O Lirismo do Perdido
Se lhe pudesse ter devorado,
No perdido instante,
O mais puro lirismo de teus
Olhos vertentes e amorosos,
Hoje meu coração
Não padeceria de fome...
Entendimento
Nunca tive em minhas mãos
Um passarinho que não me bicasse,
Nem em meus olhos
Um sonho que não me doesse,
Nem em minha vida
Um amor que não fenecesse.
E entanto, o entendimento de que,
Um dia,
Um passarinho pousou em minhas mãos,
E um sonho viveu em meus olhos,
E um amor me aconteceu em vida,
Encerra todas as minhas mágoas.
Das Perdas
De todas as perdas,
A mais áspera
É a do tempo.
— É dentro dela
Que estão
Todas as outras.
Despejo
Os versos que fiz dela ainda estão em mim,
E são muito belos para que não os despeje,
Ainda que, para tal, tenha de fazê-lo
A outros ouvidos que não os dela.
É algo como se pôr num jarro torpe
O bom vinho pertencido a uma
Garrafa nobre, porém,
Irrecuperavelmente
Estilhaçada.
Retrospecto Porvir
Se ontem me vi na esquina,
Como criança jocosa que fui,
Hoje me vejo no ontem mais próximo
– Jovem a matar a juventude.
Assim há também de ser o amanhã,
Quando vier a me ver no banco de hoje:
Humano incerto a pintar páginas
De versos brancos e angustiados.
E o que então sentirei, por pensar,
De alívio ou de eventual saudade,
É uma verdade que não me compete
– Pertence tão somente ao futuro.
Serei, contudo, um sempre vital projeto
A atravessar poentes, matinas,
Calçadas, praças, e avenidas;
Caminhos distintos que convergem.
Soneto do Ósculo
E quantos beijos ficaram perdidos
Nas vãs molduras da imaginação?
Condenados a serem esquecidos
Pelos lábios findados de paixão.
E ardem, ainda que jamais concebidos,
E, desse ardor, se aquece o coração.
Impossibilidade dos sentidos
Tornar em ósculo tanta ilusão!
Beijos não dados são mais saborosos.
A paixão inventada é mais bonita.
E quadros alheios são mais vistosos.
E de toda história de amor, contrita,
Com elementos bem mais que ditosos
A mais bela é a jamais escrita.
Ébrio
Sou um ébrio amante que mudou de foco:
Se era antes o teu corpo, é agora o copo.
Não mais há mel dos lábios, mãos, ou seios...
Há só o torpor de um desamor sem anseios.
Sou quem busca o incerto em devaneios
Diluído em cerveja, afogado em receios
Vendo a imagem reluzente de ti, no topo,
Florida na sujeira – ramo triste de hissopo.
Mas o solo que há em mim é alcoolizado
Pobre e mendigo, incapaz de abrigar flor,
E a visão que tenho de ti é um sonho malogrado,
Emoldurado, na lembrança, como um amor,
Sendo o âmbar defronte a este ébrio desatinado
De tais distorções sentimentais, o catalisador.
Óbice
O beijo é um tropeço
Na trilha da amizade.
Aliança
Formas partidas de cores queridas
Na carne de dois dançantes errantes
Que sucumbem aos grilhões dos instantes
Até que os instantes calem suas vidas
E embora calem as vidas, jazidas,
À sepultura do amor dos amantes,
Inda giram na memória, cantantes,
No carrossel das emoções perdidas...
Tão sutil lembrança, sem esperança...
Tal qual treco quebrado, sem conserto.
Esquecida, numa caixa, a aliança...
Moldada com esmero, por decerto,
Dada, inda, à insignificância
De remeter corações ao deserto.
Sussurro
Eram versos teus
Moldados
À tua imagem
E semelhança.
Concebidos
Numa inocência
Como que de criança.
Sussurrei-os ao teu ouvido
No mais íntimo
De todos os momentos.
Por intermédio dos versos,
Dei-te, inconsequente,
O coração
Que os forjou.
Possa o sussurro ter
Entrado por um ouvido
E por outro
Saído
Para que hoje os versos
Por ti tenham sido
Esquecidos.
Eram versos teus.
Já não são mais.
Tampouco versos meus,
Embora de mim escapem
(Pois não há porta de saída
No coração).
São tão somente versos.
E nada mais.