Lista de Poemas
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B'Carte
Ainda te procuro no silêncio
Carta 📩 a quem partiu sem dizer adeus
Minha querida!
Partiste.
Foi assim —
como se o vento te levasse,
sem alarde,
sem um adeus bordado nos lábios.
Como quem apenas se ausenta
por instantes breves
e, no entanto,
não volta.
Ficou o lugar à tua mesa,
o calor suspenso no ar,
a sombra ténue do teu nome
ainda escrita nas paredes.
Não deixaste um sussurro,
nem uma despedida.
Só o rumor dos dias
a caminhar para a frente,
sem ti.
Procurei-te,
sabias?
No dobrar da esquina,
no silêncio das fotografias,
nas horas que se recusam a passar.
Mas tu foste
com a delicadeza cruel
de quem não quer doer.
E doeu.
Com ternura que resiste,
B'Carte.
A poesia de JRUnder
Passagem
Na infância é nascente, Água que brota do chão,
de forma límpida e fluente, que se sorve com as mãos.
Na juventude é ligeira. Cai como cachoeira
mas não dura a vida inteira, só o tempo de uma paixão.
Na velhice, lago sereno. De placidez constante,
onde sopra o vento ameno que eterniza o instante.
Tempo de sentir a chuva e a brisa que enxuga o rosto,
De olhar o nada e ver tudo. De sentir paz, ou desgosto.
Frederico de Castro
Penumbras
Na penumbra do dia flutua a luz envergonhada e lacónica
Sutura todas as feridas que brotam de uma prece canónica
Num subtil minuto a manhã emborca cada palavra mais icónica
Pelas penumbras da solidão almofada-se um afago truculento
Impelente e propulsor cada eco sedimenta minhas ânsias opulentas
Alimenta a mais nítida e translúcida luminescência quase rabugenta
Impelido por um espalmado silêncio adita-se à solidão um verso perspícuo
Liquefazem-se as palavras que deambulam no leito dos murmúrios profícuos
Passo a passo marcha o tempo deglutido por tão ávidos segundos conspícuos
Frederico de Castro
Pedro Rodrigues de Menezes
anatomia da sombra
trevo ou treva
dizem que depende da perspectiva
dizem
dizem
dizem
mas que olhar e toque seriam necessários
para que os momentos pudessem ficar suspensos
sem o toque desabrido de um astro em labareda
sem o olhar que fere e arde como cascata em lava
espreito
espero
a existência é isto ou nada disto
a inexistência é muito mais que isto ou que aquilo
adormecer sem o peso das pálpebras sobre a carne imunda
lançar braços como uma nova nódoa espécie de árvore
não é da felicidade que eu falo
não é a vida que me cansa
é esta sombra perpétua, asquerosa, que se cola à minha pele
ou é a minha pele asquerosa que se cola à perpetuidade
sim
não
talvez
que a perspectiva seja um problema do mundo actual
somos tantos e tantas são as coisas
que nos exigem, que nos esvaziam nesta nauseabunda ânsia
fazer
produzir
espero ter alcançado o âmago mais vazio da loucura
esvaziar-me, esvair-me como um líquido genial.
(Pedro Rodrigues de Menezes, "anatomia da sombra")
A poesia de JRUnder
Preciso do tempo
Preciso do tempo.
Preciso de ajuda do tempo, para rever a vida, para relembrar os dias, para peneirar felicidades.
Preciso que o tempo pare agora, ou não terei tempo para ser mais justo, mais dedicado, mais amigo, mais real.
Preciso muito do tempo, para encontrar meus erros a tempo de corrigi-los... Um a um.
Preciso repaginar momentos nos quais tenha deixado de amar, tenha me recusado a estender as mãos, tenha voltado os olhos, para não ver.
Preciso que o tempo permita-me conhecer melhor a quem me amou de verdade, e eu deixei passar.
Tempo para perdoar e pedir perdão. Tempo para amar sem pedir amor em troca.
Para praticar o respeito, a humildade, a bondade e a compaixão.
Preciso voltar no tempo, para fazer desse, um momento melhor.
A poesia de JRUnder
Seu riso
Seu riso espontâneo e livre...
É assim como um anestésico para aliviar as dores de minha alma. A tensão se desfaz e o medo desaparece.
A vida se deixa ver como fosse um botão de rosa oferecendo-se ao futuro...
A paz de sabê-la em paz!
