Charles Bukowski

Charles Bukowski

1920–1994 · viveu 73 anos DE DE

Charles Bukowski foi um poeta e escritor alemão-americano, conhecido por sua obra crua, visceral e autobiográfica. Sua escrita, frequentemente associada à chamada "geração beat" e à contracultura, retrata a vida marginal, os vícios, a pobreza, o sexo e a alienação com uma linguagem direta e sem rodeios. Bukowski celebrou o submundo e os desajustados, tornando-se um ícone para muitos que se sentiam à margem da sociedade.

n. 1920-08-16, Andernach · m. 1994-03-09, San Pedro

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Acenos E Mais Acenos de Adeus

paguei suas despesas ao longo de todo o trajeto entre
[Houston
e São Francisco
depois voei pare encontrá-la na casa do irmão dela
e acabei bêbado
e falei a noite inteira sobre uma ruiva, e
ela disse por fim, “você dorme ali em cima”,
e eu subi a escada
do beliche e ela dormiu
na cama de baixo.

no dia seguinte eles me levaram até o aeroporto
e eu voei de volta, pensando, bem,
ainda restou a ruiva e assim que cheguei
liguei para ela e disse, “voltei, baby,
peguei um avião para ver essa mulher e falei
sobre você a noite inteira, então aqui estou eu de volta...”

“bem, por que você não volta lá e termina
o serviço?” ela disse e desligou.

então enchi a cara e o telefone tocou
e elas se apresentaram como
duas garotas alemãs que queriam
me ver.

então elas apareceram e uma delas tinha 20 e a
outra 22. contei-lhes que meu coração
havia sido esmigalhado pela última vez e
que eu estava desistindo desse negócio de mulher. elas riram
de mim e nós bebemos e fumamos e fomos
juntos para a cama.

eu tinha essa cena diante de mim e
primeiro agarrei uma e depois agarrei a
outra.

finalmente fiquei com a de 22 e
a devorei.

elas ficaram 2 dias e 2 noites
mas nunca fui com a de 20,
ela estava menstruada.

finalmente as levei para Sherman Oaks
e elas ficaram junto ao pé de uma longa
passagem
acenos e mais acenos de adeus enquanto eu dava a ré
no meu fusca.

quando voltei havia uma carta de uma
mulher de Eureka. dizia que queria que eu
a fodesse até que ela não pudesse
mais caminhar.

me deitei e puxei uma
pensando na garotinha que eu tinha visto
uma semana atrás em sua bicicleta vermelha.

depois tomei um banho e vesti meu robe
verde e felpudo bem a tempo de pegar as lutas
na tevê diretamente do Olympic.

havia um negro e um chicano.
isso sempre dava uma boa luta.

e era também uma boa ideia:
ponha os dois no ringue e deixe que
se matem.

assisti a todo o combate
sem deixar de pensar na ruiva uma vez sequer.

acho que o chicano venceu
mas não tenho certeza.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Heinrich Karl "Hank" Bukowski Jr. foi um poeta, contista e romancista alemão-americano. Nasceu em Andernach, na Alemanha, em 16 de agosto de 1920, e faleceu em San Pedro, Califórnia, Estados Unidos, em 9 de março de 1994. É uma figura proeminente da literatura marginal e da contracultura americana. Filho de pais alemães, mudou-se com a família para os Estados Unidos quando tinha três anos.

Infância e formação

Bukowski teve uma infância difícil marcada pela pobreza e por um relacionamento abusivo com o pai. Aos três anos, a família emigrou para os Estados Unidos, estabelecendo-se em Los Angeles. Sua adolescência foi rebelde e problemática. Frequentou a Los Angeles High School, mas abandonou os estudos precocemente. Aos 17 anos, saiu de casa. Sua formação foi autodidata, moldada por leituras intensas, pela experiência de vida nas ruas e pelos trabalhos precários que desempenhou ao longo de décadas.

