Escritas

Sobre o Amor

Ano
2016
Sobre o Amor

Poemas nesta obra

2 Cravos

meu amor me trouxe 2 cravos
meu amor me trouxe vermelho
meu amor me trouxe ela
meu amor me pediu para eu nĂŁo me preocupar
meu amor me pediu para nĂŁo morrer
meu amor sĂŁo 2 cravos sobre uma mesa
ouvindo Schoenberg
num entardecer escurecendo em noite
meu amor Ă© jovem
os cravos ardem no escuro;
ela se foi deixando um gosto de amĂȘndoas
seu corpo tem gosto de amĂȘndoas
2 cravos ardendo vermelhos
enquanto ela fica parada na distĂąncia
agora sonhando com cĂŁes de porcelana
tinindo por entre seus dedos
meu amor sĂŁo dez mil cravos ardendo
meu amor Ă© um beija-flor parado naquele calmo momento
no galho
enquanto o mesmo gato
se agacha.

40 Anos Atrás Naquele Quarto de Hotel

na Union Avenue, 3 da manhĂŁ, Jane e eu estĂĄvamos
bebendo vinho barato desde o meio-dia e eu andava de pés descalços
pelos tapetes, recolhendo cacos de vidro
(Ă  luz do dia vocĂȘ conseguia vĂȘ-los embaixo da pele,
protuberùncias azuis abrindo caminho rumo ao coração) e eu andava usando
meus calçÔes rasgados, colhÔes feiosos balançando pra fora, minha retorcida e
rasgada camisa de baixo pontilhada por buracos de cigarro de diversos
tamanhos. parei diante de Jane, que estava sentada em sua cadeira
bĂȘbada.
entĂŁo gritei para ela:
“SOU UM GÊNIO E NINGUÉM SABE DISSO FORA
EU!”
ela sacudiu a cabeça, riu com escårnio e balbuciou por entre os
lĂĄbios:
“caralho! vocĂȘ Ă© um idiota
de merda!”
eu andei Ă  espreita pelo piso, dessa vez recolhendo um
fragmento de vidro bem maior do que o normal, e estiquei a mĂŁo
e o arranquei: um adoråvel e grande naco em forma de lança, pingando
com o meu sangue, eu o arremessei no espaço, me virei e fuzilei Jane
com os olhos:
“vocĂȘ nĂŁo sabe nada, sua
puta!”
“VÁ SE FODER!”, ela
gritou.
entĂŁo o telefone tocou e eu atendi e
gritei: “SOU UM GÊNIO E NINGUÉM SABE DISSO FORA
EU!”
era o recepcionista: “Sr. Chinaski, eu lhe adverti
diversas vezes, o senhor nĂŁo estĂĄ deixando nossos
hóspedes dormirem...”
“HÓSPEDES?”, eu ri, “VOCÊ QUER DIZER ESSES BEBUNS
DE MERDA?”
entĂŁo Jane apareceu e agarrou o telefone e
gritou: “EU SOU UM MALDITO GÊNIO TAMBÉM E SOU A
ÚNICA PUTA QUE SABE DISSO!”
e ela desligou.
então fui até a porta e
prendi a corrente.
entĂŁo Jane e eu empurramos o sofĂĄ na
frente da porta
desligamos as luzes
e ficamos sentados na cama
esperando por eles,
tĂ­nhamos pleno conhecimento da
localização da cadeia
de bebuns: North Avenue
21 – um endereço que soava tão
pomposo.
nĂłs tĂ­nhamos, cada um, uma cadeira ao
lado da cama,
e cada cadeira continha cinzeiro,
cigarros e
vinho.
eles vieram com muito
ruĂ­do:
“esta Ă© a porta
certa?”
â€œĂ©â€, ele disse,
“413”.
um deles bateu com
a ponta de seu
cassetete:
“DEPARTAMENTO DE POLÍCIA DE L.A.!
ABRAM AÍ!”
nĂłs nĂŁo
abrimos aĂ­.
entĂŁo ambos bateram com
seus cassetetes:
“ABRAM! ABRAM
AÍ!”
agora todos os hĂłspedes estavam
acordados com certeza.
“vamos lá, abram”, um deles
falou com mais calma, “nós só queremos
conversar um pouco, nada mais...”
“nada mais”, disse o outro,
“a gente pode atĂ© tomar uma bebidinha
com vocĂȘs...”
30-40 anos atrĂĄs
North Avenue 21 era um lugar terrĂ­vel,
40 ou 50 homens dormiam no mesmo piso
e havia um banheiro no qual ninguém ousava
excretar.
“sabemos que vocĂȘs sĂŁo gente boa, nĂłs sĂł
queremos conhecer vocĂȘs...”,
um deles disse.
â€œĂ©â€, disse o outro.
entĂŁo os ouvimos
sussurrando.
nĂŁo os ouvimos indo
embora.
nĂŁo tĂ­nhamos certeza quanto Ă 
partida dos dois.
“puta que o pariu”, Jane perguntou,
“vocĂȘ acha que eles
foram embora?”
“shhhh...”,
eu chiei.
ficamos ali sentados no escuro
bebericando nosso
vinho.
nĂŁo havia nada a fazer
exceto observar dois letreiros de neon
através da janela ao
leste
um ficava perto da biblioteca
e dizia
em vermelho:
JESUS SALVA.
o outro letreiro era mais
interessante:
era um enorme pĂĄssaro vermelho
que batia suas asas
sete vezes
e entĂŁo um letreiro se acendia
abaixo
anunciando
SIGNAL GASOLINE.
era uma vida tĂŁo boa
quanto conseguĂ­amos
bancar.

A Costureira

minha primeira esposa fazia seus prĂłprios vestidos,
e eu achava isso legal.
eu a via com frequĂȘncia sentada diante de sua
mĂĄquina de costura
montando um novo vestido.
estĂĄvamos ambos trabalhando e eu achava
Ăłtimo que ela encontrasse tempo
para montar seu
guarda-roupa.
entĂŁo certa noite cheguei em casa e
ela estava chorando.
ela me contou que um cara no trabalho
lhe dissera que ela tinha mau
gosto em seus artigos
de vestuĂĄrio,
falando que ela parecia
“cafona”.
“vocĂȘ acha que eu me visto de um jeito cafona?”,
ela perguntou.
“claro que não.
quem Ă© esse cara?
eu vou arrebentar a cara dele!”
“vocĂȘ nĂŁo pode, ele Ă© homossexual.”
“que droga!”
ela chorou um pouco mais naquela
noite.
tentei reconfortĂĄ-la e ela
por fim parou.
depois disso, porém, passou a comprar
seus vestidos.
eles nĂŁo lhe caĂ­am nem de longe tĂŁo bem
mas ela me contou que o sujeito
havia elogiado sua nova
elegĂąncia.
bem, contanto que ela parasse de
chorar.
então um dia ela me perguntou: “como
vocĂȘ gosta mais de mim, nos vestidos velhos ou
nos novos?”
“vocĂȘ fica bem de qualquer jeito”,
eu respondi.
“nĂŁo, mas o que vocĂȘ prefere?
os vestidos velhos ou os novos?”
“os velhos”, eu lhe falei.
então ela começou a chorar de novo.
ocorreram problemas semelhantes em outros
aspectos do nosso
casamento.
quando ela se divorciou de mim, ainda estava
usando vestidos
comprados em loja.
mas levou consigo
a mĂĄquina de costura
e uma mala cheia com os velhos
vestidos.

A Deusa de Um Metro E Oitenta (Para S.D.)

sou grande
suponho que Ă© por isso que minhas mulheres sempre parecem
pequenas
mas essa deusa de um metro e oitenta
que negocia imĂłveis
e arte
e voa do Texas
para me ver
e eu voo ao Texas
para vĂȘ-la –
bem, hĂĄ nela uma abundĂąncia para
ser agarrada
e eu agarro tudo
dela,
puxo sua cabeça para trås pelos cabelos,
sou macho pra valer,
chupo seu lĂĄbio superior
sua boceta
sua alma
monto nela e lhe digo:
“vou jorrar suco branco quente
dentro de vocĂȘ. nĂŁo voei atĂ©
Galveston pra jogar
xadrez”.
depois deitamos entrelaçados como vinhas humanas
meu braço esquerdo sob seu travesseiro
meu braço direito sobre seu flanco
aperto suas duas mĂŁos,
e meu peito
barriga
bolas
pau
emaranham-se nela
e através de nós no escuro
passam brancos raios berrantes
pra lĂĄ e pra cĂĄ
pra lĂĄ e pra cĂĄ
até que eu despenco
e nĂłs dormimos.
ela Ă© selvagem
mas gentil
minha deusa de um metro e oitenta
me faz rir
a risada do mutilado
que ainda precisa
de amor,
e seus olhos abençoados
brotam nas profundezas de sua cabeça
como nascentes interiores
no Ă­ntimo distante
e
frescas e boas.
ela me salvou
de tudo que
nĂŁo estĂĄ aqui.

COMECEI A SUGAR O AR DE SEUS PULMÕES

A Gente Se Dá Bem

as diversas mulheres com as quais vivi frequentaram
shows de rock, festivais de reggae, celebraçÔes do amor, passeatas
pela paz, filmes, vendas de garagem, feiras, protestos,
casamentos, enterros, leituras de poesia, aulas de espanhol,
spas, festas, bares e assim por diante
e eu vivi com essa
mĂĄquina.
enquanto as mulheres cuidavam de seus compromissos, salvavam as baleias,
as focas, os golfinhos, o tubarĂŁo-branco,
enquanto as mulheres conversavam ao telefone
essa mĂĄquina e eu vivĂ­amos
juntos.
como vivemos juntos hoje: essa mĂĄquina, os 3
gatos, o rĂĄdio e o vinho.
depois da minha morte as mulheres vão dizer (se lhes perguntarem): “ele
gostava de dormir, de beber; ele nunca queria ir a
lugar algum... bem, o hipĂłdromo, aquele lugar
idiota!”
as mulheres que conheci e com as quais vivi socializavam
muito, pulando dentro do carro, acenando, saindo
por aĂ­ como se algum tesouro de grande importĂąncia
estivesse Ă  espera delas...
â€œĂ© uma banda punk nova, eles sĂŁo Ăłtimos!”
“a leitura de Allen Ginsberg!”
“estou atrasada pra minha aula de dança!”
“vou jogar palavras cruzadas com a Rita!”
â€œĂ© uma festa surpresa pro aniversĂĄrio da Fran!”
eu tenho essa mĂĄquina.
essa mĂĄquina e eu vivemos juntos.
Olympia, esse Ă© o nome dela.
uma boa garota.
quase sempre
fiel.

A Sova do Consolo

numa semana eu tive 6 mulheres diferentes
em 6 camas diferentes
(tirei uma quinta-feira de folga
para descansar)
e sĂł falhei
sexualmente
uma noite,
a Ășltima noite da semana:
aconteceu quando eu estava em ação.
ela levou para o lado pessoal.
agora fiquei com uma sĂł mulher
e eu nĂŁo a traio.
quando vocĂȘ constata que pode se foder
facilmente
vocĂȘ constata que nĂŁo precisa sair
por aĂ­
simplesmente fodendo mulheres
e usando seus banheiros e seus
chuveiros e suas toalhas
e suas entranhas,
seus pensamentos, seus
sentimentos.
agora tenho um belo jardim lĂĄ fora.
ela o plantou.
eu o rego diariamente.
vasos de plantas pendem de cordas.
estou em paz.
ela fica aqui 3 dias por semana
entĂŁo volta para sua casa.
o carteiro me pergunta: “ei, o que
aconteceu com todas as suas mulheres? vocĂȘ
costumava ter umas duas delas
sentadas na sua varanda quando eu passava
por aqui...”
“Sam”, eu lhe digo, “eu estava começando
a me sentir como um consolo...”
o cara da entrega de bebidas aparece:
“ei, cara! onde foi parar a mulherada toda?
vocĂȘ estĂĄ sozinho nesta noite...”
“mais bebida pra mim,
Ernie...”
fodi a cidade, bebi a
metrĂłpole, trepei com o paĂ­s,
mijei no universo.
resta pouco a fazer exceto
firmar posição e relaxar.
tenho um belo jardim.
tenho uma mulher adorĂĄvel.
jĂĄ nĂŁo me sinto como um
consolo.
eu me sinto como um homem.
a sensação é bem
melhor, Ă©
mesmo. nĂŁo se preocupem
comigo.

A Travessura da Expiração

eu sou, quando muito, delicado pensamento de delicada mĂŁo
que extingue pela corda de mistura, e quando
por baixo do amor das flores estou calmo,
e a aranha bebe a hora verdejante –
batem sinos cinzentos de bebida,
que uma rĂŁ diga
uma voz morreu,
que as bestas da despensa
e os dias que odiaram isso,
as esposas contrariadas que pranteiam sem piscar,
planícies da pequena rendição
entre Mexicali e Tampa;
galinhas abatidas, cigarros fumados, pĂŁes fatiados,
e nĂŁo tomem isso por tristeza torta:
coloquem a aranha no vinho,
batam nos finos lados do crĂąnio dotados de fraco relĂąmpago,
façam disso menos do que um beijo traiçoeiro,
inscrevam-me na dança
vocĂȘs bem mais mortos,
sou um prato para suas cinzas,
sou um punho para seu ar.
a coisa mais imensa sobre a beleza
Ă© vĂȘ-la desaparecida.

Ah, Eu Era o Terror da Mulherada!

vocĂȘ
se pergunta sobre
quando
vocĂȘ corria por entre as mulheres
como um manĂ­aco
em campo aberto
com sua total
desconsideração por
calcinhas, panos de prato,
fotos
e todos os outros
apetrechos –
como
o emaranhamento das
almas.
o que
vocĂȘ estava
tentando
fazer
estava tentando
ir atrĂĄs
do quĂȘ?
era como uma
caçada.
quantas vocĂȘ
conseguiu
ensacar?
partir
pra cima?
nomes
sapatos
vestidos
lençóis, banheiros,
quartos, cozinhas,
salas
da frente,
cafés,
animais de estimação,
nomes de animais de estimação,
nomes de crianças;
nomes do meio, sobrenomes,
nomes
inventados.
vocĂȘ provou que era
fĂĄcil.
vocĂȘ provou que
podia ser feito
sempre
de novo,
aquelas pernas erguidas
alto
por trĂĄs de quase
vocĂȘ todo.
ou
elas ficavam por cima
ou
vocĂȘ ficava
por trĂĄs
ou
ambos
de lado
além de
outras
invençÔes.
cançÔes em rådios.
carros estacionados.
vozes telefĂŽnicas.
bebidas sendo
servidas.
as conversas
sem sentido.
agora vocĂȘ sabe
vocĂȘ nĂŁo passava de um
maldito
cĂŁo, ou
de uma lesma enrolada
numa lesma –
conchas pegajosas na luz
do sol, ou nas
noites enevoadas,
ou no escuro
escuro.
vocĂȘ era
o idiota da
natureza,
nĂŁo provando mas
sendo
provado.
nĂŁo um homem mas um
plano
se desenrolando,
nĂŁo empurrando mas
sendo
empurrado.
agora
vocĂȘ sabe.
naquele tempo
vocĂȘ se achava
um belo de um
espertalhĂŁo
um belo de um
cafajeste
um belo de um
machĂŁo
um belo de um
transgressor
sorrindo acima de seu
vinho
planejando sua prĂłxima
jogada
que
perda de tempo
vocĂȘ era
seu grande
cavaleiro
seu Átila das
primaveras e
tudo mais
vocĂȘ poderia ter
dormido esse tempo
todo
e ninguém nunca teria
sentido sua
falta
nunca teriam
sentido sua
falta
em
absoluto.

Algo Pra Valer, Uma Boa Mulher

ficam sempre escrevendo sobre os touros, os toureiros,
aqueles que nunca os viram,
e enquanto vou rompendo as teias das aranhas para pegar meu vinho
o aham dos bombardeiros, maldito bam rompendo a calmaria,
e preciso escrever uma carta pro meu padre sobre certa puta da rua 3
que fica me chamando Ă s 3 da manhĂŁ;
velhas escadas acima, bunda cheia de farpas,
pensando em poetas de livro de bolso e no padre,
e domino a mĂĄquina de escrever como uma mĂĄquina de lavar,
e veja veja os touros ainda estĂŁo morrendo
e ainda os cevam e os ceifam
como trigo nos campos,
e o sol estĂĄ preto como tinta, isto Ă© tinta preta,
e a minha esposa fala Brock, pelo amor de Deus,
a mĂĄquina de escrever a noite toda,
como vou conseguir dormir? e eu me enfio na cama e
beijo seu cabelo desculpa desculpa desculpa
Ă s vezes eu fico empolgado nĂŁo sei por quĂȘ
amigo meu disse que ia escrever sobre
Manolete...
quem é esse? ninguém, criança, alguém morto
como Chopin ou nosso velho carteiro ou um cĂŁo,
dorme, dorme,
e eu a beijo e esfrego sua cabeça,
uma boa mulher,
e logo ela pega no sono e eu espero
a manhĂŁ.

