Escritas

Lista de Poemas

Na Solidão Renovada

Com os dentes.
Sem música,
sem água.

Reptilmente.
*
Na folha do instante
nenhum galo
ainda
canta.
*
Caminho no país do sono lúcido.
A pedra nos olhos. Um olho de pedra.
Minha cabeça de encontro ao sol do chão.
*
Junto do tronco o texto organizava-se. Todas as palavras eram brancas. Era o silêncio para sempre aqui — a primeira folha aberta. O dia, a terra, o meu corpo — um só corpo.
*
Sentados sobre um tronco, sob as silenciosas copas. A energia do verde em torno acende-nos. É um fogo verde que estala nos corpos. Uma chama verde com duas bocas.
*
Este grande bloco sem lábios. Um dia múltiplo, um só dia vazio, e esta mão que vai talvez desenhar a manhã, sulcar o deserto infatigável, abrir o subterrâneo mortal.
*
Regressas aos teus primeiros lábios. É necessária essa palavra de terra ainda molhada, para que acordes. Atravessaste a sombra desse dia opaco e baixo, até ao extremo delírio do deserto. Não temos casa ainda e alguns de nós se apagarão sem a esperança da manhã. Mas a frente é comum na solidão renovada.
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Um Ponto

Um ponto — talvez um centro
em permanência de tranquilidade
para a noite inteira. Um ponto
extremo, interno. Um pequeníssimo ponto
invulnerável
de estabilidade total
— nascido como? — fruto do espaço limpo,
de aberta aderência nua ao ar,
de constância livre, desocupada,
do descanso de ser até ao fundo simples,
de completa entrega?

Um ponto nu inabitado branco
de intocável serenidade,
fixo como um nervo e imponderável,
de fim inicial,
ponto de respiração,
clareira de estar,
abertura central viva,
praia de ser e nada
— mas apenas um ponto, um puro ponto
contra a noite inteira,
contra o frio,
contra a destruição.

Ponto de união
de paz coextensa à noite,
opaco e diáfano nó
do desenlace perfeito.

Nó de água
da água mais nua.
Ninho interno do espaço.
Pequena lua essencial
num horizonte de segura paz.

Ponto, em ti descanso,
certeza do mundo e de mim
em ti, dentro da noite,
atinjo o equilíbrio actual e puro.
Ponto, antes do início,
de ti a ti, em mim,
pulsação lisa e leve,
suave motor da terra,
a pacífica respiração do oásis.

Ponto
de universo fixado
onde atingi a consistência dócil
de permanecer entregue,
plenitude abrigada
na navegação nocturna.

Um ponto vazio,
plenamente vazio.
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Viste o Cavalo Varado a Uma Varanda?

Viste o cavalo varado a uma varanda?
Era verde, azul e negro e sobretudo negro.
Sem assombro, vivo da cor, arco-íris quase.
E o aroma do estábulo penetrando a noite.

Doutra margem ascendia outro astro
como uma lua nua ou como um sol suave
e o cavalo varado abria a noite inteira
ao aroma de Junho, aos cravos e aos dentes.

Uma língua de sabor para ficar na sombra
de todo um verão feliz e de uma sombra de água.
Viste o cavalo varado e toda a noite ouviste
o tambor do silêncio marcar a tua força

e tudo em ti jazia na noite do cavalo.
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O Mesmo E Outro Chão

Outra mão será
a mesma magra e húmida
que apertas sobre o chão.

Outro corpo será
que treme e se sustém
até ao chão de lâmina.

Outros olhos verás,
estes mesmos vorazes,
magros sobre o chão.

Outras mãos me darás,
tão duras, resistentes,
de um chão a que não chegas.

Estas mãos, outras mãos,
minhas mãos, tuas mãos,
tão duras e tão quentes.

Percorrem outro chão,
sobre o chão do teu corpo,
percorrem outro chão,
no mesmo chão dos corpos.

Estes olhos que ficam
são os olhos que voltam
do chão dos nossos corpos
e que ao chão já não voltam.

Outro chão acharás
do chão em que caíste
por outro subirás
até onde caíste.

Estes olhos que ficam
são os olhos que voltam,
por este chão agora
os teus olhos se voltam.