Percurso literário

Bukowski começou a escrever poesia e contos ainda jovem, mas demorou décadas para ser reconhecido. Trabalhou em empregos manuais e braçais, como carteiro e em fábricas, em grande parte de sua vida adulta, muitas vezes lutando contra o alcoolismo. Publicou esporadicamente em pequenas revistas literárias underground nas décadas de 1940 e 1950. Sua carreira literária ganhou impulso a partir da década de 1960, quando se dedicou integralmente à escrita após receber uma herança que lhe permitiu deixar o emprego nos correios. Seu primeiro livro de poemas, "Flower, Fist, and Bestial Wail", foi publicado em 1960. A partir daí, produziu uma vasta obra em poesia, contos e romances.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras mais conhecidas de Bukowski incluem coleções de poemas como "Love Is a Dog from Hell" (1977), "Crimson Tears" (1978), e "The Most Beautiful Woman in Town" (1986), além de romances como "Factotum" (1975), "Women" (1978) e "Post Office" (1971). Seus temas centrais são a vida marginal, a pobreza, o alcoolismo, o sexo, a solidão, a alienação, a crítica social e a busca por sentido em um mundo caótico. Seu estilo é caracterizado por uma linguagem direta, coloquial, sem adornos, muitas vezes obscena e chocante, mas também capaz de uma profunda sensibilidade e honestidade. Ele utilizava o verso livre de forma contundente, com frases curtas e ritmo muitas vezes quebrado. Sua voz poética é confessional, crua e irónica, refletindo suas experiências de vida de forma implacável. Bukowski é considerado um renovador da poesia americana pela sua abordagem realista e pela sua capacidade de dar voz aos desvalidos.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Bukowski emergiu como uma voz dissonante em meio ao otimismo pós-guerra e ao surgimento da contracultura nos EUA. Sua obra, muitas vezes associada à Geração Beat, como Jack Kerouac e Allen Ginsberg, embora com um estilo mais sombrio e menos místico, capturou o desencanto e a rebeldia de uma parcela da sociedade que se sentia marginalizada. Ele escreveu em um período de profundas mudanças sociais e políticas nos Estados Unidos, como a Guerra do Vietnã e os movimentos pelos direitos civis, temas que, embora não diretamente abordados, permeiam o pano de fundo de sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida de Bukowski foi marcada pela luta contra o alcoolismo, por relacionamentos tumultuados e por uma série de empregos precários. Teve casamentos e relacionamentos significativos, incluindo com as poetisas Jane Cooney Baker e Linda King, e mais tarde com Linda Lee Beighle, que se tornou sua esposa e figura importante em sua vida. Sua obra é profundamente autobiográfica, sendo difícil separar o homem do escritor. Suas experiências com a pobreza e a boemia foram a matéria-prima de sua escrita. Suas crenças eram pragmáticas e cínicas, desconfiando de instituições e ideologias.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Bukowski obteve um reconhecimento tardio e muitas vezes controverso. Enquanto era idolatrado por muitos como um autêntico "escritor do povo" e um rebelde contra o sistema, era criticado por outros por seu estilo considerado vulgar ou amoral. Sua popularidade cresceu exponencialmente após sua morte, tornando-se um autor cultuado em todo o mundo, especialmente entre jovens e leitores que se identificam com sua honestidade brutal e sua visão de mundo sem filtros.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Bukowski foi influenciado por escritores como Ernest Hemingway, John Fante, D.H. Lawrence e por autores da Geração Beat. Seu legado é o de ter dado voz aos marginalizados, de ter mostrado que a literatura pode emergir de experiências de vida difíceis e de ter desafiado as convenções literárias estabelecidas. Inspirou inúmeros poetas e escritores que buscam uma linguagem autêntica e um retrato sem maquiagem da realidade. Sua obra continua a ser uma referência para a literatura underground e alternativa.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Bukowski é frequentemente analisada sob a ótica da literatura marginal, da crítica social e da representação da experiência humana em suas formas mais cruas. Os debates centram-se na sua genialidade como cronista da vida urbana e da alienação, e na sua capacidade de extrair poesia do feio e do sórdido.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Bukowski era conhecido por seu humor negro e seu cinismo. Ele tinha uma coleção de centenas de cartas de amor recebidas de fãs em todo o mundo. Passou um período em um hospital psiquiátrico em sua juventude, uma experiência que o marcou profundamente. Sua relação com os cachorros era notória. Era um observador atento da natureza humana, registrando suas observações em cadernos.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Charles Bukowski faleceu em 9 de março de 1994, em San Pedro, Califórnia, aos 73 anos, vítima de leucemia. Sua morte foi recebida com pesar por seus admiradores. Suas cinzas foram espalhadas em um de seus locais favoritos na Califórnia. Sua obra continua a ser publicada e a ser redescoberta por novas gerações, solidificando sua posição como um dos autores mais singulares e influentes da literatura americana.

