Ano: 20620
O que faz de mim a maldição da sociedade a cuja margem vivo é o modo súbito como renomes, caracteres e cérebros se revelam diante de mim sem que eu precise desmascará-los. Alguém carrega a sua importância por anos a fio até que eu o alivie desse peso num momento imprevisto. Deixo-me enganar pelo tempo que quiser. Não é assunto meu “penetrar as intenções” das pessoas, e de modo algum me preparo para isso. Mas certo dia meu vizinho coloca a mão na testa, sabe quem é e me odeia. A fraqueza foge de mim e diz que sou inconstante. Tolero o comodismo porque não pode me fazer mal; certo dia, quando se tratar de um sim ou de um não, ele morrerá espontaneamente. Basta que alguma vez eu esteja certo em fazer algo que tenha cheiro de caráter ou de algum modo me torne suspeito: a mentalidade se revela automaticamente. Se for verdadeiro que maus exemplos arruínam bons costumes, isso é válido em medida ainda maior para os bons exemplos. Qualquer um que tenha a força de ser um exemplo deforma seu ambiente, e os bons costumes, que são o conteúdo da vida da má sociedade, sempre correm o risco de serem corrompidos. A insipidez tolera meu comportamento enquanto ele se mantém em limites acadêmicos; se o demonstro numa ação, porém, ela se assusta e foge. Aguento o tédio por muito mais tempo do que ele a mim. Dizem que sou intolerante. O contrário é verdadeiro. Posso me relacionar com as pessoas mais tediosas sem notá-lo. Estou tão ocupado comigo mesmo a cada momento que nenhuma conversa pode me fazer mal. Para a maioria, a vida social é um banho de imersão em que se submerge a cabeça; a mim, ela mal umedece os pés. Nenhuma anedota, nenhuma recordação de viagem, nenhuma dádiva do cofrezinho do conhecimento, numa palavra, aquilo que as pessoas consideram ser o suprassumo da conversação, é capaz de deter minha atividade interior. Em todas as épocas, a força criadora causou maior mal-estar à impotência do que esta a ela. A partir disso se explica porque minha companhia se torna insuportável a tanta gente e que perseverem ao meu lado apenas em razão de uma cortesia despropositada. Seria coisa fácil para mim ir ao encontro daqueles que sempre precisam ser estimulados durante uma conversa. Por mais inculto que eu seja e por mais que eu entenda menos de astronomia, contraponto e budismo do que um recém-nascido, eu por certo seria capaz, mediante a habilidosa intercalação de perguntas, de simular um interesse e de demonstrar um conhecimento superficial que daria mais alegrias a um sabe-tudo do que um conhecimento especializado que poderia envergonhá-lo. Mas eu, que em toda minha vida ainda não dei um passo ao encontro de necessidades que não reconheci como estimuladoras do espírito, mostro ser um completo malcriado nessas situações. E não, talvez, um malcriado que boceja — isso seria humano —, não, mas um malcriado que pensa! Ao mesmo tempo, desdenho comunicar meus próprios dons ao indigente que padece suplícios de Tântalo diante de seus conhecimentos adquiridos pela leitura e que precisa passar fome nos celeiros egípcios do conhecimento. Com um coração endurecido ao ponto da petrificação, chego a fazer chistes piores do que aqueles que me ocorrem, e não revelo nada daquilo que escrevo no meu bloco de notas entre dois goles de café. No dia em que, num momento de descuido, não me ocorrer nenhuma ideia e existir o risco de que a vida social penetre no meu cérebro, dou-me um tiro.
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