Alô, Barbara

25 anos atrĂĄs
em Las Vegas
eu me casei
pela Ășnica vez.
ficamos lĂĄ por
somente uma hora.
dirigi o caminho todo
de ida e o caminho
todo de volta
para L.A.
e mesmo assim
nĂŁo me senti
casado e
continuei
me sentindo assim
por dois anos
e meio até que
ela se divorciou
de mim.
entĂŁo conheci
uma mulher
que tinha formigas
de estimação e
as alimentava
com açĂșcar.
eu a
engravidei.
depois disso
houve
vĂĄrias outras
mulheres.
mas
outro dia
um sujeito
que andou examinando
meu passado
disse: “eu
tenho o
nĂșmero do telefone
da sua
ex-mulher”.
eu o coloquei
na gaveta
da minha cĂŽmoda.
entĂŁo me
embebedei certa
noite
tirei o
nĂșmero da gaveta
e
liguei para ela.
“ei, bebĂȘ,
sou eu!”
“eu sei que Ă©
vocĂȘ”, ela disse
com aquela mesma
voz gélida.
“como cĂȘ
tá?”
“estou bem”,
ela respondeu.
“vocĂȘ ainda tĂĄ
morando naquela
granja?”
“sim”, ela
disse.
“bem, eu estou
bĂȘbado.
sĂł me deu vontade
de lhe fazer
uma breve
ligação.”
“entĂŁo vocĂȘ estĂĄ
bĂȘbado de novo”,
ela disse com
aquela mesma
voz gélida.
“sim. bem,
tĂĄ certo,
vou dar
tchau agora...”
“tchau”, ela
falou e
desligou.
eu fui
me servir um
novo drinque.
depois de 25 anos
ela ainda
me odiava.
eu nĂŁo achava
que eu era tĂŁo
ruim.
claro,
caras como eu
quase nunca
acham.

Amor

jĂĄ vi velhos casais
sentados em cadeiras de balanço
um diante do outro
sendo felicitados e celebrados
por estarem juntos hĂĄ 50 ou 60
anos
que muito
tempo atrĂĄs teriam
aceitado qualquer outra
coisa
mas o destino
o medo e as
circunstĂąncias
os amarraram,
e quando lhes falamos
como sĂŁo maravilhosos
em seu grandioso e duradouro
amor
sĂł eles
realmente sabem
mas nĂŁo podem nos dizer
que desde o momento em que
se conheceram
em diante
nĂŁo significou
tanto assim
como
esperar pela morte
agora.
Ă© mais ou menos o
mesmo.

Amor

Sally me abandonava de um jeito
desleixado. ela era boa com os
bilhetes,
escrevia com uma letra grande
e indignada, ela era
boa nisso.
e ela levava sempre a maioria de suas
roupas,
mas eu abria uma garrafa
me sentava e olhava em volta –
e havia um chinelo rosa
embaixo da cama.
eu terminava o drinque
e me enfiava embaixo da cama
para pegar aquele chinelo rosa e
jogĂĄ-lo no lixo
e ao lado do chinelo rosa
eu encontrava uma calcinha
manchada de cocĂŽ.
e havia grampos de cabelo por todos os cantos:
no cinzeiro, na cĂŽmoda, no
banheiro. e suas revistas apareciam
por todos os cantos com suas capas exĂłticas:
“Homem Estupra Moça, Depois Joga o Corpo de um
Penhasco de 120 Metros.”
“Menino de 9 Anos Estupra 4 Mulheres em Banheiro de
Parada de Ônibus da Greyhound e Coloca Fogo em
Recipientes de Descarte.”
Sally me abandonava de um jeito desleixado.
na gaveta de cima, perto do Kleenex,
eu encontrava todos os bilhetes que eu lhe escrevera,
ordenadamente presos com 3 ou 4 tiras
elĂĄsticas.
e ela era desleixada com
as fotos:
eu encontrava uma com nĂłs dois
agachados no capĂŽ do nosso
Plymouth 58 –
Sally mostrando bastante das pernas
e arreganhando um sorriso como mulher de bandido em Kansas City
saĂ­da dos
anos vinte,
e eu
mostrando as solas dos meus sapatos
com buracos circulares
acenando.
e havia fotos de cachorros,
todos eles nossos,
e fotos de crianças,
a maioria
dela.
a cada uma hora e vinte minutos
o telefone tocava
e era
Sally
e uma canção de jukebox,
certa canção que eu
detestava, e ela ficava falando
e eu escutava vozes
masculinas:
“Sally, Sally, esqueça essa porra de telefone,
volte, venha ficar aqui comigo,
bebĂȘ!”
“veja bem”, ela dizia, “existem outros homens no
mundo alĂ©m de vocĂȘ.”
“essa Ă© sĂł a sua opiniĂŁo”, eu respondia.
“eu poderia ter amado vocĂȘ pra sempre, Bandini”, ela dizia.
“vai se foder”, eu dizia e
desligava.
Bandini Ă© estrume, Ăłbvio,
mas era também o nome que eu me dera
em homenagem a um personagem um tanto sentimental e um tanto infantil
de um romance escrito por certo
italiano nos anos 1930.
eu servia outro drinque
e enquanto procurava uma tesoura no banheiro
para aparar o cabelo em volta das minhas orelhas
encontrava um sutiĂŁ numa das gavetas
e o segurava no alto junto Ă  luz.
o sutiĂŁ tinha bom aspecto pelo lado de fora
mas por dentro – havia uma mancha de
suor e sujeira, e a mancha era escurecida,
moldada ali
como se nenhuma lavagem jamais
pudesse
eliminĂĄ-la.
eu bebia minha bebida
então começava a aparar o cabelo em volta das minhas orelhas
decidindo que eu era um homem bastante bonito.
mas eu ia levantar pesos
iniciar uma dieta
e me bronzear,
de qualquer maneira.
entĂŁo o telefone tocava de novo
e eu levantava o fone
desligava
levantava o fone de novo
e o deixava
pendurado
pelo fio.
eu aparava meus pelos dos ouvidos, meu nariz, minhas
sobrancelhas,
bebia por mais uma ou duas horas,
entĂŁo ia
dormir.
eu era despertado por um som que eu nunca chegara
a escutar antes –
dava uma sensação e soava como um alerta de
ataque atĂŽmico.
eu me levantava e procurava pelo som.
era o telefone
ainda fora do gancho
mas o som que vinha dele
lembrava muito mil vespas
morrendo queimadas. eu
pegava o
fone.
“senhor, aqui Ă© o recepcionista. seu telefone estĂĄ
fora do gancho.”
“certo, sinto muito. vou
desligar.”
“não desligue, senhor. sua esposa está no
elevador.”
“minha esposa?”
“ela afirma ser a sra. Budinski...”
“certo, Ă©
possível...”
“o senhor poderia tirá-la do
elevador? ela nĂŁo entende os
comandos... a linguagem dela Ă© abusiva para conosco
mas ela afirma que o senhor
vai ajudá-la... e, senhor...”
“sim?”
“não quisemos chamar a
polícia...”
“bom...”
“ela está deitada no piso do
elevador, senhor, e, e... ela...
se urinou
toda...”
“o.k.”, eu dizia e
desligava.
eu saía de calção
drinque na mĂŁo
charuto na boca
e apertava o botĂŁo
do elevador.
lĂĄ vinha ele subindo:
um, dois, trĂȘs, quatro...
as portas se abriam
e eis ali
Sally... e pequenos, delicados
gotejamentos e ondulantes filetes lĂ­quidos
derivando pelo piso do
elevador, e algumas poças
maculadas.
eu terminava o drinque
pegava-a e a carregava
para fora do
elevador.
eu a levava até o apartamento
jogava-a na cama
e tirava suas
calcinhas, saia e meias molhadas.
entĂŁo eu colocava um drinque na mesinha
perto dela
me sentava no sofĂĄ
e eu mesmo tomava
mais um.
de repente ela se sentava ereta e
olhava em volta do
quarto.
“Bandini?”, ela perguntava.
“aqui”, eu
acenava com a mĂŁo.
“ah, graças a deus...”
entĂŁo ela via o drinque e
o engolia de uma sĂł
vez. eu me levantava,
servia outro, colocava cigarros, cinzeiro e
fĂłsforos
ao lado.
entĂŁo ela se erguia de novo:
“quem tirou as minhas
calcinhas?”
“eu.”
“eu quem?”
“Bandini...”
“Bandini? vocĂȘ nĂŁo pode
me comer...”
“vocĂȘ se
mijou...”
“quem?”
“vocĂȘ...”
ela se sentava totalmente
ereta:
“Bandini, vocĂȘ dança como uma
bicha, vocĂȘ dança como uma
mulher!”
“vou quebrar o seu maldito
nariz!”
“vocĂȘ quebrou o meu braço, Bandini, nĂŁo me venha
quebrar o meu nariz...”
então ela colocava a cabeça de volta no
travesseiro: “eu te amo, Bandini, amo
mesmo...”
então ela começava a roncar. eu bebia por mais
uma hora ou duas entĂŁo
me deitava na cama com
ela. nĂŁo me dava vontade de tocĂĄ-la
no começo. ela precisava de um banho
ao menos. eu botava uma perna em cima de uma dela;
nĂŁo parecia tĂŁo
ruim. eu testava botar a
outra.
eu começava a me lembrar de todos os dias bons e as
noites boas...
deslizava um braço por baixo de seu pescoço,
entĂŁo passava o outro em volta de sua
barriga e encostava meu pĂȘnis bĂȘbado
suavemente em sua
virilha.
seu cabelo caĂ­a de volta
e subia por dentro das minhas narinas.
eu a sentia inalando pesadamente, depois
expirando. nĂłs dormĂ­amos desse jeito
pela maior parte da noite e até a
tarde seguinte. entĂŁo eu me levantava e
ia até o banheiro e vomitava
e entĂŁo era
a vez dela.

Amor Esmagado Como Mosca Morta

em muitos sentidos
eu tinha topado com uma época de sorte
mas ainda estava vivendo nesta
quadra devastada por bomba da
avenida.
eu batalhara meu caminho atravessando
vĂĄrias camadas de
adversidade:
sendo um homem sem educação
com
sonhos loucos e desvairados –
alguns deles haviam
evoluĂ­do (quer dizer, se
vocĂȘ vai ficar aqui,
vocĂȘ pode muito bem lutar
pelo milagre).
mas
de uma hora pra outra
como acontece nesses assuntos –
a mulher que eu amava
se largou
e começou a
trepar
pelos arredores
com
estranhos
imbecis
e provavelmente alguns tipos razoavelmente
bons
mas
como acontece nesses assuntos –
foi sem
aviso
e acompanhado da
lastimåvel e maçante languidez da
descrença
e
daquele doloroso e descerebrado
engalfinhamento.
e também
na mudança das
marés
eu me saĂ­
com um furĂșnculo imenso
quase
do tamanho de uma maçã, bem, meia
maçã pequena
mas mesmo assim
uma monstruosidade de
horror.
tirei o telefone
da parede
tranquei a porta
fechei as cortinas e
bebi
sĂł pra passar o tempo
dia e noite, fiquei
louco, provavelmente,
mas
num sentido
delicioso e
estranho.
encontrei um disco antigo
botei pra tocar
repetidas vezes –
com certo trecho ribombante da
tonalidade
se encaixando perfeitamente na minha
gaiola
meu lugar
meu
desencanto –
amor morto como uma mosca
esmagada,
eu remexia o passado e
especulava por entre minha
idiotice, constatando que enquanto
ser
eu poderia ter sido
melhor –
nĂŁo com ela
mas com
o balconista da mercearia
o jornaleiro da esquina
o gato de rua
o bartender
e/ou
etc.
continuamos ficando
aquém e
mais aquém
mas
em Ășltima anĂĄlise
nĂŁo somos tĂŁo terrĂ­veis
assim, entĂŁo
arranjamos uma namorada que
sai trepando
pelos arredores
e
um furĂșnculo quase com tamanho de
maçã.
recordando entĂŁo
as chances
recusadas,
algumas de criaturas
adorĂĄveis (naquele
momento)
nĂŁo muitas
mas algumas
trepadas
recusadas
em honra
dela.
ah, redenção e
remorso!
e a garrafa
e o disco
tocando repetidas
vezes –
babaca, babaca, ba-
baca, seja duro como o
mundo,
prepare-se para
a desintegração –
que disco era aquele
enquanto vocĂȘ esbarrava na cerveja e
nas garrafas de uĂ­sque
os calçÔes
as camisas
as memĂłrias
estupeficadas pelo
quarto.
vocĂȘ despertou daquilo
duas semanas depois
para encontrĂĄ-la
na soleira da sua porta
Ă s 9 horas
da manhĂŁ
cabelo cuidadosamente
arrumado,
sorrindo
como se todos os acontecimentos
tivessem sido
apagados.
ela era sĂł
uma vadia
burra
jogadora
tendo experimentado os
outros e
os considerado (de
uma forma ou de
outra)
insuficientes
ela estava
de volta (ela
pensava)
enquanto vocĂȘ lhe servia uma
cerveja e
entornava o scotch
no seu copo
anterior
recordando
precisamente e para sempre
os sons daquele disco
escutado sem
parar:
a dĂĄdiva dela
terminara, novos
fracassos estavam prestes a
começar
enquanto ela cruzava suas longas
pernas
fazia aquele sorriso
sorrir
e perguntava,
alegre, “bem, o que vocĂȘ
andou
fazendo?”

Apenas Uma Noite

a mais recente aparelhagem pendendo sobre meu travesseiro recebe
luz da rua pela janela por entre a névoa do ålcool
eu era o filhote de uma puritana que me surrava quando
o vento agitava folhas de relva que os olhos conseguiam ver
se mexendo e
vocĂȘ era uma
menina do convento observando as freiras espanarem
a areia de Las Cruces dos mantos de Deus.
vocĂȘ Ă©
o ramalhete
de ontem tĂŁo tristemente
invadido. eu beijo seus pobres
seios enquanto minhas mĂŁos tateiam em busca do amor
neste apartamento barato em Hollywood cheirando a
pĂŁo e gĂĄs e tristeza.
avançamos por rotas lembradas
os mesmos degraus velhos de guerra lisinhos com centenas de
passos, 50 amores, 20 anos.
e nos concedem um verĂŁo muito pequeno, e
aĂ­ jĂĄ Ă©
inverno de novo
e vocĂȘ estĂĄ arrastando pelo piso
uma coisa pesada e embaraçosa
e a descarga soa no banheiro, um cĂŁo late
a porta de um carro é batida com força...
algo nos fugiu inescapavelmente, tudo,
ao que parece, e eu acendo um cigarro e
aguardo a mais velha maldição
de todas.

Até Que Foi Bom

ela Ă© agora uma boa e velha garota.
ela ficou gorda e grisalha.
fomos amantes muitos anos
atrĂĄs,
houve uma criança,
hå uma criança,
hoje uma mulher.
essa mulher me deu
uma fita
com sua mĂŁe
falando sobre poesia
e sua vida e
lendo seus
poemas.
uma fita com uma hora de gravação.
ouvi a fita.
infelizmente
a poesia nĂŁo era
muito boa
mas quase toda poesia
nĂŁo Ă©.
ela seguia falando
sobre
oficinas de poesia,
diversas influĂȘncias –
famĂ­lia, amigos, seu
marido (nĂŁo
era eu), que nĂŁo
parecia gostar do fato de
ela escrever poesia.
ela mantinha um caderninho
perto da cama
e outro em sua
bolsa.
falava sobre
isso e aquilo.
fiquei feliz por ela
que tenham lhe dado espaço
numa rĂĄdio
por uma hora.
eu jĂĄ tinha ouvido coisas piores
de professores que
haviam assumido
a literatura
como ofĂ­cio.
e conforme fui escutando
sua voz
era a
mesma voz
que eu escutara
20 anos atrĂĄs
quando apareci
na casa dela
na Vermont Avenue
e a encontrei
alimentando formigas
com açĂșcar
em seu quarto
e havia
vĂĄrias formigas
lĂĄ
mas ela tinha
um corpo fantĂĄstico
na época
e eu estava
duro que nem
o diabo.
foi uma
boa hora,
Fran.

Carson Mccullers

ela morreu de alcoolismo
enrolada no cobertor
de uma espreguiçadeira
num vapor
transoceĂąnico
todos os seus livros de
aterrorizada solidĂŁo
todos os seus livros sobre
a crueldade
do amante sem amor
foram tudo que restou
dela
enquanto o excursionista passeador
encontrava seu corpo
avisava o capitĂŁo
e ela era despachada
para outro setor
do navio
enquanto tudo mais
continuava
como
ela tinha escrito.

Cometi Um Erro

me estiquei até o alto do armårio
e puxei uma calcinha azul
e mostrei a ela e
perguntei â€œĂ© sua?”
e ela olhou e falou:
“não, essa pertence a um cão”.
ela foi embora depois disso e nĂŁo a vi
desde entĂŁo. nĂŁo estĂĄ na casa dela.
continuo indo lĂĄ, deixando bilhetes enfiados
por baixo da porta. volto lĂĄ e os bilhetes
continuam ali. tiro a cruz de Malta
arranco-a do espelho do meu carro, amarro-a
com um cadarço em sua maçaneta, deixo
um livro de poemas.
quando retorno na noite seguinte tudo
continua ali.
sigo rondando as ruas em busca daquele
encouraçado sangue-vinho que ela dirige
com uma bateria fraca, e as portas
pendendo de dobradiças quebradas.
dirijo pelas ruas
a um centĂ­metro de chorar,
envergonhado de meu sentimentalismo e
possĂ­vel amor.
um velho confuso dirigindo na chuva
perguntando-se onde a boa sorte
foi parar.

