Crepúsculo da Estrela
Meu corpo é uma casca que jaz alheada,
Neste crepúsculo de céu profundo,
Esquecida da vida, esquecida do mundo,
Vislumbrando uma rua repleta de nada;
Acima desta rua nula, triste e desatinada,
Reside, ao degredo, um lume jucundo
Observada por meu espírito moribundo,
No azul, reluz uma única estrela abandonada;
Perco um suspiro nesta acre contemplação:
Vejo-a, e penso que ela me vê, também...
Alva luz súbita – leito de meu ferido coração;
Só o que me liga a mim, é o brilho que ela tem...
Em seu exílio vão, encontro eu compreensão
E sigo em solidão; só eu, a estrela, e mais ninguém;
Manias Birutas
O amor é um rei louco
Que dita regras ao coração,
Desejando sempre de tudo um pouco,
Sem saber acatar um “não”;
Nessa loucura do tal amor,
É o coração quem sofre o estorvo...
Mal se cura da última dor,
E já é obrigado a amar de novo;
Amando assim, tão loucamente,
Fere-se na busca por candor...
Mas, afinal, quem é que entende
As manias birutas do amor?
Perfume de Saudade
Uma velha ferida que arde
É tal qual uma pobre rosa
Que desabrocha quando morta
E tem perfume de saudade
E em cada agudo espinho
Desta flor desfalecida
Esvai-se um pouco minha vida
Numa sangria sem caminho
Nó
Recolho do nó da garganta
A entrelinha de cada escrito
De modo que a dor garanta
Fidelidade ao poema que sinto.
É a verdade que se alevanta
Dos confins de meu gesto sucinto
Mesmo calada, não se aquebranta
E, em cada poema, exaure seu grito.
Meu coração se desata em versos.
O Clipe
Não era mais que um miúdo
Quando, numa tarde qualquer,
Vi ao chão um objeto estranho
Aos meus olhos inocentes:
Um clipe de papel, reluzindo
Ao frágil facho de luz
Que descia ao quintal.
Tomei-o à mão...
Examinei-o...
Não o reconheci.
Curioso como eu era,
Levei-o a ti.
Lembro-me de teu riso
Ao tomá-lo à mão
E pô-lo ao bolso da blusa,
Afagando meus cabelos em seguida.
O resto daquela tarde perdeu-se.
Hoje, não há clipe que eu veja
Que não me remeta ao teu riso...
Saudosa avó de minha infância.
Partes
Em prol de tê-la
No meu coração
Renunciei de tê-la
À palma da mão.
E foi melhor assim.
Eu serei parte de ti
Tu serás parte de mim.
Parte aqui, parte ali.
Dança
Não há castigo maior
A um pensamento sedento
Por movimento
Do que a estagnação vaga
Nas memórias
De uma dança já findada.
Mar Castanho
Ondas de mar dos teus caracóis:
Tenros perfumes, formosos escóis
Vastidão lídima, de brava maré
Paraíso achado onde perdi a fé...
Mar de naufrágio, mar de girassóis
Mechas castanhas, tão gentis anzóis
Meu rosto sem fé, no mar afundado
Tal qual navio a esmo, devastado...
Só o que tenho a ofertar-te é choro...
Que flui até a ti com vão desvelo
E se dissipa em ingênuo abandono...
Ó, misto de beleza e desmazelo...
Inda afogo no teu mar, sem ter mar...
Inda morro ao relembrar teu cabelo...
Caminhando em uma Noite Solitária
O preço que eu pago
Por ser quem eu sou
É viver confinado
Dentro da minha própria tristeza
Afinal, nada mais sou
Do que uma miscelânea de incertezas;
Reconheço-me responsável, assim,
Pela minha tragédia presente,
De caminhar abaixo de um céu escuro
Com frio
E falando sozinho...
Sem ninguém com quem dividir
Meus mais íntimos tormentos;
Somente eu
E os assovios do vento;
Flor
Tinha uma única flor na praça.
Era, justamente, uma rosa solitária.
Pensei em fazer um poema
Para exprimir os possíveis
Sentimentos daquela flor amena.
A olhei. Olhei mais. Segui olhando.
Ponderei mil metáforas para
Atribuir àquela desgraçada rosa.
Imaginei prosopopeias malucas...
A olhei sob quase todas as lentes da mente.
Fi-la dama, ou princesa isolada,
Ou rainha exilada, poesia, canto...
E tanto, que quase deixei de perceber
Que estava eu também sozinho
Pairado num banco.
Quando o percebi, percebi algo mais.
Havia feito da rosa espelho de minha condição.
Fiz da rosa, eu, e de mim, rosa sozinha.
Vi-a conforme pensei...
Fi-la qualquer coisa senão rosa, sem fazê-la, portanto.
E quando agucei meu ser, no entanto,
Vi-a vermelha. Sim! Vermelha! E ri!
Sequer era ela o que o próprio nome sugeria!
E como sorri feito uma criança que aprende algo novo!
Como poderia eu chegar à essência da flor
Através de metáforas e insensíveis poesias?
Ah!... E descansei diante da rosa vermelha. Flor.
Caule. Raízes. Folhas. Pétalas. Espinhos...
Soube de súbito que nunca antes amara uma rosa.
E a solitária e silenciosa poesia honesta
Preencheu-me de um sentimento inexprimível,
Qual não ouso sequer descrever por verso.
E bastou-me de poesia por aquele dia.
A flor em si findou qualquer poema possível.
E desabrochei, como ela,
Para a realidade sublime
Do doce desconhecimento.