Charles Bukowski

Charles Bukowski

1920–1994 · viveu 73 anos DE DE

Charles Bukowski foi um poeta e escritor alemão-americano, conhecido por sua obra crua, visceral e autobiográfica. Sua escrita, frequentemente associada à chamada "geração beat" e à contracultura, retrata a vida marginal, os vícios, a pobreza, o sexo e a alienação com uma linguagem direta e sem rodeios. Bukowski celebrou o submundo e os desajustados, tornando-se um ícone para muitos que se sentiam à margem da sociedade.

n. 1920-08-16, Andernach · m. 1994-03-09, San Pedro

1 060 727 Visualizações

Acenos E Mais Acenos de Adeus

paguei suas despesas ao longo de todo o trajeto entre
[Houston
e São Francisco
depois voei pare encontrá-la na casa do irmão dela
e acabei bêbado
e falei a noite inteira sobre uma ruiva, e
ela disse por fim, “você dorme ali em cima”,
e eu subi a escada
do beliche e ela dormiu
na cama de baixo.

no dia seguinte eles me levaram até o aeroporto
e eu voei de volta, pensando, bem,
ainda restou a ruiva e assim que cheguei
liguei para ela e disse, “voltei, baby,
peguei um avião para ver essa mulher e falei
sobre você a noite inteira, então aqui estou eu de volta...”

“bem, por que você não volta lá e termina
o serviço?” ela disse e desligou.

então enchi a cara e o telefone tocou
e elas se apresentaram como
duas garotas alemãs que queriam
me ver.

então elas apareceram e uma delas tinha 20 e a
outra 22. contei-lhes que meu coração
havia sido esmigalhado pela última vez e
que eu estava desistindo desse negócio de mulher. elas riram
de mim e nós bebemos e fumamos e fomos
juntos para a cama.

eu tinha essa cena diante de mim e
primeiro agarrei uma e depois agarrei a
outra.

finalmente fiquei com a de 22 e
a devorei.

elas ficaram 2 dias e 2 noites
mas nunca fui com a de 20,
ela estava menstruada.

finalmente as levei para Sherman Oaks
e elas ficaram junto ao pé de uma longa
passagem
acenos e mais acenos de adeus enquanto eu dava a ré
no meu fusca.

quando voltei havia uma carta de uma
mulher de Eureka. dizia que queria que eu
a fodesse até que ela não pudesse
mais caminhar.

me deitei e puxei uma
pensando na garotinha que eu tinha visto
uma semana atrás em sua bicicleta vermelha.

depois tomei um banho e vesti meu robe
verde e felpudo bem a tempo de pegar as lutas
na tevê diretamente do Olympic.

havia um negro e um chicano.
isso sempre dava uma boa luta.

e era também uma boa ideia:
ponha os dois no ringue e deixe que
se matem.

assisti a todo o combate
sem deixar de pensar na ruiva uma vez sequer.

acho que o chicano venceu
mas não tenho certeza.
Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Heinrich Karl "Hank" Bukowski Jr. foi um poeta, contista e romancista alemão-americano. Nasceu em Andernach, na Alemanha, em 16 de agosto de 1920, e faleceu em San Pedro, Califórnia, Estados Unidos, em 9 de março de 1994. É uma figura proeminente da literatura marginal e da contracultura americana. Filho de pais alemães, mudou-se com a família para os Estados Unidos quando tinha três anos.

Infância e formação

Bukowski teve uma infância difícil marcada pela pobreza e por um relacionamento abusivo com o pai. Aos três anos, a família emigrou para os Estados Unidos, estabelecendo-se em Los Angeles. Sua adolescência foi rebelde e problemática. Frequentou a Los Angeles High School, mas abandonou os estudos precocemente. Aos 17 anos, saiu de casa. Sua formação foi autodidata, moldada por leituras intensas, pela experiência de vida nas ruas e pelos trabalhos precários que desempenhou ao longo de décadas.

Percurso literário

Bukowski começou a escrever poesia e contos ainda jovem, mas demorou décadas para ser reconhecido. Trabalhou em empregos manuais e braçais, como carteiro e em fábricas, em grande parte de sua vida adulta, muitas vezes lutando contra o alcoolismo. Publicou esporadicamente em pequenas revistas literárias underground nas décadas de 1940 e 1950. Sua carreira literária ganhou impulso a partir da década de 1960, quando se dedicou integralmente à escrita após receber uma herança que lhe permitiu deixar o emprego nos correios. Seu primeiro livro de poemas, "Flower, Fist, and Bestial Wail", foi publicado em 1960. A partir daí, produziu uma vasta obra em poesia, contos e romances.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras mais conhecidas de Bukowski incluem coleções de poemas como "Love Is a Dog from Hell" (1977), "Crimson Tears" (1978), e "The Most Beautiful Woman in Town" (1986), além de romances como "Factotum" (1975), "Women" (1978) e "Post Office" (1971). Seus temas centrais são a vida marginal, a pobreza, o alcoolismo, o sexo, a solidão, a alienação, a crítica social e a busca por sentido em um mundo caótico. Seu estilo é caracterizado por uma linguagem direta, coloquial, sem adornos, muitas vezes obscena e chocante, mas também capaz de uma profunda sensibilidade e honestidade. Ele utilizava o verso livre de forma contundente, com frases curtas e ritmo muitas vezes quebrado. Sua voz poética é confessional, crua e irónica, refletindo suas experiências de vida de forma implacável. Bukowski é considerado um renovador da poesia americana pela sua abordagem realista e pela sua capacidade de dar voz aos desvalidos.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Bukowski emergiu como uma voz dissonante em meio ao otimismo pós-guerra e ao surgimento da contracultura nos EUA. Sua obra, muitas vezes associada à Geração Beat, como Jack Kerouac e Allen Ginsberg, embora com um estilo mais sombrio e menos místico, capturou o desencanto e a rebeldia de uma parcela da sociedade que se sentia marginalizada. Ele escreveu em um período de profundas mudanças sociais e políticas nos Estados Unidos, como a Guerra do Vietnã e os movimentos pelos direitos civis, temas que, embora não diretamente abordados, permeiam o pano de fundo de sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida de Bukowski foi marcada pela luta contra o alcoolismo, por relacionamentos tumultuados e por uma série de empregos precários. Teve casamentos e relacionamentos significativos, incluindo com as poetisas Jane Cooney Baker e Linda King, e mais tarde com Linda Lee Beighle, que se tornou sua esposa e figura importante em sua vida. Sua obra é profundamente autobiográfica, sendo difícil separar o homem do escritor. Suas experiências com a pobreza e a boemia foram a matéria-prima de sua escrita. Suas crenças eram pragmáticas e cínicas, desconfiando de instituições e ideologias.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Bukowski obteve um reconhecimento tardio e muitas vezes controverso. Enquanto era idolatrado por muitos como um autêntico "escritor do povo" e um rebelde contra o sistema, era criticado por outros por seu estilo considerado vulgar ou amoral. Sua popularidade cresceu exponencialmente após sua morte, tornando-se um autor cultuado em todo o mundo, especialmente entre jovens e leitores que se identificam com sua honestidade brutal e sua visão de mundo sem filtros.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Bukowski foi influenciado por escritores como Ernest Hemingway, John Fante, D.H. Lawrence e por autores da Geração Beat. Seu legado é o de ter dado voz aos marginalizados, de ter mostrado que a literatura pode emergir de experiências de vida difíceis e de ter desafiado as convenções literárias estabelecidas. Inspirou inúmeros poetas e escritores que buscam uma linguagem autêntica e um retrato sem maquiagem da realidade. Sua obra continua a ser uma referência para a literatura underground e alternativa.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Bukowski é frequentemente analisada sob a ótica da literatura marginal, da crítica social e da representação da experiência humana em suas formas mais cruas. Os debates centram-se na sua genialidade como cronista da vida urbana e da alienação, e na sua capacidade de extrair poesia do feio e do sórdido.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Bukowski era conhecido por seu humor negro e seu cinismo. Ele tinha uma coleção de centenas de cartas de amor recebidas de fãs em todo o mundo. Passou um período em um hospital psiquiátrico em sua juventude, uma experiência que o marcou profundamente. Sua relação com os cachorros era notória. Era um observador atento da natureza humana, registrando suas observações em cadernos.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Charles Bukowski faleceu em 9 de março de 1994, em San Pedro, Califórnia, aos 73 anos, vítima de leucemia. Sua morte foi recebida com pesar por seus admiradores. Suas cinzas foram espalhadas em um de seus locais favoritos na Califórnia. Sua obra continua a ser publicada e a ser redescoberta por novas gerações, solidificando sua posição como um dos autores mais singulares e influentes da literatura americana.

Poemas

897

Jantar, 1933

quando meu pai comia
seus lábios ficam
gordurosos
de comida.
e quando ele comia
falava sobre como
a comida
estava boa
e como
a maioria das outras pessoas
não comia
tão bem
como
a gente.
gostava de
esfregar
o que sobrava
em seu prato
com um pedaço de
pão,
enquanto emitia
sons de apreciação
que estavam a meio caminho
entre o gemido e o
ronco.
sorvia o café fazendo
barulho
produzindo
um alto
gorgolejar.
então baixava
a xícara sobre a
mesa:
“sobremesa? é
gelatina?”
minha mãe lhe
traria o doce
numa enorme taça
e meu pai ali
meteria a
colher.
assim que ela
afundava
a gelatina produzia
sons estranhos,
quase como
o som de
peidos.
então vinha o
creme batido,
montanhas brancas
sobre a
gelatina.
“ah! gelatina e
creme batido!”
meu pai sugava a
gelatina e o creme
batido
de sua colher –
era como se ela
entrasse em
um túnel de
vento.
o doce
terminado
ele limparia a
boca
com um descomunal guardanapo
branco,
esfregando com força
num movimento
circular,
o guardanapo quase
escondendo
seu rosto
todo.
depois disso
vinham os
cigarros
Camel.
ele acendia um
com um fósforo
de cozinha,
que ele largava,
ainda em chamas,
no
cinzeiro.
então mais um gole barulhento de
café, a xícara novamente
sobre a mesa, uma boa
tragada no
Camel.
“ah, isso é o que eu chamo de uma
boa
refeição!”
um pouco mais tarde
em meu quarto
na minha cama
no escuro
a comida que eu
havia ingerido
e o que eu havia
visto
já começavam
a me revirar
o estômago.
a única coisa
boa
era
ouvir os
grilos
do lado de fora,
lá fora
num outro mundo
do qual eu não
fazia
parte.

Um dia, semelhante ao que acontecera na escola fundamental com David, um garoto se apegou a mim. Era pequeno e magro e não tinha quase nenhum fio de cabelo no topo da cabeça. Os caras o chamavam de Carequinha. Seu nome verdadeiro era Eli LaCrosse. Eu gostava de seu nome real, mas não gostava da sua pessoa. Ele se grudara em mim. Era uma figura tão lastimável que não podia dizer a ele simplesmente que sumisse. Era como um cachorro vira-lata, faminto, cansado de ser expulso a patadas. Ainda assim, era desagradável tê-lo à minha volta. Contudo, desde que eu percebera sua aura de vira-lata, deixei que ficasse por perto. Usava uma praga em quase todas as frases que saíam de sua boca, no mínimo uma praga, mas era tudo pose, estava longe de ser um cara durão, era medo puro. Eu não tinha medo, mas era um sujeito confuso. Assim, talvez formássemos um par adequado.
Acompanhava-o até em casa todos os dias depois das aulas. Vivia com sua mãe, seu pai e seu avô. Tinham uma casinha do lado de lá de um pequeno parque. Eu gostava do lugar, tinha grandes árvores que davam sombra, e, desde que algumas pessoas haviam me dito que eu era feio, sempre preferi a sombra ao sol, a escuridão à luz.
Durante nossas caminhadas para casa, Carequinha tinha me falado de seu pai. Ele fora médico, um cirurgião de sucesso, mas tinha perdido sua licença em função da bebida. Um dia conheci o pai do Carequinha. Estava sentado numa cadeira debaixo de uma árvore, sem fazer nada.
– Pai – ele disse –, esse é o Henry.
– Olá, Henry.
Lembrei-me de quando vira meu avô pela primeira vez, parado nos degraus em frente à sua casa. A diferença é que o pai do Carequinha tinha a barba e o cabelo pretos, mas seus olhos eram iguais – brilhantes e luminosos, tão estranhos. E ali estava Carequinha, o filho, sem qualquer tipo de brilho.
– Vamos – disse Carequinha –, venha comigo.
Entramos em uma adega, debaixo da casa. Era escura e úmida e ficamos parados até que nossos olhos se acostumassem à escuridão. Então pude ver uma porção de barris.
– Esses barris estão cheios de diferentes qualidades de vinho – disse Carequinha. – Cada barril tem uma torneira. Quer experimentar algum deles?
– Não.
– Vamos lá, apenas tome um maldito gole.
– Pra quê?
– Mas que maldição, você se considera um homem ou não?
– Sou durão – eu disse.
– Então experimenta, caralho!
Ali estava o Carequinha querendo me desafiar. Nenhum problema. Fui até um barril e abaixei a cabeça.
– Abra a maldita torneira! Abra essa maldita boca!
– Há alguma aranha por aqui?
– Vá em frente, desgraçado!
Abri a boca e a torneira. Um líquido malcheiroso jorrou para dentro da minha goela. Cuspi tudo.
– Não seja um veadinho! Engula, caralho!
Abri novamente a torneira e minha boca. O líquido malcheiroso entrou e eu o engoli. Fechei a torneira e fiquei ali parado. Pensei que fosse vomitar.
– Agora é a sua vez de beber um pouco – eu disse ao Carequinha.
– Claro – ele disse –, não estou me cagando de medo!
Abaixou-se na frente de um barril e deu uma boa golada. Um merdinha daqueles não ia me superar. Fui até outro barril, abri a torneira e dei um gole. Fiquei de pé. Começava a me sentir bem.
– Ei, Carequinha – eu disse –, gostei desse negócio.
– Então, caralho, beba um pouco mais.
E foi o que fiz. O gosto estava melhorando. Eu estava melhorando.
– Esse negócio é do seu pai, Carequinha. Eu não devia beber tudo.
– Ele não se importa. Parou de beber.
Nunca me sentira tão bem. Era melhor do que masturbação.
Fui de barril em barril. Era mágico. Por que ninguém havia me falado a respeito disso? Com a bebida, a vida era maravilhosa, um homem era perfeito, nada mais poderia feri-lo.
Fiquei de pé, ereto, e encarei o Carequinha.
– Onde está a sua mãe? Vou foder sua mãe!
– Mato você, seu filho da puta, fique longe da minha mãe!
– Você sabe que eu posso lhe dar uma surra, Carequinha?
– Sim.
– Tudo bem, vou deixar sua mãe em paz.
– Vamos embora então, Henry.
– Mais um trago...
Fui até um barril e dei uma longa talagada. Depois subimos a escada da adega. Quando saímos, o pai do Carequinha ainda estava sentado na sua cadeira.
– Vocês estavam na adega, não?
– Sim – respondeu o Carequinha.
– Começando um pouco cedo, não acham?
Não respondemos. Caminhamos até a avenida e Carequinha e eu fomos até uma loja que vendia chicletes. Compramos várias caixas e enfiamos todos os chicletes em nossas bocas. Ele estava preocupado que sua mãe descobrisse. Eu não me preocupava com nada. Sentamos num banco de parque e mascamos nossos chicletes. Pensei: bem, agora descobri alguma coisa, alguma coisa que irá me ajudar nos tantos dias que ainda hão de vir. A grama do parque parecia mais verde, os bancos do parque se tornaram mais bonitos, e as flores se esforçavam nesse sentido. Talvez essa coisa não fosse boa para cirurgiões, mas alguém que escolhia essa carreira já devia ter algo de errado na cabeça desde o princípio.
– Misto-quente
1 222

