I. Conversação Marítima
Encontrei Rubén Darío nas ruas de Valparaíso,
esmirrado aduaneiro, singular rouxinol que nascia:
era ele uma sombra nas gretas do porto, na fumaça marinha,
um delgado estudante de inverno desprendido do fogo de seu natalício.
Sob o amplo gabão tiritava seu longo esqueleto
e leva bolsos repletos de espelhos e cisnes:
até havia chegado a jogar com a fome nas águas do Chile,
e em abandonadas adegas ou invencíveis depósitos de mercadorias,
através de armazéns imensos que só custodiam o frio
o pobre poeta passeava com sua Nicarágua fragrante, como se levasse no peito
um limão de mamilos azuis ou a lembrança em redoma amarela.
Companheiro, disse-lhe, a nave volveu ao fragoroso estupor do oceano,
e tu, desterrado de mãos de ouro, contemplas este amargo edifício:
aqui começou o universo do vento
e chegam do Polo os grandes navios carregados de névoa mortuária.
Não deixes que o frio atormente teus cisnes, nem rompa teu espelho sagrado,
a chuva de junho ameaça teu suave chapéu,
a noite de antárticos olhos navega cobrindo a costa com seu matrimônio de espinhos,
e tu, que propicias a rosa que enlaça o aroma e a neve,
e tu, que originas em teu coração de açafrão a borbulha e o canto claríssimo,
reclama um caminho que corta o granito das cordilheiras
ou some nas vestimentas da fumaça e da chuva de Valparaíso.
Afugenta as névoas do Sul de tua América amarga
e ainda que Balmaceda sustenha suas luvas de prata em tuas mãos,
escapa montando na rajada de tua serpentina quimera!
E corre a cantar com teu rio de mármore a ilustre sonata
que se desenvolve em teu peito desde tua Nicarágua natal!
Arisca era a fumaça dos arsenais, e cheirava o inverno
a desenfreadas violetas que se descoloriam manchando o murcho crepúsculo:
tinha o inverno o cheiro de uma alfombra molhada por anos de chuva
e quando o apito de um rouco navio cruzou como um condor cansando o recinto dos molhes,
senti que meu pai poeta tremia, e um imperceptível lamento
ou melhor vibração de sino que no alto prepara o tangido
ou talvez comoção mineral da música envolta na sombra,
algo vi ou escutei porque o homem olhou-me sem
olhar-me nem ouvir-me.
E senti que subiu até sua torre o relâmpago de um calafrio.
Creio que ali constelado ficou, atravessado por raios de luz inaudita
e era tanto o fulgor que levava debaixo de sua vestimenta puída
que com suas duas mãos escuras tentava cobrir sua linhagem.
E não vi silêncio no mundo como o daquele homem adormecido,
adormecido e andando e cantando sem voz pelas ruas de Valparaíso.
LXXI
Ou deitam-no para dormir
sobre seus arames farpados?
Ou lhe estão tatuando a pele
para abajures do inferno?
Ou mordem-no sem compaixão
os negros mastins do fogo?
Ou deve de noite e de dia
viajar sem trégua com seus presos?
Ou deve morrer sem morrer
eternamente sob o gás?
O Mar
As moscas de Abril no ventre inferior do outono
se multiplicaram saindo a voar com suas asas de água
com suas gotas de água amanhecem na transparência
raiando a luz ou deixando imóvel o ar vazio.
As algas apodrecem vestidas de ferro molhado
e sobre as ávidas rochas que o trovão estremece
no estupor do outono vacila um certame de ovários.
Porque sobre o rosto de pedra que o mar atormenta e destrói
as máscaras verdes da alga marinha, a tapeçaria do frio,
subjugam à eternidade da pedra, ao mar, ao conflito.
LXX
Qual o trabalho forçado
de Hitler no inferno?
Pinta paredes ou cadáveres?
Ou fareja o gás de seus mortos?
Lhe dão de comer as cinzas
de tantos meninos calcinados?
Ou lhe deram desde sua morte
de beber sangue em um funil?
