Escritas

Lista de Poemas

Trabalhando

ah, aquele tempo em que eu
as botava
pra dentro e pra fora do meu
apartamento miserável.

meu deus, eu era uma coisa
peluda e
feiosa.

e eu encurralava
todas elas nas
molas

mandando
ver

eu era o insano
macaco bêbado
numa vizinhança
triste e
moribunda.

mas o mais estranho
de tudo
eram as
novas e contínuas
chegadas:

era um
desfile
feminino
e
eu exultava
me pavoneava e
atacava.

mal fazendo
ideia
do
significado
daquilo.

era um
inesquecível
quarto
pintado de um estranho
azul.

e
a maioria das
damas
ia embora pouco antes do
meio-dia

mais ou menos na hora
em que o carteiro
chegava.

ele conversou comigo
um dia, “meu deus,
cara, onde você
arranja todas elas?”

“não sei”, eu
respondi.

“me desculpa”, ele
prosseguiu, “mas você não
parece exatamente
um presente de Deus às
mulheres, como você
consegue?”

“não sei”,
eu disse.

e era
verdade: simplesmente
acontecia e eu
ia em frente

no meu quarto
azul
com a
melhor toalha de mesa
de renda
da minha mãe morta
fixada
por cima da
janela.

eu era um
puta
idiota.
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A Festa Acabou

depois que você arrancou a toalha de mesa com
os pratos cheios de comida
e quebrou as janelas
e tirou a máscara dos
idiotas
e falou verdadeiras e terríveis
palavras
e
enxotou a turba porta
afora –
aí vem o grande e
sereno momento: você se senta sozinho
e
serve aquela quieta dose.

o mundo é melhor sem
eles.

só as plantas e os animais são
verdadeiros camaradas.

eu bebo à saúde deles e com
eles.

eles esperam enquanto encho seus
copos.
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Máquina Mágica

eu gostava dos discos velhos que
arranhavam
conforme a agulha deslizava por
sulcos bastante
gastos
você ouvia a voz
saindo do
alto-falante
como se houvesse uma pessoa
dentro daquela
caixa
de mogno

mas você só escutava enquanto
seus pais não estavam
em casa.
e se você não desse corda
na vitrola
ela desacelerava gradualmente e
parava.

era melhor nos fins de
tarde
e os discos falavam
de
amor.
amor, amor, amor.
alguns dos discos tinham
lindos rótulos
roxos,
outros eram laranja, verdes,
amarelos, vermelhos, azuis.
a vitrola tinha pertencido ao
meu avô
e ele tinha escutado aqueles
mesmos
discos.
e agora eu era um garoto
e
os escutava.
e nada em que eu conseguisse pensar
na minha vida naquele tempo
parecia ser melhor do que ouvir
aquela
vitrola
quando meus pais não estavam
em casa.
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Usando a Coleira

moro com uma dama e quatro gatos
e há certos dias em que todos nos damos
bem.

há certos dias em que tenho problemas com
um dos
gatos.

há outros dias em que tenho problemas com
dois dos
gatos.

outros dias,
três.

há certos dias em que tenho problemas com
todos os quatro
gatos

e a
dama:

dez olhos me fitando
como se eu fosse um cachorro.
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Eu Provo As Cinzas da Sua Morte

as florações agitam
água súbita
por minha manga,
água súbita
fresca e limpa
como neve –
enquanto as espadas
de caules afiados
avançam
contra seu peito
e as doces selvagens
rochas
saltam por cima
e
nos prendem.
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O Que Não Mata...

a queixa é muitas vezes o resultado de uma insuficiente
capacidade
de viver dentro
das óbvias restrições desta
maldita gaiola.
a queixa é uma deficiência comum
mais prevalente do que as
hemorroidas
e quando as escritoras atiram seus sapatos pontudos
em mim
choramingando que
seus poemas jamais serão
promulgados
tudo que posso lhes dizer
é
me mostrem mais perna
me mostrem mais bunda –
isso é tudo que vocês têm (ou eu tenho)
enquanto
dura

e por causa dessa comum e óbvia verdade
elas berram na minha cara:
SEXISTA PORCO FILHO DA PUTA!

como se isso fosse mudar o modo como as árvores frutíferas
deixam cair suas frutas
ou o oceano traz à praia o pó e
os esporos mortos do Império
Greciano

mas não sinto mágoa nenhuma por ser chamado de algo
que
não sou;
na verdade, é arrebatador, de certo modo, como uma boa
massagem nas costas
numa noite congelante
atrás do teleférico de esqui em
Aspen.
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Um Gato É Um Gato É Um Gato É Um Gato

ela está assobiando e batendo palma
para os gatos
às 2 da manhã
enquanto fico aqui sentado
com meu vinho e meu
Beethoven.

