Escritas

Lista de Poemas

Ventura

Entreabriu-se plenamente ao meu coração, 
Deu-me o olhar guia do meu desígnio, 
Cultivou minha alma no amor, 
Alimentou-me com os frutos do desejo, 
Desnudou-me da tristeza injuriosa, 
Florindo as delícias do sentimento, 
Além do que pude imaginar. 

Meu mundo se refez ao seu toque, 
Meu riso chegou ao céu, 
Depois de tanto tempo de penumbra, 
Tudo isso é felicidade em mim, 
Beleza grandiosa que me encanta, 
Poetizando a vida revivida, 
Depois do meu funeral. 

O sol está brilhando depois da tempestade, 
Finalmente posso plantar a semente, 
Ver brotar a árvore da vida no meu jardim, 
Regá-la toda manhã com a esperança, 
Vê-la crescer enquanto aguardo a despedida, 
Adormecer junto dela sem medo, 
Acordar no paraíso sabendo que valeu a pena ter vivido. 

Sirlânio Jorge Dias Gomes 






👁️ 721

Audácia

Corro no chão batido em direção ao gol, 
Lanço a bolinha de gude no alçapão, 
Desço no carrinho de rolimã, 
Chego em casa sujo de poeira, 
Após um longo dia de aventuras, 
Na beleza de uma infância saudável, 
Pensando no dia seguinte, 
Antes ou depois das aulas. 

Tantas alegrias de dias que se foram, 
Amigos que partiram em seu tempo, 
Histórias gravadas da memória, 
Todo amor do mundo cheio de simplicidade,
Alegria até na tristeza do dedo ferido, 
Ou joelho ralado das peripécias, 
Presenteado com puxões de orelha, 
Ou até mesmo uma tunda. 

Bela infância de uma ascendência única, 
Que qualquer presente dado, 
Era a melhor coisa do mundo, 
Motivo de longos sorrisos, 
Brilho nos olhos de um ano inteiro, 
Pedido atendido do papai Noel, 
Descobertas de uma vida, 
Aprendizagem para a maturidade. 

Há tanto entre uma geração e outra, 
Juventude sob o risco da morte precoce, 
Aventurando-se na desobediência, 
Na loucura do desconhecido, 
Longe da sabedoria dos pais, 
Buscando a própria sorte ao vento, 
Bobagens dos mais velhos caretas, 
Sepultando jovens na cova da rebeldia. 

Sirlânio Jorge Dias Gomes
👁️ 669

Mefistofélico

Tantas curvas pelo caminho!
Pessoas se agridem sem temor,
Trazendo em seus corações,
Sentimentos inglórios,
Lançando pedras pelo ar,
Enquanto se ferem feridos,
Pela dor em suas almas,
Cheios de si no vazio de tudo.

Medos combatendo medos,
Perdidos nos caminhos da discórdia,
Defendendo-se do desconhecido,
Antes mesmo de serem atingidos,
Fingindo amizade aos amigos inimigos,
Alimentando os corvos no jardim,
Fantasiados de bons convivas,
Imerso de ciúmes invisíveis.

Tantos olhares indizíveis,
Indescritíveis banalidades do afeto,
Bombas relógio da covardia,
Dilacerando a beleza da vida,
Nos estilhaços da indiferença,
Matando os dissemelhantes iguais,
Causa estranha do heterogêneo juízo,
Atrocidade de um mundo decaído.

Há quem diga do monstro voraz,
Sem reconhecer a humana disposição,
Dos demônios silenciosos escondidos,
Mentiras astuciosas travestidas de bondade,
Sementes cruéis da flor da maldade,
Embrulhando a caridade cheia de veneno,
Nos mananciais das intenções ardilosas,
Feito anjo da morte repleto de luz.

A beleza do falso amor entorpece,
Leva ao caos a harmonia das coisas,
Desequilibra o universo que nos une,
Diminui os batimentos da existência,
Fechando nossos olhos ao além,
Retardando a evolução invisível,
Hermético saber do espírito aguardado,
Inconcebível ao injurioso mundo sarcástico.

Sirlânio Jorge Dias Gomes
👁️ 705

Arbítrio

Amor! 
Há tantos amores no amor, 
Que o próprio amor se confunde, 
Em meio a tantas identidades, 
Reciprocidades de proporções vazias, 
Vagando entre sentimentos frívolos, 
Devorando a sensatez enlouquecida, 
No carente coração aos gritos. 

