Charles Bukowski

Charles Bukowski

1920–1994 · viveu 73 anos DE DE

Charles Bukowski foi um poeta e escritor alemão-americano, conhecido por sua obra crua, visceral e autobiográfica. Sua escrita, frequentemente associada à chamada "geração beat" e à contracultura, retrata a vida marginal, os vícios, a pobreza, o sexo e a alienação com uma linguagem direta e sem rodeios. Bukowski celebrou o submundo e os desajustados, tornando-se um ícone para muitos que se sentiam à margem da sociedade.

n. 1920-08-16, Andernach · m. 1994-03-09, San Pedro

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Acenos E Mais Acenos de Adeus

paguei suas despesas ao longo de todo o trajeto entre
[Houston
e São Francisco
depois voei pare encontrá-la na casa do irmão dela
e acabei bêbado
e falei a noite inteira sobre uma ruiva, e
ela disse por fim, “você dorme ali em cima”,
e eu subi a escada
do beliche e ela dormiu
na cama de baixo.

no dia seguinte eles me levaram até o aeroporto
e eu voei de volta, pensando, bem,
ainda restou a ruiva e assim que cheguei
liguei para ela e disse, “voltei, baby,
peguei um avião para ver essa mulher e falei
sobre você a noite inteira, então aqui estou eu de volta...”

“bem, por que você não volta lá e termina
o serviço?” ela disse e desligou.

então enchi a cara e o telefone tocou
e elas se apresentaram como
duas garotas alemãs que queriam
me ver.

então elas apareceram e uma delas tinha 20 e a
outra 22. contei-lhes que meu coração
havia sido esmigalhado pela última vez e
que eu estava desistindo desse negócio de mulher. elas riram
de mim e nós bebemos e fumamos e fomos
juntos para a cama.

eu tinha essa cena diante de mim e
primeiro agarrei uma e depois agarrei a
outra.

finalmente fiquei com a de 22 e
a devorei.

elas ficaram 2 dias e 2 noites
mas nunca fui com a de 20,
ela estava menstruada.

finalmente as levei para Sherman Oaks
e elas ficaram junto ao pé de uma longa
passagem
acenos e mais acenos de adeus enquanto eu dava a ré
no meu fusca.

quando voltei havia uma carta de uma
mulher de Eureka. dizia que queria que eu
a fodesse até que ela não pudesse
mais caminhar.

me deitei e puxei uma
pensando na garotinha que eu tinha visto
uma semana atrás em sua bicicleta vermelha.

depois tomei um banho e vesti meu robe
verde e felpudo bem a tempo de pegar as lutas
na tevê diretamente do Olympic.

havia um negro e um chicano.
isso sempre dava uma boa luta.

e era também uma boa ideia:
ponha os dois no ringue e deixe que
se matem.

assisti a todo o combate
sem deixar de pensar na ruiva uma vez sequer.

acho que o chicano venceu
mas não tenho certeza.
Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Heinrich Karl "Hank" Bukowski Jr. foi um poeta, contista e romancista alemão-americano. Nasceu em Andernach, na Alemanha, em 16 de agosto de 1920, e faleceu em San Pedro, Califórnia, Estados Unidos, em 9 de março de 1994. É uma figura proeminente da literatura marginal e da contracultura americana. Filho de pais alemães, mudou-se com a família para os Estados Unidos quando tinha três anos.

Infância e formação

Bukowski teve uma infância difícil marcada pela pobreza e por um relacionamento abusivo com o pai. Aos três anos, a família emigrou para os Estados Unidos, estabelecendo-se em Los Angeles. Sua adolescência foi rebelde e problemática. Frequentou a Los Angeles High School, mas abandonou os estudos precocemente. Aos 17 anos, saiu de casa. Sua formação foi autodidata, moldada por leituras intensas, pela experiência de vida nas ruas e pelos trabalhos precários que desempenhou ao longo de décadas.

