Consumação do Pesar
ainda escuto as montanhas
o modo como elas riem
de cima a baixo por seus perfis azuis
e mergulhando na água
os peixes lamentam
e toda a água
é fruto de suas lágrimas.
escuto as águas
nas noites de bebedeira
e a tristeza é tanta que posso
ouvi-la em meu relógio
transforma-se nos puxadores da minha cômoda
transforma-se no papel sobre o chão
transforma-se numa calçadeira
no bilhete da lavanderia
transforma-se
na fumaça do cigarro
escalando uma capela de videiras negras...
pouco importa
um pouquinho só de amor não é tão mal assim
ou um pouquinho só de vida
o que realmente importa
é esperar entre paredes
eu nasci para isso
nasci para arrastar rosas pelas avenidas da morte.
Minha mãe gritou ao abrir a porta.
– Filho, é você, filho?
– Preciso dormir um pouco.
– Sua cama está sempre pronta.
Segui até o quarto, me despi e deitei na cama. Fui acordado por volta das seis da tarde pela minha mãe.
– Seu pai está em casa.
Levantei-me e comecei a me vestir. O jantar estava servido quando entrei na sala.
Meu pai era um homem grande, mais alto do que eu, e tinha os olhos castanhos. Os meus eram verdes. Seu nariz era largo demais e não havia como não reparar em suas orelhas: pareciam prestes a fugir de sua cabeça.
– Escute – ele disse –, se você quiser ficar por aqui, vou lhe cobrar pelo quarto, pela comida e mais o serviço de lavanderia. Quando você arranjar um trabalho, o que você nos deve será subtraído de seu salário até que sua dívida conosco esteja encerrada.
Comemos em silêncio.
Minha dívida com quarto, comida, roupa lavada etc. já estava tão alta que foram precisos vários salários para liquidá-la. Assim que isso aconteceu, me mudei de imediato. Eu não tinha condições de pagar os preços praticados lá em casa. Encontrei uma pensão próxima ao trabalho. Fazer a mudança não era difícil. Minhas coisas não enchiam nem a metade de uma mala...
Mama Strader era minha senhoria, uma ruiva apagada de boa aparência, muitos dentes de ouro e um namorado velhusco. Chamou-me na cozinha, logo na primeira manhã, e disse que me daria um copo de uísque se eu fosse lá fora alimentar as galinhas. Depois de cumprir a missão, sentei-me para beber com Mama e seu namorado, Al. Estava uma hora atrasado para o trabalho.
Na segunda noite, houve uma batida na minha porta. Era uma gorda já entrada nos quarenta. Trazia uma garrafa de vinho.
– Moro num quarto do outro lado do corredor, me chamo Martha. Você está sempre escutando boa música. Pensei em lhe trazer uma bebida.
Martha entrou. Vestia uma espécie de bata verde e, depois de alguns copos de vinho, começou a me mostrar suas pernas.
– Tenho pernas legais.
– Sou vidrado em pernas.
– Olhe mais pra cima.
Suas pernas eram muito brancas, gorduchas, flácidas, com veias roxas e protuberantes. Martha me contou sua história.
Era uma prostituta. Tinha percorrido todo o circuito dos bares. Sua principal fonte de renda era o dono de uma loja de departamentos.
– Ele me dá dinheiro. Vou até a loja dele e levo tudo o que quero. Os vendedores não me incomodam. Ele disse pra me deixarem em paz. Ele não quer que a mulher saiba que eu trepo muito melhor do que ela.
Martha se levantou e ligou o rádio. Alto.
– Sou uma ótima dançarina – ela disse. – Veja como eu danço!
Ela girava dentro daquela barraca verde, dando chutes no ar. Estava longe de ser o que alardeava. Logo a bata passava da linha de sua cintura, e ela começou a balançar a bunda bem junto ao meu rosto. A calcinha rosa tinha um enorme furo sobre o glúteo direito. Então a bata já era, e ela ficou só de calcinha. Logo todas as suas vestes estavam no chão, e ela seguiu com o número. Seus pelos pubianos quase desapareciam debaixo da barriga frouxa, que não parava de balançar.
O suor fazia com que sua maquiagem escorresse. Subitamente seus olhos se estreitaram. Eu estava sentado na beirada da cama. Ela se jogou sobre mim antes que eu pudesse reagir. Sua boca já aberta foi pressionada contra a minha. Tinha gosto de cuspe e cebolas e vinho barato e (imaginei) dos espermas de quatrocentos homens. Enfiou sua língua na minha boca. Estava grossa pela quantidade de saliva, o que me fez engasgar e empurrá-la para longe. Ela se pôs de joelhos, baixou meu zíper, e em um segundo meu pau frouxo estava em sua boca. Ela chupou e bateu. Martha usava uma pequena fita amarela em seu cabelo grisalho e curto. Tinha verrugas e grandes pintas marrons no pescoço e nas bochechas.
Meu pênis subiu; ela gemeu e me deu uma mordida. Gritei, segurei-a pelos cabelos e a afastei. Fiquei de pé no centro do quarto, aterrorizado e ferido. Tocavam uma sinfonia do Mahler no rádio. Antes que eu pudesse me mover, ela estava novamente de joelhos. Agarrou minhas bolas sem qualquer piedade com as duas mãos. Sua boca se abriu, ela me tomou; sua cabeça ia e vinha, chupando, masturbando. Ela me obrigou a deitar no chão, dando um tremendo puxão no meu saco, quase partindo meu pau ao meio com os dentes. Os sons da chupada enchiam o quarto, enquanto o rádio tocava Mahler. Era como se eu estivesse sendo devorado por um animal impiedoso. Meu pau endureceu, coberto de cuspe e sangue. A visão daquilo a enlouqueceu. Era como ser devorado vivo.
Se eu gozar, pensei em desespero, jamais me perdoarei.
Quando consegui dar um jeito de agarrar seus cabelos para afastá-la, ela apertou novamente minhas bolas e as esmagou sem pena. Seus dentes cravaram na metade do meu pau como se quisessem, feito uma tesoura, parti-lo ao meio. Gritei, soltei-lhe o cabelo, deitei no chão. Sua cabeça seguia em ação, sem qualquer remorso. Tinha certeza de que essa chupada podia ser ouvida ao longo de toda a pensão.
– NÃO! – gritei.
Ela prosseguiu com uma fúria inumana. Comecei a gozar. Era como sugar o interior de uma serpente que estivesse presa. Sua fúria mesclava-se à loucura; ela engoliu todo o esperma, fazendo-o gorgolejar em sua garganta. Ela continuou masturbando e chupando.
– Martha! Chega! Acabou!
Ela não iria parar. Era como se tivesse se transformado numa enorme boca, capaz de devorar tudo. Continuou chupando e masturbando. Seguiu e seguiu.
– NÃO! – gritei novamente.
Desta vez ela bebeu como se fosse uma batida de baunilha, de canudinho.
Desfaleci. Ela se ergueu e começou a se vestir. Cantou:
“When a New York baby says goodnight
it’s early in the morning
goodnight, sweetheart
it’s early in the morning
goodnight, sweetheart
milkman’s on his way home…”[8]
Com esforço fiquei de pé, agarrando-me aos bolsos da minha calça em busca da carteira. Saquei uma nota de US$ 5, passei a ela. Pegou a nota e enfiou-a entre os seios, pela parte frontal do vestido, deu mais uma agarrada, bem faceira, nas minhas bolas, apertou-as, soltou e seguiu bailando quarto afora.
Trabalhei o tempo necessário para juntar o dinheiro para comprar uma passagem para outro lugar qualquer, mais uns poucos dólares para as despesas iniciais. Larguei o emprego, peguei o mapa dos Estados Unidos e dei uma olhada. Decidi-me por Nova York.
Coloquei cinco garrafas de uísque dentro da mala que levei comigo no ônibus. Toda vez que alguém sentava ao meu lado e começava a falar, eu puxava uma das garrafas e dava um longo trago. Cheguei lá.
A rodoviária de Nova York ficava próxima a Times Square. Ganhei a rua com minha velha mala. Anoitecia. As pessoas saíam em grandes enxames das estações do metrô. Como insetos, sem rostos, dementes, elas se lançavam sobre mim, me cercavam, em grande intensidade. Batiam-se e se empurravam, faziam sons terríveis.
Busquei refúgio no vão de uma porta e terminei a última das garrafas.
Então segui em frente, empurrando, acotovelando, até avistar um sinal de “há vagas” na Terceira Avenida. A gerente era uma velha senhora judia.
– Preciso de um quarto – disse-lhe.
– Precisa de um bom terno, meu garoto.
– Estou falido.
– É um terno dos bons, uma pechincha. Meu marido toca a alfaiataria do outro lado da rua. Venha comigo.
Paguei por meu quarto, levei a mala para o andar de cima. Depois a acompanhei até o outro lado da rua.
– Herman, mostre o terno ao garoto.
– Ah, é um ótimo terno.
Herman o trouxe lá de dentro; era azul-marinho, um pouco gasto.
– Parece muito pequeno.
– Não, não, vai servir direitinho.
Saiu de trás do balcão com o terno.
– Aqui. Experimente o paletó.
Herman me ajudou a vesti-lo.
– Viu só? Serve... Quer provar a calça?
Segurou-a na minha frente. Ia da minha cintura aos dedos do pé.
– Parece bem.
– Dez dólares.
– Estou falido.
– Sete dólares.
Dei a Herman os sete dólares, levei o terno para o meu quarto, escada acima. Saí atrás de uma garrafa de vinho. Ao voltar, tranquei a porta, tirei a roupa, preparava-me para a primeira noite verdadeira de sono em um bom tempo.
Deitei na cama, abri a garrafa, dobrei o travesseiro nas costas para ter um bom apoio, respirei fundo e sentei na escuridão olhando a janela. Era a primeira vez que eu estava sozinho em cinco dias. Eu era um homem que se fortalecia na solidão; ela era para mim a comida e a água dos outros homens. Cada dia sem solidão me enfraquecia. Não que me orgulhasse dela, mas dela eu dependia. A escuridão do quarto era como um dia ensolarado para mim. Tomei um gole de vinho.
Subitamente o quarto se encheu de luz. Houve um estrépito e um rugido. A linha elevada do trem passava ao nível da minha janela. Havia uma estação do metrô ali. Olhei para a fila de rostos nova-iorquinos, que me olharam de volta. O trem se demorou e, então, partiu. O quarto ficou escuro. Logo voltou a se encher de luz. Outra vez olhei para os rostos. Era como uma visão do inferno constantemente repetida. Cada novo carregamento de rostos era mais feio, demente e cruel que o anterior. Bebi o vinho.
Aquilo continuou: escuridão, depois luz; luz, depois escuridão. Terminei a garrafa e fui em busca de mais. Voltei, tirei a roupa, retornei para a cama. As partidas e chegadas dos rostos continuavam; era como se eu estivesse tendo uma visão. Eu era visitado por centenas de demônios que o diabo em pessoa não podia tolerar. Bebi mais vinho.
Finalmente me levantei e peguei meu terno novo no armário. Vesti o paletó. Estava apertado. Parecia menor do que quando o experimentei na alfaiataria. De repente, o tecido se rasgou. O paletó abrira completamente no meio das costas. Joguei o que restara fora. Ainda tinha a calça. Enfiei as pernas. Havia botões na frente em vez de zíper. Ao tentar abotoá-los, a costura abriu nos fundilhos. Passei minha mão atrás e senti minhas cuecas.
Durante quatro ou cinco dias, caminhei a esmo. Depois me embebedei por dois dias seguidos. Mudei do meu quarto e fui para o Greenwich Village. Certo dia, li na coluna de Walter Winchell[9] que O. Henry costumava escrever todos os seus textos na mesa de um famoso bar de escritores. Encontrei o bar e fui procurar pelo que mesmo?
Era meio-dia. Eu era o único cliente, apesar da coluna de Winchell. Fiquei ali plantado, sozinho, na frente de um enorme espelho, do bar e do atendente.
– Sinto muito, senhor, não podemos servi-lo.
Fiquei chocado, incapaz de responder. Esperei por uma explicação.
– O senhor está bêbado.
Era possível que estivesse embriagado, mas eu não bebia uma gota de álcool havia doze horas. Resmunguei alguma coisa sobre O. Henry e fui embora.
Parecia uma loja abandonada. Havia um cartaz na janela: Precisa-se de ajudante. Entrei. Um homem com um bigodinho fino me sorriu.
– Sente-se.
Deu-me uma caneta e uma ficha de inscrição, que preenchi.
– Ah? Faculdade?
– Não exatamente.
– Estamos no ramo da publicidade.
– É?
– Não está interessado?
– Bem, veja você, eu andava envolvido com pintura. Um pintor, entende? Fiquei sem dinheiro. Não conseguia vender o material.
– Chegam aqui vários desses.
– Também não gosto dos tipos.
– Alegre-se. Talvez você fique famoso depois da morte.
Seguiu falando que o trabalho acarretava, para começo de conversa, fazer o turno da noite, mas que sempre se podia ascender na carreira.
Eu lhe disse que gostava do turno da noite. Ele me disse que eu podia começar no metrô.
Dois caras mais velhos esperavam por mim. Encontrei-os dentro do metrô, onde os vagões estavam estacionados. Deram-me uma braçada de pôsteres e um pequeno instrumento de metal que parecia um abridor de latas. Subimos todos em um dos vagões estacionados.
– Veja como eu faço – disse um dos caras mais velhos.
Subiu em cima dos assentos sujos, arrancando os velhos pôsteres com seu abridor de latas ao longo do percurso. Então é assim que esses negócios vão parar ali, pensei. As pessoas os colocam ali.