O Filho do Diabo

Eu tinha onze anos e meus dois amigos, Hass e Morgan, tinham doze, e era verão, não tinha aula, e nos sentamos no gramado, ao sol, atrás da garagem do meu pai, fumando cigarros.
– Droga! – eu disse.
Eu estava sentado sob uma árvore. Morgan e Hass estavam sentados de costas para a garagem.
– O que foi? – perguntou Morgan.
– Temos que pegar aquele filho da puta – eu disse. – Ele é um problema na vizinhança!
– Quem? – perguntou Hass.
– O Simpson – eu disse.
– É mesmo – disse Hass –, ele tem sardas demais. Me irrita.
– Não é isso – eu disse.
– Não? – disse Morgan.
– Não. Aquele filho da puta disse que comeu uma garota debaixo da minha casa semana passada. É uma baita mentira! – eu disse.
– Sem dúvida! – disse Hass.
– Ele nem sabe trepar – disse Morgan.
– O que ele sabe é mentir – eu disse.
– Mentirosos não servem pra nada – Hass disse, soprando um arco de fumaça no ar.
– Eu não gosto de ouvir esse tipo de baboseira de um cara que tem sardas – disse Morgan.
– Bem, então talvez a gente tenha que pegar ele – sugeri.
– Por que não? – perguntou Hass.
– Vamos pegar ele – disse Morgan.
Cruzamos a calçada da casa de Simpson e lá estava ele, jogando bola contra a parede da garagem.
– Ei – eu disse –, olhem só quem está brincando sozinho!
Simpson pegou a bola num salto e se virou para nós.
– Olá, companheiros!
Nós o cercamos.
– Andou comendo alguma garota embaixo de alguma casa nesses últimos dias? – perguntou Morgan.
– Não!
– Como não?
– Ah, sei lá.
– Eu não acredito que você tenha comido alguém a não ser você mesmo! – eu disse.
– Eu vou entrar agora – disse Simpson. – Minha mãe me pediu para lavar a louça.
– Sua mãe mete a louça na buceta? – provocou Morgan.
Nós rimos. Chegamos mais perto de Simpson. De súbito, meti um soco na barriga dele. Ele se curvou para frente, segurando o estômago. Ficou desse jeito durante meio minuto, depois se endireitou.
– Meu pai vai chegar a qualquer momento – ele nos disse.
– Ah é? Seu pai também come menininhas debaixo das casas? – perguntei.
– Não.
Nós rimos.
Simpson não disse nada.
– Olhem pra essas sardas – disse Morgan. – Toda vez que ele come uma menininha embaixo de uma casa nasce uma sarda nova.
Simpson não disse nada. Parecia cada vez mais assustado.
– Eu tenho uma irmã – disse Hass. – Quem me garante que você não vai tentar comer a minha irmã embaixo de uma casa?
– Eu nunca faria isso, Hass, te dou a minha palavra!
– Ah é?
– Sim, de verdade!
– Bem, isso é pra você não mudar de ideia!
Hass meteu um soco na barriga de Simpson. Simpson se curvou de novo. Hass se abaixou, pegou um punhado de terra e enfiou na gola da camiseta de Simpson. Simpson se endireitou. Seus olhos estavam cheios de lágrimas. Um veadinho.
– Deixem eu ir, por favor!
– Ir pra onde? – perguntei. – Quer se esconder debaixo da saia da sua mãe para ver a louça sair da buceta dela?
– Você nunca comeu ninguém – disse Morgan –, você não tem nem pau! Você mija pelas orelhas!
– Se um dia eu pegar você olhando pra minha irmã – disse Hass –, vai levar uma surra tão grande que vai virar uma sarda gigante.
– Me deixem ir embora, por favor!
Senti vontade de deixar ele ir. Talvez ele não tivesse comido ninguém. Talvez só estivesse sonhando acordado. Mas eu era o jovem líder. Não podia mostrar compaixão.
– Você vem conosco, Simpson.
– Não!
– Não o caralho! Você vem conosco! Agora, anda!
Caminhei ao redor dele e lhe dei um chute na bunda, bem forte. Ele gritou.
– CALE A BOCA! – berrei. – CALE A BOCA OU VAI SER PIOR! AGORA ANDE!
Nós o conduzimos até a calçada, cruzamos o gramado até a calçada da minha casa e seguimos para o meu quintal.
– Agora se endireite! – eu disse. – Solte as mãos! Vamos organizar um tribunal improvisado!
Eu me virei para Morgan e Hass e perguntei:
– Todos aqueles que acham que este homem é culpado por mentir que comeu uma menininha debaixo da minha casa devem dizer “culpado”.
– Culpado – disse Hass.
– Culpado – disse Morgan.
– Culpado – eu disse.
Eu me virei para o prisioneiro.
– Simpson, você é considerado culpado!
As lágrimas agora escorriam de seus olhos.
– Mas eu não fiz nada – resmungou.
– É disso que você é culpado – disse Hass. – De mentir!
– Mas vocês mentem o tempo todo!
– Não sobre trepar – disse Morgan.
– É sobre isso que vocês mais mentem. Foi com vocês que eu aprendi!
– Sargento – eu me virei para Hass –, amordace o prisioneiro. Estou cansado de suas mentiras de merda!
– Sim, senhor!
Hass correu até o varal. Encontrou um lenço e um pano de prato. Seguramos Simpson, e ele enfiou o lenço em sua boca e amarrou o pano de prato por cima. Simpson emitiu um som abafado e mudou de cor.
– Você acha que ele consegue respirar? – perguntou Morgan.
– Ele pode respirar pelo nariz – eu disse.
– Pois é – concordou Hass.
– O que a gente vai fazer agora? – perguntou Morgan.
– O prisioneiro é culpado, não é? – perguntei.
– Sim.
– Bem, como juiz eu o sentencio a ser enforcado até a morte!
Simpson fez uns barulhos por baixo de sua mordaça. Seus olhos nos encaravam, implorando. Corri até a garagem e peguei a corda. Havia uma, cuidadosamente enrolada, pendurada num grande gancho na parede. Eu não fazia a menor ideia de por que meu pai tinha aquela corda. Até onde eu sabia, ele nunca a havia usado. Agora ela teria uma utilidade.
Saí da garagem levando a corda.
Simpson começou a correr. Hass estava bem atrás dele. Ele pulou em cima de Simpson e o derrubou no chão. Virou-lhe o corpo e começou a dar socos na cara dele. Eu corri até eles e bati forte com a ponta da corda no rosto de Hass. Ele parou com os socos. Olhou para mim.
– Seu filho da puta, eu vou te dar uma surra!
– Como juiz, meu veredicto foi que esse homem seria enforcado. E assim será! SOLTEM O PRISIONEIRO!
– Seu filho da puta, vou te dar uma surra daquelas!
– Primeiro, vamos enforcar o prisioneiro! Depois você e eu resolveremos nossas desavenças.
– Resolveremos mesmo – disse Hass.
– Levante-se, prisioneiro! – eu disse.
Hass se moveu rapidamente e Simpson se ergueu. Seu nariz estava sangrando e havia manchado a parte da frente de sua camiseta. Seu sangue era de um vermelho muito vivo. Mas Simpson parecia resignado. Não estava mais chorando. Seus olhos, porém, revelavam traços de pavor, algo terrível de se ver.
– Me dê um cigarro – eu disse para Morgan.
Ele pôs um na minha boca.
– Acenda – eu disse.
Morgan acendeu o cigarro e eu dei uma tragada, então, segurando o cigarro entre meus lábios, exalei a fumaça pelo nariz enquanto fazia um laço na ponta da corda.
– Levem o prisioneiro para a varanda! – ordenei.
Havia uma varanda nos fundos da casa. Sobre a varanda, havia uma saliência. Lancei a corda sobre uma trave, e então puxei o laço para baixo, em frente à cabeça de Simpson. Eu não queria mais ir adiante com aquilo. Achava que Simpson já havia sofrido o suficiente, mas eu era o líder e ia ter que brigar com Hass depois, assim não podia demonstrar nenhum sinal de fraqueza.
– Talvez a gente não devesse fazer isso – disse Morgan.
– O homem é culpado! – gritei.
– Isso mesmo! – gritou Hass. – Ele deve ser enforcado!
– Olhem, ele se mijou todo – disse Morgan.
De fato, havia uma mancha escura na parte da frente das calças de Simpson, e ela estava aumentando.
– Covarde – eu disse.
Coloquei o laço sobre a cabeça de Simpson. Dei um puxão na corda e levantei Simpson até a ponta dos seus pés. Então, peguei a outra ponta da corda e amarrei numa torneira no lado da casa. Dei um nó bem apertado na corda e gritei:
– Vamos dar o fora daqui!
Olhamos para Simpson, que se equilibrava na ponta dos pés. Ele estava girando um pouco, devagar, parecia já estar morto.
Comecei a correr. Morgan e Hass correram também. Corremos até a calçada e então Morgan e Hass foram embora, cada um para a sua casa. Dei-me conta de que eu não tinha para onde ir. Hass, eu pensei, ou você se esqueceu da briga ou não queria brigar.
Fiquei parado na calçada por alguns instantes, então corri de volta ao pátio. Simpson ainda estava girando. Um pouco, devagar. Tínhamos esquecido de amarrar suas mãos. Ele estava com as mãos erguidas, tentando aliviar a pressão em seu pescoço, mas não estava conseguindo. Corri até a torneira, desatei a corda e a soltei. Simpson bateu na varanda, depois tropeçou e caiu no gramado.
Ele estava de bruços. Virei seu corpo e tirei a mordaça. Ele estava mal. Tinha o aspecto de quem poderia morrer a qualquer momento. Me debrucei sobre ele.
– Ouça bem, seu filho da puta, não morra, eu não queria te matar, de verdade. Se você morrer, vai ser triste. Mas se não morrer e contar isso para alguém, aí você não me escapa. Entendeu?
Simpson não respondeu. Apenas me olhou. Ele estava péssimo. Seu rosto estava roxo e ele tinha marcas de corda no pescoço.
Eu me levantei. Olhei-o por alguns instantes. Ele não se movia. A coisa estava feia. Fiquei tonto. Depois me recompus. Respirei fundo e caminhei até a calçada. Era cerca de quatro da tarde. Comecei a caminhar. Caminhei até a avenida e segui caminhando. Eu estava pensativo. Sentia que minha vida tinha se acabado. Simpson sempre gostara de andar sozinho. Talvez fosse solitário. Nunca se misturava com a gente ou com os outros garotos. Ele era estranho nesse sentido. Talvez fosse isso o que nos incomodava nele. Mesmo assim, ele tinha algo de bom. Eu sentia que havia feito algo muito ruim e, ao mesmo tempo, sentia que não. Na maior parte do tempo eu tinha um sentimento vago, que se centrava no meu estômago. Caminhei e caminhei. Caminhei até a autoestrada e voltei. Meus sapatos machucavam muito meus pés. Meus pais sempre me compravam sapatos vagabundos. Pareciam bons por mais ou menos uma semana, então o couro rachava e as unhas começavam a atravessar a sola. Eu segui caminhando mesmo assim.
Quando voltei para casa já era quase noite. Caminhei vagarosamente pela calçada em direção ao quintal. Simpson não estava lá. Nem a corda. Talvez ele estivesse morto. Talvez ele estivesse em outro lugar. Olhei em volta.
Vi o rosto do meu pai pela porta de tela.
– Venha aqui – ele falou.
Subi as escadas da varanda e passei por ele.
– A sua mãe ainda não chegou. Melhor assim. Vá para o quarto. Quero ter uma conversinha com você.
Avancei até o quarto, sentei na cama e olhei para os meus sapatos vagabundos. Meu pai era um homem grande, mais de um metro e oitenta de altura. Ele tinha uma cabeça grande e olhos que pareciam pendurados sob suas sobrancelhas bagunçadas. Tinha lábios grossos e orelhas grandes. Era másculo sem precisar fazer esforço algum.
– Por onde você andava? – ele perguntou.
– Por aí, caminhando.
– Caminhando? Por quê?
– Gosto de caminhar.
– Desde quando?
– Desde hoje.
Fez-se um longo silêncio. Então ele falou de novo.
– O que aconteceu no nosso quintal hoje à tarde?
– Ele está morto?
– Quem?
– Eu disse pra ele não contar. Se ele contou, é porque não está morto.
– Não, ele não está morto. E os pais dele iam chamar a polícia. Tive que conversar um longo tempo com eles para convencê-los a não fazer isso. Se eles tivessem chamado a polícia, sua mãe teria ficado arrasada! Está entendendo?
Não respondi.
– Sua mãe teria ficado arrasada! Você entende isso?
Não respondi.
– Tive que pagar para que ficassem calados. E, além disso, vou ter que pagar as despesas médicas. Você vai levar a surra da sua vida! Eu vou te dar um corretivo! Não vou criar um filho incapaz de viver em sociedade!
Ele ficou de pé junto à porta, parado. Eu olhei para os seus olhos debaixo daquelas sobrancelhas, para aquele corpo enorme.
– Chame a polícia – eu disse. – Não quero você. Prefiro a polícia.
Ele se aproximou de mim devagar.
– A polícia não entende gente como você.
Levantei da cama e cerrei os pulsos.
– Vamos lá – eu disse –, vou lutar com você!
Com um rápido movimento ele estava em cima de mim. Foi como se um raio de luz me cegasse, uma pancada tão forte que nem cheguei a sentir. Eu estava no chão. Levantei-me.
– É melhor você me matar – eu disse –, porque, quando eu crescer, vou matar você!
A pancada que veio a seguir me arrastou para baixo da cama. Parecia um bom lugar para estar. Olhei para as molas. Eu nunca tinha visto nada mais agradável e maravilhoso que aquelas molas acima de mim. Então eu ri. Foi um riso apavorado, mas eu ri, e ri porque me veio o pensamento de que talvez o Simpson tivesse de fato comido uma garota debaixo da minha casa.
– De que diabos você está rindo? – gritou meu pai. – Você é mesmo o filho do Diabo, você não é meu filho!
Vi sua enorme mão tatear por baixo da cama, procurando por mim. Quando se aproximou, agarrei a sua mão com as minhas e a mordi com toda a força. Ouvi um gemido feroz e a mão se recolheu. Senti o gosto de sangue e carne em minha boca, cuspi fora. Então eu soube que, apesar de Simpson estar vivo, eu poderia estar morto dentro de poucos instantes.
– Muito bem – ouvi meu pai dizer em voz baixa –, agora você pediu e, por Deus, você vai levar.
Eu esperei. E, enquanto esperava, ouvia apenas alguns sons estranhos. Ouvia os pássaros, o som dos carros que passavam, ouvia até mesmo o som do meu coração batendo forte, o som do sangue correndo em minhas veias. Eu ouvia a respiração do meu pai, e me arrastei até a parte do meio da cama e esperei pelo que viria em seguida.
– Septuagenarian Stew

