Escritas

Lista de Poemas

INTEGRALMENTE

Houve um tempo
Em que envenenei meus próprios versos
Com a pretensão de fazê-los belos e leves,
Para que me não julgassem tão triste.
Para que me julgassem sublime e primoroso.
Para vencer troféus e prêmios em dinheiro.

Entanto, a beleza fabricada
Sempre me doeu muito melancolicamente,
Através da consciência da lírica falsa...
E por diversas vezes fiquei serenamente triste,
Tendo, aos ouvidos, os regozijos inocentes
E, às palmas, os plásticos gelados dos troféus.

Hoje, não mais.
Não me vale.
Não há pretensão que valha a verdade.
Não há insinceridade que valha um verso.

Se me tiver que doer
(Ou a quem quer que seja),
A minha poesia,
Pois bem. Pois que doa.

Mas que seja ao menos a dor do verossímil;
Ou a dor que se deriva
Do esforço imperfeito e desesperado
De elucidar em palavras limitadas
A abstração das coisas imensas.
Se assim for, aceito viver a dor
Da poesia integral.

Belo, feio, triste, alegre, bom, mau, apreciado, repugnado...
Não mais que atributos secundários
Ao que verdadeiramente me interessa:
A consciência de ser autêntico
– A mesma que um dia cantou Aninha, sabiamente.
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Ruína

Desejou perder a infância
E poder deixar a casa.

Desejou ficar sozinho
E engolir muito veneno.

Desejou ter liberdade
Da presença da família.

Não fez senão desejar
Sedutoras abstrações.

A vida toda esfaimado,
A vida toda a pensar:

 “Serei então feliz! Serei
Completo e encontrarei a paz!”

...E assim foi sua tragédia.

– Seus desejos se cumpriram.
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Poema Para As Cores

Sei que de nada se pode conhecer a cor essencial,
Pois o que chega aos olhos é sempre um reflexo impreciso.
Por isso, quando me perguntam
Qual é a minha cor preferida,
Gosto não de responder vermelho, verde, roxo, amarelo, ou azul,
Que são todas convenções inexatas,
Mas sim de responder com o que aufiro de belo
Dessa inexatidão: sensações.
Essas sim, muito mais verdadeiras e inteligíveis,
Profundamente entranhadas em sangue e vida,
Às quais o errante olhar não é senão intermédio.

Assim, digo que a minha cor preferida
É a cor que tem o riso frouxo de minha mãe,
Mas que também tenho sentimentos muitos
Pelas cores da memória, das chuvas, das canções,
Das poesias, ou mesmo pelas cores dos descansos,
(Gosto até das cores que têm a melancolia, a tristeza e a saudade),
Que são todas sensações.

Prefiro-as, pois as conheço enquanto essências,
E é com elas que gosto de colorir
As minhas nulas telas quotidianas.
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Canção Azul

Quando a vi última vez,
Foi em silêncio
Mútuo e absoluto,
À imensa distância de um palmo,
Em uma fila de adeus
Inadvertido.

A gravura infinitamente
Nítida e emudecida
Dos cabelos louros,
Escorridos sobre as costas,
Reacendeu
No meu coração,
A melancolia daquela velha canção...

E permiti-me, quieto,
Saudar, novamente, a bela procissão de ilusões
Excessivamente azuis...
– Azuis como a capa de chuva de ombro rasgado,
A qual dependurei
Em um lar hipotético.

(Pensei, também,
Em um jardim, ao fundo do lar...
Onde todas as flores
Tinham fragrâncias
De cabelos louros
E saudades).

E quando ela foi deixando a fila
Muito devagar
Sem sequer olhar para trás,
E o palmo de distância
Tornou-se dois, três, quatro,
– Uma dízima de palmos –
Aquele lar ruiu
Absolutamente
E foram-se os últimos acordes.

Sorri conformado.

E fui embora.

Alberguei, no entanto,
A rasgada capa de chuva no peito,
Ao lado do que restou do jardim.

...Sempre amarei esta canção
Excessivamente azul.
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O Sutil Convite da Angústia

Quando caiu a noite,

Os girassóis repousaram cabisbaixos sobre os campos,
A cadela se calou, enrodilhada em seu cubículo sujo,
Pai, mãe, e irmãos adormeceram pacificamente,
As paixões hipotéticas fecharam-se como ostras,
Os raios de sol desmaiaram por detrás do horizonte,
E toda a vida acalmou-se em seu escuro e em seu silêncio.

