgua
o caranguejo ainda vivo
vermelho-rosa e salgado e de peito sĂłlido e
o jogo
continua
venham me pegar.
pela vida e por causa da vida
numa tarde ventosa em Hollywood
escutando mĂșsica sinfĂŽnica no meu radinho vermelho
sobre o chĂŁo.
um amigo disse,
âtudo o que vocĂȘ precisa fazer Ă© ir lĂĄ fora e se deitar
na calçada
alguém aparece e o recolhe
alguĂ©m tomarĂĄ conta de vocĂȘâ.
olhei pela janela para a calçada
vejo uma coisinha maravilhosa caminhando na calçada
ela nĂŁo se deitaria ali,
somente em lugares especiais para pessoas especiais com $$$$ especiais
e
maneiras especiais
enquanto eu estou matando por uma cerveja numa tarde ventosa em
Hollywood,
nada como uma bela jovem que rebola e passa por vocĂȘ na
calçada
rebolando e passando em frente Ă sua janela faminta
estĂĄ vestida nos melhores trajes
nĂŁo dĂĄ bola para o que vocĂȘ diz
para sua aparĂȘncia e o que vocĂȘ faz
contanto que vocĂȘ nĂŁo se ponha em seu
caminho, e deve ser porque ela nĂŁo caga ou
nĂŁo tem sangue
ela deve ser uma nuvem, amigo, o modo como passa flutuando pela gente.
estou enjoado demais para me deitar
as calçadas me assustam
a maldita cidade inteira me assusta,
o que me tornarei
o que jĂĄ me tornei
me assusta.
ah, a bravata se foi
a grande corrida através do centro se foi
numa tarde ventosa em Hollywood
meu rĂĄdio estala e cospe sua mĂșsica suja
cortando um chĂŁo cheio de garrafas de cerveja vazias.
agora escuto uma sirene
ela se aproxima
a mĂșsica para
o homem no rĂĄdio diz,
âvamos mandar um livrinho de 25 pĂĄginas grĂĄtis para vocĂȘ:
ENFRENTANDO OS CUSTOS DA UNIVERSIDADEâ.
a sirene fenece dentro das montanhas de caixa de papelĂŁo
e eu olho outra vez através da janela enquanto o pulso cerrado de
uma nuvem carregada se impÔe...
o vento balança as plantas lå fora
espero pelo entardecer espero pela noite espero sentado numa cadeira
junto Ă janela...
o cozinheiro apanha e joga na ĂĄgua
o caranguejo ainda vivo
vermelho-rosa e salgado e de peito sĂłlido e
o jogo
continua
venham me pegar.
Um Poema Para a Velha Dente-Podre
conheço uma mulher
que segue comprando quebra-cabeças
quebra-cabeças
chineses
blocos
arames
peças que finalmente se encaixam
numa espécie de ordem.
ela se dedica Ă questĂŁo
de modo matemĂĄtico
resolve todos os seus
quebra-cabeças
vive perto do mar
pĂ”e açĂșcar para as formigas lĂĄ fora
e acredita
definitivamente
num mundo melhor.
seu cabelo Ă© branco
raramente o penteia
seus dentes sĂŁo podres
e ela veste macacÔes frouxos
e amorfos sobre um corpo que a maioria
das mulheres desejaria ter.
ao longo de muitos anos ela me irritou
com o que eu considerava suas
excentricidades:
como mergulhar conchas na ĂĄgua
(para que ao regar as plantas elas
recebessem cĂĄlcio).
mas finalmente quando penso na sua
vida
e a comparo a outras vidas
mais deslumbrantes, originais
e belas
percebo que ela machucou menos
gente do que qualquer outra pessoa que conheço
(e com machucar quero dizer simplesmente machucar).
ela enfrentou alguns momentos terrĂveis,
momentos em que talvez eu devesse tĂȘ-la
ajudado mais
porque era a mĂŁe da minha Ășnica
filha
e uma vez fĂŽramos grandes amantes,
mas ela havia superado essas dificuldades
como eu disse
das pessoas que conheço ela foi a que machucou
menos gente,
e se vocĂȘ olhar para isso pelo que isso significa,
bem,
ela criou um mundo melhor.
ela venceu.
Frances, este poema Ă© pra
vocĂȘ.
Encontrava Sara a cada trĂȘs ou quatro dias, na casa dela ou na minha. DormĂamos juntos, mas nĂŁo transĂĄvamos. ChegĂĄvamos perto, mas nunca Ă s vias de fato. Os preceitos de Drayer Baba eram inabalĂĄveis.
Decidimos passar os feriados de final de ano juntos aqui em casa, o Natal e o Ano-Novo.
Sara chegou por volta do meio-dia, no dia 24, em sua Kombi. Fiquei olhando-a estacionar, depois saĂ em seu encontro. Trazia vĂĄrias ripas de madeira amarradas sobre o teto da Kombi. Era meu presente de Natal: ela faria uma cama para mim. Minha cama era uma piada: um simples box de mola com o interior saltando para fora do colchĂŁo. Sara tambĂ©m trouxe um peru orgĂąnico, mais os acompanhamentos. Eu tinha ficado de pagar essas compras mais o vinho branco. AlĂ©m disso, havia umas lembrancinhas que irĂamos trocar.
Carregamos as ripas de madeira e o peru e as outras coisas. Coloquei o box, o colchĂŁo e a guarda da cama do lado de fora e coloquei um cartaz: âGrĂĄtisâ. A guarda foi primeiro, o box em seguida, e finalmente alguĂ©m levou o colchĂŁo. Era uma vizinhança pobre.
Eu tinha visto a cama de Sara na casa dela, dormira nela, e tinha gostado. Nunca tinha gostado dos colchÔes comuns, ao menos dos que eu podia comprar. Eu havia passado mais da metade da minha vida em camas que serviriam melhor a alguém que tivesse o corpo na forma de uma minhoca.
Sara havia construĂdo a prĂłpria cama e ela iria construir outra igual para mim. Uma plataforma sĂłlida de madeira, suportada por sete pĂ©s quĂĄdruplos (o sĂ©timo colocado diretamente no meio), coberta por uma camada de espuma firme de dez centĂmetros. Sara tinha umas boas ideias. Eu segurava as tĂĄbuas, e Sara assentava os pregos. Era boa com o martelo. Pesava apenas 52 quilos, mas mandava ver nos pregos. A cama ficaria Ăłtima.
NĂŁo levou muito para que Sara terminasse.
EntĂŁo testamos a cama â nĂŁo sexualmente â sob o sorriso auspicioso de Drayer Baba.
SaĂmos de carro em busca de uma ĂĄrvore de Natal. NĂŁo estava muito a fim de encontrĂĄ-la (o Natal sempre havia sido uma Ă©poca infeliz na minha infĂąncia), e, quando vimos todos os canteiros vazios, nĂŁo ter uma ĂĄrvore nĂŁo foi algo que me incomodou. Enquanto voltĂĄvamos, Sara ficou triste. Mas depois de entrarmos e de alguns copos de vinho ela recuperou a alegria e começou a pendurar os arranjos de natal, lampadinhas, purpurina, por toda parte, inclusive nos meus cabelos.
Tinha lido em algum lugar que mais pessoas cometiam suicĂdio no Natal e na noite do Ano-Novo do que em qualquer outra Ă©poca. Aparentemente, este feriado nada tinha a ver com o Nascimento de Cristo.
As mĂșsicas no rĂĄdio eram de dar engulhos no estomago e na tevĂȘ a coisa era ainda pior, entĂŁo desligamos tudo e ela ligou para a mĂŁe no Maine. Falei com a mamĂŁe tambĂ©m, e ela nĂŁo era das piores.
â No começo â disse Sara â, pensei em ajeitar as coisas entre vocĂȘ e mamĂŁe, mas ela Ă© mais velha do que vocĂȘ.
â Esqueça.
â Ela tem Ăłtimas pernas.
â Esqueça.
â VocĂȘ tem preconceito contra pessoas mais velhas?
â Sim, contra todos os velhos exceto eu.
â VocĂȘ age como se fosse uma estrela de cinema. VocĂȘ sempre teve mulheres 20 ou 30 anos mais novas que vocĂȘ?
â NĂŁo quando estava na casa dos vinte.
â Tudo bem. VocĂȘ jĂĄ teve alguma mulher que fosse mais velha que vocĂȘ, quero dizer, chegou a viver com ela?
â Claro, quando eu tinha 25 vivi com uma mulher de 35.
â E como foi?
â Uma desgraça. Eu me apaixonei por ela.
â E isso Ă© uma desgraça?
â Ela me fez ir pra faculdade.
â E isso Ă© uma desgraça?
â NĂŁo era o tipo de faculdade que vocĂȘ estĂĄ pensando. Ela era a faculdade, e eu o jovem estudante.
â O que aconteceu com ela?
â Acabei tendo que enterrĂĄ-la.
â Com as devidas honras? VocĂȘ a matou?
â O trago a matou.
â Feliz Natal.
â Claro. Me fale de vocĂȘ.
â Passo.
â Muitas histĂłrias?
â Muitas, e ao mesmo tempo tĂŁo poucas.
Trinta ou quarenta minutos depois alguĂ©m bateu Ă porta. Sara se levantou e foi abrir. Um sĂmbolo sexual entrou. Na vĂ©spera de Natal. NĂŁo sabia quem ela era. Usava uma roupa preta e seus peitos enormes pareciam prestes a saltar para fora do vestido. Aquilo era magnĂfico. Nunca tinha visto peitos como aqueles, expostos dessa maneira, a nĂŁo ser em filmes.
â Oi, Hank!
Ela me conhecia.
â Sou Edie. VocĂȘ me conheceu na casa do Bobby numa noite dessas.
â SĂ©rio?
â Estava bĂȘbado demais pra lembrar?
â OlĂĄ, Edie. Esta Ă© Sara.
â Estou atrĂĄs do Bobby. Pensei que ele pudesse estar por aqui.
â Sente-se e beba alguma coisa.
Edie se sentou numa cadeira Ă minha direita, bem prĂłxima a mim. Devia ter uns 25. Acendeu um cigarro e tomou um gole de sua bebida. Cada vez que ela se inclinava para frente sobre a mesinha de centro eu tinha certeza de que aconteceria, que os peitos saltariam para fora. E eu tinha medo do que faria caso isso acontecesse. Simplesmente nĂŁo conseguia entender nada. Nunca tinha sido um homem ligado em peitos, sempre fui chegado em pernas. Mas Edie sabia mesmo explorar o que possuĂa. Eu estava com medo e olhava de canto para seus peitos sem saber se queria que eles saltassem para fora ou que ficassem onde estavam.
â VocĂȘ conheceu o Manny â ela me disse â lĂĄ na casa do Bobby?
â Claro.
â Tive que lhe dar um pĂ© na bunda. O cara era muito ciumento. Chegou a contratar um detetive particular pra me seguir! Imagine sĂł! O cara Ă© um retardado de merda!
â Claro.
â Odeio homens que ficam mendigando atenção. Odeio gente mesquinha!
â Ă difĂcil encontrar um homem bom nos dias de hoje â eu disse. â Ă uma canção. Dos tempos da Segunda Guerra. TambĂ©m tinha uma outra: âNĂŁo sente debaixo de uma macieira com outra pessoa que nĂŁo seja euâ.
â Hank, vocĂȘ estĂĄ gaguejando... â disse Sara.
â Tome outro drinque, Edie â eu disse, servindo-lhe mais uma dose.
â Os homens nĂŁo passam de uns merdas! â continuou. â Entrei num bar dia desses. Estava com quatro caras, amigos do peito. Sentamos por ali, virando umas canecas de chope, estĂĄvamos rindo, sabe, curtindo o momento, nĂŁo estĂĄvamos incomodando ninguĂ©m. EntĂŁo me veio a ideia de jogar uma partidinha de bilhar. Gosto de jogar bilhar. Acho que quando uma mulher joga bilhar ela mostra se tem classe ou nĂŁo.
â NĂŁo sei jogar bilhar â eu disse. â Sempre rasgo o feltro, e nem preciso ter classe.
â Seja o que for, fui atĂ© a mesa e lĂĄ estava um cara jogando bilhar sozinho. Cheguei nele e disse: âEscute, vocĂȘ jĂĄ estĂĄ nessa mesa hĂĄ um tempĂŁo. Eu e meus amigos queremos jogar um pouquinho. VocĂȘ se importa de liberar a mesa por um momento?â Ele se virou e olhou pra mim. Ficou ali parado. Por fim, fez uma cara enjoada e disse: âTudo bemâ.
Edie se animou e se mexia toda ao falar. Eu sĂł espiando aquelas maravilhas.
â Voltei atrĂĄs dos meus amigos. âConseguimos a mesa.â Finalmente o cara estava apenas com uma bola na mesa. Foi quando chegou um amigo dele e disse: âEi, Ernie, soube que vocĂȘ vai sair da mesaâ. E vocĂȘs sabem o que ele disse para o outro? Disse: âSim, vou deixar a mesa nas mĂŁos daquela piranha!â Escutei aquilo e vi tudo ficar VERMELHO! O cara jĂĄ se inclinava sobre a mesa pra bater na Ășltima bola. Apanhei um taco e enquanto ele estava naquela posição acertei sua cabeça com toda a força que pude. O cara caiu sobre a mesa como se estivesse morto. Era conhecido no bar, e entĂŁo os seus amigos, em grupo, correram na minha direção, mas, ao mesmo tempo, os meus parceiros tambĂ©m se aproximaram. Rapaz, que quebra-pau! Garrafas espatifando, espelhos quebrados... NĂŁo sei como saĂmos de lĂĄ, mas saĂmos. Ei, vocĂȘ tem erva aĂ?
â Sim, mas nĂŁo sei fechar muito bem.
â Deixa que eu cuido disso.
Edie fechou um baseado fininho, obra de mestre. Deu um pega, tragando-o com um chiado, e entĂŁo passou para mim.
â EntĂŁo, na noite seguinte, eu voltei lĂĄ sozinha. O dono, que atendia no bar, me reconheceu. Seu nome Ă© Claude. âClaudeâ, eu lhe disse, âsinto muito por ontem Ă noite, mas o cara na mesa era um otĂĄrio de merda. Ele me chamou de piranha.â
Servi mais uma rodada. Mais alguns minutos e seus seios estariam Ă mostra.
â O dono disse: âTudo bem, esqueçaâ. Ele parecia um cara legal. âO que vocĂȘ gosta de beber?â, ele me perguntou. Fiquei ali pelo bar, tomei duas ou trĂȘs bebidas de graça, e entĂŁo ele disse: âSabe, estou pensando em trocar de garçoneteâ.
Edie deu um pega no baseado e continuou.
â Ele me falou dos problemas com a outra garçonete. âEla atrai os homens atĂ©, mas causa muita confusĂŁo. Joga um cara contra o outro. EstĂĄ sempre debaixo dos holofotes. EntĂŁo descobri que ela estava fazendo uma graninha por fora. Usava o MEU bar pra faturar com sua buceta!â
â SĂ©rio? â perguntou Sara.
â Foi o que ele disse. De todo modo, me ofereceu a vaga de garçonete. E ele disse: âNada de querer faturar um extra!â Disse pra ele parar com essa bobagem, eu nĂŁo era dessa laia. Pensei, entĂŁo, que talvez pudesse guardar algum dinheiro e ir pra UCLA, para me formar em quĂmica e estudar francĂȘs, que foi o que sempre planejei. EntĂŁo ele disse: âVenha atĂ© aqui, quero lhe mostrar onde estocamos as mercadorias e tenho inclusive um uniforme que quero que vocĂȘ experimente. Nunca foi usado e acho que Ă© do seu tamanho.â EntĂŁo fui com ele atĂ© esse quartinho escuro e ele tentou me agarrar. Dei um empurrĂŁo nele. EntĂŁo ele disse: âMe dĂĄ sĂł um beijinhoâ. âVai se foder!â, eu disse. Ele era gordo e careca e baixinho e usava dentadura e tinha verrugas pretas nas bochechas, com pelos saindo delas. Ele me prensou e agarrou a minha bunda com uma das mĂŁos e com a outra um dos meus peitos, tentando me dar um beijo. Empurrei ele outra vez. âEu sou casadoâ, ele disse, âamo a minha mulher, nĂŁo se preocupe!â Voltou a me prensar e eu lhe dei um joelhaço vocĂȘ-sabe-onde. Acho que ele nĂŁo tinha nada por ali, nĂŁo chegou nem a se encolher. âEu lhe dou dinheiroâ, ele disse, âvou ser legal com vocĂȘ!â Disse pra ele enfiar o dinheiro no cu. E assim perdi mais um emprego.
â Ă uma histĂłria triste â eu disse.
â Escute â disse Edie â, tenho que ir. Feliz Natal. Obrigada pelas bebidas.
Ela se levantou e a acompanhei até a porta, abrindo-a. Ela saiu e atravessou o påtio. Voltei e me sentei.
â Seu filho da puta â disse Sara.
â O que foi?
â Se eu nĂŁo estivesse aqui vocĂȘ teria trepado com ela.
â Eu mal conheço essa mulher.
â Aqueles peitos! VocĂȘ estava petrificado! VocĂȘ nĂŁo tinha coragem nem de olhar pra ela!
â O que serĂĄ que ela fazia por aĂ, vagando na vĂ©spera de Natal?
â Por que vocĂȘ nĂŁo vai lĂĄ e pergunta pra ela?
â Ela disse que estava atrĂĄs do Bobby.
â Se eu nĂŁo estivesse aqui vocĂȘ teria trepado com ela.
â NĂŁo sei. NĂŁo tenho como saber...
Então Sara se levantou e começou a gritar. E começou a soluçar e foi para o quarto. Me servi mais um drinque. As lampadinhas nas paredes não paravam de piscar.
Sara preparava o recheio do peru, e eu fiquei na cozinha com ela, conversando. TomĂĄvamos um vinho branco.
O telefone tocou. Fui atender. Era Debra.
â Queria apenas desejar pra vocĂȘ um feliz Natal, seu macarrĂŁo molhado.
â Obrigado, Debra. E um bom Papai Noel pra vocĂȘ
Conversamos um pouco, depois voltei e me sentei.
â Quem era?
â Debra.
â Como ela estĂĄ?
â Bem, eu acho.
â O que ela queria?
â Desejar feliz Natal.