Cada pôster era preso por duas tiras de metal que precisavam ser removidas para que um novo pudesse ser colocado. As tiras eram presas com molas e curvas para se encaixarem no contorno da parede.
Deixaram que eu tentasse. As tiras de metal resistiram aos meus esforços. Não iriam se mover. As pontas afiadas cortavam minhas mãos enquanto eu trabalhava. Comecei a sangrar. Para cada pôster retirado, era preciso colocar outro no lugar. Cada troca levava uma eternidade. Parecia uma atividade sem fim.
– Há besouros por toda Nova York – disse um dos caras mais velhos depois de um tempo.
– É mesmo?
– Sim. Você é novo em Nova York?
– Sim.
– Não sabe que todas as pessoas em Nova York sofrem com esses besouros?
– Não.
– Sim. A mulher quis trepar comigo na noite passada. Eu disse, “Não, baby, não vai rolar”.
– É?
– É. Disse pra ela que faria a coisa por cinco pratas. Porque é preciso umas cinco pratas em carne pra repor a porra que eu gastaria.
– Ela lhe deu as cinco pratas?
– Que nada. Ofereceu-me uma lata de sopa Campbell’s de cogumelo.
Seguimos com o trabalho até chegarmos ao fim do vagão. Os dois homens saíram pela traseira e caminharam em direção ao próximo carro do metrô, que estava estacionado a cerca de quinze metros de distância. Estávamos a uns bons dez metros acima do chão, com nada além dos trilhos para caminhar. Vi que não seria nada difícil para um corpo passar por entre os vãos e cair lá embaixo.
Saí do vagão e comecei a avançar lentamente em direção ao próximo, cuidando onde pisava, o abridor de latas numa mão e os pôsteres na outra. Um metrô cheio de passageiros partiu, as luzes iluminando o caminho.
O veículo se foi, deixando-me na escuridão total. Não conseguia sequer ver os trilhos e as vigas horizontais. Esperei.
Os dois caras mais velhos gritaram lá do outro vagão:
– Vamos! Depressa! Temos muito trabalho pela frente!
– Esperem! Não vejo nada!
– Não temos nenhuma lanterna!
Meus olhos começavam a se adaptar. Avancei lentamente, passo a passo. Assim que entrei no outro carro, coloquei os pôsteres sobre o chão e me sentei. Minhas pernas estavam bambas.
– Qual é o problema?
– Não sei.
– O que é?
– Um homem pode morrer nesse negócio.
– Ninguém nunca caiu.
– Senti que podia ser o primeiro.
– Tudo está na cabeça.
– Eu sei. Como faço pra dar o fora daqui?
– Há uma escada para aqueles lados. Mas você terá que cruzar várias vias, além de cuidar os trens em movimento.
– Sim.
– E não pise no terceiro trilho.
– O que é isso?
– É o condutor de força. É um trilho dourado. Parece feito de ouro. Você vai ver.
Desci para a pista e comecei a caminhar. Os dois caras mais velhos ficaram me olhando. Ali estava o trilho dourado. Passei dando o passo mais largo que pude sobre ele.
Então cheguei à escada. Meio caindo, meio correndo, venci os degraus. Havia um bar do outro lado da rua.
– Factótum
Nirvana
sem grandes chances,
completamente desprovido de
propósito,
ele era um jovem
seguindo de ônibus
cruzando a Carolina do Norte
em direção a
alguma parte
e então começou a nevar
e o ônibus parou
num pequeno café
nas montanhas
e os passageiros
ali entraram.
sentou juntou ao balcão
com os outros,
fez o pedido e a
comida chegou.
a refeição estava
especialmente
gostosa
assim como o
café.
a garçonete era
diferente das mulheres
que ele
conhecera.
não era afetada,
sentia que dela
emanava um humor
natural.
a frigideira dizia
coisas malucas.
a pia,
logo atrás,
ria, uma risada
boa
limpa e
prazenteira.
o jovem assistiu
à neve cair através da
janela.
queria ficar
naquele café
para sempre.
um sentimento curioso
perpassou-o por completo
de que tudo
era
lindo
ali,
de que sempre seria
maravilhoso ficar
por ali.
então o motorista do ônibus
disse aos passageiros
que era hora de
partir.
o jovem pensou,
ficarei sentado
aqui, apenas ficarei onde
estou.
mas então
ele se ergueu e seguiu
os outros até o
ônibus.
encontrou seu assento
e olhou para o café
através da janela do
ônibus.
então a partida do
veículo, logo uma curva,
em declive, afastando-se
das montanhas.
o jovem
olhou diretamente
para frente.
ouviu os outros
passageiros
falando
de outras coisas,
ou então eles
liam
ou
tentavam
dormir.
não haviam
percebido
a
mágica.
o jovem
virou a cabeça para
o lado,
fechou os
olhos,
fingiu
dormir.
não havia mais nada
a fazer –
apenas escutar
o som do
motor,
o som dos
pneus
sobre a
neve.
Depois de chegar à Filadélfia, encontrei uma pensão e paguei uma semana de aluguel adiantado. O bar mais próximo devia ter uns cinquenta anos. Dava para sentir o cheiro de urina, merda e vômito acumulados ao longo de meio século brotando das frestas do piso, visto que os banheiros ficavam no andar de baixo.
Eram quatro e meia. Dois homens brigavam no meio do bar.
O cara à minha direita disse que seu nome era Danny. O da esquerda, que se chamava Jim.
Danny trazia um cigarro na boca, a ponta brilhando. Uma garrafa de cerveja vazia cruzou o ar. Por um triz, não lhe acertou em cheio no cigarro e no nariz. Não se moveu nem olhou ao redor, bateu a cinza do cigarro no cinzeiro.
– Essa foi perto, seu filho da puta! Mande mais uma dessas e a pancadaria começa!
Todos os lugares estavam ocupados. Havia umas mulheres por ali, algumas donas de casa, gordas e meio estúpidas, e duas ou três senhoras que enfrentavam dificuldades. Ao me sentar por ali, uma garota levantou e se foi com um homem. Retornou em cinco minutos.
– Helen! Helen! Como você consegue fazer isso?
Ela gargalhou.
Outro se lançou sobre ela para experimentar.
– Deve ser bom. Tenho que provar!
Saíram juntos. Helen retornou em cinco minutos.
– Ela deve ter uma bomba de sucção na buceta!
– Tenho que tentar também – disse um velho sentado no fundo do bar. – Não tenho uma ereção desde que Teddy Roosevelt tomou sua última colina.
Com ele, Helen levou dez minutos.
– Quero um sanduíche – disse um gordo. – Quem vai buscar pra mim por uma graninha?
Eu lhe disse que iria.
– Bife no pão, com tudo o que tem direito.
Deu-me algum dinheiro.
– Fique com o troco.
Fui até o lugar onde se faziam os sanduíches. Um velho meio esquisito apareceu.
– Bife no pão, com tudo o que der pra botar em cima. E uma garrafa de cerveja enquanto espero.
Tomei a cerveja, levei o sanduíche até o gordo e procurei outro lugar. Apareceu uma dose de uísque. Virei. Outra surgiu. Virei. A jukebox tocava.
Um jovem, que devia ter uns 24, veio lá dos fundos do bar.
– Preciso que as persianas sejam limpas – ele me disse.
– Sem dúvida.
– O que você faz?
– Nada. Bebo. Vario entre isso.
– Que tal cuidar das persianas?
– Cinco pratas.
– Contratado.
Eles o chamavam de Billy-Boy. Billy-Boy havia se casado com a dona do bar. Ela estava com 45.
Trouxe-me dois baldes, água e sabão, uns esfregões e esponjas. Retirei as persianas, removi as lâminas e comecei.
– Bebida de graça – disse Tommy, o atendente da noite – enquanto você estiver trabalhando.
– Uma dose de uísque, Tommy.
Era um trabalho lento; o pó havia endurecido, formando uma espécie de laca. Cortei minha mão diversas vezes nas plaquetas de metal. A água ensaboada ardia.
– Uma dose de uísque, Tommy.
Terminei o primeiro jogo de persianas e o coloquei no lugar. Os fregueses do bar deram uma olhada no que eu havia feito.
– Maravilha!
– Com certeza vai ajudar o lugar.
– Na certa vão subir o preço das bebidas.
– Uma dose de uísque, Tommy – eu disse.
Baixei outro jogo de persianas, retirei as plaquetas. Desafiei Jim para uma partida de pinball e lhe tomei vinte e cinco centavos, esvaziei os baldes na privada e os enchi com água limpa.
O segundo jogo progrediu ainda mais devagar. Minhas mãos receberam mais cortes. Duvido que essas persianas tivessem sido limpas em dez anos. Ganhei mais 25 centavos no pinball, e então Billy-Boy ordenou que eu voltasse ao trabalho.
Helen passou em direção ao banheiro feminino.
– Helen, vou lhe dar cinco pratas assim que acabar. Será que dá?
– Claro, mas você não vai nem levantar o negócio quando for a hora.
– Levanto sim.
– Estarei aqui quando fecharem. Se você ainda conseguir ficar de pé, faço de graça!
– Estarei firme, baby!
Helen retornou ao banheiro.
– Uma dose de uísque.
– Ei, vá devagar – disse Billy-Boy – ou jamais terminará o trabalho nesta noite.
– Billy, se eu não terminar, você pode ficar com os cinco.
– Fechado. Ouviram isso?
– A gente ouviu, Billy, seu mão-de-vaca.
– A saideira, Tommy.
Tommy me serviu o uísque. Bebi o copo e então fui trabalhar. Consegui progredir. Após mais umas doses de uísque, consegui deixar os três jogos de persianas limpos e brilhantes.
– Tudo pronto, Billy. Pague o que deve.
– Ainda não acabou.
– Como?
– Há mais três janelas no salão dos fundos.
– Salão dos fundos?
– Salão dos fundos. O salão de festas.
Billy-Boy me mostrou o salão dos fundos. Havia mais três janelas, mais três jogos de persianas.
– Deixo por 2,50, Billy.
– Negativo. Ou faz todo o trabalho, ou não recebe nada.
Apanhei os baldes, esvaziei a água suja, enchi de água limpa, sabão, depois desci um novo jogo de persianas. Retirei as plaquetas, depositei-as sobre uma mesa e fiquei olhando para elas.
Jim parou no meio do caminho até o banheiro.
– O que está acontecendo?
– Não conseguirei limpar outro jogo.
Quando Jim saiu do banheiro, foi até o bar e retornou com sua cerveja. Começou a limpar as persianas.
– Jim, deixe disso.
Fui até o bar, peguei mais uma dose. Quando voltei, uma das garotas descia um dos jogos.
– Tome cuidado, não vá se cortar – eu disse a ela.
Alguns minutos depois, havia umas quatro ou cinco pessoas por ali, falando e sorrindo, até mesmo Helen. Todas trabalhavam na limpeza. Logo quase todos os fregueses do bar estavam por lá. Concentrei-me em esvaziar mais dois copos. Finalmente, as persianas estavam limpas e no lugar. Não levou muito tempo. Cintilavam. Billy-Boy apareceu:
– Não tenho que lhe pagar nada.
– O trabalho está terminado.
– Mas não foi você quem terminou.
– Não seja um mão-de-vaca, Billy – alguém disse.
Billy-Boy desencavou uma nota de US$ 5, eu a peguei. Fomos até o bar.
– Uma rodada por minha conta!
Coloquei a nota de US$ 5 sobre o balcão.
– E uma bebida pra mim.
Tommy deu uma volta distribuindo as bebidas.
Tomei a minha e Tommy pegou o dinheiro.
– Você deve US$ 3,15 para o bar.
– Ponha na conta.
– O.k., qual é seu sobrenome?
– Chinaski.
– Conhece aquela do polaco que teve que usar a casinha?
– Sim.
Os drinques continuaram chegando para mim até a hora do fechamento. Após o último, dei uma olhada em volta. Helen tinha desaparecido. Ela mentira.
Como fazem as putas, pensei, assustada com o trabalho que teria...
Ergui-me e tomei o rumo de minha pensão. A lua brilhava. Meus passos ecoavam pela rua vazia, parecendo os passos de um perseguidor. Olhei ao redor. Eu estava enganado. Somente a solidão me acompanhava.
Quando cheguei a St. Louis, fazia muito frio, estava prestes a nevar. Encontrei um quarto num lugar legal e limpo, um segundo andar de fundos. Era cedo da noite e me atacava uma de minhas crises depressivas, o que me fez ir cedo para cama, buscando, de alguma maneira, adormecer.
Quando despertei pela manhã, estava muito frio. Eu tremia de modo incontrolável. Levantei e descobri que uma das janelas estava aberta. Fechei-a e voltei para a cama. Comecei a me sentir nauseado. Consegui dormir mais uma hora, depois acordei. Fiquei de pé, me vesti, mal alcançara o banheiro do corredor quando vomitei. Despi-me novamente e voltei a me deitar. Logo houve uma batida à porta. Não respondi. As batidas continuaram.
– Sim? – respondi.
– Você está bem?
– Sim.
– Podemos entrar?
– Entrem.
Eram duas garotas. Uma estava um pouco acima do peso, mas parecia limpa, radiante, em um vestido florido e rosado. Tinha um rosto gentil. A outra usava um cinto bem apertado que acentuava sua maravilhosa figura. Seu cabelo era longo, negro, e tinha um nariz delicado; usava saltos, dona de pernas perfeitas, vestia uma blusa branca decotada. Seus olhos eram de um castanho-escuro, muito escuro, e seguiam cravados em mim, marotos, muito marotos.
– Sou Gertrude – ela disse – e esta é Hilda.
Hilda se ruborizou quando Gertrude cruzou o quarto em direção à cama.
– Escutamos você no banheiro. Você está passando mal?