Percurso literário

Bukowski começou a escrever poesia e contos ainda jovem, mas demorou décadas para ser reconhecido. Trabalhou em empregos manuais e braçais, como carteiro e em fábricas, em grande parte de sua vida adulta, muitas vezes lutando contra o alcoolismo. Publicou esporadicamente em pequenas revistas literárias underground nas décadas de 1940 e 1950. Sua carreira literária ganhou impulso a partir da década de 1960, quando se dedicou integralmente à escrita após receber uma herança que lhe permitiu deixar o emprego nos correios. Seu primeiro livro de poemas, "Flower, Fist, and Bestial Wail", foi publicado em 1960. A partir daí, produziu uma vasta obra em poesia, contos e romances.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras mais conhecidas de Bukowski incluem coleções de poemas como "Love Is a Dog from Hell" (1977), "Crimson Tears" (1978), e "The Most Beautiful Woman in Town" (1986), além de romances como "Factotum" (1975), "Women" (1978) e "Post Office" (1971). Seus temas centrais são a vida marginal, a pobreza, o alcoolismo, o sexo, a solidão, a alienação, a crítica social e a busca por sentido em um mundo caótico. Seu estilo é caracterizado por uma linguagem direta, coloquial, sem adornos, muitas vezes obscena e chocante, mas também capaz de uma profunda sensibilidade e honestidade. Ele utilizava o verso livre de forma contundente, com frases curtas e ritmo muitas vezes quebrado. Sua voz poética é confessional, crua e irónica, refletindo suas experiências de vida de forma implacável. Bukowski é considerado um renovador da poesia americana pela sua abordagem realista e pela sua capacidade de dar voz aos desvalidos.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Bukowski emergiu como uma voz dissonante em meio ao otimismo pós-guerra e ao surgimento da contracultura nos EUA. Sua obra, muitas vezes associada à Geração Beat, como Jack Kerouac e Allen Ginsberg, embora com um estilo mais sombrio e menos místico, capturou o desencanto e a rebeldia de uma parcela da sociedade que se sentia marginalizada. Ele escreveu em um período de profundas mudanças sociais e políticas nos Estados Unidos, como a Guerra do Vietnã e os movimentos pelos direitos civis, temas que, embora não diretamente abordados, permeiam o pano de fundo de sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida de Bukowski foi marcada pela luta contra o alcoolismo, por relacionamentos tumultuados e por uma série de empregos precários. Teve casamentos e relacionamentos significativos, incluindo com as poetisas Jane Cooney Baker e Linda King, e mais tarde com Linda Lee Beighle, que se tornou sua esposa e figura importante em sua vida. Sua obra é profundamente autobiográfica, sendo difícil separar o homem do escritor. Suas experiências com a pobreza e a boemia foram a matéria-prima de sua escrita. Suas crenças eram pragmáticas e cínicas, desconfiando de instituições e ideologias.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Bukowski obteve um reconhecimento tardio e muitas vezes controverso. Enquanto era idolatrado por muitos como um autêntico "escritor do povo" e um rebelde contra o sistema, era criticado por outros por seu estilo considerado vulgar ou amoral. Sua popularidade cresceu exponencialmente após sua morte, tornando-se um autor cultuado em todo o mundo, especialmente entre jovens e leitores que se identificam com sua honestidade brutal e sua visão de mundo sem filtros.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Bukowski foi influenciado por escritores como Ernest Hemingway, John Fante, D.H. Lawrence e por autores da Geração Beat. Seu legado é o de ter dado voz aos marginalizados, de ter mostrado que a literatura pode emergir de experiências de vida difíceis e de ter desafiado as convenções literárias estabelecidas. Inspirou inúmeros poetas e escritores que buscam uma linguagem autêntica e um retrato sem maquiagem da realidade. Sua obra continua a ser uma referência para a literatura underground e alternativa.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Bukowski é frequentemente analisada sob a ótica da literatura marginal, da crítica social e da representação da experiência humana em suas formas mais cruas. Os debates centram-se na sua genialidade como cronista da vida urbana e da alienação, e na sua capacidade de extrair poesia do feio e do sórdido.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Bukowski era conhecido por seu humor negro e seu cinismo. Ele tinha uma coleção de centenas de cartas de amor recebidas de fãs em todo o mundo. Passou um período em um hospital psiquiátrico em sua juventude, uma experiência que o marcou profundamente. Sua relação com os cachorros era notória. Era um observador atento da natureza humana, registrando suas observações em cadernos.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Charles Bukowski faleceu em 9 de março de 1994, em San Pedro, Califórnia, aos 73 anos, vítima de leucemia. Sua morte foi recebida com pesar por seus admiradores. Suas cinzas foram espalhadas em um de seus locais favoritos na Califórnia. Sua obra continua a ser publicada e a ser redescoberta por novas gerações, solidificando sua posição como um dos autores mais singulares e influentes da literatura americana.