â VocĂȘ vai gostar desse peru orgĂąnico, e o recheio tambĂ©m Ă© bom. As pessoas comem veneno, veneno puro. A AmĂ©rica Ă© um dos poucos paĂses onde o cĂąncer de colĂłn Ă© predominante.
â Pois Ă©, meu cu coça um monte, mas sĂŁo sĂł as minhas hemorroidas. Operei uma vez. Antes de operar eles enfiam essa cobra no seu intestino, com uma luzinha na ponta e eles olham dentro de vocĂȘ, pra ver se encontram algum cĂąncer. Essa cobra Ă© muito cumprida. Eles apenas pegam e enfiam a coisa dentro de vocĂȘ!
O telefone voltou a tocar. Fui lĂĄ atender. Era Cassie.
â Como vai vocĂȘ?
â Sara e eu estamos preparando um peru.
â Sinto sua falta.
â Feliz Natal pra vocĂȘ tambĂ©m. Como vai o trabalho?
â Tudo bem. Estou de folga atĂ© o dia 2 de janeiro.
â Feliz Ano-Novo, Cassie!
â Que diabos hĂĄ com vocĂȘ?
â Estou um pouco aĂ©reo. NĂŁo estou acostumado a beber vinho branco a essa hora.
â Me liga qualquer hora dessas.
â Claro.
Retornei Ă cozinha.
â Era a Cassie. As pessoas ligam no Natal. Talvez Drayer Baba ligue.
â NĂŁo vai ligar.
â Por quĂȘ?
â Nunca falou em voz alta. Nunca falou e tambĂ©m nunca tocou em dinheiro.
â Mas que beleza. Deixa eu provar um pouco desse recheio.
â Ok.
â Vamos ver... Nada mal!
O telefone tocou mais uma vez. Era assim que o negócio funcionava. Uma vez que começasse a tocar, não parava mais. Fui até o quarto e atendi.
â AlĂŽ â eu disse. â Quem estĂĄ falando?
â Seu filho da puta. NĂŁo sabe quem Ă©?
â NĂŁo, nĂŁo sei mesmo.
Era uma mulher bĂȘbada.
â Adivinha.
â Espera. JĂĄ sei! Ă Iris!
â Sim, Iris. E estou grĂĄvida!
â Sabe quem Ă© o pai?
â Que diferença isso faz?
â Ă, acho que vocĂȘ estĂĄ certa. Como estĂŁo as coisas em Vancouver?
â Tudo bem. Tchau.
â Tchau.
Voltei mais uma vez para a cozinha.
â Era aquela canadense, dançarina do ventre â eu disse a Sara.
â Como ela estĂĄ?
â Empanturrada pela alegria natalina.
Sara colocou o peru no forno e fomos para a sala. Ficamos falando bobagem por algum tempo. O telefone tocou outra vez.
â AlĂŽ â eu disse.
â VocĂȘ Ă© Henry Chinaski? â A voz era de um jovem.
â Sim.
â VocĂȘ Ă© mesmo Henry Chinaski, o escritor?
â Sim.
â De verdade?
â Claro.
â Bem, nĂłs somos uma galera de Bel Air e nĂłs realmente achamos do caralho o que vocĂȘ escreve, cara! Gostamos tanto da porra dos seus textos que queremos recompensĂĄ-lo, cara!
â Ă mesmo?
â Sim, vamos pintar aĂ com umas cevas e tal.
â Enfie a cerveja no cu.
â O quĂȘ?
â Eu disse: âEnfie a cerveja no cu!â
Desliguei.
â Quem era? â perguntou Sara.
â Acabo de perder trĂȘs ou quatro leitores em Bel Air. Mas valeu a pena.
O peru ficou pronto e eu o tirei do forno, coloquei-o numa travessa, tirei a måquina de escrever e todos os meus papéis de cima da mesa da cozinha, e ajeitei o peru ali. Comecei a destrinchå-lo enquanto Sara trazia os vegetais. Sentamos. Enchi meu prato, Sara, o dela. Era uma visão bonita.
â Espero que aquela peituda nĂŁo resolva voltar â disse Sara. Parecia bastante incomodada diante da possibilidade.
â Se ela aparecer, ofereço um pedaço.
â O quĂȘ?
Apontei para o peru.
â Eu disse que âse ela aparecer, ofereço um pedaçoâ. Espere pra ver se nĂŁo faço isso.
Sara gritou. Ficou de pĂ©. Tremia. Correu atĂ© o quarto. Olhei para meu peru. NĂŁo conseguiria comĂȘ-lo. Mais uma vez, apertara o botĂŁo errado. Fui atĂ© a sala com meu drinque e me sentei. Esperei 15 minutos e entĂŁo coloquei o peru e os vegetais na geladeira.
Sara voltou para a sua casa no dia seguinte, e eu fiz um sanduĂche de peru frio por volta das trĂȘs. Por volta das cinco, houve uma pancada terrĂvel na porta. Abri. Eram Tammie e Arlene. Estavam totalmente emboletadas. Entraram e começaram a aloprar, as duas falando ao mesmo tempo.
â Tem alguma coisa pra beber?
â Caralho, Hank, tem alguma porra pra beber?
â Como foi a merda do seu Natal?
â Ă. Como foi a merda do seu Natal, cara?
â Tem cerveja e vinho na frigidaire â eu lhes disse.
(Ă fĂĄcil reconhecer um coroa: ele chama geladeira de frigidaire.)
Entraram dançando na cozinha e abriram a frigidaire.
â Ei, tem um peru aqui!
â Estamos com fome, Hank! Podemos comer um pouco de peru?
â Claro.
Tammie voltou com uma coxa e deu uma mordida.
â Ei, que peru horrĂvel! Precisa temperar!
Arlene voltou com fatias de carne nas mĂŁos.
â Ă, precisa pĂŽr tempero. EstĂĄ totalmente insosso! VocĂȘ tem temperos?
â No armĂĄrio â eu disse.
Voltaram aos pulos para a cozinha e começaram a pÎr os temperos.
â AĂ! Bem melhor!
â Ă, agora tem gosto de alguma coisa!
â Peru orgĂąnico, que bela merda!
â Merda pura!
â Quero mais um pedaço!
â Eu tambĂ©m. Mas tem que temperar.
Tammie voltou e se sentou. Ela recém terminara a coxa. Então pegou o osso, partiu-o ao meio, e começou a mastigå-lo. Fiquei pasmo. Ela estava comendo o osso da coxa, cuspindo umas lasquinhas no tapete.
â Ei, vocĂȘ estĂĄ comendo o osso!
â Sim, Ă© uma delĂcia!
Tammie voltou correndo Ă cozinha para pegar mais.
Logo as duas apareceram, cada uma com uma garrafa de cerveja.
â Obrigada, Hank.
â Ă, obrigada, cara.
Elas sentaram, mamando as cervejas.
â Bem â disse Tammie â, estĂĄ na nossa hora.
â Ă, vamos estuprar alguns garotinhos do ensino mĂ©dio!
â Ă isso aĂ!
As duas se levantaram num salto e saĂram porta afora. Fui atĂ© a cozinha e olhei dentro da geladeira. O peru parecia ter sido atacado por um tigre â a carcaça havia sido simplesmente dilacerada. Chegava a ser obsceno.
Sara apareceu na noite seguinte.
â Que tal o peru? â ela perguntou.
â Bom.
Ela foi até a cozinha e abriu a porta da geladeira. Gritou. Então voltou correndo.
â Meu deus, o que aconteceu?
â Tammie e Arlene deram uma passada aqui. Acho que nĂŁo comiam hĂĄ uma semana.
â Ai, que nojo. Ă de partir o coração!
â Me desculpe. Eu devia ter impedido as duas. Estavam emboletadas.
â Bem, sĂł resta uma coisa a fazer.
â O quĂȘ?
â Posso fazer um ensopado de peru. Vou comprar alguns vegetais.
â Tudo bem.
Dei-lhe uma nota de vinte.
Sara preparou a sopa naquela noite. Estava deliciosa. Ao ir embora pela manhĂŁ, deixou-me as instruçÔes sobre como aquecĂȘ-la.
Tammie bateu à porta por volta das quatro horas. Deixei-a entrar e ela foi direto até a cozinha. A porta da geladeira se abriu.
â Olha sĂł, sopa, entĂŁo?
â Sim.
â EstĂĄ boa?
â Sim.
â VocĂȘ se importa se eu tomar um pouquinho?
â NĂŁo.
Pude ouvi-la levar a sopa ao fogĂŁo. Depois o som de uma colherada.
â Deus! Esse negĂłcio nĂŁo tem gosto de nada! Precisa de tempero!
Escutei-a mexer nos temperos. EntĂŁo ela voltou a experimentar.
â Ah, outra coisa! Mas ainda Ă© pouco! Sou de origem italiana, vocĂȘ sabe. Agora... Sim... EstĂĄ bem melhor! Agora Ă© sĂł deixar esquentar. Posso tomar uma cerveja?
â Tudo bem.
Voltou com uma garrafa e se sentou.
â Sentiu minha falta? â perguntou.
â VocĂȘ nunca saberĂĄ.
â Acho que vou recuperar meu emprego no Play Pen.
â Ătimo.
â LĂĄ rola umas boas gorjetas. Um cara aĂ me dava cinco dĂłlares de gorjeta por noite. Estava apaixonado por mim. Mas nunca me convidou pra sair. Ficava apenas me olhando com uns olhos cheios de ternura. Era um tipo estranho. Era cirurgiĂŁo retal e Ă s vezes se masturbava me vendo caminhar de um lado pro outro. Dava pra sentir o cheiro de porra, sabe.
â Bem, vocĂȘ deixou o cara nesse estado...
â Acho que a sopa estĂĄ pronta. Quer um pouco?
â NĂŁo, obrigado.
Tammie entrou na cozinha e dava para ouvi-la servindo a sopa no prato. Ficou lĂĄ por um longo tempo. EntĂŁo retornou.
â Tem como me emprestar cinco paus atĂ© sexta-feira?
â NĂŁo.
â EntĂŁo dois paus.
â NĂŁo.
â EntĂŁo me descola um dĂłlar mesmo.
Dei a Tammie um punhado de moedas. Totalizavam um dĂłlar e 37 centavos.
â Obrigada â ela disse.
â Tudo bem.
Depois disso, ela se foi.
Sara apareceu na noite seguinte. Raramente vinha assim tĂŁo seguido, devia ter algo a ver com o feriado de final de ano, todo mundo se sente perdido, meio louco, assustado. O vinho branco estava preparado e servi dois copos.
â Como vĂŁo as coisas na Pousada? â perguntei.
â Ter um negĂłcio Ă© uma merda. Mal dĂĄ pra pagar as despesas.
â Onde estĂŁo os hĂłspedes?
â EstĂŁo todos fora da cidade; foram todos pra algum lugar.
â Todos os nossos esquemas tĂȘm seus furos.
â Nem todos. Algumas pessoas simplesmente nĂŁo erram nunca, seguem sempre em frente.
â Verdade.
â E a sopa?
â Quase no fim.
â Gostou?
â NĂŁo cheguei a tomar muito.
Sara foi até a cozinha e abriu a porta da geladeira.
â O que aconteceu com a sopa? EstĂĄ com uma cara estranha.
Escutei o som que ela fez ao provå-la. E então como correu até a pia e cuspiu o que estava na boca.
âJesus, a sopa estĂĄ envenenada! O que aconteceu? Tammie e Arlene voltaram para tomar a sopa tambĂ©m?
â SĂł a Tammie.
Sara não gritou. Apenas virou o que sobrara da sopa na pia e acionou o triturador de lixo. Podia escutar seus soluços mal disfarçados. Aquele pobre peru orgùnico tinha passado um Natal dos diabos.
â Mulheres
que segue comprando quebra-cabeças
quebra-cabeças
chineses
blocos
arames
peças que finalmente se encaixam
numa espécie de ordem.
ela se dedica Ă questĂŁo
de modo matemĂĄtico
resolve todos os seus
quebra-cabeças
vive perto do mar
pĂ”e açĂșcar para as formigas lĂĄ fora
e acredita
definitivamente
num mundo melhor.
seu cabelo Ă© branco
raramente o penteia
seus dentes sĂŁo podres
e ela veste macacÔes frouxos
e amorfos sobre um corpo que a maioria
das mulheres desejaria ter.
ao longo de muitos anos ela me irritou
com o que eu considerava suas
excentricidades:
como mergulhar conchas na ĂĄgua
(para que ao regar as plantas elas
recebessem cĂĄlcio).
mas finalmente quando penso na sua
vida
e a comparo a outras vidas
mais deslumbrantes, originais
e belas
percebo que ela machucou menos
gente do que qualquer outra pessoa que conheço
(e com machucar quero dizer simplesmente machucar).
ela enfrentou alguns momentos terrĂveis,
momentos em que talvez eu devesse tĂȘ-la
ajudado mais
porque era a mĂŁe da minha Ășnica
filha
e uma vez fĂŽramos grandes amantes,
mas ela havia superado essas dificuldades
como eu disse
das pessoas que conheço ela foi a que machucou
menos gente,
e se vocĂȘ olhar para isso pelo que isso significa,
bem,
ela criou um mundo melhor.
ela venceu.
Frances, este poema Ă© pra
vocĂȘ.
Encontrava Sara a cada trĂȘs ou quatro dias, na casa dela ou na minha. DormĂamos juntos, mas nĂŁo transĂĄvamos. ChegĂĄvamos perto, mas nunca Ă s vias de fato. Os preceitos de Drayer Baba eram inabalĂĄveis.
Decidimos passar os feriados de final de ano juntos aqui em casa, o Natal e o Ano-Novo.
Sara chegou por volta do meio-dia, no dia 24, em sua Kombi. Fiquei olhando-a estacionar, depois saĂ em seu encontro. Trazia vĂĄrias ripas de madeira amarradas sobre o teto da Kombi. Era meu presente de Natal: ela faria uma cama para mim. Minha cama era uma piada: um simples box de mola com o interior saltando para fora do colchĂŁo. Sara tambĂ©m trouxe um peru orgĂąnico, mais os acompanhamentos. Eu tinha ficado de pagar essas compras mais o vinho branco. AlĂ©m disso, havia umas lembrancinhas que irĂamos trocar.
Carregamos as ripas de madeira e o peru e as outras coisas. Coloquei o box, o colchĂŁo e a guarda da cama do lado de fora e coloquei um cartaz: âGrĂĄtisâ. A guarda foi primeiro, o box em seguida, e finalmente alguĂ©m levou o colchĂŁo. Era uma vizinhança pobre.
Eu tinha visto a cama de Sara na casa dela, dormira nela, e tinha gostado. Nunca tinha gostado dos colchÔes comuns, ao menos dos que eu podia comprar. Eu havia passado mais da metade da minha vida em camas que serviriam melhor a alguém que tivesse o corpo na forma de uma minhoca.
Sara havia construĂdo a prĂłpria cama e ela iria construir outra igual para mim. Uma plataforma sĂłlida de madeira, suportada por sete pĂ©s quĂĄdruplos (o sĂ©timo colocado diretamente no meio), coberta por uma camada de espuma firme de dez centĂmetros. Sara tinha umas boas ideias. Eu segurava as tĂĄbuas, e Sara assentava os pregos. Era boa com o martelo. Pesava apenas 52 quilos, mas mandava ver nos pregos. A cama ficaria Ăłtima.
NĂŁo levou muito para que Sara terminasse.
EntĂŁo testamos a cama â nĂŁo sexualmente â sob o sorriso auspicioso de Drayer Baba.
SaĂmos de carro em busca de uma ĂĄrvore de Natal. NĂŁo estava muito a fim de encontrĂĄ-la (o Natal sempre havia sido uma Ă©poca infeliz na minha infĂąncia), e, quando vimos todos os canteiros vazios, nĂŁo ter uma ĂĄrvore nĂŁo foi algo que me incomodou. Enquanto voltĂĄvamos, Sara ficou triste. Mas depois de entrarmos e de alguns copos de vinho ela recuperou a alegria e começou a pendurar os arranjos de natal, lampadinhas, purpurina, por toda parte, inclusive nos meus cabelos.
Tinha lido em algum lugar que mais pessoas cometiam suicĂdio no Natal e na noite do Ano-Novo do que em qualquer outra Ă©poca. Aparentemente, este feriado nada tinha a ver com o Nascimento de Cristo.
As mĂșsicas no rĂĄdio eram de dar engulhos no estomago e na tevĂȘ a coisa era ainda pior, entĂŁo desligamos tudo e ela ligou para a mĂŁe no Maine. Falei com a mamĂŁe tambĂ©m, e ela nĂŁo era das piores.
â No começo â disse Sara â, pensei em ajeitar as coisas entre vocĂȘ e mamĂŁe, mas ela Ă© mais velha do que vocĂȘ.
â Esqueça.
â Ela tem Ăłtimas pernas.
â Esqueça.
â VocĂȘ tem preconceito contra pessoas mais velhas?
â Sim, contra todos os velhos exceto eu.
â VocĂȘ age como se fosse uma estrela de cinema. VocĂȘ sempre teve mulheres 20 ou 30 anos mais novas que vocĂȘ?
â NĂŁo quando estava na casa dos vinte.
â Tudo bem. VocĂȘ jĂĄ teve alguma mulher que fosse mais velha que vocĂȘ, quero dizer, chegou a viver com ela?
â Claro, quando eu tinha 25 vivi com uma mulher de 35.
â E como foi?
â Uma desgraça. Eu me apaixonei por ela.
â E isso Ă© uma desgraça?
â Ela me fez ir pra faculdade.
â E isso Ă© uma desgraça?
â NĂŁo era o tipo de faculdade que vocĂȘ estĂĄ pensando. Ela era a faculdade, e eu o jovem estudante.
â O que aconteceu com ela?
â Acabei tendo que enterrĂĄ-la.
â Com as devidas honras? VocĂȘ a matou?
â O trago a matou.
â Feliz Natal.
â Claro. Me fale de vocĂȘ.
â Passo.
â Muitas histĂłrias?
â Muitas, e ao mesmo tempo tĂŁo poucas.
Trinta ou quarenta minutos depois alguĂ©m bateu Ă porta. Sara se levantou e foi abrir. Um sĂmbolo sexual entrou. Na vĂ©spera de Natal. NĂŁo sabia quem ela era. Usava uma roupa preta e seus peitos enormes pareciam prestes a saltar para fora do vestido. Aquilo era magnĂfico. Nunca tinha visto peitos como aqueles, expostos dessa maneira, a nĂŁo ser em filmes.