Confissões

esperando pela morte
como um gato
que vai pular na
cama
lamento muitĂ­ssimo pela
minha esposa
ela vai ver este
corpo
rijo e
branco
vai sacudi-lo uma vez, entĂŁo
talvez
de novo:
“Hank!”
Hank nĂŁo vai
responder
nĂŁo Ă© a minha morte que
me preocupa, Ă© a minha esposa
deixada sozinha com este
monte
de nada.
eu quero que
ela saiba
no entanto
que todas as noites
dormindo
a seu lado
e mesmo as inĂșteis
discussÔes
foram coisas
totalmente esplĂȘndidas
e as palavras
duras
que sempre temi
dizer
podem agora ser
ditas:
eu te
amo.

Corcunda

momentos de danação e momentos de glória
tamborilam ao longo do meu telhado.
o gato passa por mim
parecendo saber tudo.
minha sorte tem sido melhor, creio,
do que a sorte do gladĂ­olo,
se bem que nĂŁo tenho certeza.
fui amado por muitas mulheres,
e, para um corcunda da vida,
isso Ă© uma sorte.
tantos dedos por entre meus cabelos
tantas mĂŁos agarrando as minhas bolas
tantos sapatos tombados de lado pelo tapete do meu
quarto.
tantos olhos observando
endentados num crĂąnio que vai carregar todos esses
olhos rumo Ă  morte,
recordando.
fui tratado melhor do que eu
merecia –
nĂŁo pela vida em geral
ou pela maquinaria das coisas
mas pelas mulheres.
e o outro
(pelas mulheres): eu
parado no quarto sozinho
dobrado
mãos segurando a pança –
pensando
por que por que por que por que por que por quĂȘ?
mulheres caĂ­das por homens como porcos
mulheres caĂ­das por homens com mĂŁos como galhos secos
mulheres caĂ­das por homens que trepam mal
mulheres caĂ­das por coisas de homens
mulheres caĂ­das
caĂ­das
porque elas precisam cair
na ordem das
coisas.
as mulheres sabem
mas com mais frequĂȘncia decidem fugir da
desordem e da confusĂŁo.
elas podem matar o que tocam.
estou morrendo
mas nĂŁo estou morto.

Cortina Baixada

o que eu gosto em vocĂȘ
ela me contou
Ă© que vocĂȘ Ă© cru –
veja sĂł vocĂȘ sentado aĂ­
uma lata de cerveja na sua mĂŁo
e um charuto na sua boca
e veja
sua barriga peluda e suja
saindo pra fora
por baixo da camisa.
vocĂȘ tirou os sapatos
e tem um buraco
na sua meia direita
com o dedĂŁo
saindo pra fora.
vocĂȘ nĂŁo faz a barba hĂĄ
4 ou 5 dias.
seus dentes sĂŁo amarelos
e as suas sobrancelhas
despencam
totalmente retorcidas
e vocĂȘ tem cicatrizes
suficientes
para deixar qualquer um
cagado de medo.
hĂĄ sempre
um anel
na sua banheira
seu telefone
estĂĄ coberto de
gordura
e
metade do lixo na
sua geladeira estĂĄ
podre.
vocĂȘ nunca
lava o seu carro.
vocĂȘ tem jornais
de uma semana atrĂĄs
no chĂŁo.
vocĂȘ lĂȘ revistas
de sacanagem
e vocĂȘ nĂŁo tem
tv
mas vocĂȘ pede
entregas da
loja de bebidas
e dĂĄ boas
gorjetas.
e o melhor de tudo
vocĂȘ nĂŁo força
uma mulher a
ir pra cama
com vocĂȘ.
vocĂȘ mal parece
interessado
e quando falo com vocĂȘ
vocĂȘ nĂŁo
diz nada
vocĂȘ sĂł
olha em volta
pela sala ou
coça o seu
pescoço
como se nĂŁo
me ouvisse.
vocĂȘ tem uma toalha
velha e molhada
na pia
e uma foto
de Mussolini
na parede
e vocĂȘ nunca
reclama
de nada
e vocĂȘ nunca
faz perguntas
e eu
conheço vocĂȘ hĂĄ
6 meses
mas não faço
a menor ideia
de quem vocĂȘ Ă©.
vocĂȘ Ă© como
uma espécie de
cortina baixada
mas Ă© disso
que eu gosto
em vocĂȘ:
sua crueza:
uma mulher pode
cair
fora da sua
vida e
esquecer vocĂȘ
bem depressa.
uma mulher
nĂŁo pode ir a lugar algum
a nĂŁo ser UM LUGAR MELHOR
depois de deixar vocĂȘ,
querido.
vocĂȘ sĂł pode
ser
a melhor coisa
que jamais
aconteceu
a
uma garota
que estĂĄ entre
um cara
e o seguinte
e nĂŁo tem nada
pra fazer
no momento.
a porra deste
scotch Ă©
uma maravilha.
vamos jogar
palavras cruzadas.

Escala

Fazendo amor sob o sol, sob o sol matinal
num quarto de hotel
acima do beco
onde homens pobres catam garrafas;
fazendo amor sob o sol
fazendo amor junto a um tapete mais vermelho que nosso sangue,
fazendo amor enquanto meninos vendem manchetes
e Cadillacs,
fazendo amor junto a uma foto de Paris
e um maço aberto de Chesterfields,
fazendo amor enquanto outros homens – pobres
coitados –
trabalham.
Daquele momento – a este...
podem ser anos do jeito como sĂŁo medidos,
mas Ă© sĂł uma frase atrĂĄs na minha mente –
sĂŁo inĂșmeros os dias
nos quais a vida para e estaciona e fica
e espera como um trem nos trilhos.
Eu passo pelo hotel Ă s 8
e Ă s 5; vejo gatos nos becos
e garrafas e vagabundos,
e olho a janela no alto e penso:
nĂŁo sei mais onde vocĂȘ estĂĄ,
e sigo caminhando e me pergunto para onde
a vida vai
quando para.

Eu Provo As Cinzas da Sua Morte

as floraçÔes agitam
ĂĄgua sĂșbita
por minha manga,
ĂĄgua sĂșbita
fresca e limpa
como neve –
enquanto as espadas
de caules afiados
avançam
contra seu peito
e as doces selvagens
rochas
saltam por cima
e
nos prendem.

Eulogia

com carros velhos, sobretudo quando vocĂȘ os compra
usados e os dirige por muitos anos,
um caso de amor tem inĂ­cio:
vocĂȘ memorizou cada cabo no motor
painel e tudo mais,
vocĂȘ tem a mĂĄxima intimidade com o
carburador
as velas
o braço de aceleração
outras peças
diversas.
vocĂȘ aprendeu todos os truques para
manter o negĂłcio em funcionamento,
vocĂȘ sabe atĂ© mesmo como bater o porta-luvas de modo que
ele permaneça fechado,
como estapear os farĂłis com a palma da mĂŁo aberta
a fim de obter
luz,
e vocĂȘ sabe quantas vezes deve pisar no acelerador
e quanto tempo deve esperar
para dar partida no motor,
e vocĂȘ conhece cada buraco no
estofamento
e o formato de cada mola
despontando pra fora;
o carro jĂĄ foi apreendido e liberado
pela polĂ­cia,
foi multado por vĂĄrias
avarias:
limpadores quebrados na chuva,
nada de pisca-pisca Ă  noite, nada
de luzes de freio, luzes traseiras quebradas, freios
ruins, escapamento
excessivo e assim por diante...
mas apesar de tudo isso
vocĂȘ o conhecia tĂŁo bem
que nunca houve um acidente, o
velho carro transportava vocĂȘ de um lugar para
outro,
quase fielmente
– milagre de homem pobre.
e quando chega aquele Ășltimo colapso,
quando as vĂĄlvulas entregam os pontos,
quando os cansados braços do pistão se esgotam e
quebram, ou o eixo de manivela cai fora e
vocĂȘ precisa vender o carro como
sucata
– vĂȘ-lo sendo guinchado
embora
pendurado ali
despachado
como se ele nĂŁo tivesse
alma ou
significado,
os pneus traseiros carecas
e o para-brisa traseiro
a placa retorcida
sĂŁo as Ășltimas coisas que vocĂȘ
vĂȘ, e isso
machuca
como se algum humano que vocĂȘ amou
muito
e com quem viveu
dia apĂłs dia
tivesse morrido
e vocĂȘ fosse a Ășnica
pessoa
a ter conhecido
a mĂșsica
a mĂĄgica
a inacreditĂĄvel
galantaria.

Eulogia Para Uma Dama E Tanto

certos cĂŁes que dormem Ă  noite
devem sonhar com ossos
e eu me lembro dos seus ossos
na carne
e melhor
naquele vestido verde-escuro
e naqueles brilhantes sapatos pretos
de salto alto,
vocĂȘ sempre praguejava quando
bebia,
seu cabelo desabando, vocĂȘ
queria explodir para fugir
daquilo que a detinha:
memĂłrias podres de um
passado
podre, e
vocĂȘ afinal
escapou
morrendo,
deixando-me com o
presente
podre;
vocĂȘ estĂĄ morta
faz 28 anos
mas ainda me lembro de vocĂȘ
melhor do que de qualquer uma
delas;
vocĂȘ foi a Ășnica
que compreendeu
a futilidade do
arranjo da
vida;
todas as outras ficavam
desgostosas com
segmentos triviais,
queixavam-se
absurdamente sobre
absurdos;
Jane, vocĂȘ foi
morta por
saber demais.
eis um brinde
para seus ossos
com os quais
este cĂŁo
ainda
sonha.

Fax

ganha do amor porque
nĂŁo hĂĄ quaisquer feridas
baqueando na carne. pela
manhĂŁ ela liga o
rĂĄdio com Brahms ou Ives
ou Stravinsky ou Mozart.
ela ferve os ovos con-
tando em voz alta os segundos:
56, 57, 58. descasca
os ovos, os traz para
mim na cama. depois do café
da manhĂŁ Ă© o sofĂĄ, nĂłs
colocamos os pés sobre a mesma
cadeira e ouvimos a
mĂșsica clĂĄssica. ela
estĂĄ em seu primeiro copo de
scotch e em seu terceiro
cigarro. digo-lhe que
preciso ir ao hipĂł-
dromo. ela estĂĄ por aqui
faz 2 noites e 2 dias.
“quando vou ver vocĂȘ
de novo?”, pergunto. ela sugere
que isso dependeria de mim.
assinto com a cabeça e Mozart toca.

Garotas Quietas E Limpas Em Vestidos de Algodão

tudo que eu sempre conheci foram putas, ex-prostitutas,
loucas. vejo homens com mulheres quietas,
gentis – vejo-os nos supermercados,
vejo-os caminhando juntos pelas ruas,
vejo-os em seus apartamentos: pessoas em
paz, vivendo juntas. sei que sua
paz Ă© apenas parcial, mas existe
paz, frequentes horas e dias de paz.
tudo que eu sempre conheci foram comedoras de comprimidos, alcoĂłlatras,
putas, ex-prostitutas, loucas.
quando uma vai embora
chega outra
pior do que sua antecessora.
vejo tantos homens com garotas quietas e limpas em
vestidos de algodĂŁo
garotas com rostos que nĂŁo sĂŁo rapaces ou
predatĂłrios.
“nunca traga uma puta com vocĂȘ,” eu digo para meus
poucos amigos, “eu vou me apaixonar por ela.”
“vocĂȘ nĂŁo aguenta uma boa mulher, Bukowski.”
preciso de uma boa mulher. preciso de uma boa mulher
mais do que preciso desta mĂĄquina de escrever, mais do que
preciso do meu automĂłvel, mais do que preciso
de Mozart; preciso tanto de uma boa mulher que
posso sentir seu gosto no ar, posso senti-la
na ponta dos meus dedos, posso ver calçadas construídas
para seus pés caminharem,
posso ver travesseiros para sua cabeça,
posso sentir minha expectante risada de tranquilo jĂșbilo,
posso vĂȘ-la acariciando um gato,
posso vĂȘ-la dormindo,
posso ver seus chinelos no chĂŁo.
eu sei que ela existe
mas onde estĂĄ ela neste planeta
enquanto as putas continuam me encontrando?

ACORDO BEM A TEMPO

Inflamados de Amor (Para N.W.)

pequena garota morena de
bondade
quando chegar a hora de
enfiar a faca
nĂŁo vou culpar
vocĂȘ.
e quando eu passar de carro pela praia
e as palmeiras acenarem,
as palmeiras feias e pesadas
e os vivos nĂŁo chegarem
e os mortos nĂŁo partirem,
nĂŁo vou culpar vocĂȘ.
vou lembrar as horas de beijos
nossos lĂĄbios inflamados de amor
e como vocĂȘ me ofereceu
sua boceta sua alma suas entranhas
e como eu respondi
oferecendo-lhe o pouco que restava de
mim,
e vou lembrar os contornos do seu quarto
os contornos do seu corpo
seus discos
suas paredes
suas xícaras de café
suas manhĂŁs e seus meios-dias e suas noites
e sua privada e sua
banheira.
nossos corpos derramados juntos
dormindo
aquelas minĂșsculas correntes fluindo
imediatas e eternas
cruzando
entrecruzando
sem parar.
sua perna minha perna
seu braço meu braço
sua tristeza e perda e calor
também meus,
memorizei vocĂȘ
cada formato seu
a sensação dos pelos da sua boceta nos meus dentes
em repuxo suave, e
vocĂȘ
que me fez rir nos
momentos apropriados
sempre.
pequena garota morena de bondade
vocĂȘ nĂŁo tem nenhuma
faca. Ă©
minha e nĂŁo quero usĂĄ-la
ainda.

ENTÃO VEIO O AMOR

Jane E Droll

estĂĄvamos num barraco apertado na
regiĂŁo central de L.A.
havia uma mulher na cama
comigo
e havia um enorme
cĂŁo
ao pé da cama
e enquanto os dois dormiam
fiquei escutando suas
respiraçÔes
e pensei: eles dependem
de mim.
absurdamente curioso.
esse pensamento continuou comigo
pela manhĂŁ
depois do nosso café
dando a ré com o carro
na saĂ­da da garagem
a mulher e o cĂŁo
no degrau da frente
sentados e me
observando
enquanto eu ria e acenava
e ela sorria e
acenava
e o cĂŁo olhava
enquanto eu recuava até a
rua e desaparecia
cidade adentro.
agora nesta noite
ainda penso neles
sentados naquele
degrau da frente
Ă© como um filme
antigo – de 35 anos
atrĂĄs – que ninguĂ©m jamais
viu ou entendeu
exceto eu
e muito embora os
crĂ­ticos possam rotulĂĄ-lo de
ordinĂĄrio
eu gosto dele
bastante.

Lua Azul, Ó Luuuuuaaazuuuullll, Te Adoro Tanto!

gosto de vocĂȘ, querida, eu te amo,
a Ășnica razĂŁo por que trepei com L. Ă© porque vocĂȘ trepou
com Z. e aĂ­ eu trepei com R. e vocĂȘ trepou com N.
e porque vocĂȘ trepou com N. eu precisei trepar
com Y. Mas penso em vocĂȘ constantemente, sinto vocĂȘ
aqui na minha barriga como um bebĂȘ, amor Ă© como eu chamaria isso,
não importa o que aconteça eu chamaria isso de amor, e então
vocĂȘ trepou com C. e entĂŁo antes que eu pudesse me mexer de novo
vocĂȘ trepou com W., entĂŁo aĂ­ eu tive que trepar com D. Mas
quero que vocĂȘ saiba que eu te amo, penso em vocĂȘ
constantemente, acho que nunca amei alguém
como amo vocĂȘ.
uau au uau au au
uau au uau au au

Metendo Até As Bolas

metendo até as bolas
metendo como o burro
metendo como o boi
metendo metendo metendo
metendo como os pombos
metendo como os porcos
como alguém se torna uma flor
polinizada pelos ventos e pelas abelhas?
metendo até as bolas à meia-noite
metendo Ă s quatro da manhĂŁ
metendo na terça-feira
metendo na quarta-feira
metendo como um maldito touro
metendo como um submarino
metendo como uma bala puxa-puxa
metendo como a cavidade sem sentido da perdição
metendo metendo metendo,
eu mergulho meu chicote branco
sentindo os olhos dela se revirarem em glĂłria,
Ăł bolas, Ăł trombeta e bolas
Ăł chicote branco e bolas, Ăł
bolas,
eu poderia ficar metendo até as bolas pra sempre
por cima
por baixo
de lado
bĂȘbado sĂłbrio triste feliz irritado
metendo até as bolas,
uma intensidade de mistura:
2 almas grudadas
jorrando...
meter torna tudo melhor.
os que nĂŁo metem nĂŁo sabem.
os que nĂŁo podem meter sĂŁo semimortos.
os que não conseguem encontrar alguém para meter estão no inferno.
eu durmo com as minhas bolas na mão para que ninguém as roube.
que o ar todo esteja limpo com flores e ĂĄrvores e touros.
que parte da justiça de como vivemos nossas vidas seja a canção do corpo.
que cada uma de nossas mortes e semimortes seja tĂŁo tranquila quanto
possĂ­vel agora.
enquanto isso, Ăł bolas, Ăł bolas, Ăł belas, Ăł belas bolas, bolas
belas, Ăł bolas metidas bolas Ăł metidas bolas minhas e
suas e deles e nossas para todo o sempre
esta noite e terça-feira quarta-feira da sepultura em lågrimas, eu amo
vocĂȘs
mulheres, eu amo vocĂȘs.