A quinta série era um pouco melhor. Os outros estudantes pareciam menos hostis, e eu crescia fisicamente. Ainda não era escolhido para os times da escola, mas já não sofria ameaças frequentes. David e seu violino tinham partido. Sua família se mudara. Agora eu caminhava sozinho para casa. Muitas vezes, um ou dois caras me seguiam, dentre os quais Juan era o pior, mas não chegavam a me fazer nada. Juan fumava cigarros. Caminhava atrás de mim fumando um cigarro e sempre tinha consigo um parceiro diferente. Jamais me seguia sozinho. Isso me assustava. Queria que eles sumissem. Contudo, por outro lado, eu não dava muita bola. Não gostava de Juan. Não gostava de ninguém naquela escola. Creio que eles sabiam disso. Devia ser por isso que não simpatizavam comigo. Não gostava do jeito que eles caminhavam, de sua aparência, do modo como falavam, mas também não gostava dessas coisas em meu pai e minha mãe. Continuava com a sensação de estar cercado por um grande espaço em branco, um vazio. Havia sempre uma sombra de náusea em meu estômago. Juan tinha a pele morena e usava uma corrente de metal em vez de cinto. As garotas tinham medo dele, assim como os rapazes. Ele e um dos seus capangas me seguiam quase todos os dias. Eu entrava em casa, e eles ficavam parados lá fora. Juan fumaria seu cigarro, bancando o durão, e seu parceiro ficaria ali parado. Eu os observava através das cortinas. Finalmente, depois de um tempo, eles acabavam partindo.
A sra. Fretag era nossa professora de Inglês. No primeiro dia de aula ela perguntou o nome de cada um de nós.
– Quero conhecer cada um de vocês – ela disse.
Sorriu.
– Bem, cada um de vocês tem um pai, estou certa. Penso que seria interessante se descobríssemos o que eles fazem para viver. Começaremos pelo primeiro da fila e iremos adiante, até que todos na sala tenham falado. E então, Marie, o que seu pai faz da vida?
– Ele é jardineiro.
– Ah, mas que legal! Carteira número dois... Andrew, o que seu pai faz?
Foi terrível. Os pais de todos os meus colegas das redondezas tinham perdido seus empregos. Meu pai havia perdido o emprego. O pai de Gene ficava o dia inteiro sentado na varanda. Todos estavam desempregados com exceção do pai de Chuck, que trabalhava num matadouro. Ele dirigia o carro que entregava as carnes, um carro vermelho com o nome do matadouro gravado nos lados.
– Meu pai é bombeiro – disse o número dois.
– Ah, isso é interessante – disse a sra. Fretag. – Carteira número três.
– Meu pai é advogado.
– Carteira quatro.
– Meu pai é... policial...
O que eu iria dizer? Talvez apenas os pais da minha vizinhança estivessem sem emprego. Tinha ouvido falar do crack da bolsa. Significava algo ruim. Talvez o mercado só tivesse entrado em colapso na nossa vizinhança.
– Carteira dezoito.
– Meu pai é ator de cinema...
– Dezenove...
– Meu pai toca violino em concertos...
– Vinte...
– Meu pai trabalha num circo...
– Vinte e um...
– Meu pai é motorista de ônibus...
– Vinte e dois...
– Meu pai é cantor de ópera...
– Vinte e três...
Vinte e três. Era eu.
– Meu pai é dentista – eu disse.
A sra Fretag prosseguiu até que chegou no número 33.
– Meu pai não tem emprego – disse o número 33.
Merda, pensei, queria ter pensado nisso.
Um dia, a sra. Fretag nos passou uma tarefa.
– Nosso ilustríssimo senhor presidente, Herbert Hoover, virá visitar Los Angeles no sábado e fará um discurso. Quero que todos vocês vão até lá ouvir o nosso presidente. E quero que escrevam um ensaio sobre a experiência e sobre o que vocês acharam do discurso do presidente Hoover.
Sábado? Não havia a mínima chance de que eu pudesse ir. Era dia de cortar a grama. Eu tinha que cuidar dos fiapinhos. (Eu nunca conseguia eliminá-los por completo.) Praticamente todos os sábados eu apanhava com o amolador de navalha porque meu pai encontrava um fiapo. (Também apanhava durante a semana, uma ou duas vezes, por outras coisas que eu deixava de fazer ou não fazia corretamente.) Não tinha como dizer a meu pai que eu iria assistir ao presidente Hoover.
Assim, não fui. No dia seguinte, peguei um jornal dominical e me sentei para escrever sobre a aparição do presidente. Seu carro aberto, abrindo caminho entre as bandeiras tremulantes, tinha entrado no estádio de futebol. Um carro, cheio de agentes do serviço secreto, lhe abria caminho, enquanto outros dois seguiam o carro presidencial de perto. Os agentes eram homens de coragem, armados para proteger nosso presidente. A multidão se levantou quando o carro presidencial entrou na arena. Nunca acontecera anteriormente nada parecido. Era o presidente. Era ele. Acenou. Nós aplaudimos. Uma banda começou a tocar. Gaivotas sobrevoavam em círculos, como se soubessem que se tratava do presidente. E havia ainda aviões que escreviam mensagens de fumaça no céu. Escreviam no ar frases como: “A prosperidade está logo ali na esquina”. O presidente se pôs de pé em seu carro, e, assim que ele fez esse movimento, as nuvens se afastaram e os raios de sol incidiram diretamente em seu rosto. Era quase como se Deus também soubesse quem ele era. Então os carros pararam, e nosso grande presidente, rodeado pelos agentes do serviço secreto, caminhou até o palanque. Ao se posicionar junto ao microfone, um pássaro desceu do céu e pousou sobre a bancada em que estava o microfone. O presidente acenou para o pássaro e riu e todos nós rimos com ele. Então ele começou a falar, e as pessoas passaram a ouvi-lo com atenção. Eu quase não conseguia ouvir o discurso porque estava sentado muito próximo a uma máquina de pipocas que fazia muito barulho estourando os grãos, mas creio ter escutado ele falar que os problemas na Manchúria não eram muito sérios e que aqui no país as coisas logo entrariam nos eixos, que não devíamos nos preocupar, tudo o que precisávamos fazer era acreditar na América. Haveria empregos para todo mundo. Haveria bastantes dentistas e dentes suficientes para arrancar, bastantes incêndios e bombeiros bastantes para apagá-los. As fábricas e as indústrias reabririam. Nossos amigos na África do Sul pagariam suas dívidas. Logo todos dormiríamos tranquilamente, com os estômagos cheios e os corações pacificados. Deus e nosso grande país nos envolveriam em seu amor, nos protegendo do mal, dos socialistas, nos despertando de nosso pesadelo nacional, para sempre...
O presidente ouviu os aplausos, acenou, então voltou para o carro, entrou e partiu seguido pelos carros apinhados de agentes do serviço secreto enquanto o sol mergulhava no horizonte e o entardecer se fazia noite, vermelho, dourado e maravilhoso. Havíamos visto e ouvido o presidente Herbert Hoover.
Entreguei meu ensaio na segunda-feira. Na terça, a sra. Fretag se dirigiu à classe:
– Li os ensaios de todos vocês sobre a visita do nosso ilustríssimo presidente a Los Angeles. Eu estava lá. Alguns de vocês, pelo que pude notar, não puderam comparecer ao evento por uma ou outra razão. Para aqueles entre vocês que não puderam estar lá, gostaria de ler o ensaio escrito por Henry Chinaski.
Um terrível silêncio se abateu sobre a turma. Eu era de longe o aluno mais impopular da classe. Era como se todos eles tivessem levado uma facada no coração.
– Este é um texto muito criativo – disse a sra. Fretag e começou a ler meu ensaio.
As palavras me soavam bem. Todos escutavam. Minhas palavras enchiam a sala, corriam de um lado a outro pelo quadro-negro, ricocheteavam no teto e cobriam os sapatos da sra. Fretag, se amontoando no chão. Algumas das garotas mais lindas da classe começaram a me lançar olhares furtivos. Os caras durões estavam putos da cara. Seus ensaios não valiam merda nenhuma. Eu bebia de minhas próprias palavras como se fosse um homem sedento. Comecei, inclusive, a acreditar que elas representassem a verdade. Vi Juan sentado ali como se eu lhe tivesse esmurrado a cara. Estiquei minhas pernas e me recostei na cadeira. Logo, porém, estava tudo terminado.
– Com essa grande redação – disse a sra. Fretag –, encerro a aula...
Todos se levantaram e começaram a guardar seus materiais.
– Você não, Henry.
Sentei-me na cadeira, e a sra. Fretag ficou ali, me encarando. Então disse:
– Henry, você estava lá?
Tentei encontrar uma resposta. Nada me ocorreu. Eu disse:
– Não, eu não estava lá.
Ela sorriu.
– Isso faz com que seu ensaio seja ainda mais notável.
– Sim, madame...
– Você já pode ir, Henry.
Levantei-me e deixei a sala. Fui para casa. Então era isso que eles queriam: mentiras. Mentiras maravilhosas. Era disso que precisavam. As pessoas eram idiotas. Seria fácil para mim. Olhei em volta. Juan e seu comparsa não estavam me seguindo. As coisas estavam melhorando.
– Misto-quente
1 474

Poema de Amor Para Uma Stripper

50 anos atrás eu assistia às garotas
balançarem seus rabos e se despir
no Burbank e no Follies
e era muito triste
e muito dramático
assim que a luz ia do verde para
o púrpura e para o rosa
e a música era alta e
vibrante,
agora fico sentado aqui
fumando e
ouvindo música
clássica
mas ainda me lembro de alguns de seus
nomes: Darlene, Candy, Jeanette
e Rosalie.
Rosalie era a
melhor, tinha a manha,
e nós nos revirávamos em nossas poltronas e
fazíamos barulho
enquanto Rosalie levava mágica
aos solitários
de tanto tempo atrás.
escute Rosalie
ou velha demais ou
tranquila demais debaixo da
terra,
aqui fala o garoto
espinhento
que mentia a
idade
só para
te ver.
você era boa, Rosalie
em 1935,
suficientemente boa para ser lembrada
agora
que a luz é
amarela
e as noites correm
mansas.

