Ano: 20620
Não acredito que uma avalanche de atos infames alguma vez tenha causado no mundo tanta indignação moral quanto a insubornabilidade de meu pensamento causou na cidade em que moro. Vi pessoas às quais nunca fiz mal algum explodirem ao me ver e se desintegrarem nos átomos da banalidade universal. Numa estação ferroviária, a mulher de um redator embarcou num compartimento particular de primeira classe, me viu e morreu com uma maldição nos lábios. E isso porque não faço uso de passagens gratuitas nos trens, o que provavelmente é o menor de meus defeitos. Pessoas cujo sangue é mais lerdo cospem quando me enxergam e seguem seu caminho. Todas são mártires; defendem a causa comum, sabem que meu ataque não se dirige a suas pessoas, mas à coletividade de que fazem parte. É o primeiro caso em que essa sociedade aleijada, que leva as lascas de seus ossos envoltas em ataduras, cobra ânimo para fazer um gesto. Há séculos não se cospe mais quando passa um escritor. A humanidade acorre a Messina, e a estupidez se sente solidária diante de Die Fackel . Não há antagonismos de classe, a questão nacional se cala e a Associação de Defesa do Antissemitismo pode descansar as mãos no colo ao falar. Estou sentado no restaurante: à direita, uma mesa de gente mal vestida que mete os dedos no nariz, ou seja, evidentemente deputados alemães; à esquerda, selvagens com barbas pretas que dão a impressão de que a crença na morte ritual, no fim das contas, tem algum traço de legitimidade, mas que certamente são apenas adeptos da política social que passam a faca pela boca à maneira dos carniceiros judaicos. Dois mundos, entre os quais aparentemente não há nenhuma conciliação. Wotan e Jeová dirigem olhares hostis um ao outro — mas os raios do ódio se unem sobre minha humilde pessoa. O fato de ainda não ter ocorrido a um governo austríaco a ideia de me reclamar para seu programa somente pode ser explicado pela desorientação fundamental dos governos deste país.