Charles Bukowski

Charles Bukowski

1920–1994 · viveu 73 anos DE DE

Charles Bukowski foi um poeta e escritor alemão-americano, conhecido por sua obra crua, visceral e autobiográfica. Sua escrita, frequentemente associada à chamada "geração beat" e à contracultura, retrata a vida marginal, os vícios, a pobreza, o sexo e a alienação com uma linguagem direta e sem rodeios. Bukowski celebrou o submundo e os desajustados, tornando-se um ícone para muitos que se sentiam à margem da sociedade.

n. 1920-08-16, Andernach · m. 1994-03-09, San Pedro

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Acenos E Mais Acenos de Adeus

paguei suas despesas ao longo de todo o trajeto entre
[Houston
e São Francisco
depois voei pare encontrá-la na casa do irmão dela
e acabei bêbado
e falei a noite inteira sobre uma ruiva, e
ela disse por fim, “você dorme ali em cima”,
e eu subi a escada
do beliche e ela dormiu
na cama de baixo.

no dia seguinte eles me levaram até o aeroporto
e eu voei de volta, pensando, bem,
ainda restou a ruiva e assim que cheguei
liguei para ela e disse, “voltei, baby,
peguei um avião para ver essa mulher e falei
sobre você a noite inteira, então aqui estou eu de volta...”

“bem, por que você não volta lá e termina
o serviço?” ela disse e desligou.

então enchi a cara e o telefone tocou
e elas se apresentaram como
duas garotas alemãs que queriam
me ver.

então elas apareceram e uma delas tinha 20 e a
outra 22. contei-lhes que meu coração
havia sido esmigalhado pela última vez e
que eu estava desistindo desse negócio de mulher. elas riram
de mim e nós bebemos e fumamos e fomos
juntos para a cama.

eu tinha essa cena diante de mim e
primeiro agarrei uma e depois agarrei a
outra.

finalmente fiquei com a de 22 e
a devorei.

elas ficaram 2 dias e 2 noites
mas nunca fui com a de 20,
ela estava menstruada.

finalmente as levei para Sherman Oaks
e elas ficaram junto ao pé de uma longa
passagem
acenos e mais acenos de adeus enquanto eu dava a ré
no meu fusca.

quando voltei havia uma carta de uma
mulher de Eureka. dizia que queria que eu
a fodesse até que ela não pudesse
mais caminhar.

me deitei e puxei uma
pensando na garotinha que eu tinha visto
uma semana atrás em sua bicicleta vermelha.

depois tomei um banho e vesti meu robe
verde e felpudo bem a tempo de pegar as lutas
na tevê diretamente do Olympic.

havia um negro e um chicano.
isso sempre dava uma boa luta.

e era também uma boa ideia:
ponha os dois no ringue e deixe que
se matem.

assisti a todo o combate
sem deixar de pensar na ruiva uma vez sequer.

acho que o chicano venceu
mas não tenho certeza.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Heinrich Karl "Hank" Bukowski Jr. foi um poeta, contista e romancista alemão-americano. Nasceu em Andernach, na Alemanha, em 16 de agosto de 1920, e faleceu em San Pedro, Califórnia, Estados Unidos, em 9 de março de 1994. É uma figura proeminente da literatura marginal e da contracultura americana. Filho de pais alemães, mudou-se com a família para os Estados Unidos quando tinha três anos.

Infância e formação

Bukowski teve uma infância difícil marcada pela pobreza e por um relacionamento abusivo com o pai. Aos três anos, a família emigrou para os Estados Unidos, estabelecendo-se em Los Angeles. Sua adolescência foi rebelde e problemática. Frequentou a Los Angeles High School, mas abandonou os estudos precocemente. Aos 17 anos, saiu de casa. Sua formação foi autodidata, moldada por leituras intensas, pela experiência de vida nas ruas e pelos trabalhos precários que desempenhou ao longo de décadas.