O tempo do colégio passou com rapidez suficiente. Por volta da oitava série, indo para a nona, comecei a ter acne. Muitos dos caras tinham esse problema, mas não no mesmo grau que eu. Meu caso era realmente terrível. Era o mais grave em toda a cidade. Eu tinha espinhas e erupções por toda a face, costas, todo o pescoço e um pouco no peito. Isso aconteceu no exato momento em que eu começava a ser aceito como um cara durão e um líder. Eu continuava durão, mas não era a mesma coisa. Tive que me retirar. Observava as pessoas à distância, como numa peça de teatro. Apenas eles estavam no palco, e eu era plateia de um homem só. Eu sempre tivera problema com as garotas, mas agora, coberto de acnes, eu estava condenado. As garotas ficaram mais distantes do que nunca. Algumas delas eram verdadeiramente belas – seus vestidos, seus cabelos, seus olhos, o jeito como se moviam. Simplesmente caminhar rua abaixo durante uma tarde com uma delas, você sabe, falando qualquer coisa sobre qualquer assunto, creio que isso teria me feito sentir bastante bem.
Além disso, havia algo em mim que continuava sendo fonte de constantes problemas. A maioria dos professores não gostava ou não confiava em mim, especialmente as professoras. Nunca disse nada fora do convencional, mas alegavam que se tratava da minha “atitude”. Era algo relacionado com o modo como eu sentava com desleixo na cadeira e também meu “tom de voz”. Eu era frequentemente acusado de estar “escarnecendo”, embora eu não tivesse consciência disso. Constantemente, me faziam ficar do lado de fora da sala, de pé, no corredor, ou me mandavam para a sala da direção. O diretor sempre fazia a mesma coisa. Ele tinha uma cabine telefônica em sua sala. Obrigava-me a ficar de pé dentro da cabine e a fechava. Passei muitas horas dentro daquela cabine. A única coisa que havia para ler ali dentro era a Ladies Home Journal[4]. Era tortura deliberada. De qualquer forma, eu acabava lendo as revistas. Tinha que ler cada novo número. Eu esperava que talvez pudesse aprender alguma coisa sobre as mulheres.
Eu devia ter uns cinco mil deméritos acumulados à época da graduação, mas isso não teve importância. Queriam se livrar de mim. Eu estava de pé do lado de fora, na fila que entrava no auditório ao ritmo de um por vez. Todos nós estávamos com a toga e o barrete vagabundos que já tinham atravessado gerações e gerações de formandos antes de nós. Podíamos ouvir o nome de cada pessoa à medida que ela entrava no palco. Estavam transformando nossa graduação numa maldita comédia. A banda tocou o hino do colégio:
Ó, Mt. Justin, Ó, Mt. Justin
Nós seremos leais
Nossos corações cantam fervorosos
A certeza de amanhãs celestiais...
Ficamos alinhados, cada qual esperando sua hora de marchar pelo palco. Na plateia estavam nossos pais e amigos.
– Estou quase vomitando – disse um dos caras.
– Saímos de uma merda para nos metermos em outra – disse um segundo.
As garotas pareciam encarar a coisa com maior seriedade. Era por isso que não se podia confiar nelas. Pareciam compactuar com as coisas erradas. Elas e o colégio pareciam cantar em uníssono o mesmo hino.
– Esse negócio me deixa deprimido – disse um dos caras. – Queria fumar um cigarro.
– Aqui tem um...
Um dos outros caras lhe alcançou um cigarro. Nós o passamos, éramos quatro ou cinco. Dei uma tragada e exalei a fumaça pelo nariz. Então vi Curly Wagner se aproximar.
– Apaguem o cigarro! – eu disse. – Aí vem o cabeça de vômito!
Wagner caminhou reto na minha direção. Usava o seu abrigo cinza, incluindo a camiseta, exatamente como eu o vira da primeira vez e em todas as oportunidades seguintes. Parou na minha frente.
– Escute – ele disse –, se você acha que está se livrando de mim porque está saindo daqui está muito enganado! Vou seguir você pelo resto da vida. Vou seguir você até os confins da Terra e vou pegá-lo!
Simplesmente o encarei, sem nenhum comentário, e ele se afastou. O discursinho de Wagner serviu para aumentar meu prestígio entre os rapazes. Pensaram que eu tinha feito algo realmente diabólico para deixá-lo tão irritado. Mas não era verdade. Wagner era simplesmente maluco.
Nos aproximávamos cada vez mais da porta do auditório. Não só podíamos ouvir cada nome que era pronunciado e os aplausos na sequência, mas também víamos a plateia. Então, chegou a minha vez.
– Henry Chinaski – o diretor disse ao microfone.
E avancei. Não houve nenhum aplauso. Então uma alma gentil na plateia bateu duas ou três palmas.
Havia algumas filas de cadeiras dispostas no palco para a turma que se graduava. Sentamos lá e esperamos. O diretor fez o seu discurso sobre a América ser a terra das oportunidades e do sucesso. Então tudo acabou. A banda atacou novamente o hino do colégio Mt. Justin. Os estudantes e seus pais e seus amigos se ergueram e se congregaram. Andei por ali, procurando. Meus pais não estavam lá. Quis ter certeza. Dei mais uma volta, procurando com afinco.
Estava tudo bem. Um cara durão não precisava dessas coisas. Tirei o barrete e a toga e os alcancei ao cara no fim do corredor – o porteiro. Ele guardou as peças para a próxima formatura.
Ganhei a rua. O primeiro a sair. Mas para onde eu poderia ir? Tinha onze centavos no bolso. Segui de volta para o lugar em que eu vivia.
– Misto-quente
1 363

Não Temos Grana, Querida, mas temos a Chuva

chame isso de efeito estufa ou do que quiser
mas já não chove mais como antes
lembro particularmente das chuvas na época da
depressão.
estavam todos sem grana mas havia
muita chuva.
não era chuva que durava uma noite ou
um dia,
CHOVIA por 7 dias e 7
noites
e em Los Angeles as bocas de lobo
não eram construídas para suportar essa quantidade de
água
e a chuva caía PESADA e
INCLEMENTE e
CONSTANTE
e você a OUVIA bater contra
os telhados e descer até o chão
cascatas de água desciam
dos telhados
e de vez em quando havia GRANIZOS
grandes PEDRAS DE GELO
bombardeando
explodindo
chocando-se contra as coisas
e a chuva
simplesmente
NÃO PARAVA
começavam as goteiras...
bacias,
panelas
eram espalhadas por toda parte;
todo aquele gotejar barulhento
e a necessidade de esvaziá-las
vez após
vez.
a chuva inundava as ruas e os meio-fios
invadia os gramados, escalava os degraus e
entrava nas casas.
havia panos de chão e toalhas de banho,
e a chuva com frequência subia pelas
privadas: borbulhante, marrom, enlouquecida, a girar,
e os carros velhos ficavam nas ruas,
carros que já tinham problemas para dar a partida num
dia ensolarado,
e os homens sem emprego plantados
acompanhando das janelas
o perecer das velhas carroças
como criaturas vivas
lá fora.
os homens sem emprego,
fracassados em um tempo fracassado
tornavam-se prisioneiros em suas casas com suas
mulheres e crianças
e seus animais de
estimação.
os bichos se recusavam a sair
e deixavam seus dejetos em
lugares estranhos.
os homens sem emprego enlouqueciam
confinados com
suas mulheres que um dia foram belas.
havia terríveis discussões
assim que as ações de despejo
chegavam pelo correio.
chuva e granizo, latas de feijão,
pão sem manteiga; ovos
fritos, ovos cozidos, ovos
mexidos; sanduíches de manteiga de
amendoim, e uma galinha
invisível
em cada panela.
meu pai, nem de longe um homem
decente, batia em minha mãe
quando chovia
enquanto eu me lançava
entre eles,
as pernas, os joelhos, os
gritos
até que eles se
separassem.
“Eu te mato”, eu gritava
para ele. “Se bater de novo nela
eu acabo com a tua raça!”
“Tire esse fedelho filho da puta
daqui!”
“não, Henry, você fica com
a sua mãe!”
todas as famílias estavam
sitiadas mas creio que a nossa
continha mais terror do que o
normal.
e à noite
quando tentávamos dormir
o dilúvio continuava caindo
e foi na cama
no escuro
observando a lua contra
a janela marcada
cheia de bravura
suportando
grande parte da chuva,
que pensei em Noé e na
Arca
e que estava acontecendo
de novo.
todos pensamos
isso.
e então, de súbito, ela
parava.
sempre por volta das 5 ou 6 da manhã,
e havia paz,
mas não um silêncio enxuto
porque as coisas continuavam a
pingar
pingar
pingar
e então não havia a cerração poluída
e lá pelas oito da manhã
surgia
um sol amarelo e escaldante,
um amarelo de Van Gogh –
ofuscante, enlouquecedor!
e então
os telhados escoavam
aliviados das correntes de
água
e começavam a se dilatar
com o calor:
PLAC! PLAC! PLAC!
e todos se levantavam
e davam uma olhada para fora
lá estavam todos os gramados
ainda encharcados
mais verdes do que o próprio verde poderia
ser
e lá estavam os pássaros
sobre o gramado
PIANDO como loucos,
não haviam se alimentado decentemente
há 7 dias e 7 noites
e estavam fartos de
frutinhas
e
esperavam que as minhocas
viessem à superfície,
minhocas semiafogadas.
os pássaros as arrancavam
e
as tragavam com
voracidade; havia
melros e pardais.
os melros tentavam
afugentar os pardais
mas os pardais,
ensandecidos pela fome,
menores e mais rápidos,
pegavam a maior
parte.
os homens ficavam nas varandas
fumando cigarros,
sabendo que agora
teriam que sair
para
procurar aquele emprego
que provavelmente não estaria
lá, que teriam que dar partida num carro
que provavelmente não iria
pegar.
e as mulheres que um dia foram
belas
ficavam nos banheiros
penteando os cabelos,
passando maquiagem,
tentando recompor outra vez o que lhes
restava do mundo,
tentando esquecer a
medonha tristeza que se lhes
aferrava,
perguntando-se o que podiam
arrumar para o
café da manhã.
e pelo rádio
sabíamos que
as escolas já estavam
abertas.
e
logo
lá estava eu
a caminho da escola,
poças imensas pela
rua,
o sol como um novo
mundo,
meus pais voltando para dentro de
casa,
e eu entrando na sala de aula
no horário.
a sra. Sorenson nos saudou
com “não teremos o nosso
recreio de sempre, o pátio está
muito molhado”.
“Ah, não”, disseram quase todos os
garotos.
“mas vamos fazer
algo especial na hora do
recreio”, ela prosseguiu,
“e será bem
divertido!”
bem, ficamos nos perguntando
o que
seria
e as duas horas de espera
pareceram infinitas
enquanto a sra. Sorenson
seguia
com sua
lição.
Eu olhava para as
garotinhas, todas eram tão
bonitas e limpas e
espertas,
sentavam-se aprumadas e
eretas
e seus cabelos eram
lindos
debaixo do sol da
Califórnia.
então a sineta do recreio soou
e todos esperávamos pela
diversão.
então a sra. Sorenson nos
disse:
“agora, o que faremos
é dizer uns aos
outros o que fizemos
durante o temporal!
começaremos pela fila da
frente e iremos até o fundo!
bem, Michael, você é
o primeiro!...”
bem, nós todos começamos a contar
nossas histórias, Michael foi o primeiro
e depois aquilo seguiu,
e logo percebemos que
todos mentíamos, não
exatamente em tudo mas em boa parte
sim e alguns dos garotos
começaram a dar risadinhas e algumas
das garotas começaram a
olhar feio para eles e
a sra. Sorenson disse,
“tudo bem, exijo que se faça
um pouquinho de silêncio
aqui!
estou interessada no que
vocês fizeram
durante o temporal
ainda que vocês
não estejam!”
então tivemos que seguir com nossas
histórias e eram histórias
inventadas.
uma garota disse que
assim que o arco-íris
apareceu
ela viu a face de Deus
numa das extremidades.
esqueceu apenas de dizer
em qual delas.
um dos garotos disse que estendeu
sua vara de pescar
pela janela
e apanhou um
peixinho
e deu para o seu gato
comer.
quase todo mundo contou
uma mentira.
a verdade era simplesmente
terrível e por demais
embaraçosa para ser
dita.
então a sineta soou
e o recreio chegou ao
fim.
“obrigada”, disse a sra.
Sorenson, “isso foi muito
legal.
e amanhã o pátio
estará seco
e poderemos
usá-lo
outra vez.”
boa parte dos garotos
sorriu
e as garotinhas
sentaram-se bem eretas e
aprumadas,
parecendo tão bonitas e
limpas e
espertas,
seus cabelos lindos
debaixo de um sol que
o mundo talvez
jamais voltasse
a ver.