Meu coração se acalma, minha atenção se fragmenta em milhares de detalhes que me traduzem esse "seu momento".
Como é bom vê-la sorrir.
Quanto bem me faz, o seu instante de felicidade e a eternidade em que o desfruto...
Hera de Jesus
Queremos, apenas, ser mulheres
Há pranto
há flores murchas
esmagadas
pelos opressores
num mundo
cruel para Mulheres.
Calcinhas acorrentadas
ao pescoço
furtam-nos a essência
se resistimos
estoiram-nos o útero
e lançam-nos na sarjeta do mundo.
Nas montras das ruas
jazem flores
nuas
esmagadas
murchas e ensanguentadas
descorooadas.
Era uma vez...
Mulheres
que apenas
queriam ser Mulheres
num mundo cruel
para mulheres.
in Blasfêmeas Sangue e Poesia (2024)
Raquel Gonçalves
Ficou em nós
Tu ficaste com ela por medo de dor,
Eu fui o refúgio, o rastro do amor.
Prometemos nada, vivemos demais,
E agora estás longe… e eu fico nos “vais”.
Chamaste de “coisa que a gente não diz”,
Mas no fundo sabias: contigo fui raiz.
Fui toque, fui fogo, fui riso no escuro,
E tu foste o erro mais doce e mais puro.
Dissemos que era só pra guardar,
Mas há corpos que sabem quando é pra ficar.
Ficou na pele, no cheiro, na voz,
Ficou esse “nós” que vive sem nós.
Tu pensas demais, eu sinto por dois,
Mas nunca fui tua — e foste meu depois.
Na alma, no peito, nos gestos calados,
Fomos o certo nos tempos errados.
E se um dia perderes o medo de amar,
Quando já não quiseres só aproveitar,
Talvez nos cruzemos sem peso, sem dor…
E se ainda houver tempo, talvez seja amor.
Disseste que havia carinho especial,
Daqueles que ficam, sem ser normal.
Mas foste embora sem te despedir,
Com medo de tudo o que podias sentir.
Tu gostavas de mim, eu via no olhar,
Na forma que vinhas, na pressa de ficar.
Nos teus olhos cansados, vi mais do que vão,
Vi o desejo calado, a fuga da mão.
Tiravas meus cabelos loiros do colchão,
e ficavas em mim, sem pedir permissão.
Ali, o teu corpo dizia o que o medo calou,
e no fundo dos olhos, era amor que ficou.
Ela tem o teu lado, os teus dias marcados,
Mas eu fui o instante dos passos trocados.
O tempo contigo sabia parar,
Mesmo sem nome, sem lugar pra ficar.
Agora estás longe, distante e calado,
Mas o que vivemos não foi inventado.
E se fosse noutra vida, sem essa prisão,
Talvez fosses meu — de corpo e coração.
A poesia de JRUnder
Para cantar o amor.
Para cantar o amor, embriaguei-me na fonte dos desejos,
Sorvi da luz da lua, até que a última gota de luar se esvaísse na noite...
E despertei em um alvorecer perene... Embebi-me em olhares românticos
E deixei-me bronzear por abraços calorosos.
Para cantar o amor, cobri-me com mantos trançados com fios de esperança,
E desliguei-me do passar do tempo, para imortalizar o momento.
Transformei cada saudade em novas ilusões, para que florescessem como realidades virtuosas
e carregassem as cores da primavera.
Para cantar o amor, sonhei.
A poesia de JRUnder
Lua cheia de amor - soneto
Em um pedacinho do céu
onde em altas madrugadas
A lua derrama seu manto
Bordado com luz prateada
Lua cheia de beleza
Lua cheia de esplendor
Lua cheia de esperanças
Lua cheia de amor
Lá no alto, atrás dos montes
Ilumine no horizonte
Meus caminhos tortuosos
Vasculhe a minha saudade
Quem sabe, esqueci dentro dela
A minha felicidade...
A poesia de JRUnder
A cartilha do amor.
Amor não se faz. Amor se sente.
Amor não se pede. Amor se tem.
Amor não se dá. Amor se usa.
Amor não recebe. Amor se entrega.
Amor não se paga. Amor é doação.
Aprende-se a amar com o tempo.
Ele ensina a ver, a sentir, a querer.
O tempo solidifica as ilusões e esculpe o amor.
E o amor nos faz viver em renúncia.
Faz com que esqueçamos de nós, nos subordina.