Poemas

897

Nenhuma Sorte Nisso

há um lugar no coração que
nunca será preenchido
um espaço
e mesmo durante os
melhores momentos
e
as maiores
épocas
nós saberemos disso
nós saberemos disso
mais do que
nunca
há um lugar no coração que
nunca será preenchido
e
nós vamos esperar
e
esperar
nesse
espaço.
1 282

Um Mágico Desaparecido

eles vão um por um e conforme vão indo isso chega mais perto
de mim e
não me importo muito, é
só que não consigo ser prático quanto à
matemática que leva outros
ao ponto de fuga.
sábado passado
um dos maiores ases da corrida de arreios
morreu – o pequeno Joe O’Brien.
eu o vira ganhar inúmeras
corridas. ele
tinha um peculiar movimento balanceado
ele estalava as rédeas
e balançava o corpo pra trás e
pra frente. ele
aplicava esse movimento
durante a reta final e
era algo bastante dramático e
efetivo...
ele era tão pequeno que não conseguia
golpear o chicote com a mesma força dos
outros
então
ele balançava e balançava
na charrete
e o cavalo sentia o relâmpago
de sua excitação
aquele balanço ritmado e louco era
transferido do homem para o
animal...
o negócio todo dava a sensação de um
jogador de dados invocando os
deuses, e os deuses
respondiam com tamanha frequência...
eu vi Joe O’Brien vencer
incontáveis fotos de linha de chegada
várias por um
nariz.
ele pegava um cavalo
que outro condutor não conseguia
fazer correr
e Joe lhe dava seu
toque
e o animal quase
sempre respondia com
uma enxurrada de energia selvagem.
Joe O’Brien era o melhor corredor de arreios
que eu já tinha visto
e eu tinha visto vários ao longo das
décadas.
ninguém conseguia mimar e adular
um trotador ou marchador
como o pequeno Joe
ninguém conseguia fazer a magia funcionar
como Joe.
eles vão um por um
presidentes
lixeiros
assassinos
atores
batedores de carteiras
pugilistas
pistoleiros
bailarinos
pescadores
médicos
fritadores
bem
assim
mas Joe O’Brien
vai ser difícil
difícil
encontrar um substituto para
o pequeno Joe
e
na cerimônia
realizada para ele
na pista esta noite
(Los Alamitos 10-1-84)
enquanto os condutores se reuniam num
círculo
em seus uniformes
na linha de chegada
eu precisei dar minhas costas
à multidão
e subir os degraus da
arquibancada superior
rumo ao muro
para que as pessoas não
me vissem
chorar.
920

Amor Esmagado Como Mosca Morta

em muitos sentidos
eu tinha topado com uma época de sorte
mas ainda estava vivendo nesta
quadra devastada por bomba da
avenida.
eu batalhara meu caminho atravessando
várias camadas de
adversidade:
sendo um homem sem educação
com
sonhos loucos e desvairados –
alguns deles haviam
evoluído (quer dizer, se
você vai ficar aqui,
você pode muito bem lutar
pelo milagre).
mas
de uma hora pra outra
como acontece nesses assuntos –
a mulher que eu amava
se largou
e começou a
trepar
pelos arredores
com
estranhos
imbecis
e provavelmente alguns tipos razoavelmente
bons
mas
como acontece nesses assuntos –
foi sem
aviso
e acompanhado da
lastimável e maçante languidez da
descrença
e
daquele doloroso e descerebrado
engalfinhamento.
e também
na mudança das
marés
eu me saí
com um furúnculo imenso
quase
do tamanho de uma maçã, bem, meia
maçã pequena
mas mesmo assim
uma monstruosidade de
horror.
tirei o telefone
da parede
tranquei a porta
fechei as cortinas e
bebi
só pra passar o tempo
dia e noite, fiquei
louco, provavelmente,
mas
num sentido
delicioso e
estranho.
encontrei um disco antigo
botei pra tocar
repetidas vezes –
com certo trecho ribombante da
tonalidade
se encaixando perfeitamente na minha
gaiola
meu lugar
meu
desencanto –
amor morto como uma mosca
esmagada,
eu remexia o passado e
especulava por entre minha
idiotice, constatando que enquanto
ser
eu poderia ter sido
melhor –
não com ela
mas com
o balconista da mercearia
o jornaleiro da esquina
o gato de rua
o bartender
e/ou
etc.
continuamos ficando
aquém e
mais aquém
mas
em última análise
não somos tão terríveis
assim, então
arranjamos uma namorada que
sai trepando
pelos arredores
e
um furúnculo quase com tamanho de
maçã.
recordando então
as chances
recusadas,
algumas de criaturas
adoráveis (naquele
momento)
não muitas
mas algumas
trepadas
recusadas
em honra
dela.
ah, redenção e
remorso!
e a garrafa
e o disco
tocando repetidas
vezes –
babaca, babaca, ba-
baca, seja duro como o
mundo,
prepare-se para
a desintegração –
que disco era aquele
enquanto você esbarrava na cerveja e
nas garrafas de uísque
os calções
as camisas
as memórias
estupeficadas pelo
quarto.
você despertou daquilo
duas semanas depois
para encontrá-la
na soleira da sua porta
às 9 horas
da manhã
cabelo cuidadosamente
arrumado,
sorrindo
como se todos os acontecimentos
tivessem sido
apagados.
ela era só
uma vadia
burra
jogadora
tendo experimentado os
outros e
os considerado (de
uma forma ou de
outra)
insuficientes
ela estava
de volta (ela
pensava)
enquanto você lhe servia uma
cerveja e
entornava o scotch
no seu copo
anterior
recordando
precisamente e para sempre
os sons daquele disco
escutado sem
parar:
a dádiva dela
terminara, novos
fracassos estavam prestes a
começar
enquanto ela cruzava suas longas
pernas
fazia aquele sorriso
sorrir
e perguntava,
alegre, “bem, o que você
andou
fazendo?”
615