Poemas

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Poema de Amor Para Marina

minha menina tem 8 anos
e isso é idade suficiente para pensar
bem ou mal ou
qualquer coisa
então relaxo em volta dela e
ouço várias coisas espantosas
sobre sexo
a vida em geral e a vida em particular;
na maior parte é muito
fácil
exceto que eu me tornei pai quando os homens na maioria
se tornam avôs, sou um iniciante muito tardio
em tudo,
e eu me deito na grama e na areia
e ela arranca dentes-de-leão
e os coloca no meu
cabelo
enquanto eu cochilo sob a brisa marítima.
eu desperto
me sacudo
falo: “que diabo?”
e flores caem sobre os meus olhos e sobre o meu nariz
e sobre os meus lábios.
eu as removo com a mão
e ela se senta em cima de mim
dando risadinhas.
filha,
certo ou errado,
eu te amo, sim,
é só que às vezes eu ajo como se
você não estivesse presente,
mas houve brigas com mulheres
bilhetes deixados em cômodas
trabalhos em fábricas
pneus furados em Compton às 3 da manhã,
todas essas coisas que impedem as pessoas de
conhecer umas às outras e
pior do que
isso.
obrigado pelas
flores.
1 301

O Primeiro Amor

certa vez
quanto eu tinha 14 anos
os criadores me trouxeram
meu único sentimento de
chance.
meu pai não gostava
de livros e
minha mãe não gostava
de livros (porque meu pai
não gostava de livros)
sobretudo aqueles que eu trazia
da biblioteca:
D.H. Lawrence
Dostoiévski
Turguêniev
Górki
A. Huxley
Sinclair Lewis
outros.
eu tinha meu próprio quarto
mas às 8 da noite
devíamos estar todos indo dormir:
“Cedo na cama e cedo desperto:
o homem fica saudável, rico e esperto”,
meu pai costumava dizer.
“LUZES DESLIGADAS!”, ele gritava.
então eu pegava o abajur de cabeceira
colocava embaixo das cobertas
e com o calor e a luz escondida
eu continuava lendo:
Ibsen
Shakespeare
Tchékhov
Jeffers
Thurber
Conrad Aiken
outros.
eles me trouxeram chance e esperança e
sentimento num lugar sem chance,
sem esperança, sem sentimento.
eu trabalhei duro.
ficava quente embaixo das cobertas.
às vezes o abajur começava a soltar fumaça
ou os lençóis – começavam a
pegar fogo;
aí eu desligava o abajur,
segurava fora da janela para
esfriar.
sem esses livros
não tenho bem certeza
no que teria dado a minha
vida:
desvario; o
assassinato do pai;
idiotismo; imbecilidade;
insípida desesperança.
quando meu pai gritava
“LUZES DESLIGADAS!”
tenho certeza de que ele temia
a palavra bem escrita
que aparecia com suavidade
e razoabilidade
em nossa melhor e
mais interessante
literatura.
e foi ali
perto de mim
embaixo das cobertas
mais mulher do que mulher
mais homem do que homem.
eu tinha tudo
e
não deixei escapar.
760

