Lista de Poemas
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A poesia de JRUnder
Mais uma vez...
E bastou nos vermos mais uma vez...
Parece que o tempo não passou e que a distância nunca existiu. Toda a saudade acumulada no tempo transformou-se em um piscar de olhos, em realização e alegria, unidas por uma inexplicável nostalgia.
Parece que somos os mesmos.
Nossos olhares se cruzaram e nossas feições demonstraram um misto de alegria e ansiedade, impossíveis de disfarçar.
Tudo ressurgiu no mesmo instante.
Lembranças de suas mãos na minhas, lembranças de corações palpitantes, de abraços longos e apertados, de nossos lábios se encontrando e calando nossa voz.
Nada mudou. Nada renasceu porque nada havia morrido, ou sequer, adormecido.
Sempre esteve guardado em nossos corações à espera desse momento, mesmo que as esperanças não soubessem em “como”, “quando” ou “se”.
Não saberia dizer se é querer ou destino, apenas sei, que é amor.
17/06/2025
José António de Carvalho
SEGURO PELO POEMA
Este poema foi inspirado em Joaquim Pessoa, e em jeito de resposta ao seu poema "AGARRA-TE AO POEMA", que vi e ouvi declamado pelo amigo e poeta António Soares Ferreira.
Publicado na COLETÂNEA "SOMOS HORIZONTES DA POESIA II"
SEGURO PELO POEMA
Quando abro os olhos no meio da escuridão, eu vejo luz no poema.
Quando a solidão me lança no chão, levanto-me na força do poema.
Quando a mentira me mergulha no pântano, emerjo na limpidez do poema.
Quando a dureza da realidade me sufoca, eu grito pela boca do poema.
Quando o medo me impede de avançar, eu sinto a mão do poema.
Quando luto com a minha insegurança, sigo no leito do poema.
Quando a tristeza é tão forte como eu, deixo-me voar no sonho do poema.
Quando a dor me faz cambalear, eu bebo a cura no poema.
Quando não tenho o amor, eu abraço e beijo o poema.
Porque cada poema escrito é um caminho de luz para a vida.
José António de Carvalho, 09-novembro-2024
A poesia de JRUnder
Anjos de barro
Abram suas asas!
Voem, por sobre a humanidade na terra.
É urgente que todos possam vê-los,
É urgente que todos possam crê-los.
É preciso que se pare esta guerra.
Urge a verdade, urge o remédio,
Para um mal que carece da cura.
É pura a maldade que fere a inocência,
E nela arroga, a culpa da amargura.
Abram as asas e nelas acolham
As ovelhas humanas, desgarradas
Da sociedade infame, vítimas
Da natureza que se faz errada.
Anjos de barro, soldados da vida,
Ouçam o clamor desta gente sofrida.
Carentes de fé, esperança e amor
Distantes da vida e de seu criador.
sebastião morais
Gostava a mulher das rosas assim
Gostava a mulher das rosas assim e dos dias despidos,
Mirando eternamente o céu novo da manhã.
Admirando perpetuamente as rosas assim,
sozinhas sendo rosas.
A mulher é ágil e vil, a verdadeira mensageira da força.
Gosta a mulher da hostilidade de seu peito,
e crê que no fundo do baú de onde mora,
(ninguém sabe onde mora, padece sempre migrando)
caem os mais belos e fermosos retratos.
Retratos de quem ela quiser, de quem ela tocar.
Sobe a mulher a indomável montanha: vai colhê-las
Trepa.
Olha em frente, porque é o chão que a caminha,
e o seu nariz que a respira.
Ela só as colhe,
e colhê-las-á.
Dorme a dançar. Ousadia natural percorre
carne ínfima.
É ela a rainha do seu tempo.
José António de Carvalho
PROCURA
Coletânea "SOMOS HORIZONTES DA POESIA II" - 2025
PROCURA
Procuro-te nos barcos
de velas içadas ao vento,
nas proas levantadas
a rasgarem mares
de dores e desalento.