â Oi, Hank!
Ela me conhecia.
â Sou Edie. VocĂȘ me conheceu na casa do Bobby numa noite dessas.
â SĂ©rio?
â Estava bĂȘbado demais pra lembrar?
â OlĂĄ, Edie. Esta Ă© Sara.
â Estou atrĂĄs do Bobby. Pensei que ele pudesse estar por aqui.
â Sente-se e beba alguma coisa.
Edie se sentou numa cadeira Ă minha direita, bem prĂłxima a mim. Devia ter uns 25. Acendeu um cigarro e tomou um gole de sua bebida. Cada vez que ela se inclinava para frente sobre a mesinha de centro eu tinha certeza de que aconteceria, que os peitos saltariam para fora. E eu tinha medo do que faria caso isso acontecesse. Simplesmente nĂŁo conseguia entender nada. Nunca tinha sido um homem ligado em peitos, sempre fui chegado em pernas. Mas Edie sabia mesmo explorar o que possuĂa. Eu estava com medo e olhava de canto para seus peitos sem saber se queria que eles saltassem para fora ou que ficassem onde estavam.
â VocĂȘ conheceu o Manny â ela me disse â lĂĄ na casa do Bobby?
â Claro.
â Tive que lhe dar um pĂ© na bunda. O cara era muito ciumento. Chegou a contratar um detetive particular pra me seguir! Imagine sĂł! O cara Ă© um retardado de merda!
â Claro.
â Odeio homens que ficam mendigando atenção. Odeio gente mesquinha!
â Ă difĂcil encontrar um homem bom nos dias de hoje â eu disse. â Ă uma canção. Dos tempos da Segunda Guerra. TambĂ©m tinha uma outra: âNĂŁo sente debaixo de uma macieira com outra pessoa que nĂŁo seja euâ.
â Hank, vocĂȘ estĂĄ gaguejando... â disse Sara.
â Tome outro drinque, Edie â eu disse, servindo-lhe mais uma dose.
â Os homens nĂŁo passam de uns merdas! â continuou. â Entrei num bar dia desses. Estava com quatro caras, amigos do peito. Sentamos por ali, virando umas canecas de chope, estĂĄvamos rindo, sabe, curtindo o momento, nĂŁo estĂĄvamos incomodando ninguĂ©m. EntĂŁo me veio a ideia de jogar uma partidinha de bilhar. Gosto de jogar bilhar. Acho que quando uma mulher joga bilhar ela mostra se tem classe ou nĂŁo.
â NĂŁo sei jogar bilhar â eu disse. â Sempre rasgo o feltro, e nem preciso ter classe.
â Seja o que for, fui atĂ© a mesa e lĂĄ estava um cara jogando bilhar sozinho. Cheguei nele e disse: âEscute, vocĂȘ jĂĄ estĂĄ nessa mesa hĂĄ um tempĂŁo. Eu e meus amigos queremos jogar um pouquinho. VocĂȘ se importa de liberar a mesa por um momento?â Ele se virou e olhou pra mim. Ficou ali parado. Por fim, fez uma cara enjoada e disse: âTudo bemâ.
Edie se animou e se mexia toda ao falar. Eu sĂł espiando aquelas maravilhas.
â Voltei atrĂĄs dos meus amigos. âConseguimos a mesa.â Finalmente o cara estava apenas com uma bola na mesa. Foi quando chegou um amigo dele e disse: âEi, Ernie, soube que vocĂȘ vai sair da mesaâ. E vocĂȘs sabem o que ele disse para o outro? Disse: âSim, vou deixar a mesa nas mĂŁos daquela piranha!â Escutei aquilo e vi tudo ficar VERMELHO! O cara jĂĄ se inclinava sobre a mesa pra bater na Ășltima bola. Apanhei um taco e enquanto ele estava naquela posição acertei sua cabeça com toda a força que pude. O cara caiu sobre a mesa como se estivesse morto. Era conhecido no bar, e entĂŁo os seus amigos, em grupo, correram na minha direção, mas, ao mesmo tempo, os meus parceiros tambĂ©m se aproximaram. Rapaz, que quebra-pau! Garrafas espatifando, espelhos quebrados... NĂŁo sei como saĂmos de lĂĄ, mas saĂmos. Ei, vocĂȘ tem erva aĂ?
â Sim, mas nĂŁo sei fechar muito bem.
â Deixa que eu cuido disso.
Edie fechou um baseado fininho, obra de mestre. Deu um pega, tragando-o com um chiado, e entĂŁo passou para mim.
â EntĂŁo, na noite seguinte, eu voltei lĂĄ sozinha. O dono, que atendia no bar, me reconheceu. Seu nome Ă© Claude. âClaudeâ, eu lhe disse, âsinto muito por ontem Ă noite, mas o cara na mesa era um otĂĄrio de merda. Ele me chamou de piranha.â
Servi mais uma rodada. Mais alguns minutos e seus seios estariam Ă mostra.
â O dono disse: âTudo bem, esqueçaâ. Ele parecia um cara legal. âO que vocĂȘ gosta de beber?â, ele me perguntou. Fiquei ali pelo bar, tomei duas ou trĂȘs bebidas de graça, e entĂŁo ele disse: âSabe, estou pensando em trocar de garçoneteâ.
Edie deu um pega no baseado e continuou.
â Ele me falou dos problemas com a outra garçonete. âEla atrai os homens atĂ©, mas causa muita confusĂŁo. Joga um cara contra o outro. EstĂĄ sempre debaixo dos holofotes. EntĂŁo descobri que ela estava fazendo uma graninha por fora. Usava o MEU bar pra faturar com sua buceta!â
â SĂ©rio? â perguntou Sara.
â Foi o que ele disse. De todo modo, me ofereceu a vaga de garçonete. E ele disse: âNada de querer faturar um extra!â Disse pra ele parar com essa bobagem, eu nĂŁo era dessa laia. Pensei, entĂŁo, que talvez pudesse guardar algum dinheiro e ir pra UCLA, para me formar em quĂmica e estudar francĂȘs, que foi o que sempre planejei. EntĂŁo ele disse: âVenha atĂ© aqui, quero lhe mostrar onde estocamos as mercadorias e tenho inclusive um uniforme que quero que vocĂȘ experimente. Nunca foi usado e acho que Ă© do seu tamanho.â EntĂŁo fui com ele atĂ© esse quartinho escuro e ele tentou me agarrar. Dei um empurrĂŁo nele. EntĂŁo ele disse: âMe dĂĄ sĂł um beijinhoâ. âVai se foder!â, eu disse. Ele era gordo e careca e baixinho e usava dentadura e tinha verrugas pretas nas bochechas, com pelos saindo delas. Ele me prensou e agarrou a minha bunda com uma das mĂŁos e com a outra um dos meus peitos, tentando me dar um beijo. Empurrei ele outra vez. âEu sou casadoâ, ele disse, âamo a minha mulher, nĂŁo se preocupe!â Voltou a me prensar e eu lhe dei um joelhaço vocĂȘ-sabe-onde. Acho que ele nĂŁo tinha nada por ali, nĂŁo chegou nem a se encolher. âEu lhe dou dinheiroâ, ele disse, âvou ser legal com vocĂȘ!â Disse pra ele enfiar o dinheiro no cu. E assim perdi mais um emprego.
â Ă uma histĂłria triste â eu disse.
â Escute â disse Edie â, tenho que ir. Feliz Natal. Obrigada pelas bebidas.
Ela se levantou e a acompanhei até a porta, abrindo-a. Ela saiu e atravessou o påtio. Voltei e me sentei.
â Seu filho da puta â disse Sara.
â O que foi?
â Se eu nĂŁo estivesse aqui vocĂȘ teria trepado com ela.
â Eu mal conheço essa mulher.
â Aqueles peitos! VocĂȘ estava petrificado! VocĂȘ nĂŁo tinha coragem nem de olhar pra ela!
â O que serĂĄ que ela fazia por aĂ, vagando na vĂ©spera de Natal?
â Por que vocĂȘ nĂŁo vai lĂĄ e pergunta pra ela?
â Ela disse que estava atrĂĄs do Bobby.
â Se eu nĂŁo estivesse aqui vocĂȘ teria trepado com ela.
â NĂŁo sei. NĂŁo tenho como saber...
Então Sara se levantou e começou a gritar. E começou a soluçar e foi para o quarto. Me servi mais um drinque. As lampadinhas nas paredes não paravam de piscar.
Sara preparava o recheio do peru, e eu fiquei na cozinha com ela, conversando. TomĂĄvamos um vinho branco.
O telefone tocou. Fui atender. Era Debra.
â Queria apenas desejar pra vocĂȘ um feliz Natal, seu macarrĂŁo molhado.
â Obrigado, Debra. E um bom Papai Noel pra vocĂȘ
Conversamos um pouco, depois voltei e me sentei.
â Quem era?
â Debra.
â Como ela estĂĄ?
â Bem, eu acho.
â O que ela queria?
â Desejar feliz Natal.
â VocĂȘ vai gostar desse peru orgĂąnico, e o recheio tambĂ©m Ă© bom. As pessoas comem veneno, veneno puro. A AmĂ©rica Ă© um dos poucos paĂses onde o cĂąncer de colĂłn Ă© predominante.
â Pois Ă©, meu cu coça um monte, mas sĂŁo sĂł as minhas hemorroidas. Operei uma vez. Antes de operar eles enfiam essa cobra no seu intestino, com uma luzinha na ponta e eles olham dentro de vocĂȘ, pra ver se encontram algum cĂąncer. Essa cobra Ă© muito cumprida. Eles apenas pegam e enfiam a coisa dentro de vocĂȘ!
O telefone voltou a tocar. Fui lĂĄ atender. Era Cassie.
â Como vai vocĂȘ?
â Sara e eu estamos preparando um peru.
â Sinto sua falta.
â Feliz Natal pra vocĂȘ tambĂ©m. Como vai o trabalho?
â Tudo bem. Estou de folga atĂ© o dia 2 de janeiro.
â Feliz Ano-Novo, Cassie!
â Que diabos hĂĄ com vocĂȘ?
â Estou um pouco aĂ©reo. NĂŁo estou acostumado a beber vinho branco a essa hora.
â Me liga qualquer hora dessas.
â Claro.
Retornei Ă cozinha.
â Era a Cassie. As pessoas ligam no Natal. Talvez Drayer Baba ligue.
â NĂŁo vai ligar.
â Por quĂȘ?
â Nunca falou em voz alta. Nunca falou e tambĂ©m nunca tocou em dinheiro.
â Mas que beleza. Deixa eu provar um pouco desse recheio.
â Ok.
â Vamos ver... Nada mal!
O telefone tocou mais uma vez. Era assim que o negócio funcionava. Uma vez que começasse a tocar, não parava mais. Fui até o quarto e atendi.
â AlĂŽ â eu disse. â Quem estĂĄ falando?
â Seu filho da puta. NĂŁo sabe quem Ă©?
â NĂŁo, nĂŁo sei mesmo.
Era uma mulher bĂȘbada.
â Adivinha.
â Espera. JĂĄ sei! Ă Iris!
â Sim, Iris. E estou grĂĄvida!
â Sabe quem Ă© o pai?
â Que diferença isso faz?
â Ă, acho que vocĂȘ estĂĄ certa. Como estĂŁo as coisas em Vancouver?
â Tudo bem. Tchau.
â Tchau.
Voltei mais uma vez para a cozinha.
â Era aquela canadense, dançarina do ventre â eu disse a Sara.
â Como ela estĂĄ?
â Empanturrada pela alegria natalina.
Sara colocou o peru no forno e fomos para a sala. Ficamos falando bobagem por algum tempo. O telefone tocou outra vez.
â AlĂŽ â eu disse.
â VocĂȘ Ă© Henry Chinaski? â A voz era de um jovem.
â Sim.
â VocĂȘ Ă© mesmo Henry Chinaski, o escritor?
â Sim.
â De verdade?
â Claro.
â Bem, nĂłs somos uma galera de Bel Air e nĂłs realmente achamos do caralho o que vocĂȘ escreve, cara! Gostamos tanto da porra dos seus textos que queremos recompensĂĄ-lo, cara!
â Ă mesmo?
â Sim, vamos pintar aĂ com umas cevas e tal.
â Enfie a cerveja no cu.
â O quĂȘ?
â Eu disse: âEnfie a cerveja no cu!â
Desliguei.
â Quem era? â perguntou Sara.
â Acabo de perder trĂȘs ou quatro leitores em Bel Air. Mas valeu a pena.
O peru ficou pronto e eu o tirei do forno, coloquei-o numa travessa, tirei a måquina de escrever e todos os meus papéis de cima da mesa da cozinha, e ajeitei o peru ali. Comecei a destrinchå-lo enquanto Sara trazia os vegetais. Sentamos. Enchi meu prato, Sara, o dela. Era uma visão bonita.
â Espero que aquela peituda nĂŁo resolva voltar â disse Sara. Parecia bastante incomodada diante da possibilidade.
â Se ela aparecer, ofereço um pedaço.
â O quĂȘ?
Apontei para o peru.
â Eu disse que âse ela aparecer, ofereço um pedaçoâ. Espere pra ver se nĂŁo faço isso.
Sara gritou. Ficou de pĂ©. Tremia. Correu atĂ© o quarto. Olhei para meu peru. NĂŁo conseguiria comĂȘ-lo. Mais uma vez, apertara o botĂŁo errado. Fui atĂ© a sala com meu drinque e me sentei. Esperei 15 minutos e entĂŁo coloquei o peru e os vegetais na geladeira.
Sara voltou para a sua casa no dia seguinte, e eu fiz um sanduĂche de peru frio por volta das trĂȘs. Por volta das cinco, houve uma pancada terrĂvel na porta. Abri. Eram Tammie e Arlene. Estavam totalmente emboletadas. Entraram e começaram a aloprar, as duas falando ao mesmo tempo.
â Tem alguma coisa pra beber?
â Caralho, Hank, tem alguma porra pra beber?
â Como foi a merda do seu Natal?
â Ă. Como foi a merda do seu Natal, cara?
â Tem cerveja e vinho na frigidaire â eu lhes disse.
(Ă fĂĄcil reconhecer um coroa: ele chama geladeira de frigidaire.)
Entraram dançando na cozinha e abriram a frigidaire.
â Ei, tem um peru aqui!
â Estamos com fome, Hank! Podemos comer um pouco de peru?
â Claro.
Tammie voltou com uma coxa e deu uma mordida.
â Ei, que peru horrĂvel! Precisa temperar!
Arlene voltou com fatias de carne nas mĂŁos.
â Ă, precisa pĂŽr tempero. EstĂĄ totalmente insosso! VocĂȘ tem temperos?
â No armĂĄrio â eu disse.
Voltaram aos pulos para a cozinha e começaram a pÎr os temperos.
â AĂ! Bem melhor!
â Ă, agora tem gosto de alguma coisa!
â Peru orgĂąnico, que bela merda!
â Merda pura!
â Quero mais um pedaço!
â Eu tambĂ©m. Mas tem que temperar.
Tammie voltou e se sentou. Ela recém terminara a coxa. Então pegou o osso, partiu-o ao meio, e começou a mastigå-lo. Fiquei pasmo. Ela estava comendo o osso da coxa, cuspindo umas lasquinhas no tapete.
â Ei, vocĂȘ estĂĄ comendo o osso!
â Sim, Ă© uma delĂcia!
Tammie voltou correndo Ă cozinha para pegar mais.
Logo as duas apareceram, cada uma com uma garrafa de cerveja.
â Obrigada, Hank.
â Ă, obrigada, cara.
Elas sentaram, mamando as cervejas.
â Bem â disse Tammie â, estĂĄ na nossa hora.
â Ă, vamos estuprar alguns garotinhos do ensino mĂ©dio!
â Ă isso aĂ!
As duas se levantaram num salto e saĂram porta afora. Fui atĂ© a cozinha e olhei dentro da geladeira. O peru parecia ter sido atacado por um tigre â a carcaça havia sido simplesmente dilacerada. Chegava a ser obsceno.
Sara apareceu na noite seguinte.
â Que tal o peru? â ela perguntou.
â Bom.
Ela foi até a cozinha e abriu a porta da geladeira. Gritou. Então voltou correndo.
â Meu deus, o que aconteceu?
â Tammie e Arlene deram uma passada aqui. Acho que nĂŁo comiam hĂĄ uma semana.
â Ai, que nojo. Ă de partir o coração!
â Me desculpe. Eu devia ter impedido as duas. Estavam emboletadas.
â Bem, sĂł resta uma coisa a fazer.
â O quĂȘ?
â Posso fazer um ensopado de peru. Vou comprar alguns vegetais.
â Tudo bem.
Dei-lhe uma nota de vinte.
Sara preparou a sopa naquela noite. Estava deliciosa. Ao ir embora pela manhĂŁ, deixou-me as instruçÔes sobre como aquecĂȘ-la.
Tammie bateu à porta por volta das quatro horas. Deixei-a entrar e ela foi direto até a cozinha. A porta da geladeira se abriu.
â Olha sĂł, sopa, entĂŁo?
â Sim.
â EstĂĄ boa?
â Sim.
â VocĂȘ se importa se eu tomar um pouquinho?
â NĂŁo.
Pude ouvi-la levar a sopa ao fogĂŁo. Depois o som de uma colherada.
â Deus! Esse negĂłcio nĂŁo tem gosto de nada! Precisa de tempero!
Escutei-a mexer nos temperos. EntĂŁo ela voltou a experimentar.
â Ah, outra coisa! Mas ainda Ă© pouco! Sou de origem italiana, vocĂȘ sabe. Agora... Sim... EstĂĄ bem melhor! Agora Ă© sĂł deixar esquentar. Posso tomar uma cerveja?
â Tudo bem.
Voltou com uma garrafa e se sentou.
â Sentiu minha falta? â perguntou.
â VocĂȘ nunca saberĂĄ.
â Acho que vou recuperar meu emprego no Play Pen.
â Ătimo.