Amor

Sally me abandonava de um jeito
desleixado. ela era boa com os
bilhetes,
escrevia com uma letra grande
e indignada, ela era
boa nisso.
e ela levava sempre a maioria de suas
roupas,
mas eu abria uma garrafa
me sentava e olhava em volta –
e havia um chinelo rosa
embaixo da cama.
eu terminava o drinque
e me enfiava embaixo da cama
para pegar aquele chinelo rosa e
jogá-lo no lixo
e ao lado do chinelo rosa
eu encontrava uma calcinha
manchada de cocô.
e havia grampos de cabelo por todos os cantos:
no cinzeiro, na cômoda, no
banheiro. e suas revistas apareciam
por todos os cantos com suas capas exóticas:
“Homem Estupra Moça, Depois Joga o Corpo de um
Penhasco de 120 Metros.”
“Menino de 9 Anos Estupra 4 Mulheres em Banheiro de
Parada de Ônibus da Greyhound e Coloca Fogo em
Recipientes de Descarte.”
Sally me abandonava de um jeito desleixado.
na gaveta de cima, perto do Kleenex,
eu encontrava todos os bilhetes que eu lhe escrevera,
ordenadamente presos com 3 ou 4 tiras
elásticas.
e ela era desleixada com
as fotos:
eu encontrava uma com nós dois
agachados no capô do nosso
Plymouth 58 –
Sally mostrando bastante das pernas
e arreganhando um sorriso como mulher de bandido em Kansas City
saída dos
anos vinte,
e eu
mostrando as solas dos meus sapatos
com buracos circulares
acenando.
e havia fotos de cachorros,
todos eles nossos,
e fotos de crianças,
a maioria
dela.
a cada uma hora e vinte minutos
o telefone tocava
e era
Sally
e uma canção de jukebox,
certa canção que eu
detestava, e ela ficava falando
e eu escutava vozes
masculinas:
“Sally, Sally, esqueça essa porra de telefone,
volte, venha ficar aqui comigo,
bebê!”
“veja bem”, ela dizia, “existem outros homens no
mundo além de você.”
“essa é só a sua opinião”, eu respondia.
“eu poderia ter amado você pra sempre, Bandini”, ela dizia.
“vai se foder”, eu dizia e
desligava.
Bandini é estrume, óbvio,
mas era também o nome que eu me dera
em homenagem a um personagem um tanto sentimental e um tanto infantil
de um romance escrito por certo
italiano nos anos 1930.
eu servia outro drinque
e enquanto procurava uma tesoura no banheiro
para aparar o cabelo em volta das minhas orelhas
encontrava um sutiã numa das gavetas
e o segurava no alto junto à luz.
o sutiã tinha bom aspecto pelo lado de fora
mas por dentro – havia uma mancha de
suor e sujeira, e a mancha era escurecida,
moldada ali
como se nenhuma lavagem jamais
pudesse
eliminá-la.
eu bebia minha bebida
então começava a aparar o cabelo em volta das minhas orelhas
decidindo que eu era um homem bastante bonito.
mas eu ia levantar pesos
iniciar uma dieta
e me bronzear,
de qualquer maneira.
então o telefone tocava de novo
e eu levantava o fone
desligava
levantava o fone de novo
e o deixava
pendurado
pelo fio.
eu aparava meus pelos dos ouvidos, meu nariz, minhas
sobrancelhas,
bebia por mais uma ou duas horas,
então ia
dormir.
eu era despertado por um som que eu nunca chegara
a escutar antes –
dava uma sensação e soava como um alerta de
ataque atômico.
eu me levantava e procurava pelo som.
era o telefone
ainda fora do gancho
mas o som que vinha dele
lembrava muito mil vespas
morrendo queimadas. eu
pegava o
fone.
“senhor, aqui é o recepcionista. seu telefone está
fora do gancho.”
“certo, sinto muito. vou
desligar.”
“não desligue, senhor. sua esposa está no
elevador.”
“minha esposa?”
“ela afirma ser a sra. Budinski...”
“certo, é
possível...”
“o senhor poderia tirá-la do
elevador? ela não entende os
comandos... a linguagem dela é abusiva para conosco
mas ela afirma que o senhor
vai ajudá-la... e, senhor...”
“sim?”
“não quisemos chamar a
polícia...”
“bom...”
“ela está deitada no piso do
elevador, senhor, e, e... ela...
se urinou
toda...”
“o.k.”, eu dizia e
desligava.
eu saía de calção
drinque na mão
charuto na boca
e apertava o botão
do elevador.
lá vinha ele subindo:
um, dois, três, quatro...
as portas se abriam
e eis ali
Sally... e pequenos, delicados
gotejamentos e ondulantes filetes líquidos
derivando pelo piso do
elevador, e algumas poças
maculadas.
eu terminava o drinque
pegava-a e a carregava
para fora do
elevador.
eu a levava até o apartamento
jogava-a na cama
e tirava suas
calcinhas, saia e meias molhadas.
então eu colocava um drinque na mesinha
perto dela
me sentava no sofá
e eu mesmo tomava
mais um.
de repente ela se sentava ereta e
olhava em volta do
quarto.
“Bandini?”, ela perguntava.
“aqui”, eu
acenava com a mão.
“ah, graças a deus...”
então ela via o drinque e
o engolia de uma só
vez. eu me levantava,
servia outro, colocava cigarros, cinzeiro e
fósforos
ao lado.
então ela se erguia de novo:
“quem tirou as minhas
calcinhas?”
“eu.”
“eu quem?”
“Bandini...”
“Bandini? você não pode
me comer...”
“você se
mijou...”
“quem?”
“você...”
ela se sentava totalmente
ereta:
“Bandini, você dança como uma
bicha, você dança como uma
mulher!”
“vou quebrar o seu maldito
nariz!”
“você quebrou o meu braço, Bandini, não me venha
quebrar o meu nariz...”
então ela colocava a cabeça de volta no
travesseiro: “eu te amo, Bandini, amo
mesmo...”
então ela começava a roncar. eu bebia por mais
uma hora ou duas então
me deitava na cama com
ela. não me dava vontade de tocá-la
no começo. ela precisava de um banho
ao menos. eu botava uma perna em cima de uma dela;
não parecia tão
ruim. eu testava botar a
outra.
eu começava a me lembrar de todos os dias bons e as
noites boas...
deslizava um braço por baixo de seu pescoço,
então passava o outro em volta de sua
barriga e encostava meu pênis bêbado
suavemente em sua
virilha.
seu cabelo caía de volta
e subia por dentro das minhas narinas.
eu a sentia inalando pesadamente, depois
expirando. nós dormíamos desse jeito
pela maior parte da noite e até a
tarde seguinte. então eu me levantava e
ia até o banheiro e vomitava
e então era
a vez dela.
1 348

