Escritas

Livro das Perguntas

Ano
1974
Livro das Perguntas

Poemas nesta obra

I

Por que os imensos aviões
não passeiam com seus filhos?

Qual é o pássaro amarelo
que enche o ninho de limões?

Por que não ensinam a tirar
mel do sol aos helicópteros?

Onde deixou a lua cheia
seu noturno saco de farinha?

II

Se matei e não me dei conta
a quem perguntar a hora?

De onde tira tantas folhas
a primavera da França?

Onde pode viver um cego
a quem perseguem as abelhas?

Se termina o amarelo
com que faremos o pão?

III

Me diga: a rosa está nua
ou só tem esse vestido?

Por que as árvores escondem
o esplendor de suas raízes?

Quem ouve os remorsos
do automóvel criminoso?

Há algo mais triste no mundo
que um trem imóvel na chuva?

IV

Quantas igrejas tem o céu?

Por que não ataca o tubarão
as impávidas sereias?

Conversa a fumaça com as nuvens?

É verdade que a esperança
se deve regar com orvalho?

IX

É o mesmo o sol de ontem
ou é outro o seu fogo?

Como agradecer às nuvens
essa abundância fugitiva?

De onde vem a nuvem densa?
com seus negros sacos de pranto?

Onde estão aqueles nomes
doces como tortas de outrora?

Para onde foram as Donaldas,
as Clorindas, as Edwigis?

L

Quem pode convencer o mar
para que seja razoável?

De que lhe serve demolir
âmbar azul, granito verde?

E para que tantas marcas
e tantos sulcos no rochedo?

Cheguei de detrás do mar
e onde vou quando me atalha?

Por que encerrei meu caminho
caindo no ardil do mar?

LI

Por que detesto as cidades
que cheiram a mulher e urina?

Não é a cidade o grande oceano
dos colchões que palpitam?

A oceania dos ares
não tem ilhas e palmeiras?

Por que voltei à indiferença
do oceano desmedido?

LII

Quanto media o polvo negro
que obscureceu a paz do dia?

Eram de ferro seus ramais
e de fogo morto seus olhos?

E a baleia tricolor
por que me atalhou no caminho?

LIII

Quem devorou frente a meus olhos
um tubarão cheio de pústulas?

Teria a culpa o esqualo
ou os peixes ensanguentados?

É a ordem ou a batalha
esse quebranto sucessivo?

LIV

É verdade que as andorinhas
vão se estabelecer na lua?

Levarão a primavera
tirando-a das cornijas?

Se afastarão no outono
as andorinhas da lua?

Buscarão amostras de bismuto
a bicadas no céu?

E aos balcões voltarão
polvilhadas de cinza?

LIX

Por que não nasci misterioso?
Por que cresci sem companhia?

Quem me mandou desvencilhar
as portas de meu próprio orgulho?

E quem saiu para viver por mim
quando eu dormia ou adoecia?

Que bandeira se desatou
ali onde não me esqueceram?

LV

Por que não mandam as toupeiras
e as tartarugas à lua?

Os animais engenheiros
de cavidades e ranhuras

não poderiam tomar o encargo
destas longínquas inspeções?

LVI

Não achas que os dromedários
preservam lua em suas corcovas?

Não a semeiam nos desertos
com persistência clandestina?

E não estará emprestado o mar
por um curto tempo à terra?

Não teremos que devolvê-lo
com suas marés à lua?

LVII

Não será bom proibir
os beijos interplanetários?

Por que não analisar as coisas
antes de habilitar planetas?

E por que não o ornitorrinco
com sua espacial indumentária?

As ferraduras não se fizeram
para cavalos da lua?

LVIII

E o que palpitava na noite?
Eram planetas ou ferraduras?

Devo escolher esta manhã
entre o mar desnudo e o céu?

E por que o céu está vestido
tão cedo com suas neblinas?

O que me esperava em Ilha Negra?
A verdade verde ou o decoro?

LX

E que importância tenho eu
no tribunal do olvido?