Nos travos de alegria
bebidos dum sonho
pintado a branco.
Mas depois aponho
que são apenas fantasia.
Procuro-te assim
sem rumo, sem norte,
a poucas páginas do fim…
Páginas gastas, amareladas,
que dizem tudo de mim
e também da minha sorte.
José António de Carvalho, 28-dezembro-2024
Kanienga L. Samuel - José
𝑺𝒊𝒍ê𝒏𝒄𝒊𝒐 𝒔𝒐𝒃𝒓𝒆 𝒂 𝑻𝒆𝒍𝒂
Às vezes, apetece soltar o peso,
Abandonar a terra e seus laços,
Saltando entre estrelas como quem procura abrigo,
Bater num asteroide — como quem desfaz os traços.
Mas até o vazio tem gravidade.
A fuga só muda o tamanho do buraco.
Sem as memórias que nos pintam por dentro,
A vida é um retrato lavado — sem vinho, sem dor, sem matiz.
Nuvens escuras formam-se por dentro,
Como pensamento denso ou ausência estendida.
E chove —
Não água, mas lembranças que se infiltram nas frestas do peito.
É estranho:
Num universo em expansão,
o homem encolhe.
Como pode a alma naufragar em tanto céu?
Há quem afunde sem deixar espuma,
Tenta tapar com silêncio o grito invisível.
Mas a ausência não morre com a morte —
Ela cresce onde o amor é trocado por ambição.
Deus, Complexidade e Amor —
Três fios que costuram o véu da existência.
Quando um deles se rompe,
o quadro perde sua luz.
Talvez não falte cor,
mas olhos que ainda saibam ver.
Talvez o mundo não esteja em branco,
mas nós — desbotando por dentro.
Luanda, Maio de 2025
A poesia de JRUnder
Primaverar
Primaverar
E eis que desponta setembro, e com ele despontarão novas esperanças, como as flores da primavera. No passado ficarão o frio, as amarguras, os dissabores, as desilusões.
Os cobertores e agasalhos que como escudos nos protegiam, agora nos libertam e a brisa que congelava nossos corações agora acarinha nossa pele e se faz desejada como uma carícia quase esquecida no tempo.
E novos sonhos florescerão como rosas, flores do campo, magnólias, bougainvilleas multicoloridas e nossos caminhos se abrirão como canteiros em flor.
Vem chegando a primavera. Deixe que ela adentre o seu coração e nele faça florescer o amor. Seja flor, seja amor, seja o aroma da paz. Viva na plenitude nessa estação.
Foi ela que a vida escolheu para nos mostrar que sempre é tempo de recomeçar, de fazer melhor, de olhar tudo de belo e grandioso que a vida pode nos mostrar.
Feliz primaverar!
A poesia de JRUnder
sebastiao_xirimbimbi
O poema que nunca mandei pra ti.
Queria ser o primeiro a dizer:
Feliz aniversário, mãe querida.
Saiba que:
O meu amor por ti cresce todos os dias,
É diário, é vida.
Te amarei enquanto estivermos vivos,
E torço para que realizes todos os teus sonhos,
Que alcances os teus objetivos,
E que floresças sempre como florescem os campos nos dias bonitos.
Não precisas dar-me presentes, não és o Pai Natal,
A tua presença é o maior presente, és: Especial, essencial, e maternal.
E os presentes que me dás, não os dás com objetos, como o Pai Natal costuma dar,
Mas com afeto, cuidado e amor de lar.
Fico feliz quando dizes que sou o motivo do teu sorriso
Maroto, contagiante, lindo.
Enquanto eu respirar, mãe, eu te amarei.
E seja lá onde eu for,
No meu coração, sempre te levarei.
Enquanto eu existir,
Farei de tudo pra te ver sorrir.