Amor? 
Voluptuoso tempo ao lúbrico deleite, 
Lapso de almas adjacentes ressentidas, 
Vagando entre as ilusões iludidas, 
Mistério premente do corpo apressado, 
Furtivo enredo castigo da liberdade, 
Premeditando a infelicidade ao louco desejo, 
Despindo o inconveniente eu aprisionado. 

Amor... 
Haverá de ser em si como aprouver, 
Consoante calma ao anseio da vida, 
Causa do destino amparo verdadeiro, 
Sentimento mútuo coerente felicidade, 
Seduzindo a amizade apaixonada, 
Amando o que deve ser amado  
Sem medo de encontrar-se. 

Essencial, 
Amar o amor ao tê-lo, 
Vivenciar a autenticidade das coisas simples, 
Perceber-se no outro na razão de ser, 
Sorrir, abraçar e beijar, 
A fidelidade ao conjugado olhar, 
Ser livre numa comedida liberdade, 
Sem aborrecer a harmonia que o precede. 

Sirlânio Jorge Dias Gomes
👁️ 664

Atitude

É como se eu estivesse no alto de uma montanha, 
Olhando o mundo em todo o teu amor, 
Buscando a força de tanto sentimento, 
Sabendo que me acalma quando me toca, 
Todas as coisas se tornam menos difíceis, 
Ao ter tua presença ao meu lado, 
Diante de tantas coisas girando ao nosso redor. 

Sinto-me como se pudesse voar para sempre, 
Beijando a liberdade refletida nos teus olhos, 
Uma loucura santa diante de tanta beleza, 
Flertando com a noite para que nunca se acabe, 
A felicidade de termos a lua como testemunha, 
Diante do imenso céu da esperança, 
Em não perder as batidas do coração. 

Os sonhos são iguais a noite e o dia, 
Trazendo em si a intensidade de um momento, 
Dando cores as emoções imprescindíveis, 
Olhares diuturnos em todas as direções, 
Imitando as nuvens do céu, 
Imagens da nossa existência audaciosa, 
Explorando as estradas do destino. 

As tuas mãos são minhas, 
Unidas ao mais íntimo querer, 
Dialogando com a vida em seus bordões, 
Interpelando a alma sobre a essência das coisas, 
Tangível serenidade ao fim inevitável, 
Repleto de memórias transcendentes, 
De tudo que valeu a pena ser vivido. 

Sirlânio Jorge Dias Gomes




👁️ 733

Tenebrosidade

Meu corpo se confunde a nesga noite, 
Intensa solidão furor que me fere, 
Lúrida imagem que me exprimi, 
Ali na minha cela fria sepulcral, 
Imaginando a fímbria luz do paraíso, 
Enquanto os monstros da escuridão, 
Afugenta minh'alma dolorida, 
Vociferando ao meu eu perdido. 

O pesadelo sombreou minha face, 
Quando meu rosto ali adormecido, 
Vislumbrava o serafim de asas negras, 
Abrindo suas asas de fogo ao meu espanto, 
As correntes queimavam meu pulso, 
Eu me via sentado diante da minha loucura,
Preso aos meus medos mortais, 
Visionando a luz da liberdade. 

A imensidão do nada sussurrava meu nome, 
Alucinação da despedida ofegante, 
Sepultando meu irônico riso, 
Pranteado em lágrimas de sangue, 
Ao silêncio dos silêncios toque da morte, 
Cobrindo-me com seu lúgubre véu, 
Inclemente destino ao fim aguardado, 
Levando ao suplício o espírito nefasto. 

Vou flutuando entre as sombras, 
Sentindo o cheiro da podre humanidade, 
Desfeita em névoas da inexistência, 
Vendo as criaturas maquiavélicas, 
Delirando-se na escura energia dos boçais, 
Enlouquecidos em suas violadas ilusões, 
Arrastados ao mais profundo nada, 
Estendendo suas mãos etéreas ao inconcebível. 

Sirlânio Jorge Dias Gomes





👁️ 192

Simetria

Era um dia comum,
Até então igual a tantos outros,
Sentei no meu jardim,
Respirei fundo sentindo a vida,
Tanta pressa em meu peito,
Um pedacinho do paraíso diante de mim,
E só agora descobri num momento de simplicidade,
Que necessitamos de pouco para ser feliz.

Precisamos apenas de um sorriso verdadeiro,
Um olhar singelo diante do mundo,
Estar com a alma sossegada ao dever cumprido,
Observando a vida nas asas do tempo,
Exercitando o amor quando se torna improvável,
Amar tanto neste mundo repleto de caos;
Mantendo a fé na esperança,
Alimentando os sonhos de uma criança.