Meu Verdadeiro Amor Em Atenas

e eu me lembro da faca,
do modo como vocĂȘ toca uma rosa
e sai com sangue
e como vocĂȘ toca o amor do mesmo modo,
e como quando vocĂȘ quer entrar na autoestrada
os caminhĂ”es encurralam vocĂȘ na pista interna
luar e rugindo
atropelando sua bravura,
fazendo vocĂȘ pisar no freio
e pequenas imagens surgem na sua cabeça:
imagens de Cristo pendurado lĂĄ
ou Hiroshima
ou sua Ășltima esposa
fritando um ovo.
o modo como vocĂȘ toca uma rosa
Ă© o modo como vocĂȘ se encosta nas laterais dos caixĂ”es
dos mortos,
o modo como vocĂȘ toca uma rosa
e vĂȘ os mortos rodopiando de volta
por baixo das suas unhas;
a faca
Gettysburg, as Ardenas, Flandres,
Átila, Muss –
de que me serve a histĂłria
quando tudo se reduz
Ă  sombra das trĂȘs da tarde
embaixo de uma folha?
e se a mente fica atormentada
e a rosa morde
como um cĂŁo,
dizem
que temos amor...
mas de que me serve o amor
quando todos nascemos
em diferentes momentos e lugares
e sĂł nos encontramos
através de um truque dos séculos
e trĂȘs passos casuais
Ă  esquerda?
vocĂȘ quer dizer que
um amor que nĂŁo encontrei
Ă© menos do que um egoĂ­smo
que chamo de prĂłximo?
posso dizer agora
com sangue de rosa no fundo da minha mente,
posso dizer agora enquanto rodopiam os planetas
e toneladas de força são disparadas dentro do fim do espaço
para fazer Colombo parecer uma criança idiota
posso dizer agora
que porque gritei dentro de uma noite
e nĂŁo me ouviram,
posso dizer agora
que me lembro da faca
e fico sentado num quarto fresco
e esfrego meus dedos ao apito do relĂłgio
e calmamente penso em
Ajax e escarro
e galinhas ferroviĂĄrias atravessando os trilhos dourados,
e meu verdadeiro amor estĂĄ em Atenas
600
A ou D,
enquanto fora da minha janela
pombos tropeçam enquanto voam
e por uma porta
de longa espera para um quarto vazio
rosas nĂŁo conseguem
entrar ou sair,
ou amor ou mariposas ou relñmpago –
eu nĂŁo irromperia nem em suspiro
nem em sorriso; poderiam nadas
como mariposas ou homens
existir como luz solar laranja sobre papel
dividido por nove?
Atenas fica agora a muitas milhas
e uma morte de distĂąncia,
e as mesas estĂŁo sujas pra cacete
e os lençóis e os pratos,
mas estou rindo; isso nĂŁo Ă© real;
mas Ă©, dividido por nove
ou cem;
roupa limpa Ă© amor
que não se coça
e suspira.

Minha

Ela jaz ali embolada.
Posso sentir a grande montanha vazia
de sua cabeça
mas ela estĂĄ viva. Boceja e
coça o nariz e
puxa para si as cobertas.
Logo lhe darei o beijo de boa-noite
e nĂłs vamos dormir.
E longĂ­nqua Ă© a EscĂłcia
e embaixo da terra
correm os roedores.
Ouço motores na noite
e pelo céu rodopia uma
branca mĂŁo:
boa noite, querida, boa noite.

Minhas Paredes do Amor

em noites como esta, recupero o que
posso.
a vida Ă© dura, a escrita Ă© livre.
se as mulheres pudessem ser tĂŁo fĂĄceis
mas elas eram sempre quase a mesma coisa:
gostavam da minha escrita em formato de livro
finalizado
mas havia sempre algo em relação ao efetivo
ato de datilografar
de trabalhar em direção ao novo
que as incomodava...
eu nĂŁo estava competindo com elas
mas elas se mostravam competitivas comigo
em formas e estilos que eu nĂŁo considerava
nem originais nem criativos
se bem que para mim
eram sem dĂșvida
assombrosos o bastante.
agora estĂŁo libertadas
consigo mesmas e com os outros
e tĂȘm novos problemas
de outra maneira.
todas aquelas gracinhas:
fico contente por estar com elas em espĂ­rito
e nĂŁo em carne
pois agora posso martelar a porra desta mĂĄquina
sem preocupação.

Morde Morde

ah, as mulheres sabem ser mordazes
enfiando as mĂŁos na pia
puxando lençóis
esburacando a terra com suas espĂĄtulas
perto do canteiro de rabanetes
sentadas no carro com vocĂȘ
enquanto vocĂȘ vai dirigindo.
ah, as mulheres sabem ser mordazes
discutindo
Deus e os filmes
mĂșsica e obras de arte
ou o que fazer quanto à infecção
do gato.
a mordacidade se espalha por
todas as åreas da conversação
o tom de voz permanece no
alto trinado.
o que aconteceu com as noites
junto ao fogo
quando elas eram só doçura
de tornozelo e joelho
puras de olho
cabelos compridos penteados?
claro, nĂłs sabĂ­amos que aquilo nĂŁo era
real
mas a mordacidade Ă©.
o amor também é
mas estĂĄ emperrado em algum lugar
entre a macieira silvestre
e o esgoto.
o juiz estĂĄ adormecido em seu
gabinete e
ninguém é culpado.

Mulher Adormecida

fico sentado na cama Ă  noite e ouço vocĂȘ
roncar
conheci vocĂȘ numa estação rodoviĂĄria
e agora fico viajando nas suas costas
de um branco doentio e manchadas por
sardas de criança
enquanto a lĂąmpada desnuda a insolĂșvel
tristeza do mundo
sobre o seu corpo.
não consigo ver seus pés
mas sĂł posso deduzir que sejam
os mais encantadores pés.
a quem vocĂȘ pertence?
vocĂȘ Ă© real?
eu penso em flores, animais, pĂĄssaros
todos eles parecem mais do que bons
e tĂŁo claramente
reais.
mas vocĂȘ nĂŁo consegue evitar ser uma
mulher. cada um de nĂłs Ă© selecionado para ser
algo. a aranha, o cozinheiro.
o elefante. Ă© como se fĂŽssemos cada um
uma pintura pendurada em alguma
parede de galeria.
– e agora a pintura se vira
de costas, e por cima de um cotovelo curvado
consigo ver œ boca, um olho e
quase um nariz.
o resto de vocĂȘ estĂĄ escondido
fora de vista
mas sei que vocĂȘ Ă© uma
obra
contemporĂąnea, moderna e viva
talvez nĂŁo imortal
mas nĂłs jĂĄ
amamos.
por favor continue a
roncar.

Nenhuma Sorte Nisso

hå um lugar no coração que
nunca serĂĄ preenchido
um espaço
e mesmo durante os
melhores momentos
e
as maiores
épocas
nĂłs saberemos disso
nĂłs saberemos disso
mais do que
nunca
hå um lugar no coração que
nunca serĂĄ preenchido
e
nĂłs vamos esperar
e
esperar
nesse
espaço.

Nesta Noite

“seus poemas sobre as garotas ainda estarão por aí
daqui a 50 anos quando as garotas já tiverem desaparecido”,
meu editor me telefona.
caro editor:
parece que as garotas jĂĄ
se foram.
entendo o que vocĂȘ quer dizer
mas me dĂȘ uma mulher verdadeiramente viva
nesta noite
atravessando o assoalho na minha direção
e vocĂȘ pode ficar com todos os poemas
os bons
os maus
ou qualquer outro que eu porventura escreva
depois deste.
entendo o que vocĂȘ quer dizer.
vocĂȘ entende o que eu quero dizer?

Notificação

os cisnes se afogam em ĂĄgua imunda,
retirem os avisos,
testem os venenos,
isolem a vaca
do touro,
a peĂŽnia do sol,
tirem os beijos de alfazema da minha noite,
coloquem as sinfonias nas ruas
como mendigos,
deixem as unhas de prontidĂŁo,
açoitem as costas dos santos,
atordoem sapos e ratos para o gato da alma,
queimem as pinturas arrebatadoras,
mijem no amanhecer,
meu amor
estĂĄ morto.

O Amor É Uma Folha de Papel Rasgada Em Pedaços

toda a cerveja estava envenenada e o cap. soçobrou
e o imediato e o cozinheiro
e não tínhamos ninguém pra manejar as velas
e o noroeste dilacerou os panos como unhas
e nĂłs arfĂĄvamos que era uma loucura
o casco se rasgando nas laterais
e o tempo todo no canto
um merda qualquer comia uma cadela bĂȘbada (minha esposa)
e socava tranquilo
como se nada estivesse acontecendo
e o gato nĂŁo parava de olhar para mim
e de rastejar na despensa
em meio aos pratos estrepitosos
com flores e videiras pintadas neles
até que não aguentei mais
e peguei a coisa
e a lancei
pela
borda.

O Amor É Uma Forma de Egoísmo

vadiagem, a trompa de eustĂĄquio e a hera verde insetomorta
e o modo como andamos esta noite
com o céu subindo em nossos ouvidos e nos nossos bolsos
enquanto falĂĄvamos de coisas que nĂŁo importavam
e o bonde balançava e uivava sua cor
que não notamos exceto como algo ao lado da véspera
enquanto mencionåvamos o sexo através de paralisias,
vadiagem, o fogo vermelho, vadiagem a trompa de eustĂĄquio!
jĂĄ se foram os dias, jĂĄ se foi a hera verde insetomorta
e as palavras ditas esta noite que nĂŁo importavam;
X 12, Escarlate e Ouro
OURO OURO OURO OURO OURO!
teus olhos sĂŁo ouro
teu cabelo Ă© ouro
teu amor Ă© ouro
teu tĂșmulo Ă© ouro
e as ruas passam como pessoas caminhando
e os sinos tocam como sinos tocando;
tuas mĂŁos sĂŁo ouro e tua voz Ă© ouro
e todas as crianças caminhando
e as ĂĄrvores crescendo e os idiotas vendendo jornais
34256780000 ah enquanto vocĂȘ estĂĄ
trompa de eustĂĄquio
fogo vermelho
verdeinsetomorta
hera
escarlate e ouro
e as palavras que dissemos esta noite
estĂŁo indo embora
por cima das ĂĄrvores
junto com o bonde
e eu fechei o livro
com o vermelho vermelho leĂŁo
junto aos portÔes de ouro.

O Banho

nĂłs gostamos de tomar banho depois
(gosto da ĂĄgua mais quente do que ela)
e o rosto dela Ă© sempre macio e calmo
e ela me lava primeiro
espalha espuma pelo meu saco
levanta o saco
aperta os colhÔes,
entĂŁo lava o pau:
“ei, essa coisa ainda está dura!”
então pega os pelos todos ali embaixo –
a barriga, as costas, o pescoço, as pernas,
eu abro sorriso sorriso sorriso,
e entĂŁo a lavo...
primeiro a xota, eu
fico atrĂĄs dela, meu pau em suas nĂĄdegas
vou ensaboando suavemente os pelos da xota,
lavo ali com um movimento relaxante,
me demoro talvez mais do que o necessĂĄrio,
entĂŁo pego a parte de trĂĄs das pernas, a bunda,
as costas, o pescoço, eu a viro, eu a beijo,
ensaboo os peitos, pego eles e a barriga, o pescoço,
a frente das pernas, os tornozelos, os pés,
e entĂŁo a xota, mais uma vez, pra dar sorte...
outro beijo, e ela sai primeiro,
atoalhada, às vezes cantando enquanto eu permaneço
ligando a ĂĄgua no mais quente
sentindo os bons momentos do milagre do amor
e entĂŁo saio...
geralmente Ă© a calmaria do meio da tarde,
e nos vestindo nĂłs conversamos sobre o que mais
pode haver para fazer,
mas estarmos juntos resolve a maior parte,
na verdade, resolve tudo
pois enquanto essas coisas permanecerem resolvidas
na histĂłria da mulher e do
homem, Ă© diferente para cada um
melhor e pior para cada um –
para mim, jĂĄ Ă© bastante esplĂȘndido recordar
a passagem dos exércitos em marcha
e os cavalos que percorrem as ruas lĂĄ fora
a passagem das memĂłrias de dor e derrota e infelicidade:
Linda, vocĂȘ o trouxe para mim,
quando levĂĄ-lo embora
faça-o devagar e sem esforço
faça-o como se eu estivesse morrendo no meu sono em vez de na
minha vida, amém.

O Dia Em Que Joguei Pela Janela Uma Grana Preta

e, eu disse, vocĂȘ pode pegar seus ricos tios e tias
e avĂłs e pais
e todo aquele petrĂłleo escroto deles
e seus sete lagos
e seus selvagens perus
e bĂșfalos
e o estado inteiro do Texas,
quer dizer, seus fuzilamentos de corvos
e seus calçadÔes de såbado à noite,
e sua biblioteca de meia-tigela
e seus vereadores corruptos
e seus artistas veadinhos –
vocĂȘ pode pegar tudo isso
e o seu jornal semanal
e os seus famosos tornados
e as suas enchentes imundas
e todos os seus gatos uivantes
e a sua assinatura da Time,
e enfiar lĂĄ, bebĂȘ,
enfiar lĂĄ.
posso empunhar de novo a picareta e o machado (acho)
e posso descolar
25 pratas por uma luta de 4 assaltos (talvez);
claro, estou com 38
mas um pouco de tintura pode tirar o grisalho
do meu cabelo;
e ainda consigo escrever poemas (Ă s vezes),
não se esqueça disso, e mesmo que
nĂŁo rendam nada,
Ă© melhor do que esperar por mortes e petrĂłleo,
e atirar em perus selvagens,
e esperar que o mundo
comece.
tĂĄ bom, vagabundo, ela disse,
cai fora.
o quĂȘ?, eu disse
cai fora. vocĂȘ teve o seu Ășltimo
acesso de fĂșria.
cansei dos seus malditos acessos de fĂșria:
vocĂȘ estĂĄ sempre agindo como um
personagem
de uma peça de O’Neill.
mas eu sou diferente, bebĂȘ,
nĂŁo consigo
evitar.
vocĂȘ Ă© diferente, tĂĄ bom!
meu Deus, quanta diferença!
nĂŁo bata
a porta
quando sair.
mas, bebĂȘ, eu amo o seu
dinheiro!
vocĂȘ nunca me disse
que me ama!
o que vocĂȘ quer
um mentiroso ou um
amante?
vocĂȘ nĂŁo Ă© nenhum dos dois! fora, vagabundo,
fora!
...mas bebĂȘ!
volte pro O’Neill!
fui até a porta,
fechei-a sem barulho e fui embora,
pensando: tudo que elas querem
Ă© um Ă­ndio de madeira
que diga sim e nĂŁo
e fique parado acima do fogo e
nĂŁo infernize demais;
mas vocĂȘ jĂĄ estĂĄ ficando
velho, garoto;
da prĂłxima vez nĂŁo abra
tanto
o jogo.

O Fim de Um Breve Caso

tentei fazer de pé
dessa vez.
geralmente nĂŁo
funciona
dessa vez parecia
estar...
ela ficava dizendo
“ah, meu Deus, vocĂȘ tem
pernas lindas!”
tudo ia bem
até que ela tirou os pés do
chĂŁo e
enroscou as pernas
em volta da minha cintura.
“ah, meu Deus, vocĂȘ tem
pernas lindas!”
ela pesava uns 63
quilos e ficou ali pendurada enquanto eu
trabalhava.
foi quando cheguei ao clĂ­max
que senti a dor
subir voando por minha
espinha.
larguei-a no
sofĂĄ e andei ao redor
da sala.
a dor continuava.
“olha só”, eu lhe falei,
â€œĂ© melhor vocĂȘ ir. preciso
revelar um filme
na minha cñmara escura.”
ela se vestiu e foi embora
e eu fui até a
cozinha para tomar um copo
d’água. peguei um copo cheio
com a mĂŁo esquerda.
a dor subiu por trĂĄs das minhas
orelhas e
deixei cair o copo
que se quebrou no chĂŁo.
entrei numa banheira cheia de
ĂĄgua quente e sais de Epsom.
mal tinha acabado de me esticar
quando o telefone tocou.
tentei endireitar
minhas costas
a dor se estendeu por meu
pescoço e braços.
fiquei baqueando,
agarrei as bordas da banheira,
saĂ­
com jatos luminosos verdes e amarelos
e vermelhos
turbilhonando na minha cabeça.
o telefone continuava tocando.
atendi.
“alî?”
“EU TE AMO!”, ela disse.
“obrigado”, eu disse.
“isso Ă© tudo que vocĂȘ tem
pra dizer?”
“sim.”
“vá à merda!”, ela falou e
desligou.
o amor se esgota, pensei
enquanto voltava para o
banheiro, quase tĂŁo rĂĄpido quanto
esperma.

"NÃO ESTÁ FUNCIONANDO, ESTÁ?"