– Sim. Mas não é nada sério, tenho certeza. Uma janela aberta.
– A sra. Downing, a senhoria, está fazendo uma sopa para você.
– Não precisa, está tudo bem.
– Vai lhe fazer bem.
Gertrude se aproximou da minha cama. Hilda permaneceu onde estava, rosa e luzidia e ruborizada. Gertrude andava para lá e para cá em seus saltos agudíssimos.
– Você é novo na cidade?
– Sim.
– Não está no exército?
– Não.
– O que você faz?
– Nada.
– Não trabalha?
– Não trabalho.
– Sim – disse Gertrude a Hilda –, olhe essas mãos. Tem as mãos mais lindas que já vi. Dá pra ver que nunca pegaram no batente.
A senhoria, sra. Downing, bateu. Ela era gorda e simpática. Imaginei que seu marido estava morto e que ela era uma pessoa religiosa. Trazia uma enorme tigela de caldo de carne. Podia ver a fumaça subindo. Peguei a tigela. Trocamos gentilezas. Sim, seu marido falecera. Ela era extremamente religiosa. Havia ainda umas bolachas, mais sal e pimenta.
– Muito obrigado.
A sra. Downing olhou para as duas garotas.
– Bem, está na hora de a gente ir. E espero que as garotas não o tenham incomodado muito.
– Oh, não!
Sorri em direção à sopa. Ela gostou do gesto.
– Vamos, garotas.
A sra. Downing deixou a porta aberta. Hilda deu um jeito de ruborizar mais uma vez, deu-me um sorriso discreto, depois saiu. Gertrude permaneceu. Observou-me tomar umas colheradas do caldo.
– Está gostoso?
– Quero agradecer a todas vocês. Tudo isso... não é algo a que eu esteja acostumado.
– Vou indo.
Ela deu meia-volta e caminhou lentamente até a porta. Sua bunda se movia sob a saia negra apertada; suas pernas eram douradas. Junto à soleira, ela parou e se virou, deitando seus olhos negros novamente sobre mim, deixando-os ficar. Fiquei pasmado, em brasa. No momento em que percebeu minha reação, lançou a cabeça para trás e deu uma gargalhada. Tinha um pescoço adorável e toda aquela cabeleira negra. Ela desapareceu no corredor, deixando a porta entreaberta.
Peguei o sal e a pimenta, temperei o caldo, quebrei as bolachas de água e sal e as coloquei na tigela, aplacando minha doença a colheradas.
Após perder várias máquinas de escrever no prego, simplesmente desisti da ideia de possuir uma. Compunha minhas histórias à mão e as enviava dessa maneira. Escrevia-as à pena. Eu precisava ser um calígrafo veloz. Tinha que conseguir executar as letras mais rápido do que as ideias que elas continham. Escrevia três ou quatro contos por semana. Colocava-os no correio. Imaginava os editores da The Atlantic Monthly e da Harper’s dizendo: “Ei, aqui está mais uma das coisas daquele louco...”.
Certa noite, levei Gertrude a um bar. Sentamos lado a lado em uma mesa e bebemos cerveja. Nevava lá fora. Sentia-me um pouco melhor do que de costume. Bebemos e conversamos. Uma hora, ou por volta disso, se passou. Comecei a me fixar nos olhos de Gertrude, e ela me respondia da mesma maneira. “Nos dias de hoje, é difícil encontrar um bom homem!”, dizia a jukebox. Gertrude acompanhava a música com o corpo, com a cabeça, olhava-me nos olhos.
– Você tem uma cara muito estranha – ela disse. – Você não é realmente feio.
– Número quatro no setor de envio de mercadorias, galgando posições.
– Alguma vez você já se apaixonou?
– Isso é para pessoas de verdade.
– Você me parece de verdade.
– Não gosto de pessoas de verdade.
– Não gosta?
– Eu as odeio.
Bebemos mais um pouco, sem falar muito. Continuava a nevar. Gertrude virou a cabeça e ficou olhando para o aglomerado de pessoas. Então voltou a me olhar.
– Ele não é bonito?
– Quem?
– O soldado lá adiante. Está sentado sozinho. Tão ereto. E tem todas as medalhas no uniforme.
– Vamos, é hora de dar o fora daqui.
– Mas ainda é cedo.
– Você pode ficar.
– Não, quero ir com você.
– Não me importo com o que você fizer.
– É por causa do soldado? Você ficou assim por causa do soldado?
– Oh, merda!
– Foi o soldado!
– Estou indo.
Levantei-me, deixei uma gorjeta e caminhei em direção à porta. Ouvi Gertrude atrás de mim. Segui pela rua cortando a neve. Logo ela estava ao meu lado.
– Você nem ao menos pegou um táxi. Andar de salto alto na neve!
Não respondi. Caminhamos as quatro ou cinco quadras até a pensão. Subi os degraus lado a lado com ela. Então entrei em meu quarto, fechei a porta, me despi e fui para a cama. Escutei-a jogar alguma coisa contra a parede em seu quarto.
Filas e mais filas de bicicletas silenciosas. Caixas cheias de peças para bicicleta. Filas e mais filas de bicicletas pendendo do teto: bicicletas verdes, bicicletas vermelhas, bicicletas roxas, bicicletas azuis, bicicletas para meninas, bicicletas para meninos, todas penduradas ali; aros brilhantes, as rodas, os pneus, as tintas, os assentos de couro, as luzes traseiras, os faroletes, os freios de mão; centenas de bicicletas, fila após fila.
Tínhamos uma hora para o almoço. Eu comia depressa, tendo estado desperto ao longo de toda a noite e alvorada, sentia-me cansado e todo dolorido. Havia conseguido encontrar um local escondido debaixo das bicicletas. Eu me arrastava até ali, debaixo de três fileiras de bicicletas imaculadamente arranjadas. Deitava-me ali de costas, e suspensas sobre mim, alinhados com precisão, pendiam pneus, aros prateados e reluzentes, pinturas novas, tudo em perfeita ordem. Tudo era grandioso, correto, ordenado – 500 ou 600 bicicletas se estendendo sobre mim, cobrindo-me, tudo no seu devido lugar. De algum modo, aquilo tinha um profundo significado. Eu as olhava e sabia que tinha 45 minutos de descanso sob aquela árvore de bicicletas.
Ao mesmo tempo, eu sabia, em outra parte da minha consciência, que, se alguma vez eu me deixasse cair no meio de todas aquelas bicicletas cintilantes, seria meu fim, que eu nunca poderia me salvar. Assim, eu ficava ali deitado de costas, deixando que as rodas e os aros e as cores de alguma forma me acalmassem.
Um homem de ressaca jamais deveria deitar de costas e olhar para o telhado de um galpão. As vigas de madeira, por fim, apoderam-se de você; e as claraboias – você pode ver o gradeado para os pássaros sobre as claraboias de vidro – que formam esse gradeado de certa maneira trazem à mente de um homem a imagem de uma prisão. Então há todo aquele peso sobre os olhos, o desejo desesperado por um gole apenas, e o som das pessoas se movendo, você as escuta, sabe que seu tempo está se esgotando, de alguma maneira você terá que se levantar e também entrar nesse movimento, preenchendo ordens e empacotando pedidos...
Ela era a secretária do gerente. Seu nome era Carmen – mas, apesar do nome espanhol, ela era loira e usava vestidos colados de tricô, sapatos de salto agulha, meias de náilon, cinta-liga, trazia a boca muito pintada, porém, ah, ela sabia rebolar, sabia mexer, ondulava os quadris quando vinha com os pedidos até a mesa, voltava do mesmo modo para o escritório, a rapaziada de olho em cada movimento, em cada contração de sua bunda; oscilando, serpenteando, rebolando. Não sou um galanteador. Nunca fui. Para ser um galã, é preciso ter a lábia doce. Nunca fui bom em passar a lábia numa mulher. Mas, finalmente, com Carmen me pressionando, levei-a até um dos transportes de carga que descarregávamos nos fundos do galpão e a peguei de pé, atrás de um desses caminhões. Foi bom, foi quente; pensei no céu azul e em praias amplas e limpas, porém ao mesmo tempo foi triste – faltava, na certa, algum sentimento humano que eu desconhecia ou com o qual não sabia lidar. Eu tinha erguido aquele vestido de tricô acima de seus quadris e fiquei ali, a bombeá-la, apertando, por fim, minha boca contra seus lábios carregados de batom escarlate e gozei entre duas caixas lacradas com o ar cheio de cinzas e com ela pressionada contra um caminhão imundo e descascado na misericordiosa escuridão.
– Factótum
Posto de Bombeiros
(Para Jane, com amor)
saímos do bar
porque estávamos sem dinheiro
mas ainda tínhamos algumas garrafas de vinho
no quarto.
era cerca de quatro da tarde
e passamos por um posto de bombeiros
e ela
enlouqueceu:
“um POSTO DE BOMBEIROS! ah, eu adoro
os CAMINHÕES, são tão vermelhos e tudo o
mais! vamos entrar!”
eu a segui.
“CAMINHÕES DE BOMBEIRO!” ela gritou
rebolando seu grande
rabo.
ela já tentava subir num
deles, erguendo a saia até
a cintura, tentando alcançar o
banco.
“aqui, aqui, deixe eu ajudar você!” correu um
bombeiro.
outro bombeiro se aproximou de
mim: “nossos cidadãos são sempre bem-vindos”,
ele me
disse.
o outro cara já estava ao lado dela no
banco. “você tem uma dessas COISAS enormes?”
ela lhe perguntou. “digo, hahaha!, quero dizer um
desses CAPACETES enormes!
“tenho um outro capacete que também é enorme”, ele lhe
disse.
“hum, hahaha!”
“você joga cartas?” perguntei ao meu
bombeiro. tenho 43 centavos e todo o tempo do
mundo.
“venha comigo até os fundos” ele
disse. “claro, nada de jogo por aqui.
é contra as
regras.”
“entendo”, eu lhe
disse.
já havia transformado meus 43 centavos em
um dólar e noventa
quando a vi subir as escadas com
seu bombeiro.
“ele vai me mostrar seus
alojamentos”, ela me
disse.
“entendo”, eu lhe
respondi.
quando o bombeiro dela desceu deslizando pelo mastro
dez minutos depois
eu lhe fiz um aceno
com a cabeça.
“são 5
dólares.”
“5 dólares pelo
quê?”
“não queremos um escândalo, não é
mesmo? nós dois poderíamos perder nossos
empregos. claro, eu não estou
trabalhando.
ele me passou os
5.
“sente aí, você pode
recuperá-los.”
“qual que é o jogo?”
“blackjack.”
“jogar é contra a
lei.”
“tudo que é interessante é. além disso,
você está vendo algum dinheiro sobre a
mesa?”
ele se sentou.
agora éramos
5.
“que tal a parada, Harry?” alguém
perguntou.
“nada mal, nada
mal.”
o outro cara subia as
escadas.
jogavam muito mal.
não se davam ao trabalho de memorizar o
baralho. não sabiam se sobravam mais
cartas altas do que baixas. e basicamente jogavam até estourar,
não sabiam garantir uma mão
baixa.
quando o outro cara desceu
me passou uma nota de
cinco.
“como estava, Marty?”
“nada mal. ela conhece... uns movimentos
bacanas.”
“mais uma carta!” eu disse. “uma ótima garota. vou
eu mesmo lá.”
ninguém disse
nada.
“algum incêndio sério nos últimos tempos?”
perguntei.
“não. nada de
mais.”
“caras, vocês precisam
se exercitar. mais uma carta para
mim!”
um garoto grande e ruivo, que estava dando um lustre num
caminhão
largou sua flanela e
subiu as escadas.
ao descer me jogou uma nota de
cinco.
quando o quarto cara desceu eu lhe dei
3 de cinco por uma de
vinte.
não sei quantos bombeiros
estavam no prédio ou onde eles
estavam. notei que alguns haviam escapado da minha cobrança
mas eu era um bom
esportista.
estava escurecendo
quando o alarme
tocou.
começaram a correr pra lá e pra cá
caras surgiram deslizando pelo
mastro.
então ela surgiu deslizando pelo
mastro. era boa nesse negócio do
mastro. uma mulher de verdade. nada além de tripas
e
rabo.
“vamos embora”, eu lhe
disse.
ela ficou ali, dando tchauzinho para os
bombeiros mas eles já não
pareciam
muito interessados.
“vamos voltar para o bar”, eu lhe
disse.
“ah, você arrumou uma
grana?”
“achei uns trocos que eu achava que tinha
perdido...”
sentamos no fundo do bar
com uísque e cerveja para dar uma
amaciada.
“preciso dar uma boa
dormida.”
“claro, baby, você precisa de um bom
sono.”
“olha aquele marinheiro me encarando!
deve achar que eu sou... uma...”
“não, ele não acha nada disso. relaxe, você tem
classe, muita classe. às vezes você me lembra uma
cantora de ópera. você sabe, uma daquelas prima-donas.
você exala classe.
bebe
aí.”
pedi mais 2
rodadas.
“sabe, paizinho, você é o único homem que eu
AMO! digo, de verdade... AMO! sabe disso,
né?”
“claro que sei. às vezes penso que sou um rei
apesar de ser quem sou.”
“sim, sim, é isso que estou dizendo, algo
assim.”
tive que ir mijar. quando voltei
o marinheiro estava sentado no meu
lugar. a perna dela roçava a do marinheiro
enquanto ele falava.
me afastei e fui jogar dardos com
Harry o Cavalo e com o jornaleiro da
esquina.
O Hotel Sans era o melhor da cidade de Los Angeles. Era um hotel antigo, mas tinha a classe e o charme que faltavam aos mais novos. Ficava de frente para o parque do centro da cidade.