Uma noite meu pai me levou com ele na entrega do leite. Não havia mais carroça puxada a cavalo. Os caminhões de leite agora eram movidos a motor. Após carregar a caçamba lá na companhia de leite, seguimos o trajeto das entregas. Era bom já estar na rua antes do amanhecer. A lua ainda estava no céu, e eu podia ver as estrelas. Fazia frio, mas era excitante. Perguntava-me por que meu pai me convidara para vir com ele uma vez que dera para me bater com o amolador da navalha uma ou duas vezes por semana e não havia entre nós qualquer intimidade.
A cada parada, ele saltava e entregava uma ou duas garrafas de leite. Às vezes era queijo cottage, ou coalhada, ou manteiga e, de vez em quando, uma garrafa de suco de laranja. A maioria das pessoas deixava bilhetes nas garrafas vazias explicando o que queriam.
Meu pai ia guiando, parando e dando a partida no motor, fazendo entregas.
– Bem, garoto, em que direção estamos indo agora?
– Norte.
– Você está certo, estamos indo pro norte.
Percorríamos as ruas, parando e seguindo adiante.
– Bem, e agora? Em qual direção?
– Oeste.
– Não, estamos indo pro sul.
Seguimos mais um tempo, em silêncio.
– Vamos supor que eu expulse você do caminhão agora e o deixe no meio da calçada. O que você faria?
– Não sei.
– Quero dizer, como você sobreviveria?
– Bem, acho que voltaria até a última casa e pegaria o leite e o suco de laranja que você deixou nos degraus.
– E depois disso? O que faria?
– Encontraria um policial e contaria a ele o que você fez comigo.
– Contaria, hein? E o que é que você iria contar?
– Diria a ele que você quis que eu me perdesse afirmando que o “oeste” era o “sul”.
O dia começava a raiar. Logo todas as entregas haviam sido feitas e paramos para tomar café numa lancheria. A garçonete se aproximou.
– Olá, Henry – ela disse a meu pai.
– Olá, Betty.
– Quem é o garoto?
– Este é o pequeno Henry.
– É a sua cara.
– Mas não tem meus miolos, acho.
– Espero que não.
Fizemos o pedido. Ovos com bacon. Enquanto comíamos, meu pai disse:
– Agora vem a parte mais difícil.
– Qual?
– Tenho que recolher o dinheiro que as pessoas me devem. Algumas delas não querem pagar.
– Mas elas têm que pagar.
– É o que sempre lhes digo.
Terminamos de comer e voltamos ao trabalho. Meu pai descia e batia nas portas. Eu podia ouvi-lo reclamar aos berros:
– COMO, DIABOS, PENSA QUE EU VOU TER O QUE COMER? VOCÊ JÁ SECOU O LEITE, AGORA É HORA DE CAGAR O DINHEIRO!
Usava um discurso diferente a cada cobrança. Às vezes voltava com o dinheiro, em outras não.
Então o vi entrar numa espécie de cortiço. Uma porta se abriu, e uma mulher ficou ali parada, vestida num quimono de seda desatado. Ela fumava um cigarro.
– Escute, boneca, preciso receber o dinheiro. Você é minha maior devedora!
Ela riu na cara dele.
– Veja, boneca, me dê a metade, me pague alguma coisa, dê algum sinal.
Ela fez um anel de fumaça e em seguida o rompeu com o dedo.
– Escute, você precisa me pagar – disse meu pai. – Esta é uma situação desesperadora.
– Entre. Falaremos sobre isso – disse a mulher.
Meu pai entrou, e a porta se fechou. Ficou lá dentro por uma eternidade. O sol já ia alto. Quando meu pai saiu, o cabelo lhe caía sobre o rosto e ele colocava a barra da camisa para dentro das calças. Subiu no caminhão.
– A mulher deu o dinheiro? – perguntei.
– Esta foi a última parada – disse meu pai. – Estou exausto. Vamos devolver o caminhão e voltar para casa...
Eu voltaria a ver aquela mulher. Um dia voltei para casa depois da escola, e ela estava sentada numa cadeira na nossa sala da frente. Minha mãe e meu pai também estavam sentados ali, e minha mãe chorava. Quando me viu, correu em minha direção e me agarrou. Levou-me para o quarto e fez com que eu sentasse na cama.
– Henry, você ama sua mãe?
Eu na verdade não a amava, mas ela parecia tão triste que respondi:
– Sim.
Ela me levou de volta para a sala.
– Seu pai está dizendo que ama essa mulher – ela me disse.
– Amo vocês duas! Agora, tire esse garoto daqui!
Senti que meu pai estava fazendo minha mãe muito infeliz.
– Vou matar você – eu disse a meu pai.
– Tire esse garoto daqui!
– Como você pode amar essa mulher? – perguntei. – Veja o nariz dela. O nariz parece uma tromba de elefante!
– Cristo! – exclamou a mulher. – Não sou obrigada a ouvir isso! – Olhou para o meu pai: – Escolha, Henry! Uma ou outra! Agora!
– Mas não consigo! Amo vocês duas!
– Vou matar você! – eu disse a meu pai.
Ele veio em minha direção e me deu um tapa no ouvido, me derrubando no chão. A mulher se levantou e saiu correndo da casa, e meu pai foi atrás dela. A mulher saltou para dentro do carro do meu pai, deu a partida e seguiu. Tudo se deu de maneira muito rápida. Meu pai saiu correndo rua afora atrás dela e do carro.
– EDNA! EDNA, VOLTE!
Meu pai conseguiu alcançar o carro, pôs a mão no banco da frente e agarrou a bolsa de Edna. Então o carro acelerou e meu pai ficou para trás com a bolsa.
– Eu sabia que algo estava acontecendo – me disse minha mãe. – Então, me escondi no porta-malas e peguei os dois juntos. Seu pai me trouxe até aqui na companhia daquela mulher horrível. Agora ela levou o carro dele.
Meu pai retornou com a bolsa de Edna.
– Todo mundo pra dentro de casa!
Entramos, e meu pai me trancou no quarto. Os dois começaram a discutir. Gritavam e se diziam coisas pavorosas. Então meu pai começou a bater na minha mãe. Ela gritava e ele seguia lhe dando uma surra. Pulei pela janela e tentei entrar pela porta da frente. Estava trancada. Tentei a porta dos fundos, as janelas. Tudo estava trancado. Fiquei plantado no pátio dos fundos, ouvindo os gritos e a pancadaria.
Então os gritos e a pancadaria cessaram e tudo o que eu podia ouvir era minha mãe soluçando. Soluçou por um longo tempo. Gradualmente, os espasmos foram diminuindo e diminuindo, até que ela silenciou.
– Misto-quente
1 187

Gelo para as Águias

Sigo lembrando dos cavalos
sob o luar
sigo lembrando de alimentar os cavalos
açúcar
pedras oblongas de açúcar
mais parecendo gelo,
e suas cabeças são como cabeças
de águias
cabeças calvas que poderiam morder e
não mordem.
Os cavalos são mais reais que
meu pai
mais reais que Deus
e poderiam ter pisado nos meus
pés mas não pisaram
poderiam ter feito coisas horríveis
mas não fizeram.
Eu tinha quase 5 anos
mas ainda não consegui esquecer;
ó meu deus eles eram fortes e bons
as línguas vermelhas molhadas
projetadas para fora de suas almas.

Tinha começado a antipatizar com meu pai. Ele sempre estava zangado com alguma coisa. Onde quer que fôssemos, ele dava um jeito de discutir com as pessoas. Mas a maioria parecia não se assustar com sua figura; as pessoas normalmente o encaravam, calmamente, o que o deixava ainda mais exaltado. Se fôssemos comer fora, o que raramente acontecia, ele sempre encontrava algo de errado na comida e algumas vezes se recusava a pagar.
– Tem cocô de mosca na nata! Que diabo de lugar é este?
– Minhas desculpas, senhor. Não vamos cobrar nada. Apenas faça o favor de se retirar.
– Está certo, estou de saída! Mas voltarei. E voltarei para pôr abaixo esta maldita espelunca!
De outra feita, estávamos numa loja de conveniências, e eu e minha mãe ficamos de lado enquanto meu pai gritava com um atendente. Outro funcionário perguntou a minha mãe:
– Quem é esse sujeito horrível? Toda vez que ele vem aqui arranja uma discussão.
– É meu marido – disse minha mãe ao funcionário.
E ainda lembro de mais outra. Ele estava trabalhando como leiteiro e fazia entregas de manhã bem cedo. Certa manhã ele me acordou.
– Vamos, quero lhe mostrar uma coisa.
Fui até a rua com ele. Eu estava de pijama e chinelos. Ainda era noite, e a lua brilhava alta no céu. Caminhamos até o caminhão de leite, que era puxado a cavalo. O animal estava bastante quieto.
– Veja – disse meu pai. Ele pegou um torrão de açúcar, colocou sobre a palma da mão e levou até a boca do cavalo. O animal apanhou o torrão da sua mão. – Agora, tente você...
Colocou um torrão de açúcar na minha mão. Tratava-se de um enorme cavalo.
– Aproxime-se! Mantenha a mão estendida!
Tive medo de que o cavalo me mordesse. A cabeça se curvou; pude ver suas narinas, os lábios se retraíram, vi a língua e os dentes, e então o torrão de açúcar desapareceu.
– Aqui. Tente outra vez...
E eu tentei. O cavalo abocanhou o torrão e balançou a cabeça.
– Agora – disse meu pai –, vou levar você de volta para dentro antes que o cavalo cague em cima de você.
Não me era permitido brincar com outras crianças.
– Essas crianças são más – dizia meu pai –, e os pais delas são pobres.
– É verdade – concordava minha mãe.
Meus pais queriam ser ricos. Por isso, imaginavam-se ricos.
Foi no jardim de infância que conheci as primeiras crianças da minha idade. Elas pareciam muito estranhas, sorriam e conversavam e pareciam felizes. Não gostei delas. Sempre me sentia enjoado, e o ar tinha um aspecto estranhamente calmo e puro. Pintávamos com tinta guache. Plantávamos sementes de rabanete no jardim e algumas semanas mais tarde os comíamos com sal. Gostava da senhora que ensinava no jardim de infância, gostava mais dela que dos meus pais.
– Misto-quente
1 262

Trapos, Garrafas, Sacos

lembro
na minha infância do som
de:
“TRAPOS! GARRAFAS! SACOS!”
“TRAPOS! GARRAFAS! SACOS!”
foi durante a
Depressão
e você podia ouvir as
vozes
muito antes de avistar a
velha carroça
e o
velho
pangaré.
então você ouvia os
cascos
clop, clop, clop...
e então você avistava
o cavalo e a
carroça
e isso sempre parecia ocorrer
no dia
mais quente do
verão:
“TRAPOS! GARRAFAS! SACOS!”
oh
aquele cavalo estava tão
cansado...
fios de saliva
branca
babando
sempre que o freio se enterrava
em sua
boca
ele puxava uma carga
intolerável
de
trapos, garrafas, sacos
vi seus olhos
imensos
em agonia
suas costelas
expostas
as moscas gordas
circulavam e pousavam sobre
falhas em seu
couro.
às vezes
um de nossos pais
gritava:
“Ei! Por que você não
alimenta esse cavalo, seu
merda!”
a resposta do homem era
sempre a
mesma:
“TRAPOS! GARRAFAS! SACOS!”
o homem era
inacreditavelmente
sujo, barba por
fazer, vestindo um chapéu
de feltro manchado e
roto
ele
se sentava sobre
uma enorme pilha de
sacos
e
vez ou
outra
quando o cavalo parecia
vacilar
um passo
este homem
sentava-lhe
o longo chicote...
o som era como o
disparo de um rifle
uma falange de moscas
se erguia
e o cavalo se
lançava para frente
renovado
os cascos resvalando e
escorregando no asfalto
quente
e então
tudo o que podíamos
ver
era a parte de trás da
carroça
e
o enorme monte de
trapos e garrafas
cobertos pelos
sacos
marrons
e
mais uma vez
a voz:
“TRAPOS! GARRAFAS! SACOS!”
ele foi
o primeiro homem
que tive vontade de
matar
e
desde então
não houve
mais nenhum.