Ou lhe martelam na boca
os arrancados dentes de ouro?
II. A Glória
Oh clara! Oh delgada sonata! Oh cascata de clã cristalino!
Surgiu do idioma voando uma rajada de asas de ouro
e então a névoa do mundo retrocede à infame adega
e a claridade do favo adianta uma torrente de trinos
que decretam a lei de cristal, o racimo de neve do cisne:
o pâmpano jádico ondula seus signos interrogativos
e Flora e Pomona descartam os desfiados gabões
tirando da rua o fulgor de suas tetas de nácar marinho.
Oh grande tempestade do Tritão encefálico! Oh buzina do céu infinito!
Tremeu Echegaray encapando o guarda-chuva de ferro enlousado
que o protegeu das iras eróticas da primavera
e pela vez primeira a estátua jazente de Jorge Manrique desperta:
seus lábios de mármore sorriem e levantando uma mão enluvada
dirige uma rosa cheirosa a Rubén Darío que chega a Castela e inaugura a língua espanhola.
Espaços
Dali, da honra do oceano e da Patagônia agachada
pelo vendaval, pelo peso da solidão rancorosa,
voando vai o voo, a fúria e a ordem, longitudinal e severo,
voando o transcurso queimando a dura distância,
engolindo a névoa:
as aves do mar em seu triângulo atravessam o céu como calafrio
e em seu movimento reúnem a terra selvagem do Sul de minha pátria
com meu coração transbordado que espera na torre da fumaça
o signo do gelo magnético, o Sul da dor borrascosa,
a hipnótica herança olvidada entre o pasto e as cavalgaduras.
Canção do Amor
Te amo, te amo, é minha canção
e aqui começa o desatino.
Te amo, te amo meu pulmão,
te amo, te amo minha videira,
e se o amor é como o vinho
és minha predileção
desde as mãos até os pés:
és a taça do depois
e a garrafa do destino.
Te amo pelo direito e o avesso
e não tenho tom nem tino
para cantar-te minha canção,
minha canção que não tem fim.
Em meu violino que desentoa
te declara meu violino
que te amo, te amo minha violoncela,
minha mulherzinha escura e clara,
meu coração, minha dentadura,
minha claridade e colher,
meu sal da semana escura,
minha lua de janela clara.
XXVI
Aquele solene senador
que me atribuía um castelo
devorou já com seu sobrinho
a torta do assassinato?
A quem engana a magnólia
com sua fragrância de limões?
Onde deixa o punhal a águia
quando se deita em uma nuvem?
A Viagem
Lavrei na face de um rápido estio a cruz transparente
de um floco de neve, foi uma viagem para a desmesura:
os atos humanos fizeram as coisas mais altas do orbe
e ali com o frio de meu território e o mar retilíneo
cheguei, sem saber, nem poder, nem cantar, porque pesa o racimo da multidão.
Se diz ou disseram ou disse eu que o bardo barbudo e arbóreo
de Brooklin ou Camden, o ferido da secessão divisória,
vivia talvez em mim mesmo estendendo raízes ou espadas ou trigo
ou ferruginosas palavras envolvidas em cal e formosura:
talvez, disse, eu, sem orgulho, porque se determina vivendo
que de uma maneira chuvosa ou metálica a sabedoria
dispôs seguir existindo ou morrendo entre as criaturas terrestres
e porque não és tu, não sou eu quem recebe o encargo escondido
e sem ver nem saber continua crescendo muito mais,
muito mais que tua vida ou minha vida.
Vamos Ver, Chamei a Minha Tribo
Vamos ver, chamei a minha tribo e disse:
vamos ver, quem somos, que fazemos, que
[pensamos.
O mais pálido deles, de nós,
me respondeu com outros olhos,
com outra sem-razão, com sua bandeira.
Esse era o pavilhão do inimigo.
Aquele homem, talvez, tinha direito
a matar minha verdade, assim aconteceu
comigo e com meu pai,
e assim acontece.
Mas sofri como se me mordessem.