Qual é a representação
do resultado vindouro?

É a semente cereal
com sua multidão amarela?

Ou é o coração ossudo
o incumbido do pêssego?

LXI

A gota viva do mercúrio
corre para baixo ou para sempre?

Minha poesia infeliz
olhará com os olhos meus?

Terei meu cheiro e minhas dores
quando eu dormir destruído?

LXII

Que significa persistir
no beco da morte?

No deserto do sal
como se pode florescer?

No mar do não ocorre nada
há vestido para morrer?

Quando já se foram os ossos
quem vive no pó final?

LXIII

Como conciliar com os pássaros
a tradução de seus idiomas?

Como digo à tartaruga
que eu a ganho em lentidão?

Como pergunto à pulga
as cifras de seu campeonato?

E aos cravos que dizer
agradecendo sua fragrância?

LXIV

Por que minha roupa desbotada
se agita como uma bandeira?

Sou um malvado alguma vez
ou todas as vezes sou bom?

É a bondade que se aprende
ou a máscara da bondade?

Não é branca a roseira do malvado
e negras as flores do bem?

Quem dá os nomes e os números
ao inocente inumerável?

LXIX

Caem pensamentos de amor
dentro dos vulcões extintos?

A cratera é uma vingança
ou um castigo da terra?

Com que estrelas seguem falando
os rios que não desembocam?

LXV

Brilha a gota de metal
como uma sílaba em meu canto?

E não se arrasta uma palavra
às vezes como uma serpente?

Não crepitou em teu coração
um nome como uma laranja?

De que rio saem os peixes?
Da palavra joalheria?

E não naufragam os veleiros
por um excesso de vogais?

LXVI

Lançam fumaça, fogo e vapor
os o das locomotivas?

Em que idioma cai a chuva
sobre cidades dolorosas?

Que suaves sílabas repete
o ar da aurora marinha?

Há estrela mais aberta
que a palavra papoula?

Há duas presas mais agudas
que as sílabas de chacal?

LXVII

Podes amar-me, silabária,
e dar-me um beijo substantivo?

Um dicionário é um sepulcro
ou um favo de mel cerrado?

Em que janela me quedei
olhando o tempo sepultado?

Ou o que olho de longe
é o que não vivi ainda?

LXVIII

Quando lê a borboleta
o que voa escrito em suas asas?

Que letras conhece a abelha
para saber seu itinerário?

E com que cifras vai subtraindo
a formiga seus soldados mortos?

Como se chamam os ciclones
quando não têm movimento?

LXX

Qual o trabalho forçado
de Hitler no inferno?

Pinta paredes ou cadáveres?
Ou fareja o gás de seus mortos?

Lhe dão de comer as cinzas
de tantos meninos calcinados?

Ou lhe deram desde sua morte
de beber sangue em um funil?

Ou lhe martelam na boca
os arrancados dentes de ouro?

LXXI

Ou deitam-no para dormir
sobre seus arames farpados?

Ou lhe estão tatuando a pele
para abajures do inferno?

Ou mordem-no sem compaixão
os negros mastins do fogo?

Ou deve de noite e de dia
viajar sem trégua com seus presos?

Ou deve morrer sem morrer
eternamente sob o gás?

LXXII

Se todos os rios são doces
de onde tira sal o mar?

Como sabem as estações
que devem mudar de camisa?

Por que tão lentas no inverno
e tão palpitantes depois?

E como sabem as raízes
que devem subir para a luz?

Sempre é a mesma primavera
a que repete seu papel?

E logo saudar o ar
com tantas flores e cores?

LXXIII

Quem trabalha mais na terra,
o homem ou o sol ceresino?

Entre o abeto e a papoula
a quem a terra quer mais?

Entre as orquídeas e o trigo
para qual é a preferência?

Para uma flor para que tanto luxo
e um ouro sujo para o trigo?

Entra o outono legalmente
ou é uma estação clandestina?