O Homem Forte

eu fui vĂȘ-lo, lĂĄ naquele lugar em
Echo Park
depois do meu expediente
nos correios.
ele era um enorme sujeito barbudo
e estava sentado em sua cadeira como um
Buda
e ele era o meu Buda, meu guru
meu herĂłi, meu rugido de
luz.
Ă s vezes ele nĂŁo era gentil
mas ele era sempre bem mais do que
interessante.
sair daqueles escravos
dos correios
e entrar naquela explosĂŁo de luz
me confundia,
mas era uma confusĂŁo
extraordinĂĄria e
deliciosa.
milhares de livros sobre
centenas de assuntos
apodreciam em seu
porĂŁo.
jogar xadrez com ele era
levar uma surra risĂ­vel no
tabuleiro.
desafiĂĄ-lo
fĂ­sica ou
mentalmente era
inĂștil.
mas ele tinha a habilidade de
escutar nossa
caçoada
com paciĂȘncia
e também a habilidade
de resumir as
fraquezas,
as ilusÔes daquilo
numa Ășnica frase.
eu muitas vezes me perguntava como Ă© que
ele aguentava as minhas
queixas; ele era gentil,
afinal de contas.
as noites duravam 7,
8 horas.
eu tinha minhas libaçÔes.
ele tinha a si mesmo
e uma linda mulher
que sorria em silĂȘncio enquanto
nos
escutava.
ela trabalhava numa prancheta
de desenho,
projetando coisas.
nunca perguntei o que era e
ela nunca
disse.
as paredes e os tetos
eram cobertos com
centenas de dizeres esquisitos
colados –
como as Ășltimas palavras de
um homem numa cadeira
elétrica,
ou gĂąngsteres em seus
leitos de morte,
ou as instruçÔes de uma velha mulher de bandido
para suas crianças;
fotos de Hitler, Al Capone,
Chefe Touro Sentado,
Lucky Luciano.
era uma interminĂĄvel
colmeia de faces
e
declaraçÔes estranhas.
era sombriamente revigorante.
e em momentos raros e ocasionais
até eu ficava bom.
entĂŁo o Buda assentia
com a cabeça.
ele gravava tudo em
fitas.
Ă s vezes numa outra
noite ele tocava uma
fita desde o começo para
mim.
e aĂ­ eu me dava
conta de como
eu soava lastimĂĄvel,
desprezĂ­vel,
inepto.
raramente ele falhava.
por vezes eu me perguntava por que
o mundo nĂŁo
o
descobrira.
ele não fazia o menor esforço para ser
descoberto.
ele recebia outros
visitantes,
sempre gente maluca,
original,
revigorante.
era mais louco do que o
sol incendiando o
mar,
eram os morcegos do inferno
rodopiando pela
sala.
era a depuração
da merda na
psique
retalhada.
noite apĂłs noite apĂłs
noite, eu
me enchia, eu voava, eu me encharcava
num deslumbramento
especial.
isso foi décadas atrås
e ele ainda estĂĄ
vivo, eu
também.
ele criou um lugar quando
nĂŁo havia
lugar.
um lugar para ir quando tudo
estava se fechando,
estrangulando, esmagando,
debilitando,
quando nĂŁo havia
voz, nĂŁo havia som,
nĂŁo havia sentido,
ele emprestava calma
salvando
a graça
natural.
eu sinto que lhe devo
uma,
eu sinto que lhe devo
vĂĄrias.
mas consigo ouvi-lo
agora, aquela mesma
voz
de quando ele se sentava
tĂŁo imenso
naquela mesma
cadeira:
“Não há dívida alguma,
Bukowski.”
afinal vocĂȘ estĂĄ errado
dessa vez,
John Thomas, seu
desgraçado.

O Melhor Poema de Amor Que Posso Escrever No Momento

ouça, eu disse a ela,
por que vocĂȘ nĂŁo enfia sua lĂ­ngua
no meu
cu?
nĂŁo, ela disse.
bem, eu disse, se eu enfiar minha lĂ­ngua
no seu cu primeiro
aĂ­ vocĂȘ enfia a sua lĂ­ngua
no meu
cu?
tĂĄ bom, ela disse.
mergulhei de cabeça lå embaixo
e dei uma olhada,
abri uma parte,
entĂŁo projetei minha lĂ­ngua...
aĂ­ nĂŁo, ela disse,
ah, hahaha, aĂ­ nĂŁo, esse nĂŁo Ă©
o lugar certo!
vocĂȘs mulheres tĂȘm mais buracos do que
queijo suíço...
nĂŁo quero que vocĂȘ
faça
isso.
por quĂȘ?
bem, aĂ­ eu vou ter que fazer
também e aí na próxima festa
vocĂȘ vai contar Ă s pessoas que eu lambi o seu cu
com a minha lĂ­ngua.
e se eu prometer que nĂŁo vou
contar?
vocĂȘ vai ficar bĂȘbado, vocĂȘ vai
contar.
o.k., eu disse, vire o corpo,
vou enfiar no
outro lugar.
ela se virou e eu enfiei minha lĂ­ngua
naquele outro lugar.
estĂĄvamos apaixonados
estĂĄvamos apaixonados
exceto por aquilo que eu falava nas
festas
e nĂŁo estĂĄvamos apaixonados
pelos cus
um do outro.
ela quer que eu escreva um poema de amor
mas acho que se as pessoas
nĂŁo conseguem amar os cus
umas das outras
e os peidos e as merdas e as partes terrĂ­veis
assim como amam
as partes boas,
isso nĂŁo Ă© o amor completo.
então até onde podem chegar os poemas de amor,
até onde chegamos nós,
este poema vai ter que
servir.

ISSO É O QUE VOCÊ GANHA PELO SEU SEXISMO

O Primeiro Amor

certa vez
quanto eu tinha 14 anos
os criadores me trouxeram
meu Ășnico sentimento de
chance.
meu pai nĂŁo gostava
de livros e
minha mĂŁe nĂŁo gostava
de livros (porque meu pai
nĂŁo gostava de livros)
sobretudo aqueles que eu trazia
da biblioteca:
D.H. Lawrence
Dostoiévski
TurguĂȘniev
GĂłrki
A. Huxley
Sinclair Lewis
outros.
eu tinha meu prĂłprio quarto
mas Ă s 8 da noite
devĂ­amos estar todos indo dormir:
“Cedo na cama e cedo desperto:
o homem fica saudável, rico e esperto”,
meu pai costumava dizer.
“LUZES DESLIGADAS!”, ele gritava.
entĂŁo eu pegava o abajur de cabeceira
colocava embaixo das cobertas
e com o calor e a luz escondida
eu continuava lendo:
Ibsen
Shakespeare
Tchékhov
Jeffers
Thurber
Conrad Aiken
outros.
eles me trouxeram chance e esperança e
sentimento num lugar sem chance,
sem esperança, sem sentimento.
eu trabalhei duro.
ficava quente embaixo das cobertas.
às vezes o abajur começava a soltar fumaça
ou os lençóis – começavam a
pegar fogo;
aĂ­ eu desligava o abajur,
segurava fora da janela para
esfriar.
sem esses livros
nĂŁo tenho bem certeza
no que teria dado a minha
vida:
desvario; o
assassinato do pai;
idiotismo; imbecilidade;
insípida desesperança.
quando meu pai gritava
“LUZES DESLIGADAS!”
tenho certeza de que ele temia
a palavra bem escrita
que aparecia com suavidade
e razoabilidade
em nossa melhor e
mais interessante
literatura.
e foi ali
perto de mim
embaixo das cobertas
mais mulher do que mulher
mais homem do que homem.
eu tinha tudo
e
nĂŁo deixei escapar.

O Tordo Azul

hå um tordo azul no meu coração que
quer sair
mas eu sou duro demais com ele,
eu digo: fique aĂ­, nĂŁo vou
deixar que ninguém veja
vocĂȘ.
hå um tordo azul no meu coração que
quer sair
mas eu despejo uĂ­sque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os bartenders
e os balconistas de mercearia
nunca sabem que
ele estĂĄ
ali dentro.
hå um tordo azul no meu coração que
quer sair
mas eu sou duro demais com ele,
eu digo:
fique quieto, vocĂȘ quer
me ferrar?
quer foder com a minha
situação?
quer detonar as minhas vendas de livros na
Europa?
hå um tordo azul no meu coração que
quer sair
mas eu sou esperto demais, sĂł o deixo sair
em algumas noites
quando todo mundo estĂĄ dormindo.
eu digo: sei que vocĂȘ estĂĄ aĂ­,
entĂŁo nĂŁo fique
triste.
depois o coloco de volta,
mas ele estĂĄ cantando um pouco
ali dentro, nĂŁo o deixei morrer
completamente
e nĂłs dormimos juntos
assim
com nosso
pacto secreto
e Ă© bom o bastante para
fazer um homem
chorar, mas eu nĂŁo
choro, e
vocĂȘ?

Oração Para Uma Puta Sob Mau Tempo

por Deus, nĂŁo sei o que
fazer.
elas sĂŁo tĂŁo boas de se ter por perto.
elas tĂȘm um jeito de brincar com
as bolas
e olhar para o pau muito
seriamente
torcendo-o
puxando-o
examinando cada parte
enquanto seus longos cabelos caem sobre
a nossa barriga.
nĂŁo Ă© o foder e o chupar
apenas
o que alcança o íntimo do homem
e o suaviza,
sĂŁo os extras,
sĂŁo todos os extras.
estĂĄ chovendo agora nesta noite
e não hå ninguém por aqui.
estĂŁo em outros lugares
examinando coisas
em novos quartos
em novos humores
ou talvez em velhos
quartos.
de qualquer forma, estĂĄ chovendo nesta noite,
um diabo de chuva grossa,
torrencial...
muito pouco a fazer.
jĂĄ li o jornal
paguei a conta do gĂĄs
a cia. elétrica
a conta do telefone.
continua chovendo.
elas suavizam o sujeito
e entĂŁo o deixam a nadar
em seu prĂłprio suco.
preciso de uma puta Ă  moda antiga
batendo Ă  porta esta noite
fechando seu guarda-chuva verde,
gotas de chuva enluarada em sua
bolsa, dizendo “merda, cara,
vocĂȘ consegue achar mĂșsica melhor
do que essa no seu rĂĄdio...
e aumente o aquecimento...”
Ă© sempre quando um homem estĂĄ
com tesĂŁo de amor e tudo
mais
que sĂł continua chovendo
espirrante
vomitante
chuva
boa para as ĂĄrvores e a
grama e o ar...
boa para coisas que conseguem
viver sozinhas.
eu daria qualquer coisa
pela mĂŁo de uma fĂȘmea nas minhas bolas
esta noite.
elas pegam o cara de jeito e
depois o deixam escutando
a chuva.

FAZ QUATRO ANOS QUE NÃO PEGO UMA MULHER

Pacific Telephone

fique com essas meretrizes, ela disse,
fique com essas putas,
eu vou entediar vocĂȘ.
nĂŁo quero mais essa merda pra cima de mim,
eu disse,
relaxe.
quando bebo, ela disse, dĂĄ uma dor na minha
bexiga, uma ardĂȘncia.
deixe a bebida comigo, eu disse.
vocĂȘ estĂĄ esperando o telefone tocar,
ela disse,
vocĂȘ sĂł fica olhando pro telefone.
se uma dessas meretrizes ligar vocĂȘ
vai sair correndo daqui na hora.
nĂŁo posso lhe prometer nada, eu disse.
então – simples assim – o telefone tocou.
aqui Ă© a Madge, disse o telefone. preciso
ver vocĂȘ o quanto antes.
ah, eu disse.
estou num aperto, ela continuou, preciso de dez
pratas – depressa.
logo chego aĂ­, eu disse, e
desliguei.
ela olhou pra mim. era uma meretriz,
ela disse, seu rosto se iluminou todo.
que diabos hĂĄ com
vocĂȘ?
ouça, eu disse, eu preciso ir.
vocĂȘ fica aqui. logo volto.
vou embora, ela disse. eu te amo mas vocĂȘ Ă©
louco, vocĂȘ estĂĄ condenado.
ela pegou a bolsa e bateu a porta.
deve ser algum trauma de infĂąncia profundamente enraizado
que me faz vulnerĂĄvel, pensei.
entĂŁo saĂ­ de casa e entrei no meu Fusca.
dirigi para o norte pela Western com o rĂĄdio ligado.
havia putas caminhando pra lĂĄ e pra cĂĄ
dos dois lados da rua e Madge parecia
mais depravada do que qualquer uma delas.

Para a Pequena

ela estĂĄ no andar de baixo cantando, tocando seu
violĂŁo, acho que ela estĂĄ mais feliz do que
de costume e eu fico contente. Ă s vezes minha
mente adoece e sou cruel com ela.
ela pesa quarenta e cinco
quilos
tem pulsos finos e
seus olhos
se mostram com frequĂȘncia puramente tristes.
Ă s vezes minhas necessidades
me tornam egoĂ­sta
uma contracorrente afeta meu
cérebro
e nunca fui
bom
em pedir desculpas.
eu a escuto cantando
agora Ă©
bem tarde da noite
e daqui
consigo ver as
luzes da cidade
e elas sĂŁo tĂŁo doces como
maduras frutas de quintal
e este quarto estĂĄ
calmo
tĂŁo estranho
como se a magia tivesse
virado algo normal.

Para a Puta Que Levou Meus Poemas

alguns dizem que deverĂ­amos evitar remorsos particulares no
poema,
manter a abstração, e hå certa razão nisso,
mas jezus:
lĂĄ se foram 12 poemas e eu nunca uso papel-carbono e vocĂȘ estĂĄ com
minhas
pinturas também, minhas melhores; é sufocante:
vocĂȘ estĂĄ tentando me triturar como todos os outros?
por que nĂŁo leva meu dinheiro? Ă© o que costumam tirar
das calças bĂȘbadas e adormecidas passando mal na esquina.
da próxima vez leve meu braço esquerdo ou uma nota de cinquenta
mas nĂŁo meus poemas:
nĂŁo sou Shakespeare
mas um dia simplesmente
nĂŁo haverĂĄ mais nenhum, abstrato ou seja o que for;
sempre haverĂĄ dinheiro e putas e bĂȘbados
atĂ© a Ășltima bomba,
mas como Deus disse,
cruzando as pernas:
percebo que fiz poetas de sobra
mas nĂŁo muita
poesia.

Para Aquelas 3

enlouquecendo
sentado de bobeira ouvindo valsas
de Chopin, tendo dormido com 3 mulheres diferentes
em 3 diferentes estados
em duas semanas, o ritmo tem sido
difĂ­cil, sentado em bares de aeroporto
de mĂŁos dadas com lindas mulheres
que leram TolstĂłi, TurguĂȘniev e
Bukowski.
espantoso quĂŁo completamente uma mulher pode dar seu
amor – quando quer
fazer isso.
agora as mulheres estĂŁo longĂ­nquas
e fico aqui sentado de pés descalços
barba por fazer, bebendo cerveja e
ouvindo essas valsas
de Chopin, e
pensando em cada uma das mulheres
e me pergunto se elas pensam em mim
ou serĂĄ que eu sou sĂł um livro de poemas
perdido no meio de outros livros de poemas?
perdido no meio de TurguĂȘniev e TolstĂłi.
nĂŁo importa. elas deram o bastante.
quando tocarem meu livro agora
vĂŁo reconhecer os contornos do meu corpo
vĂŁo reconhecer minha risada e meu amor e
minha tristeza.
meus agradecimentos.

Para Jane

225 dias sob a relva
e vocĂȘ sabe mais do que eu.
hĂĄ muito que levaram seu sangue,
vocĂȘ Ă© um graveto seco numa cesta.
Ă© assim que funciona?
nesse quarto
as horas de amor
ainda fazem sombras.
quando vocĂȘ partiu
levou junto quase
tudo.
nas noites me ajoelho
perante tigres
que nĂŁo me deixam em paz.
o que vocĂȘ foi
nĂŁo vai acontecer de novo.
os tigres me encontraram
e eu nĂŁo me importo.

Para Jane: Com Todo o Amor Que Eu Tinha, Que Não Foi Suficiente

eu pego a saia,
eu pego as contas cintilantes
em preto,
essa coisa que se movia outrora
em volta de carne,
e chamo Deus de mentiroso,
repito qualquer coisa que se movesse
daquele jeito
ou soubesse
meu nome
jamais poderia morrer
na veracidade comum da morte,
e eu pego
seu gracioso
vestido,
sua graciosidade toda se foi,
e falo
a todos os deuses,
deuses judeus, deuses de Cristo,
lascas de coisas piscantes,
Ă­dolos, pĂ­lulas, pĂŁo,
profundidades, riscos,
rendição experiente,
ratos no molho de 2 totalmente enlouquecidos
sem chance,
conhecimento de beija-flor, chance de beija-flor,
eu me apoio nisso,
eu me apoio em tudo isso
e sei:
seu vestido em meu braço:
mas
nĂŁo querem
devolvĂȘ-la pra mim.

Para Os 18 Meses de Marina Louise

sol sol
Ă© minha pequena
menina
sol
no tapete –
sol sol
saindo pela
porta
colhendo uma
flor
esperando que eu
me levante
para
brincar.
um velho
emerge
de sua
cadeira,
castigado de batalha,
e ela olha
e sĂł
vĂȘ
amor, no que eu
me transformo
por meio de sua
majestade
de seu infinito
e mĂĄgico
sol.

Poema de Amor

lugar nenhum e meio
na torre
desmoronada
que os vermes conquistem
a glĂłria
escuro dentro da
escuridĂŁo
a Ășltima aposta
perdida
tentando
alcançar
silĂȘncio
Ăłsseo.

Poema de Amor Para Marina

minha menina tem 8 anos
e isso Ă© idade suficiente para pensar
bem ou mal ou
qualquer coisa
entĂŁo relaxo em volta dela e
ouço vårias coisas espantosas
sobre sexo
a vida em geral e a vida em particular;
na maior parte Ă© muito
fĂĄcil
exceto que eu me tornei pai quando os homens na maioria
se tornam avĂŽs, sou um iniciante muito tardio
em tudo,
e eu me deito na grama e na areia
e ela arranca dentes-de-leĂŁo
e os coloca no meu
cabelo
enquanto eu cochilo sob a brisa marĂ­tima.
eu desperto
me sacudo
falo: “que diabo?”
e flores caem sobre os meus olhos e sobre o meu nariz
e sobre os meus lĂĄbios.
eu as removo com a mĂŁo
e ela se senta em cima de mim
dando risadinhas.
filha,
certo ou errado,
eu te amo, sim,
Ă© sĂł que Ă s vezes eu ajo como se
vocĂȘ nĂŁo estivesse presente,
mas houve brigas com mulheres
bilhetes deixados em cĂŽmodas
trabalhos em fĂĄbricas
pneus furados em Compton Ă s 3 da manhĂŁ,
todas essas coisas que impedem as pessoas de
conhecer umas Ă s outras e
pior do que
isso.
obrigado pelas
flores.