Virada

eu soube recentemente
que a minha primeira esposa
morreu na
Índia
ela pertencia a certa
seita e morreu de uma
doença
misteriosa.
a família não
pediu
que o corpo fosse
enviado
de volta.
pobre Barbara,
ela nasceu com um
pescoço
que não
virava.
uma linda mulher
em outros aspectos.
minha querida, nas alturas do
sol, espero que o seu
pescoço
vire
afinal
e que os olhares
e o ridículo
e a indesejada
pena
encontrem abrigo
em outro lugar.
954

Um Cachorro

veja só você, meias e calções, latas de cerveja
pelo chão, você não quer se comunicar,
para você uma mulher não é nada senão algo
para sua conveniência, você só fica ali sentado
bebendo como um porco, por que você não diz algo?
esta é a sua casa então você não pode ir embora, se eu estivesse
falando desse jeito na minha casa você sairia pela porta
sem demora.
por que você está sorrindo?
algo disso é engraçado?
tudo que você faz é beber como um porco e ir ao hipódromo!
o que há de tão sensacional num cavalo?
o que é que um cavalo tem que eu não tenho?
quatro pernas?
você não é genial?
ora, você não é o máximo?
você age como se nada importasse!
bem, deixa eu te dizer, babaca, eu importo!
você acha que é o único homem nesta cidade?
bem, deixa eu te dizer, existem homens aos montes que
me desejam, meu corpo, minha mente, meu espírito!
as pessoas me perguntam: “O que é que você está fazendo
com uma pessoa como aquela?”
o quê?
não, eu não quero um drinque!
quero que você se dê conta do que está acontecendo antes que
seja tarde demais!
veja só você entornando que nem bicho!
você sabe o que acontece quando você bebe
demais!
daria no mesmo eu estar morando com um eunuco!
minha mãe me avisou!
todo mundo me avisou!
veja só você agora!
por que você não se barbeia?
você derramou vinho na sua camisa toda!
e esse charuto barato!
você sabe qual é o cheiro que essa coisa
tem?
de bosta de cavalo!
ei, pra onde você está indo?
algum bar, algum bar de merda!
vai ficar lá sentado, acalentando a sua autopiedade
com todos aqueles outros perdedores!
se você passar por aquela porta eu vou
sair pra dançar!
vou sair para me divertir!
se você sair por aquela porta, aí é
o fim!
tá bom, vai lá então, seu babaca!
babaca!
babaca!
BABACA!