V

Que guardas sob tua corcova?
disse um camelo a uma tartaruga.

E a tartaruga perguntou:
Que conversas com as laranjas?

Tem mais folhas uma pereira
que Em Busca do Tempo Perdido?

Por que se suicidam as folhas
quando se sentem amarelas?

VI

Por que o chapéu da noite
voa com tantos furos?

O que diz a velha cinza
quando caminha junto ao fogo?

Por que choram tanto as nuvens
e cada vez são mais alegres?

Para quem ardem os pistilos
do sol em sombra de eclipse?

Quantas abelhas tem o dia?

VII

É paz a paz da pomba?

Faz a guerra o leopardo?

Por que ensina o professor
a geografia da morte?

Que ocorre com as andorinhas
que chegam tarde ao colégio?

É verdade que distribuem cartas
transparentes, por todo o céu?

VIII

O que é que irrita os vulcões
que cospem fogo, frio e fúria?

Por que Cristóvão Colombo
não pôde descobrir a Espanha?

Quantas perguntas tem um gato?

As lágrimas que não se choram
esperam em pequenos lagos?

Ou serão rios invisíveis
que escorrem até a tristeza?

X

Que pensarão de meu chapéu
daqui a cem anos os polacos?

Que dirão de minha poesia
os que não tocaram meu sangue?

Como se mede a espuma
que resvala da cerveja?

Que faz uma mosca encarcerada
em um soneto de Petrarca?

XI

Até quando falam os outros
se nós temos falado?

Que diria José Martí
do pedagogo Marinello?

Quantos anos tem novembro?

Que segue pagando o outono
com tanto dinheiro amarelo?

Como chamar esse coquetel
que mistura vodca com relâmpagos?

XII

Para quem sorri o arroz
com infinitos dentes brancos?

Por que nas épocas escuras
se escreve com tinta invisível?

Sabe a bela de Caracas
quantas faldas tem a rosa?

Por que me picam as pulgas
e os sargentos literários?

XIII

É verdade que só na Austrália
há crocodilos voluptuosos?

Como repartem o sol
na laranjeira as laranjas?

Vinha de uma boca amarga
a dentadura do sal?

É verdade que voa de noite
sobre minha pátria um condor negro?

XIV

E que disseram os rubis
ante o jugo das granadas?

Mas por que não se convence
a quinta de ir depois da sexta?

Quem gritou de alegria
ao nascer a cor azul?

Por que se entristece a terra
quando aparecem as violetas?

XIX

Contaram o ouro que tem
o território do milho?

Sabes que é verde ao meio-dia
a neblina na Patagônia?

Quem canta no fundo da água
na lagoa abandonada?

De que ri a melancia
quando a estão assassinando?

XL

A quem o condor andrajoso
dá conta de seu encargo?

Como se chama a tristeza
numa ovelha solitária?

E que ocorre no pombal
se aprendem canto as pombas?

Se as moscas fabricam mel
ofenderão as abelhas?

XLI

Quanto dura um rinoceronte
depois de ser enternecido?

Que contam de novo as folhas
da recente primavera?

As folhas vivem no inverno
em segredo, com as raízes?

Que aprendeu a árvore da terra
para conversar com o céu?

XLII

Sofre mais o que espera sempre
que aquele que nunca esperou ninguém?

Onde termina o arco-íris,
em tua alma ou no horizonte?

Talvez uma estrela invisível
será o céu dos suicidas?

Onde estão as vinhas de ferro
de onde cai o meteoro?

XLIII

Quem era aquela que te amou
no sonho, quando dormias?

Onde vão as coisas do sonho?
Vão para o sonho dos outros?

E o pai que vive nos sonhos
volta a morrer quando despertas?

Florescem as plantas do sonho
e maduram seus graves frutos?

XLIV

Onde está o menino que fui,
segue dentro de mim ou se foi?

Sabe que não o quis nunca
e que tampouco me queria?

Por que andamos tanto tempo
crescendo para separar-nos?

Por que não morremos os dois
quando minha infância morreu?