Percurso literário

Bukowski começou a escrever poesia e contos ainda jovem, mas demorou décadas para ser reconhecido. Trabalhou em empregos manuais e braçais, como carteiro e em fábricas, em grande parte de sua vida adulta, muitas vezes lutando contra o alcoolismo. Publicou esporadicamente em pequenas revistas literárias underground nas décadas de 1940 e 1950. Sua carreira literária ganhou impulso a partir da década de 1960, quando se dedicou integralmente à escrita após receber uma herança que lhe permitiu deixar o emprego nos correios. Seu primeiro livro de poemas, "Flower, Fist, and Bestial Wail", foi publicado em 1960. A partir daí, produziu uma vasta obra em poesia, contos e romances.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras mais conhecidas de Bukowski incluem coleções de poemas como "Love Is a Dog from Hell" (1977), "Crimson Tears" (1978), e "The Most Beautiful Woman in Town" (1986), além de romances como "Factotum" (1975), "Women" (1978) e "Post Office" (1971). Seus temas centrais são a vida marginal, a pobreza, o alcoolismo, o sexo, a solidão, a alienação, a crítica social e a busca por sentido em um mundo caótico. Seu estilo é caracterizado por uma linguagem direta, coloquial, sem adornos, muitas vezes obscena e chocante, mas também capaz de uma profunda sensibilidade e honestidade. Ele utilizava o verso livre de forma contundente, com frases curtas e ritmo muitas vezes quebrado. Sua voz poética é confessional, crua e irónica, refletindo suas experiências de vida de forma implacável. Bukowski é considerado um renovador da poesia americana pela sua abordagem realista e pela sua capacidade de dar voz aos desvalidos.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Bukowski emergiu como uma voz dissonante em meio ao otimismo pós-guerra e ao surgimento da contracultura nos EUA. Sua obra, muitas vezes associada à Geração Beat, como Jack Kerouac e Allen Ginsberg, embora com um estilo mais sombrio e menos místico, capturou o desencanto e a rebeldia de uma parcela da sociedade que se sentia marginalizada. Ele escreveu em um período de profundas mudanças sociais e políticas nos Estados Unidos, como a Guerra do Vietnã e os movimentos pelos direitos civis, temas que, embora não diretamente abordados, permeiam o pano de fundo de sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida de Bukowski foi marcada pela luta contra o alcoolismo, por relacionamentos tumultuados e por uma série de empregos precários. Teve casamentos e relacionamentos significativos, incluindo com as poetisas Jane Cooney Baker e Linda King, e mais tarde com Linda Lee Beighle, que se tornou sua esposa e figura importante em sua vida. Sua obra é profundamente autobiográfica, sendo difícil separar o homem do escritor. Suas experiências com a pobreza e a boemia foram a matéria-prima de sua escrita. Suas crenças eram pragmáticas e cínicas, desconfiando de instituições e ideologias.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Bukowski obteve um reconhecimento tardio e muitas vezes controverso. Enquanto era idolatrado por muitos como um autêntico "escritor do povo" e um rebelde contra o sistema, era criticado por outros por seu estilo considerado vulgar ou amoral. Sua popularidade cresceu exponencialmente após sua morte, tornando-se um autor cultuado em todo o mundo, especialmente entre jovens e leitores que se identificam com sua honestidade brutal e sua visão de mundo sem filtros.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Bukowski foi influenciado por escritores como Ernest Hemingway, John Fante, D.H. Lawrence e por autores da Geração Beat. Seu legado é o de ter dado voz aos marginalizados, de ter mostrado que a literatura pode emergir de experiências de vida difíceis e de ter desafiado as convenções literárias estabelecidas. Inspirou inúmeros poetas e escritores que buscam uma linguagem autêntica e um retrato sem maquiagem da realidade. Sua obra continua a ser uma referência para a literatura underground e alternativa.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Bukowski é frequentemente analisada sob a ótica da literatura marginal, da crítica social e da representação da experiência humana em suas formas mais cruas. Os debates centram-se na sua genialidade como cronista da vida urbana e da alienação, e na sua capacidade de extrair poesia do feio e do sórdido.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Bukowski era conhecido por seu humor negro e seu cinismo. Ele tinha uma coleção de centenas de cartas de amor recebidas de fãs em todo o mundo. Passou um período em um hospital psiquiátrico em sua juventude, uma experiência que o marcou profundamente. Sua relação com os cachorros era notória. Era um observador atento da natureza humana, registrando suas observações em cadernos.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Charles Bukowski faleceu em 9 de março de 1994, em San Pedro, Califórnia, aos 73 anos, vítima de leucemia. Sua morte foi recebida com pesar por seus admiradores. Suas cinzas foram espalhadas em um de seus locais favoritos na Califórnia. Sua obra continua a ser publicada e a ser redescoberta por novas gerações, solidificando sua posição como um dos autores mais singulares e influentes da literatura americana.

Poemas

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Oração Para Uma Puta Sob Mau Tempo

por Deus, não sei o que
fazer.
elas são tão boas de se ter por perto.
elas têm um jeito de brincar com
as bolas
e olhar para o pau muito
seriamente
torcendo-o
puxando-o
examinando cada parte
enquanto seus longos cabelos caem sobre
a nossa barriga.
não é o foder e o chupar
apenas
o que alcança o íntimo do homem
e o suaviza,
são os extras,
são todos os extras.
está chovendo agora nesta noite
e não há ninguém por aqui.
estão em outros lugares
examinando coisas
em novos quartos
em novos humores
ou talvez em velhos
quartos.
de qualquer forma, está chovendo nesta noite,
um diabo de chuva grossa,
torrencial...
muito pouco a fazer.
já li o jornal
paguei a conta do gás
a cia. elétrica
a conta do telefone.
continua chovendo.
elas suavizam o sujeito
e então o deixam a nadar
em seu próprio suco.
preciso de uma puta à moda antiga
batendo à porta esta noite
fechando seu guarda-chuva verde,
gotas de chuva enluarada em sua
bolsa, dizendo “merda, cara,
você consegue achar música melhor
do que essa no seu rádio...
e aumente o aquecimento...”
é sempre quando um homem está
com tesão de amor e tudo
mais
que só continua chovendo
espirrante
vomitante
chuva
boa para as árvores e a
grama e o ar...
boa para coisas que conseguem
viver sozinhas.
eu daria qualquer coisa
pela mão de uma fêmea nas minhas bolas
esta noite.
elas pegam o cara de jeito e
depois o deixam escutando
a chuva.