Um dia jovem sonhei como quem almeja,
Noutro dia velho almejarei como quem sonha,
Ver os filhos felizes com seus filhos,
Percebendo a felicidade dos netos,
Ao sabor de muitas emoções da existência,
Desejando que o mundo não se torne amargo demais,
E que as pessoas vivam de verdade a própria verdade,
Exercendo a caridade do jeito que desejam ser amadas.

Sirlânio Jorge Dias Gomes
👁️ 715

Cuidado

Respire fundo, 
Há em ti uma vida grandiosa, 
Parte de um mistério milagroso, 
Do tamanho do universo, 
Mansão silenciosa do teu corpo, 
Buscando o sentido da existência infinita, 
A que chamamos de alma, 
Esperança da eternidade ao finito conhecimento. 

Pare por alguns segundos, 
Olhe a lua e o sol sobre sua cabeça, 
Investigando a solidão que te aflige, 
Busque perceber a beleza de tudo que existe, 
Ainda que tudo pareça triste, 
Sob os vendavais da ganância humana, 
Que vive numa evolução involuída, 
Construindo túmulos invisíveis. 

Deslumbrai o deslumbrável, 
Amai incondicionalmente o amor, 
Dialogando com o tempo enquanto caminhas, 
Questionando o mundo a sua volta, 
Flertando com a morte sorrateira, 
Contando os passos de tua despedida, 
Ao compasso do teu carente coração, 
Desabrochando entre os labirintos da vida. 

Respire fundo, 
Não deixe a pressa te assaltar, 
Deixando o que é importante para trás, 
Perdendo o melhor de dois mundos, 
O teu eu e tua família imperfeita, 
Colhendo contigo as pérolas da sabedoria, 
Entreolhando-se entre desalinhos, 
Cúmplices de um mesmo sofrimento. 


sirlanio jorge dias gomes
👁️ 209

Tropeço

Andando na rua tropecei, 
Senti uma tremenda dor no pé, 
Não doeu tanto quando ousei amar, 
Mas  a dor foi tanta que chorei, 
Do pé perdi o sapato, 
Do amor perdi a mulher, 
Triste sina deste que vos fala, 
Neste momento quase filosófico. 

Tropeçando aprendi a andar melhor, 
Passei a prestar atenção no caminho, 
Também no desalinho na vida, 
Que é amar a quem não lhe devota amor, 
Ambas as coisas causam dor, 
Senão forem feitas com cuidado, 
Muitos tropeços pode fazer perder o pé, 
Tal qual muito amores abstraídos. 

Podem matar um coração sofrido, 
Quando não mata disciplina, 
Ensina andar direito o distraído, 
Absorto em pensamentos, 
Sem perceber o perigo, 
Que pode levá-lo a ruína, 
Não importa em qual esquina, 
O perigo da jornada é iminente. 

Sirlânio Jorge Dias Gomes
👁️ 220

Perseverança

Tenho uma folha em branco diante de mim, 
Cabem tantas coisas quantos os meus dilemas, 
Nesta folha cabem sorrisos,olhares e gestos, 
Jeitos indigestos,críticas,tristezas e alegrias, 
Uma infinidade de emoções transitórias, 
Histórias com rimas ou sem rimas, 
sofismas,paralogismos,máximas e... 
A sua mente individual seguirá o curso. 

Afinal, você está lendo tudo isso; 
Talvez esteja se perguntando onde está a poesia; 
Enquanto tomo uns goles generosos de café, 
Percebendo a noite pela janela do meu quarto, 
Sentindo o cheiro das flores do meu jardim, 
Ouvindo os cães ladrarem enfurecidos, 
Deixando meus pensamentos voarem, 
Sem medo de pousar em outra mente. 

A lua está lá fora serena e calma, 
A minh'alma agitada cheia de ousadia, 
Aventura-se na loucura do tempo, 
Querendo escrever um poema, 
Rindo-se do meu corpo com uma pena na mão, 
Fazendo alguns rabiscos com os dedos ansiosos, 
Pensando em alguns poetas que já li, 
Buscando alguma ideia que valha o sacrifício. 

São seis horas da manhã, 
Acabei de acordar de um longo cochilo, 
Com o sol dando-me bom dia, 
O café esfriou na xícara cansada de me esperar, 
A lua se foi sem ao menos se despedir, 
Na folha caída ao chão tem algo escrito,
Será um poema? 
Mais tarde tomarei coragem para saber. 

Sirlânio Jorge Dias Gomes


👁️ 201

Comentários (2)

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Zuleica
Zuleica
2019-08-10

Palavras que saem do coração

dionesbatista
dionesbatista
2018-11-25

Belos escritos. Adelante!