E se minha alma tombou
por que permanece o esqueleto?

XLIX

Quando de novo vejo o mar
o mar me viu ou não me viu?

Por que me perguntam as ondas
o mesmo que lhes pergunto?

E por que golpeiam a rocha
com tanto entusiasmo perdido?

Não se cansam de repetir
sua declaração à areia?

XLV

O amarelo dos bosques
é o mesmo do ano passado?

E se repete o vôo negro
da tenaz ave marinha?

E onde termina o espaço
se chama morte ou infinito?

Que pesam mais na cintura,
as dores ou as lembranças?

XLVI

E como se chama esse mês
que está entre dezembro e janeiro?

Com que direito numeraram
as doces uvas do racimo?

Por que não nos deram extensos
meses que durem todo o ano?

Não te enganou a primavera
com beijos que não floresceram?

XLVII

Ouves em meio do outono
detonações amarelas?

Por que razão ou sem razão
chora a chuva sua alegria?

Que pássaros ditam a ordem
da bandada quando voa?

De que suspende o beija-flor
sua simetria deslumbrante?

XLVIII

São os seios das sereias
os redondos caracóis?

Ou são ondas petrificadas
ou jogo imóvel da espuma?

Não se incendiou a pradaria
com os vagalumes selvagens?

Os cabeleireiros do outono
despentearam os crisântemos?

XV

Mas é verdade que se prepara
a insurreição dos coletes?

Por que outra vez a primavera
oferece seus vestidos verdes?

Por que ri a agricultura
do pálido pranto do céu?

Como logrou sua liberdade
a bicicleta abandonada?

XVI

Trabalham o sal e o açúcar
construindo uma torre branca?

É verdade que no formigueiro
os sonhos são obrigatórios?

Sabes que meditações
rumina a terra no outono?

(Por que não dar uma medalha
à primeira folha de ouro?)

XVII

Percebeste que o outono
é como uma vaca amarela?

E como a besta outonal
é logo um escuro esqueleto?

E como o inverno acumula
tantos azuis lineares?

E quem pediu à primavera
sua monarquia transparente?

XVIII

Como conheceram as uvas
a propaganda do cacho?

E sabes o que é mais difícil
entre granar e debulhar?

É mau viver sem inferno:
não podemos reconstruí-lo?

E colocar o triste Nixon
com o traseiro sobre o braseiro?

Queimando-o a fogo pausado
com napalm norte-americano?

XX

É verdade que o âmbar contém
as lágrimas das sereias?

Como se chama uma flor
que voa de pássaro em pássaro?

Não é melhor nunca que tarde?

E por que o queijo se dispôs
a exercer proezas na França?

XXI

E quando se fundou a luz
isto sucedeu na Venezuela?

Onde está o centro do mar?
Por que ali não vão as ondas?

É certo que aquele meteoro
foi uma pomba de ametista?

Posso perguntar a meu livro
se é verdade que eu o escrevi?

XXII

Amor, amor aquele e aquela,
se já não são, para onde foram?

Ontem, ontem disse a meus olhos
quando voltaremos a ver-nos?

E quando se muda a paisagem
são tuas mãos ou tuas luvas?

Quando canta o azul da água
como foge o rumor do céu?

XXIII

Converte-se em peixe voador
se transmigra a borboleta?

Então não era verdade
que vivia Deus na lua?

De que cor é o olor
do pranto azul das violetas?

Quantas semanas tem um dia
e quantos anos tem um mês?

XXIV

O 4 é 4 para todos?
São iguais todos os setes?

Quando o preso pensa na luz
é a mesma que te ilumina?

Já pensaste de que cor
é o abril dos enfermos?

Que monarquia ocidental
se embandeira com papoulas?

XXIX

Que distância em metros redondos
há entre o sol e as laranjas?

Quem desperta o sol quando dorme
sobre sua cama abrasadora?

Canta a terra como um grilo
entre a música celeste?

É mesmo ampla a tristeza
e tênue a melancolia?