FAZ QUATRO ANOS QUE NÃO PEGO UMA MULHER
1 051

Um Para a Dente-Acavalado

conheço uma mulher
que fica comprando quebra-cabeças
quebra-cabeças
chineses
blocos
arames
peças que afinal se encaixam
numa espécie de ordem.
ela monta tudo
matematicamente
resolve todos os seus
quebra-cabeças
vive junto ao mar
deixa açúcar fora para as formigas
e acredita
fundamentalmente
num mundo melhor.
seu cabelo é branco
ela raras vezes o penteia
seus dentes são acavalados
e ela usa macacões frouxos e disformes
sobre um corpo que a maioria
das mulheres desejaria ter.
por vários anos ela me irritou
com aquilo que eu considerava como sendo
suas excentricidades –
tipo mergulhar cascas de ovo na água
(alimentando as plantas para que
absorvessem cálcio).
mas afinal quando penso em sua
vida
e a comparo com outras vidas
mais deslumbrantes, originais
e belas
percebo que ela machucou menos
gente do que qualquer pessoa que conheço
(e com machucar quero dizer simplesmente machucar).
ela teve alguns momentos terríveis,
momentos em que talvez eu devesse tê-la
ajudado mais
pois ela é a mãe da minha única
filha
e outrora fomos grandes amantes,
mas ela superou os obstáculos
como eu disse
ela machucou menos gente do que
qualquer pessoa que conheço,
e se você olhar por esse ângulo,
bem,
ela criou um mundo melhor.
ela venceu.
Frances, este poema é pra
você.
579

O Fim de Um Breve Caso

tentei fazer de pé
dessa vez.
geralmente não
funciona
dessa vez parecia
estar...
ela ficava dizendo
“ah, meu Deus, você tem
pernas lindas!”
tudo ia bem
até que ela tirou os pés do
chão e
enroscou as pernas
em volta da minha cintura.
“ah, meu Deus, você tem
pernas lindas!”
ela pesava uns 63
quilos e ficou ali pendurada enquanto eu
trabalhava.
foi quando cheguei ao clímax
que senti a dor
subir voando por minha
espinha.
larguei-a no
sofá e andei ao redor
da sala.
a dor continuava.
“olha só”, eu lhe falei,
“é melhor você ir. preciso
revelar um filme
na minha câmara escura.”
ela se vestiu e foi embora
e eu fui até a
cozinha para tomar um copo
d’água. peguei um copo cheio
com a mão esquerda.
a dor subiu por trás das minhas
orelhas e
deixei cair o copo
que se quebrou no chão.
entrei numa banheira cheia de
água quente e sais de Epsom.
mal tinha acabado de me esticar
quando o telefone tocou.
tentei endireitar
minhas costas
a dor se estendeu por meu
pescoço e braços.
fiquei baqueando,
agarrei as bordas da banheira,
saí
com jatos luminosos verdes e amarelos
e vermelhos
turbilhonando na minha cabeça.
o telefone continuava tocando.
atendi.
“alô?”
“EU TE AMO!”, ela disse.
“obrigado”, eu disse.
“isso é tudo que você tem
pra dizer?”
“sim.”
“vá à merda!”, ela falou e
desligou.
o amor se esgota, pensei
enquanto voltava para o
banheiro, quase tão rápido quanto
esperma.

"NÃO ESTÁ FUNCIONANDO, ESTÁ?"
1 373

A Deusa de Um Metro E Oitenta (Para S.D.)

sou grande
suponho que é por isso que minhas mulheres sempre parecem
pequenas
mas essa deusa de um metro e oitenta
que negocia imóveis
e arte
e voa do Texas
para me ver
e eu voo ao Texas
para vê-la –
bem, há nela uma abundância para
ser agarrada
e eu agarro tudo
dela,
puxo sua cabeça para trás pelos cabelos,
sou macho pra valer,
chupo seu lábio superior
sua boceta
sua alma
monto nela e lhe digo:
“vou jorrar suco branco quente
dentro de você. não voei até
Galveston pra jogar
xadrez”.
depois deitamos entrelaçados como vinhas humanas
meu braço esquerdo sob seu travesseiro
meu braço direito sobre seu flanco
aperto suas duas mãos,
e meu peito
barriga
bolas
pau
emaranham-se nela
e através de nós no escuro
passam brancos raios berrantes
pra lá e pra cá
pra lá e pra cá
até que eu despenco
e nós dormimos.
ela é selvagem
mas gentil
minha deusa de um metro e oitenta
me faz rir
a risada do mutilado
que ainda precisa
de amor,
e seus olhos abençoados
brotam nas profundezas de sua cabeça
como nascentes interiores
no íntimo distante
e
frescas e boas.
ela me salvou
de tudo que
não está aqui.

COMECEI A SUGAR O AR DE SEUS PULMÕES
1 221

Um Bilhete de Aceitação

16 anos de idade
durante a Depressão
eu voltava pra casa bêbado
e todas as minhas roupas –
calções, camisas, meias,
maleta e páginas de
contos
estavam jogadas no
gramado da frente e pela
rua.
minha mãe me esperava
atrás de uma árvore:
“Henry, Henry, não
entre... ele vai
matar você, ele leu
as suas histórias...”
“eu posso arrebentar
o traseiro dele...”
“Henry, por favor pegue
isso... e
encontre um quarto pra você”.
mas o preocupava
que eu não conseguisse
terminar o ensino médio
então eu voltava pra casa
outra vez.
certa noite ele entrou
com as páginas de
um dos meus contos
(que eu nunca tinha lhe
mostrado)
e disse: “este é
um grande conto!”
e eu falei “o.k.”,
e ele o devolveu pra mim
e eu o li.
era uma história sobre
um homem rico
que brigara com
a esposa e tinha
saído pela noite
para tomar um café
e tinha notado
a garçonete e as colheres
e os garfos e os
saleiros e pimenteiros
e o letreiro de neon
na janela
e então tinha voltado
até seu estábulo
para ver e tocar seu
cavalo favorito
que então
lhe deu um coice na cabeça
e o matou.
de algum modo
a história fazia
sentido pra ele
se bem que
ao escrevê-la
nem me passara pela cabeça
sobre o que eu
estava escrevendo.
então eu lhe falei:
“o.k., velho, você pode
ficar com ele”.
e ele o pegou
e saiu
e fechou a porta.
acho que isso foi
o mais perto
que já chegamos.
1 018