â LĂĄ rola umas boas gorjetas. Um cara aĂ me dava cinco dĂłlares de gorjeta por noite. Estava apaixonado por mim. Mas nunca me convidou pra sair. Ficava apenas me olhando com uns olhos cheios de ternura. Era um tipo estranho. Era cirurgiĂŁo retal e Ă s vezes se masturbava me vendo caminhar de um lado pro outro. Dava pra sentir o cheiro de porra, sabe.
â Bem, vocĂȘ deixou o cara nesse estado...
â Acho que a sopa estĂĄ pronta. Quer um pouco?
â NĂŁo, obrigado.
Tammie entrou na cozinha e dava para ouvi-la servindo a sopa no prato. Ficou lĂĄ por um longo tempo. EntĂŁo retornou.
â Tem como me emprestar cinco paus atĂ© sexta-feira?
â NĂŁo.
â EntĂŁo dois paus.
â NĂŁo.
â EntĂŁo me descola um dĂłlar mesmo.
Dei a Tammie um punhado de moedas. Totalizavam um dĂłlar e 37 centavos.
â Obrigada â ela disse.
â Tudo bem.
Depois disso, ela se foi.
Sara apareceu na noite seguinte. Raramente vinha assim tĂŁo seguido, devia ter algo a ver com o feriado de final de ano, todo mundo se sente perdido, meio louco, assustado. O vinho branco estava preparado e servi dois copos.
â Como vĂŁo as coisas na Pousada? â perguntei.
â Ter um negĂłcio Ă© uma merda. Mal dĂĄ pra pagar as despesas.
â Onde estĂŁo os hĂłspedes?
â EstĂŁo todos fora da cidade; foram todos pra algum lugar.
â Todos os nossos esquemas tĂȘm seus furos.
â Nem todos. Algumas pessoas simplesmente nĂŁo erram nunca, seguem sempre em frente.
â Verdade.
â E a sopa?
â Quase no fim.
â Gostou?
â NĂŁo cheguei a tomar muito.
Sara foi até a cozinha e abriu a porta da geladeira.
â O que aconteceu com a sopa? EstĂĄ com uma cara estranha.
Escutei o som que ela fez ao provå-la. E então como correu até a pia e cuspiu o que estava na boca.
âJesus, a sopa estĂĄ envenenada! O que aconteceu? Tammie e Arlene voltaram para tomar a sopa tambĂ©m?
â SĂł a Tammie.
Sara não gritou. Apenas virou o que sobrara da sopa na pia e acionou o triturador de lixo. Podia escutar seus soluços mal disfarçados. Aquele pobre peru orgùnico tinha passado um Natal dos diabos.
â Mulheres
Um Poema Para o Engraxate
o equilĂbrio Ă© preservado pelas lesmas que escalam os
rochedos de Santa MĂŽnica;
a sorte estĂĄ em descer a Western Avenue
enquanto as garotas numa casa de
massagem gritam para vocĂȘ, âAlĂŽ, Doçura!â
o milagre Ă© ter 5 mulheres apaixonadas
por vocĂȘ aos 55 anos,
e o melhor de tudo isso Ă© que vocĂȘ sĂł Ă© capaz
de amar uma delas.
a bĂȘnção Ă© ter uma filha mais delicada
do que vocĂȘ, cuja risada Ă© mais leve
que a sua.
a paz vem de dirigir um
Fusca 67 azul pelas ruas como um
adolescente, o rĂĄdio sintonizado em O Seu Apresentador
Preferido, sentindo o sol, sentindo o sĂłlido roncar
do motor retificado
enquanto vocĂȘ costura o trĂĄfego.
a graça estå na capacidade de gostar de rock,
mĂșsica clĂĄssica, jazz...
tudo o que contenha a energia original do
gozo.
e a probabilidade que retorna
Ă© a tristeza profunda
debaixo de vocĂȘ estendida sobre vocĂȘ
entre as paredes de guilhotina
furioso com o som do telefone
ou com os passos de alguém que passa;
mas a outra probabilidade â
a cadĂȘncia animada que sempre se segue â
faz com que a garota do caixa no
supermercado se pareça com a
Marilyn
com a Jackie antes que levassem seu amante de Harvard
com a garota do ensino médio que sempre
seguĂamos atĂ© em casa.
lĂĄ estĂĄ a criatura que nos ajuda a acreditar
em alguma coisa além da morte:
alguém num carro que se aproxima
numa rua muito estreita,
e ele ou ela se afasta para que possamos
passar, ou o velho lutador Beau Jack[17]
engraxando sapatos
apĂłs ter queimado todo seu dinheiro
em festas
mulheres
parasitas
bufando, respirando junto ao couro,
dando um trato com a flanela
os olhos erguidos para dizer:
âmas que diabos, por um momento
tive tudo. isso compensa todo o
resto.â
Ă s vezes sou amargo
mas no geral o sabor tem sido
doce. Ă© apenas que tenho
medo de dizĂȘ-lo. Ă© como
quando sua mulher diz,
âfala que me amaâ, e
vocĂȘ nĂŁo consegue.
se vocĂȘ me vir sorridente
em meu Fusca azul
aproveitando o sinal amarelo
dirigindo firme em direção ao sol
estarei mergulhado nos
braços de uma
vida insana
pensando em trapezistas de circo
em anÔes com enormes charutos
num inverno na RĂșssia no inĂcio dos anos 40
em Chopin com seu saco de terra polaca
numa velha garçonete que me traz uma xĂcara
extra de café com um sorriso
nos lĂĄbios.
o melhor de vocĂȘ
me agrada mais do que pode imaginar.
os outros nĂŁo importam
excetuado o fato de que eles tĂȘm dedos e cabeças
e alguns deles olhos
e a maioria deles pernas
e todos eles
sonhos e pesadelos
e uma estrada a seguir.
a justiça estå em toda parte e não descansa
e as metralhadoras e os coldres e
as cercas vĂŁo lhe dar prova
disso.
rochedos de Santa MĂŽnica;
a sorte estĂĄ em descer a Western Avenue
enquanto as garotas numa casa de
massagem gritam para vocĂȘ, âAlĂŽ, Doçura!â
o milagre Ă© ter 5 mulheres apaixonadas
por vocĂȘ aos 55 anos,
e o melhor de tudo isso Ă© que vocĂȘ sĂł Ă© capaz
de amar uma delas.
a bĂȘnção Ă© ter uma filha mais delicada
do que vocĂȘ, cuja risada Ă© mais leve
que a sua.
a paz vem de dirigir um
Fusca 67 azul pelas ruas como um
adolescente, o rĂĄdio sintonizado em O Seu Apresentador
Preferido, sentindo o sol, sentindo o sĂłlido roncar
do motor retificado
enquanto vocĂȘ costura o trĂĄfego.
a graça estå na capacidade de gostar de rock,
mĂșsica clĂĄssica, jazz...
tudo o que contenha a energia original do
gozo.
e a probabilidade que retorna
Ă© a tristeza profunda
debaixo de vocĂȘ estendida sobre vocĂȘ
entre as paredes de guilhotina
furioso com o som do telefone
ou com os passos de alguém que passa;
mas a outra probabilidade â
a cadĂȘncia animada que sempre se segue â
faz com que a garota do caixa no
supermercado se pareça com a
Marilyn
com a Jackie antes que levassem seu amante de Harvard
com a garota do ensino médio que sempre
seguĂamos atĂ© em casa.
lĂĄ estĂĄ a criatura que nos ajuda a acreditar
em alguma coisa além da morte:
alguém num carro que se aproxima
numa rua muito estreita,
e ele ou ela se afasta para que possamos
passar, ou o velho lutador Beau Jack[17]
engraxando sapatos
apĂłs ter queimado todo seu dinheiro
em festas
mulheres
parasitas
bufando, respirando junto ao couro,
dando um trato com a flanela
os olhos erguidos para dizer:
âmas que diabos, por um momento
tive tudo. isso compensa todo o
resto.â
Ă s vezes sou amargo
mas no geral o sabor tem sido
doce. Ă© apenas que tenho
medo de dizĂȘ-lo. Ă© como
quando sua mulher diz,
âfala que me amaâ, e
vocĂȘ nĂŁo consegue.
se vocĂȘ me vir sorridente
em meu Fusca azul
aproveitando o sinal amarelo
dirigindo firme em direção ao sol
estarei mergulhado nos
braços de uma
vida insana
pensando em trapezistas de circo
em anÔes com enormes charutos
num inverno na RĂșssia no inĂcio dos anos 40
em Chopin com seu saco de terra polaca
numa velha garçonete que me traz uma xĂcara
extra de café com um sorriso
nos lĂĄbios.
o melhor de vocĂȘ
me agrada mais do que pode imaginar.
os outros nĂŁo importam
excetuado o fato de que eles tĂȘm dedos e cabeças
e alguns deles olhos
e a maioria deles pernas
e todos eles
sonhos e pesadelos
e uma estrada a seguir.
a justiça estå em toda parte e não descansa
e as metralhadoras e os coldres e
as cercas vĂŁo lhe dar prova
disso.
Um Qualquer
deus eu tinha os olhos azuis mais tristes,
esta mulher se sentou por ali e
disse
vocĂȘ Ă© mesmo Charles
Bukowski?
e eu disse
esqueça isso
nĂŁo me sinto bem
a tristeza mais triste me domina
tudo o que eu quero Ă©
comer vocĂȘ
e ela riu
e achou que eu estava sendo
espirituoso
e Ă eu apenas acompanhei a amplitude de suas pernas finas e celestiais
vi seu fĂgado e seu intestino fremente
vi Cristo ali dentro
saltando para um folk-rock
todas as longas linhagens de fome absoluta dentro de mim
se ergueram
e eu me aproximei
e a agarrei no sofĂĄ
e eu fiz seu vestido em pedaços ao redor de sua face
e nĂŁo dei a mĂnima
estupro ou o fim do mundo
mais uma vez
estar ali
em qualquer lugar
real
sim
sua calcinha estava no
chĂŁo
e meu pau entrou
meu pau meu deus meu pau lĂĄ dentro
eu era um Charles
qualquer.
esta mulher se sentou por ali e
disse
vocĂȘ Ă© mesmo Charles
Bukowski?
e eu disse
esqueça isso
nĂŁo me sinto bem
a tristeza mais triste me domina
tudo o que eu quero Ă©
comer vocĂȘ
e ela riu
e achou que eu estava sendo
espirituoso
e Ă eu apenas acompanhei a amplitude de suas pernas finas e celestiais
vi seu fĂgado e seu intestino fremente
vi Cristo ali dentro
saltando para um folk-rock
todas as longas linhagens de fome absoluta dentro de mim
se ergueram
e eu me aproximei
e a agarrei no sofĂĄ
e eu fiz seu vestido em pedaços ao redor de sua face
e nĂŁo dei a mĂnima
estupro ou o fim do mundo
mais uma vez
estar ali
em qualquer lugar
real
sim
sua calcinha estava no
chĂŁo
e meu pau entrou
meu pau meu deus meu pau lĂĄ dentro
eu era um Charles
qualquer.
Um Rádio Corajoso
no segundo andar da Coronado Street
eu costumava encher a cara
e jogar o rĂĄdio pela janela
sem que ele parasse de tocar e, claro,
a vidraça se partia
e o rĂĄdio acabava alojado sobre as telhas
ainda ligado
e eu dizia para minha mulher,
âAh, que rĂĄdio maravilhoso!â
na manha seguinte eu tirava a janela
do esquadro
e levava-a rua abaixo
até o vidraceiro
que fazia a troca necessĂĄria.
seguia jogando o rĂĄdio pela janela
cada vez que ficava bĂȘbado
e lĂĄ ficava ele sobre o telhado
ainda tocando â
um rĂĄdio mĂĄgico
um rĂĄdio corajoso,
e a cada manhĂŁ eu levava a janela
outra vez ao vidraceiro.
nĂŁo lembro bem como tudo isso terminou
embora me lembre de que
finalmente nos mudamos.
havia uma mulher no andar de baixo que trabalhava no
jardim vestindo um traje de banho
e seu marido reclamava que nĂŁo podia dormir Ă noite
por minha causa
por isso nos mudamos
e no lugar seguinte
ou me esqueci de jogar o rĂĄdio pela janela
ou apenas perdi a vontade de
jogĂĄ-lo.
lembro sim de sentir falta da mulher que trabalhava no
jardim em trajes de banho,
ela realmente mandava ver com aquela pazinha
e ela erguia o rabo bem alto no ar
e eu costumava sentar Ă janela
para acompanhar o sol brilhar naquelas carnes
enquanto a mĂșsica tocava.
eu costumava encher a cara
e jogar o rĂĄdio pela janela
sem que ele parasse de tocar e, claro,
a vidraça se partia
e o rĂĄdio acabava alojado sobre as telhas
ainda ligado
e eu dizia para minha mulher,
âAh, que rĂĄdio maravilhoso!â
na manha seguinte eu tirava a janela
do esquadro
e levava-a rua abaixo
até o vidraceiro
que fazia a troca necessĂĄria.
seguia jogando o rĂĄdio pela janela
cada vez que ficava bĂȘbado
e lĂĄ ficava ele sobre o telhado
ainda tocando â
um rĂĄdio mĂĄgico
um rĂĄdio corajoso,
e a cada manhĂŁ eu levava a janela
outra vez ao vidraceiro.
nĂŁo lembro bem como tudo isso terminou
embora me lembre de que
finalmente nos mudamos.
havia uma mulher no andar de baixo que trabalhava no
jardim vestindo um traje de banho
e seu marido reclamava que nĂŁo podia dormir Ă noite
por minha causa
por isso nos mudamos
e no lugar seguinte
ou me esqueci de jogar o rĂĄdio pela janela
ou apenas perdi a vontade de
jogĂĄ-lo.
lembro sim de sentir falta da mulher que trabalhava no
jardim em trajes de banho,
ela realmente mandava ver com aquela pazinha
e ela erguia o rabo bem alto no ar
e eu costumava sentar Ă janela
para acompanhar o sol brilhar naquelas carnes
enquanto a mĂșsica tocava.
Um Vento Que Sopra Fresco E Selvagem...
eu nĂŁo deveria ter culpado apenas meu pai, mas,
ele foi o primeiro a me introduzir ao
Ăłdio estĂșpido e cru.
ele era realmente bom nisso: tudo e qualquer coisa deixavam-no
louco â coisas da menor importĂąncia traziam de imediato seu Ăłdio
Ă superfĂcie
e eu parecia ser a principal fonte de sua
irritação.
eu nĂŁo o temia
mas suas fĂșrias faziam-me mal ao coração
porque ele era entĂŁo grande parte do meu mundo
e era um mundo de horror mas eu nĂŁo deveria culpar apenas
meu pai
porque quando deixei aquele... lar... encontrei seus semelhantes
em toda parte: meu pai era apenas uma pequena parte do
todo, embora sua capacidade para odiar fosse a maior
entre as pessoas que jĂĄ conheci.
mas os outros também eram bons nisso: alguns dos
chefes de seção, dos vagabundos de rua, algumas das mulheres
com que vivi,
a maioria das mulheres foi dotada para o
Ăłdio â culpando minha voz, minhas açÔes, minha presença
culpando-me de um modo geral
por aquilo que elas, em retrospecto, nĂŁo haviam conseguido
fazer.
eu era simplesmente o alvo de seus descontentamentos
e num certo sentido
culpavam-me
por nĂŁo ser capaz de retirĂĄ-las dos
escombros de seus passados; o que não levavam em consideração era
que eu tambĂ©m tinha meus prĂłprios problemas â a maioria deles causada
pelo simples fato de viver com elas.
sou um sujeito tolo, que se alegra facilmente ou que chega mesmo
a uma estĂșpida alegria quase sem motivo
e se me deixam sozinho eu me viro numa boa.
mas vivi com tanta frequĂȘncia e por tanto tempo junto a esse Ăłdio
que
meu Ășnico recanto, meu Ășnico refĂșgio Ă© estar longe de todos
eles, quando estou em outro lugar, nĂŁo importa onde â
uma garçonete velha e gorda que me traz uma xĂcara de cafĂ©
é em comparação
como um vento que sopra fresco e selvagem.
ele foi o primeiro a me introduzir ao
Ăłdio estĂșpido e cru.
ele era realmente bom nisso: tudo e qualquer coisa deixavam-no
louco â coisas da menor importĂąncia traziam de imediato seu Ăłdio
Ă superfĂcie
e eu parecia ser a principal fonte de sua
irritação.
eu nĂŁo o temia
mas suas fĂșrias faziam-me mal ao coração
porque ele era entĂŁo grande parte do meu mundo
e era um mundo de horror mas eu nĂŁo deveria culpar apenas
meu pai
porque quando deixei aquele... lar... encontrei seus semelhantes
em toda parte: meu pai era apenas uma pequena parte do
todo, embora sua capacidade para odiar fosse a maior
entre as pessoas que jĂĄ conheci.
mas os outros também eram bons nisso: alguns dos
chefes de seção, dos vagabundos de rua, algumas das mulheres
com que vivi,
a maioria das mulheres foi dotada para o
Ăłdio â culpando minha voz, minhas açÔes, minha presença
culpando-me de um modo geral
por aquilo que elas, em retrospecto, nĂŁo haviam conseguido
fazer.
eu era simplesmente o alvo de seus descontentamentos
e num certo sentido
culpavam-me
por nĂŁo ser capaz de retirĂĄ-las dos
escombros de seus passados; o que não levavam em consideração era
que eu tambĂ©m tinha meus prĂłprios problemas â a maioria deles causada
pelo simples fato de viver com elas.
sou um sujeito tolo, que se alegra facilmente ou que chega mesmo
a uma estĂșpida alegria quase sem motivo
e se me deixam sozinho eu me viro numa boa.
mas vivi com tanta frequĂȘncia e por tanto tempo junto a esse Ăłdio
que
meu Ășnico recanto, meu Ășnico refĂșgio Ă© estar longe de todos
eles, quando estou em outro lugar, nĂŁo importa onde â
uma garçonete velha e gorda que me traz uma xĂcara de cafĂ©
é em comparação
como um vento que sopra fresco e selvagem.
Uma Parada Na Viagem
fazer amor ao sol, debaixo do sol da manhĂŁ
num quarto de hotel
sobre um beco
onde homens pobres se empurram por garrafas;
fazer amor ao sol
fazer amor sobre um carpete mais vermelho que nossos sangues,
fazer amor enquanto os garotos vendem manchetes
e Cadillacs,
fazer amor sobre uma fotografia de Paris
e um pacote aberto de Chesterfields,
fazer amor enquanto outros homens â pobres diabos â
trabalham.