Lua Azul, Ó Luuuuuaaazuuuullll, Te Adoro Tanto!

gosto de você, querida, eu te amo,
a única razão por que trepei com L. é porque você trepou
com Z. e aí eu trepei com R. e você trepou com N.
e porque você trepou com N. eu precisei trepar
com Y. Mas penso em você constantemente, sinto você
aqui na minha barriga como um bebê, amor é como eu chamaria isso,
não importa o que aconteça eu chamaria isso de amor, e então
você trepou com C. e então antes que eu pudesse me mexer de novo
você trepou com W., então aí eu tive que trepar com D. Mas
quero que você saiba que eu te amo, penso em você
constantemente, acho que nunca amei alguém
como amo você.
uau au uau au au
uau au uau au au
934

Um Poema de Amor Para Todas As Mulheres Que Eu Conheci

todas as mulheres
todos os seus beijos as
diferentes formas como amam e
falam e precisam.
suas orelhas todas elas têm
orelhas e
gargantas e vestidos
e sapatos e
automóveis e ex-
maridos.
na maioria
as mulheres são muito
calorosas elas me lembram
torrada amanteigada com a manteiga
derretida
nela.
há uma expressão no
olhar: elas foram
dominadas elas foram
enganadas. não sei direito o que
fazer por
elas.
eu sou
um cozinheiro razoável um bom
ouvinte
mas nunca aprendi a
dançar – estava ocupado
então com coisas maiores.
mas desfrutei de suas diferentes
camas
fumando cigarros
olhando fixo para os
tetos. não fui nem perverso nem
injusto. apenas
um estudante.
sei que todas elas têm aqueles
pés e descalças elas atravessam o assoalho enquanto
observo suas nádegas acanhadas no
escuro. sei que elas gostam de mim, algumas até
me amam
mas eu amo bem
poucas.
algumas me dão laranjas e pílulas;
outras falam calmamente de
infância e pais e
paisagens; algumas são quase
loucas mas nenhuma delas é desprovida de
significado; algumas amam
bem, outras nem
tanto; as melhores no sexo nem sempre são as
melhores em outros
aspectos; cada uma tem limites como eu tenho
limites e aprendemos
um ao outro
depressa.
todas as mulheres todas as
mulheres todos os
quartos
os tapetes as
fotos as
cortinas, é
meio como uma igreja só que
às vezes há
risos.
aquelas orelhas aqueles
braços aqueles
cotovelos aqueles olhos
fitando o carinho e
a espera eu fui
abraçado eu fui
abraçado.
1 164