Cometi Um Erro

me estiquei até o alto do armário
e puxei uma calcinha azul
e mostrei a ela e
perguntei “é sua?”
e ela olhou e falou:
“não, essa pertence a um cão”.
ela foi embora depois disso e não a vi
desde então. não está na casa dela.
continuo indo lá, deixando bilhetes enfiados
por baixo da porta. volto lá e os bilhetes
continuam ali. tiro a cruz de Malta
arranco-a do espelho do meu carro, amarro-a
com um cadarço em sua maçaneta, deixo
um livro de poemas.
quando retorno na noite seguinte tudo
continua ali.
sigo rondando as ruas em busca daquele
encouraçado sangue-vinho que ela dirige
com uma bateria fraca, e as portas
pendendo de dobradiças quebradas.
dirijo pelas ruas
a um centímetro de chorar,
envergonhado de meu sentimentalismo e
possível amor.
um velho confuso dirigindo na chuva
perguntando-se onde a boa sorte
foi parar.
1 074

O Incêndio do Sonho

A velha Biblioteca Pública de L.A. pegou
fogo
aquela biblioteca do centro
e com ela se foi
uma grande parte da minha
juventude.
eu estava sentado num daqueles bancos de
pedra com meu amigo
Carequinha quando ele
perguntou,
“você vai se alistar na
brigada
Abraham Lincoln?”
“claro”, eu lhe
disse.
mas percebendo que eu não era nem
um intelectual nem um político
idealista
recuei na questão
mais
tarde.
eu era um leitor
então
indo de seção em
seção: literatura, filosofia,
religião, até medicina
e geologia.
desde cedo
decidi ser um escritor
pensei que esse seria o caminho mais fácil
para
escapar
e os grandes figurões do romance não me pareciam
páreo muito
duro.
eu tinha maiores dificuldades com
Hegel e Kant.
o que me incomodava
em
todos eles
é que levavam um tempo enorme
para finalmente dizer
alguma coisa viva e/
ou
interessante.
pensava então ter algo a dizer
mais do que todos
eles.
eu estava para descobrir duas
coisas:
a) a maioria dos editores pensava que tudo que fosse
chato tinha algo a ver com assuntos
profundos.
b) que levaria décadas de
vida e escrita
antes que eu fosse capaz de
colocar no papel
uma frase que estivesse
ao menos próxima
daquilo que eu realmente queria
dizer.
nesse meio-tempo
enquanto outros jovens corriam atrás de
mulheres
eu corria atrás dos velhos
livros.
eu era um bibliófilo, quem sabe um
sujeito
desencantado
e isto
e o mundo
me moldaram.
eu vivia numa cabana de madeira
atrás de uma pensão
a três dólares por
semana
sentindo-me como um
Chatterton
enfiado dentro de algo do
Thomas
Wolfe.
meus maiores problemas eram
selos, envelopes, papéis
e
vinho,
com o mundo no auge
da Segunda Guerra Mundial.
eu ainda não tinha sido
desconcertado pelas
mulheres, eu era virgem
e escrevia de 3 a
5 contos por semana
e todos retornavam
rejeitados
por The New Yorker, Harper’s,
The Atlantic Monthly.
eu tinha lido em algum lugar que
Ford Madox Ford costumava usar
como papel higiênico os pareceres
dos trabalhos rejeitados
mas eu não tinha
um banheiro de modo que os enfiava
numa gaveta
e quando não havia mais espaço
e eu mal conseguia
abri-la
eu retirava todos os pareceres
e os jogava fora
junto com os
contos.
enquanto isso
a velha Biblioteca Pública de L.A. seguia sendo
minha casa
e a casa de muitos outros
vagabundos.
discretamente usávamos os
banheiros
e os únicos entre nós que deveriam
ser
evitados eram aqueles que
pegavam no sono nas mesas da
biblioteca –
ninguém ronca como um
vagabundo
exceto alguém com quem você é
casado.
bem, eu não era propriamente um
vagabundo. eu tinha um cartão da biblioteca
e eu ia e voltava com os livros
uma
enorme
quantidade deles
sempre levando o limite
máximo
permitido:
Aldous Huxley, D. H. Lawrence,
e. e. cummings, Conrad Aiken, Fiodor
Dos, Dos Passos, Turguêniev, Górky,
H. D., Freddie Nietzsche,
Schopenhauer,
Steinbeck,
Hemingway,
e assim por
diante...
sempre esperava que a bibliotecária
dissesse: “você tem um gosto e tanto, meu
jovem...”
mas a puta velha e acabada
não sabia nem quem ela
era
que dirá de
mim.
mas aquelas estantes eram
tremendamente encantadoras: permitiam-me
descobrir
os primeiros poetas chineses
como Tu Fu e Li
Po
que podiam dizer mais em uma
linha do que a maioria em
trinta ou
cem.
Sherwood Anderson deve
tê-los
lido
também.
eu também levava os Cantos
pra lá e pra cá
e Ezra me ajudou
a fortalecer meus braços se não
meu cérebro.
aquele lugar fantástico
a Biblioteca Pública de L.A.
era um lar para uma pessoa que tinha tido
um
lar dos
infernos
CÓRREGOS AMPLOS DEMAIS PARA SALTAR
LONGE DA MULTIDÃO ESTULTA
CONTRAPONTO
O CORAÇÃO É UM CAÇADOR SOLITÁRIO
James Thurber
John Fante
Rabelais
Maupassant
alguns não funcionavam para
mim: Shakespeare, G. B. Shaw,
Tolstói, Robert Frost, F. Scott
Fitzgerald
Upton Sinclair funcionava melhor para
mim
que Sinclair Lewis
e eu considerava Gógol e
Dreiser completos
idiotas
mas tais juízos eram produto
mais da maneira
como um homem era forçado a viver do que de
sua razão.
a velha Biblioteca Pública
muito provavelmente evitou que eu me
tornasse um
suicida
um ladrão
de bancos
um
espancador
de mulheres
um carniceiro ou um
policial motorizado
e ainda que algumas dessas possibilidades
não sejam más
é
graças
à minha sorte
e a meu destino
que aquela biblioteca estava
lá quando eu era
jovem e procurava me
agarrar a
alguma coisa
quando parecia não haver quase
nada ao meu
redor.
e quando eu abri o
jornal
e soube do incêndio
que havia
destruído a
biblioteca e boa parte de
seu interior
eu disse à minha
esposa: “eu costumava passar
meu tempo
lá...”
O OFICIAL PRUSSIANO
O JOVEM AUDAZ NO TRAPÉZIO VOADOR
TER E NÃO TER
VOCÊ NÃO PODE VOLTAR PARA CASA.