Era famoso por suas convenções de negócio e pelas putas caríssimas, de talento quase legendário que, no final de uma noite lucrativa, costumavam presentear os mensageiros com boas gorjetas. Havia também histórias de mensageiros que haviam se tornado milionários – mensageiros desgraçados, com cacetes de 27 centímetros que haviam tirado a sorte grande ao conhecer e se casar com alguma velhota rica que se hospedara no hotel. E a comida, as LAGOSTAS, os enormes chefs negros em seus altos e brancos chapéus de mestre-cuca, que sabiam de tudo, não apenas sobre comida, mas sobre a vida e sobre mim e sobre todas as coisas.
Fui contratado para trabalhar na seção de abastecimento. O setor de descarga tinha estilo: para cada caminhão que chegava, havia dez caras a postos para descarregar, quando na verdade dois bastariam. Eu vestia minhas melhores roupas. Nunca tive que tocar em nada.
Descarregávamos (eles descarregavam) tudo o que chegava ao hotel, em sua maioria itens alimentícios. Minha impressão era de que os ricos comiam mais lagostas do que qualquer outra coisa. Caixas e mais caixas do bicho não paravam de chegar, criaturas deliciosamente rosadas e grandes, balançando suas garras e barbas.
– Você gosta desse negócio, não, Chinaski?
– Claro. Maravilha – eu concordava.
Um dia, a mulher encarregada dos empregados me chamou. O escritório ficava atrás do setor de descarga.
– Quero que você gerencie este escritório aos domingos, Chinaski.
– E o que tenho que fazer?
– Basta atender ao telefone e contratar os lavadores de prato dos domingos.
– Tudo bem!
O primeiro domingo foi ótimo. Só tive que ficar ali sentado. Logo entrou um velho.
– Pois não, camarada? – perguntei.
Ele vestia um terno caro, mas estava cheio de vincos e um pouco sujo; e os punhos estavam puídos. Segurava o chapéu em uma das mãos.
– Escute, vocês precisam de um cara que seja bom de conversa? Alguém que possa tratar com o público? Tenho uma certa dose de charme, sei contar histórias engraçadas, sou capaz de fazer as pessoas darem boas risadas.
– É?
– Ah, sim.
– Faça-me rir.
– Oh, você não entende. Tem que ser no cenário adequado, é preciso clima, decoração, você entende...
– Faça-me rir.
– Senhor...
– Você não serve, não passa de um bêbado!
Os lavadores de pratos eram contratados pela tarde. Saí do escritório. Quarenta vagabundos de rua estavam por ali.
– Prestem atenção! Precisamos de cinco homens de qualidade! Cinco! Nada de bêbados, pervertidos, comunistas ou molestadores de criança! E é preciso ter o cartão da previdência! Vamos lá, tirem o cartão do bolso e ergam sobre suas cabeças!
Os cartões começaram a aparecer. Eles os agitavam.
– Ei, eu tenho um!
– Ei, camarada, olhe eu aqui! Me dê essa chance, cara!
Olhei para eles devagar.
– Você, com essa marca de merda no colarinho – apontei. – Dê um passo à frente.
– Isso não é uma marca de merda, senhor. É molho de carne.
– Bem, sei não, camarada, me parece que você anda comendo mais merda do que rosbife!
– Ha, ha, ha, ha – gargalharam os vagabundos. – Ha, ha, ha, ha.
– Certo. Ainda preciso de quatro bons lavadores! Tenho aqui quatro moedinhas na mão. Vou jogar pra cima. Os quatro que me trouxerem as moedinhas lavarão os pratos hoje!
Lancei as moedas bem alto sobre a multidão. Corpos saltaram e caíram, roupas se rasgaram, muitos praguejares, um homem gritou, vários socos foram trocados. Então os quatro sortudos se aproximaram, um por vez, ofegando, cada qual com sua moedinha. Dei-lhes seus cartões de trabalho e lhes indiquei a cantina dos empregados, onde, antes de mais nada, receberiam comida. Os outros vagabundos foram se retirando vagarosamente pela rampa de carregamento, desceram e seguiram pela viela em direção à terra devastada que é o centro de Los Angeles aos domingos.
O Mercado dos Trabalhadores Rurais[10] ficava na Fifth Street com a San Pedro. Você tinha que se apresentar às cinco da manhã. Ainda estava escuro quando eu cheguei lá. Alguns homens estavam sentados, outros de pé, enrolando seus cigarros e conversando baixinho. Tais lugares sempre têm o mesmo cheiro – suor velho, urina e vinho barato.
No dia anterior, eu tinha ajudado Jan a se mudar para a casa de um corretor de imóveis, um gordo que morava na Kingsley Drive. Fiquei escondido num canto do saguão e a vi beijá-lo. Logo os dois entraram no apartamento dele e a porta se fechou. Retornei sozinho para a rua, notando pela primeira vez os papéis esvoaçantes e o lixo que se acumulava pelas calçadas. Havíamos sido despejados de nosso apartamento. Eu tinha US$ 2,08. Jan me prometeu que esperaria minha sorte mudar, mas era difícil de acreditar nisso. O nome do corretor era Jim Bemis, tinha um escritório na Alvarado Street e era cheio da grana.
– Odeio quando ele trepa comigo – ela tinha dito.
Agora, provavelmente, ela estava dizendo a mesma coisa de mim.
Laranjas e tomates eram empilhados em diversas caixas e, aparentemente, eram de graça. Apanhei uma laranja, fiz um buraco com os dentes na casca e chupei o suco. Eu havia exaurido os meus benefícios do seguro-desemprego desde que deixara o Hotel Sans.
Um cara de cerca de quarenta anos veio em minha direção. Seu cabelo parecia morto, de fato nem parecia cabelo humano, lembrando mais fios de linha. A luz branca que vinha do teto lhe atingia em cheio. Ele tinha verrugas marrons na cara, muitas delas concentradas ao redor de sua boca. Um ou dois pelos negros brotavam de cada uma delas.
– Como vai?
– Tudo bem.
– Está a fim de um boquete?
– Não, acho que não.
– Estou com tesão, cara. Estou excitado. Sei realmente fazer um.
– Escute, sinto muito. Não estou a fim.
Ele se afastou tomado de fúria. Dei uma olhada pelo galpão. Havia cerca de cinquenta homens esperando. Havia dez ou doze funcionários do governo sentados em suas mesas ou caminhando ao redor. Eles fumavam e pareciam mais preocupados que os vagabundos de rua. Os funcionários estavam separados dos vagabundos por uma sólida tela de metal entrelaçada, que ia do teto ao chão. Alguém a tinha pintado de amarelo. Era um amarelo bastante apagado.
Quando um dos funcionários tinha que fazer uma transação com um dos vagabundos, ele destravava e corria uma portinhola de vidro presa à tela. Quando a questão da papelada se resolvia, o funcionário fechava a portinhola, trancava-a por dentro e, toda vez que isso ocorria, a esperança parecia desaparecer. Todos despertávamos quando a portinhola deslizava, a chance de cada homem era a chance de todos nós, mas, quando ela se fechava, a esperança evaporava. Então restava apenas olhar para as caras uns dos outros.
Na parede dos fundos, atrás da tela amarela e dos funcionários, havia seis quadros-negros. Havia giz branco e apagadores, como na escola. Cinco dos quadros estavam vazios, embora ainda fosse possível enxergar os resquícios das mensagens anteriores, de trabalhos havia muito preenchidos e naquele momento perdidos para sempre, ao menos no que nos dizia respeito.
Havia uma mensagem no sexto quadro:
PRECISA-SE DE COLHEDORES DE TOMATES EM
BAKERSFIELD
Eu pensara que as colheitadeiras automáticas haviam extinguido esse trabalho. No entanto, ali estava o anúncio. Seres humanos, aparentemente, saem mais barato que máquinas. E máquinas quebram. É isso.
Dei uma olhada ao redor do recinto – não havia orientais nem judeus, pouquíssimos negros. A maioria dos vagabundos ou era composta de brancos pobres ou de mexicanos. Os dois negros, naquele momento, já iam altos no vinho.
Então um dos funcionários se pôs de pé. Era um homem grande, com uma proeminente barriga de cerveja. O que você podia notar era sua camisa amarela com listras pretas verticais. A camisa estava esturricada, e ele usava braçadeiras – para segurar suas mangas como nas fotografias tiradas em 1890. Ele se aproximou e destravou uma das janelas de vidro na tela amarela.
– Muito bem! Há um caminhão lá nos fundos recolhendo gente pra trabalhar em Bakersfield!
Correu a janela, trancou-a, sentou-se à sua mesa e acendeu um cigarro.
Por um momento, ninguém se mexeu. Então, um a um, aqueles que estavam sentados nos bancos começaram a se levantar, os rostos sem expressão. Os homens que já aguardavam de pé deixaram cair seus cigarros e os apagaram cuidadosamente com as solas de seus sapatos. Depois disso, começou um êxodo vagaroso e geral; todos saíram em fila por uma porta lateral que dava para um pátio cercado.
O sol nascia. Na verdade, olhávamos pela primeira vez uns para os outros. Uns poucos homens sorriam ao reconhecer um rosto familiar.
Permanecemos enfileirados, lutando para conseguir chegar até a caçamba, o dia começando a raiar. Era hora de partir. Subíamos em um caminhão de exército usado na Segunda Guerra Mundial, a cobertura de lona toda rasgada. Fomos avançando, aos encontrões, mas ao mesmo tempo tentando manter a mínima polidez. Então, cansado das cotoveladas, dei um passo para o lado.
A capacidade do caminhão era admirável. O grande capataz mexicano acompanhava a tudo em um dos lados da traseira da caçamba, acenando sem parar:
– Isso aí, isso aí, vamos lá, vamos lá...
Os homens avançavam devagar, como se entrassem na boca de uma baleia.
Pela lateral do caminhão eu podia ver os rostos deles; falavam baixinho e sorriam. Sentia a um só tempo repugnância por aquelas pessoas, mas também minha solidão. Então decidi que era capaz de colher tomates. Decidi embarcar. Alguém bateu em mim pelas costas. Era uma mexicana gorda e ela parecia bastante sentimental. Agarrei-a pelos quadris para ajudá-la a subir. Ela era muito pesada, difícil de manejar. Finalmente encontrei apoio em algo; aparentemente uma de minhas mãos se atolou no fundo da sua virilha. Consegui colocá-la para dentro. Então fui em busca de um apoio para também subir. Eu era o último. O capataz mexicano pôs o pé sobre minha mão.
– Não – ele disse –, já temos gente que chega.
O motor do caminhão deu a partida, engasgou e apagou. O motorista tentou novamente. Desta vez pegou, e eles seguiram em frente.
A Associação de Trabalhadores para a Indústria ficava nos limites da periferia. Aqui os vagabundos de rua eram mais bem vestidos, mais jovens, porém igualmente indiferentes. Sentavam-se por ali, nas bordas das janelas, inclinados para frente, aquecendo-se ao sol e bebendo o café grátis que a A.T.I. oferecia. Não havia creme e açúcar, mas era de graça. Não havia qualquer tela nos separando dos funcionários. Os telefones tocavam com mais frequência, e os empregados aqui tinham um aspecto muito mais descontraído que os do Mercado dos Trabalhadores Rurais.
Aproximei-me de um balcão e me foi dada uma ficha e uma caneta presa por corrente.
– Preencha – disse o funcionário, um rapaz mexicano de boa aparência que tentava esconder sua cordialidade atrás de uma postura profissional.
Comecei a preencher a ficha. Na lacuna para o número de telefone, escrevi: nenhum. Após grau de escolaridade e capacitação profissional, escrevi: dois anos na L.A. City College. Jornalismo e belas-artes.
Então eu disse ao funcionário:
– Rasurei a ficha. Poderia me conseguir outra?
Ele me passou uma nova em branco. Em vez daquilo, escrevi: ensino médio, L. A. High School. Carregador, almoxarife, trabalhador braçal. Alguma experiência como datilógrafo.
Devolvi-lhe a ficha.
– Muito bem – disse o funcionário –, sente aí e vamos ver se aparece alguma coisa.
Encontrei um espaço na borda de uma das janelas e me sentei. Um negro velho estava sentado próximo de mim. Ele tinha um rosto interessante; não trazia aquele olhar resignado que a maioria dos que estavam ali mostrava. Era como se ele tentasse não rir de si mesmo nem do resto de nós.
Ele viu que eu o olhava. Sorriu com malícia.
– O cara que chefia esse lugar é muito esperto. Foi demitido dos Trabalhadores Rurais, ficou puto da vida, veio pra cá e abriu isso aqui. Especializado em serviços de meio turno. Um cara que quer descarregar um vagão, rápido e barato, liga pra cá.
– Pois é, ouvi falar.
– O cara quer descarregar um vagão, rápido e barato, liga pra cá. O chefe desse lugar leva cinquenta por cento. A gente não reclama, pega o que aparece.
– Pra mim está beleza. Merda.
– Você parece desanimado. Tudo certo?
– Perdi uma mulher.
– Logo vêm outras, e você também vai acabar perdendo elas.
– Pra onde elas vão?
– Experimente isso aqui.
Era uma garrafa em um saco. Tomei um gole. Vinho do porto.
– Obrigado.
– Não há mulheres quando se está na rua.
Ele me passou novamente a garrafa.
– Não deixe ele ver nós dois bebendo. Isso deixa ele louco.
Enquanto estávamos ali sentados, vários homens foram chamados e seguiram para algum posto. Aquilo nos alegrou. Pelo menos havia alguma ação.
Meu amigo negro e eu ficamos esperando, revezando a garrafa.
Até que ela acabou vazia.