As lutas seguiam de maneira ininterrupta. Os professores pareciam não saber nada a respeito. E sempre tinha problema quando chovia. Qualquer garoto que trouxesse um guarda-chuva ou viesse com uma capa de chuva era discriminado. Nossos pais, em sua maioria, eram pobres demais para comprar esse tipo de coisa. E caso o fizessem, tratávamos de esconder bem os objetos entre os arbustos. Qualquer um que fosse visto carregando um guarda-chuva ou vestindo uma capa de chuva era tido imediatamente por maricas. Era espancado na saída. A mãe de David fazia com que ele carregasse um guarda-chuva mesmo que o dia estivesse apenas um pouco nublado.
Havia dois períodos de recreio. Os alunos das primeiras séries se reuniam em torno de sua própria quadra de beisebol e escolhiam os times. Eu e David permanecíamos juntos. Era sempre assim. Eu era o penúltimo a ser escolhido, e David, o último. Assim, sempre jogávamos em times diferentes. David conseguia ser pior do que eu. Com seus olhos oblíquos, sequer conseguia ver a bola. No meu caso era falta de prática. Eu nunca jogara com as crianças da vizinhança. Eu não sabia como pegar uma bola ou como rebater. Mas eu queria aprender, era divertido. David tinha medo da bola, eu não. Eu movimentava o bastão com força, com mais força do que qualquer um, mas nunca acertava a bola. Eu sempre era eliminado[2]. Uma vez rebati uma bola. Aquilo foi bom. Noutra vez, iniciei uma corrida. Quando cheguei à primeira base, o primeiro basista disse:
– Essa é a única maneira de você chegar até aqui.
Parei e o fitei. Ele mascava um chiclete e longos pelos negros saíam de suas narinas. Seu cabelo estava empapado com vaselina. Sempre tinha um sorrisinho de escárnio nos lábios.
– Está me achando bonito? – ele perguntou.
Não sabia o que responder. Eu não estava acostumado a conversar.
– Os caras dizem que você é louco – ele falou –, mas em mim você não mete medo. Dia desses pego você na saída.
Continuei olhando para ele. Seu rosto era horrível. Então o arremessador jogou a bola, e eu corri para a segunda base. Corri como um louco e deslizei em direção à segunda. A bola chegou depois. Eu estava salvo.
– Você está fora! – gritou o garoto que servia de árbitro.
Levantei-me, sem acreditar.
– Eu disse: VOCÊ ESTÁ FORA! – gritou o árbitro.
Então eu soube que não seria aceito. David e eu não seríamos aceitos. Os outros queriam que eu recebesse o “fora” porque ali não era meu lugar, porque eu devia mesmo ficar de “fora”. Eles sabiam da minha amizade com David. Era por causa dele que eu não era aceito. Enquanto me afastava da quadra, pude ver David na terceira base com suas calças curtas. Suas meias azuis e amarelas estavam arriadas e caíam sobre seus sapatos. Por que ele tinha me escolhido? Eu era um homem marcado. Naquela tarde depois da escola eu caminhei apressado para casa, logo que a aula terminou, sem esperar por David. Não queria vê-lo apanhar novamente dos nossos colegas ou da sua mãe. Não queria ouvir o seu triste violino. Mas no dia seguinte, na hora do almoço, quando ele se sentou comigo, comi suas batatas fritas.
Meu dia chegou. Eu era alto e me sentia poderoso sobre a base. Não conseguia acreditar que eu jogasse tão mal quanto eles queriam me fazer crer. Girei meu bastão de modo desordenado, mas com muita força. Eu sabia que era forte e talvez, como eles mesmos diziam, “louco”. No entanto, tinha essa sensação de que havia algo verdadeiro acontecendo aqui dentro. Talvez fosse a merda endurecida, mas era mais do que qualquer um deles tinha. Eu estava a postos.
– Ei, é o REI DOS REBATEDORES! SR. CATA-VENTO!
A bola chegou. Girei e me senti ligado ao bastão como há muito tempo eu esperava que acontecesse. A bola subiu, subiu às alturas, em direção ao campo da esquerda, passando por sobre a cabeça do jogador que estava à esquerda. Seu nome era Don Brubaker, e ele ficou parado vendo a bola passar por sobre sua cabeça. Parecia que ela nunca mais voltaria a tocar a terra. Então Brubaker começou a correr atrás da bola. Ele queria me eliminar. Jamais conseguiu fazê-lo. A bola aterrissou e rolou para uma outra quadra onde jogavam os garotos da quinta série. Corri lentamente para a primeira base, bati no montinho, olhei para o cara que estava ali posicionado, avancei devagar até a segunda, toquei-a, corri até a terceira onde estava David, ignorei-o, bati na terceira e segui para a base final. Nunca houve dia igual. Nunca alguém da primeira série tinha feito um home run! Ao chegar de volta à posição inicial, ouvi um dos jogadores, Irving Bone, dizer ao capitão do time, Stanley Greenberg:
– Vamos colocá-lo no time titular. (O time titular enfrentava os times de outras escolas.)
– Não – disse Stanley Greenberg.
E ele estava certo. Nunca mais acertei um home run. Furava a maior parte do tempo. Mas sempre lhes vinha às mentes o home run daquele dia, e, embora ainda me odiassem, era uma forma melhor de ódio, um ódio que já não tinha um porquê.
A temporada de futebol americano foi pior. Jogávamos um futebol de toque[3]. Não me era permitido agarrar ou lançar a bola, mas mesmo assim entrei no jogo. Quando o corredor passou na minha frente, agarrei-o pelo colarinho e o joguei no chão. Quando começou a se levantar, o enchi de chutes. Não gostava dele. Era o cara da primeira base, o de vaselina no cabelo e pelos que saíam do nariz. Stanley Greenberg chegou. Ele era maior do que qualquer um de nós. Poderia ter me matado, se quisesse. Era nosso líder. A palavra final era sua. Ele me falou:
– Você não entende as regras. Basta de futebol pra você.
Fui encaminhado para o voleibol. Jogava com David e com os outros. Era uma chatice. Meus parceiros gritavam e urravam e ficavam eufóricos, mas os outros estavam jogando futebol. Eu queria jogar futebol. Só precisava de um pouco de prática. O voleibol era vergonhoso. Meninas jogavam voleibol. Depois de um certo tempo, eu já não jogava mais nada. Ficava apenas parado no meio do pátio onde ninguém estava jogando. Eu era o único que não praticava nenhum esporte. Eu ficava plantado lá, todos os dias, esperando os dois recreios passarem.
Um dia, quando eu estava ali parado, mais problemas apareceram. Uma bola de futebol me pegou desprevenido, atingindo em cheio a minha cabeça. O impacto me nocauteou. Fiquei bastante tonto. Eles se postaram ao meu redor, rindo e fazendo barulhos.
– Oh, vejam, Henry desmaiou! Henry desmaiou como uma donzelinha! Oh, vejam o Henry!
Levantei-me com o sol a girar. Então ele parou. O céu se aproximou e voltou para seu lugar. Era como estar numa jaula. Eles estavam ao meu redor, faces, narizes, bocas e olhos. Como estavam tirando um sarro da minha cara, concluí que tinham me atingido deliberadamente com a bola. Não era justo.
– Quem chutou a bola? – perguntei.
– Quer mesmo saber?
– Sim.
– O que vai fazer quando descobrir?
Fiquei quieto.
– Foi Billy Sherril – alguém disse.
Billy era um garoto gordo, enorme, mais simpático do que a maioria, mas nem por isso deixava de ser um deles. Segui na direção de Billy. Ele ficou parado no mesmo lugar. Quando me aproximei, ele se esquivou. Eu quase não percebi. Acertei-o na orelha esquerda, e quando ele colocou a mão sobre ela, lhe dei um golpe no estômago. Ele caiu no chão. E ali ficou.
– Levante e lute com ele, Billy – disse Stanley Greenberg.
Stanley ergueu Billy e o empurrou em minha direção. Dei-lhe um soco na boca, e ele a cobriu com as duas mãos.
– Certo – disse Stanley –, vou tomar o lugar dele!
Os garotos aplaudiram. Decidi correr, ainda não era minha hora de passar dessa para melhor. Mas então um professor apareceu.
– O que está acontecendo aqui?
Era o sr. Hall.
– Henry bateu no Billy – disse Stanley Greenberg.
– Foi isso mesmo, garotos? – perguntou o sr. Hall.
– Sim – responderam.
O sr. Hall me puxou pela orelha por todo o caminho até a sala do diretor. Forçou-me a sentar numa cadeira em frente a uma mesa vazia e então bateu à porta do diretor. Ficou lá dentro por um tempo considerável e então saiu sem olhar para mim. Fiquei ali sentado por uns cinco ou dez minutos antes que o diretor saísse e fosse ocupar o lado da mesa que estava vazio. Tratava-se de um homem com um aspecto bastante digno, com vastos cabelos grisalhos e uma gravata azul com um belo nó. Parecia um verdadeiro cavalheiro. Seu nome era sr. Knox. O sr. Knox cruzou os dedos e ficou me olhando, sem dizer nada. Quando começou a falar, porém, já não tive tanta certeza de sua cortesia. Seu objetivo parecia ser me humilhar, me tratar como os outros.
– Bem – ele disse por fim –, me conte o que aconteceu.
– Não aconteceu nada.
– Você machucou aquele garoto, Billy Sherril. Os pais dele vão querer saber por quê.
Não respondi.
– Acha que pode resolver seus problemas no braço quando acontece alguma coisa que não o agrada?
– Não.
– Então, por que fez isso?
Novamente me calei.
– Você se acha melhor do que as outras pessoas?
– Não.
O sr. Knox continuou sentado em seu lugar. Tinha um abridor de cartas muito comprido, que ele fazia rolar para lá e para cá sobre o feltro verde que cobria a mesa. Tinha também um enorme tinteiro verde e um porta-canetas com quatro delas dentro. Eu me perguntava se ele iria me bater.
– Diga logo: por que você fez isso?
Não respondi. O sr. Knox continuava movendo o abridor para lá e para cá. O telefone tocou. Ele atendeu.
– Alô? Oh, sra. Kirby? Ele o quê? Quê? Escute, será que a senhora não poderia lhe aplicar um castigo? Estou ocupado no momento. Está certo, eu lhe telefono assim que encerrar a questão com esse aqui...
Ele desligou. Com uma das mãos ele afastou uma mecha do seu belo cabelo branco que lhe caía sobre os olhos e me encarou.
– Por que você está me causando todo esse problema?
Não respondi.
– Você se acha durão, né?
Continuei em silêncio.
– Um garoto durão, né?
Uma mosca voava em círculos ao redor da mesa do sr. Knox. Começou a pairar sobre o tinteiro verde. Então ela pousou sobre a tampa negra do tinteiro e ficou ali sentada, esfregando as asas.
– Certo, garoto, você é durão, e eu sou durão. Vamos selar essa descoberta com um aperto de mãos.
Não me considerava um cara durão; por isso, recusei.
– Vamos, me dê sua mão.
Estendi minha mão e ele começou a balançá-la. Então ele parou o movimento e me encarou. Ele tinha olhos de um azul cristalino, ainda mais claros do que o azul da sua gravata. Seus olhos eram quase bonitos. Continuava me encarando e segurando minha mão. Seu aperto começou a ficar mais forte.
– Quero cumprimentá-lo por ser um cara durão.
Estreitou ainda mais o aperto.
– Acha que eu sou um cara durão?
Não respondi.
Esmagou os ossos dos meus dedos. Podia sentir os ossos de cada um dos dedos cortando a carne do dedo seguinte como uma lâmina afiada. Manchas vermelhas me turvaram a visão.
– E agora, me acha um cara durão? – ele perguntou.
– Vou matar você – eu disse.
– Vai o quê?
O sr. Knox apertou ainda mais sua pegada. Sua mão parecia um torno. Eu podia ver cada poro em seu rosto.
– Caras durões não gritam, não é?
Apertou até o limite. Tive que gritar, mas o fiz do modo mais silencioso possível, assim ninguém nas salas de aula poderia me ouvir.
– E agora, sou um cara durão?
Esperei. Era odioso dizer isso. Mas, afinal, deixei escapar:
– Sim.
O sr. Knox soltou minha mão. Tive medo de olhar para ela. Deixei que ela caísse ao lado de meu corpo. Percebi que a mosca tinha ido embora e não pude deixar de pensar que não era tão ruim ser uma mosca. O sr. Knox escrevia num pedaço de papel.
– Agora, Henry, estou escrevendo um bilhete para os seus pais e você vai entregá-lo. Vai entregar direitinho para eles, não vai?
– Sim.
Ele colocou o bilhete dentro de um envelope e me entregou. O envelope estava selado, e eu não tinha nenhum desejo de abri-lo.
– Misto-quente
1 234

A Morte Quer Mais Morte

a morte quer mais morte, e suas teias estão cheias:
lembro da garagem do meu pai, como de modo infantil
eu arrancaria os cadáveres das moscas
das janelas que lhes tinham parecido uma chance de fuga...
seus corpos endurecidos, feios, vibrantes
gritando como cães loucos e tolos contra os vidros
apenas para rodar e revoltear
naquele segundo mais longo que o céu e o inferno
limite dos limites,
e então a aranha vinda de seu buraco úmido
nervosa e exposta
a protuberância do corpo
ali balançando
ainda sem saber plenamente
e logo sabendo –
lançando seus fios,
a teia pegajosa,
em direção à fraca cortina de zumbido,
o pulsar;
um último movimento desesperado da perna peluda
lá, contra o vidro
lá, viva ao sol,
envolta em branco;
e quase como o amor:
a aproximação
o primeiro e silencioso sugar da aranha;
a pança cheia
aquela coisa que um dia esteve viva;
arrastando-se sobre as patas
sugando seu sangue garantido
enquanto o mundo segue seu rumo lá fora
e minhas têmporas gritam
e disparo a vassoura contra elas:
a aranha embotada em sua fúria de aranha
ainda pensando em sua presa
balançando uma surpreendente perna quebrada;
a mosca muito fixa,
uma mancha suja grudada ao fio de palha;
solto a assassina com um chacoalhar
e ela se move aleijada e ensandecida
em direção a um canto escuro
mas intercepto seu esforço vão
seu rastejar como uma heroína abatida,
e as palhas esmagam suas pernas
agora a ondular
sobre sua cabeça
sem deixar de buscar
o inimigo
de certa forma valente
a aranha morre sem dor aparente
arrastando-se para trás, com simplicidade
levando todos os pedaços
sem deixar nada por ali
até que por fim seu estômago se rompe
espalhando seu segredo,
e eu corro como uma criança
com a fúria de Deus em meus calcanhares,
de volta à pura luz do sol,
me perguntando
enquanto o mundo segue igual
com um sorriso torto
se alguém mais
viu ou percebeu o meu crime.
1 146

Poema de Amor Para Uma Stripper

50 anos atrás eu observava as garotas
rebolando e fazendo striptease
no Burbank e no Follies
e era muito triste
e muito dramático
e a luz mudava de verde para
roxo para rosa
e a música era alta e
vibrante,
agora sento aqui esta noite
fumando e bebendo
ouvindo música
clássica
mas ainda me lembro de alguns de
seus nomes: Darlene, Candy, Jeanette
e Rosalie.
Rosalie era a
melhor, sabia como fazer,
e nós girávamos em nossos assentos e
fazíamos barulhos
e Rosalie dava magia
para os solitários
tanto tempo atrás.
agora, Rosalie,
ou tão absolutamente velha ou
tão tranquila embaixo da
terra,
este é o garoto
com o rosto cheio de espinhas
que mentiu sobre sua
idade
apenas para ver
você.
você era boa, Rosalie,
em 1935,
boa o bastante para lembrar
agora
quando a luz é
amarela
e as noites são
lentas.
594

