Escritas

Pedaço de madeira

Magno Ferreira

Jogaram-me num poço e eu não sabia nadar.

Aquilo que um jogador de futebol faz

Para cabecear uma bola no terceiro andar

Eu fazia para respirar.

Os espectadores festejavam.

Não sei quantas bolas cabeceei.

Por estarem saciados

Ou para o festival não dar errado,

Puxaram-me da água.

Os risos rolaram pelo chão.

 

Depois todos foram nadar.

Do meu lado ficou apenas um pedaço de madeira,

Com o qual eu me armei

E nenhum outro menino percebeu.

Com os sentimentos que me esmagavam

Lancei o troço na cabeça de um deles.

 

Começou a corrida.

Enquanto eles saíam da água

Eu abri uns trinta metros.

Mas havia meninos maiores, mais velozes.

Então, invadi a área dos cansanções.

Na roça era comum ser sapecado por urtiga bebê.

Mas o cansanção deve ser coisa do demônio.

Não foi o bom Deus quem criou aquela planta.

Os perseguidores desistiram de mim.

Mas eu conheci o fogo do inferno.

 

Pergunto ao meu eu,

Por que fazemos com o outro

O que não gostaríamos que o outro nos fizesse?

Miro o fundo da minha alma,

O fim do horizonte,

Tudo que é e não é meu

E me perco nesse breu.