Uma Definição

o amor não passa de farol aceso à
noite cortando a névoa
o amor não passa de uma tampinha de cerveja
na qual você pisa a caminho
do banheiro
o amor é a chave perdida da sua porta
quando você está bêbado
o amor é o que acontece um dia por
ano
um ano a cada dez
o amor são os gatos esmagados
do universo
o amor é um jornaleiro na
esquina que
desistiu
o amor são as primeiras 3 filas de
potenciais matadores no
Olympic Auditorium
o amor é o que você acha que a outra
pessoa destruiu
o amor é o que desapareceu com a
era dos encouraçados de batalha
o amor é o telefone tocando
e a mesma voz ou outra
voz mas nunca a voz
certa
o amor é traição
o amor é o bebum
sendo queimado no beco
o amor é aço
o amor é a barata
o amor é uma caixa de correio
o amor é chuva batendo no telhado
do hotel mais barato
de Los Angeles
o amor é o seu pai que
detestava você dentro de um caixão
o amor é um cavalo com a
perna quebrada
tentando ficar de pé
enquanto 55.000 pessoas
observam
o amor é o nosso jeito de ferver
como a lagosta
o amor é um cigarro de filtro
preso na sua boca e
aceso pela ponta errada
o amor é tudo que dissemos
que não era
o amor é o Corcunda de
Notre Dame
o amor é a pulga que você não consegue
encontrar
o amor é o mosquito
o amor são 50 granadeiros
o amor é o mais vazio dos
urinóis
o amor é uma rebelião em Quentin
o amor é um manicômio lotado
o amor é um burro cagando numa
rua de moscas
o amor é um banco de bar quando
ninguém está sentado nele
o amor é um filme do Hindenburg
se desmanchando em pedaços
em tempos que ainda gritam
o amor é Dostoiévski na
roleta
o amor é o que rasteja
pelo chão
o amor é a sua mulher dançando
apertada nos braços de um estranho
o amor é uma mulher velha
beliscando um naco de pão
o amor é uma palavra usada
constantemente
muitíssimo constantemente
o amor são telhados vermelhos e telhados
verdes e telhados azuis
e voar em aviões a jato
isso é tudo.
1 730

Fax

ganha do amor porque
não há quaisquer feridas
baqueando na carne. pela
manhã ela liga o
rádio com Brahms ou Ives
ou Stravinsky ou Mozart.
ela ferve os ovos con-
tando em voz alta os segundos:
56, 57, 58. descasca
os ovos, os traz para
mim na cama. depois do café
da manhã é o sofá, nós
colocamos os pés sobre a mesma
cadeira e ouvimos a
música clássica. ela
está em seu primeiro copo de
scotch e em seu terceiro
cigarro. digo-lhe que
preciso ir ao hipó-
dromo. ela está por aqui
faz 2 noites e 2 dias.
“quando vou ver você
de novo?”, pergunto. ela sugere
que isso dependeria de mim.
assinto com a cabeça e Mozart toca.
1 062

Sentado Numa Lancheria Na Beira da Estrada

minha filha é a coisa mais
gloriosa.
estamos comendo no meu
carro em Santa Monica.
eu digo: “Ei, menina,
minha vida tem sido
boa, tão boa”.
ela olha pra mim.
baixo minha cabeça
me inclino sobre o volante,
então abro a porta num chute,
“Eu sou um GÊNIO!”.
então vomito
de mentirinha.
ela ri, mordendo
seu sanduíche.
eu me endireito,
pego 4 batatas fritas,
coloco na minha boca,
mastigo.
são 5:30 da tarde
e os carros disparam pra lá
e pra cá passando
por nós.
dou uma olhada de canto.
ela sorri com todos os dentes
seus olhos brilham com
o que resta do
mundo.
temos toda a sorte
de que precisamos.
1 058