– Onde é a loja de bebidas mais próxima? – perguntei.
Recebi o endereço e fui até lá. De alguma maneira, durante o dia, o calor sempre era escaldante nas periferias de Los Angeles. Você avistava os vagabundos caminhando nas redondezas com pesados sobretudos. Mas quando a noite caía, e o albergue estava cheio, aqueles sobretudos vinham a calhar.
Quando retornei da loja, meu amigo continuava ali.
Sentei-me e abri a garrafa, passei o saco.
– Pô, mantém o negócio na moita – ele disse.
Era agradável ficar bebendo aquele vinho.
Alguns mosquitos começaram a se reunir e a circular ao nosso redor.
– Mosquitinhos do vinho – ele disse.
– Os filhos da puta ficam viciados nisso.
– Sabem o que é bom.
– Bebem pra esquecer suas mulheres.
– Só bebem.
Dei um golpe com a mão no ar e apanhei um dos mosquitinhos. Quando a abri a única coisa que pude ver foi uma mancha negra e a estranha visão de duas asinhas. Nada mais.
– Aí vem ele!
Era o jovem de boa aparência que comandava o lugar. Apressou-se em nossa direção.
– Muito bem! Caiam fora daqui! Sumam, seus bebuns de merda! Deem o fora daqui antes que eu chame a polícia!
Ele nos conduziu até a porta, aos empurrões e nos maldizendo. Senti culpa, mas nenhuma raiva. Mesmo enquanto nos empurrava, eu sabia que ele não dava a mínima para o que fazíamos. Ele usava um anel enorme na mão direita.
Não avançávamos com a pressa necessária, e recebi um golpe com a mão do anel no meu supercílio esquerdo; logo senti o sangue começar a correr e depois meu olho inchar. Meu amigo e eu estávamos de volta para as ruas.
Afastamo-nos. Encontramos um pórtico e sentamos sobre os degraus. Passei-lhe a garrafa. Ele deu um gole.
– Coisa fina.
Devolveu-me a garrafa. Dei um gole.
– É, coisa fina.
– O sol já vai alto.
– É, o sol já vai alto mesmo.
Ficamos em silêncio, revezando a garrafa.
Então a bebida chegou ao fim.
– Bem – ele disse, está na minha hora.
– Nos falamos.
Ele se afastou. Levantei-me, segui na direção contrária, dobrei a esquina e ganhei a Main Street. Segui até chegar ao Roxie.
As fotos das strippers estavam expostas atrás de um vidro junto à porta de entrada. Aproximei-me e comprei um ingresso. A garota no guichê parecia melhor do que as fotos. Naquele momento me restavam 38 centavos. Entrei no teatro escuro equipado com oito fileiras de poltronas. As três primeiras estavam lotadas.
Tive sorte. O filme já havia terminado, e a primeira stripper já estava no palco. Darlene. A primeira geralmente era a pior, uma veterana decadente que não conseguiria, no mais das vezes, nada além de uns números de bailado na segunda linha do coro. Seja como fosse, tínhamos Darlene para a abertura. Era provável que alguma das dançarinas tivesse sido assassinada, ou estivesse menstruada, ou tivesse tido uma crise histérica, explicando assim a nova oportunidade para Darlene de um número solo.
Darlene, no entanto, era boa. Magra, mas peituda. Um corpo que lembrava um salgueiro. Ao fim daquelas costas esguias, no meio daquele corpo magro, brotava um enorme traseiro. Era como um milagre – o suficiente para levar um homem à loucura.
Darlene trajava um vestido negro de veludo, longo e muito justo – suas panturrilhas e pernas pareciam de um branco mortiço contra aquela negrura. Ela dançava e nos olhava com olhos de maquiagem extremamente carregada. Era sua chance. Ela queria retornar – ter novamente o seu número no programa. Eu estava com ela. À medida que o zíper descia, mais e mais do seu corpo ficava à mostra, saltando para fora daquele sofisticado vestido de veludo negro, pernas e carne branca. Logo ela estava apenas com seu sutiã cor-de-rosa e uma tanga cheia de penduricalhos, falsos diamantes que balançavam e reluziam aos seus movimentos.
Darlene seguiu dançando e se agarrou à cortina do palco, que estava puída e coberta por uma grossa camada de pó. Ela se agarrou ao pano, dançando no compasso que o quarteto de músicos impunha e sob a luz rosada dos holofotes.
Começou a trepar com a cortina. A banda acelerou o ritmo. Darlene realmente se entregou para a cortina. As luzes rosadas passaram de súbito a púrpuras. A banda veio com tudo. Ela pareceu chegar ao orgasmo. Sua cabeça se curvou para trás, sua boca se abriu.
Então ela se endireitou e voltou dançando para o centro do palco. De onde eu estava sentado, podia escutá-la cantar para si mesma por sobre a música. Agarrou seu sutiã cor-de-rosa e o arrancou, enquanto um cara três filas abaixo acendia um cigarro. Agora restava apenas a tanga. Empurrou o dedo contra o umbigo e gemeu.
Darlene seguiu dançando no centro do palco. A banda tocava com mais sutileza. Ela começou a se mexer com doçura. Então o quarteto começou a esquentar a coisa novamente. Os músicos avançavam para o ato culminante; o baterista atacava o aro da caixa lembrando o fogo de uma metralhadora; eles pareciam extenuados, desesperados.
Darlene manipulou seus seios nus, mostrando-os para a gente, seus olhos reluziam com a plenitude do sonho, seus lábios úmidos e entreabertos. De repente, ela se voltou e balançou seu imenso rabo para nós. As contas tremularam e brilharam em um bailado louco e cintilante. O canhão de luz acompanhava a dança e os movimentos como uma espécie de sol. O quarteto seguia botando para quebrar. Darlene girava e girava. Ela lançou as contas para longe. Eu olhei, eles olharam. Podíamos ver os pelos de sua buceta através de sua segunda pele. A banda realmente fazia sua bunda vibrar.
E eu não conseguia ficar de pau duro.
– Factótum
Cisne da Primavera
cisnes também morrem na primavera
e lá flutua um
morto num domingo
emborcado
circulando na corrente
e eu caminho até a rotunda
por onde circulam
deuses em carruagens
cachorros,
mulheres
e a morte
desce pela minha garganta
como um rato,
e escuto as pessoas se aproximarem
com suas cestas de piquenique
e suas risadas,
e me sinto culpado
pelo cisne
como se a morte
fosse algo vergonhoso
e como um louco
eu me afasto
e os abandono
meu belo cisne.
Um Dia
Brock, o chefe de seção, estava sempre escarafunchando o cu com os dedos, usando a mão esquerda. Sofre de um caso grave de hemorroidas.
Tom percebeu isso ao longo do dia de trabalho.
Brock estivera na sua cola por meses. Aqueles olhos redondos e sem vida pareciam estar sempre à espreita de Tom. E então Tom acabou notando a mão esquerda, enfiada no cu, escarafunchando.
E Brock estava realmente na sua cola.
Tom executava seu trabalho tão bem quanto os outros. Talvez não mostrasse exatamente o mesmo entusiasmo dos demais, mas cumpria com suas obrigações.
Ainda assim, Brock não deixava de persegui-lo, fazendo comentários, despejando sugestões inúteis.
Brock era parente do dono da loja e um posto lhe fora arranjado: chefe de seção.
Naquele dia, Tom terminava de acondicionar o dispositivo de luz num pacote oblongo de um metro de comprimento e o depositou na pilha que estava atrás da sua mesa de trabalho. Voltou-se para pegar um novo conjunto da linha de montagem.
Brock estava parado à sua frente.
– Quero falar com você, Tom...
Brock era alto e magro. Seu corpo se inclinava para frente a partir da cintura. A cabeça estava sempre curvada, como se pendurada em seu pescoço longo e esguio. A boca ficava sempre aberta. Seu nariz era bastante proeminente com narinas muito grandes. Os pés eram grandes e desajeitados. As calças ficavam frouxas em seu corpo magricelo.
– Tom, você não está fazendo seu trabalho.
– Estou mantendo a média de produção. Do que você está falando?
– Não acho que você esteja empacotando direito. É preciso usar mais fita. Tivemos alguns problemas com quebra de materiais e estamos querendo resolver.
– Por que vocês não colocam as iniciais de cada empacotador nas caixas? Assim, se houver algum estrago por causa de mau acondicionamento, vocês podem rastrear o culpado.
– Quem deve pensar por aqui sou eu, Tom. Esse é o meu trabalho.
– Claro.
– Venha cá. Quero que você observe como o Roosevelt faz os pacotes.
Foram até a mesa de Roosevelt.
Roosevelt estava no trabalho havia treze anos.
Ficaram observando Roosevelt embalar os dispositivos de luz.
– Vê como ele faz? – perguntou Brock.
– Bem, sim...
– O que eu quero dizer é o seguinte: veja como ele faz o empacotamento... ele ergue e deixa cair lá dentro... é como tocar piano.
– Mas desse jeito ele não está protegendo o dispositivo...
– Claro que está. Ele o está acomodando, não consegue ver?
Tom discretamente inspirou e expirou.
– Tudo bem, Brock, está bem acomodado...
– Faça como ele...
Brock deu uma circulada na mão esquerda e a cravou lá dentro.
– A propósito, sua linha de montagem está atrasada...
– Claro. Você estava falando comigo.
– Isso é problema seu. Vai ter que recuperar agora.
Brock enfiou mais uma vez os dedos e depois se afastou.
Roosevelt ria em silêncio.
– Acomode, filho da puta!
Tom riu.
– Quanta merda será que um cara tem que aguentar apenas pra se manter vivo?
– Muita – veio a resposta –, e nunca para...
Tom voltou para sua mesa e conseguiu recuperar o prejuízo. E quando Brock olhava para ele, empacotava com a técnica da “acomodação”. E Brock sempre parecia estar de olho nele.
Por fim, chegou a hora do almoço, trinta minutos de intervalo. Mas para muitos dos trabalhadores a hora do almoço não significa fazer uma refeição, mas sim descer até a Vila e entornar garrafas e mais garrafas de cerveja, preparando-se para enfrentar o turno da tarde.
Alguns dos caras as misturavam com anfetaminas. Outros, com barbitúricos. Muitos com anfetaminas e barbitúricos, levando tudo goela abaixo com uma cerveja.
Do lado de fora da fábrica, no estacionamento, havia mais gente, sentada no interior de carros velhos, reunida em grupos diferentes. Os mexicanos ficavam num, e os negros, noutro, e às vezes, ao contrário do que acontecia nos presídios, eles se misturavam. Não havia muitos brancos, apenas alguns sulistas, sempre silenciosos. Mas Tom gostava de toda a rapaziada.
O único problema no lugar era o Brock.
Durante aquele almoço, Tom estava em seu carro com Ramon.
Ramon abriu a mão e lhe mostrou um enorme comprimido amarelo. Parecia uma bala quebra-queixo.
– Ei, cara, experimente isso. Você vai ficar totalmente na paz. Quatro ou cinco horas parecem cinco minutos. E você vai se sentir FORTE, nada fará você cansar...
– Obrigado, Ramon, mas eu já estou na maior merda.
– Mas isso aqui é justamente pra tirar você da merda, não sacou?
Tom não respondeu.
– Beleza – disse Ramon –, eu já tinha tomado o meu, mas fico com o seu também!
Colocou o comprimido na boca, ergueu a garrafa de cerveja e tomou um bom gole. Tom ficou olhando aquele comprimido gigantesco, dava para vê-lo descer pela garganta de Ramon. Até que enfim foi engolido.
Ramon se virou devagar na direção de Tom e sorriu:
– Veja, a porra do negócio nem chegou no meu estômago e já estou me sentindo melhor!
Tom riu.
Ramon tomou mais um gole de cerveja, depois acendeu um cigarro. Para um homem que supostamente estava se sentindo tão bem ele parecia sério demais.
– Sabe, cara, sou um homem de merda... não posso nem dizer que sou homem... Olha só, na noite passada tentei comer a minha esposa... Ela engordou uns vinte quilos este ano... Preciso me embebedar pra conseguir... Bombei e bombei, cara, e nada... O pior de tudo, fiquei com pena dela... Disse que era por causa do trabalho. E era por causa do trabalho, mas também não era. Ela se levantou e ligou a tevê...
Ramon continuou:
– Cara, tudo mudou. Há um ou dois anos atrás, tudo era divertido entre a gente, interessante, eu e a minha esposa... Ríamos de qualquer coisa... Agora não há mais nada disso... O que a gente tinha se perdeu, não sei onde foi parar...
– Sei como é isso, Ramon...
Ramon se endireitou com rapidez, como se recebesse uma mensagem:
– Merda, cara, está na nossa hora!
– Vamos lá!
Tom retornava da linha de montagem com um dispositivo e Brock o esperava. Brock disse:
– Tudo bem, deixe isso aí. Venha comigo.
Seguiram até a linha de montagem.
E lá estava Ramon com seu pequeno avental marrom e seu bigodinho.
– Fique à esquerda dele – disse Brock.
Brock ergueu a mão e a maquinaria começou a funcionar. A esteira movia os dispositivos de um metro em direção a eles num ritmo firme mas previsível.
Ramon tinha esse enorme rolo de papel à sua frente, uma bobina aparentemente interminável de pesado papel marrom. Surgiu o primeiro dispositivo de luz vindo da linha de montagem. Ele rasgou um pedaço de papel, abriu-o sobre a mesa, e em seguida colocou o dispositivo de luz sobre ele. Dobrou o papel ao meio, prendendo-o com durex. Depois dobrou as pontas em triângulo, primeiro a esquerda, depois a direita, e então o dispositivo seguiu na direção de Tom.
