A Lua Ao Longo do Dia
yuri petrilli
I
Fazia tempo que eu não via a aurora
Pintar o céu com sua cor de sangue,
Tendo ao centro a Lua, e seu riso exangue,
Como o coração minguante do agora.
Raia o Sol... Mas a Lua não vai embora...
Como se teimasse em permanecer,
Renegando a ideia de adormecer,
E preferindo sorrir fora de hora.
Mas, afinal, da lua, qual o tempo?
Não sei... E de súbito, ponho-me a cismar
Por algum motivo que não sei bem.
Talvez seja por me fazer lembrar
Que já sorri fora de hora, também,
E fiquei só, por agir em contratempo.
II
Pairo distraído em meio à paisagem,
A bruta paisagem de minha rua.
Distraído, olho o céu... E sem miragem,
Em pleno meio-dia, vejo a lua!
E dessa vez, ela é mais que um sorriso:
É uma face pálida e completa
Um vestígio da noite sem aviso,
Um espelho à condição de poeta.
De um lado, a Lua, de outro lado, o Sol.
Mui distantes e desmitificados,
Partilhando do céu por um acaso...
É desde a aurora que formulo um rol
De tantos pensamentos dedicados
Aos espólios de meu próprio caso.
III
Eu vejo a noite escurecer a terra,
E descansa, de repente, a emoção...
Emerge a lua, por detrás da serra,
Absoluta, sem nenhuma comoção.
Não me entristeço e tampouco me alegro,
Há só cansaço no meu coração...
E no silêncio deste manto negro
Reluz a estrela da muda canção.
Mas há algo de belo neste momento
Em que reluz mais forte em meu relento
A Lua que me cede companhia...
Entendo o seu sorriso de mais cedo:
Brilho melancólico e sem segredo
Que se manifesta na poesia.
IV
Afinal, sou eu que anoiteço.
Devagar, se apaga tudo.
Resto, entanto, em sono mudo,
E de nada mais careço.
Tenho da aurora a candura,
Do crepúsculo o fulgor
Da noite o brilho, o frescor...
Num só sonho de brandura.
Sempre presente, está a Lua,
Lua da noite, e do dia...
Dentre as luzes, a mais nua...
Lua triste e fugidia,
Traz a mim a vida crua...
Boa noite, poesia.
Fazia tempo que eu não via a aurora
Pintar o céu com sua cor de sangue,
Tendo ao centro a Lua, e seu riso exangue,
Como o coração minguante do agora.
Raia o Sol... Mas a Lua não vai embora...
Como se teimasse em permanecer,
Renegando a ideia de adormecer,
E preferindo sorrir fora de hora.
Mas, afinal, da lua, qual o tempo?
Não sei... E de súbito, ponho-me a cismar
Por algum motivo que não sei bem.
Talvez seja por me fazer lembrar
Que já sorri fora de hora, também,
E fiquei só, por agir em contratempo.
II
Pairo distraído em meio à paisagem,
A bruta paisagem de minha rua.
Distraído, olho o céu... E sem miragem,
Em pleno meio-dia, vejo a lua!
E dessa vez, ela é mais que um sorriso:
É uma face pálida e completa
Um vestígio da noite sem aviso,
Um espelho à condição de poeta.
De um lado, a Lua, de outro lado, o Sol.
Mui distantes e desmitificados,
Partilhando do céu por um acaso...
É desde a aurora que formulo um rol
De tantos pensamentos dedicados
Aos espólios de meu próprio caso.
III
Eu vejo a noite escurecer a terra,
E descansa, de repente, a emoção...
Emerge a lua, por detrás da serra,
Absoluta, sem nenhuma comoção.
Não me entristeço e tampouco me alegro,
Há só cansaço no meu coração...
E no silêncio deste manto negro
Reluz a estrela da muda canção.
Mas há algo de belo neste momento
Em que reluz mais forte em meu relento
A Lua que me cede companhia...
Entendo o seu sorriso de mais cedo:
Brilho melancólico e sem segredo
Que se manifesta na poesia.
IV
Afinal, sou eu que anoiteço.
Devagar, se apaga tudo.
Resto, entanto, em sono mudo,
E de nada mais careço.
Tenho da aurora a candura,
Do crepúsculo o fulgor
Da noite o brilho, o frescor...
Num só sonho de brandura.
Sempre presente, está a Lua,
Lua da noite, e do dia...
Dentre as luzes, a mais nua...
Lua triste e fugidia,
Traz a mim a vida crua...
Boa noite, poesia.
Comentários (1)
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biancardi
2020-04-23
Lembrei de Drummond e Cecília ao ler essa poesia. Muito boa!
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