Realizei várias incursões educativas pelos cortiços da cidade a fim de me preparar para o meu futuro. Não gostei nada do que vi por lá. Aqueles homens e aquelas mulheres não tinham qualquer tipo especial de ousadia ou brilho. Queriam apenas o que todo o resto do mundo queria. Havia também alguns desequilibrados mentais clássicos que podiam andar com tranquilidade naquelas redondezas. Eu tinha notado que em ambos os extremos da sociedade, tanto entre os ricos quanto entre os pobres, frequentemente se permitia que os loucos se misturassem livremente entre as pessoas. Eu sabia que não era inteiramente são. Também sabia, uma percepção que eu tinha desde a infância, que havia algo de estranho em mim. Era como se meu destino fosse ser um assassino, um ladrão de banco, um santo, um estuprador, um monge, um ermitão. Precisava de um lugar isolado para me esconder. Os cortiços eram lugares nojentos. A vida das pessoas sãs, dos homens comuns, era uma estupidez pior do que a morte. Parecia não haver alternativa possível. A educação também parecia uma armadilha. A pouca educação que eu tinha me permitido havia me tornado ainda mais desconfiado. O que eram médicos, advogados, cientistas? Apenas homens que tinham permitido que sua liberdade de pensamento e a capacidade de agir como indivíduos lhes fossem retiradas. Voltei para meu barracão e enchi a cara...
Sentado ali, bebendo, considerei a opção do suicídio, mas me senti estranhamente apaixonado pelo meu corpo, pela minha vida. Apesar das cicatrizes que marcavam meu corpo e minha existência, ambos eram propriedades minhas. Eu podia me levantar agora e sorrir com escárnio para meu reflexo no espelho da cômoda: se você tem que ir, que leve ao menos uns oito junto, uns dez, uns vinte...
Era uma noite de dezembro, um sábado. Estava no meu quarto e tinha bebido muito mais que o de costume, acendendo um cigarro no outro, pensando nas garotas e na cidade e nos empregos e nos anos que ainda viriam. Olhando para o devir, eu gostava muito pouco do que via. Eu não era um misantropo ou um misógino, mas gostava de estar sozinho. Era bom estar solitário num lugarzinho, sentado, fumando e bebendo. Sempre tinha sido uma boa companhia para mim mesmo.
Então escutei o som do rádio que vazava do quarto ao lado. O cara tinha posto o volume muito alto. Era uma canção de amor de embrulhar o estômago.
– Ei, camarada! – gritei. – Abaixa essa coisa!
Não houve resposta.
Fui até a parede e bati com força
– EU DISSE PARA ABAIXAR ESSA MÚSICA DE MERDA!
O volume continuou o mesmo.
Saí e fui até a porta vizinha. Eu estava só de cueca. Ergui minha perna e meti o pé na porta. Ela se escancarou. Havia duas pessoas na cama, um velho gordo e uma velha gorda. Eles estavam trepando. Havia uma pequena vela acesa. O velho estava por cima. Parou, voltou sua cabeça e me olhou. A velha também me deu uma olhada por sobre o ombro dele. O lugar era muito bem arrumado, com cortinas e um pequeno tapete.
– Oh, me desculpem...
Fechei a porta e voltei para o meu quarto. Senti-me péssimo. Os pobres tinham o direito de foder como quisessem para vencer seus pesadelos. Sexo e bebida, e talvez amor, era tudo o que eles tinham.
Sentei-me novamente e servi um copo de vinho. Deixei a minha porta aberta. A luz do luar entrou trazendo consigo os sons da cidade: vitrolas, automóveis, palavrões, latidos, rádios... Estávamos todos juntos nisso. Todos juntos num grande vaso cheio de merda. Não havia escapatória. Todos desceríamos juntos com a descarga.
Um gatinho que passava do lado de fora parou na frente da minha porta e olhou para dentro. Os olhos brilhavam sob a luz da lua: olhos de um vermelho vivo como fogo. Que olhos maravilhosos.
– Venha, gatinho...
Estiquei minha mão como se houvesse comida dentro dela.
– Gatinho, gatinho...
O gato seguiu adiante.
Ouvi o rádio na peça ao lado ser desligado.
Terminei meu vinho e fui até ali fora. Continuava só de cueca. Puxei e ajeitei minhas partes. Fiquei parado na frente da outra porta. Eu havia destruído o trinco. Podia ver a luz da vela lá dentro. Eles mantinham a porta fechada pela ação de algum móvel, provavelmente uma cadeira.
Bati discretamente.
Não houve resposta.
Bati outra vez.
Ouvi alguma coisa. Então a porta se abriu.
O velho gordo ficou ali plantado. Seu rosto era todo sulcado, transmitindo uma ideia de profunda amargura. Era todo sobrancelhas e bigode e dois olhos tristonhos.
– Ouça – eu disse –, sinto profundamente o que fiz. Você e sua garota não querem dar uma chegada no meu quarto para tomarmos alguma coisa?
– Não.