O amor aprisiona, condena e executa.
O amor, nos aproxima de Deus.
A poesia de JRUnder
Amor em 4 linhas.
Se em meu pranto me faço saudades,
Do seu sorriso eu faço lembranças.
No seu abraço fui felicidade,
Por sua volta me torno esperança.
.
andersonpe
I. De pulvere
Vê-me, Pai Amado,
entras nas frestas onde me escondo de mim.
Levas as angústias que calado conservo,
as lágrimas que esqueci, as saudades que lamento.
Nada sou, nem desejo engrandecer-me de formas,
porém busco escapar-me do traidor que me visto,
das insignificâncias que grandeza uma tenho dado,
das razões desertas que em vão protestei.
Vê-me, Pai Amado,
não sou mais que poeira que o vento conduz.
Não peço alívio – mas pertença,
não trago méritos – mas arrependimentos.
Pai Amado, vê-me.
Vê-me, Pai Amado.
A poesia de JRUnder
O giz do arbítrio
E não pude me socorrer e mais um dia se passou.
Os pássaros cantaram pela manhã, noticiando a chegada de um novo dia.
As águas do lago refletiram o dourado do sol que ainda tímido sublimava o frio da noite.
O riacho murmurou a placidez das horas em mesmice infinita.
Flores se abriram, sorrindo para a perenidade do momento, enquanto outras se fecharam anunciando um entendimento da vida que jamais pude alcançar.
E no céu azul as nuvens pintaram de branco as figuras imaginárias e únicas, presente da criação para mostrar que o infinito mora apenas no olhar.
Tão simples e até singelo o passar deste dia.
Amanhã não serei mais o mesmo.
Estarei modificado pelos fatos de hoje, pelas lições inacabáveis escritas pelo tempo,
na negra tela rabiscada pelo giz do arbítrio.
Pedro Rodrigues de Menezes
de pernas para o mar
hoje foi dia
de deixar tudo
de pernas para o mar.
(Pedro Rodrigues de Menezes, "de pernas para o mar")
Magno Ferreira
Pedaço de madeira
Jogaram-me num poço e eu não sabia nadar.
Aquilo que um jogador de futebol faz
Para cabecear uma bola no terceiro andar
Eu fazia para respirar.
Os espectadores festejavam.
Não sei quantas bolas cabeceei.
Por estarem saciados
Ou para o festival não dar errado,
Puxaram-me da água.
Os risos rolaram pelo chão.
Depois todos foram nadar.
Do meu lado ficou apenas um pedaço de madeira,
Com o qual eu me armei
E nenhum outro menino percebeu.
Com os sentimentos que me esmagavam
Lancei o troço na cabeça de um deles.
Começou a corrida.
Enquanto eles saíam da água
Eu abri uns trinta metros.
Mas havia meninos maiores, mais velozes.
Então, invadi a área dos cansanções.
Na roça era comum ser sapecado por urtiga bebê.
Mas o cansanção deve ser coisa do demônio.
Não foi o bom Deus quem criou aquela planta.
Os perseguidores desistiram de mim.
Mas eu conheci o fogo do inferno.
Pergunto ao meu eu,
Por que fazemos com o outro
O que não gostaríamos que o outro nos fizesse?
Miro o fundo da minha alma,
O fim do horizonte,
Tudo que é e não é meu
E me perco nesse breu.
Anna Flávia Schmitt Wyse Baranski
Rio Jacutinga
Meu bonito Rio Jacutinga
com nome de ave negra
e de barbela vermelha
que o ser humano desafia.
Meu magnífico Rio Jacutinga
com nome de ave rara
que pode vir a se tornar tão
raro nesta vida quanto ela.
Meu amoroso rio, a sós te falo:
- O pouco que posso fazer eu fiz,
orgulhosa faço e sempre farei.
Da minha parte tenho um sono
sossegado mesmo que ninguém
tenha tido contigo igual cuidado.
Crowley Baruc
A Própria Análise
"As Pessoas contam a versão da história que lhe convem. Não acredite em tudo que te dizem por aí. Faça sua própria análise."
Crowley Baruc
Pedro Rodrigues de Menezes
cântico da inexistência
tal como na obra "casa de bonecas" de Henrik Ibsen
é necessário suster a respiração
enfrentar a vertigem que é a vida
esperar o prodígio
um prodígio qualquer
e concluir pela sua inexistência.