Desse momento â para agora...
talvez anos no modo como medem,
mas hĂĄ apenas uma sentença que segue em minha cabeça â
hĂĄ tantos dias
em que a vida faz uma parada e se levanta e se senta
e aguarda como um trem sobre os trilhos.
passo pelo hotel Ă s 8
e Ă s 5; hĂĄ gatos pelo beco
e garrafas e mendigos,
e eu ergo meus olhos pra janela e penso,
jĂĄ nĂŁo sei mais onde vocĂȘ estĂĄ,
e eu sigo em frente e me pergunto onde
a vida vai
quando faz uma parada.
num quarto de hotel
sobre um beco
onde homens pobres se empurram por garrafas;
fazer amor ao sol
fazer amor sobre um carpete mais vermelho que nossos sangues,
fazer amor enquanto os garotos vendem manchetes
e Cadillacs,
fazer amor sobre uma fotografia de Paris
e um pacote aberto de Chesterfields,
fazer amor enquanto outros homens â pobres diabos â
trabalham.
Desse momento â para agora...
talvez anos no modo como medem,
mas hĂĄ apenas uma sentença que segue em minha cabeça â
hĂĄ tantos dias
em que a vida faz uma parada e se levanta e se senta
e aguarda como um trem sobre os trilhos.
passo pelo hotel Ă s 8
e Ă s 5; hĂĄ gatos pelo beco
e garrafas e mendigos,
e eu ergo meus olhos pra janela e penso,
jĂĄ nĂŁo sei mais onde vocĂȘ estĂĄ,
e eu sigo em frente e me pergunto onde
a vida vai
quando faz uma parada.
Vidas na Lata do Lixo
o vento sopra forte esta noite
e Ă© um vento frio
e eu penso nos
garotos na miséria.
espero que eles tenham uma garrafa
de vinho.
Ă© quando vocĂȘ estĂĄ na misĂ©ria
que percebe que
tudo
tem um dono
e que os cadeados estĂŁo por toda
parte.
este Ă© o modo como funciona a
democracia:
vocĂȘ pega aquilo que pode,
tenta manter o que pegou
e acrescentar mais ao acumulado
se possĂvel.
é esta também a maneira de agir de uma
ditadura
a diferença é que elas destroem ou
escravizam seus
dissidentes.
nĂłs simplesmente esquecemos
os nossos.
nos dois casos
o vento segue
frio e
cortante.
As filmagens iam começar em Culver City. O bar ficava lå, e o hotel com o meu quarto. A parte seguinte seria feita no distrito da Rua Alvarado, onde ficava o apartamento da mulher.
Depois vinha um bar que frequentĂĄvamos na 6th Street com Vermont. Mas as primeiras tomadas seriam em Culver City.
Jon nos levou para ver o hotel. Parecia autĂȘntico. Os bebuns moravam ali. O bar ficava embaixo. NĂłs ficamos parados, olhando.
â Que tal? â perguntou Jon.
â Sensacional. Mas jĂĄ vivi em lugares piores.
â Eu sei â disse Sarah. â Eu vi.
Subimos para o quarto.
â Aqui estĂĄ. Parece familiar?
Era pintado de cinza, como muitos desses lugares. Persianas rasgadas. A mesa e a cadeira. A geladeira coberta de grossa crosta de sujeira. E a pobre cama bamba.
â EstĂĄ perfeito, Jon. Ă o quarto.
Fiquei um pouco triste por nĂŁo ser jovem e estar fazendo tudo aquilo de novo, bebendo e brigando e jogando com as palavras. Quando a gente Ă© jovem, pode realmente aguentar uma surra. A comida nĂŁo importava. O que importava era beber e sentar Ă mĂĄquina. Eu devia ter sido louco, mas hĂĄ muitos tipos de loucura, e alguns sĂŁo muito gostosos. Eu morria de fome para ter tempo de escrever. NĂŁo se faz mais isso. Olhando aquela mesa, via-me ali sentado de novo. Naquele tempo estava louco e sabia disso e nĂŁo importava.
â Vamos descer pra dar outra verificada no bar...
Descemos. Os bebuns que iam aparecer no filme jĂĄ estavam lĂĄ. Bebiam.
â Vamos lĂĄ, Sarah, vamos pegar um banco. Tchau, Jon...
O garçom nos apresentou aos bĂȘbados. Eram o Grande Monstro e o Pequeno Monstro, o Nojento, Buffo, Cabeça de Cachorro, Lady Lila, Lance Livre, Clara e outros.
Sarah perguntou ao Nojento o que ele estava bebendo.
â Parece bom â disse.
â Ă um Cape Cod, suco de amora e vodca.
â Eu tomo um Cape Cod â disse Sarah ao garçom, Cowboy Cal.
â Vodca 7 â eu disse ao Cowboy.
Tomamos algumas. O Grande Monstro me contou uma histĂłria de uma briga deles todos com os tiras. Muito interessante. E eu sabia, pelo jeito de ele contar, que era verdade.
Depois veio a chamada para o almoço para os atores e a equipe. Os bebuns ficaram onde estavam.
â Ă melhor a gente comer â disse Sarah.
SaĂmos pelos fundos e para leste do hotel. Haviam instalado uma grande banca. Os extras, tĂ©cnicos, operĂĄrios e outros jĂĄ comiam. A comida tinha boa aparĂȘncia. Jon veio ter com a gente. Pegamos nossas raçÔes na carroça e o seguimos atĂ© a ponta da mesa. Quando passĂĄvamos, Jon parou. Um homem comia sozinho. Jon apresentou-nos.
â Esse Ă© Lance Edwards...
Edwards fez-nos um leve aceno de cabeça e voltou ao seu filé.
Sentamo-nos na ponta da mesa. Edwards era um dos coprodutores.
â Esse Edwards age como um filho da puta â eu disse.
â Oh â disse Jon â ele Ă© muito acanhado. Ă um dos caras dos quais Friedman estava tentando se livrar.
â Talvez tivesse razĂŁo.
â Hank â disse Sarah â, vocĂȘ nem conhece o cara.
Eu atacava minha cerveja.
â Coma sua comida, Sarah.
Ela ia acrescentar dez anos Ă minha vida, para o melhor ou para o pior.
â Vamos filmar uma cena com Jack na sala. VocĂȘ deve vir ver.
â Depois de comermos, vamos voltar pro bar. Quando estiverem prontos pra filmar, mandem alguĂ©m nos chamar.
â Tudo bem â disse Jon.
Depois de comermos, contornamos o hotel atĂ© o outro lado, verificando-o. Jon nos acompanhava. VĂĄrios reboques estacionavam ao longo da rua. Vimos o Rolls-Royce de Jack. E junto a ele um grande reboque prateado, com um anĂșncio na porta: JACK BLEDSOE.
â Veja â disse Jon â, ele tem um periscĂłpio em cima, pra ver quem se aproxima...
â Nossa...
â Escuta, tenho de acertar umas coisas...
â Tudo bem... Tchau...
Jon tinha uma coisa engraçada. Seu sotaque francĂȘs ia desaparecendo Ă medida que ele sĂł falava inglĂȘs nos Estados Unidos. Era um pouco triste.
A porta do reboque de Jack abriu-se. Era ele.
â Ei, entrem!
Subimos os degraus. Uma televisĂŁo estava ligada. Uma garota jovem deitava-se no beliche, vendo TV.
â Essa Ă© Cleo. Comprei uma moto pra ela. A gente roda junto.
Um cara sentava-se na outra ponta.
â Esse Ă© meu irmĂŁo, Doug...
Eu me aproximei de Doug, ensaiei uns passos de boxe na frente dele. Ele nĂŁo disse nada. Apenas encarava. Sujeito frio. Ătimo. Eu gostava de caras frios.
â Tem alguma coisa pra beber? â perguntei a Jack.
â Claro...
Pegou um uĂsque, serviu-me uma dose com ĂĄgua.
â Obrigado...
â Quer um pouco? â ele perguntou a Sarah.
â Obrigada â ela disse. â NĂŁo gosto de misturar bebidas.
â Ela estĂĄ tomando Cape Cods â eu disse.
â Oh...
Sarah e eu nos sentamos. O uĂsque era bom.
â Gosto deste lugar â eu disse.
â Fique o quanto quiser â disse Jack.
â Talvez eu fique pra sempre...
Jack me lançou seu famoso sorriso.
â Seu irmĂŁo nĂŁo Ă© de falar muito, Ă©?
â NĂŁo, nĂŁo Ă©.
â Um cara frio.
â Ăéé.
â Bem, Jack, decorou suas falas?
â Eu nunca olho as minhas falas atĂ© o Ășltimo instante antes da filmagem.
â Sensacional. Bem, escuta, a gente tem de se mandar.
â Eu sei que vocĂȘ consegue, Jack â disse Sarah. â Estamos satisfeitos por vocĂȘ ter o papel principal.
â Obrigado.
No bar, os bebuns ainda estavam lĂĄ e nĂŁo pareciam nem um pouco mais bĂȘbados. Era preciso muita coisa pra derrubar um profissional.
Sarah tomou outro Cape Cod. Eu voltei ao Vodca 7.
Bebemos e ouvimos outras histórias. Cheguei até a contar uma. Talvez houvesse passado uma hora. Aà eu ergui o olhar e vi Jack parado, olhando por cima das portas de vaivém da entrada. Eu via apenas a cabeça dele.
â Ei, Jack â gritei â, entre e tome uma.
â NĂŁo, Hank, vamos filmar agora. Por que nĂŁo vem ver?
â JĂĄ vou lĂĄ, baby...
Pedimos mais duas doses. E jĂĄ as atacĂĄvamos quando Jon entrou.
â Vamos filmar agora â ele disse.
â Tudo bem â disse Sarah.
â Tudo bem â disse eu.
Acabamos nossas doses, e eu peguei umas duas garrafas de cerveja para levar conosco.
Seguimos Jon por uma escada acima e pelo quarto adentro. Cabos por toda parte. Técnicos mexendo-se de um lado para outro.
â Aposto que poderiam rodar um filme com cerca de um terço desses porras todos.
â Ă o que Friedman diz.
â Ăs vezes ele tem razĂŁo.
â Tudo bem â disse Jon â, estamos quase prontos. Fizemos alguns ensaios. Agora filmamos. VocĂȘ â disse para mim â fica nesse canto. Pode ver daqui sem entrar na cena.
Sarah recuou até ali comigo.
â SILĂNCIO! â gritou o assistente de direção de Jon. â PREPARANDO PRA RODAR!
Tudo ficou em silĂȘncio.
EntĂŁo foi a vez de Jon:
â CĂMERA! AĂĂO!
A porta do quarto abriu-se e Jack Bledsoe entrou cambaleando. Merda, era o jovem Chinaski! Era eu! Senti uma dor mole dentro de mim. Juventude, sua filha da puta, aonde foi vocĂȘ?
Queria voltar a ser o jovem bĂȘbado. Queria ser Jack Bledsoe. Mas era apenas o cara velho no canto, mamando uma cerveja.
Bledsoe cambaleou até a janela junto à mesa. Abriu a persiana escangalhada. Ensaiou uns passos de boxe, um sorriso no rosto. Depois sentou-se à mesa, pegou um låpis e um pedaço de papel. Ficou ali sentado algum tempo, depois puxou a rolha de uma garrafa de vinho, tomou uma talagada, acendeu um cigarro. Ligou o rådio e deu sorte de sintonizar Mozart.
Começou a escrever naquele pedaço de papel com o låpis, enquanto a cena escurecia...
Pegara a coisa. Pegara do jeito que era, quer isso significasse alguma coisa ou nĂŁo, ele a pegara como era.
Eu me aproximei dele e apertei sua mĂŁo.
â Peguei bem? â ele perguntou.
â Pegou â eu disse.
No bar lĂĄ embaixo, os bebuns ainda estavam em serviço e com a mesma aparĂȘncia.
Sarah voltou aos seus Cape Cods e eu tomei a rota do Vodca 7. Ouvimos algumas histórias ótimas. Mas havia uma tristeza no ar, porque depois de rodado o filme, o bar e o hotel iam ser desmontados, para servir a algum fim comercial. Alguns dos fregueses moravam no hotel hå décadas. Outros moravam numa estação ferroviåria deserta próxima, e havia uma ação judicial para retirå-los dali. Por isso, a bebida era pesada e triste.
Sarah disse por fim:
â Precisamos voltar pra casa pra dar comida aos gatos.
A bebida podia esperar.
Hollywood podia esperar.
Os gatos nĂŁo esperavam.
Concordei.
Despedimo-nos dos bebuns e fomos para o carro. Eu não me preocupava com a direção. Alguma coisa na visão do jovem Chinaski naquele velho quarto de hotel me estabilizara. Filho da puta, eu fora um jovem touro do caralho. Realmente um fodido de primeira.
Sarah se preocupava com o futuro dos pinguços. Eu tambĂ©m nĂŁo gostava daquilo. Por outro lado, nĂŁo podia vĂȘ-los sentados em torno da minha porta da frente, bebendo e contando suas histĂłrias. Muitas vezes o charme diminui quando chega perto demais da realidade. E quantos irmĂŁos a gente pode manter?
Eu dirigia em frente. Chegamos.
Os gatos esperavam.
Sarah desceu e limpou as tigelas deles e eu abri as latas.
Simplicidade, era disso que se precisava.
Subimos, tomamos banho, trocamos de roupa e fomos para a cama.
â Que Ă© que aquele pessoal vai fazer? â perguntou Sarah.
â Eu sei. Eu sei...
AĂ chegou a hora de dormir. Desci para dar uma Ășltima olhada e voltei. Sarah jĂĄ adormecera. Apaguei a luz. Dormimos. Tendo visto fazer o filme naquela tarde, agora estĂĄvamos um pouco diferentes, jamais voltarĂamos a pensar ou falar exatamente da mesma forma. Agora sabĂamos algo mais, mas, o que era, parecia muito vago e talvez atĂ© um pouco desagradĂĄvel.
â Hollywood
e Ă© um vento frio
e eu penso nos
garotos na miséria.
espero que eles tenham uma garrafa
de vinho.
Ă© quando vocĂȘ estĂĄ na misĂ©ria
que percebe que
tudo
tem um dono
e que os cadeados estĂŁo por toda
parte.
este Ă© o modo como funciona a
democracia:
vocĂȘ pega aquilo que pode,
tenta manter o que pegou
e acrescentar mais ao acumulado
se possĂvel.
é esta também a maneira de agir de uma
ditadura
a diferença é que elas destroem ou
escravizam seus
dissidentes.
nĂłs simplesmente esquecemos
os nossos.
nos dois casos
o vento segue
frio e
cortante.
As filmagens iam começar em Culver City. O bar ficava lå, e o hotel com o meu quarto. A parte seguinte seria feita no distrito da Rua Alvarado, onde ficava o apartamento da mulher.
Depois vinha um bar que frequentĂĄvamos na 6th Street com Vermont. Mas as primeiras tomadas seriam em Culver City.
Jon nos levou para ver o hotel. Parecia autĂȘntico. Os bebuns moravam ali. O bar ficava embaixo. NĂłs ficamos parados, olhando.
â Que tal? â perguntou Jon.
â Sensacional. Mas jĂĄ vivi em lugares piores.
â Eu sei â disse Sarah. â Eu vi.
Subimos para o quarto.
â Aqui estĂĄ. Parece familiar?
Era pintado de cinza, como muitos desses lugares. Persianas rasgadas. A mesa e a cadeira. A geladeira coberta de grossa crosta de sujeira. E a pobre cama bamba.
â EstĂĄ perfeito, Jon. Ă o quarto.
Fiquei um pouco triste por nĂŁo ser jovem e estar fazendo tudo aquilo de novo, bebendo e brigando e jogando com as palavras. Quando a gente Ă© jovem, pode realmente aguentar uma surra. A comida nĂŁo importava. O que importava era beber e sentar Ă mĂĄquina. Eu devia ter sido louco, mas hĂĄ muitos tipos de loucura, e alguns sĂŁo muito gostosos. Eu morria de fome para ter tempo de escrever. NĂŁo se faz mais isso. Olhando aquela mesa, via-me ali sentado de novo. Naquele tempo estava louco e sabia disso e nĂŁo importava.
â Vamos descer pra dar outra verificada no bar...
Descemos. Os bebuns que iam aparecer no filme jĂĄ estavam lĂĄ. Bebiam.
â Vamos lĂĄ, Sarah, vamos pegar um banco. Tchau, Jon...
O garçom nos apresentou aos bĂȘbados. Eram o Grande Monstro e o Pequeno Monstro, o Nojento, Buffo, Cabeça de Cachorro, Lady Lila, Lance Livre, Clara e outros.
Sarah perguntou ao Nojento o que ele estava bebendo.
â Parece bom â disse.
â Ă um Cape Cod, suco de amora e vodca.
â Eu tomo um Cape Cod â disse Sarah ao garçom, Cowboy Cal.
â Vodca 7 â eu disse ao Cowboy.
Tomamos algumas. O Grande Monstro me contou uma histĂłria de uma briga deles todos com os tiras. Muito interessante. E eu sabia, pelo jeito de ele contar, que era verdade.
Depois veio a chamada para o almoço para os atores e a equipe. Os bebuns ficaram onde estavam.
â Ă melhor a gente comer â disse Sarah.
SaĂmos pelos fundos e para leste do hotel. Haviam instalado uma grande banca. Os extras, tĂ©cnicos, operĂĄrios e outros jĂĄ comiam. A comida tinha boa aparĂȘncia. Jon veio ter com a gente. Pegamos nossas raçÔes na carroça e o seguimos atĂ© a ponta da mesa. Quando passĂĄvamos, Jon parou. Um homem comia sozinho. Jon apresentou-nos.
â Esse Ă© Lance Edwards...
Edwards fez-nos um leve aceno de cabeça e voltou ao seu filé.
Sentamo-nos na ponta da mesa. Edwards era um dos coprodutores.
â Esse Edwards age como um filho da puta â eu disse.
â Oh â disse Jon â ele Ă© muito acanhado. Ă um dos caras dos quais Friedman estava tentando se livrar.
â Talvez tivesse razĂŁo.
â Hank â disse Sarah â, vocĂȘ nem conhece o cara.
Eu atacava minha cerveja.