Pois o teu sorriso é o meu favorito,
Ele torna o meu mundo mais colorido e bonito.
Tu tens valor, não tens preço.
És bênção divina,
E por seres minha mãe, a Deus agradeço.
Tu és única, preciosa.
Por ti, faço poesia e prosa.
És inspiradora, talentosa,
Mulher abençoada, virtuosa.
És o jardim inteiro;
Não és apenas uma rosa.
Vales mais que diamantes,
Mais do que qualquer pedra rara.
Tens os olhos brilhantes,
Mais do que o brilho da aurora
Criaste-me com o carinho de mãe,
E a sabedoria de uma excelente professora.
Sempre foste guerreira,
Descendente de Nzinga
Mulher forte, batalhadora.
Amiga a qualquer hora.
Vales muito mais do que imaginas.
Tens um brilho único
Nada apaga essa luz que carregas.
Tu tens os requisitos de uma princesa,
É isso que penso,
Mesmo que palavras sejam só palavras…Espero que sintas, mais do que leias,
O amor transmitido nestas linhas.
Esse poema era pra terminar assim:
“Feliz aniversário, mãe.”
Mas a demora em chegar até ti
Transformou o final em:
“Descansa em paz, mãe.”
Por: Sebastião Xirimbimbi
A poesia de JRUnder
Silêncio
Tinha tanto a dizer que imaginei que uma vida seria pouco. Mas o tempo calou-me a voz e hoje o silêncio fala por mim.
E a voz do silêncio é triste e amarga.
Ela nasce na alma e morre no coração, enquanto o olhar se perde no horizonte.
E as razões não mais importam.
São apenas razões...
Tsunamidesaudade63
Escuta e não digas nada
Meu eterno amor
não digas nada por favor
da-me simplesmente a tua mão neste recomeço
e eu te levarei por caminhos que só eu conheço
Deixa-me espressar com ternura
tudo aquilo que quero falar
deixa-me abraçar-te com loucura
até meu abraço te sofocar
Por favor não digas nada
fica somente calada
deixa-me ser tua sombra pra onde fores
e eu serei pra ti o mais reluzente de todos os teus amores
Deixa-me conhecer-te de cor
e temperar a minha vida
com o sal do teu suor
Sei que nada disto te interessa
deixa-me pensar o que eu quiser
até ao dia que a morte me eleger...
Luzerna,29.09.2024, Joao Neves...
gabrielperalta217
Sobre a pouca vida que tive
a pouca vida que se vive
permito que a lua ilumine
tragédia de infinitas cores
algumas linhas já define
a pouca vida que pude viver
nela estive pouco tempo
o passado surge hoje
me roubando o momento
á pouca vida que chamei vida
não sei se posso assim dizer
as poucas pessoas que ficaram
ficaram sem me ensinar a viver
há pouca vida restante
repousa no vazio da mente
parte procuro discernir
parte está no presente
a pouca vida que está por vir
como um dia todos se vive
algum dia estive na vida?
duvido que em algum deles estive
Alicia Salvaterra
Alguém que não posso ser
Tentei ser alguém,
sem que fosse eu mesma.
Tentei afastar-me de mim o máximo possível,
para não tropeçar nos meus próprios pés,
e regressar ao que sou.
Se me trancar dentro de algo, será que tropeço?
E se cortar os pés?... Ainda posso tropeçar?
Tenho medo de voltar a ser quem já sou.
Tento mudar de todas as formas imaginadas,
Mas, cruelmente, mudar-me não cabe só a mim.
Depende de um outro fator:
uma voz exterior, adulta, grave, por vezes maldosa.
É ela quem me diz quem devo ser,
O que devo fazer,
E por vezes, o que posso ver.
Ela molda-me à perfeição.
E quando me perco,
ela reencontra-me.
Quase que como um localizador.
A poesia de JRUnder
Fuga
Não desejo a luz.
Que qualquer vestígio de sua presença, se apague. Quero o escuro total da solidão, da amargura, do sofrimento.
