Citações

Citações para inspirar e refletir

Karl Kraus

Karl Kraus

Uma certa psicanálise é a ocupação de racionalistas lúbricos que atribuem tudo no mundo a causas sexuais, exceto a sua ocupação.
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Karl Kraus

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Eis uma coisa que eu gostaria muito de saber: o que tantas pessoas fazem com o seu horizonte ampliado?
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Os psicólogos modernos que ampliam os limites da irresponsabilidade ocupam um vasto lugar nela.
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Uma individualidade pode resistir mais facilmente à coação do que um indivíduo à liberdade.
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Se causa deleite ao esteta o gesto com que alguém rouba cinco milhões do Tesouro Público, e ele afirma publicamente que a diversão que o escândalo traz aos “poucos apreciadores” tem mais valor do que o prejuízo total, então se deve dizer-lhe: Se o gesto dessa diversão é uma obra de arte, vamos ser generosos, e um milhão a mais ou a menos que o Estado perde não nos importa. Mas se isso se transforma num editorial, então a nossa sensibilidade social desperta e não damos nem cinco centavos pelo divertimento. Pois se a bancarrota do Estado se transforma numa obra de arte, o mundo faz um negócio com isso. Caso contrário, vamos perceber os efeitos no orçamento e condenar a estética popular que desculpa os ladrões sem indenizar as vítimas do roubo.
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Karl Kraus

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Se lhe roubarem alguma coisa, não vá à polícia, à qual isso não interessa, e também não vá ao psicólogo, a quem só interessa, no fundo, o fato de ter sido você que roubou alguma coisa.
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Karl Kraus

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Toda espécie de educação tem o propósito de tornar a vida insípida, quer dizendo como ela é, quer dizendo que ela não é nada. Somos confundidos por uma alternância constante, nos esclarecem para cá e nos acalmam para lá.
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Karl Kraus

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Eles têm a imprensa, eles têm a bolsa de valores — e agora também o subconsciente!
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Karl Kraus

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Escreve-se de tal maneira sobre o tempo e o espaço como se fossem coisas para as quais ainda não se tivesse encontrado qualquer aplicação na vida prática.
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Quando se teme a ordem de batalha da vida burguesa não se deveria agarrar a oportunidade e desertar para a guerra?
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Karl Kraus

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Posso imaginar que uma mulher feia se veja no espelho e se convença de que a imagem refletida seja feia, e não ela própria. É dessa forma que a sociedade vê sua baixeza num espelho e acredita, por idiotice, que sou eu o sujeito baixo.
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Karl Kraus

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Dizem que meu estilo capturou todos os ruídos da época atual. Isso o torna aborrecido aos contemporâneos. Mas pessoas de outra época talvez o coloquem ao ouvido como uma concha na qual um oceano de lama toca música.
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Karl Kraus

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É natural morrer por uma pátria na qual não se pode viver. Mas nesse caso, enquanto patriota, eu preferiria o suicídio de uma derrota.
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Karl Kraus

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Alguma verdade sempre se encontra. Dizem que certa vez fui monista. Eu realmente escrevi certa vez algo contra o monismo. Dizem que não consegui publicar naquele jornal que mais tarde combati. Eu realmente recusei suas propostas. Dizem que procurei me insinuar na intimidade de um sujeito influente por meio de uma carta. Realmente recebi dele uma carta desse gênero. Em suma, alguma verdade sempre se encontra.
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Karl Kraus

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Os jornalistas escrevem porque não têm nada a dizer, e têm algo a dizer porque escrevem.
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O pintor tem em comum com o pintor de paredes o fato de sujar as mãos. Precisamente isso distingue o escritor do jornalista.
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Não ter pensamentos e ser capaz de expressá-los — eis um jornalista.
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Por que a eternidade não abortou essa época aberrante? Sua marca de nascença é um carimbo de jornal, seu mecônio, tinta de impressão, e em suas veias corre tinta de escrever.
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Alguém que nunca conheci me cumprimenta na esperança de que após tanto tempo eu já tenha esquecido que nunca o conheci e retribua o cumprimento do novo conhecido como se ele fosse um conhecido antigo. Na verdade, não sei exatamente quem eu conheço; sei exatamente, porém, quem eu não conheço. Não há possibilidade de erro. No entanto, se isso alguma vez acontecesse, o cumprimento me lembraria a tempo de que não conheço o sujeito, e então me lembraria dele até o fim de meus dias. Quem foi que você acabou de — pergunta um velho conhecido. Você não o conhece? Esse é aquele que acreditou que eu tinha esquecido que não o conheço!
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Karl Kraus