Oh, nenhum chão se ganha
que não seja o das mãos
que se desprendem, prendem
às mãos do chão que fogem.
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O Arco, E Logo, a Folha Alta

O arco, e logo, a folha alta,
o dia. O espaço,
o silêncio, um bloco transparente.
A casa vive o que eu escrevo,
e a margem branca (intransponível)
é o corpo que eu não sei,
vivo na claridade.

Um corpo, digo, não um cristal.
Que permanece, ainda que eu hesite
ou falhe, ou recomece. E longamente
se abre, no dia, o arco, e a mão que o perde.

Só uma distância, ou o desejo, o quer.
Mas onde e quando, enquanto existe?
A vulnerada folha não o rasga.
O corpo, no horizonte, dura, intacto.
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O Caminho Que Se Abre E Que Se Perde

Quando te acariciamos,
quando nos acaricias,
água das folhas, ar
que nos respiras
— que água de caminho breve
em nós se perde?

Que clara palavra
abre o espaço
a este puro caminho
que nos precede?
*
Caminho branco,
sempre o teu solo se perde.

Caminho que se abre,
flecha viva.
Não deixa rastro.
Sua face perdida
é esta:
a sede do ar.
*
Quando o percorro — e ele me percorre
o corpo se renova.
Como o sei eu se um intervalo se forma
onde ele se move
e o seu começo é o seu fim?
Antes da palavra se inicia e acaba,
caminho branco,
prestes a começar sempre,
sem que nunca comece e sempre inicial.
Depois da palavra e antes dela,
flecha viva,
o teu espaço é mortal.
Escrever é perseguir
teu invisível voo
prolongando o túmulo do ar.
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Até Onde Ou de Onde o Olhar Se Perde

Inesperada e lenta
como sem esforço, lenta
a folha no seu espaço
sem mais que a luz, e verde,
se limita, própria, e se repete
em ramos negros.
No meio o tronco, mas
a seiva não se verte (nem se sente).

Um pouco mais distante é a onda da folhagem,
mais do que as folhas e não um verde espaço,
mas um volume denso e leve,
que nada diz ainda
e vem e vai,
alheio e próximo, e mais alheio
que próximo.

Ou são palavras que tremulam,
ou o visível silêncio
no extremo olhar que não se diz.

Mas se nem próximas nem alheias são
nesse vai-vem tão lento
mais do que a solidão do seu silêncio
algo serão. Quase. Iminentes
na lentidão.

Uma folha? Não.
Nem o seu espaço, nem
o seu contorno nítido.
Só o volume verde escuro,
sem forma quase
e sem distância ou horizonte.

Demasiado perto ou longe.
Um murmúrio de ameaça?
O que dizer? Como
mudar o espaço do olhar?

Digo: a sombra verde.
Será silêncio ou puro ruído?
Não há espaço nem olhar.

Uma folhagem alheia, escura
e sua sombra de ameaça.

Um fogo verde — um tigre?
Que animal me chama?
É desta sombra próxima, longínqua,
que a linguagem surge. E o meu olhar.
O corpo se abre sobre a boca escura.

Eu não sei onde. Mas
se a linguagem surge, é esta
casa, este dia, este corpo
que vos fala? Este o lugar?

Contra o silêncio e o rumor,
nos seus limites a folhagem
tornou-se a árvore, não vista mas a ver-se.
Ou talvez apenas um tremor estremece?

Se a linguagem surge, a árvore vive,
olhar e espaço se reúnem,
se eu vejo a árvore viva
a linguagem surge,
ou só vive a linguagem,
só vive o tremor destas palavras,
só este espaço treme?

Ou o espaço se abre e sou eu que tremo
de um esplendor entrevisto?
Ou o vácuo audível?
Onde estou? Só o tremor
do desejo e eu?
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O Calor Dos Campos E da Cor Em Ti, Cavalo,

O calor dos campos e da cor em ti, cavalo,
e em mim o muro quente e a força do teu nome.
Não espero mas aceito a tua marcha
como quem navega no campo dessas cores.