– Ou quem sabe eu possa trazer algo para vocês beberem?
– Não – ele disse –, apenas nos deixe em paz.
Ele fechou a porta.
Acordei com uma das minhas piores ressacas. Normalmente dormia até o meio-dia. Naquele dia não consegui. Pus uma roupa, fui até o banheiro na casa principal e fiz minha higiene. Voltei, saí pela ruela e tomei a escadaria, desci o barranco e segui pela rua de baixo.
Domingo, o pior, o mais desgraçado entre todos os dias da semana.
Caminhei pela rua Principal, passei pelos bares. As acompanhantes se sentavam perto da entrada, as saias bem erguidas, balançando as pernas, usando saltos altos.
– Ei, doçura, venha aqui!
Main Street, East 5th Street, Bunker Hill. Os cus da América.
Não havia lugar para ir. Entrei num fliperama. Andei entre as máquinas, olhando para os jogos, mas sem desejo algum de jogar. Então vi um marinheiro numa máquina de pinball. Suas duas mãos apertavam as laterais da máquina, enquanto ele tentava guiar a bolinha como se estivesse usando o próprio corpo para fazê-lo. Caminhei até ele e o agarrei pela parte de trás do colarinho e pelo cinto.
– Becker, eu exijo uma maldita duma revanche!
Soltei-o e ele se virou.
– Não, está fora de questão – ele disse.
– Uma melhor de três.
– Caralho – ele disse –, deixa eu te pagar uma bebida.
Saímos do fliperama e descemos a Main Street. Uma acompanhante gritou de um dos bares:
– Ei, marinheiro, venha cá!
Becker parou.
– Vou entrar – ele disse.
– Não faça isso – eu disse –, elas são baratas humanas.
– Acabei de receber.
– As garotas bebem chá, e eles põem água na sua bebida. Cada dose é o dobro do preço, e depois a garota desaparece.
– Estou entrando.
Becker entrou. Um dos melhores escritores inéditos da América, vestido para matar e morrer. Segui-o. Ele foi até uma das garotas e falou com ela. Ela puxou a saia mais para cima, girou em seus saltos altos e sorriu. Foram para um reservado no fundo. O atendente foi até lá pegar o pedido deles. A outra garota junto ao bar me olhou.
– Ei, doçura, quer brincar um pouquinho?
– Claro, desde que a gente brinque do meu jeito.
– Tem medo ou é veado?
– Os dois – eu disse, sentando no canto mais afastado do bar.
Havia um cara entre nós, a cabeça apoiada no balcão. Sua carteira já era. Quando ele acordasse e começasse a reclamar, das duas uma: ou seria jogado no meio da rua pelo atendente, ou seria entregue nas mãos da polícia.
Depois de servir Becker e a acompanhante, o atendente voltou para trás do balcão e caminhou em minha direção.
– Sim?
– Nada.
– É? Então o que cê tá fazendo aqui?
– Esperando por um amigo – gesticulei com a cabeça na direção do reservado.
– O negócio aqui é sentou pediu.
– Beleza. Uma água.
O atendente se afastou, voltou, deixou o copo d’água.
– Vinte e cinco centavos.
Paguei-o.
A garota junto ao bar disse ao atendente:
– Ele é veado ou medroso.
O atendente não disse nada. Então Becker lhe fez um sinal e ele foi lá pegar o pedido.
A garota olhou para mim.
– Como você não tá de uniforme?
– Não gosto de me vestir como todo mundo.
– Não existem outras razões?
– As outras razões só dizem respeito a mim.
– Então vá se foder – ela disse.
O atendente voltou.
– Você precisa de outro copo.
– Tá – eu disse, mandando outro quarto de dólar na sua direção.
Do lado de fora, Becker e eu seguimos pela Main Street.
– Como foi? – perguntei.
– Cobraram pelo uso da mesa, além dos dois drinques. Chegou a 32 pratas.
– Cristo. Eu podia ficar bêbado por duas semanas com essa grana.
– Ela agarrou meu pau debaixo da mesa, ficou tocando uma.
– O que ela disse?
– Nada. Apenas tocou uma punheta pra mim.
– Prefiro eu mesmo me bater uma punheta e ficar com os 32 contos.
– Mas ela era tão linda.
– Maldição, homem. Estou andando ao lado de um perfeito idiota.
– Algum dia vou escrever sobre essas coisas. Estarei nas prateleiras das bibliotecas: BECKER. Os “Bs” são muito fracos, precisam de ajuda.
– Você fala demais sobre escrever – eu disse.
Encontramos um outro bar perto do terminal de ônibus. Não era uma espelunca movimentada. Havia apenas o dono do bar e cinco ou seis viajantes, todos homens. Becker e eu nos sentamos.
– É por minha conta – disse Becker.
– Uma Eastside na garrafa.
Becker pediu duas. Olhou para mim.
– Vamos lá, seja homem, aliste-se. Seja um marinheiro.
– Não fico nem um pouco empolgado com essa coisa de ser machão.
– Nem parece o mesmo sujeito que está sempre trocando uns sopapos com alguém.
– Faço isso por puro entretenimento.
– Aliste-se. Isso vai lhe dar algo sobre o que escrever.
– Becker, sempre há algo sobre o que escrever.
– E o que você vai fazer, então?