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Propostas para que essa cidade volte a conquistar minha simpatia: mudança do dialeto e proibição de reprodução.
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“Eis que tu o verás com os teus olhos, porém disso não comerás.” Para os descrentes de hoje, as coisas se cumpriram de outra forma. Eles comem o que não chegam a ver. Isso é um milagre que acontece por toda parte em que a vida é vivida de segunda mão: no caso de fariseus e de escribas.
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O mundo das relações, no qual um cumprimento é mais forte do que uma crença e no qual as pessoas se asseguram do inimigo quando agarram sua mão, considera como cálculo a renúncia ao seu sistema, e ainda que não chegue a detestar Hércules por dificultar sua própria vida e a de três mil bois, ele sonda seus motivos e pergunta: “O que o senhor tem contra Áugias?”.
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Os vermes dizem: “Sem nós não haveria cadáveres!”.
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Já passei tantas vezes pela experiência de alguém partilhar minha opinião e ficar com a metade maior para si que agora estou escaldado e só ofereço pensamentos às pessoas.
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Não acredito que uma avalanche de atos infames alguma vez tenha causado no mundo tanta indignação moral quanto a insubornabilidade de meu pensamento causou na cidade em que moro. Vi pessoas às quais nunca fiz mal algum explodirem ao me ver e se desintegrarem nos átomos da banalidade universal. Numa estação ferroviária, a mulher de um redator embarcou num compartimento particular de primeira classe, me viu e morreu com uma maldição nos lábios. E isso porque não faço uso de passagens gratuitas nos trens, o que provavelmente é o menor de meus defeitos. Pessoas cujo sangue é mais lerdo cospem quando me enxergam e seguem seu caminho. Todas são mártires; defendem a causa comum, sabem que meu ataque não se dirige a suas pessoas, mas à coletividade de que fazem parte. É o primeiro caso em que essa sociedade aleijada, que leva as lascas de seus ossos envoltas em ataduras, cobra ânimo para fazer um gesto. Há séculos não se cospe mais quando passa um escritor. A humanidade acorre a Messina, e a estupidez se sente solidária diante de Die Fackel . Não há antagonismos de classe, a questão nacional se cala e a Associação de Defesa do Antissemitismo pode descansar as mãos no colo ao falar. Estou sentado no restaurante: à direita, uma mesa de gente mal vestida que mete os dedos no nariz, ou seja, evidentemente deputados alemães; à esquerda, selvagens com barbas pretas que dão a impressão de que a crença na morte ritual, no fim das contas, tem algum traço de legitimidade, mas que certamente são apenas adeptos da política social que passam a faca pela boca à maneira dos carniceiros judaicos. Dois mundos, entre os quais aparentemente não há nenhuma conciliação. Wotan e Jeová dirigem olhares hostis um ao outro — mas os raios do ódio se unem sobre minha humilde pessoa. O fato de ainda não ter ocorrido a um governo austríaco a ideia de me reclamar para seu programa somente pode ser explicado pela desorientação fundamental dos governos deste país.
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Durante a semana, conseguimos nos fechar para o mundo. Mas há um sentimento dominical penetrante do qual não conseguimos escapar nem mesmo num porão, no topo de uma montanha ou dentro de um elevador.
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O que faz de mim a maldição da sociedade a cuja margem vivo é o modo súbito como renomes, caracteres e cérebros se revelam diante de mim sem que eu precise desmascará-los. Alguém carrega a sua importância por anos a fio até que eu o alivie desse peso num momento imprevisto. Deixo-me enganar pelo tempo que quiser. Não é assunto meu “penetrar as intenções” das pessoas, e de modo algum me preparo para isso. Mas certo dia meu vizinho coloca a mão na testa, sabe quem é e me odeia. A fraqueza foge de mim e diz que sou inconstante. Tolero o comodismo porque não pode me fazer mal; certo dia, quando se tratar de um sim ou de um não, ele morrerá espontaneamente. Basta que alguma vez eu esteja certo em fazer algo que tenha cheiro de caráter ou de algum modo me torne suspeito: a mentalidade se revela automaticamente. Se for verdadeiro que maus exemplos arruínam bons costumes, isso é válido em medida ainda maior para os bons exemplos. Qualquer um que tenha a força de ser um exemplo deforma seu ambiente, e os bons costumes, que são o conteúdo da vida da má sociedade, sempre correm o risco de serem corrompidos. A insipidez tolera meu comportamento enquanto ele se mantém em limites acadêmicos; se o demonstro numa ação, porém, ela se assusta e foge. Aguento o tédio por muito mais tempo do que ele a mim. Dizem que sou intolerante. O contrário é verdadeiro. Posso me relacionar com as pessoas mais tediosas sem notá-lo. Estou tão ocupado comigo mesmo a cada momento que nenhuma conversa pode me fazer mal. Para a maioria, a vida social é um banho de imersão em que se submerge a cabeça; a mim, ela mal umedece os pés. Nenhuma anedota, nenhuma recordação de viagem, nenhuma dádiva do cofrezinho do conhecimento, numa palavra, aquilo que as pessoas consideram ser o suprassumo da conversação, é capaz de deter minha atividade interior. Em todas as épocas, a força criadora causou maior mal-estar à impotência do que esta a ela. A partir disso se explica porque minha companhia se torna insuportável a tanta gente e que perseverem ao meu lado apenas em razão de uma cortesia despropositada. Seria coisa fácil para mim ir ao encontro daqueles que sempre precisam ser estimulados durante uma conversa. Por mais inculto que eu seja e por mais que eu entenda menos de astronomia, contraponto e budismo do que um recém-nascido, eu por certo seria capaz, mediante a habilidosa intercalação de perguntas, de simular um interesse e de demonstrar um conhecimento superficial que daria mais alegrias a um sabe-tudo do que um conhecimento especializado que poderia envergonhá-lo. Mas eu, que em toda minha vida ainda não dei um passo ao encontro de necessidades que não reconheci como estimuladoras do espírito, mostro ser um completo malcriado nessas situações. E não, talvez, um malcriado que boceja — isso seria humano —, não, mas um malcriado que pensa! Ao mesmo tempo, desdenho comunicar meus próprios dons ao indigente que padece suplícios de Tântalo diante de seus conhecimentos adquiridos pela leitura e que precisa passar fome nos celeiros egípcios do conhecimento. Com um coração endurecido ao ponto da petrificação, chego a fazer chistes piores do que aqueles que me ocorrem, e não revelo nada daquilo que escrevo no meu bloco de notas entre dois goles de café. No dia em que, num momento de descuido, não me ocorrer nenhuma ideia e existir o risco de que a vida social penetre no meu cérebro, dou-me um tiro.
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Karl Kraus

