yuri petrilli

yuri petrilli

n. 2000 BR BR

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n. 2000-12-26, Cerquilho SP

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as nossas canções

não.
as nossas canções não tocam
nos bares
nem nas ruas
nem nas festas
nem nos carnavais.

e entanto
nas ruas
nos carnavais
nos bares
e nas festas
as nossas canções tocam em mim.

e eu nunca estou 
nos carnavais
nem nas festas
nem nas ruas
nem nos bares.
não.

estou sempre nos lugares imateriais
aos quais me remetem
as nossas canções.
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Poemas

169

Intermédio

Não vivo, nem morro.
Existo em intermédio
A vaguear no tédio
Sem saber pra onde corro.

O céu, o sonho...
Não me são tristes ou pesados.
São apenas dessaborados
Pelo ócio enfadonho.

Eu sigo.
151

Hidra

A solidão é um bicho
De uma única cabeça
Que inventa outras seis
Para culpar.
88

Praça

Findava-se outra tarde no horizonte.
Como de praxe, sentei-me no banco da praça
E, aflito, aguardei pela tua chegada.
Meus olhos ansiosos,
Transbordantes de expectativa,
Se inebriavam
E se viciavam
Na visão da esquina da rua
De onde era esperada a vinda tua.
A este sonhador cansado, nada mais havia.
Toda a praça enturvecia.
Ao espreitar os arredores, nada via:
Mesmo quando suspendia o olhar daquela rua
O fazia apenas na esperança de me surpreender
Por, ao retomar o olhar, encontrar tua figura.
O único odor que eu sentia
Era a imaginação do teu perfume...
A rosa ao lado, no canteiro,
De nada me valia. Se é que existia.
Nem mesmo as borboletas, mariposas, aves
Eram mais notáveis
Que as invisíveis joaninhas na relva.
Pois só o que via, ainda que sem ver,
Era tua face ausente.
Estava entorpecido, de peito incontinente.
Nada fazia eu, na praça, senão aguardar.
Esperei, esperei e esperei...
Ricocheteei em meu coração
Inúmeras vezes
A expectativa
De te ver virando aquela angustiante
Esquina.
Nem vi o Sol partir.
Nem vi a primeira estrela surgir.
Nada vi. Nem a mim mesmo.
Nem sequer a ti.
Então, pensei: “Não vem”.
Contentei-me de exausto.
Recolhi meu lamento em silêncio
Levantei-me
E fui-me embora
Incônscio
De toda a praça
 – Joaninha, ave, borboleta,
Poente, estrela...
– Quais por cego estar
De tanto aguardar
Desperdicei.
Deixei passar.
59

Poço

Tentar extrair deste poço de angústia que sou
Uma mísera redondilha de amor, que seja,
É tal qual personificar a figura do tolo
Que busca fisgar espadartes no rio.

...É possível.

Desde que seja história de pescador.
48

As Mortes Que a Vida Tem

Em vida, mais se morre que se vive.
Um rol de morte pautado em vivência
Que cresce no decurso da existência
À luz de um finado ser que revive.

Morre-se a criança, ainda que a cultive.
Bem como morre a breve adolescência.
Morre-se o jovem à intransigência
Do tempo que corre e morre em declive.

Deixa no passado a vela apagada,
Criança adulta de pulso inconstante...
– Em cada morte, uma nova jornada.

Não é a última a mais importante,
Qual tudo finda e reduz a pó, nada...
Bem mais vale a morte de cada instante.
188

Retratos

Ver-se crescido é angustiar-se
Ao revisitar velhos retratos
E não mais reconhecer-se.
Ah! Saudosos tempos abstratos...
Criança efêmera a rir-se...
44

Combustível

Não há poesia que surja do acaso.
Por trás de cada verso há um caso.
Nas estrofes há sangue. Nas letras, há dor.
Há as culminações dos instantes
Há desventuras de amor.
Há a felicidade, e há o desejo de ser feliz!
Há o choro, o sorriso – há aquilo que não se diz.
Há a culpa. Há a coragem.
Há a imaginação. Há a miragem.
Há guerras, há paz,
Há um misto de insumo
De humano, de tolo, e de sagaz.
Há, ainda que se possa desaperceber,
Fragmentos do que somos
– E do que pensamos (e desejamos) ser.
Há sempre algo mais
Que reside por trás
Da arte que se faz.
Mesmo o verso espontâneo
Não é um surgimento sem explicação:
É o estouro da barragem
Do denso rio do coração
Que faz com que todos os seus percursos
Convirjam em uma direção.

...É a vida o combustível
Que torna a poesia possível.
245

Lembranças Feitas de Chuva

Tenho lembranças feitas de chuva:
Aguaçais, relâmpagos e trovões!
Desaguam suas tempestades imprevistas
Em pancadas fortes de emoções.

Como se exaure a chuva, senão com chuva?
...E muito chovo, assim, a relembrar...
De pingo em pingo, de gota em gota
Poder-se-ia encher todo um mar.

O mar que encho se chama página,
Em versos nublados de chuva caída.
Tenho lembranças feitas de chuva...
E nuvens feitas de águas da vida.
84

Bala

Desfrutei do amor como se bala fosse:
Não o mastiguei, pois assim o teria ferido...
Não o apressei, pois assim o teria perdido...
Mas o deixei derreter, lento e doce...

Permiti que se dissipasse naturalmente:
Para que quando se cansasse das papilas
E se dessaborasse das rotinas
Desaparecesse sem deixar pedaços nos dentes...

Por ter desfrutado do amor, não me julgo mesquinho,
Afinal, ao menos amei... E foi-se,
Saboroso e breve como uma bala doce,
Da qual guardarei o embrulho com carinho...
133

Coruja

De tanto olhar para trás,
Perdeu de vista o futuro
E só ganhou torcicolos.
182

Comentários (4)

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sthefany

seus poemas são muito bem escritos e belíssimos!

rosalinapoetisa

Parabéns por tão bela escrita poética, tens muito talento com as palavras. Abraços

rosalinapoetisa

Muito obrigada pela apreciação de meu poema, sinto-me honrada. Abraços.

biancardi

Belos textos.