E, como a noite fosse uma lâmina de incompreensível ternura,
A rasgar feridas profundas em seu coração e consciência,
Ele diluiu-se à noite, desesperado.

Desejou encher os olhos do vívido amarelo dos girassóis,
Desejou, em uma piedade repentina, acariciar a cadela,
Desejou, inefavelmente, os amores de seu pai, mãe e irmãos,
Desejou aventurar-se e desventurar-se em ébrias paixões,
Desejou, melancolicamente, estirar-se ao Sol, na relva,
E, apaixonadamente, adormeceu com a vida a fazer peso na garganta.

E entanto, quando ascendeu o dia,
E a vida reergueu-se junto ao cântico dos pássaros,
E o Sol reabriu seu amplo leque de possibilidades,

Ele não avistou nenhum girassol.
Não acariciou a cadela.
Não amou seu pai, mãe, ou irmãos.
Não se rasgou de paixões.
Tampouco esteve ao Sol.

Sobretudo,
Ele não viveu.

E todos os seres e coisas, mesmo as mais inanimadas e poucas,
Seguiram a dançar, absolutamente irreverentes,
Conforme as guiava o tempo.
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Galeria

Registros amarelecidos e amontoados,
Emoldurados em saudades e cismas.

Longínquas e sorridentes silhuetas,
Enlaçadas, e incônscias do porvir,

Hoje, esvaídas pelos vãos das ampulhetas,
Cujos grãos esparramados de seus fados cá estão,

Em registros mutilados e completamente inúteis,
Emoldurados em cismas e saudades.

Sinto falta de quando éramos mais
Que meras fotografias.
👁️ 49

A Porta Entreaberta

No escuro intermédio
Entre a certeza
Do que foi,
E a incerteza
Do que seria,
Houve uma porta
Entreaberta.

Os sussurros
De duas intenções
Conflitantes
Faziam-na ranger
Em uma sinfonia
De desassossegos
Lancinantes.

Rangia... Rangia...
Balouçava... Balouçava...
E náusea e pavor volviam
Ante o dever de lidar
Com o ranger e com o balouçar.

...Quando das culminações
Nasceu, em mim,
Uma terceira intenção,
Ríspida por excelência,
E à sua luz decidi definir
O destino de tal porta,

Senti o coração esmigalhar-se...
Mas a luz de um novo dia
Nasceu no horizonte.
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Xadrez

Vão-se os meus peões,
Cavalos, bispos, torres,
E, eventualmente,
A dama e o rei.
Xeque-mate!
O tabuleiro está perdido.

E entanto,
Sinto-me o grande vencedor,
Por não ter perdido
Um instante sequer
Do doce brilho
Do teu olhar concentrado.
👁️ 35

O Parquinho Revisitado

Salta o garotinho do balanço.

Ele vem até mim,
Me apanha pelo braço,
E me leva a passear ao redor
Dos brinquedos do parquinho.

Vejo as velhas gangorras,
Balanços, gira-giras que rangem,
Escorregadores, casinhas...
E ouço as velhas risadas.

O garotinho também me mostra
A sua nova bola de capotão,
Sua camisa amarela, e suas chuteiras...
Depois ri do próprio sonho futebolístico.

O garotinho
Revive
Diante os meus olhos.

E eu, ao fitar, de súbito, seus cabelos louros,
Seu sorriso banguela,
E suas roupas encardidas,

Entristeço-me
Ao atestar que
Um dia
Já fui feliz.
👁️ 59

Entendimento

Nunca tive em minhas mãos
Um passarinho que não me bicasse,
Nem em meus olhos
Um sonho que não me doesse,
Nem em minha vida
Um amor que não fenecesse.

E entanto, o entendimento de que,
Um dia,

Um passarinho pousou em minhas mãos,
E um sonho viveu em meus olhos,
E um amor me aconteceu em vida,

Encerra todas as minhas mágoas.
👁️ 249

Comentários (4)

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sthefany
sthefany
2020-05-22

seus poemas são muito bem escritos e belíssimos!

rosalinapoetisa
rosalinapoetisa
2020-04-28

Parabéns por tão bela escrita poética, tens muito talento com as palavras. Abraços

rosalinapoetisa
rosalinapoetisa
2020-04-28

Muito obrigada pela apreciação de meu poema, sinto-me honrada. Abraços.

biancardi
biancardi
2020-03-20

Belos textos.