Poema de Amor Para Uma Stripper

50 anos atrĂĄs eu observava as garotas
rebolando e fazendo striptease
no Burbank e no Follies
e era muito triste
e muito dramĂĄtico
e a luz mudava de verde para
roxo para rosa
e a mĂșsica era alta e
vibrante,
agora sento aqui esta noite
fumando e bebendo
ouvindo mĂșsica
clĂĄssica
mas ainda me lembro de alguns de
seus nomes: Darlene, Candy, Jeanette
e Rosalie.
Rosalie era a
melhor, sabia como fazer,
e nĂłs girĂĄvamos em nossos assentos e
fazĂ­amos barulhos
e Rosalie dava magia
para os solitĂĄrios
tanto tempo atrĂĄs.
agora, Rosalie,
ou tĂŁo absolutamente velha ou
tĂŁo tranquila embaixo da
terra,
este Ă© o garoto
com o rosto cheio de espinhas
que mentiu sobre sua
idade
apenas para ver
vocĂȘ.
vocĂȘ era boa, Rosalie,
em 1935,
boa o bastante para lembrar
agora
quando a luz Ă©
amarela
e as noites sĂŁo
lentas.

Poema Para Minha Filha

(me falam que sou agora um
cidadão responsåvel, e através de sol grudado em setentrionais
janelas de pĂł
camélias vermelhas são flores chorando enquanto
bebĂȘs ficam chorando.)
eu pego com a
colher: janta de macarrĂŁo de frango escorrido
miniameixas secas
minissobremesa de fruta
pego com a colher e
pelo amor de Deus
nĂŁo culpe a
criança
nĂŁo culpe o
gov.
nĂŁo culpe os chefes ou as
classes trabalhadoras –
enfio com a colher
por estes braços e peito
como cera
eletrocutada
um amigo liga:
“Vai fazĂȘ o quĂȘ agora, Hank?”
“Que diabo vocĂȘ quer dizer com vou fazĂȘ o quĂȘ?”
“Quero dizĂȘ cĂȘ tem responsabilidade, cĂȘ precisa criar
a menina
direito.”
alimentĂĄ-la:
enfiar com a
colher:
uma casa em Beverly Hills
e nenhuma necessidade de seguro-desemprego
e nunca vender a quem dĂĄ o maior
lance
nunca se apaixonar por um soldado ou matador de qualquer
tipo
gostar de Beethoven e Jellyroll Morton e
vestidos de pechincha
ela tem uma
chance:
houve outrora o
Fundo Theorikon e hoje existe a
Grande Sociedade
“CĂȘ vai continuar jogando nos cavalos? cĂȘ vai continuar
bebendo? cĂȘ vai continuar...”
“sim.”
telefone, flor ondulante no vento e os ossos mortos do
meu coração –
agora ela dorme lindamente como
barcos no Nilo
talvez um dia ela vĂĄ
me enterrar
isso seria muito bom
se nĂŁo fosse uma
responsabilidade.

Posso Ouvir o Som Das Vidas Humanas Sendo Rasgadas Em Pedaços

estranho calor, fĂȘmeas quentes e frias,
eu faço amor gostoso, mas amor não é só
sexo, e as mulheres que conheci sĂŁo na maioria
muito ambiciosas, e eu gosto de ficar atirado
sobre grandes travesseiros sobre colchÔes às 3
da tarde, gosto de olhar o sol
através das folhas de um arbusto lå fora
enquanto o mundo exterior
se mantém afastado de mim, conheço isso muito bem, todas
as pĂĄginas sujas, e eu gosto de ficar atirado
minha barriga voltada para o teto depois de fazer amor
tudo fluindo bem:
nectarinas, luvas de boxe usadas, livros de histĂłria da
Guerra da Crimeia;
Ă© tĂŁo tranquilo ficar tranquilo – se vocĂȘ gostar, nada mais
Ă© necessĂĄrio.
mas a fĂȘmea Ă© estranha, ela Ă© muito
ambiciosa – “Merda! Não posso dormir o dia todo!
Comer! Fazer amor! Dormir! Comer! Fazer amor!”
“Minha querida”, eu lhe digo, “há homens lá fora agora
colhendo tomates, alface, até mesmo algodão,
hĂĄ homens e mulheres morrendo embaixo do sol,
hĂĄ homens e mulheres morrendo em fĂĄbricas
por nada, uma ninharia...
posso ouvir o som das vidas humanas sendo rasgadas em
pedaços...
vocĂȘ nĂŁo sabe a sorte
que temos...”
“Mas vocĂȘ chegou lá”, ela diz,
“os seus poemas...”
meu amor se levanta da cama.
eu a escuto na sala ao lado.
a mĂĄquina de escrever estĂĄ funcionando.
não sei por que as pessoas pensam que esforço e energia
tĂȘm algo a ver com
criação.
creio que em assuntos como polĂ­tica, medicina,
histĂłria e religiĂŁo
todos acreditaram em mentiras
também.
eu me deito de bruços e pego no sono com minha
bunda voltada para o teto.

Quem Diabos É Tom Jones?

fiquei dormindo
com uma garota de
24 anos de Nova York
por duas semanas,
mais ou menos pela época
da greve dos lixeiros
lĂĄ fora, e certa noite
essa mulher de 34 anos
apareceu e falou
“quero ver minha rival”,
fez isso e entĂŁo
disse: “ah, vocĂȘ Ă© uma
coisinha querida!”
depois sĂł sei que houve um
turbilhão de gatas selvagens –
festival de berros e unhadas,
gemidos de animal ferido,
sangue e mijo...
eu estava bĂȘbado e sĂł de
calção. tentei
separar as duas e caĂ­,
torci meu joelho. entĂŁo
elas atravessaram a
porta e desceram a entrada
e saĂ­ram pela rua.
viaturas cheias de policiais
chegaram. um helicĂłptero da polĂ­cia
circulou acima.
eu me parei no banheiro
e escancarei um sorriso no espelho.
nĂŁo Ă© frequente aos
55 anos de idade
que ocorra tĂŁo
esplĂȘndida ação.
foi melhor do que os
distĂșrbios de Watts.
entĂŁo a de 34 anos
entrou de volta. estava toda
mijada e sua
roupa estava rasgada e
vinha seguida por 2 policiais
que queriam saber
por quĂȘ.
erguendo meu calção
eu tentei explicar.

Quente

ela era quente, ela era tĂŁo quente
eu não queria que ninguém mais ficasse com ela,
e quando eu nĂŁo chegava em casa a tempo
ela já tinha se mandado, e eu não suportava isso –
eu enlouquecia...
era ridĂ­culo, eu sei, infantil,
mas eu estava preso naquilo, eu estava preso.
entreguei a correspondĂȘncia toda
e aĂ­ Henderson me colocou na coleta noturna
num velho caminhão do exército,
o maldito troço começou a esquentar na metade da coleta
e a noite avançava
eu pensando sobre a minha quente Miriam
e pulando pra dentro e pra fora do caminhĂŁo
enchendo malotes de correspondĂȘncia
o motor cada vez mais aquecido
o ponteiro da temperatura estava no mĂĄximo
QUENTE QUENTE
como Miriam.
eu saltava pra dentro e pra fora
só mais 3 coletas e na estação
eu estaria, meu carro
esperando pra me levar até Miriam sentada em meu sofå azul
uĂ­sque com gelo na mĂŁo
cruzando as pernas e balançando os tornozelos
como de costume,
sĂł mais duas coletas...
o caminhão enguiçou num semåforo, era o inferno
tomando conta
de novo...
eu precisava estar em casa Ă s 8, 8 era o horĂĄrio limite para Miriam.
fiz a Ășltima coleta e o caminhĂŁo enguiçou numa sinaleira
a œ quadra da estação...
o motor nĂŁo pegava, nĂŁo tinha como pegar...
tranquei as portas, tirei a chave e fui correndo até a
estação...
joguei as chaves na mesa... registrei minha saĂ­da...
“o seu maldito caminhão está enguiçado na sinaleira,
Pico com Western...”
...atravessei o corredor Ă s pressas, enfiei a chave na porta,
abri... o copo da bebida estava lĂĄ com um bilhete:
filho da puta:
eu esperei até oito e 5
cĂȘ nĂŁo me ama
seu filho da puta
alguém vai me amar
fiquei esperando dia todo
Miriam
eu servi um drinque e deixei a ĂĄgua ir enchendo a banheira
havia 5.000 bares na cidade
e eu percorreria 25 deles
procurando por Miriam
seu ursinho de pelĂșcia roxo segurava o bilhete
recostado num travesseiro
dei um drinque para o ursinho, um drinque para mim
e entrei na ĂĄgua
quente.

Resposta a Um Bilhete Encontrado Na Caixa de Correio

“o amor Ă© como um sino
me diga, vocĂȘ jĂĄ
o escutou na voz dela?”
o amor nĂŁo Ă© como um sino
isso é poético, verdade,
mas escutei algo na voz dela
que no vĂŽmito do meu tormento
que na caveira pousada na janela
arreganhando os dentes amarelos quebrados
me alçou a um clima que raras vezes
conheci –
“aqui, uma flor. eu trago flor.”
escuto algo na voz dela
que nada tem a ver com suados e traiçoeiros
e sangrantes exércitos
que nada tem a ver com o chefe da fĂĄbrica com olhos
quebrados
nĂŁo estou implicando com as suas palavras:
vocĂȘ tem o seu sino
eu tenho isso e talvez vocĂȘ tenha isso tambĂ©m:
“eu trago sapatos. sapato. sapato. aqui um
sapato!”
Ă© mais do que aprender o que Ă© um sapato
Ă© mais do que aprender o que sou ou o que ela
Ă©
Ă© outra coisa
que talvez nĂłs que vivemos hĂĄ muito tempo jĂĄ quase
esquecemos
que uma criança venha dos pùntanos da minha dor
carregando flores, efetivamente carregando flores,
jesus, isso Ă© quase demais
que me seja permitido ver com olhos e tocar e
rir,
essa besta informada em mim
faz careta no Ă­ntimo
mas logo constata que o esforço é grande demais para se esconder
atrĂĄs
e essa pequena criatura que me conhece tĂŁo bem
rasteja por tudo através e em cima de mim
LĂĄzaro LĂĄzaro
e nĂŁo sinto vergonha
guerreiro espancado por horas e anos de
desperdĂ­cio
o amor Ă© como um sino
o amor Ă© como uma montanha pĂșrpura
o amor Ă© como um copo de vinagre
o amor sĂŁo todas as sepulturas
o amor Ă© uma janela de trem
ela sabe o meu nome.

Resposta Para Certa Espécie de Crítica

uma dama talvez se encontre com um homem
por causa do jeito como ele escreve
e logo a dama jĂĄ poderia estar sugerindo
outro jeito de escrever.
mas se o homem amar a dama
ele vai continuar escrevendo do jeito que escreve
e se o homem amar o poema
ele vai continuar escrevendo do jeito que deve
e se o homem amar a dama e o poema
ele sabe o que Ă© o amor
duas vezes mais do que qualquer outro homem
eu sei o que Ă© o amor.
este poema Ă© para dizer isso Ă  dama.

Rua 2, Perto de Hollister, Em Santa Monica

minha filha tem 13 anos de idade
e uma tarde dessas
dirigi até sua quadra para almoçarmos
juntos
e havia uma linda mulher
sentada na varanda
e pensei, bem, ela vai
se levantar e dizer para Marina que
eu estou aqui.
e a linda mulher se ergueu
e caminhou na minha direção.
era a minha filha.
ela disse: “Oi!”
eu respondi como se tudo fosse
corriqueiro e nĂłs saĂ­mos
juntos.

Sapatos

sapatos no armĂĄrio como lĂ­rios de PĂĄscoa,
meus sapatos sozinhos neste momento,
e outros sapatos com outros sapatos
como cĂŁes andando por avenidas,
e o fumo por si sĂł nĂŁo basta
e eu recebi uma carta de uma mulher num hospital,
amor, ela diz, amor,
mais poemas,
mas nĂŁo escrevo,
nĂŁo me entendo,
ela me manda fotografias do hospital
tiradas do ar,
mas me lembro dela em outras noites,
nĂŁo morrendo,
sapatos com saltos como adagas
parados ao lado dos meus,
como essas noites fortes
podem mentir pra caramba,
como essas noites ficam quietas afinal
meus sapatos no armĂĄrio
sobrevoados por casacÔes e camisas desengonçadas,
e eu olho para o buraco deixado pela porta
e as paredes, e nĂŁo
escrevo.

Sapatos

quando vocĂȘ Ă© jovem
um par de
sapatos de salto alto
femininos
simplesmente parados
sozinhos
no armĂĄrio
podem incendiar os seus
ossos;
quando vocĂȘ Ă© velho
Ă© sĂł
um par de sapatos
sem
ninguém
dentro
e
dĂĄ no
mesmo.

Sentado Numa Lancheria Na Beira da Estrada

minha filha Ă© a coisa mais
gloriosa.
estamos comendo no meu
carro em Santa Monica.
eu digo: “Ei, menina,
minha vida tem sido
boa, tão boa”.
ela olha pra mim.
baixo minha cabeça
me inclino sobre o volante,
entĂŁo abro a porta num chute,
“Eu sou um GÊNIO!”.
entĂŁo vomito
de mentirinha.
ela ri, mordendo
seu sanduĂ­che.
eu me endireito,
pego 4 batatas fritas,
coloco na minha boca,
mastigo.
sĂŁo 5:30 da tarde
e os carros disparam pra lĂĄ
e pra cĂĄ passando
por nĂłs.
dou uma olhada de canto.
ela sorri com todos os dentes
seus olhos brilham com
o que resta do
mundo.
temos toda a sorte
de que precisamos.

Sereia

eu precisava entrar no banheiro pra pegar algo
e bati
e vocĂȘ estava na banheira
vocĂȘ tinha lavado seu rosto e seu cabelo
e eu vi a parte de cima do seu corpo
e exceto pelos seios
vocĂȘ parecia uma menina de 5, de 8 anos
vocĂȘ estava delicadamente alegre na ĂĄgua
Linda Lee.
vocĂȘ era nĂŁo apenas a essĂȘncia daquele
momento
e sim de todos os meus momentos
até ali
vocĂȘ tomando banho tranquilamente no marfim
mas nĂŁo havia nada
que eu pudesse lhe falar.
peguei o que eu queria no banheiro
algo
e saĂ­.

Sim

nĂŁo importa com quem eu esteja
as pessoas sempre dizem:
vocĂȘ ainda estĂĄ com ela?
meus relacionamentos duram em média
dois anos e meio.
com guerras
inflação
desemprego
alcoolismo
jogatina
e o meu prĂłprio nervosismo degenerado
acho que me saio bem o bastante.
gosto de ler os jornais dominicais na cama.
gosto de fitas cor de laranja amarradas em volta do pescoço do gato.
gosto de dormir apertado contra um corpo que conheço bem.
gosto de papeletas pretas no pé da minha cama
Ă s 2 da tarde.
gosto de ver como ficaram as fotos.
gosto que me ajudem a suportar os feriados:
IndependĂȘncia, Dia do Trabalho, Halloween, Ação de Graças,
Natal, Ano-Novo.
elas sabem como remar por essas correntezas
e tĂȘm menos medo do amor do que eu.
conseguem me fazer rir onde comediantes profissionais
fracassam.
hĂĄ a caminhada na rua para comprar um jornal juntos.
hĂĄ muita coisa boa em estar sozinho
mas hĂĄ um estranho calor em nĂŁo estar sozinho.
gosto de batatas vermelhas cozidas.
gosto de olhos e dedos melhores que os meus que consigam
tirar nós de cadarços.
gosto de deixĂĄ-la dirigir o carro em noites escuras
quando a estrada e o caminho me deram nos nervos,
o rĂĄdio do carro ligado
nĂłs acendemos cigarros e conversamos sobre coisas
e de vez em quando
ficamos em silĂȘncio.
eu gosto de grampos de cabelo em cima de mesas.
eu gosto de conhecer as mesmas paredes
as mesmas pessoas.
nĂŁo gosto das brigas insanas e inĂșteis que sempre
ocorrem
e não gosto de mim nessas ocasiÔes
nĂŁo dando nada
nĂŁo entendendo nada.
gosto de aspargos cozidos
gosto de rabanetes
gosto de cebolas.
gosto de levar meu carro num lava-jato.
gosto quando tenho vitĂłria de dez em aposta de seis
por um.
gosto do meu rĂĄdio que fica tocando
Shostakovich, Brahms, Beethoven, Mahler.
gosto quando hĂĄ uma batida na porta e
Ă© ela.
nĂŁo importa com quem eu esteja
as pessoas sempre dizem:
vocĂȘ ainda estĂĄ com ela?
devem pensar que eu as enterro
em Hollywood Hills.