â Coma sua comida, Sarah.
Ela ia acrescentar dez anos Ă minha vida, para o melhor ou para o pior.
â Vamos filmar uma cena com Jack na sala. VocĂȘ deve vir ver.
â Depois de comermos, vamos voltar pro bar. Quando estiverem prontos pra filmar, mandem alguĂ©m nos chamar.
â Tudo bem â disse Jon.
Depois de comermos, contornamos o hotel atĂ© o outro lado, verificando-o. Jon nos acompanhava. VĂĄrios reboques estacionavam ao longo da rua. Vimos o Rolls-Royce de Jack. E junto a ele um grande reboque prateado, com um anĂșncio na porta: JACK BLEDSOE.
â Veja â disse Jon â, ele tem um periscĂłpio em cima, pra ver quem se aproxima...
â Nossa...
â Escuta, tenho de acertar umas coisas...
â Tudo bem... Tchau...
Jon tinha uma coisa engraçada. Seu sotaque francĂȘs ia desaparecendo Ă medida que ele sĂł falava inglĂȘs nos Estados Unidos. Era um pouco triste.
A porta do reboque de Jack abriu-se. Era ele.
â Ei, entrem!
Subimos os degraus. Uma televisĂŁo estava ligada. Uma garota jovem deitava-se no beliche, vendo TV.
â Essa Ă© Cleo. Comprei uma moto pra ela. A gente roda junto.
Um cara sentava-se na outra ponta.
â Esse Ă© meu irmĂŁo, Doug...
Eu me aproximei de Doug, ensaiei uns passos de boxe na frente dele. Ele nĂŁo disse nada. Apenas encarava. Sujeito frio. Ătimo. Eu gostava de caras frios.
â Tem alguma coisa pra beber? â perguntei a Jack.
â Claro...
Pegou um uĂsque, serviu-me uma dose com ĂĄgua.
â Obrigado...
â Quer um pouco? â ele perguntou a Sarah.
â Obrigada â ela disse. â NĂŁo gosto de misturar bebidas.
â Ela estĂĄ tomando Cape Cods â eu disse.
â Oh...
Sarah e eu nos sentamos. O uĂsque era bom.
â Gosto deste lugar â eu disse.
â Fique o quanto quiser â disse Jack.
â Talvez eu fique pra sempre...
Jack me lançou seu famoso sorriso.
â Seu irmĂŁo nĂŁo Ă© de falar muito, Ă©?
â NĂŁo, nĂŁo Ă©.
â Um cara frio.
â Ăéé.
â Bem, Jack, decorou suas falas?
â Eu nunca olho as minhas falas atĂ© o Ășltimo instante antes da filmagem.
â Sensacional. Bem, escuta, a gente tem de se mandar.
â Eu sei que vocĂȘ consegue, Jack â disse Sarah. â Estamos satisfeitos por vocĂȘ ter o papel principal.
â Obrigado.
No bar, os bebuns ainda estavam lĂĄ e nĂŁo pareciam nem um pouco mais bĂȘbados. Era preciso muita coisa pra derrubar um profissional.
Sarah tomou outro Cape Cod. Eu voltei ao Vodca 7.
Bebemos e ouvimos outras histórias. Cheguei até a contar uma. Talvez houvesse passado uma hora. Aà eu ergui o olhar e vi Jack parado, olhando por cima das portas de vaivém da entrada. Eu via apenas a cabeça dele.
â Ei, Jack â gritei â, entre e tome uma.
â NĂŁo, Hank, vamos filmar agora. Por que nĂŁo vem ver?
â JĂĄ vou lĂĄ, baby...
Pedimos mais duas doses. E jĂĄ as atacĂĄvamos quando Jon entrou.
â Vamos filmar agora â ele disse.
â Tudo bem â disse Sarah.
â Tudo bem â disse eu.
Acabamos nossas doses, e eu peguei umas duas garrafas de cerveja para levar conosco.
Seguimos Jon por uma escada acima e pelo quarto adentro. Cabos por toda parte. Técnicos mexendo-se de um lado para outro.
â Aposto que poderiam rodar um filme com cerca de um terço desses porras todos.
â Ă o que Friedman diz.
â Ăs vezes ele tem razĂŁo.
â Tudo bem â disse Jon â, estamos quase prontos. Fizemos alguns ensaios. Agora filmamos. VocĂȘ â disse para mim â fica nesse canto. Pode ver daqui sem entrar na cena.
Sarah recuou até ali comigo.
â SILĂNCIO! â gritou o assistente de direção de Jon. â PREPARANDO PRA RODAR!
Tudo ficou em silĂȘncio.
EntĂŁo foi a vez de Jon:
â CĂMERA! AĂĂO!
A porta do quarto abriu-se e Jack Bledsoe entrou cambaleando. Merda, era o jovem Chinaski! Era eu! Senti uma dor mole dentro de mim. Juventude, sua filha da puta, aonde foi vocĂȘ?
Queria voltar a ser o jovem bĂȘbado. Queria ser Jack Bledsoe. Mas era apenas o cara velho no canto, mamando uma cerveja.
Bledsoe cambaleou até a janela junto à mesa. Abriu a persiana escangalhada. Ensaiou uns passos de boxe, um sorriso no rosto. Depois sentou-se à mesa, pegou um låpis e um pedaço de papel. Ficou ali sentado algum tempo, depois puxou a rolha de uma garrafa de vinho, tomou uma talagada, acendeu um cigarro. Ligou o rådio e deu sorte de sintonizar Mozart.
Começou a escrever naquele pedaço de papel com o låpis, enquanto a cena escurecia...
Pegara a coisa. Pegara do jeito que era, quer isso significasse alguma coisa ou nĂŁo, ele a pegara como era.
Eu me aproximei dele e apertei sua mĂŁo.
â Peguei bem? â ele perguntou.
â Pegou â eu disse.
No bar lĂĄ embaixo, os bebuns ainda estavam em serviço e com a mesma aparĂȘncia.
Sarah voltou aos seus Cape Cods e eu tomei a rota do Vodca 7. Ouvimos algumas histórias ótimas. Mas havia uma tristeza no ar, porque depois de rodado o filme, o bar e o hotel iam ser desmontados, para servir a algum fim comercial. Alguns dos fregueses moravam no hotel hå décadas. Outros moravam numa estação ferroviåria deserta próxima, e havia uma ação judicial para retirå-los dali. Por isso, a bebida era pesada e triste.
Sarah disse por fim:
â Precisamos voltar pra casa pra dar comida aos gatos.
A bebida podia esperar.
Hollywood podia esperar.
Os gatos nĂŁo esperavam.
Concordei.
Despedimo-nos dos bebuns e fomos para o carro. Eu não me preocupava com a direção. Alguma coisa na visão do jovem Chinaski naquele velho quarto de hotel me estabilizara. Filho da puta, eu fora um jovem touro do caralho. Realmente um fodido de primeira.
Sarah se preocupava com o futuro dos pinguços. Eu tambĂ©m nĂŁo gostava daquilo. Por outro lado, nĂŁo podia vĂȘ-los sentados em torno da minha porta da frente, bebendo e contando suas histĂłrias. Muitas vezes o charme diminui quando chega perto demais da realidade. E quantos irmĂŁos a gente pode manter?
Eu dirigia em frente. Chegamos.
Os gatos esperavam.
Sarah desceu e limpou as tigelas deles e eu abri as latas.
Simplicidade, era disso que se precisava.
Subimos, tomamos banho, trocamos de roupa e fomos para a cama.
â Que Ă© que aquele pessoal vai fazer? â perguntou Sarah.
â Eu sei. Eu sei...
AĂ chegou a hora de dormir. Desci para dar uma Ășltima olhada e voltei. Sarah jĂĄ adormecera. Apaguei a luz. Dormimos. Tendo visto fazer o filme naquela tarde, agora estĂĄvamos um pouco diferentes, jamais voltarĂamos a pensar ou falar exatamente da mesma forma. Agora sabĂamos algo mais, mas, o que era, parecia muito vago e talvez atĂ© um pouco desagradĂĄvel.
â Hollywood
Você Anda Bebendo?
desanimado, na praia, o velho caderno amarelo de anotaçÔes
mais uma vez aberto
escrevo na cama
como fiz ano
passado.
vamos ao médico,
segunda-feira.
âsim, doutor, pernas fracas, vertigem, dor-de-
cabeça e minhas costas
doem.â
âvocĂȘ anda bebendo?â, ele perguntarĂĄ.
âtem feito seus
exercĂcios, tomado suas
vitaminas?â
acho que estou doente simplesmente de
viver, os mesmos elementos sem graça
ainda que
flutuantes.
mesmo nas corridas
vejo os cavalos correrem
e isso me parece
sem sentido.
vou embora mais cedo depois de ter comprado bilhetes para as
corridas restantes.
âjĂĄ vai?â, pergunta o vendedor das
apostas.
âsim, estou de saco cheioâ,
eu lhe digo.
âse vocĂȘ acha que Ă© chato
aĂ foraâ, ele me diz, âtem que ver como Ă©
aqui dentro.â
entĂŁo cĂĄ estou
mais uma vez apoiado em meus
travesseiros
apenas um cara velho
apenas um velho escritor
com uma caderneta
amarela.
alguma coisa
cruza pelo
chĂŁo
e vem até
mim.
oh, Ă© apenas
meu gato
desta
vez.
mais uma vez aberto
escrevo na cama
como fiz ano
passado.
vamos ao médico,
segunda-feira.
âsim, doutor, pernas fracas, vertigem, dor-de-
cabeça e minhas costas
doem.â
âvocĂȘ anda bebendo?â, ele perguntarĂĄ.
âtem feito seus
exercĂcios, tomado suas
vitaminas?â
acho que estou doente simplesmente de
viver, os mesmos elementos sem graça
ainda que
flutuantes.
mesmo nas corridas
vejo os cavalos correrem
e isso me parece
sem sentido.
vou embora mais cedo depois de ter comprado bilhetes para as
corridas restantes.
âjĂĄ vai?â, pergunta o vendedor das
apostas.
âsim, estou de saco cheioâ,
eu lhe digo.
âse vocĂȘ acha que Ă© chato
aĂ foraâ, ele me diz, âtem que ver como Ă©
aqui dentro.â
entĂŁo cĂĄ estou
mais uma vez apoiado em meus
travesseiros
apenas um cara velho
apenas um velho escritor
com uma caderneta
amarela.
alguma coisa
cruza pelo
chĂŁo
e vem até
mim.
oh, Ă© apenas
meu gato
desta
vez.
Você e a Sua Cerveja e o Quão Maravilhoso você é
Jack entrou e encontrou o maço de cigarros junto à lareira. Ann estava no sofå lendo um exemplar da Cosmopolitan. Jack acendeu um cigarro e sentou-se. Faltavam dez minutos para a meia-noite.
â Charley disse para vocĂȘ nĂŁo fumar â disse Ann, levantando os olhos da revista.
â Mereço um cigarro. Esta noite foi dura.
â Ganhou?
â NĂŁo foi unĂąnime, mas ganhei. Benson era um cara duro, muita coragem. Charley disse que Parvinelli Ă© o prĂłximo. Ganhando do Parvinelli, ganhamos o campeonato.
Jack se levantou, foi até a cozinha, voltou com uma garrafa de cerveja.
â Charley me disse pra manter vocĂȘ longe da cerveja â disse Ann enquanto baixava a revista.
â Charley disse isso, Charley disse aquilo... Estou cansado disso. Ganhei a luta. Ganhei dezesseis seguidas, tenho direito a um cigarro e a uma cerveja.
â Tem de manter a forma.
â NĂŁo importa. Surro qualquer um deles.
â VocĂȘ Ă© tĂŁo bom... Quando vocĂȘ se embebeda, tenho que ficar ouvindo âcomo vocĂȘ Ă© bomâ. Ă de dar nos nervos.
â Eu sou bom. Dezesseis seguidas, quinze nocautes. Quem Ă© melhor?
Ann nĂŁo respondeu. Jack levou sua garrafa de cerveja e seu cigarro para o banheiro.
â VocĂȘ nem me deu um beijo ao chegar. A primeira coisa que vocĂȘ fez foi pegar a sua garrafa de cerveja. TĂŁo bom, certo. Um bom bebedor de cerveja.
Jack não respondeu. Cinco minutos mais tarde, apareceu em pé na porta do banheiro, com as calças e os calçÔes pelos tornozelos.
â Pelo amor de Deus, Ann, nĂŁo dĂĄ pra deixar nem um rolo de papel higiĂȘnico aqui?
â Desculpa.
Foi até o armårio e levou um rolo para ele. Jack terminou o serviço e saiu. Então terminou sua cerveja e pegou outra.
â Aqui estĂĄ vocĂȘ, vivendo com o melhor peso mĂ©dio do mundo e tudo que faz Ă© reclamar. Um monte de garotas gostaria de estar aqui comigo, e tudo que vocĂȘ faz Ă© ficar sentada e reclamar.
â Sei que vocĂȘ Ă© bom, Jack, talvez atĂ© seja o melhor, mas vocĂȘ nĂŁo faz ideia de como Ă© entediante ficar sentada e ouvir vocĂȘ dizer mais e mais uma vez o quĂŁo maravilhoso vocĂȘ Ă©.
â Oh, entĂŁo vocĂȘ estĂĄ entediada, Ă© isso?
â Sim, porra, vocĂȘ e a sua cerveja e o quĂŁo maravilhoso vocĂȘ Ă©.
â Diga o nome de um peso mĂ©dio que seja melhor. VocĂȘ nem mesmo vai Ă s minhas lutas.
â Existem outras coisas alĂ©m de lutar, Jack.
â Como o quĂȘ? Passar o dia com essa bunda no sofĂĄ lendo Cosmopolitan?
â Gosto de exercitar a mente.
â E deveria. Tem muito ainda pra progredir nesse terreno.
â Estou dizendo que existem outras coisas alĂ©m de lutar.
â Como o que, por exemplo?
â Bem, arte, mĂșsica, pintura, coisas desse tipo.
â E vocĂȘ sabe fazer alguma delas?
â NĂŁo, mas aprecio.
â Merda, prefiro ser o melhor no que estou fazendo.
â Bom, melhor, o Ășnico... Deus, vocĂȘ nĂŁo consegue apreciar as pessoas pelo que elas sĂŁo?
â Pelo que elas sĂŁo? O que a maioria delas Ă©? Lesmas, sanguessugas, dĂąndis, dedos-duros, cafetĂ”es, empregados...
â VocĂȘ estĂĄ sempre rebaixando os outros. Nenhum dos seus amigos Ă© bom o suficiente. VocĂȘ Ă© o fodĂŁo!
â Isso mesmo, boneca.
Jack foi até a cozinha e voltou com outra cerveja.
â VocĂȘ e a sua maldita cerveja!
â Ă um direito meu. Eles vendem. Eu compro.
â Charley disse...
â Quero que Charley se foda!
â VocĂȘ Ă© o melhor!
â Isso mesmo. Pelo menos Pattie sabia disso. Ela admitia e se orgulhava. Sabia o que isso custava. Tudo que vocĂȘ faz Ă© reclamar.
â Bem, por que vocĂȘ nĂŁo volta pra ela? O que estĂĄ fazendo aqui comigo?
â Era bem nisso que estava pensando.
â Bem, nĂŁo somos casados, posso ir embora a qualquer hora.
â Isso Ă© o que estĂĄ nos fodendo. Merda, chego aqui morto de cansado depois de uma luta dura de dez assaltos, e vocĂȘ nem mesmo fica feliz por eu ter vencido. Tudo que vocĂȘ faz Ă© reclamar de mim.
â Escute, Jack, existe mais na vida alĂ©m de lutar. Quando o conheci, admirei-o pelo que vocĂȘ era.
â Eu era um lutador. NĂŁo existe nenhuma outra coisa alĂ©m de lutar. Isso Ă© o que sou: um lutador. Essa Ă© a minha vida e sou bom nisso. O melhor. Noto que vocĂȘ sempre simpatiza com os lutadores de segunda classe... como Toby Jorgenson.
â Toby Ă© muito engraçado. Tem um senso de humor, um senso de humor de verdade. Gosto do Toby.
â Sua marca sĂŁo nove vitĂłrias, apenas cinco por nocaute e uma derrota. Dou uma surra nele mesmo podre de bĂȘbado.
â E Deus sabe que vocĂȘ fica podre de bĂȘbado frequentemente. Como vocĂȘ acha que me sinto nas festas quando vocĂȘ estĂĄ caindo de bĂȘbado, rolando no chĂŁo, quando nĂŁo estĂĄ se gabando pela sala, dizendo pra todo mundo âSOU O MELHOR, O MELHOR, O MELHOR DE TODOS!â? NĂŁo acha que isso faz com que eu me sinta um cu?
â Talvez vocĂȘ seja um cu mesmo. Se gosta tanto do Toby, por que nĂŁo vai ficar com ele?
â Ah, sĂł disse que gostava dele, achei ele engraçado, isso nĂŁo quer dizer que quero ir para a cama com ele.
â Bem, vocĂȘ vai pra cama comigo e diz que sou entediante. NĂŁo sei o que diabos vocĂȘ quer.
Ann não respondeu. Jack se levantou, caminhou até o sofå, ergueu a cabeça de Ann e beijou-a, retornou ao seu lugar e se sentou.
â Escute, deixe-me contar sobre essa luta com o Benson. AtĂ© vocĂȘ teria ficado orgulhosa de mim. Ele me derruba no primeiro assalto, uma direita perigosa. Levanto e o seguro o resto do assalto. Caio outra vez no segundo assalto e quase nĂŁo consigo me levantar quando a contagem jĂĄ estava em oito. Seguro ele outra vez. Uso alguns dos assaltos seguintes para recuperar minhas pernas. Ganho o sexto, o sĂ©timo e o oitavo assaltos, derrubo ele uma vez no nono e duas vezes no dĂ©cimo. NĂŁo acho que era luta para decidir nos pontos. Mas os juĂzes acharam que era. Venci, mas nĂŁo foi unĂąnime. Bem, sĂŁo 45 mil, entende, garota? Quarenta e cinco mil. Sou Ăłtimo. NĂŁo dĂĄ pra negar. Sou muito bom. DĂĄ pra negar?
Ann nĂŁo respondeu.
â Vamos, diz que eu sou o melhor.