XXV

Por que para esperar a neve
se desnudou o arvoredo?

E como saber qual é Deus
entre os deuses de Calcutá?

Por que vivem tão esfarrapados
todos os bichos-da-seda?

Por que é tão dura a doçura
do coração da cereja?

É por que se tem de morrer
ou por que se tem de continuar?

XXVI

Aquele solene senador
que me atribuía um castelo

devorou já com seu sobrinho
a torta do assassinato?

A quem engana a magnólia
com sua fragrância de limões?

Onde deixa o punhal a águia
quando se deita em uma nuvem?

XXVII

Morreram talvez de vergonha
estes trens que se extraviaram?

Quem nunca viu o aloés?

Onde plantaram os olhos
do camarada Paul Éluard?

Há lugar para uns espinhos?
perguntaram à roseira.

XXVIII

Por que não recordam os velhos
as dívidas nem as queimaduras?

Era verdade aquele aroma
da donzela surpreendida?

Por que os pobres não compreendem
apenas deixam de ser pobres?

Onde encontrar um sino
que soe dentro de teus sonhos?

XXX

Quando escreveu seu livro azul
Rubén Darío não era verde?

Não era escarlate Rimbaud e
Gôngora cor de violeta?

E Victor Hugo tricolor?
E eu listões amarelos?

Juntam-se todas as lembranças
dos pobres das aldeias?

E em uma caixa mineral
guardaram seus sonhos os ricos?

XXXI

A quem posso perguntar
o que fazer neste mundo?

Por que me movo sem querer,
por que não posso estar imóvel?

Por que vou rodando sem rodas,
voando sem asas nem plumas,

e que me deu de transmigrar
se vivem no Chile meus ossos?

XXXII

Há algo mais tolo na vida
que chamar-se Pablo Neruda?

Há no céu da Colômbia
um colecionador de nuvens?

Por que sempre se fazem em Londres
os congressos de guarda-chuvas?

Sangue cor de amaranto
tinha a rainha de Sabá?

Quando Baudelaire chorava
chorava com lágrimas negras?

XXXIII

E por que o sol é tão mau amigo
do caminhante do deserto?

E por que o sol é tão simpático
no jardim do hospital?

São pássaros ou são peixes
nestas redes da lua?

Foi onde que a mim me perderam
que logrei enfim me encontrar?

XXXIV

Com as virtudes que olvidei
posso fazer um traje novo?

Por que os melhores rios
foram correr na França?

Por que não amanhece na Bolívia
desde a noite de Guevara?

E busca ali os assassinos
seu coração assassinado?

Tem primeiro gosto a lágrimas
as uvas negras do deserto?

XXXIX

Não sentes também o perigo
na gargalhada do mar?

Não vês na seda sangrenta
da papoula uma ameaça?

Não vês que floresce a macieira
para morrer na maçã?

Não choras rodeado de riso
com as garrafas do olvido?

XXXV

Não será nossa vida um túnel
entre duas vagas claridades?

Ou não será uma claridade
entre dois triângulos escuros?

Ou não será a vida um peixe
preparado para ser pássaro?

A morte será de não ser
ou de substâncias perigosas?

XXXVI

Não será por fim a morte
uma cozinha interminável?

Que farão teus ossos desagregados,
buscarão outra vez tua forma?

Se fundirá tua destruição
em outra forma e em outra luz?

Formarão parte teus vermes
de cães ou de borboletas?

XXXVII

De tuas cinzas nascerão
tchecoslovacos ou tartarugas?

Tua boca beijará cravos
com outros lábios vindouros?

Mas sabes de onde vem
a morte, de cima ou de baixo?

Dos micróbios ou dos muros,
das guerras ou do inverno?

XXXVIII

Não achas que vive a morte
dentro do sol de uma cereja?

Não pode também matar-te
um beijo da primavera?

Achas que o luto te adianta
a bandeira de teu destino?

E encontras na caveira
tua estirpe a osso condenada?