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Quando um pensador erige um ideal, todos gostam de se sentir tocados. Eu descrevi o sub-homem — quem deveria me seguir?
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“Pode ir, não se aborreça!”, diz o vienense a todo aquele que se aborrece em sua companhia.
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“Todo mundo aqui é gente” — isso não é desculpa, mas presunção.
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Antes um cavalo do campo se acostumar a um automóvel do que um passante da Ringstrasse se acostumar comigo. Pessoas assustadiças já provocaram muitos acidentes.
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Karl Kraus

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Não basta à necessidade de solidão que se esteja sentado sozinho a uma mesa. Também precisa haver cadeiras vazias em volta. Quando o garçom tira uma dessas cadeiras nas quais não há ninguém sentado, sinto um vazio e minha natureza sociável desperta. Não posso viver sem cadeiras vazias.
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Quando alguém se comportou como um animal, ele diz: “Ora, eu sou só um ser humano!”. Mas quando é tratado como animal, ele diz: “Ora, eu também sou um ser humano!”.
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Antes alguém te perdoar pela baixeza que cometeu contra ti do que pelo favor que de ti recebeu.
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Não me relaciono de fato com pessoas que utilizam a palavra “efetivamente”.
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Em algum lugar, encontrei a seguinte inscrição: “Pede-se deixar o lugar assim como se deseja encontrá-lo”. Se os educadores da vida falassem às pessoas com a metade da ênfase dos donos de hotéis!
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Karl Kraus

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Não cumprimentar não basta. Também não cumprimentamos pessoas que não conhecemos.
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Se o sexo tomasse parte apenas na reprodução, o esclarecimento sexual seria sensato. Mas o sexo também toma parte em outras funções; por exemplo, no esclarecimento sexual.
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A vida moderna deve explicar de algum modo uma desproporção entre oferta e demanda. De outra forma, não seria possível que um diálogo socrático fosse interrompido tantas vezes por alguém nos perguntando se queremos comprar uma escova de dentes.
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Os moralistas ainda resistem contra o fato de o valor da mulher determinar seu preço. Entretanto, faz tempo que o preço determina seu valor, e disso nenhuma moral dá conta.
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O amor entre os sexos é um pecado na teologia, um acordo ilícito na jurisprudência e um insulto mecânico na medicina; quanto à filosofia, absolutamente não se ocupa de coisas desse gênero.
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Ver o trabalho individual ser suplantado em toda parte pelo maquinal é algo que nos toca de maneira melancólica. Apenas os defloradores ainda andam por aí, a cabeça erguida, convencidos de serem insubstituíveis. Os cocheiros falavam exatamente assim vinte anos atrás.
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Quando o pecado se atreve a avançar, ele é proibido pela polícia. Quando se esconde, recebe um alvará.
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Nápoles é uma cidade altamente moralista em que se pode procurar mil rufiões até encontrar uma prostituta.
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O rufião é o órgão executivo da imoralidade. O órgão executivo da moralidade é o chantagista.
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Quando os inquilinos ficaram sabendo que a dona do prédio era uma cafetina, todos quiseram sair. Mas eles ficaram no prédio quando ela lhes garantiu que tinha mudado de ramo e agora se dedicava à agiotagem.
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Divido as pessoas que não cumprimento em quatro grupos. Há aquelas que não cumprimento para não me comprometer. Esse é o caso mais simples. Há aquelas que não cumprimento para não comprometê-las. Isso já exige uma certa atenção. Mas então há aquelas que não cumprimento para não me prejudicar junto a elas. Com essas é ainda mais difícil de lidar. E por fim há aquelas que não cumprimento para não me prejudicar junto a mim mesmo. Isso exige um cuidado especial. No entanto, já tenho uma rotina razoavelmente estabelecida, e, pela maneira como não cumprimento, sei expressar de tal modo cada uma dessas nuanças que não sou injusto com ninguém.
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Que tormento é essa vida em sociedade! Muitas vezes alguém é tão amável em me oferecer fogo que preciso procurar um cigarro no bolso para ser amável com ele.
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