Você ainda tá vivendoem 1938,babaca!
1 156

Trólios E Treliças

claro, eu posso morrer nos próximos dez minutos
e estou pronto para isso
mas o que realmente me preocupa é
que meu editor-publisher talvez se aposente
muito embora ele seja dez anos mais novo do que
eu.
foi apenas 25 anos atrás (eu estava com a madura
idade avançada de 45)
que nós iniciamos nossa aliança profana para
testar as águas literárias,
nenhum dos dois sendo muito
conhecido.
acho que tivemos alguma sorte e ainda temos algo
do mesmo
mas
são bem razoáveis as chances
de que ele acabe optando por cálidas e aprazíveis
tardes
no jardim
muito antes de mim.
escrever é uma intoxicação em si
enquanto publicar e editar,
tentar cobrar contas
carrega seu próprio
atrito
que também inclui lidar com as
triviais frescuras e demandas
de vários
assim chamados gênios queridinhos que não
o são.
não vou culpá-lo por cair
fora
e espero que ele me mande fotos de sua
Rose Lane, sua
Gardenia Avenue.
será que terei de procurar outros
promulgadores?
aquele sujeito com o chapéu de pele
russo?
ou aquela peste do leste
com todos aqueles pelos
em seus ouvidos, com aqueles lábios
úmidos e gordurosos?
ou será que meu editor-publisher
tendo se retirado para o mundo de Trólios e
treliças
vai repassar a
maquinaria
de seu antigo ofício para um
primo, uma
filha ou
certo poundiano de Big
Sur?
ou será que ele vai simplesmente transmitir o legado
para o
Despachante
que vai se erguer como
Lázaro,
manejando recém-descoberta
importância?
podemos imaginar coisas
terríveis:
“Sr. Chinaski, todas as suas produções
deverão ser agora entregues em
formato rondó
e
datilografadas
com espaço triplo em papel
de arroz”.
o poder corrompe,
a vida aborta
e tudo que
nos resta
é um
monte de
verrugas.
“não, não, Sr. Chinaski:
formato rondó!”
“ei, cara”, eu vou perguntar,
“você não ouviu falar dos
anos trinta?”
“os anos trinta? o que é
isso?”
meu atual editor-publisher
e eu
por vezes
de fato discutimos os anos trinta,
a Depressão
e
alguns dos pequenos truques que os trinta
nos ensinaram –
tipo como sobreviver com quase
nada
e seguir em frente
mesmo assim.
bem, John, se acontecer desfrute da sua
diversão em
desenvolver agricultura,
cultivar e arejar
entre
os arbustos, regar apenas no
início da manhã, espalhar
forração para desencorajar
o crescimento de ervas daninhas
e
como faço com a minha escrita:
usar bastante
esterco.
e obrigado
por me alojar lá na
5124 DeLongpre Avenue
em algum lugar entre
o alcoolismo e
a loucura.
juntos nós
atiramos a luva
e é possível
encontrar
quem aceite o desafio
inclusive nesta época tardia
enquanto o fogo canta
por entre as
árvores.
947

Cortina Baixada

o que eu gosto em você
ela me contou
é que você é cru –
veja só você sentado aí
uma lata de cerveja na sua mão
e um charuto na sua boca
e veja
sua barriga peluda e suja
saindo pra fora
por baixo da camisa.
você tirou os sapatos
e tem um buraco
na sua meia direita
com o dedão
saindo pra fora.
você não faz a barba há
4 ou 5 dias.
seus dentes são amarelos
e as suas sobrancelhas
despencam
totalmente retorcidas
e você tem cicatrizes
suficientes
para deixar qualquer um
cagado de medo.
há sempre
um anel
na sua banheira
seu telefone
está coberto de
gordura
e
metade do lixo na
sua geladeira está
podre.
você nunca
lava o seu carro.
você tem jornais
de uma semana atrás
no chão.
você lê revistas
de sacanagem
e você não tem
tv
mas você pede
entregas da
loja de bebidas
e dá boas
gorjetas.
e o melhor de tudo
você não força
uma mulher a
ir pra cama
com você.
você mal parece
interessado
e quando falo com você
você não
diz nada
você só
olha em volta
pela sala ou
coça o seu
pescoço
como se não
me ouvisse.
você tem uma toalha
velha e molhada
na pia
e uma foto
de Mussolini
na parede
e você nunca
reclama
de nada
e você nunca
faz perguntas
e eu
conheço você há
6 meses
mas não faço
a menor ideia
de quem você é.
você é como
uma espécie de
cortina baixada
mas é disso
que eu gosto
em você:
sua crueza:
uma mulher pode
cair
fora da sua
vida e
esquecer você
bem depressa.
uma mulher
não pode ir a lugar algum
a não ser UM LUGAR MELHOR
depois de deixar você,
querido.
você só pode
ser
a melhor coisa
que jamais
aconteceu
a
uma garota
que está entre
um cara
e o seguinte
e não tem nada
pra fazer
no momento.
a porra deste
scotch é
uma maravilha.
vamos jogar
palavras cruzadas.
655