Quero deixar de pensar, de sentir, de querer, de ouvir, de sonhar.
Preciso de paz.
A escuridão não me permitirá ver os dedos que apontam meus defeitos e o silêncio fará com que não ouça as lamúrias das reclamações.
Não saberei do canto dos pássaros e do borbulhar das nascentes de águas límpidas. Não ouvirei o vento a soprar-me ilusões e assim não sofrerei o desejo de viver.
Quero o escuro breu na noite porque sei que não suportarei olhar em seus olhos
e saber que eles não olham nos meus.
A poesia de JRUnder
Ms. Feellings
Depressão.
Aquilo que me perseguiu por 5 meses inteiros.
Nunca me senti tão desesperada, tudo o que eu via era a morte,
a fome me fazia perder peso.
Eu não tinha esperança.
“Por que acordar?”,
“Por que comer?”
Até hoje não sei se me curei de fato, ainda sinto o vazio em minha alma.
Eu queria morrer. Enforquei-me com o lençol, cortei-me os pulsos
e os deixei sangrar até sentir-me limpa.
Devastador o olhar de minha mãe
quando tentei apagar-me com a fumaça.
Não acredito que me curei de fato,
ainda sinto o demônio pelas frestas das paredes.
Sinto-me impotente diante dos pensamentos que o demônio traz
quando minha mente está plena,
sei que nunca terei a paz,
mas eu não posso viver sem ela.
A vida é como um ciclo,
acordamos, comemos, saímos,
voltamos e dormimos todos os dias.
Não desejo espalhar a infecção aos que vivem ao meu lado,
inconscientes do que vivo e sinto.
Sorriem a mim, cegos para ver o demônio
que está sobre meus ombros a cada segundo.
Eu queria viver, eu não queria lidar com a dor
que rasgava minha alma e me esmagava de dentro para fora,
podia ver-se que, em meus olhos, eu a possuía.
Tomava meus sorrisos, calava-me o gargalhar
e estraçalhava a beleza que, aos meus olhos, não possuo.
A verdade é que aquilo calava-se
toda vez que eu me sentia suficiente a algo ou a alguém.
Nunca direi que venci a batalha contra ele,
porque eu nunca sequer a comecei.
Piadas de quem sou alguns fazem,
nenhum outro alguém me entende,
assim como eu mesma não me entendo.
Uma face de mim existe apenas
na cabeça de quem me vê, sorrindo com quem amo,
porém, ao chegar ao lar onde acordo e durmo,
sinto-me uma inverdade, uma farsa.
Dizer a alguém que possui ele em sua sombra
“Só sai dessa” ou
“Para que tanta tristeza? Você não tem motivos para isso”
só a torna pior.
Não importa se faz sol ou chuva,
tudo é escuro.
O Inferno onde pessoas más vão após a morte.
Dizem: “A pior parte do inferno não são as chamas e, sim,
a desesperança que domina a alma de quem mora lá.”
Esta é a pior parte do inferno que ele nos faz ver e sentir,
tudo escuro como a venda que sobrepõe nossos olhos ao dormir.
Nenhuma animação,
tudo o que está sobre nós é a morte.
A poesia de JRUnder
Assim como as águas
Na infância é nascente,
Água que brota do chão.
De forma constante, fluente
E que colhemos com as mãos.
Na juventude é ligeira,
Que jorra como cachoeira,
Mas não dura a vida inteira...
Veloz, como uma paixão.
Na velhice é lago sereno
De placidez constante,
Onde sopra o vento ameno
Que eterniza o instante.
Tempo de olhar para a chuva...
Sentir o frio e o calor.
De olhar para o nada e ver tudo
De viver apenas, o amor.
A poesia de JRUnder
Fui feliz.
Lhe dei meu olhar triste e meu direito ao sorriso,
Meu último pensamento ao adormecer e o primeiro ao despertar.