Apontei para minha garrafa e a ergui.
– Como vai conseguir sobreviver? – Becker perguntou.
– Tenho a impressão de ter ouvido essa pergunta ao longo de toda minha vida.
– Bem, não sei quanto a você, mas vou tentar de tudo! Guerra, mulheres, viagens, casamento, os trabalhos. O primeiro carro que eu comprar quero desmontar completamente! Para depois remontá-lo! Quero entender as coisas, o que faz elas funcionarem! Gostaria de ser um correspondente na capital do país, Washington. Quero sempre estar onde as grandes coisas estão acontecendo.
– Washington é um lixo, Becker.
– E mulheres? Casamento? Crianças?
– Lixo.
– É? Mas o que você quer, afinal?
– Me esconder.
– Seu pobre fodido. Você precisa de outra cerveja.
– Tudo bem.
A cerveja chegou.
Ficamos sentados em silêncio. Pude perceber que Becker estava imerso em seus próprios pensamentos, pensando em ser marinheiro, em ser escritor, em trepar. Era provável que desse um bom escritor. Estava explodindo de entusiasmo. Provavelmente ele amava uma porção de coisas: um falcão em pleno voo, o maldito oceano, a lua cheia, Balzac, pontes, peças de teatro, o Prêmio Pulitzer, o piano, a maldita Bíblia.
Havia um pequeno rádio no bar. Uma canção popular estava tocando. Então, no meio da música houve uma interrupção. O locutor disse:
– Um boletim acaba de chegar. Os japoneses bombardearam Pearl Harbor. Repito: os japoneses acabam de bombardear Pearl Harbor. Todos os militares devem retornar imediatamente para suas bases!
Olhamos um para o outro, ainda aturdidos e sem o total entendimento do que acabávamos de ouvir.
– Bem – disse Becker em voz baixa –, é isso.
– Termine sua cerveja – eu falei.
Becker tomou tudo num só gole.
– Jesus, imagine se um filho da puta qualquer aponta uma metralhadora pra mim e resolve apertar o gatilho?
– Isso pode muito bem acontecer.
– Hank...
– Fala.
– Você me acompanha no ônibus até a base?
– Não posso fazer isso.
O dono do bar, um homem duns 45 anos, com uma barriga que parecia uma melancia e olhos miúdos, aproximou-se de nós. Olhou para Becker:
– Bem, marinheiro, parece que você tem que voltar para sua base, não?
Aquilo me deixou puto da cara.
– Ei, gordão, deixe-o terminar sua bebida, certo?
– Claro, claro... Quer uma por conta da casa, marinheiro? Que tal uma dose de um bom uísque?
– Não – disse Becker –, está tudo bem.
– Aceite – falei a Becker –, tome a dose. Ele pensa que você vai morrer para salvar o bar dele.
– Tudo bem – disse Becker –, vou aceitar seu uísque.
O dono do bar olhou para Becker.
– Você tem um amigo desprezível...
– Apenas sirva a bebida – eu disse.
Os outros poucos clientes tagarelavam freneticamente sobre Pearl Harbor. Antes, não tinham trocado uma palavra. Agora estavam mobilizados. A Tribo estava em perigo.
Becker pegou sua bebida. Era uma dose dupla de uísque. Tomou num talagaço.
– Nunca contei para você – ele disse –, mas sou órfão.
– Caralho – eu disse.
– Você vai comigo pelo menos até o terminal de ônibus?
– Claro.
Levantamos e fomos em direção à saída.
O dono do bar estava esfregando as mãos no avental. Trazia o avental todo amarrotado e não parava de esfregar as mãos nele, tomado de excitação.
– Boa sorte, marinheiro! – ele gritou.
Becker saiu. Fiquei ainda lá dentro e olhei para o dono do bar.
– Primeira Guerra Mundial, não?
– É, é... – ele disse, cheio de alegria.
Juntei-me a Becker. Nós meio que corremos até o terminal. Militares uniformizados já começavam a chegar. A euforia se espalhava no ar. Um marinheiro passou correndo.
– VOU MATAR UM JAPA COM MINHAS PRÓPRIAS MÃOS! – gritou.
Becker ficou na fila para comprar o bilhete. Um dos soldados tinha a namorada consigo. A garota falava, chorava, agarrada a ele, beijando-o sem parar. O pobre Becker só tinha a mim. Fiquei de lado, esperando. Foi uma espera longa. O mesmo marinheiro que antes passara gritando se aproximou de mim.
– Ei, companheiro, você não vai nos ajudar? Por que você está aí parado? Por que não se alista?
Seu hálito recendia a uísque. Ele tinha sardas e um nariz enorme.
– Você vai perder seu ônibus – eu falei.
Ele se afastou em direção ao terminal de saída.
– Fodam-se esses malditos japas fodidos! – ele disse.
Becker finalmente conseguiu comprar uma passagem. Caminhei com ele até o ônibus. Ele ficou numa outra fila.
– Algum conselho? – perguntou.
– Não.
A fila entrava devagar no ônibus. A garota estava chorando e falando rápido e baixinho com seu soldado.
Becker chegou à porta. Dei-lhe um soco no ombro.
– Você é o melhor que eu já conheci.
– Obrigado, Hank...
– Adeus...
– Misto-quente
1 684