Tom cortou um pedaço de fita adesiva e a fez deslizar com cuidado sobre o topo do dispositivo, onde o papel deveria ser selado. Então, com pedaços menores, terminou de fixar a dobra da esquerda e depois a da direita. Depois ergueu o pesado dispositivo, deu meia-volta, seguiu por um corredor e colocou-o direitinho num suporte de parede, onde aguardaria por um dos empacotadores. Por fim retornou à mesa em que outro dispositivo já vinha em sua direção.
Era o pior trabalho em toda a fábrica e todo mundo sabia disso.
– Agora você vai trabalhar com o Ramon, Tom...
Brock se afastou. Não havia necessidade alguma de vigiá-lo: se Tom não executasse a função com propriedade, a linha de montagem inteira pararia.
Ninguém aguentava muito tempo como o segundo de Ramon.
– Sabia que você ia precisar do amarelão – disse Ramon com um sorriso.
Os dispositivos se moviam sem parar na direção deles. Tom cortava metros e mais metros de fita durex da máquina à sua frente. Era uma fita reluzente, grossa e pegajosa. Esforçava-se ao máximo para manter o acelerado ritmo de trabalho, mas, para acompanhar Ramon, algumas precauções tinham de ser eliminadas: a ponta cortante da máquina de durex acabava por provocar, ocasionalmente, cortes longos e profundos em suas mãos. Os cortes eram quase invisíveis e quase nunca sangravam, mas, ao olhar para seus dedos e suas palmas, podia ver as linhas brilhantes e vermelhas na pele. Não havia nenhuma pausa. Os dispositivos pareciam se mover cada vez mais rápido e a cada momento se tornavam mais e mais pesados.
– Caralho – disse Tom –, vou ter que desistir. Acho que até dormir no banco da praça é melhor.
– Claro – disse Ramon –, claro, qualquer coisa é melhor do que essa merda...
Ramon trabalhava com um sorriso fixo e insano no rosto, negando a impossibilidade daquilo tudo. E então a maquinaria parou, como ocorria de vez em quando.
Que dádiva dos deuses foi aquilo!
Alguma parte havia enguiçado, superaquecido. Sem esses colapsos das máquinas, muitos dos trabalhadores não aguentariam. Durante essas pausas de dois ou três minutos, eles conseguiam reorganizar seus sentidos e suas almas. Quase.
Os mecânicos lutavam com energia para encontrar a causa da falha.
Tom espichou os olhos para as garotas mexicanas que trabalhavam na linha de montagem. Para ele, elas eram todas lindas. Desperdiçavam o seu tempo, entregavam-se a uma vida tola e marcada pela rotina do trabalho, mas ainda assim mantinham alguma coisa em si, alguma coisa não identificável. Boa parte delas usava pequenas fitas nos cabelos: azuis, amarelas, verdes, vermelhas... E faziam piadas entre si e riam o tempo todo. Mostravam uma coragem enorme. Seus olhos conheciam alguma coisa da vida.
Mas os mecânicos eram bons, muito bons, e a maquinaria já voltava a funcionar. Os dispositivos de luz se moviam outra vez na direção de Tom e Ramon. Todos estavam de novo a soldo da Companhia Sunray.
E depois de certo tempo, Tom ficou tão cansado que há muito já não se poderia mais chamar cansaço o que sentia, era como estar bêbado, era como estar enlouquecendo, era como estar bêbado e louco de uma só vez.
Ao aplicar mais um pedaço de durex em um dispositivo de luz, ele gritou:
– SUNRAY!
Talvez tivesse sido o tom, talvez o momento do grito. Seja como for, todos começaram a rir, as mexicanas, os empacotadores, os mecânicos, mesmo o velho que se ocupava de lubrificar e conferir a maquinaria, todos riam. Loucura total.
Brock se aproximou.
– O que está acontecendo? – perguntou.
Ele ficou em silêncio.
Os dispositivos surgiam e partiam; os trabalhadores permaneciam.
Então, de alguma maneira, como despertar de um pesadelo, o dia terminou. Foram até o painel apanhar seus cartões, esperaram na fila para bater o relógio-ponto.
Tom bateu o ponto, colocou o cartão de volta no painel e seguiu na direção do seu carro. Deu a partida e ganhou a rua, pensando: “Espero que ninguém se atravesse no meu caminho, estou tão fraco que acho que não conseguiria nem pisar no freio”.
Tom dirigia com a gasolina no vermelho. Estava cansado demais para parar num posto de gasolina.
Deu um jeito de estacionar, chegou até a porta, abriu-a e entrou.
A primeira coisa que viu foi Helena, sua esposa. Vestia uma camisola suja e frouxa, estirada no sofá, a cabeça sobre um travesseiro. Sua boca estava aberta, ela roncava. Tinha uma boca bastante redonda, e seu ronco era uma mistura de cuspida e engasgo, como se não pudesse se decidir entre cuspir o que lhe restava de vida ou engoli-la.
Era uma mulher infeliz. Sentia que sua vida era incompleta.
Uma garrafa de meio litro de gim estava sobre a mesa de centro. Três quartos tinham sido consumidos.
Os dois filhos de Tom, Rob e Bob, de cinco e sete anos, batiam uma bolinha de tênis contra a parede. Era a parede do lado sul da casa, a que não tinha nenhum móvel. A parede uma vez fora branca, mas agora trazia as marcas da sujeira das infinitas rebatidas das bolinhas de tênis.
Os garotos não prestaram nenhuma atenção à chegada do pai. Haviam parado de jogar a bolinha contra a parede. Discutiam agora.
– EU ELIMINEI VOCÊ!
– NÃO, TEM QUE SER QUATRO BOLAS!
– TRÊS JÁ ESTÁ FORA!
– QUATRO!
– Ei, só um pouquinho – interveio Tom –, posso perguntar uma coisa pra vocês?
Os dois pararam e o encararam, quase ofendidos.
– É isso aí – disse Bob por fim. Ele era o garoto de sete anos.
– Como vocês conseguem jogar basebol batendo uma bolinha de tênis contra a parede?
Olharam para Tom, mas logo o ignoraram.
– TRÊS ESTÁ FORA!
– NÃO, SÓ NA BOLA QUATRO!
Tom seguiu até a cozinha. Havia uma panela branca no fogão. Uma fumaça negra se erguia de seu interior. Tom ergueu a tampa. O fundo estava enegrecido, com batatas, cenouras e pedaços de carne, tudo queimado. Tom fechou a panela e desligou o fogo.
Avançou até a geladeira. Havia uma latinha de cerveja ali. Pegou e abriu, tomou um gole.
O som da bolinha de tênis contra a parede recomeçou.
Em seguida um outro som: Helena. Ela havia trombado em alguma coisa. E agora estava ali, de pé na cozinha. Na mão direita segurava a garrafinha de gim.
– Você deve estar puto, não é?
– Só queria que você desse comida para as crianças...
– Você me deixa a porra de 3 dólares por dia. O que vou fazer com a porra de 3 dólares?
– Podia ao menos comprar papel higiênico. Toda vez que quero limpar a bunda, olho em volta e só tem um rolo vazio ali.
– Ei, uma mulher também tem os seus problemas! COMO VOCÊ ACHA QUE EU VIVO? Todo dia você sai pro mundo, você sai e vê como a vida é lá fora! Eu tenho que ficar sentada aqui! Não sabe o que é isso um dia depois do outro.
– Pois é, tem isso...
Helena tomou um gole de gim.
– Você sabe que eu te amo, Tommy, e que quando você está infeliz isso me machuca, machuca de verdade, aqui no peito.
– Tudo bem, Helena, vamos nos sentar aqui e manter a calma.
Tom foi até a mesa da cozinha e se sentou. Helena trouxe a garrafa consigo e ocupou um lugar na frente dele. Olhou-o.
– Por Deus, o que houve com as suas mãos?
– Trabalho novo. Tenho que descobrir uma maneira de proteger minhas mãos... Uma fita adesiva, luvas de borracha... alguma coisa...
Havia terminado sua latinha.
– Escute, Helena, tem mais desse gim por aí?
– Sim, acho que sim...
Observou-a seguir na direção do guarda-louça, esticar o braço e apanhar uma garrafa das de meio litro. Colocou-a sobre a mesa e se sentou. Tom retirou o lacre e a tampa.
– Quantas dessas você tem por aí?
– Algumas...
– Bom. Como se bebe esse negócio? Puro?
– É...
Tom tomou um bom gole. Depois olhou para as mãos, abrindo e fechando as duas, observando as feridas vermelhas que se expandiam e se contraíam. Eram fascinantes.
Pegou a garrafa, despejou um pouco de gim sobre uma das palmas e em seguida esfregou uma mão na outra.
– Ai! Essa porra arde!
Helena tomou outro gole de sua garrafa.
– Tom, por que você não arranja outro trabalho?
– Outro trabalho? Onde? Tem uns cem caras querendo o meu...
Então Rob e Bob entraram correndo. Detiveram-se junto à mesa.
– Ei – disse Bob –, quando a gente vai comer?
Tom olhou para Helena.
– Acho que tenho algumas salsichas – ela disse.
– Salsichas de novo? – perguntou Rob. – Salsichas de novo? Odeio essas salsichas!
Tom olhou para o filho.
– Ei, camarada, pega leve...
– Bem – disse Bob –, então que tal um gole dessa bebidinha de merda aí?
– Seu miserável! – gritou Helena.
Estendeu o braço e mandou um tapa, forte, de mão aberta, na orelha de Bob.
– Não bata nas crianças, Helena – disse Tom –, já tive o bastante disso quando era pequeno.
– Não me diga como educar os meus filhos!
– São meus também...
Bob estava ali de pé, parado. Sua orelha estava muito vermelha.
– Então você quer uma bebidinha, não é? – perguntou Tom.
Bob não respondeu.
– Venha cá – disse Tom.
Bob se aproximou de seu pai. Tom lhe estendeu a garrafa.
– Vamos lá, beba. Beba a porra da sua bebida.
– Tom, o que você está fazendo? – perguntou Helena.
– Vamos lá... beba – disse Tom.
Bob ergueu a garrafa de meio litro, tomou um gole. Devolveu-a e ficou ali parado. De repente começou a empalidecer, até mesmo sua orelha vermelha começou a ficar branca. Tossiu.
– Esse negócio é HORRÍVEL! É como beber perfume! Por que vocês bebem isso.
– Porque a gente é idiota. Porque vocês têm uns pais idiotas. Agora vá para o quarto e leve o seu irmão junto com você...
– A gente pode ver tevê lá? – perguntou Rob.
– Tudo bem, mas andem duma vez...
Os dois saíram.
– Só o que falta você transformar os meus filhos em bêbados! – disse Helena.
– Espero apenas que eles tenham mais sorte do que a gente na vida.
Helena tomou um gole de sua garrafa. Secou-a.
Ela se levantou, tirou a panela queimada do fogo e jogou a comida no lixo.
– Pra que fazer tanto barulho? Quem precisa dessa barulheira toda! – disse Tom.
Helena parecia chorar.
– Tom, o que a gente vai fazer?
Ligou a água quente e despejou na panela.
– Fazer? – perguntou Tom. – Do que você está falando?
– Desse nosso modo de vida!
– Não há muito que a gente possa fazer.
Helena raspou a comida grudada e despejou um pouco de sabão na panela, depois foi até o guarda-louça e sacou mais uma garrafa de meio litro de gim. Contornou a mesa e se sentou de frente para Tom, abrindo a garrafa.
– É preciso deixar a panela de molho por um tempo... Depois eu ponho as salsichas...
Tom bebia da sua garrafa, deixando a bebida assentar.
– Amor, você é uma bebum, uma gambá.
As lágrimas ainda estavam lá.
– Ah, sim, bem, quem você acha que me deixou assim? UMA CHANCE!
– Essa é fácil – respondeu Tom –, duas pessoas: você e eu.
Helena tomou o primeiro gole da nova garrafa. Com isso, de imediato, as lágrimas desapareceram. Riu de mansinho.
– Ei, tive uma ideia! Posso conseguir emprego como garçonete ou algo assim... Aí você poderia descansar um pouco, sabe... O que você acha?
Tom estendeu sua mão por sobre a mesa e tomou uma das mãos de Helena.
– Você é uma boa garota, mas vamos deixar tudo como está.
Então as lágrimas voltaram a brotar. Helena era boa com as lágrimas, principalmente quando bebia gim.
– Tommy, você ainda me ama?
– Claro, baby, você é maravilhosa quando está bem.
– Eu também te amo, Tom, você sabe disso...
– Claro, baby, o mesmo aqui!
Tom ergueu sua garrafa. Helena a dela.
Brindaram com as garrafas de gim em pleno ar, então cada um bebeu da sua.
No quarto, Rob e Bob mantinham o rádio ligado, a todo volume. Havia uma claque no programa e as pessoas da claque não paravam de gargalhar. Gargalhavam e gargalhavam e gargalhavam
e gargalhavam.
– Septuagenarian Stew
Miami foi o lugar mais distante ao qual conseguir chegar sem deixar o país. Levei Henry Miller comigo e tentei lê-lo ao longo do percurso. Ele era bom quando era bom, e vice-versa. Tomei uma garrafa de uísque. Depois outra e ainda outra. A viagem levou quatro dias e cinco noites. Fora uns amassos com uma jovem morena cujos pais não podiam mais lhe pagar a faculdade, nada de mais ocorreu. Ela deixou o ônibus no meio da noite em uma parte particularmente estéril e fria do país e desapareceu. Eu sempre tive insônia na estrada, e o único modo de dormir em um ônibus era enchendo completamente a cara. Mas não me arriscava a fazer isso. Quando chegamos ao destino, eu mal havia dormido ou cagado por cinco dias e mal conseguia caminhar. Era cedo da noite. A sensação de estar novamente caminhando pelas ruas era deliciosa.