Tua abrasada língua, teus olhos sem antolhos,
correm a liberdade dos campos sem a névoa,
relinchas do prazer de ser cavalo
(e não o sabes)

e aqui me tens numa linguagem árida
e tensa. Para que me arrebates ainda mais que nunca
sempre com a paz do teu campo de cores
e a grande paz da força, tua boca descoberta,

sempre a alertar-me em palavras que são brasas
ou cinza ainda cálida do papel, destas formas
do meu amor da liberdade e do vigor
da vontade inteira em mim, cavalo.
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Não Que Dance, a Folha

Não que dance, a folha
que dirias contra
a noite. Não que a febre
um incêndio pelo pulso alastre
até à terra obscura. Nada,
esta ligeireza simples, estas palavras
ninguém as grita. Espero que
a sombra de outro corpo ao meu
as dei. Um canto
que eu não sei se
as move, ou outro espaço
mas só a sombra
delas.

Antes, depois, já,
quando, um frémito feliz
as traça, o nó
desata, outras minhas
no intervalo que abrem
cessam,
quando, e sem porquê.
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Como Se Fora Este o Espaço

Como se fora este o espaço
por habitar
ah não é aqui que se constrói
a madeira e a pedra
ligam-se externamente noutro espaço
Como se fora aqui aqui começo
nada ou só o que desejo e perco

a folha branca sem o vento
e sem a pedra
que sobre a pedra se levanta
num externo esforço além deste começo

Como se fora aqui ó que figura
que branco e nulo vento enfuna
aqui me abro onde não sei se alguma
palavra viva vem ou pobre duna

Aqui seria o rosto o espaço o lento
menear de uma sombra a forma de
um corpo se mover
oco de ser
e o desejo no centro o tempo e a ânsia
a pausa justa de encontrar o termo
o intervalo do sorriso e a rua
aniquilada e viva com o rosto

Como se fora aqui aqui começo
Aqui procuro o gesto de encontrar
onde a procura é febre jovem pressa
a cidade se inclina por um tornozelo lúcido
rodopia a palavra que num lance se espera
o pulso livre martela a luz das têmporas
uma lâmina de água ondula no silêncio
a cidade transpira num corpo desnudado
por uma fenda vivíssima o espaço se ilumina
o poema atravessa o vidro do instante

Aqui encontro a chama adormecida errante

Como se fora aqui aqui começo
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Comentários (10)

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ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2025-08-09

Muito belo este este homem , que esperou e tentou mudar sua vida e se transformou mais leve que sua sombra.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-27

Como já anotei; conheci o poeta António Ramos Rosa, já no outono da sua vida, indo a minha num aproximar-se do mesmo tempo natural. Tempo em que já não fumava, mas gostava da bica e do queque, sempre antes, em um amável sorriso, fazia o gesto de que alguém pagasse, aliás, era de um "espírito franciscano, em muitas dimensões". Lembro a nossa ida ao café, ele sorrindo e falando baixo, sobe o sua barba branca, imperfeitamente, aparada. Sentado, escolhia uma conversa de informação e gostava, muitas vezes de contar a história do nome "queque" para o bolo que mais gostava. Era de uma atmosfera serena simples "e vegetal" o pouco tempo da sua companhia.

Luis Rodrigues
Luis Rodrigues
2022-10-26

Obrigado pela contribuição, irei arranjar um espaço para colocar estes apontamentos.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-26

Conheci este génio da poesia já nos íamos em idade. Visitava-o sempre em companhia, talvez, como privilégio comum. No seu espaço pilhas de livros literários, de autores de algumas nacionalidades. O seu dia de poesia passava-o relendo em inspiração e pela noite, até não muito tarde, escrevia meia dúzia de poemas, quase sempre, extensos. Certas vezes achava-se em interrogação de dúvida e queria saber de nós se "ainda era poeta". Com a grandeza que a humildade concede aos génios Ramos Rosa sorria, sorria quase sempre, emitindo nele certos sons de garganta, que provavelmente lhe ficara do tempo em que ainda não tinha deixado de fumar. Agora António Ramos Rosa era um ser de leveza, - embora tocado pelos anos, mas o seu ESPÍRITO subia; subia com as palavras escritas.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-25

Continuação de parte do mesmo doc. "(...) Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo de um paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...).