Pedro Rodrigues de Menezes, "cântico da inexistência"
José António de Carvalho
DIGO-TE…
Coletânea "ALMA LATINA", Vol. VI, - 2025
Encheste o cálice da vida
e eu nasci dentro do tempo,
lançado à ira de um frio janeiro.
Deste-me a mão e eu andei,
e até aprendi a fugir de ti.
Mas… logo, logo, regressava.
Colavas-me os teus olhos,
e sob o teu olhar eu crescia
sem que tu o percebesses.
Revoltava-me comigo e ia,
pensando que tinha crescido
em tudo, e também contigo.
Mas as raízes eram fortes,
agarradas à terra e às tuas mãos
que me continuaram a alimentar.
Por isso, ontem como hoje,
vendo que a vida nos foge,
és tão importante para mim.
Não para me amparares
ou orientares no caminho,
mas para sentir que estás comigo.
Quero que me envolvas no teu olhar
e nunca me sentirei sozinho.
É só assim que há primaveras
e o teu Dia, Mãe…
José António de Carvalho, 18-março-2024
A poesia de JRUnder
Ainda que tardia...
AH! Essa tal sociedade
Que me toma a liberdade
Como fosse um forte grilhão
A cercar-me os tornozelos
Faz-me escravo de zelos
Pelo que é certo, ou errado,
Parâmetros delimitados
Para causar-me flagelos!
Abra as asas, vida minha!
Pois se faz tarde, em verdade,
No pouco tempo em que resto.
No topo de qualquer colina,
Inflar-me da brisa divina
Que da insanidade, empresto!
Brenda Aleixo
Ausência
A sua ausência, por vezes, me fez sentir uma dor que, até então, eu não conhecia. Me fez sentir pequena; encolhi para caber nesse espaço que você separou para mim. Confesso que me parecia bem maior.
Você, sorrateiro demais, me fez querer mudar, na vaga esperança de que talvez sua presença fosse maior e eu não me sentisse tão só. Mas agora sua ausência foi diminuindo tanto que já nem faz diferença. Já não justifico mais a sua falta e nem me questionam mais por onde você anda, porque já se acostumam a me ver só. Hoje já não deixo de viver por você. E me questiono: será que em algum momento isso foi amor?
Ludmila Martins
Um amor de alma
Creio que sempre te conheci.
Além do que se diz ser,
Além do que meus olhos são capazes de ver,
E meu coração de sentir.
Sei disso pois minha mente te traduz.
Vejo além da mera junção de átomos.
Além da armadura que aprisiona sua alma que luta serenamente.
Ela almeja transcender, e vejo que já escapa pelos teus olhos
que brilham de maneira divina.
E ao encontrarem os meus, tenho um breve vislumbre do paraíso.
Tudo em ti me invade, arruma e desarruma,
quebra e reconstroi.
Me tira do chão e me faz flutuar por cima de toda dor que existia antes de você chegar.
Que bom que veio.
Tardou mas chegou.
O medo que tive um dia de me perder cessou,
contanto que esteja me perdendo em você.
E mesmo que perdida, sinto que estou exatamente onde deveria estar.
Te vejo com olhos de criança cheia de esperança.
Careço-me de entrelaçar meus braços em volta de seu pescoço e dizer
“Que bom que está aqui.”
Vaguei por vinte anos com grande angústia, a procurar incansavelmente por algo que não pude saber o que era antes de te conhecer.
Meus pés doeram,
E ao invés de lágrimas, os meus olhos jorravam sangue.
Derramei-me em outros corpos.
Te trouxe dores que nem eram minhas.
Cicatrizes que a jornada me causou.
Me entreguei a ti já quase sem alma.
E finalmente pude derreter em teus braços.
José António de Carvalho
CAIS DO SILÊNCIO
Coletânea "ALMA LATINA", Vol. VI, - 2025
Fico a chorar o verão
Que foi pelo labirinto
Sem saber a direção
Que tomar. Mas eu pressinto
Que ele vá na que prevejo:
Essa que chama o desejo.
Do verão fica a saudade
Que mais parece ilusão,
E do corpo frio que arde
Só se salva o coração,
P’la artéria que o alimenta
E que a esperança sustenta.
Mas o dia foge cedo
P’ra descer a noite fria,
Cais de silêncio do medo
Duma memória vazia.
E para o vazio encher
Novo dia há de nascer.
José António de Carvalho, 23-setembro-2024
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