Sorrindo, Brilhando, Cantando

minha filha parecia uma Katharine Hepburn muito jovem
na apresentação de Natal da escola primåria.
estava lĂĄ com os outros
sorrindo, brilhando, cantando
no vestido longo que eu tinha comprado pra ela.
ela parece a Katharine Hepburn, falei Ă  mĂŁe dela
que estava sentada Ă  minha esquerda.
ela parece a Katharine Hepburn, falei Ă  minha namorada
que estava sentada Ă  minha direita.
a vĂł da minha filha estava a dois assentos de mim;
nĂŁo falei nada pra ela.
nunca gostei das atuaçÔes de Katharine Hepburn,
mas sempre gostei de sua aparĂȘncia,
de sua classe, sabe,
alguĂ©m com quem vocĂȘ podia conversar na cama
por uma hora e meia antes de pegar no
sono.
posso ver que minha filha vai ser uma
mulher belĂ­ssima.
um dia quando eu estiver bastante velho
ela provavelmente vai me trazer o urinol com um sorriso
dos mais amĂĄveis.
e ela provavelmente vai se casar com um caminhoneiro que
caminha pesadĂŁo
e joga boliche todas as quintas Ă  noite
com a rapaziada.
bem, nada disso importa.
o que importa Ă© o agora.
sua avĂł Ă© uma grande mulher de rapina.
sua mĂŁe Ă© uma liberal psicĂłtica e amante da vida.
seu pai Ă© um bĂȘbado.
minha filha parecia uma Katharine Hepburn muito jovem.
depois da apresentação de Natal
nós fomos ao McDonald’s e comemos, e alimentamos os pardais.
faltava uma semana para o Natal.
eståvamos menos preocupados com isso do que nove décimos da cidade.
isso Ă© classe, nĂłs dois temos classe.
ignorar a vida no momento certo exige uma sabedoria especial:
como um Feliz Ano-Novo para
todos vocĂȘs.

Todo o Meu Amor É Dedicado a Ela (Para A.M.)

astutamente armado com argumentos para o papa
abro meu caminho em meio às pessoas não elétricas
buscando razÔes para minha morte e meu viver;
Ă© um dia encantador para aqueles que gostam dos dias –
para aqueles que aguardam a noite
como eu, aĂ­ o dia Ă© uma merda e a merda Ă© para
os esgotos,
e eu abro a porta de um minĂșsculo cafĂ©
e uma garçonete vestindo azul-escuro
se aproxima como se o meu pedido fosse ela.
“3 pernas de faisão”, eu lhe digo,
“as costas de um frango e 2 garrafas de razoável vinho
francĂȘs.”
ela sai
contorcendo-se em seu azul
e todo o meu amor Ă© dedicado a ela
mas nĂŁo hĂĄ jeito,
e fico sentado encarando as plantas
e falo Ă s plantas, com minha mente:
nĂŁo dĂĄ pra vocĂȘs me amarem?
nĂŁo dĂĄ pra algo acontecer aqui?
precisam as calçadas ser sempre calçadas, precisam os generais
continuar rindo em seus sonhos,
precisa sempre continuar sendo
que nada Ă© verdade?
eu olho Ă  minha esquerda e vejo um homem enfiando o dedo no nariz;
ele esfrega o resĂ­duo embaixo de uma
cadeira; Ă© bem verdade, eu penso, eis a sua
verdade, e eis o seu amor:
ranho endurecendo embaixo de uma cadeira durante
noites quentes quando o inferno chega e simplesmente
cospe em cima de
vocĂȘ todo.
plantas, repito, vocĂȘs nĂŁo podem?
e eu quebro parte de uma folha de alocĂĄsia
e o teto todo se racha e abre
o céu é uma escadaria para baixo,
a garçonete se aproxima e fala:
“isso Ă© tudo, senhor?”
e eu falo “sim, obrigado, isso
basta”.

Trólios E Treliças

claro, eu posso morrer nos prĂłximos dez minutos
e estou pronto para isso
mas o que realmente me preocupa Ă©
que meu editor-publisher talvez se aposente
muito embora ele seja dez anos mais novo do que
eu.
foi apenas 25 anos atrĂĄs (eu estava com a madura
idade avançada de 45)
que nós iniciamos nossa aliança profana para
testar as ĂĄguas literĂĄrias,
nenhum dos dois sendo muito
conhecido.
acho que tivemos alguma sorte e ainda temos algo
do mesmo
mas
sĂŁo bem razoĂĄveis as chances
de que ele acabe optando por cĂĄlidas e aprazĂ­veis
tardes
no jardim
muito antes de mim.
escrever é uma intoxicação em si
enquanto publicar e editar,
tentar cobrar contas
carrega seu prĂłprio
atrito
que também inclui lidar com as
triviais frescuras e demandas
de vĂĄrios
assim chamados gĂȘnios queridinhos que nĂŁo
o sĂŁo.
nĂŁo vou culpĂĄ-lo por cair
fora
e espero que ele me mande fotos de sua
Rose Lane, sua
Gardenia Avenue.
serĂĄ que terei de procurar outros
promulgadores?
aquele sujeito com o chapéu de pele
russo?
ou aquela peste do leste
com todos aqueles pelos
em seus ouvidos, com aqueles lĂĄbios
Ășmidos e gordurosos?
ou serĂĄ que meu editor-publisher
tendo se retirado para o mundo de TrĂłlios e
treliças
vai repassar a
maquinaria
de seu antigo ofĂ­cio para um
primo, uma
filha ou
certo poundiano de Big
Sur?
ou serĂĄ que ele vai simplesmente transmitir o legado
para o
Despachante
que vai se erguer como
LĂĄzaro,
manejando recém-descoberta
importĂąncia?
podemos imaginar coisas
terrĂ­veis:
“Sr. Chinaski, todas as suas produçÔes
deverĂŁo ser agora entregues em
formato rondĂł
e
datilografadas
com espaço triplo em papel
de arroz”.
o poder corrompe,
a vida aborta
e tudo que
nos resta
Ă© um
monte de
verrugas.
“não, não, Sr. Chinaski:
formato rondó!”
“ei, cara”, eu vou perguntar,
“vocĂȘ nĂŁo ouviu falar dos
anos trinta?”
“os anos trinta? o que Ă©
isso?”
meu atual editor-publisher
e eu
por vezes
de fato discutimos os anos trinta,
a DepressĂŁo
e
alguns dos pequenos truques que os trinta
nos ensinaram –
tipo como sobreviver com quase
nada
e seguir em frente
mesmo assim.
bem, John, se acontecer desfrute da sua
diversĂŁo em
desenvolver agricultura,
cultivar e arejar
entre
os arbustos, regar apenas no
inĂ­cio da manhĂŁ, espalhar
forração para desencorajar
o crescimento de ervas daninhas
e
como faço com a minha escrita:
usar bastante
esterco.
e obrigado
por me alojar lĂĄ na
5124 DeLongpre Avenue
em algum lugar entre
o alcoolismo e
a loucura.
juntos nĂłs
atiramos a luva
e Ă© possĂ­vel
encontrar
quem aceite o desafio
inclusive nesta época tardia
enquanto o fogo canta
por entre as
ĂĄrvores.

Um Bilhete de Aceitação

16 anos de idade
durante a DepressĂŁo
eu voltava pra casa bĂȘbado
e todas as minhas roupas –
calçÔes, camisas, meias,
maleta e pĂĄginas de
contos
estavam jogadas no
gramado da frente e pela
rua.
minha mĂŁe me esperava
atrĂĄs de uma ĂĄrvore:
“Henry, Henry, não
entre... ele vai
matar vocĂȘ, ele leu
as suas histórias...”
“eu posso arrebentar
o traseiro dele...”
“Henry, por favor pegue
isso... e
encontre um quarto pra vocĂȘ”.
mas o preocupava
que eu nĂŁo conseguisse
terminar o ensino médio
entĂŁo eu voltava pra casa
outra vez.
certa noite ele entrou
com as pĂĄginas de
um dos meus contos
(que eu nunca tinha lhe
mostrado)
e disse: “este Ă©
um grande conto!”
e eu falei “o.k.”,
e ele o devolveu pra mim
e eu o li.
era uma histĂłria sobre
um homem rico
que brigara com
a esposa e tinha
saĂ­do pela noite
para tomar um café
e tinha notado
a garçonete e as colheres
e os garfos e os
saleiros e pimenteiros
e o letreiro de neon
na janela
e entĂŁo tinha voltado
até seu eståbulo
para ver e tocar seu
cavalo favorito
que entĂŁo
lhe deu um coice na cabeça
e o matou.
de algum modo
a histĂłria fazia
sentido pra ele
se bem que
ao escrevĂȘ-la
nem me passara pela cabeça
sobre o que eu
estava escrevendo.
entĂŁo eu lhe falei:
“o.k., velho, vocĂȘ pode
ficar com ele”.
e ele o pegou
e saiu
e fechou a porta.
acho que isso foi
o mais perto
que jĂĄ chegamos.

Um Cachorro

veja sĂł vocĂȘ, meias e calçÔes, latas de cerveja
pelo chĂŁo, vocĂȘ nĂŁo quer se comunicar,
para vocĂȘ uma mulher nĂŁo Ă© nada senĂŁo algo
para sua conveniĂȘncia, vocĂȘ sĂł fica ali sentado
bebendo como um porco, por que vocĂȘ nĂŁo diz algo?
esta Ă© a sua casa entĂŁo vocĂȘ nĂŁo pode ir embora, se eu estivesse
falando desse jeito na minha casa vocĂȘ sairia pela porta
sem demora.
por que vocĂȘ estĂĄ sorrindo?
algo disso é engraçado?
tudo que vocĂȘ faz Ă© beber como um porco e ir ao hipĂłdromo!
o que hĂĄ de tĂŁo sensacional num cavalo?
o que Ă© que um cavalo tem que eu nĂŁo tenho?
quatro pernas?
vocĂȘ nĂŁo Ă© genial?
ora, vocĂȘ nĂŁo Ă© o mĂĄximo?
vocĂȘ age como se nada importasse!
bem, deixa eu te dizer, babaca, eu importo!
vocĂȘ acha que Ă© o Ășnico homem nesta cidade?
bem, deixa eu te dizer, existem homens aos montes que
me desejam, meu corpo, minha mente, meu espĂ­rito!
as pessoas me perguntam: “O que Ă© que vocĂȘ estĂĄ fazendo
com uma pessoa como aquela?”
o quĂȘ?
nĂŁo, eu nĂŁo quero um drinque!
quero que vocĂȘ se dĂȘ conta do que estĂĄ acontecendo antes que
seja tarde demais!
veja sĂł vocĂȘ entornando que nem bicho!
vocĂȘ sabe o que acontece quando vocĂȘ bebe
demais!
daria no mesmo eu estar morando com um eunuco!
minha mĂŁe me avisou!
todo mundo me avisou!
veja sĂł vocĂȘ agora!
por que vocĂȘ nĂŁo se barbeia?
vocĂȘ derramou vinho na sua camisa toda!
e esse charuto barato!
vocĂȘ sabe qual Ă© o cheiro que essa coisa
tem?
de bosta de cavalo!
ei, pra onde vocĂȘ estĂĄ indo?
algum bar, algum bar de merda!
vai ficar lĂĄ sentado, acalentando a sua autopiedade
com todos aqueles outros perdedores!
se vocĂȘ passar por aquela porta eu vou
sair pra dançar!
vou sair para me divertir!
se vocĂȘ sair por aquela porta, aĂ­ Ă©
o fim!
tĂĄ bom, vai lĂĄ entĂŁo, seu babaca!
babaca!
babaca!
BABACA!

VocĂȘ ainda tĂĄ vivendoem 1938,babaca!

Um Lugar Pra Relaxar

ser um jovem tolo e pobre e feio
nĂŁo dĂĄ um aspecto muito bom Ă s paredes.
tantos fins de tarde, examinando as paredes
sem nada pra beber
nada pra fumar
nada pra comer
(nĂłs bebĂ­amos meus contracheques depressa).
ela sempre sabia o momento de ir embora.
ela me fez passar por sua faculdade –
ela me deu meu mestrado e meu doutorado,
e ela sempre voltava,
ela queria um lugar pra relaxar
um lugar pra pendurar suas roupas.
ela afirmava que eu era muito engraçado,
que eu a fazia rir
mas eu nĂŁo estava tentando ser
engraçado.
ela tinha pernas lindas e era
inteligente mas simplesmente nĂŁo se importava,
e toda a minha fĂșria e todo o meu humor e
toda a minha loucura eram mero entretenimento
para ela: eu estava atuando pra ela
como uma espécie de marionete numa espécie de inferno de mim mesmo.
algumas vezes quando ela ia embora eu tinha suficiente
vinho barato e suficientes cigarros
para ouvir o rĂĄdio e olhar as
paredes e ficar bĂȘbado em grau suficiente para escapar
dela.
mas ela sempre voltava para me testar
mais uma vez.
eu me lembro dela em especial.
outras mulheres melhores fizeram com que eu me sentisse tĂŁo
mal
quanto naqueles fins de tarde
dando aquela caminhada de trĂȘs quilĂŽmetros do trabalho para casa
dobrando no beco
olhando a janela no alto
e encontrando a cortina fechada.
ela me ensinou a agonia dos amaldiçoados
e dos inĂșteis.
todo mundo quer tempo bom, sorte boa, sonhos
bons.
para mim era um palpite arriscado numa pista comprida,
fazia frio e a impossĂ­vel aposta nĂŁo deu
em nada.
eu a enterrei cinco anos depois de a ter conhecido,
raramente a tendo visto nos Ășltimos trĂȘs.
sĂł havia quatro pessoas diante da sepultura:
o padre
a senhoria dela
o filho dela e eu.
isso nĂŁo importava:
todas aquelas caminhadas pelo beco
na esperança de uma luz por trås da cortina.
todas aquelas dĂșzias de homens que a tinham fodido
nĂŁo estavam lĂĄ
e um dos homens que a tinham amado
estava: “Meu louco garoto do almoxarifado da
loja de departamentos”, ela me chamava.

Um Mágico Desaparecido

eles vĂŁo um por um e conforme vĂŁo indo isso chega mais perto
de mim e
nĂŁo me importo muito, Ă©
sĂł que nĂŁo consigo ser prĂĄtico quanto Ă 
matemĂĄtica que leva outros
ao ponto de fuga.
sĂĄbado passado
um dos maiores ases da corrida de arreios
morreu – o pequeno Joe O’Brien.
eu o vira ganhar inĂșmeras
corridas. ele
tinha um peculiar movimento balanceado
ele estalava as rédeas
e balançava o corpo pra trås e
pra frente. ele
aplicava esse movimento
durante a reta final e
era algo bastante dramĂĄtico e
efetivo...
ele era tĂŁo pequeno que nĂŁo conseguia
golpear o chicote com a mesma força dos
outros
entĂŁo
ele balançava e balançava
na charrete
e o cavalo sentia o relĂąmpago
de sua excitação
aquele balanço ritmado e louco era
transferido do homem para o
animal...
o negócio todo dava a sensação de um
jogador de dados invocando os
deuses, e os deuses
respondiam com tamanha frequĂȘncia...
eu vi Joe O’Brien vencer
incontĂĄveis fotos de linha de chegada
vĂĄrias por um
nariz.
ele pegava um cavalo
que outro condutor nĂŁo conseguia
fazer correr
e Joe lhe dava seu
toque
e o animal quase
sempre respondia com
uma enxurrada de energia selvagem.
Joe O’Brien era o melhor corredor de arreios
que eu jĂĄ tinha visto
e eu tinha visto vĂĄrios ao longo das
décadas.
ninguém conseguia mimar e adular
um trotador ou marchador
como o pequeno Joe
ninguém conseguia fazer a magia funcionar
como Joe.
eles vĂŁo um por um
presidentes
lixeiros
assassinos
atores
batedores de carteiras
pugilistas
pistoleiros
bailarinos
pescadores
médicos
fritadores
bem
assim
mas Joe O’Brien
vai ser difĂ­cil
difĂ­cil
encontrar um substituto para
o pequeno Joe
e
na cerimĂŽnia
realizada para ele
na pista esta noite
(Los Alamitos 10-1-84)
enquanto os condutores se reuniam num
cĂ­rculo
em seus uniformes
na linha de chegada
eu precisei dar minhas costas
Ă  multidĂŁo
e subir os degraus da
arquibancada superior
rumo ao muro
para que as pessoas nĂŁo
me vissem
chorar.

Um Para a Dente-Acavalado

conheço uma mulher
que fica comprando quebra-cabeças
quebra-cabeças
chineses
blocos
arames
peças que afinal se encaixam
numa espécie de ordem.
ela monta tudo
matematicamente
resolve todos os seus
quebra-cabeças
vive junto ao mar
deixa açĂșcar fora para as formigas
e acredita
fundamentalmente
num mundo melhor.
seu cabelo Ă© branco
ela raras vezes o penteia
seus dentes sĂŁo acavalados
e ela usa macacÔes frouxos e disformes
sobre um corpo que a maioria
das mulheres desejaria ter.
por vĂĄrios anos ela me irritou
com aquilo que eu considerava como sendo
suas excentricidades –
tipo mergulhar cascas de ovo na ĂĄgua
(alimentando as plantas para que
absorvessem cĂĄlcio).
mas afinal quando penso em sua
vida
e a comparo com outras vidas
mais deslumbrantes, originais
e belas
percebo que ela machucou menos
gente do que qualquer pessoa que conheço
(e com machucar quero dizer simplesmente machucar).
ela teve alguns momentos terrĂ­veis,
momentos em que talvez eu devesse tĂȘ-la
ajudado mais
pois ela Ă© a mĂŁe da minha Ășnica
filha
e outrora fomos grandes amantes,
mas ela superou os obstĂĄculos
como eu disse
ela machucou menos gente do que
qualquer pessoa que conheço,
e se vocĂȘ olhar por esse Ăąngulo,
bem,
ela criou um mundo melhor.
ela venceu.
Frances, este poema Ă© pra
vocĂȘ.