â EstĂĄ bem, vocĂȘ Ă© o melhor.
â Bem, começamos a nos entender.
Jack caminhou até ela e a beijou novamente.
â Sinto que sou tĂŁo bom. Boxe Ă© uma obra de arte, realmente Ă©. Ă preciso ter coragem para ser um grande artista e Ă© preciso ter coragem pra ser um bom lutador.
â Tudo bem, Jack.
â Tudo bem, Jack? Ă tudo que vocĂȘ tem a dizer? Pattie costumava ficar feliz quando eu ganhava. FicĂĄvamos ambos felizes a noite inteira. VocĂȘ nĂŁo pode compartilhar algo de bom que eu fiz? Porra, vocĂȘ estĂĄ apaixonada por mim ou estĂĄ apaixonada pelos perdedores, aqueles merdas? Acho que vocĂȘ seria mais feliz se eu chegasse aqui como perdedor.
â Quero que vocĂȘ vença, Jack, Ă© sĂł que vocĂȘ pĂ”e muita ĂȘnfase no que faz...
â Porra, Ă© o meu sustento, minha vida. Me orgulho de ser o melhor. Ă como voar, Ă© como sair voando pelo cĂ©u espancando o sol.
â O que vocĂȘ vai fazer quando nĂŁo puder mais lutar?
â Porra, vamos ter bastante dinheiro para fazer o que quisermos.
â Menos nos dar bem, talvez.
â Talvez eu possa aprender a ler Cosmopolitan, melhorar minha mente.
â Bem, hĂĄ espaço para melhorias.
â Vai se foder!
â QuĂȘ?
â Vai se foder!
â Bem, Ă© algo que vocĂȘ nĂŁo faz jĂĄ hĂĄ algum tempo.
â Alguns caras gostam de foder mulheres que nĂŁo param de reclamar, eu nĂŁo gosto.
â Imagino que Pattie nĂŁo reclamava?
â Todas reclamam, mas vocĂȘ Ă© a campeĂŁ.
â Bem, por que nĂŁo volta para Pattie?
â VocĂȘ estĂĄ aqui agora. SĂł posso hospedar uma puta de cada vez.
â Puta?
â Puta.
Ann se levantou e foi atĂ© o armĂĄrio, pegou sua mala e começou a guardar suas roupas ali. Jack foi atĂ© a cozinha e pegou outra garrafa de cerveja. Ann estava chorando, tomada de fĂșria. Jack sentou com a cerveja e tomou um bom gole. Precisava de um uĂsque, precisava de uma garrafa de uĂsque. E de um bom charuto.
â Posso vir pegar o resto das minhas coisas quando vocĂȘ nĂŁo estiver por aqui.
â NĂŁo se preocupe. Mando pra vocĂȘ.
Ela parou junto Ă porta.
â Bem, imagino que seja o fim â ela disse.
â Creio que sim â respondeu Jack.
Ela fechou a porta e se foi. Procedimento padrĂŁo. Jack terminou sua cerveja e foi atĂ© o telefone. Discou o nĂșmero de Pattie. Ela atendeu.
â Pattie?
â Oi, Jack, como tem passado?
â Ganhei uma grande essa noite. NĂŁo foi unĂąnime. Tudo que tenho que fazer Ă© passar por cima do Parvinelli e levo o campeonato.
â Vai acabar com a raça deles, Jack. Sei que vocĂȘ consegue.
â O que vai fazer essa noite, Pattie?
â Ă uma da manhĂŁ, Jack. Andou bebendo?
â Um pouco. Estou comemorando.
â E Ann?
â Brigamos. SĂł ando com uma mulher por vez, vocĂȘ sabe disso, Pattie.
â Jack...
â QuĂȘ?
â Estou com um cara.
â Um cara?
â Toby Jorgenson. Ele estĂĄ no banheiro...
â Oh, sinto muito.
â TambĂ©m sinto muito, Jack. Eu amava vocĂȘ... talvez ainda ame.
â Merda, vocĂȘs mulheres gostam mesmo de jogar essa palavra por aĂ...
â Sinto muito, Jack.
â Tudo bem.
Ele desligou. EntĂŁo foi atĂ© o armĂĄrio pegar seu casaco. Vestiu, terminou a cerveja, desceu o elevador e foi atĂ© o carro. Dirigiu pela Normandie a cem quilĂŽmetros por hora, parou na loja de bebidas na Hollywood Boulevard. Saiu do carro e entrou na loja. Comprou um pacote de cerveja de seis garrafas Michelob, uma caixa de Alka-Seltzer. EntĂŁo, no caixa, pediu ao funcionĂĄrio por uma garrafa de Jack Daniels. Enquanto o funcionĂĄrio estava somando as compras, um bĂȘbado entrou com dois pacotes de seis cervejas Coors.
â Ei, cara! â ele disse a Jack. â VocĂȘ nĂŁo Ă© Jack Backenweld, o lutador?
â Sou â respondeu Jack.
â Cara, vi a sua luta essa noite, Jack, vocĂȘ tem colhĂ”es. VocĂȘ Ă© realmente bom!
â Obrigado, cara â respondeu ao bĂȘbado e entĂŁo pegou sua sacola de compras e caminhou para o carro. Sentou lĂĄ, abriu a tampa do Daniels e tomou um bom trago. EntĂŁo voltou, dirigiu em alta velocidade no sentido oeste, de volta pela Hollywood, dobrou a esquerda na Normandie e notou uma garota nova e bem feita de corpo cambaleando pela rua. Parou o carro, pegou a garrafa de uĂsque e mostrou a ela.
â Quer uma carona?
Jack ficou surpreso quando ela entrou.
â Vou ajudar vocĂȘ a beber isso, senhor, mas nada alĂ©m disso.
â Claro que nĂŁo â disse Jack.
Desceu a Normandie a sessenta quilÎmetros por hora, um respeitado cidadão, o terceiro melhor peso médio no ranking mundial. Por um momento sentiu vontade de contar para ela com quem estava andando, mas mudou de ideia e estendeu a mão para apalpar um dos joelhos dela.
â VocĂȘ tem um cigarro, senhor? â ela perguntou.
Ele ofereceu rapidamente um cigarro com a mĂŁo, acionou o isqueiro do painel, que saltou para fora, e entĂŁo acendeu o fogo para ela.
â Ao sul de lugar nenhum
â Charley disse para vocĂȘ nĂŁo fumar â disse Ann, levantando os olhos da revista.
â Mereço um cigarro. Esta noite foi dura.
â Ganhou?
â NĂŁo foi unĂąnime, mas ganhei. Benson era um cara duro, muita coragem. Charley disse que Parvinelli Ă© o prĂłximo. Ganhando do Parvinelli, ganhamos o campeonato.
Jack se levantou, foi até a cozinha, voltou com uma garrafa de cerveja.
â Charley me disse pra manter vocĂȘ longe da cerveja â disse Ann enquanto baixava a revista.
â Charley disse isso, Charley disse aquilo... Estou cansado disso. Ganhei a luta. Ganhei dezesseis seguidas, tenho direito a um cigarro e a uma cerveja.
â Tem de manter a forma.
â NĂŁo importa. Surro qualquer um deles.
â VocĂȘ Ă© tĂŁo bom... Quando vocĂȘ se embebeda, tenho que ficar ouvindo âcomo vocĂȘ Ă© bomâ. Ă de dar nos nervos.
â Eu sou bom. Dezesseis seguidas, quinze nocautes. Quem Ă© melhor?
Ann nĂŁo respondeu. Jack levou sua garrafa de cerveja e seu cigarro para o banheiro.
â VocĂȘ nem me deu um beijo ao chegar. A primeira coisa que vocĂȘ fez foi pegar a sua garrafa de cerveja. TĂŁo bom, certo. Um bom bebedor de cerveja.
Jack não respondeu. Cinco minutos mais tarde, apareceu em pé na porta do banheiro, com as calças e os calçÔes pelos tornozelos.
â Pelo amor de Deus, Ann, nĂŁo dĂĄ pra deixar nem um rolo de papel higiĂȘnico aqui?
â Desculpa.
Foi até o armårio e levou um rolo para ele. Jack terminou o serviço e saiu. Então terminou sua cerveja e pegou outra.
â Aqui estĂĄ vocĂȘ, vivendo com o melhor peso mĂ©dio do mundo e tudo que faz Ă© reclamar. Um monte de garotas gostaria de estar aqui comigo, e tudo que vocĂȘ faz Ă© ficar sentada e reclamar.
â Sei que vocĂȘ Ă© bom, Jack, talvez atĂ© seja o melhor, mas vocĂȘ nĂŁo faz ideia de como Ă© entediante ficar sentada e ouvir vocĂȘ dizer mais e mais uma vez o quĂŁo maravilhoso vocĂȘ Ă©.
â Oh, entĂŁo vocĂȘ estĂĄ entediada, Ă© isso?
â Sim, porra, vocĂȘ e a sua cerveja e o quĂŁo maravilhoso vocĂȘ Ă©.
â Diga o nome de um peso mĂ©dio que seja melhor. VocĂȘ nem mesmo vai Ă s minhas lutas.
â Existem outras coisas alĂ©m de lutar, Jack.
â Como o quĂȘ? Passar o dia com essa bunda no sofĂĄ lendo Cosmopolitan?
â Gosto de exercitar a mente.
â E deveria. Tem muito ainda pra progredir nesse terreno.
â Estou dizendo que existem outras coisas alĂ©m de lutar.
â Como o que, por exemplo?
â Bem, arte, mĂșsica, pintura, coisas desse tipo.
â E vocĂȘ sabe fazer alguma delas?
â NĂŁo, mas aprecio.
â Merda, prefiro ser o melhor no que estou fazendo.
â Bom, melhor, o Ășnico... Deus, vocĂȘ nĂŁo consegue apreciar as pessoas pelo que elas sĂŁo?
â Pelo que elas sĂŁo? O que a maioria delas Ă©? Lesmas, sanguessugas, dĂąndis, dedos-duros, cafetĂ”es, empregados...
â VocĂȘ estĂĄ sempre rebaixando os outros. Nenhum dos seus amigos Ă© bom o suficiente. VocĂȘ Ă© o fodĂŁo!
â Isso mesmo, boneca.
Jack foi até a cozinha e voltou com outra cerveja.
â VocĂȘ e a sua maldita cerveja!
â Ă um direito meu. Eles vendem. Eu compro.
â Charley disse...
â Quero que Charley se foda!
â VocĂȘ Ă© o melhor!
â Isso mesmo. Pelo menos Pattie sabia disso. Ela admitia e se orgulhava. Sabia o que isso custava. Tudo que vocĂȘ faz Ă© reclamar.
â Bem, por que vocĂȘ nĂŁo volta pra ela? O que estĂĄ fazendo aqui comigo?
â Era bem nisso que estava pensando.
â Bem, nĂŁo somos casados, posso ir embora a qualquer hora.
â Isso Ă© o que estĂĄ nos fodendo. Merda, chego aqui morto de cansado depois de uma luta dura de dez assaltos, e vocĂȘ nem mesmo fica feliz por eu ter vencido. Tudo que vocĂȘ faz Ă© reclamar de mim.
â Escute, Jack, existe mais na vida alĂ©m de lutar. Quando o conheci, admirei-o pelo que vocĂȘ era.
â Eu era um lutador. NĂŁo existe nenhuma outra coisa alĂ©m de lutar. Isso Ă© o que sou: um lutador. Essa Ă© a minha vida e sou bom nisso. O melhor. Noto que vocĂȘ sempre simpatiza com os lutadores de segunda classe... como Toby Jorgenson.
â Toby Ă© muito engraçado. Tem um senso de humor, um senso de humor de verdade. Gosto do Toby.
â Sua marca sĂŁo nove vitĂłrias, apenas cinco por nocaute e uma derrota. Dou uma surra nele mesmo podre de bĂȘbado.
â E Deus sabe que vocĂȘ fica podre de bĂȘbado frequentemente. Como vocĂȘ acha que me sinto nas festas quando vocĂȘ estĂĄ caindo de bĂȘbado, rolando no chĂŁo, quando nĂŁo estĂĄ se gabando pela sala, dizendo pra todo mundo âSOU O MELHOR, O MELHOR, O MELHOR DE TODOS!â? NĂŁo acha que isso faz com que eu me sinta um cu?
â Talvez vocĂȘ seja um cu mesmo. Se gosta tanto do Toby, por que nĂŁo vai ficar com ele?
â Ah, sĂł disse que gostava dele, achei ele engraçado, isso nĂŁo quer dizer que quero ir para a cama com ele.
â Bem, vocĂȘ vai pra cama comigo e diz que sou entediante. NĂŁo sei o que diabos vocĂȘ quer.
Ann não respondeu. Jack se levantou, caminhou até o sofå, ergueu a cabeça de Ann e beijou-a, retornou ao seu lugar e se sentou.
â Escute, deixe-me contar sobre essa luta com o Benson. AtĂ© vocĂȘ teria ficado orgulhosa de mim. Ele me derruba no primeiro assalto, uma direita perigosa. Levanto e o seguro o resto do assalto. Caio outra vez no segundo assalto e quase nĂŁo consigo me levantar quando a contagem jĂĄ estava em oito. Seguro ele outra vez. Uso alguns dos assaltos seguintes para recuperar minhas pernas. Ganho o sexto, o sĂ©timo e o oitavo assaltos, derrubo ele uma vez no nono e duas vezes no dĂ©cimo. NĂŁo acho que era luta para decidir nos pontos. Mas os juĂzes acharam que era. Venci, mas nĂŁo foi unĂąnime. Bem, sĂŁo 45 mil, entende, garota? Quarenta e cinco mil. Sou Ăłtimo. NĂŁo dĂĄ pra negar. Sou muito bom. DĂĄ pra negar?
Ann nĂŁo respondeu.
â Vamos, diz que eu sou o melhor.
â EstĂĄ bem, vocĂȘ Ă© o melhor.
â Bem, começamos a nos entender.
Jack caminhou até ela e a beijou novamente.
â Sinto que sou tĂŁo bom. Boxe Ă© uma obra de arte, realmente Ă©. Ă preciso ter coragem para ser um grande artista e Ă© preciso ter coragem pra ser um bom lutador.
â Tudo bem, Jack.
â Tudo bem, Jack? Ă tudo que vocĂȘ tem a dizer? Pattie costumava ficar feliz quando eu ganhava. FicĂĄvamos ambos felizes a noite inteira. VocĂȘ nĂŁo pode compartilhar algo de bom que eu fiz? Porra, vocĂȘ estĂĄ apaixonada por mim ou estĂĄ apaixonada pelos perdedores, aqueles merdas? Acho que vocĂȘ seria mais feliz se eu chegasse aqui como perdedor.
â Quero que vocĂȘ vença, Jack, Ă© sĂł que vocĂȘ pĂ”e muita ĂȘnfase no que faz...
â Porra, Ă© o meu sustento, minha vida. Me orgulho de ser o melhor. Ă como voar, Ă© como sair voando pelo cĂ©u espancando o sol.
â O que vocĂȘ vai fazer quando nĂŁo puder mais lutar?
â Porra, vamos ter bastante dinheiro para fazer o que quisermos.
â Menos nos dar bem, talvez.
â Talvez eu possa aprender a ler Cosmopolitan, melhorar minha mente.
â Bem, hĂĄ espaço para melhorias.
â Vai se foder!
â QuĂȘ?
â Vai se foder!
â Bem, Ă© algo que vocĂȘ nĂŁo faz jĂĄ hĂĄ algum tempo.
â Alguns caras gostam de foder mulheres que nĂŁo param de reclamar, eu nĂŁo gosto.
â Imagino que Pattie nĂŁo reclamava?
â Todas reclamam, mas vocĂȘ Ă© a campeĂŁ.
â Bem, por que nĂŁo volta para Pattie?
â VocĂȘ estĂĄ aqui agora. SĂł posso hospedar uma puta de cada vez.
â Puta?
â Puta.
Ann se levantou e foi atĂ© o armĂĄrio, pegou sua mala e começou a guardar suas roupas ali. Jack foi atĂ© a cozinha e pegou outra garrafa de cerveja. Ann estava chorando, tomada de fĂșria. Jack sentou com a cerveja e tomou um bom gole. Precisava de um uĂsque, precisava de uma garrafa de uĂsque. E de um bom charuto.
â Posso vir pegar o resto das minhas coisas quando vocĂȘ nĂŁo estiver por aqui.
â NĂŁo se preocupe. Mando pra vocĂȘ.
Ela parou junto Ă porta.
â Bem, imagino que seja o fim â ela disse.
â Creio que sim â respondeu Jack.
Ela fechou a porta e se foi. Procedimento padrĂŁo. Jack terminou sua cerveja e foi atĂ© o telefone. Discou o nĂșmero de Pattie. Ela atendeu.
â Pattie?
â Oi, Jack, como tem passado?
â Ganhei uma grande essa noite. NĂŁo foi unĂąnime. Tudo que tenho que fazer Ă© passar por cima do Parvinelli e levo o campeonato.
â Vai acabar com a raça deles, Jack. Sei que vocĂȘ consegue.
â O que vai fazer essa noite, Pattie?
â Ă uma da manhĂŁ, Jack. Andou bebendo?
â Um pouco. Estou comemorando.
â E Ann?
â Brigamos. SĂł ando com uma mulher por vez, vocĂȘ sabe disso, Pattie.
â Jack...
â QuĂȘ?
â Estou com um cara.
â Um cara?
â Toby Jorgenson. Ele estĂĄ no banheiro...
â Oh, sinto muito.
â TambĂ©m sinto muito, Jack. Eu amava vocĂȘ... talvez ainda ame.
â Merda, vocĂȘs mulheres gostam mesmo de jogar essa palavra por aĂ...
â Sinto muito, Jack.
â Tudo bem.
Ele desligou. EntĂŁo foi atĂ© o armĂĄrio pegar seu casaco. Vestiu, terminou a cerveja, desceu o elevador e foi atĂ© o carro. Dirigiu pela Normandie a cem quilĂŽmetros por hora, parou na loja de bebidas na Hollywood Boulevard. Saiu do carro e entrou na loja. Comprou um pacote de cerveja de seis garrafas Michelob, uma caixa de Alka-Seltzer. EntĂŁo, no caixa, pediu ao funcionĂĄrio por uma garrafa de Jack Daniels. Enquanto o funcionĂĄrio estava somando as compras, um bĂȘbado entrou com dois pacotes de seis cervejas Coors.