QUARTOS PARA ALUGAR. Aproximei-me e toquei a campainha. Nessas circunstâncias, a atitude mais sábia era deixar a mala fora do alcance da visão da pessoa que abrisse a porta.
– Procuro um quarto. Quanto custa?
– US$ 6,50 por semana.
– Posso dar uma olhada?
– Claro.
Entrei e a segui pela escada. Devia ter uns 45, mas sua bunda balançava de um modo legal. Sempre que seguia essas mulheres escada acima, como agora, eu pensava que, se uma dessas senhoras se oferecesse para tomar conta de mim, oferecendo-me refeições quentes e roupas limpas para vestir, eu aceitaria.
Ela abriu a porta, e eu dei uma olhada no interior.
– Tudo bem – eu disse –, parece um bom lugar.
– Você tem emprego?
– Mais ou menos.
– Posso perguntar o que você faz?
– Sou escritor.
– Oh, você já escreveu livros?
– Oh, ainda não estou pronto pra escrever um romance. Por enquanto escrevo artigos, alguma coisa para revistas. Os textos não são grande coisa, mas estou melhorando.
– Tudo bem. Vou lhe dar uma chave e fazer um recibo.
Seguia-a novamente pela escada. O rabo não se movimentava com a mesma beleza descendo os degraus. Olhei sua nuca e me imaginei a beijá-la atrás das orelhas.
– Sou a sra. Adams – ela disse. – E você?
– Henry Chinaski.
Enquanto ela preenchia o recibo, eu escutava uns sons que lembravam o de uma madeira sendo serrada, vindos detrás de uma porta que ficava à nossa esquerda. O som de serragem era pontuado pelo ofegar de uma respiração penosa. Cada tomada de ar parecia ser a última, ainda que logo fosse sucedida por outra mais dolorosa.
– Meu marido está doente – disse a sra. Adams ao me passar o recibo e a chave. Sorriu. Seus olhos brilhantes tinham uma adorável cor de avelã. Dei meia-volta e segui pela escada.
Quando entrei no meu quarto, lembrei que havia deixado minha mala lá embaixo. Fui buscá-la. Ao passar pela porta da sra. Adams, os ofegos estavam muito mais altos. Levei minha mala escada acima, lancei-a sobre a cama, voltei a descer e ganhei a noite. Encontrei uma espécie de bulevar principal seguindo um pouco para o norte, entrei em uma mercearia e comprei um pote de manteiga de amendoim e um pão de sanduíche. Tinha uma faquinha de bolso e poderia assim espalhar a manteiga no pão e ter algo para comer.
Quando retornei à pensão, parei no saguão e fiquei com os ouvidos no sr. Adams, pensando, eis a Morte. Fui para o meu quarto, abri o pote de manteiga de amendoim e, enquanto escutava os sons do moribundo que vinham do térreo, mergulhei meus dedos fundo no vidro. Comi a pasta direto dos dedos. Estava uma delícia. Então abri o pão. Estava verde e úmido, exalando um cheiro azedo e forte. Como podiam vender um pão nesse estado? Que tipo de lugar era a Flórida? Joguei o pão no chão, tirei a roupa, apaguei as luzes, puxei as cobertas e me deitei no escuro, escutando.
Encontrei um emprego nos classificados do jornal. Fui contratado por uma loja de roupas, mas não em Miami, e sim em Miami Beach, e a cada manhã eu tinha que enfrentar uma travessia aquática junto com a minha ressaca. O ônibus corria por uma faixa muito estreita de cimento e ficava junto à água sem qualquer forma de guard-rail, nenhuma proteção. Só havia a pista. O motorista se recostava, e nós seguíamos sobre essa faixa estreita de cimento completamente cercada pela água, e todos a bordo, as vinte e cinco ou trinta pessoas, confiavam nele, mas eu jamais. Às vezes, era um motorista novo, e eu pensava, como eles selecionam esses filhos da puta? Havia água profunda nos dois lados, e um erro de julgamento mataria a todos nós. Isso era ridículo. Suponha que ele tenha brigado com sua mulher naquela manhã? Ou que tenha câncer? Ou que tenha visões de Deus? Um dente podre? Qualquer coisa. Seria o suficiente para ele. Lá estaríamos nós no fundo do mar. Sei que, se eu estivesse dirigindo, consideraria a possibilidade ou o desejo de afogar todo mundo. E algumas vezes, depois de ter feito essas consideração, a possibilidade passaria à ação. Para cada Joana d’Arc há um Hitler suspenso do outro lado da balança. A velha história do bem e do mal. Mas nenhum dos motoristas jamais nos lançou no mar. Por suas cabeças não passava mais do que prestações do carro, resultados do beisebol, cortes de cabelo, férias, enemas, visitas familiares. Não havia um homem de verdade entre toda aquela merda. Eu sempre chegava enjoado no trabalho, ainda que em segurança. O que demonstra porque Schumann é melhor termo de comparação que Shostakovich...
Fui contratado para o que eles chamavam de bola extra. O bola extra era o cara que fazia de tudo sem ter, ao mesmo tempo, nenhuma atividade específica. Ele devia saber o que fazer após consultar uma espécie profunda e infalível de sexto sentido. Instintivamente, esse cara devia saber como manter as coisas funcionando de modo natural, o que era melhor para a empresa, a Mãe de todos, e suprir-lhe todas as pequenas necessidades que eram irracionais, contínuas e insignificantes.
Um bom bola extra não tem face nem sexo e deve estar disposto a se sacrificar pela causa. Está sempre esperando junto à porta, antes mesmo do primeiro homem chegar. Logo deve lavar a calçada, cumprimentando cada pessoa pelo nome à medida que elas chegam, sempre trazendo no rosto um sorriso brilhante e encorajador. Reverente. Isso fará com que todos se sintam melhores antes que as engrenagens do moedor comecem a funcionar. Ele verifica se os papéis higiênicos estão em ordem, principalmente no banheiro feminino. Os cestos nunca devem estar cheios. As janelas não podem estar encardidas. Os pequenos reparos são prontamente feitos em mesas e cadeiras. Nada de portas que não abram facilmente. Os relógios sempre ajustados. Nenhum tapete enrugado. Jamais deixar uma mulher bem-alimentada e forte ficar sobrecarregada por um pacotinho qualquer.
Eu não era muito bom nisso. Minha ideia era vagar por aí sem fazer nada, evitando sempre cruzar com o chefe, além dos puxa-sacos que poderiam me denunciar. Eu não era tão esperto assim. Agia mais por instinto do que qualquer outra coisa. Sempre iniciava um trabalho com a sensação de que, assim que eu o terminasse, seria demitido, e isso me deu um ar tranquilo, que era facilmente confundido com inteligência ou algum poder secreto.
Era um comércio de roupas autossuficiente e autoabastecido, combinando fábrica e venda no atacado. O mostruário, os produtos finalizados e os vendedores ficavam todos no primeiro andar, enquanto a fábrica funcionava no segundo. A fábrica era um labirinto de passarelas e passagens que nem mesmo os ratos conseguiam vencer, longas e estreitas galerias onde homens e mulheres trabalhavam sob lâmpadas de trinta watts, inclinados, movendo os pedais, costurando, sem jamais erguer os olhos ou trocar uma palavra, curvos e calados, trabalhando incessantemente.
Certa vez, em um de meus empregos em Nova York, eu tinha trabalhado transportando tecido para fábricas como essa. Eu seguia com o caminhão por uma rua congestionada, vencendo o tráfego, e então entrava em uma ruela atrás de um prédio encardido. Havia um elevador escuro, e eu tinha que puxar umas cordas por umas roldanas de madeira. Uma das cordas era para subir, a outra para descer. Não havia luz e, enquanto o elevador subia lentamente, eu ficava de olho nos números brancos sobre a parede nua, números que brotavam da escuridão – 3, 7, 9, rabiscados a giz por uma mão esquecida. Chegava ao meu andar, puxava outra corda com meus dedos e, usando toda a minha força, abria com esforço e devagar uma velha e pesada porta de metal, revelando filas e mais filas de velhas senhoras judias sentadas às suas máquinas, trabalhando nas pilhas de tecidos. A costureira número 1 na máquina 1, inclinada, cuidando do seu espaço. A garota número 2 na máquina 2, pronta para substituí-la se fosse necessário. Elas jamais erguiam os olhos ou tomavam consciência de minha presença.
Nessa mistura de fábrica e comércio em Miami Beach, não havia necessidade de entregas. Tudo estava à mão. No meu primeiro dia, andei entre o labirinto de máquinas de costura olhando para as pessoas. Diferentemente de Nova York, a maioria dos trabalhadores era formada de negros. Aproximei-me de um negro, bem pequeno – quase anão –, que tinha um rosto mais agradável que os outros. Ele fazia algum trabalho de acabamento, com uma agulha. Eu tinha uma garrafinha no bolso.
– Seu trabalho é de matar. Vai um trago?
– Claro – ele disse.
Tomou um bom gole. Então devolveu a garrafa. Ofereceu-me um cigarro.
– Você é novo na cidade.
– Sim.
– De onde veio?
– Los Angeles.
– Um astro de cinema.
– Sim, de férias.
– Não devia estar falando com um costureiro.
– Eu sei.
Ele ficou em silêncio. Parecia um pequeno macaquinho, um macaco velho e gracioso. Para os caras do andar debaixo, ele era realmente um macaco. Tomei um gole. Sentia-me bem. Observava-os trabalhar, todos quietos sob suas lâmpadas de trinta watts, suas mãos movendo-se delicadas e habilidosas.
– Me chamo Henry – eu disse.
– Brad – ele respondeu.
– Escute, Brad, fico muito, mas muito deprimido vendo vocês trabalharem. Que tal se eu cantar uma música pra vocês?
– Não.
– Esse seu trabalho aqui é pavoroso. Por que você segue com isso?
– Porra, não tenho escolha.
– O Senhor disse que há!
– Você acredita no Senhor?
– Não.
– No que você acredita?
– Em nada.
– Então estamos quites.
Falei com alguns dos outros empregados. Os homens eram de poucas palavras, algumas das mulheres riam de mim.
– Sou um espião – eu ria de volta. – Sou um espião da companhia. Estou de olho em todo mundo.
Tomei outro gole. Cantei a eles minha música favorita, “My heart is a Hobo”. Eles seguiram trabalhando. Ninguém tirou os olhos das roupas. Quando terminei, eles seguiam no labor. Por alguns instantes, houve silêncio. Então escutei uma voz:
– Olha só, branquelo, não venha mais aqui.
Decidi que o melhor era passar uma mangueira na calçada da frente.
Levou quatro dias e cinco noites para que o ônibus chegasse a Los Angeles. Como de costume, não consegui dormir ou defecar durante a viagem. Houve uma certa excitação quando uma loira enorme embarcou em algum lugar da Louisiana. Naquela noite ela começou a se vender por US$ 2, e todos os homens e uma das mulheres do ônibus se aproveitaram de sua generosidade, excetuados o motorista e eu. As transações comerciais se davam à noite na parte traseira do veículo. Ela se chamava Vera. Usava um batom púrpura e ria por qualquer motivo. Aproximou-se de mim durante uma rápida parada em uma cafeteria. Plantou-se atrás de mim e me perguntou:
– Qual é, se acha bom demais pra mim?
Não respondi.
– Veadinho.
Ao retornar para o lado de um dos seus fregueses, ouvi seus resmungos enojados...
Em Los Angeles, fiz uma ronda nos velhos bares da vizinhança à procura de Jan. Não obtive qualquer sucesso antes de encontrar Whitey Jackson, que estava trabalhando atrás do balcão no Pink Mule. Ele me disse que Jan estava trabalhando como camareira no Durham Hotel na Beverly com a Vermont. Fui até lá. Eu procurava pelo escritório da gerência quando ela saiu de um dos quartos. Estava com uma boa aparência, como se esse tempo longe de mim lhe tivesse feito bem. Então ela me viu. Não fez nada além de ficar onde estava, parada, apenas seus olhos foram ficando maiores e mais azuis. Até que ela disse:
– Hank!
Correu em minha direção e nos abraçamos. Beijou-me com loucura, que tentei retribuir.
– Por Deus – ela disse –, achei que nunca mais fosse ver você!
– Voltei.
– De vez?
– Minha cidade é L.A.
– Afaste-se um pouco – ela disse –, deixe-me ver você.
Dei um passo para trás, um sorriso aberto no rosto.
– Você está magro. Perdeu peso – Jan disse.
– Você está ótima. Está com alguém?
– Não.
– Não há ninguém mesmo?
– Ninguém. Você sabe que não suporto as pessoas.
– Estou feliz que você esteja trabalhando.
– Venha até o meu quarto – ela disse.
Fui atrás dela. O quarto era muito pequeno, mas tinha um quê de agradável. Você podia olhar o tráfego lá fora pela janela, ver o semáforo mudar de cor, o garoto vendendo jornal na esquina. Gostei do lugar. Jan se jogou na cama.
– Venha, deite aqui do meu lado – ela disse.
– Estou constrangido.
– Eu te amo, seu idiota, nós já trepamos umas 800 vezes, então relaxe.
Tirei meus sapatos e me estiquei na cama. Ela ergueu uma das pernas.
– Continua gostando do que vê?
– Claro que sim! Jan, você terminou seu serviço?
– Sim, com exceção do quarto do sr. Clark. E ele não liga muito pra isso. Ele sempre me dá gorjetas.
– Jan...
– Sim?
– A passagem de ônibus me deixou pelado. Preciso de um lugar pra ficar até arranjar um emprego.
– Posso esconder você aqui.