À Espera

verões escaldantes na metade dos anos 30 em Los Angeles
onde um de cada três lotes estava desocupado
e era um trajeto curto até as plantações
de laranja –
se você tivesse um carro e
gasolina.
verões escaldantes na metade dos anos 30 em Los Angeles
jovem demais pra ser um homem e velho demais pra ser
um garoto.
tempos difíceis.
um vizinho tentou assaltar nossa
casa, meu pai o pegou
entrando pela
janela,
manteve-o preso ali no escuro
junto ao chão:
“seu filho da puta de
merda!”
“Henry, Henry, me solta,
me solta!”
“seu filho da puta, eu vou
te matar!”
minha mãe ligou para a polícia.
outro vizinho colocou fogo na casa
numa tentativa de receber o
seguro.
acabou sendo investigado e
preso.
verões escaldantes na metade dos anos 30 em Los Angeles,
nada para fazer, nenhum lugar para ir, ouvindo
a conversa assustada de nossos pais
à noite:
“o que vamos fazer? o que vamos
fazer?”
“deus, não faço a menor ideia...”
cachorros famintos pelos becos, a pele tesa
as costelas marcadas, o pelo falhando, as línguas
expostas, aqueles olhos tão tristes, mais tristes que toda a tristeza
da Terra.
verões escaldantes na metade dos anos 30 em Los Angeles
os homens da vizinhança em silêncio
e as mulheres pálidas como
estátuas.
os parques cheios de socialistas,
comunistas, anarquistas, junto aos bancos do
parque, discursando, agitando.
o sol brilhava em meio a um céu aberto e
o oceano estava limpo
e nós não éramos
nem homens nem
garotos.
alimentávamos os cães com restos endurecidos de
pão
pelos quais ficavam muito agradecidos,
os olhos brilhando
maravilhados,
os rabos balançando diante de tanta
sorte
como
a Segunda Guerra Mundial veio em nossa direção,
assim mesmo, durante aqueles
verões escaldantes na metade dos anos 30 em Los Angeles.

Naquele verão, julho de 1934, metralharam John Dillinger na saída de um cinema em Chicago. Ele não teve nenhuma chance. A Dama de Vermelho[5] o alcaguetou. Mais de um ano atrás o sistema bancário havia entrado em colapso. A Lei Seca tinha sido revogada, e meu pai pôde voltar a beber a cerveja Eastside. Mas o pior de tudo foi Dillinger ter sido pego. Muitas pessoas o admiravam, e sua morte causou grande comoção. Roosevelt era o presidente. Ele mantinha um programa no rádio em que conversava informalmente e todos escutavam. Realmente sabia falar. E ele começou a criar programas de trabalho para as pessoas. Mas as coisas continuavam muito ruins. E minhas espinhas pioraram, tornando-se descomunais.
Naquele mês de setembro eu fui designado para a escola de ensino médio Woodheaven, mas meu pai insistiu para que eu fosse para a Chelsey.
– Olhe – eu disse –, Chelsey fica em outro bairro. É muito longe.
– Você vai fazer o que estou mandando. Vai se matricular na Chelsey.
Eu sabia por que meu pai desejava que eu fosse para Chelsey. As famílias ricas botavam seus filhos lá. Meu pai era louco. Continuava com o sonho de ser rico. Quando Carequinha descobriu que eu estava indo para Chelsey, decidiu ir para lá também. Não conseguia me livrar dele nem das minhas espinhas.
No primeiro dia, seguimos de bicicleta até Chelsey e as estacionamos. Era uma sensação horrível. Boa parte dos garotos, pelo menos os mais velhos, tinha seus próprios automóveis, muitos deles conversíveis novinhos, e eles não eram pretos ou azul-marinho como os carros normais, eram de cores vibrantes: amarelo, verde, laranja e vermelho. Os caras sentavam ali, do lado de fora da escola, e as garotas se juntavam ao redor deles, loucas por uma carona. Todos se vestiam bem, os garotos e as garotas, usavam pulôveres, relógios de pulso e sapatos bacanas. Pareciam bastante maduros e tinham um ar de superioridade. E lá estava eu, minha camisa feita em casa, meu único par de calças totalmente surrado, meus sapatos esbodegados e coberto de espinhas. Os caras em seus carros não se preocupavam com acne. Eles eram muito elegantes, altos e limpos, seus dentes brilhavam e seus cabelos não eram lavados com sabonete. Eles pareciam saber algo que me era inacessível. Mais uma vez, eu estava por baixo.
E uma vez que todos os caras tinham carros, Carequinha e eu nos envergonhávamos de nossas bicicletas. Acabamos por deixá-las em casa, indo e voltando a pé da escola, uma distância de quatro quilômetros na ida e outros quatro na volta. Carregávamos lancheiras marrons. Mas a maioria dos estudantes sequer comia na cafeteria da escola. Iam junto com as garotas até alguma lanchonete, colocavam as vitrolas para tocar e riam à vontade. Estavam a caminho da Universidade do Sul da Califórnia.
Eu tinha vergonha das minhas espinhas. Em Chelsey você podia escolher entre fazer educação física ou fazer o R.O.T.C.[6]. Escolhi o R.O.T.C. para não ter que usar um abrigo de ginástica que permitiria que todos vissem as espinhas que me cobriam o corpo. Mas eu odiava o uniforme. A camiseta era de lã, o que irritava minhas feridas. Usávamos o uniforme de segunda a quinta. Na sexta, deixavam que usássemos nossas roupas normais.
Estudávamos o Manual do Exército. Era sobre atividades militares e outras merdas desse tipo. Marchávamos ao redor do campo. Praticávamos o que estava no Manual. Segurar o rifle durante os vários exercícios era terrível para mim. Eu tinha espinhas nos ombros. Algumas vezes, quando batia o rifle contra o meu ombro, uma espinha estourava e escorria pela minha camiseta. Saía sangue, mas como a camiseta era grossa e feita de lã, a mancha não ficava visível e não se parecia com sangue.
Falei para minha mãe o que estava acontecendo. Ela costurou nos ombros um forro com tecido de algodão, mas isso só melhorou um pouquinho minha situação.
Uma vez um oficial veio fazer uma inspeção. Tomou o rifle das minhas mãos e o segurou, examinando o cano à procura de pó na parte interna do calibre. Atirou a arma de volta para mim, e então olhou para uma marca de sangue no meu ombro direito.
– Chinaski! – gritou. – Seu rifle está com um vazamento de óleo.
– Sim, senhor.
Concluí o trimestre, mas minhas espinhas tinham piorado ainda mais. Elas eram do tamanho de nozes e cobriam minha face. Eu sentia muita vergonha. Algumas vezes, em casa, eu parava em frente ao espelho do banheiro e estourava uma das espinhas. Pus amarelo espirrava no espelho. E então saía um pequeno caroço branco. De um ponto de vista escatológico, era fascinante que toda aquela porcaria pudesse caber ali dentro. Mas eu sabia como era difícil para as pessoas terem que me olhar.
A escola deve ter alertado meu pai. Ao final daquele trimestre, fui retirado da escola. Fiquei de cama e meus pais me cobriram de unguentos. Tinha uma pomada marrom que fedia. Era a preferida de meu pai. Queimava. Ele insistia para que eu a mantivesse no corpo, muito tempo além do que a bula indicava. Certa noite ele insistiu para que eu a deixasse agir por horas. Comecei a gritar. Corri para a banheira, enchia-a de água e removi a pomada, com dificuldade. Eu estava queimado no rosto, nas costas e no peito. Naquela noite me sentei na beirada da cama. Eu não conseguia me deitar.
Meu pai entrou no quarto.
– Acho que eu te disse para ficar com a pomada!
– Olhe o que aconteceu – eu falei.
Minha mãe entrou no quarto.
– Esse filho da puta não quer se curar – meu pai disse a ela. – O que foi que eu fiz para merecer um filho como esse?
Minha mãe perdeu o emprego. Meu pai continuava saindo todas as manhãs de carro como se estivesse indo trabalhar.
– Sou engenheiro – ele dizia às pessoas. Seu sonho era ter sido engenheiro.
Deu-se um jeito para que eu fosse internado no Hospital Geral do Condado de Los Angeles. Recebi um cartão branco comprido. Peguei o cartão e tomei o bonde da linha 7. A passagem custava sete centavos (ou quatro passes por um quarto de dólar). Guardei meu passe e fui me sentar no fundo. Tinha uma consulta às oito e meia.
Algumas quadras depois um garotinho e uma mulher entraram no bonde. A mulher era gorda, e o garotinho devia ter uns quatro anos de idade. Sentaram-se no banco atrás de mim. Olhei pela janela. Seguimos. Gostava da linha 7. Ia em alta velocidade e balançava bastante enquanto lá fora o sol brilhava.
– Mamãe – ouvi o garotinho perguntar –, o que há de errado no rosto daquele homem?
A mulher não respondeu.
O garoto voltou a fazer a mesma pergunta.
Ela não respondeu.
Então o garoto gritou:
– Mamãe! O que há de errado no rosto daquele homem?
– Cale a boca! Não sei o que há de errado com o rosto dele.
Dirigi-me à recepção do hospital e eles me encaminharam para o quarto andar. Lá, a enfermeira sentada à mesa anotou meu nome e me disse para eu esperar sentado. Ficávamos em duas longas filas de cadeiras verdes de metal, uma de frente para a outra. Mexicanos, brancos e negros. Não havia orientais. Não havia nada para ler. Alguns dos pacientes tinham jornais velhos. Havia pessoas de todas as idades, magras e gordas, velhas e jovens. Ninguém falava. Todos pareciam cansados. Os auxiliares passavam de lá para cá, de vez em quando se via uma enfermeira, mas nunca um médico. Passou-se uma hora, depois duas. Ninguém havia sido chamado. Levantei-me à procura de um bebedor. Olhei para as pequenas salas onde as pessoas seriam examinadas. Não havia ninguém em nenhuma delas, nem médicos, nem pacientes.
Fui até a mesa da enfermeira. Ela examinava um livro grosso, cheio de nomes escritos a mão. O telefone tocou. Ela atendeu.
– O dr. Menen ainda não chegou – e desligou.
– Com licença – eu disse.
– Sim? – perguntou a enfermeira.
– Os médicos ainda não chegaram. Posso voltar mais tarde?
– Não.
– Mas não há ninguém aqui.
– Os médicos estão atendendo.
– Mas eu tinha uma consulta às oito e meia.
– Todos aqui estão marcados para as oito e meia.
Havia entre 45 e cinquenta pessoas esperando.
– Já que estou na lista de espera, que tal se eu voltar daqui a algumas horas, talvez alguns médicos estejam aqui então.
– Se você sair agora, perderá automaticamente a sua consulta. Terá que retornar amanhã, se ainda quiser receber um tratamento.
Voltei até onde estavam as cadeiras e me sentei. Os outros não protestavam. Havia muito pouco movimento. Vez ou outra, duas ou três enfermeiras passavam caminhando e rindo. Noutra oportunidade, empurravam um homem numa cadeira de rodas. Suas pernas estavam completamente enfaixadas e sua orelha, no lado em que pude ver quando passou, havia sido arrancada. Havia um buraco negro, dividido em pequenas seções, e era como se uma aranha tivesse entrado ali e tecido sua teia. Horas se passaram. A hora do almoço veio e se foi. Outra hora passou. E então mais duas. Nós sentados, esperando. Então alguém disse:
– Lá vem um médico!
O médico entrou numa das salinhas e fechou a porta. Ficamos na expectativa. Nada. Uma enfermeira entrou. Escutamos uma risada. Então ela saiu. Cinco minutos. Dez minutos. O médico saiu com uma prancheta na mão.
– Martinez? – o médico chamou. – José Martinez?
Um mexicano, velho e magro, ficou de pé e caminhou na direção do médico.
– Martinez? Martinez, meu velho, como você está?
– Mal, doutor... Acho que vou morrer...
– Bem, agora... entre aqui...
Martinez ficou muito tempo lá dentro. Peguei um jornal que alguém havia deixado e tentei lê-lo. Mas todos pensávamos no destino de Martinez. Se Martinez chegasse um dia a sair dali, o próximo seria chamado.
Então Martinez gritou.
– AHHHHH! AHHHHH! PARE! PARE! AHHHH! TENHA PIEDADE! POR DEUS! PARE, POR FAVOR!
– Calma, calma, não é para tanto... – disse o médico.
Martinez voltou a gritar. Uma enfermeira entrou na salinha. Houve silêncio. Tudo que podíamos ver era a sombra da porta entreaberta. Então um auxiliar também correu para lá. Martinez emitiu um som que parecia um gorgulho. Foi removido numa cama com rodinhas. A enfermeira e o auxiliar o empurraram pelo corredor, fazendo-o passar por uma porta de vaivém. Martinez estava coberto por um lençol, mas ele não estava morto, pois o tecido não lhe cobria o rosto.
O médico ficou na sua sala por mais uns dez minutos. Então saiu com a prancheta.
– Jeferson Williams? – ele perguntou.
Não houve resposta.
– Jeferson Williams está aí?
Não houve reação.
– Mary Blackthorne?
Não houve resposta.
– Harry Lewis?
– Sim, doutor?
– Venha, por favor...
As consultas progrediam muito devagar. O médico examinou mais cinco pacientes. Então deixou a sala, parou junto à mesa da enfermeira, acendeu um cigarro e falou com ela por uns quinze minutos. Parecia ser um homem muito inteligente. Tinha um tique no lado direito da face, que ficava se contraindo. Seu cabelo era ruivo com algumas mechas grisalhas. Usava óculos que ficava pondo e tirando o tempo todo. Outra enfermeira apareceu e lhe serviu uma xícara de café. Tomou um gole, e então, segurando o café numa das mãos, com a outra empurrou a porta vaivém e desapareceu.
A enfermeira se levantou da mesa com nossos longos cartões brancos e chamou por nossos nomes. À medida que íamos respondendo, ela nos devolvia os cartões.
– O expediente de hoje terminou. Por favor, retornem amanhã, se quiserem. O horário de sua consulta está marcado no cartão.
Olhei para o meu. Estava escrito oito e meia da manhã.
– Misto-quente