Um Para o Engraxate

o equilĂ­brio estĂĄ nas lesmas escalando as
falésias de Santa Monica;
a sorte estĂĄ em descer a Western Avenue
e acontecer que uma das garotas de uma casa
de massagem grite pra vocĂȘ “AlĂŽ, Doçura!”
o milagre estĂĄ em ter cinco mulheres apaixonadas
por vocĂȘ aos 55 anos de idade,
e o bom de tudo Ă© que vocĂȘ sĂł Ă© capaz
de amar uma delas.
o dom estĂĄ em ter uma filha mais delicada
do que vocĂȘ Ă©, cuja risada Ă© mais bela
do que a sua.
a placidez estĂĄ em ser capaz de dirigir um
Fusca 67 azul pelas ruas como um
adolescente, o rĂĄdio sintonizado no Apresentador que Mais Ama
VocĂȘ, sentindo o sol, sentindo o sĂłlido ronco
do motor retificado
enquanto vocĂȘ costura o trĂĄfego
e deixa os mortos putos da cara.
a graça estå em ser capaz de gostar de rock,
mĂșsica sinfĂŽnica, jazz...
tudo que contenha o jĂșbilo da energia
original.
e a matemĂĄtica que retorna
Ă© o profundo baixo-astral sob
vocĂȘ estendido sobre vocĂȘ
entre as paredes de guilhotina –
furioso com o som do telefone
ou com os passos de qualquer um passando;
e a outra matemĂĄtica:
a iminente animação que se segue
fazendo com que os caras sentados nos bancos
junto aos carrinhos de taco
pareçam gurus
fazendo com que a garota do caixa no
supermercado pareça
Marilyn
ou Zsa Zsa
ou Jackie antes de pegarem seu amante de Harvard
ou a garota do ensino médio que
todos nós garotos seguíamos até em casa.
e a pureza que ajuda vocĂȘ a crer
em algo além da morte
Ă© Sandy Hawley montando
cinco vencedores no Hollywood Park, cavalos fora de forma,
nenhum deles favorito,
ou alguĂ©m num carro que se aproxima de vocĂȘ
numa rua estreita demais,
e ele ou ela desvia de lado pra deixar vocĂȘ
passar, ou o velho lutador Beau Jack
engraxando sapatos
após ter torrado seu pé-de-meia todo
com festas
com mulheres
com parasitas,
cantarolando, soprando no couro,
mandando ver com o trapo,
olhando pra cima e dizendo:
“Que diabo, por um momento
eu tive tudo. uma coisa ganha da
outra”.
por vezes me mostro muito amargo
mas o gosto tem sido com frequĂȘncia
doce, Ă© sĂł que tive
medo de dizĂȘ-lo. Ă© como
quando sua mulher diz
“fala que me ama”
e vocĂȘ nĂŁo consegue dizer.
se vocĂȘ chegar a me ver sorrindo em
meu Fusca azul
cruzando um sinal amarelo
dirigindo direto rumo ao sol
sem Ăłculos escuros
estarei apenas trancado na
tarde de uma
vida louca
pensando em trapezistas de circo
em anÔes com charutos enormes
num inverno russo no inĂ­cio dos anos 40
em Chopin com seu saco de terra polonesa
ou numa velha garçonete me trazendo uma xícara
extra de café e parecendo rir de mim
enquanto me serve.
do melhor de vocĂȘ
eu gosto mais do que vocĂȘ imagina.
os outros nĂŁo contam
exceto que eles tĂȘm dedos e cabeças
e alguns deles olhos
e a maioria deles pernas
e todos eles
sonhos bons e ruins
e um caminho para seguir.
o equilĂ­brio estĂĄ em toda parte e estĂĄ funcionando
e as metralhadoras e as rĂŁs
e as sebes podem lhe contar
isso.

Um Poema de Amor Para Todas As Mulheres Que Eu Conheci

todas as mulheres
todos os seus beijos as
diferentes formas como amam e
falam e precisam.
suas orelhas todas elas tĂȘm
orelhas e
gargantas e vestidos
e sapatos e
automĂłveis e ex-
maridos.
na maioria
as mulheres sĂŁo muito
calorosas elas me lembram
torrada amanteigada com a manteiga
derretida
nela.
hĂĄ uma expressĂŁo no
olhar: elas foram
dominadas elas foram
enganadas. nĂŁo sei direito o que
fazer por
elas.
eu sou
um cozinheiro razoĂĄvel um bom
ouvinte
mas nunca aprendi a
dançar – estava ocupado
entĂŁo com coisas maiores.
mas desfrutei de suas diferentes
camas
fumando cigarros
olhando fixo para os
tetos. nĂŁo fui nem perverso nem
injusto. apenas
um estudante.
sei que todas elas tĂȘm aqueles
pés e descalças elas atravessam o assoalho enquanto
observo suas nĂĄdegas acanhadas no
escuro. sei que elas gostam de mim, algumas até
me amam
mas eu amo bem
poucas.
algumas me dĂŁo laranjas e pĂ­lulas;
outras falam calmamente de
infĂąncia e pais e
paisagens; algumas sĂŁo quase
loucas mas nenhuma delas Ă© desprovida de
significado; algumas amam
bem, outras nem
tanto; as melhores no sexo nem sempre sĂŁo as
melhores em outros
aspectos; cada uma tem limites como eu tenho
limites e aprendemos
um ao outro
depressa.
todas as mulheres todas as
mulheres todos os
quartos
os tapetes as
fotos as
cortinas, Ă©
meio como uma igreja sĂł que
Ă s vezes hĂĄ
risos.
aquelas orelhas aqueles
braços aqueles
cotovelos aqueles olhos
fitando o carinho e
a espera eu fui
abraçado eu fui
abraçado.

Uma Definição

o amor nĂŁo passa de farol aceso Ă 
noite cortando a névoa
o amor nĂŁo passa de uma tampinha de cerveja
na qual vocĂȘ pisa a caminho
do banheiro
o amor Ă© a chave perdida da sua porta
quando vocĂȘ estĂĄ bĂȘbado
o amor Ă© o que acontece um dia por
ano
um ano a cada dez
o amor sĂŁo os gatos esmagados
do universo
o amor Ă© um jornaleiro na
esquina que
desistiu
o amor sĂŁo as primeiras 3 filas de
potenciais matadores no
Olympic Auditorium
o amor Ă© o que vocĂȘ acha que a outra
pessoa destruiu
o amor Ă© o que desapareceu com a
era dos encouraçados de batalha
o amor Ă© o telefone tocando
e a mesma voz ou outra
voz mas nunca a voz
certa
o amor é traição
o amor Ă© o bebum
sendo queimado no beco
o amor é aço
o amor Ă© a barata
o amor Ă© uma caixa de correio
o amor Ă© chuva batendo no telhado
do hotel mais barato
de Los Angeles
o amor Ă© o seu pai que
detestava vocĂȘ dentro de um caixĂŁo
o amor Ă© um cavalo com a
perna quebrada
tentando ficar de pé
enquanto 55.000 pessoas
observam
o amor Ă© o nosso jeito de ferver
como a lagosta
o amor Ă© um cigarro de filtro
preso na sua boca e
aceso pela ponta errada
o amor Ă© tudo que dissemos
que nĂŁo era
o amor Ă© o Corcunda de
Notre Dame
o amor Ă© a pulga que vocĂȘ nĂŁo consegue
encontrar
o amor Ă© o mosquito
o amor sĂŁo 50 granadeiros
o amor Ă© o mais vazio dos
urinĂłis
o amor Ă© uma rebeliĂŁo em Quentin
o amor Ă© um manicĂŽmio lotado
o amor Ă© um burro cagando numa
rua de moscas
o amor Ă© um banco de bar quando
ninguém estå sentado nele
o amor Ă© um filme do Hindenburg
se desmanchando em pedaços
em tempos que ainda gritam
o amor é Dostoiévski na
roleta
o amor Ă© o que rasteja
pelo chĂŁo
o amor é a sua mulher dançando
apertada nos braços de um estranho
o amor Ă© uma mulher velha
beliscando um naco de pĂŁo
o amor Ă© uma palavra usada
constantemente
muitĂ­ssimo constantemente
o amor sĂŁo telhados vermelhos e telhados
verdes e telhados azuis
e voar em aviÔes a jato
isso Ă© tudo.

Uma Festa Aqui – Metralhadoras, Tanques, Um Exército Lutando Contra Homens Nos Telhados

se o amor pudesse continuar como papel de piche
ou até mesmo na medida do significado
mas nĂŁo funciona
nĂŁo pode funcionar
hĂĄ babacas demais
mulheres que escondem suas pernas demais
exceto em camas especiais
hĂĄ moscas demais no
teto e tem sido um verĂŁo
quente
e os distĂșrbios em Los Angeles
terminaram faz uma semana
e queimaram prédios e mataram policiais e
homens brancos e
eu sou um homem branco e acho que nĂŁo fiquei particularmente
alvoroçado porque sou um homem branco e sou pobre
e pago por ser pobre
porque faço tão poucas paradas de mão para os outros quanto
possĂ­vel
e entĂŁo sou pobre porque escolhi ser e acho que
nĂŁo Ă© tĂŁo desconfortĂĄvel desse
jeito
e entĂŁo ignorei os distĂșrbios
porque concluĂ­ que ambos negros e brancos
queriam vĂĄrias coisas que nĂŁo interessavam
a mim
além disso tendo uma mulher aqui que fica muito alvoroçada com
discriminação a Bomba segregação
vocĂȘ sabe vocĂȘ sabe
eu deixo ela ir falando até que por fim a conversa
me cansa
pois nĂŁo ligo muito para a
resposta padrĂŁo
ou as confusas criaturas solitĂĄrias que gostam de se unir a uma
CAUSA simplesmente porque uma causa as arranca de sua
babosa
imbecilidade rumo a um fluxo de
ação. jå eu gosto de tempo para pensar, pensar, pensar...
mas foi uma festa aqui, sério, metralhadoras, tanques,
o exército lutando contra homens nos telhados...
a mesma coisa que acusamos a RĂșssia de fazer. bem, Ă©
um jogo escroto, e nĂŁo sei o que fazer, exceto
se for como um amigo meu disse que eu disse certa noite quando
eu estava bĂȘbado: “Nunca mate alguĂ©m, mesmo que pareça
ser a Ășltima ou a Ășnica coisa a fazer”.
riso. tudo bem. poderia deixar vocĂȘ feliz
que eu até tenha um fluxo de remorso quando mato uma
mosca. uma formiga. uma pulga. mas vou em frente. eu as mato e
vou em frente.
deus, o amor Ă© mais estranho do que numerais mais estranho
do que
relva pegando fogo mais estranho do que o corpo morto de uma criança
afogada no fundo de uma banheira, sabemos tĂŁo
pouco, sabemos tanto, nĂŁo sabemos
o bastante.
de qualquer forma, realizamos nossos movimentos, intestinais,
Ă s vezes
sexuais, Ă s vezes celestiais, Ă s vezes espĂșrios, ou
Ă s vezes percorremos um museu para ver o que
restou de nĂłs ou disso, a triste paralisia estrangulada de fundo
de manicÎmio envidraçado e congelado e estéril
suficiente para fazer vocĂȘ querer sair para o sol de novo
e dar uma olhada, mas no parque e nas ruas
os mortos continuam passando como se jĂĄ estivessem
num museu. talvez o amor seja sexo. talvez o amor seja uma tigela de
mingau. talvez o amor seja um rĂĄdio desligado.
de qualquer jeito, foi uma festa.
uma semana atrĂĄs.
hoje fui Ă  pista com rosas nos meus olhos. dĂłlares no
meu
bolso. manchetes no beco. sĂŁo mais de cento e cinquenta quilĂŽmetros de
trem,
sĂł de ida. um grupo de bĂȘbados voltando, duros de novo, o
sonho
abatido de novo, corpos oscilando; tagarelando no vagĂŁo do bar e eu
estou ali
também, bebendo, rabiscando a esperança que resta na penumbra,
o
barman era um negro e eu era branco. maus lençóis. demos
um jeito.
nada de festa.
os jornais ricos ficam falando “A Revolução
Negra” e
“A Ruptura da Família Negra”. o trem entrou na cidade
afinal,
e eu me livrei dos 2 homossexuais que estavam me pagando
bebidas, e
fui mijar e fazer uma ligação e enquanto eu passava
pelo
acesso rumo Ă  latrina masculina havia 2 negros numa
banca de engraxate
engraxando sapatos de homens brancos e os homens brancos lhes
permitiam fazĂȘ-lo.
caminhei até um bar mexicano
e tomei alguns uísques e quando saí a garçonete me deu um
papelzinho com seu nome, endereço e nĂșmero de telefone
escritos, e quando cheguei na rua joguei o papel na sarjeta
entrei no meu carro e dirigi rumo Ă  Zona Oeste de Los
Angeles
e tudo parecia igual igual como sempre foi
e na Alvarado com a Sunset eu reduzi pra 65
vi um policial gordo em sua moto
com uma cara hedionda e alerta
e fiquei enojado comigo mesmo e com
todo mundo, todo o pouco que qualquer um de nĂłs
tinha feito, amor, amor, amor,
e as torres balançavam como velhas stripteasers
rezando pela mĂĄgica perdida, e eu segui dirigindo
engraxando os sapatos de todos os negros e gringos da
América, incluindo
os meus.

Virada

eu soube recentemente
que a minha primeira esposa
morreu na
Índia
ela pertencia a certa
seita e morreu de uma
doença
misteriosa.
a famĂ­lia nĂŁo
pediu
que o corpo fosse
enviado
de volta.
pobre Barbara,
ela nasceu com um
pescoço
que nĂŁo
virava.
uma linda mulher
em outros aspectos.
minha querida, nas alturas do
sol, espero que o seu
pescoço
vire
afinal
e que os olhares
e o ridĂ­culo
e a indesejada
pena
encontrem abrigo
em outro lugar.

Visita a Venice

nĂłs fomos dar uma caminhada ao longo da praia em Venice
os hippies sentados esperando pelo Nirvana
alguns deles golpeando bongĂŽs,
as Ășltimas das velhas damas judias esperando a morte
esperando pelo momento de seguir seus maridos que jĂĄ partiram faz tanto tempo,
o mar ondulava para lĂĄ e para cĂĄ,
ficamos cansados e nos deitamos num gramado
e minha filha de 8 anos passou os dedos por
minha barba dizendo: “Hank, está ficando cada vez mais
branca!” Eu ri direto para o cĂ©u, ela era
tão engraçada. então ela tocou meu bigode: “Está ficando
branco tambĂ©m”. Eu ri de novo. “E as minhas sobrancelhas?”,
eu perguntei. “Tem um aqui. É meio branco e meio
vermelho.”
â€œĂ©?” “sim.”
fechei meus olhos por um momento. ela passou os dedos pelo meu
cabelo. “Mas nĂŁo tem branco no seu cabelo, Hank. Nem um Ășnico
cabelo Ă© branco...”
“Não, aqui perto da orelha direita”, eu disse, “está começando.”
levantamos e continuamos nossa caminhada até o carro.
“Frances tem o cabelo todo branco”, ela disse.
“Sim”, eu disse, “mas são aqueles 5 longos cabelos brancos
pendurados no queixo dela que não são muito bonitos.”
“Foi por isso que vocĂȘs se separaram?”
“Não, ela alegou que eu fui pra cama com outra mulher.”
“VocĂȘ fez isso?”
“Veja como o cĂ©u estĂĄ alto!”
o mar ondulava pra lĂĄ e pra cĂĄ.
“Ela não vai achar homem algum disposto a beijá-la com aqueles 5 cabelos brancos
no queixo dela.”
“Mas ela acha!”
“Ah Ă©?”
“Bem, não muitos...”
“50.000?”
“Ah, não...”
“5?”
“Sim, 5. Um homem para cada cabelo.”
entramos de volta no carro e eu a conduzi de volta até
sua mĂŁe.

Você Já Beijou Uma Pantera?

essa mulher acha que Ă© uma pantera
e Ă s vezes quando estamos fazendo amor
ela solta grunhidos e cospe
e seu cabelo vem abaixo
e ela olha por entre os fios
e me mostra suas presas
mas eu a beijo mesmo assim e continuo amando.
vocĂȘ jĂĄ beijou uma pantera?
vocĂȘ jĂĄ viu uma pantera fĂȘmea desfrutando
o ato do amor?
vocĂȘ nĂŁo amou, amigo.
vocĂȘ com suas loirinhas tingidas
vocĂȘ com seus esquilos e tĂąmias
e elefantes e ovelhas.
vocĂȘ deveria dormir com uma pantera
nunca mais vocĂȘ vai querer
esquilos, tĂąmias, elefantes, ovelhas, raposas,
carcajus,
nunca nada exceto a pantera fĂȘmea
a pantera fĂȘmea atravessando a sala
a pantera fĂȘmea atravessando a sua alma;
todas as outras cançÔes de amor são mentiras
quando aquela pelagem preta e macia se roça em vocĂȘ
e o céu desaba nas suas costas,
a pantera fĂȘmea Ă© o sonho que chegou real
e nĂŁo hĂĄ como voltar atrĂĄs
ou querer voltar –
a pelagem roçando em vocĂȘ,
a busca terminou
enquanto seu pau avança diante da beira do Nirvana
e vocĂȘ fica preso diante dos olhos de uma pantera.