Entreguei em suas mãos, meus objetivos, meus anseios e meus sonhos,
Meu olhar perdido para infinito, lá onde nasce o mar e o horizonte...
Minha contemplação. Meu tempo, em cada segundo.
Alimentei minhas esperanças enquanto esperava por você e desenhava meu futuro quando ouvia a sua voz.
Descobri a minha felicidade escondida em cada canto de sua alegria e deixei-me afogar em cada lágrima sua.
Agora, frente ao espelho, não reconheço meu rosto. A vida passou e por ela passei, anestesiado assim, pelos seus cuidados e pelo seu carinho.
Fui feliz.
Carol Ortiz
NINGUÉM LIGA (inventário do homem em colapso)
Acordar,
Falar,
Sorrir,
Doer,
Sair,
Produzir,
Apaixonar (se),
Fazer,
Sentir,
Comer,
Sanar,
Defecar,
Andar,
Odiar,
Amar,
Urinar
Ler,
Banhar,
Parar,
Pensar (muito),
Pisar,
Pulsar,
Transar,
Cuspir,
Digerir (a vida),
Sonhar (tolices),
Estar,
Sumir,
Dissociar,
Confundir,
Respirar,
Aforgar (se),
Flutuar,
Jogar,
Assistir,
Estudar,
Diminuir (se),
Pressentir
(O grande vazio,
apático, insensível,
dedos frios,
indiferença)
Enlouquecer,
Chorar,
Gritar
(no desespero de nadar
na estranheza do abandono)
Abandonar (se)
E sorrir...
Gargalhar,
Vomitar
(o amargo na garganta,
a negligência da raça humana)
Recomeçar
Recomeçar
Recomeçar
"Ad infinitum"
Recomeçar
Ser
Forte,
Brava,
Espetacular,
Cumprir expectativas,
Metas
E se entregar à frustração
Tédio
Estupidez
Deitar
Finalmente
Suspirar
Morrer...
Parar no silêncio e, quem sabe, ser inteira outra vez?
...
Apenas uma performance acrobática da banal sobrevivência...
2025
Pedro Rodrigues de Menezes
o coração e o pão
quem não parte e reparte o coração
como quem parte e reparte o pão
incapaz de levar o rosto à mão
incapaz de lavar o rosto à mão
veio viu e vendeu o não.
Pedro Rodrigues de Menezes, "o coração e o pão"
Alicia Salvaterra
O miúdo e o cão
Havia um miúdinho,
sem nome nem passado,
nu, esquecidinho,
andava pela rua,
escaldante de tão gelada,
como sombra crua e nua.
Tinha um corpo em trevas
feito de cortes e pedras.
Quase parecia ter sido mastigado
sem dó nem piedade pelas calçadas com dentes da cidade,
era um pobre coitado.
Era seguido sempre
por um cão magro,
sofrido e largado.
Igual à ele.
O cão não ladrava,
muito menos cantava,
era inútil.
O miúdo, por sua vez,
também nada sabia,
nada lhe ensinaram.
Era imbecil,
imprestável,
invisível ao mundo.
Ambos só serviam um ao outro,
a ninguém mais.
Sentavam-se no pedregulho duro
à espera de um fim já impuro.
O miúdo, paciente,
para tentar ser eficiente,
esperou que o cão partisse,
para então poder matá-la —
a fome.
O cão, por sua vez,
até aprendera a contar até dez,
de tanto esperar que o miúdo,
vermelho de tão imundo,
fechasse os olhos
e dormisse de vez.
Assim, ele saciaria a fome
com lógica cruel,
mas destino cego.
Certo momento...
o miúdo, já derrotado,
deitou-se no granito
para poder descansar o seu corpo cansado,
o cão, desesperado,
cravou os seus dentes podres
no peito nu do miúdo,
com dó e piedade,
pois isso ainda lhe restava.