Era como uma broca para madeira, poderia ser mesmo uma broca para madeira, eu podia sentir o fedor do óleo queimando, e eles enfiavam aquela coisa na minha cabeça e na minha carne, e a broca perfurava e saía sangue e pus e eu ficava lá sentado, vagando sobre a corda bamba, à beira de um precipício. Eu estava coberto de espinhas monstruosas do tamanho de pequenas maçãs.
Era ridículo e inacreditável.
– O pior caso que já vi – disse um dos médicos, e olha que ele era velho.
Eles se reuniam ao redor de mim como se eu fosse uma aberração.
Eu era uma aberração. Ainda sou uma aberração. Andava de bonde, indo e vindo da ala de caridade do hospital. As crianças no bonde me olhavam e perguntavam a suas mães:
– O que há de errado com aquele homem? Mãe, o que há de errado com a cara daquele homem?
E a mãe fazia:
– PSSSIIIIT!!!
Aquele psit era a pior das condenações, e depois daquilo elas deixavam que os pequenos cretinos e cretininhas me encarassem por sobre os encostos de seus assentos, e eu olhava pela janela e observava os prédios passando e me afogava, eu estava rastejando e me afogando, não havia nada a fazer. Os médicos, por não saberem como chamar o que eu tinha, chamavam de Acne vulgaris. Ficava sentado por horas em um banco de madeira enquanto esperava por minha broca de madeira. Que história triste, né? Lembro-me dos prédios velhos de tijolos, das enfermeiras calmas e descansadas, dos médicos rindo, enquanto faziam aquela coisa. Foi ali que aprendi sobre a falácia dos hospitais... que os médicos eram reis e os pacientes eram merda e os hospitais estavam lá para que os médicos pudessem desfilar toda a sua vigorosa e branca superioridade, além de poderem trepar com as enfermeiras: – Doutor, doutor, doutor, aperta a minha bunda no elevador, esqueça o fedor do câncer, esqueça o fedor da vida. Não somos pobres idiotas, nunca morreremos; bebemos nosso suco de cenoura e, quando nos sentimos mal, podemos tomar um remédio, uma injeção, toda a droga de que precisamos está ao nosso alcance. Pio, pio, pio, a vida cantará para nós, somos as estrelas do momento. Eu entrava e sentava, e eles enfiavam a furadeira em mim. ZIRRRR ZIRRRR ZIRRRR, ZIR, o sol, enquanto isso, cultivando dálias e laranjas e brilhando através dos vestidos das enfermeiras, enlouquecendo ainda mais as pobres aberrações. Zirrrrrrr, zirrrr, zirr.
– Nunca vi ninguém suportar a broca desse jeito!
– Olhem para ele, frio como aço!
Mais uma vez uma reunião de comedores de enfermeiras, uma reunião de homens que tinham casas grandes e tempo para rir e ler e ir ao teatro e comprar pinturas e esquecer como pensar, esquecer como sentir qualquer coisa. Jalecos engomados e a minha derrota. A reunião.
– Como você se sente?
– Maravilhoso.
– Não acha que a agulha machuca um pouco?
– Vá se foder.
– Como?
– Mandei você se foder.
– É apenas um garoto. Um garoto amargo. Não podemos culpá-lo. Quantos anos você tem?
– Catorze.
– Estava apenas elogiando a sua coragem, a forma como suportou a agulha. Você é durão.
– Vá se foder.
– Não pode falar assim comigo.
– Foda-se. Foda-se. Foda-se.
– Você devia se manter mais positivo. Imagina se você fosse cego?
– Então não precisaria olhar para sua cara estúpida.
– O garoto é louco.
– Claro que ele é, deixem-no em paz.
Esse era um hospital qualquer, e não imaginei que voltaria lá vinte anos mais tarde, novamente para a ala de caridade. Hospitais e prisões e prostíbulos: eis as universidades da vida. Eu já recebera vários títulos dessas instituições. Exigia ser tratado por senhor.
– Ao sul de lugar nenhum

A máquina de raios ultravioleta emitiu um clique e se apagou. Eu havia recebido tratamento nos dois lados. Retirei os óculos protetores e comecei a me vestir. A srta. Ackerman entrou na sala.
– Ainda não – ela disse –, fique sem roupa.
O que ela ia fazer comigo?, pensei.
– Sente-se na ponta da mesa.
Sentei-me ali, e ela começou a esfregar um unguento no meu rosto. Era uma substância grossa e com textura semelhante à de manteiga.
– Os médicos decidiram tentar um novo tratamento. Vamos enfaixar seu rosto para tornar a drenagem mais efetiva.
– Srta. Ackerman, o que aconteceu com o homem do nariz grande? O nariz continuou crescendo?
– O sr. Sleeth?
– O homem do narigão.
– Era o sr. Sleeth.
– Não o vejo mais por aqui. Ele conseguiu se curar?
– Morreu.
– Você quer dizer que ele morreu por causa do nariz?
– Suicídio.
A srta. Ackerman continuou a aplicar o unguento.
Então escutei um homem gritar na sala ao lado:
– Joe, cadê você? Joe, você disse que voltaria! Joe, cadê você?
A voz era alta e muito triste, cheia de agonia.
– Ele fez isso durante todas as tardes desta semana – disse a srta. Ackerman – e nada do Joe aparecer para buscá-lo.
– Eles podem ajudá-lo?
– Não sei. Finalmente ficaram quietos. Agora ponha o dedo aqui e segure esta gaze enquanto eu o enfaixo. Isso. Assim. É isso. Pode tirar o dedo. Muito bem.
– Joe, Joe, você disse que ia voltar! Onde você está, Joe?
– Agora segure também esta outra gaze. Isso. Segure bem. Vou enfaixar você bem direitinho! Isso. Falta só fazer os curativos.
Logo seu trabalho estava acabado.
– Ok, ponha suas roupas. Vejo você depois de amanhã. Até mais, Henry.
– Até mais, srta. Ackerman.
Pus uma roupa, deixei o quarto e caminhei pelo corredor. Havia um espelho junto à máquina de cigarros no saguão. Olhei para meu reflexo. Era genial. A minha cabeça estava inteiramente enfaixada. Eu estava todo branco. Não se podia ver nada além de meus olhos, minha boca e minhas orelhas, e alguns tufos de cabelo no topo da minha cabeça. Eu tinha sido ocultado. Era maravilhoso. Fiquei ali e acendi um cigarro, dei uma olhada no saguão. Alguns internos estavam sentados, lendo jornais e revistas. Senti-me extraordinário e também um pouco diabólico. Ninguém tinha a mais vaga ideia do que acontecera comigo. Um acidente de carro. Uma briga até a morte. Um assassinato. Fogo. Ninguém sabia.
Caminhei pelo saguão e para fora do prédio e fiquei plantado na calçada. Ainda podia ouvir:
– Joe! Joe! Cadê você, Joe?
Joe não ia vir. Não valia a pena confiar em nenhum outro ser humano. O que quer que fosse preciso para estabelecer essa confiança não estava presente na humanidade.
Na volta, no bonde, sentei no fundo, fumando cigarros pelo buraco da boca em minha cabeça enfaixada. As pessoas me olhavam, mas eu não dava a mínima. Havia mais medo do que horror em seus olhos. Desejei permanecer assim para sempre.
Segui até o final da linha e desci. A tarde caía e fiquei na esquina da avenida Washington com a Westview, observando as pessoas. Os poucos que tinham emprego voltavam para casa após a jornada de trabalho. Logo meu pai chegaria de carro do seu falso emprego. Eu não tinha emprego nem ia à escola. Eu não fazia nada. Estava enfaixado, parado numa esquina fumando um cigarro. Eu era um cara durão, um cara perigoso. Eu sabia das coisas. Sleeth tinha se suicidado. Eu não iria me suicidar. Preferia matar alguns deles. Levaria quatro ou cinco deles comigo. Ia mostrar para aquela corja o que significava me fazerem de palhaço.
Uma mulher veio andando pela rua em minha direção. Tinha pernas espetaculares. Primeiro, olhei diretamente em seus olhos e então me fixei em suas pernas. Assim que ela passou, fiquei olhando seu rabo, absorvendo cada detalhe daquele rabo maravilhoso, memorizando, guardando inclusive as costuras de suas meias de seda.
Jamais poderia ter feito isso sem minhas bandagens.
As bandagens ajudaram. O Hospital Geral do Condado de Los Angeles finalmente conseguira alguma coisa. As espinhas secaram. Elas não haviam desaparecido, mas diminuíram um pouco de tamanho. Ainda assim, novas surgiriam, erguendo-se outra vez. Novamente me furaram e me enfaixaram.
Minhas sessões de drenagem eram intermináveis. Trinta e duas, 36, 38 vezes. O medo das agulhas se fora, se é que um dia o tivera. Havia apenas a raiva, mas esta também havia desaparecido. Não havia sequer resignação da minha parte, apenas desgosto, um desgosto profundo por isso ter acontecido comigo, e um desgosto com os médicos que não podiam fazer nada a respeito. Estavam impotentes diante das feridas, assim como eu. A diferença é que eu era a vítima. Eles podiam ir para suas casas e viver suas vidas e esquecer, enquanto eu estava condenado a carregar este rosto comigo aonde quer que eu fosse.
Aconteceram, no entanto, mudanças na minha vida. Meu pai arrumou um emprego. Passou no concurso para guarda do Museu do Condado de Los Angeles. Meu pai era bom em concursos. Adorava matemática e história. Passou no concurso e finalmente arrumou um lugar de verdade para ir todas as manhãs. Havia três vagas para guarda e ele conquistou uma delas.
O Hospital Geral do Condado de Los Angeles de alguma forma descobriu sobre meu pai, e a srta. Ackerman me disse um dia:
– Henry, este será seu último tratamento. Vou sentir sua falta.
– Ah, corta essa – eu disse –, pare com essa brincadeira. Você vai sentir a minha falta tanto quanto eu vou sentir falta dessas agulhas elétricas!
Ela, porém, estava bastante estranha naquele dia. Aqueles olhos enormes estavam marejados. Escutei quando assoou o nariz. Uma das enfermeiras lhe perguntou:
– O que há, Janice? O que há de errado com você?
– Nada. Estou bem.
Pobre srta. Ackerman. Eu tinha quinze anos e estava apaixonado por ela e eu estava coberto de espinhas e não havia nada que nós dois pudéssemos fazer.
– Vamos – ela disse –, este vai ser seu último tratamento com os raios ultravioleta. Deite-se de bruços.
– Agora já sei o seu primeiro nome – eu disse. – Janice. É um nome bonito. Assim como você.
– Oh, fique quieto – ela disse.
Ainda a vi mais uma vez quando o primeiro zumbido soou. Eu me virei, Janice reajustou a máquina e deixou a sala. Jamais voltei a vê-la.
Meu pai não acreditava em médicos que não fossem de graça.
– Eles fazem você mijar num tubo, levam seu dinheiro e vão para casa para ficar ao lado de suas esposas em Beverly Hills – ele disse.
Uma vez, contudo, ele me mandou até um. Era um médico com mau hálito e a cabeça redonda como uma bola de basquete. A diferença é que ele tinha dois olhinhos onde uma bola de basquete não teria nenhum. Eu não gostava do meu pai, e o médico não era muito melhor. Ele disse, nada de frituras, e beba suco de cenoura. E foi isso.
Eu retornaria para a escola no próximo trimestre, disse meu pai.
– Estou arriscando meu rabo para evitar que as pessoas roubem. Ontem um negro quebrou o vidro de uma caixa e roubou algumas moedas raras. Peguei o desgraçado. Rolamos juntos escada abaixo. Dei um jeito de segurá-lo até que os outros chegassem. Arrisco minha vida todos os dias. Por que é que você poderia ficar aí sem mexer o seu rabo, deprimido? Quero que você seja um engenheiro. Como, diabos, você vai ser um engenheiro se eu encontro um caderno cheio de desenhos de mulheres com as saias arriadas até a altura da bunda? Isso é tudo o que você é capaz de desenhar? Por que você não desenha flores ou montanhas ou o oceano? Você vai voltar para a escola!
Eu bebia suco de cenoura, esperando pelo momento de ser rematriculado. Eu tinha perdido apenas um trimestre. As espinhas não estavam curadas, mas já não estavam tão terríveis quanto antes.
– Misto-quente
1 444

Sapatos

quando você é jovem
um par de
sapatos de salto alto
femininos
simplesmente parados
sozinhos
no armário
podem incendiar os seus
ossos;
quando você é velho
é só
um par de sapatos
sem
ninguém
dentro
e
dá no
mesmo.
1 192

Citações

2

Obras

11

Videos

50

Comentários (1)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.
Mário Quintana
Mário Quintana

Mário Quintana