â Ei, cara! â ele disse a Jack. â VocĂȘ nĂŁo Ă© Jack Backenweld, o lutador?
â Sou â respondeu Jack.
â Cara, vi a sua luta essa noite, Jack, vocĂȘ tem colhĂ”es. VocĂȘ Ă© realmente bom!
â Obrigado, cara â respondeu ao bĂȘbado e entĂŁo pegou sua sacola de compras e caminhou para o carro. Sentou lĂĄ, abriu a tampa do Daniels e tomou um bom trago. EntĂŁo voltou, dirigiu em alta velocidade no sentido oeste, de volta pela Hollywood, dobrou a esquerda na Normandie e notou uma garota nova e bem feita de corpo cambaleando pela rua. Parou o carro, pegou a garrafa de uĂsque e mostrou a ela.
â Quer uma carona?
Jack ficou surpreso quando ela entrou.
â Vou ajudar vocĂȘ a beber isso, senhor, mas nada alĂ©m disso.
â Claro que nĂŁo â disse Jack.
Desceu a Normandie a sessenta quilÎmetros por hora, um respeitado cidadão, o terceiro melhor peso médio no ranking mundial. Por um momento sentiu vontade de contar para ela com quem estava andando, mas mudou de ideia e estendeu a mão para apalpar um dos joelhos dela.
â VocĂȘ tem um cigarro, senhor? â ela perguntou.
Ele ofereceu rapidamente um cigarro com a mĂŁo, acionou o isqueiro do painel, que saltou para fora, e entĂŁo acendeu o fogo para ela.
â Ao sul de lugar nenhum
Você Não Consegue Escrever Uma História de Amor
Margie ia sair com um sujeito, mas, no caminho, esse sujeito encontrou com outro que vestia um casaco de couro e o sujeito com casaco de couro abriu o casaco de couro e mostrou as tetas e o outro sujeito foi até a casa de Margie e disse que não poderia mais ir ao encontro, porque esse sujeito, vestindo um casaco de couro, havia lhe mostrado as tetas e ele iria trepar com esse sujeito. Então Margie foi até a casa de Carl. Carl estava em casa e ela se sentou e disse para Carl:
â Um sujeito ia me levar para um cafĂ© com mesas na calçada e Ăamos beber vinho e conversar, sĂł beber vinho e conversar, sĂł isso, nada mais, mas, no caminho para me encontrar, esse sujeito encontrou outro com um casaco de couro e o sujeito com casaco de couro lhe mostrou as tetas e agora esse sujeito vai trepar com o sujeito com casaco de couro e eu fico sem minha mesa e meu vinho e minha conversa.
â NĂŁo consigo escrever â disse Carl. â Acabou-se.
EntĂŁo ele se levantou e foi atĂ© o banheiro, fechou a porta e deu uma cagada. Carl cagava quatro ou cinco vezes por dia. NĂŁo havia mais nada a fazer. Ele tomava cinco ou seis banhos por dia. NĂŁo havia mais nada a fazer. Ficava bĂȘbado pela mesma razĂŁo.
Margie ouviu a descarga da privada. EntĂŁo Carl saiu do banheiro.
â Um homem simplesmente nĂŁo consegue escrever oito horas por dia. Nem mesmo consegue escrever todo dia ou toda semana. Ă uma situação pĂ©ssima. NĂŁo hĂĄ nada a fazer alĂ©m de esperar.
Carl foi até a geladeira e voltou com um pacote de seis garrafas de cerveja Michelob. Abriu uma garrafa.
â Sou o maior escritor do mundo â ele disse. â VocĂȘ sabe como isso Ă© difĂcil?
Margie nĂŁo respondeu.
â Posso sentir a dor rastejando por todo o meu corpo. Ă como uma segunda pele. Queria poder me livrar dessa pele como uma cobra.
â Bem, por que vocĂȘ nĂŁo se deita no tapete e tenta?
â Escute â ele perguntou â, onde foi que a conheci?
â Na Bodega do Barney.
â Bem, isso explica um pouco as coisas. Beba uma cerveja.
Carl abriu uma garrafa e lhe entregou.
â Ă... â disse Margie â eu sei. VocĂȘ precisa do seu isolamento. VocĂȘ precisa ficar sozinho. Exceto quando quer trepar, ou exceto quando nos separamos, entĂŁo vocĂȘ me liga. Diz que precisa de mim. Diz que estĂĄ morrendo por causa de uma ressaca. VocĂȘ enfraquece rĂĄpido.
â Enfraqueço rĂĄpido.
â E fica tĂŁo inerte quando estou por perto, nunca se excita. VocĂȘs escritores sĂŁo tĂŁo... preciosos... nĂŁo suportam pessoas. A humanidade fede, certo?
â Certo.
â Mas toda vez que nos separamos vocĂȘ começa a fazer festas gigantes que duram quatro dias. E de repente vocĂȘ acorda, começa a FALAR! De repente fica cheio de vida, falando, dançando, cantando, dança em cima da mesa de cafĂ©, joga garrafas pela janela, encena trechos de Shakespeare. De repente, vocĂȘ estĂĄ vivo... quando estou longe. Ah, fiquei sabendo de tudo!
â NĂŁo faço festas. Odeio ainda mais as pessoas nas festas.
â Para um sujeito que nĂŁo gosta de festas, certamente vocĂȘ organiza um bocado delas.
â Escute, Margie, vocĂȘ nĂŁo entende. NĂŁo consigo mais escrever. Estou acabado. Em algum lugar tomei uma trajetĂłria errada. Em algum momento, morri durante a noite.
â O Ășnico jeito de vocĂȘ morrer Ă© numa dessas suas ressacas gigantescas.
â Jeffers diz que atĂ© mesmo o mais forte dos homens fica encurralado.
â Quem foi Jeffers?
â Foi o sujeito que transformou Big Sur numa armadilha para turistas.
â O que vocĂȘ ia fazer essa noite?
â Ia ouvir as mĂșsicas de Rachmaninoff.
â Quem Ă©?
â Um russo que jĂĄ morreu.
â Olha para vocĂȘ. Fica aĂ sentado.
â Estou esperando. Alguns sujeitos esperam por dois anos. Ăs vezes a coisa nunca volta.
â E se nunca voltar?
â Apenas calçarei meus sapatos e descerei atĂ© a rua principal.
â Por que nĂŁo arranja um emprego decente?
â NĂŁo existem empregos decentes. Se um escritor nĂŁo consegue sucesso atravĂ©s da criação, estĂĄ morto.
â Ah, para com isso, Carl! Existem bilhĂ”es de pessoas no mundo que nĂŁo atingem o sucesso pela criação. Quer me dizer que elas estĂŁo mortas?
â Sim.
â E vocĂȘ tem uma alma? VocĂȘ Ă© um dos poucos que tem uma alma?
â Diria que sim.
â Diria que sim! VocĂȘ e a sua maquininha de escrever! VocĂȘ e os seus cheques mirrados! Minha avĂł ganha mais dinheiro do que vocĂȘ!
Carl abriu outra garrafa de cerveja.
â Cerveja! Cerveja! VocĂȘ e a porra da sua cerveja! Isso estĂĄ nas suas histĂłrias tambĂ©m. âMarty ergueu sua cerveja. Quando levantou os olhos, uma tremenda loira entrou no bar e sentou ao seu lado...â VocĂȘ estĂĄ certo. EstĂĄ acabado. Seu material Ă© limitado, muito limitado. VocĂȘ nĂŁo consegue escrever uma histĂłria decente de amor.
â VocĂȘ estĂĄ certa, Margie.
â Se um homem nĂŁo consegue escrever uma histĂłria de amor, ele Ă© um inĂștil.
â Quantas vocĂȘ jĂĄ escreveu?
â NĂŁo digo que sou uma escritora.
â Mas â disse Carl â vocĂȘ parece posar como uma crĂtica literĂĄria infernal.
Margie, depois disso, foi logo embora. Carl ficou sentado e bebeu o resto das cervejas. Era verdade, a escrita o havia deixado. Isso deixaria algum de seus inimigos do subsolo felizes. Eles poderiam aumentar em um tento a marca dos inimigos abatidos. A morte os agradava, em cima ou embaixo da terra. Lembrou-se de Endicott, Endicott sentado, dizendo:
â Bem, Hemingway se foi, Dos Passos se foi, Patchen se foi, Pound se foi, Berryman pulou daquela ponte... as coisas estĂŁo parecendo cada vez melhores.
O telefone tocou. Carl atendeu.
â Sr. Gantling?
â Sim â ele respondeu.
â GostarĂamos de saber se vocĂȘ estaria interessado em uma leitura de algum dos seus trabalhos na Faculdade Fairmount.
â Bem, sim, qual a data?
â No dia 30 do prĂłximo mĂȘs.
â Acho que nĂŁo tenho nada marcado para esse dia.
â Nosso pagamento geralmente Ă© de cem dĂłlares.
â Geralmente recebo 150. Ginsberg ganha mil.
â Mas ele Ă© Ginsberg. Podemos oferecer apenas cem.
â Tudo bem.
â Bom, sr. Gantling. Enviaremos os detalhes para vocĂȘ.
â E o transporte? Dirigir atĂ© aĂ nĂŁo Ă© pouca coisa.
â Ok, 25 dĂłlares pela viagem.
â Ok.
â Gostaria de falar com os estudantes em suas classes?
â NĂŁo.
â Oferecemos um almoço grĂĄtis.
â Vou aceitar o almoço.
â Bom, sr. Gantling, estaremos esperando para vĂȘ-lo em nosso campus.
â Nos falamos.
Carl foi até o quarto. Olhou para a måquina de escrever. Colocou uma folha de papel no rolo, então observou uma garota com uma minissaia surpreendentemente curta cruzar pela frente de sua janela. Depois começou a escrever:
âMargie ia sair com um sujeito, mas, no caminho, esse sujeito encontrou com outro que vestia um casaco de couro e o sujeito com casaco de couro abriu o casaco de couro e mostrou as tetas e o outro sujeito foi atĂ© a casa de Margie e disse que nĂŁo poderia mais ir ao encontro, porque esse sujeito, vestindo um casaco de couro, havia lhe mostrado as tetas...â
Carl ergueu sua cerveja. Era bom voltar a escrever.
â Ao sul de lugar nenhum
â Um sujeito ia me levar para um cafĂ© com mesas na calçada e Ăamos beber vinho e conversar, sĂł beber vinho e conversar, sĂł isso, nada mais, mas, no caminho para me encontrar, esse sujeito encontrou outro com um casaco de couro e o sujeito com casaco de couro lhe mostrou as tetas e agora esse sujeito vai trepar com o sujeito com casaco de couro e eu fico sem minha mesa e meu vinho e minha conversa.
â NĂŁo consigo escrever â disse Carl. â Acabou-se.
EntĂŁo ele se levantou e foi atĂ© o banheiro, fechou a porta e deu uma cagada. Carl cagava quatro ou cinco vezes por dia. NĂŁo havia mais nada a fazer. Ele tomava cinco ou seis banhos por dia. NĂŁo havia mais nada a fazer. Ficava bĂȘbado pela mesma razĂŁo.
Margie ouviu a descarga da privada. EntĂŁo Carl saiu do banheiro.
â Um homem simplesmente nĂŁo consegue escrever oito horas por dia. Nem mesmo consegue escrever todo dia ou toda semana. Ă uma situação pĂ©ssima. NĂŁo hĂĄ nada a fazer alĂ©m de esperar.
Carl foi até a geladeira e voltou com um pacote de seis garrafas de cerveja Michelob. Abriu uma garrafa.
â Sou o maior escritor do mundo â ele disse. â VocĂȘ sabe como isso Ă© difĂcil?
Margie nĂŁo respondeu.
â Posso sentir a dor rastejando por todo o meu corpo. Ă como uma segunda pele. Queria poder me livrar dessa pele como uma cobra.
â Bem, por que vocĂȘ nĂŁo se deita no tapete e tenta?
â Escute â ele perguntou â, onde foi que a conheci?
â Na Bodega do Barney.
â Bem, isso explica um pouco as coisas. Beba uma cerveja.
Carl abriu uma garrafa e lhe entregou.
â Ă... â disse Margie â eu sei. VocĂȘ precisa do seu isolamento. VocĂȘ precisa ficar sozinho. Exceto quando quer trepar, ou exceto quando nos separamos, entĂŁo vocĂȘ me liga. Diz que precisa de mim. Diz que estĂĄ morrendo por causa de uma ressaca. VocĂȘ enfraquece rĂĄpido.
â Enfraqueço rĂĄpido.
â E fica tĂŁo inerte quando estou por perto, nunca se excita. VocĂȘs escritores sĂŁo tĂŁo... preciosos... nĂŁo suportam pessoas. A humanidade fede, certo?
â Certo.
â Mas toda vez que nos separamos vocĂȘ começa a fazer festas gigantes que duram quatro dias. E de repente vocĂȘ acorda, começa a FALAR! De repente fica cheio de vida, falando, dançando, cantando, dança em cima da mesa de cafĂ©, joga garrafas pela janela, encena trechos de Shakespeare. De repente, vocĂȘ estĂĄ vivo... quando estou longe. Ah, fiquei sabendo de tudo!
â NĂŁo faço festas. Odeio ainda mais as pessoas nas festas.
â Para um sujeito que nĂŁo gosta de festas, certamente vocĂȘ organiza um bocado delas.
â Escute, Margie, vocĂȘ nĂŁo entende. NĂŁo consigo mais escrever. Estou acabado. Em algum lugar tomei uma trajetĂłria errada. Em algum momento, morri durante a noite.
â O Ășnico jeito de vocĂȘ morrer Ă© numa dessas suas ressacas gigantescas.
â Jeffers diz que atĂ© mesmo o mais forte dos homens fica encurralado.
â Quem foi Jeffers?
â Foi o sujeito que transformou Big Sur numa armadilha para turistas.
â O que vocĂȘ ia fazer essa noite?
â Ia ouvir as mĂșsicas de Rachmaninoff.
â Quem Ă©?
â Um russo que jĂĄ morreu.
â Olha para vocĂȘ. Fica aĂ sentado.
â Estou esperando. Alguns sujeitos esperam por dois anos. Ăs vezes a coisa nunca volta.
â E se nunca voltar?
â Apenas calçarei meus sapatos e descerei atĂ© a rua principal.
â Por que nĂŁo arranja um emprego decente?
â NĂŁo existem empregos decentes. Se um escritor nĂŁo consegue sucesso atravĂ©s da criação, estĂĄ morto.
â Ah, para com isso, Carl! Existem bilhĂ”es de pessoas no mundo que nĂŁo atingem o sucesso pela criação. Quer me dizer que elas estĂŁo mortas?
â Sim.
â E vocĂȘ tem uma alma? VocĂȘ Ă© um dos poucos que tem uma alma?
â Diria que sim.
â Diria que sim! VocĂȘ e a sua maquininha de escrever! VocĂȘ e os seus cheques mirrados! Minha avĂł ganha mais dinheiro do que vocĂȘ!
Carl abriu outra garrafa de cerveja.
â Cerveja! Cerveja! VocĂȘ e a porra da sua cerveja! Isso estĂĄ nas suas histĂłrias tambĂ©m. âMarty ergueu sua cerveja. Quando levantou os olhos, uma tremenda loira entrou no bar e sentou ao seu lado...â VocĂȘ estĂĄ certo. EstĂĄ acabado. Seu material Ă© limitado, muito limitado. VocĂȘ nĂŁo consegue escrever uma histĂłria decente de amor.
â VocĂȘ estĂĄ certa, Margie.
â Se um homem nĂŁo consegue escrever uma histĂłria de amor, ele Ă© um inĂștil.
â Quantas vocĂȘ jĂĄ escreveu?
â NĂŁo digo que sou uma escritora.
â Mas â disse Carl â vocĂȘ parece posar como uma crĂtica literĂĄria infernal.
Margie, depois disso, foi logo embora. Carl ficou sentado e bebeu o resto das cervejas. Era verdade, a escrita o havia deixado. Isso deixaria algum de seus inimigos do subsolo felizes. Eles poderiam aumentar em um tento a marca dos inimigos abatidos. A morte os agradava, em cima ou embaixo da terra. Lembrou-se de Endicott, Endicott sentado, dizendo:
â Bem, Hemingway se foi, Dos Passos se foi, Patchen se foi, Pound se foi, Berryman pulou daquela ponte... as coisas estĂŁo parecendo cada vez melhores.
O telefone tocou. Carl atendeu.
â Sr. Gantling?
â Sim â ele respondeu.
â GostarĂamos de saber se vocĂȘ estaria interessado em uma leitura de algum dos seus trabalhos na Faculdade Fairmount.
â Bem, sim, qual a data?
â No dia 30 do prĂłximo mĂȘs.
â Acho que nĂŁo tenho nada marcado para esse dia.
â Nosso pagamento geralmente Ă© de cem dĂłlares.
â Geralmente recebo 150. Ginsberg ganha mil.
â Mas ele Ă© Ginsberg. Podemos oferecer apenas cem.
â Tudo bem.
â Bom, sr. Gantling. Enviaremos os detalhes para vocĂȘ.
â E o transporte? Dirigir atĂ© aĂ nĂŁo Ă© pouca coisa.
â Ok, 25 dĂłlares pela viagem.
â Ok.
â Gostaria de falar com os estudantes em suas classes?
â NĂŁo.
â Oferecemos um almoço grĂĄtis.
â Vou aceitar o almoço.
â Bom, sr. Gantling, estaremos esperando para vĂȘ-lo em nosso campus.
â Nos falamos.
Carl foi até o quarto. Olhou para a måquina de escrever. Colocou uma folha de papel no rolo, então observou uma garota com uma minissaia surpreendentemente curta cruzar pela frente de sua janela. Depois começou a escrever:
âMargie ia sair com um sujeito, mas, no caminho, esse sujeito encontrou com outro que vestia um casaco de couro e o sujeito com casaco de couro abriu o casaco de couro e mostrou as tetas e o outro sujeito foi atĂ© a casa de Margie e disse que nĂŁo poderia mais ir ao encontro, porque esse sujeito, vestindo um casaco de couro, havia lhe mostrado as tetas...â
Carl ergueu sua cerveja. Era bom voltar a escrever.
â Ao sul de lugar nenhum
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