Ah, Eu Era o Terror da Mulherada!

você
se pergunta sobre
quando
você corria por entre as mulheres
como um maníaco
em campo aberto
com sua total
desconsideração por
calcinhas, panos de prato,
fotos
e todos os outros
apetrechos –
como
o emaranhamento das
almas.
o que
você estava
tentando
fazer
estava tentando
ir atrás
do quê?
era como uma
caçada.
quantas você
conseguiu
ensacar?
partir
pra cima?
nomes
sapatos
vestidos
lençóis, banheiros,
quartos, cozinhas,
salas
da frente,
cafés,
animais de estimação,
nomes de animais de estimação,
nomes de crianças;
nomes do meio, sobrenomes,
nomes
inventados.
você provou que era
fácil.
você provou que
podia ser feito
sempre
de novo,
aquelas pernas erguidas
alto
por trás de quase
você todo.
ou
elas ficavam por cima
ou
você ficava
por trás
ou
ambos
de lado
além de
outras
invenções.
canções em rádios.
carros estacionados.
vozes telefônicas.
bebidas sendo
servidas.
as conversas
sem sentido.
agora você sabe
você não passava de um
maldito
cão, ou
de uma lesma enrolada
numa lesma –
conchas pegajosas na luz
do sol, ou nas
noites enevoadas,
ou no escuro
escuro.
você era
o idiota da
natureza,
não provando mas
sendo
provado.
não um homem mas um
plano
se desenrolando,
não empurrando mas
sendo
empurrado.
agora
você sabe.
naquele tempo
você se achava
um belo de um
espertalhão
um belo de um
cafajeste
um belo de um
machão
um belo de um
transgressor
sorrindo acima de seu
vinho
planejando sua próxima
jogada
que
perda de tempo
você era
seu grande
cavaleiro
seu Átila das
primaveras e
tudo mais
você poderia ter
dormido esse tempo
todo
e ninguém nunca teria
sentido sua
falta
nunca teriam
sentido sua
falta
em
absoluto.
639

Poema de Amor

lugar nenhum e meio
na torre
desmoronada
que os vermes conquistem
a glória
escuro dentro da
escuridão
a última aposta
perdida
tentando
alcançar
silêncio
ósseo.
1 128

A Costureira

minha primeira esposa fazia seus próprios vestidos,
e eu achava isso legal.
eu a via com frequência sentada diante de sua
máquina de costura
montando um novo vestido.
estávamos ambos trabalhando e eu achava
ótimo que ela encontrasse tempo
para montar seu
guarda-roupa.
então certa noite cheguei em casa e
ela estava chorando.
ela me contou que um cara no trabalho
lhe dissera que ela tinha mau
gosto em seus artigos
de vestuário,
falando que ela parecia
“cafona”.
“você acha que eu me visto de um jeito cafona?”,
ela perguntou.
“claro que não.
quem é esse cara?
eu vou arrebentar a cara dele!”
“você não pode, ele é homossexual.”
“que droga!”
ela chorou um pouco mais naquela
noite.
tentei reconfortá-la e ela
por fim parou.
depois disso, porém, passou a comprar
seus vestidos.
eles não lhe caíam nem de longe tão bem
mas ela me contou que o sujeito
havia elogiado sua nova
elegância.
bem, contanto que ela parasse de
chorar.
então um dia ela me perguntou: “como
você gosta mais de mim, nos vestidos velhos ou
nos novos?”
“você fica bem de qualquer jeito”,
eu respondi.
“não, mas o que você prefere?
os vestidos velhos ou os novos?”
“os velhos”, eu lhe falei.
então ela começou a chorar de novo.
ocorreram problemas semelhantes em outros
aspectos do nosso
casamento.
quando ela se divorciou de mim, ainda estava
usando vestidos
comprados em loja.
mas levou consigo
a máquina de costura
e uma mala cheia com os velhos
vestidos.
1 130

Citações

2

Obras

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