Escritas

Lista de Poemas

Ébrio

Sou um ébrio amante que mudou de foco:
Se era antes o teu corpo, é agora o copo.
Não mais há mel dos lábios, mãos, ou seios...
Há só o torpor de um desamor sem anseios.

Sou quem busca o incerto em devaneios
Diluído em cerveja, afogado em receios
Vendo a imagem reluzente de ti, no topo,
Florida na sujeira – ramo triste de hissopo.

Mas o solo que há em mim é alcoolizado
Pobre e mendigo, incapaz de abrigar flor,
E a visão que tenho de ti é um sonho malogrado,

Emoldurado, na lembrança, como um amor,
Sendo o âmbar defronte a este ébrio desatinado
De tais distorções sentimentais, o catalisador.
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Aliança

Formas partidas de cores queridas                                          
Na carne de dois dançantes errantes
Que sucumbem aos grilhões dos instantes
Até que os instantes calem suas vidas

E embora calem as vidas, jazidas,
À sepultura do amor dos amantes,
Inda giram na memória, cantantes,
No carrossel das emoções perdidas...

Tão sutil lembrança, sem esperança...
Tal qual treco quebrado, sem conserto.
Esquecida, numa caixa, a aliança...

Moldada com esmero, por decerto,
Dada, inda, à insignificância
De remeter corações ao deserto.
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Crepúsculo da Estrela

Meu corpo é uma casca que jaz alheada,
Neste crepúsculo de céu profundo,
Esquecida da vida, esquecida do mundo,
Vislumbrando uma rua repleta de nada;

Acima desta rua nula, triste e desatinada,
Reside, ao degredo, um lume jucundo
Observada por meu espírito moribundo,
No azul, reluz uma única estrela abandonada;

Perco um suspiro nesta acre contemplação:
Vejo-a, e penso que ela me vê, também...
Alva luz súbita – leito de meu ferido coração;

Só o que me liga a mim, é o brilho que ela tem...
Em seu exílio vão, encontro eu compreensão
E sigo em solidão; só eu, a estrela, e mais ninguém;
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Lembranças Feitas de Chuva

Tenho lembranças feitas de chuva:
Aguaçais, relâmpagos e trovões!
Desaguam suas tempestades imprevistas
Em pancadas fortes de emoções.

Como se exaure a chuva, senão com chuva?
...E muito chovo, assim, a relembrar...
De pingo em pingo, de gota em gota
Poder-se-ia encher todo um mar.

O mar que encho se chama página,
Em versos nublados de chuva caída.
Tenho lembranças feitas de chuva...
E nuvens feitas de águas da vida.
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Sussurro

Eram versos teus
Moldados
À tua imagem
E semelhança.
Concebidos
Numa inocência
Como que de criança.
Sussurrei-os ao teu ouvido
No mais íntimo
De todos os momentos.
Por intermédio dos versos,
Dei-te, inconsequente,
O coração
Que os forjou.

Possa o sussurro ter
Entrado por um ouvido
E por outro
Saído
Para que hoje os versos
Por ti tenham sido
Esquecidos.
Eram versos teus.
Já não são mais.
Tampouco versos meus,
Embora de mim escapem
(Pois não há porta de saída
No coração).
São tão somente versos.
E nada mais.
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Bala

Desfrutei do amor como se bala fosse:
Não o mastiguei, pois assim o teria ferido...
Não o apressei, pois assim o teria perdido...
Mas o deixei derreter, lento e doce...

Permiti que se dissipasse naturalmente:
Para que quando se cansasse das papilas
E se dessaborasse das rotinas
Desaparecesse sem deixar pedaços nos dentes...

Por ter desfrutado do amor, não me julgo mesquinho,
Afinal, ao menos amei... E foi-se,
Saboroso e breve como uma bala doce,
Da qual guardarei o embrulho com carinho...
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Praça

Findava-se outra tarde no horizonte.
Como de praxe, sentei-me no banco da praça
E, aflito, aguardei pela tua chegada.
Meus olhos ansiosos,
Transbordantes de expectativa,
Se inebriavam
E se viciavam
Na visão da esquina da rua
De onde era esperada a vinda tua.
A este sonhador cansado, nada mais havia.
Toda a praça enturvecia.
Ao espreitar os arredores, nada via:
Mesmo quando suspendia o olhar daquela rua
O fazia apenas na esperança de me surpreender
Por, ao retomar o olhar, encontrar tua figura.
O único odor que eu sentia
Era a imaginação do teu perfume...
A rosa ao lado, no canteiro,
De nada me valia. Se é que existia.
Nem mesmo as borboletas, mariposas, aves
Eram mais notáveis
Que as invisíveis joaninhas na relva.
Pois só o que via, ainda que sem ver,
Era tua face ausente.
Estava entorpecido, de peito incontinente.
Nada fazia eu, na praça, senão aguardar.
Esperei, esperei e esperei...
Ricocheteei em meu coração
Inúmeras vezes
A expectativa
De te ver virando aquela angustiante
Esquina.
Nem vi o Sol partir.
Nem vi a primeira estrela surgir.
Nada vi. Nem a mim mesmo.
Nem sequer a ti.
Então, pensei: “Não vem”.
Contentei-me de exausto.
Recolhi meu lamento em silêncio
Levantei-me
E fui-me embora
Incônscio
De toda a praça
 – Joaninha, ave, borboleta,
Poente, estrela...
– Quais por cego estar
De tanto aguardar
Desperdicei.
Deixei passar.
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Poço

Tentar extrair deste poço de angústia que sou
Uma mísera redondilha de amor, que seja,
É tal qual personificar a figura do tolo
Que busca fisgar espadartes no rio.

...É possível.

Desde que seja história de pescador.
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As Mortes Que a Vida Tem

Em vida, mais se morre que se vive.
Um rol de morte pautado em vivência
Que cresce no decurso da existência
À luz de um finado ser que revive.

Morre-se a criança, ainda que a cultive.
Bem como morre a breve adolescência.
Morre-se o jovem à intransigência
Do tempo que corre e morre em declive.

Deixa no passado a vela apagada,
Criança adulta de pulso inconstante...
– Em cada morte, uma nova jornada.

Não é a última a mais importante,
Qual tudo finda e reduz a pó, nada...
Bem mais vale a morte de cada instante.
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Soneto do Ósculo

E quantos beijos ficaram perdidos
Nas vãs molduras da imaginação?
Condenados a serem esquecidos
Pelos lábios findados de paixão.

E ardem, ainda que jamais concebidos,
E, desse ardor, se aquece o coração.
Impossibilidade dos sentidos
Tornar em ósculo tanta ilusão!

Beijos não dados são mais saborosos.
A paixão inventada é mais bonita.
E quadros alheios são mais vistosos.

E de toda história de amor, contrita,
Com elementos bem mais que ditosos
A mais bela é a jamais escrita.
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Comentários (4)

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sthefany
sthefany
2020-05-22

seus poemas são muito bem escritos e belíssimos!

rosalinapoetisa
rosalinapoetisa
2020-04-28

Parabéns por tão bela escrita poética, tens muito talento com as palavras. Abraços

rosalinapoetisa
rosalinapoetisa
2020-04-28

Muito obrigada pela apreciação de meu poema, sinto-me honrada. Abraços.

biancardi
biancardi
2020-03-20

Belos textos.