Escritas

Lista de Poemas

Tarde - LXXVI

Diego Rivera com a paciência do osso
buscava a esmeralda do bosque na pintura
ou o vermelhão, a flor súbita do sangue,
recolhia a luz do mundo em teu retrato.


Pintava o imperioso talhe de teu nariz,
a centelha de tuas pupilas desbocadas,
tuas unhas que alimentam a inveja da lua,
e em tua pele estival, tua boca de melancia.


Te pôs duas cabeças de vulcão acesas
por fogo, por amor, por estirpe araucana,
e sobre os dois rostos dourados da greda


te cobriu com o casco de um incêndio bravio
e ali secretamente ficaram enredados meus olhos
em tua torre total: tua cabeleira.
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País

És minha pátria e compreendo teu canto e teu pranto
e toco o contorno de tuas tricolores guitarras chorando e cantando
porque sou um punhado de pó de tua cordilheira
e vivo em teu amor o suplício: de condecorar teus tormentos.

Vou contar-te a história de alguns, de algumas, de ninguém,
ouvindo a chuva que rompe seus rombos de vidro e se perde,
vou contar-te a história daquele ou do filho daquele
ou de ninguém, de todos, porque este destino de greda
nos faz no forno do povo parelhos, parentes profundos:
temos cabeças de cântaro e com olhos de boi generoso
os pés mais urgentes, as pernas que mudam de terra e de rio,
as mãos famintas e a cor da aveia queimada,
nós chilenos de costa e de monte, de chuva ou sequeiro,
somos quase sempre os mesmos errantes dispostos à
viagem do ouro.
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Manhã - XXXI

Com loureiros do Sul e orégão de Lota
cinjo-te a coroa, pequena monarca de meus ossos,
e não pode faltar-te essa coroa
que elabora a terra com bálsamo e folhagem.


És, como o que te ama, das províncias verdes:
de lá trouxemos barro que nos corre no sangue,
na cidade andamos, como tantos, perdidos,
temerosos de que fechem o mercado.


Bem-amada, tua sombra tem olor de ameixa,
teus olhos esconderam no Sul suas raízes,
teu coração é uma pomba de alcanzia,


teu corpo é liso como as pedras na água,
teus beijos são cachos com orvalho,
e eu a teu lado vivo com a terra.
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O Mar

Ali combateram mexendo-se na turbulência
os germes, a espora túrgida, as gomas da alga,
as ovas de um mar diminuto que ferve à beira do mar,
até que a rede quebrantada vasa na areia
os descendentes rotos, os tristes corais, os nardos do frio,
e ali se alimenta o outono, o espaço, a costa litúrgica,
com a podridão minguante e crescente que lança à areia o enlace infinito.
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XXV

Por que para esperar a neve
se desnudou o arvoredo?

E como saber qual é Deus
entre os deuses de Calcutá?

Por que vivem tão esfarrapados
todos os bichos-da-seda?

Por que é tão dura a doçura
do coração da cereja?

É por que se tem de morrer
ou por que se tem de continuar?
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Introdução a Meu Tema

Para a Ilha de Páscoa e as presenças
parto, saciado de portas e ruas,
buscando algo que ali não perdi.

O mês de janeiro, seco,
se parece com uma espiga:
colhe do Chile sua luz amarela
até que o mar a apague
e eu parto outra vez, para regressar.

Estátuas que a noite construiu
e debulhou em um círculo fechado
para que não as visse senão o mar.

(Viajei para recuperá-las e erigi-las
em meu domicilio desaparecido.)

E aqui rodeado de presenças cinzas,
de brancura espacial, de movimento
azul, água marinha, nuvens, pedra,
recomeço as vidas de minha vida.
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O Tempo

Outono de fábula, oh ventre remoto do mar apagado
piscar de estrela redonda repleta de impuros racimos,
oh ressurreições da ânfora, oh planta pletórica,
oh imenso arvoredo compacto que mexe a lua em sua copa,
começa o desfile delgado das migrações, extensa
é a côncava névoa e nela vai o coro e a flecha:
é a procissão procelária, é o Polo que emigra em suas asas.
Parecem imóveis aves dormindo na raia invisível dos
hemisférios,
progridem suspensas ao céu, ao rumor desse mar oxidado,
e no ar navega a linha impecável de flechas famintas;
as plumagens que até ontem sustinham sua estirpe de luto
sobre a primavera do tímpano, como uma auréola de neve sombria.
Dali, de meu inferno puído, dos iracundos farrapos da Patagônia,
da negra desordem voou este bando de espinhos, de
plumas, de pássaros,
a onda nua no céu, a luz dirigida, a lança formada no vento
pela necessária grandeza das unidades unidas.
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Amor

Oh amor, oh vitória de tua cabeleira agregando a minha vida
a velocidade da música que se eletrizou na tormenta
e fora do âmbito puro que se desenvolve queimando
aquelas raízes cobertas pela poeira do tempo
contigo, amorosa, viveram o dia de chuva remota
e meu coração recebeu teu palpitar palpitando.
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A noite

Oh, noite, oh substância que muda teu corpo e devolve à terra a estrela,
pensei, sacudido entre incertos temores tocando teus dedos,
pensando na rosa de sal deslumbrante que havia caído do céu.
Oh amor, oh infinito regado pela geologia,
oh corpo de lábios noturnos que me anteciparam a aurora
com a exatidão da uma fruta celeste amparada pela claridade do orvalho.
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Acontece

Bateram à minha porta em 6 de agosto,
aí não havia ninguém
e ninguém entrou, sentou-se numa cadeira
e transcorreu comigo, ninguém.

Nunca me esquecerei daquela ausência
que entrava como Pedro por sua causa
e me satisfazia com o não ser,
com um vazio aberto a tudo.

Ninguém me interrogou sem dizer nada
e contestei sem ver e sem falar.

Que entrevista espaçosa e especial!
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