“estão só rondando”, eu
digo a ela...

Beethoven chocalha seus ossos,
majestoso

e os malditos gatos
não estão nem se lixando
para
nada disso

e
caso se lixassem
eu não gostaria deles
tanto
assim:

as coisas começam a perder seu
valor natural
quando vão se aproximando
da empreitada
humana.

nada contra
Beethoven:
ele foi ótimo
sendo o que
era

mas eu nunca ia querer
Beethoven
no meu tapete
com uma perna
por cima da cabeça
enquanto
ficava
lambendo
o saco.
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Quente

há fogo nos dedos e há fogo nos sapatos e há
fogo em atravessar uma sala
há fogo nos olhos do gato e há fogo nas bolas
do gato
e o relógio de pulso rasteja como cobra pela parte de trás da
cômoda
e a geladeira contém 9.000 sonhos congelados e picantes
e enquanto ouço as sinfonias de compositores mortos
sou consumido por uma alegre tristeza
há fogo nas paredes
e as lesmas no jardim só querem amor
e há fogo nas pragas daninhas
estamos ardendo ardendo ardendo
há fogo num copo d’água
os túmulos da Índia sorriem como enamorados filhos da mãe
as fiscais de estacionamento choram sozinhas à uma da manhã nas noites chuvosas
há fogo nas rachaduras das calçadas
e
durante a noite toda enquanto fiquei bebendo e datilografando estes
onze ou doze poemas
a energia elétrica ficou caindo e voltando
tem um vento feroz lá fora
e entre as quedas e as voltas
fiquei sentado aqui no escuro
máquina elétrica (haha) desligada luzes apagadas rádio desligado
bebendo no escuro
acendendo cigarros no escuro
saía fogo dos fósforos
estamos todos ardendo juntos
irmãos e irmãs ardentes
eu gosto eu gosto eu gosto
disso.
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Obrigado

alguns querem que eu continue a escrever sobre putas e
vômito.

outros dizem que esse tipo de coisa os
enoja.

bem, não sinto falta das
putas

embora de vez em quando uma ou outra
tente me
localizar.

não sei se elas sentem falta de todos os tragos e
da pouca grana que lhes dei

ou se elas ficam encantadas com o modo
como eu as imortalizei na
literatura.

seja como for, agora precisam se virar com
quaisquer homens
que elas conseguirem
explorar.

– as pobrezinhas não faziam
ideia...

e tampouco fazia eu
de que aquelas infames noites barulhentas
virariam um suprimento barato
que nem mesmo
Dostoiévski
teria o pudor de
não usar.
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Quieto

sentado esta noite
a esta
mesa
junto à
janela

a mulher está
acabrunhada
no
quarto

ela está em seus
dias especialmente
ruins.

bem, eu tenho
os meus

então
em deferência
a ela

a máquina de escrever
está
parada.

é esquisito
imprimir este troço
à
mão

me faz lembrar os
tempos
passados
quando as coisas
não
iam bem
de outra
maneira.

agora
o gato vem
me
ver

ele desaba
sob a mesa
entre os meus
pés

estamos ambos
derretendo
no mesmo
fogo.

e, querido
gato, ainda estamos
trabalhando com o
poema

e alguns
notaram
que há certa
“derrapagem”
aqui.

bem, aos 65
anos de idade eu posso
“derrapar”
à vontade e mesmo assim
deixar esses
críticos piegas
comendo
poeira.

Li Po sabia
o que fazer:
beber mais uma
garrafa e
enfrentar
as consequências.

eu me viro à minha
direita, vejo uma cabeça
enorme (refletida na
janela) sugando
um cigarro
e

nós arreganhamos os dentes
um para o
outro.


me viro
de volta

fico aqui sentado
e
imprimo mais palavras sobre este
papel

não há nunca
uma derradeira
declaração
grandiosa

e esse é o
dilema
o embuste
que trabalha
contra
nós

mas
eu queria que você pudesse ver
o meu
gato

ele tem uma
pincelada
de branco em seu
rosto
contra um
fundo
amarelo-laranja

e aí
eu levanto a cabeça
e olho cozinha
adentro

vejo uma porção
brilhante
sob a luz
no alto

que se dissolve aos poucos em
escuridão
e depois numa escuridão
mais escura e
mais além não consigo
ver
nada.
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Mário Quintana
Mário Quintana
2025-02-15

Mário Quintana