Mas morreu também,
porque o miúdo,
coitado,
não tinha carne sequer
para alimentar um cão.
Ademir D.Zanotelli *Poeta*
Poesias e Poemas
A no asfalto negro desta cidade... um pombo alado branco morto; atropelado por alguém que não sabe ... o símbolo de uma paz vindoura , que está com muitas dificuldades para chegar. A no asfalto negro deste bairro...longe da cidade: um pombo em cores diversas... pois com suas asas abertas , proclama uma esperança sem muitas dores , para os que sofrem nas guerras...crianças-mulheres-homens com a insanidade das mentes: que gostam de espalharem horrores . Por isso todos os pássaros deste mundo devem se reunir... para combater os infortúnios destas terras: que em guerras estão. A no asfalto negro das cidades grandes: seres humanos passando fome, esperando que um maná dos céus , venham em seu socorro... hoje pois o dia esta claro, e sem nuvens ; pois é bom para os senhores das guerras ; olharem para o infinito do nosso universo. Que um dia , eles serão o pó desta terra... e as nações vão sobreviver a mais este infortúnio , então não sejam ridículos ; pois teus filhos e filhas , habitarão o novo mundo da nossa imensa procriação. Ademir O Poeta.
Magno Ferreira
Zé Preto
Jogaram o Zé Preto no lixo.
Envergaram a coluna do Zé.
Nunca vi nada igual.
Deve existir por aí, mas eu nunca vi.
Subindo uma ladeira,
O Zé, se quisesse andar de quatro pé,
Era só estender os braços para onde o nariz apontava.
Ele tinha que fazer contorcionismo
Era pra olhar pro céu.
O Zé Preto era um homem envergado
Pelo peso nas costas de seus ascendentes.
Lançar o recém-nascido no lixo
É a continuação de uma história.
Os proprietários da mãe do Zé
Precisavam de comida na mesa,
Roupa lavada e casa arrumada.
Jogaram o Zé Preto no lixo.
José António de Carvalho
O MENINO
Coletânea "ALMA LATINA", Vol 6, 2025
O MENINO
Um menino pequenino
nos seus olhos de criança,
sonhava para o caminho
longas retas de esperança.
Olhava pelo postigo
Para ver a luz do dia,
Sempre fechado no abrigo
À medida que crescia.
O tempo lá foi passando,
O menino foi crescendo,
Nem podia acreditar
Nesse mundo que ia vendo.
Eram cidades inteiras
Em ruínas e desertas,
Alguns trapos de bandeiras.
Um horror de descobertas...
Fumos negros e os odores
A sangue já ressequido,
São agora mais duas cores
Que passam a andar consigo.
E perguntou para si:
Como seria aquele Homem
Que tudo aquilo fazia,
Poderia ser igual
Ao homem que em si crescia?...
José António de Carvalho, 28-agosto-2024
Luciana Souza
Olhos de Pedra
Olhos tortos, míopes, vesgos
Por que não veem o que eu vejo
Vidas manchadas, como elas
Podem ser nada? Pode uma
Esculturada cegueira
Sangrar? Que tanta frieza!
Ah olhos cegos que não
Veem nada, sua visão sim
Fora lapidada com
Uma venda que não pode
Ser tirada, de tão dura
Nada sente já que seu
Coaração se enrijeceu
Sua inércia é o que se vê
Sentada, rígida, armada
Pode ser o que tu temes
Mas seu peso é nada
Quando comparado a Deus.
Pedro Rodrigues de Menezes
os amigos
os amigos entardecem como papoilas
pousadas sobre o silêncio da garganta
penso, peso, escrevo, digo - axioma
que há campos póstumos de papoilas
que os amigos são as próprias amoras
invisíveis e negras no esquecimento da noite
absolvidos no absoluto tempo do crânio
rio, bato palmas, não regresso.
Poema dedicado ao Herberto
(Pedro Rodrigues de Menezes, "os amigos")
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