Um Para o Engraxate

o equilíbrio está nas lesmas escalando as
falésias de Santa Monica;
a sorte está em descer a Western Avenue
e acontecer que uma das garotas de uma casa
de massagem grite pra você “Alô, Doçura!”
o milagre está em ter cinco mulheres apaixonadas
por você aos 55 anos de idade,
e o bom de tudo é que você só é capaz
de amar uma delas.
o dom está em ter uma filha mais delicada
do que você é, cuja risada é mais bela
do que a sua.
a placidez está em ser capaz de dirigir um
Fusca 67 azul pelas ruas como um
adolescente, o rádio sintonizado no Apresentador que Mais Ama
Você, sentindo o sol, sentindo o sólido ronco
do motor retificado
enquanto você costura o tráfego
e deixa os mortos putos da cara.
a graça está em ser capaz de gostar de rock,
música sinfônica, jazz...
tudo que contenha o júbilo da energia
original.
e a matemática que retorna
é o profundo baixo-astral sob
você estendido sobre você
entre as paredes de guilhotina –
furioso com o som do telefone
ou com os passos de qualquer um passando;
e a outra matemática:
a iminente animação que se segue
fazendo com que os caras sentados nos bancos
junto aos carrinhos de taco
pareçam gurus
fazendo com que a garota do caixa no
supermercado pareça
Marilyn
ou Zsa Zsa
ou Jackie antes de pegarem seu amante de Harvard
ou a garota do ensino médio que
todos nós garotos seguíamos até em casa.
e a pureza que ajuda você a crer
em algo além da morte
é Sandy Hawley montando
cinco vencedores no Hollywood Park, cavalos fora de forma,
nenhum deles favorito,
ou alguém num carro que se aproxima de você
numa rua estreita demais,
e ele ou ela desvia de lado pra deixar você
passar, ou o velho lutador Beau Jack
engraxando sapatos
após ter torrado seu pé-de-meia todo
com festas
com mulheres
com parasitas,
cantarolando, soprando no couro,
mandando ver com o trapo,
olhando pra cima e dizendo:
“Que diabo, por um momento
eu tive tudo. uma coisa ganha da
outra”.
por vezes me mostro muito amargo
mas o gosto tem sido com frequência
doce, é só que tive
medo de dizê-lo. é como
quando sua mulher diz
“fala que me ama”
e você não consegue dizer.
se você chegar a me ver sorrindo em
meu Fusca azul
cruzando um sinal amarelo
dirigindo direto rumo ao sol
sem óculos escuros
estarei apenas trancado na
tarde de uma
vida louca
pensando em trapezistas de circo
em anões com charutos enormes
num inverno russo no início dos anos 40
em Chopin com seu saco de terra polonesa
ou numa velha garçonete me trazendo uma xícara
extra de café e parecendo rir de mim
enquanto me serve.
do melhor de você
eu gosto mais do que você imagina.
os outros não contam
exceto que eles têm dedos e cabeças
e alguns deles olhos
e a maioria deles pernas
e todos eles
sonhos bons e ruins
e um caminho para seguir.
o equilíbrio está em toda parte e está funcionando
e as metralhadoras e as rãs
e as sebes podem lhe contar
isso.
698

Quem Diabos É Tom Jones?

fiquei dormindo
com uma garota de
24 anos de Nova York
por duas semanas,
mais ou menos pela época
da greve dos lixeiros
lá fora, e certa noite
essa mulher de 34 anos
apareceu e falou
“quero ver minha rival”,
fez isso e então
disse: “ah, você é uma
coisinha querida!”
depois só sei que houve um
turbilhão de gatas selvagens –
festival de berros e unhadas,
gemidos de animal ferido,
sangue e mijo...
eu estava bêbado e só de
calção. tentei
separar as duas e caí,
torci meu joelho. então
elas atravessaram a
porta e desceram a entrada
e saíram pela rua.
viaturas cheias de policiais
chegaram. um helicóptero da polícia
circulou acima.
eu me parei no banheiro
e escancarei um sorriso no espelho.
não é frequente aos
55 anos de idade
que ocorra tão
esplêndida ação.
foi melhor do que os
distúrbios de Watts.
então a de 34 anos
entrou de volta. estava toda
mijada e sua
roupa estava rasgada e
vinha seguida por 2 policiais
que queriam saber
por quê.
erguendo meu calção
eu tentei explicar.
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Mário Quintana
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