Pacific Telephone

fique com essas meretrizes, ela disse,
fique com essas putas,
eu vou entediar você.
não quero mais essa merda pra cima de mim,
eu disse,
relaxe.
quando bebo, ela disse, dá uma dor na minha
bexiga, uma ardência.
deixe a bebida comigo, eu disse.
você está esperando o telefone tocar,
ela disse,
você só fica olhando pro telefone.
se uma dessas meretrizes ligar você
vai sair correndo daqui na hora.
não posso lhe prometer nada, eu disse.
então – simples assim – o telefone tocou.
aqui é a Madge, disse o telefone. preciso
ver você o quanto antes.
ah, eu disse.
estou num aperto, ela continuou, preciso de dez
pratas – depressa.
logo chego aí, eu disse, e
desliguei.
ela olhou pra mim. era uma meretriz,
ela disse, seu rosto se iluminou todo.
que diabos há com
você?
ouça, eu disse, eu preciso ir.
você fica aqui. logo volto.
vou embora, ela disse. eu te amo mas você é
louco, você está condenado.
ela pegou a bolsa e bateu a porta.
deve ser algum trauma de infância profundamente enraizado
que me faz vulnerável, pensei.
então saí de casa e entrei no meu Fusca.
dirigi para o norte pela Western com o rádio ligado.
havia putas caminhando pra lá e pra cá
dos dois lados da rua e Madge parecia
mais depravada do que qualquer uma delas.
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O Perdedor

e quando dei por mim estava numa mesa
todos se foram: o exemplo de bravura
sob as luzes, franzindo a testa, me açoitando…
e então um cretino ficou ali parado, fumando um charuto
“Garoto, você não é um lutador”, ele me disse
e eu me levantei e o derrubei sobre a cadeira com uma pancada;
foi como uma cena de filme, e
e ele ficou lá sentado sobre seu traseiro gordo e disse
sem parar: “Jesus, Jesus, qualé o seu
problema?” e eu me levantei e me vesti,
ainda com o esparadrapo nas mãos, e quando cheguei em casa
arranquei o esparadrapo das minhas mãos e
escrevi meu primeiro poema,
e venho lutando
desde então.
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Garotas Quietas E Limpas Em Vestidos de Algodão

tudo que eu sempre conheci foram putas, ex-prostitutas,
loucas. vejo homens com mulheres quietas,
gentis – vejo-os nos supermercados,
vejo-os caminhando juntos pelas ruas,
vejo-os em seus apartamentos: pessoas em
paz, vivendo juntas. sei que sua
paz é apenas parcial, mas existe
paz, frequentes horas e dias de paz.
tudo que eu sempre conheci foram comedoras de comprimidos, alcoólatras,
putas, ex-prostitutas, loucas.
quando uma vai embora
chega outra
pior do que sua antecessora.
vejo tantos homens com garotas quietas e limpas em
vestidos de algodão
garotas com rostos que não são rapaces ou
predatórios.
“nunca traga uma puta com você,” eu digo para meus
poucos amigos, “eu vou me apaixonar por ela.”
“você não aguenta uma boa mulher, Bukowski.”
preciso de uma boa mulher. preciso de uma boa mulher
mais do que preciso desta máquina de escrever, mais do que
preciso do meu automóvel, mais do que preciso
de Mozart; preciso tanto de uma boa mulher que
posso sentir seu gosto no ar, posso senti-la
na ponta dos meus dedos, posso ver calçadas construídas
para seus pés caminharem,
posso ver travesseiros para sua cabeça,
posso sentir minha expectante risada de tranquilo júbilo,
posso vê-la acariciando um gato,
posso vê-la dormindo,
posso ver seus chinelos no chão.
eu sei que ela existe
mas onde está ela neste planeta
enquanto as putas continuam me encontrando?

ACORDO BEM A TEMPO
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Citações

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Mário Quintana
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