– Sério?
– Claro.
– Eu te amo, baby – eu disse.
– Cretino – ela respondeu.
Começamos a fazer amor. Estava uma delícia. Uma verdadeira e genuína delícia.
Depois que terminamos, Jan se levantou e abriu uma garrafa de vinho. Abri meu último maço de cigarros e sentamos na cama para beber e fumar.
– Você está todo lá – ela disse.
– Como assim?
– Digo, nunca conheci um homem como você.
– Ah, é?
– Os outros chegavam só uns dez ou vinte por cento lá, você está lá inteiro, você todo está bem lá, é tão diferente.
– Não sei do que você está falando.
– Você tem um gancho, você prende as mulheres.
Aquilo fez eu me sentir bem. Após terminarmos nossos cigarros, voltamos a fazer amor. Então Jan me mandou ir buscar mais uma garrafa. Retornei. Eu tinha que retornar.
Fui contratado de imediato por uma companhia de lâmpadas fluorescentes. Ficava na Alameda Street, na direção norte, em um agrupamento de armazéns. Eu trabalhava no balcão. Era uma verdadeira barbada, pois eu apanhava os pedidos em uma cesta, preenchia-os, embrulhava os conjuntos em papelão e os deixava no setor de expedição, cada conjunto etiquetado e com o endereço de entrega. Eu pesava os embrulhos, acrescentava o valor do transporte e ligava para a transportadora para que viesse apanhar as encomendas.
No primeiro dia em que eu estava lá, no turno da tarde, ouvi um estrondo atrás de mim, próximo à linha de montagem. As velhas caixas de madeira que continham as partes prontas corriam para longe da parede e se espatifavam no chão – metal e vidro atingindo em cheio o cimento do piso, explodindo, produzindo uma terrível barulheira. Os trabalhadores da linha de montagem correram para o outro lado do prédio. Então tudo ficou em silêncio. O chefe, Mannie Feldman, saiu de seu escritório.
– Que diabos está acontecendo aqui?
Ninguém respondeu.
– Certo, desliguem a linha de montagem! Vocês todos, peguem pregos e martelo e deem um jeito nessas caixas de madeira!
O sr. Feldman retornou para o seu escritório. Não havia nada que eu pudesse fazer além de me apresentar para ajudá-los. Nenhum de nós era carpinteiro. Foi preciso toda a tarde e mais da metade da manhã seguinte para que conseguíssemos pregar todas as caixas. Ao terminarmos, o sr. Feldman saiu de seu escritório.
– Então, conseguiram? Muito bem, agora me escutem: quero as 939 em cima, as 820 logo abaixo, os lanternins e vidros nas caixas mais de baixo, entenderam? Será que há alguém aqui que pode não ter entendido o que é pra fazer?
Não houve nenhuma resposta. As 939 eram as caixas mais pesadas – extremamente pesadas – e ele as queria por cima. Ele era o chefe. Fizemos o que ele mandou. Colocamos as 939 no topo, todo aquele peso, e deixamos as mais leves por baixo. Então retornamos ao trabalho. As caixas resistiram o resto do dia e da noite seguinte. Pela manhã, começamos a ouvir uns rangidos. Eram as caixas cedendo. Os trabalhadores da linha de montagem começaram a se afastar, não contendo as gargalhadas. Cerca de dez minutos antes do intervalo da manhã, todas as caixas desabaram. O sr. Feldman veio correndo de seu escritório:
– Mas que diabos está acontecendo aqui?
Feldman tentava receber seu seguro e decretar falência ao mesmo tempo. Na manhã seguinte, um homem de aspecto muito digno veio da parte do Banco da América. Ele nos disse para não montarmos mais nenhuma caixa. “Apenas recolham essa merda do chão”, foi o modo como colocou a questão. Ele se chamava Jennings, Curtis Jennings. Feldman devia ao Banco da América um caminhão de dinheiro, e agora eles o queriam de volta, antes que o negócio falisse. Jennings assumiu o controle da companhia. Estava sempre circulando, observando o trabalho de todos. Mergulhou fundo nos livros-caixa de Feldman; verificou as trancas e as janelas e a cerca de segurança em torno ao estacionamento. Veio até mim:
– Não use mais a transportadora Sieberling. Foram roubados quatro vezes ao transportarem um de nossos carregamentos entre o Arizona e o Novo México. Alguma razão em especial pra você estar trabalhando com esse pessoal?
– Não, nenhuma razão.
O representante da Sieberling me passava dez centavos por baixo dos panos a cada duzentos quilos em mercadorias despachadas.
Em três dias, Jennings demitiu um homem que trabalhava no escritório principal e o substituiu por três jovens mexicanas cheias de disposição para trabalhar por metade do que o outro ganhava. Demitiu também o homem da limpeza e, além de ter que despachar as mercadorias, incluiu em meu trabalho a função de motorista da empresa para entregas locais.
Assim que recebi meu primeiro contracheque, me mudei do quartinho de Jan para um apartamento só meu. Ao chegar certa noite, ela havia se mudado para lá. Ora, foda-se, eu lhe disse, minha terra é sua terra. Pouco tempo depois, tivemos nossa pior briga. Ela foi embora, e eu fiquei bêbado por três dias e três noites. Assim que recuperei a sobriedade, soube que meu trabalho já era. Nunca voltei lá. Decidi limpar o apartamento. Aspirei o chão, escovei as esquadrias das janelas, esfreguei a banheira e a pia, encerei o chão da cozinha, matei todas as aranhas e baratas, esvaziei e lavei os cinzeiros, lavei os pratos, areei a pia da cozinha, estendi toalhas limpas e coloquei um novo rolo de papel higiênico no banheiro. Devia ser a veadagem chegando, pensei.
Quando Jan finalmente voltou para casa – uma semana depois –, acusou-me de ter trazido uma mulher aqui, pois tudo parecia limpo demais. Ela aparentava uma fúria imensa, que não passava, obviamente, de disfarce para sua própria culpabilidade. Eu não conseguia entender por que não me livrava dela. Era uma adúltera compulsiva – ia com qualquer um que conhecesse num bar e, quanto mais baixo e imundo fosse, mais ela gostava. Usava continuamente nossas brigas para se justificar. No íntimo, eu seguia me dizendo que todas as mulheres do mundo não eram putas, somente a minha.
– Factótum
A Noite Em Que Eles Pegaram o Branquelo
sonho de pássaro e papéis de parede descolando
sintomas de um sono sombrio
e às 4 da manhã o Branquelo saiu do seu quarto
(o consolo para o pobre está nos números
como papoulas no verão)
e ele começou a gritar socorro! socorro! socorro!
(um velho com um cabelo tão branco quanto uma presa de marfim)
e ele vomitava sangue
socorro socorro socorro
e eu o ajudei a se esticar no chão do hall
e bati na porta da senhoria
(ela é francesa como o melhor dos vinhos mas dura como
um bife americano) e
gritei seu nome, Marcella! Marcella!
(o leiteiro logo chegaria com suas garrafas
de um branco puro como gélidos lírios)
Marcella! Marcella! socorro socorro socorro,
e ela gritou através da porta:
seu polaco de merda, encheu a cara de novo? Então
o olho de Prometeu à porta
e ela
calculando o rio vermelho em seu cérebro retangular
(oh, não passo de um polaco bêbado
um cara de segunda classe um escritor de cartas para jornais)
e ela falou ao telefone como uma senhora que ordenasse pão e ovos,
e eu me agarrei à parede
sonhando com poemas ruins e com minha própria morte
e então os homens vieram... um com um charuto, o outro com a barba por fazer,
e eles o puseram de pé e desceram a escada
sua cabeça de marfim em chamas (Branquelo, meu parceiro de trago...
todas as canções, as agitadas canções ciganas, falam de
guerra, lutas, das boas putas,
de pardieiros flutuando em vinho,
flutuando num falar frenético,
charutos baratos e raiva)
e a sirene o levou de vez, exceto pela parte vermelha
e eu comecei a vomitar e a besta francesa gritou
você vai ter que limpar essa sujeira, toda ela, você e o Branquelo!
e os navios a vapor partiram e os homens ricos em seus iates
beijam garotas jovens o suficiente para serem suas filhas,
e o leiteiro chegou e ficou apenas olhando
e as luzes de néon piscavam vendendo alguma coisa
pneus ou óleo ou roupas íntimas
e ela bateu a porta e eu estava mais uma vez sozinho
envergonhado
era a guerra, a guerra eterna, a guerra que não se acaba nunca,
e eu gritei colado às paredes descascadas,
a fraqueza de nossos ossos, nossos cérebros fracos e embriagados,
e a manhã começou a rastejar pelo hall...
soavam as descargas, havia bacon, havia café,
havia ressacas, e eu também
entrei e fechei minha porta e me sentei e esperei pelo nascer do sol.
Garotas de Meia-Calça
estudantes de meia-calça
sentadas nas paradas de ônibus
parecendo cansadas aos 13
com seus batons de framboesa.
está quente sob o sol
e o dia na escola foi
maçante, e ir pra casa é
maçante, e eu
dirijo meu carro
e dou uma espiada naquelas pernas quentes.
seus olhos não estão focados
em nada –
elas foram avisadas sobre
os veteranos tarados e
cruéis; eles não desistirão
assim tão fácil.
e ainda assim é maçante
passar aqueles minutos no
banco e os anos em
casa, e os livros que elas
carregam são maçantes e aquilo de que se
alimentam é maçante, e até mesmo os
veteranos tarados e cruéis são
maçantes.
as garotas de meia-calça esperam,
esperam pelo momento e hora
exatos para só então se mover
e certamente conquistar.
circulo com o meu carro
espiando suas pernas
satisfeito por saber que jamais farei
parte nem de seus paraísos nem de
seus infernos. mas os batons
escarlates naquelas tristes bocas
que esperam! seria delicioso
beijar cada uma delas, uma vez que fosse, por completo,
e então devolvê-las.
mas o ônibus as
pegará primeiro.
Subindo Seu Rio Amarelo
uma mulher contou a um homem
assim que ele desceu de um avião
que eu estava morto.
uma revista publicou
a notícia de que eu tinha morrido
e mais alguém disse
que eles ouviram sobre o meu
falecimento, e que então alguém
escreveu um artigo e disse
nosso Rimbaud nosso Villion está
morto. ao mesmo tempo um velho
parceiro de bebida publicou
um texto afirmando que eu
já não podia mais escrever. um
verdadeiro trabalho de Judas. eles
não podem esperar que eu me vá, esses
cretinos. bem, escuto o
concerto de piano número um
de Tchaikovski e
o locutor anuncia que a
5ª e a 10ª sinfonias de Mahler
virão a seguir desde
Amsterdã,
e as garrafas de cerveja se
espalham sobre o chão e as cinzas
dos meus cigarros
cobrem minhas cuecas de
algodão e minha barriga, mandei
todas as minhas namoradas
pro inferno, e mesmo isto
é um poema muito melhor do que
qualquer coisa que esses coveiros
possam escrever.
Eu Também Tenho a Cueca Carimbada
escuto suas vozes do lado de fora:
“ele sempre bate à máquina até tão
tarde?”
“não, é bastante incomum.”
“ele não deveria bater a essa
hora.”
“isso quase nunca acontece.”
“ele bebe?”
“acho que sim.”
“ontem ele foi até a caixa
do correio só de cuecas.”
“eu também vi.”
“ele não tem amigos.”
“está velho.”
“não deveria bater a esta hora.”
eles entram e começa
a chover enquanto
3 disparos soam a meia quadra
de distância e
um dos arranha-céus no
centro de L.A. começa
a arder
em chamas de 8 metros que lambem a escuridão
da noite.
Artistas:
ela me escreveu por anos.
“estou bebendo vinho na cozinha.
chove lá fora. as crianças
estão na escola.”
ela era uma cidadã qualquer
ocupada com sua alma, sua máquina de escrever
e sua
reputação como poeta underground.
ela escrevia decentemente e com honestidade
mas apenas depois que outros já
haviam aberto o caminho.
me ligava bêbada às 2 da manhã
às 3
enquanto o marido dormia.
“é bom ouvir a sua voz”, ela
dizia.
“é bom ouvir a sua voz também”, eu
dizia.
que diabo, você
sabe.
ela finalmente apareceu. acho que teve
algo a ver com
The Chapparal Poets Society of California.
eles tinham que eleger seus quadros. ela me ligou
do hotel deles.
“estou aqui”, ela disse, “vamos eleger
os representantes.”
“ok, ótimo”, eu disse, “escolha uns realmente bons”.
desliguei.
o telefone voltou a tocar.
“ei, você não quer me ver?”
“claro”, eu disse, “qual é o endereço?”
depois que ela disse até logo eu bati uma
troquei as meias
bebi meia garrafa de vinho e
segui até lá.
estavam todos bêbados e tentavam
se foder mutuamente.
levei-a para minha casa.
ela vestia uma calcinha cor-de-rosa
com fitinhas.
bebemos uma pouco de cerveja e
fumamos e falamos sobre
Ezra Pound, depois
dormimos.
já não tenho claro
se a levei para o
aeroporto ou
não.
ela continua me escrevendo cartas
e eu as respondo
da pior maneira possível
torcendo para que ela
desista.
algum dia talvez ela alcance a
fama como Erica
Jong. (seu rosto não é lá essas coisas
mas seu corpo é legal)
e eu pensarei,
meu Deus, o que foi que eu fiz?
estraguei tudo.
ou melhor: eu não estraguei
nada.
enquanto isso tenho o número de sua caixa postal
e é melhor eu informar a ela
que meu segundo romance sairá
em setembro.
isso deverá manter os seus mamilos duros
enquanto considero a possibilidade de
Francine du Plessix Gray[4].