Escritas

Lista de Poemas

Intuito

Há um outro tempo dentro do nosso tempo,
Irônico poder que nos envaidece,
Seguindo com a faca entre os dentes,
Envenenando-se a cada discurso de ódio,
Vertendo silenciosamente entre os lábios,
A penosa morte que nos desorienta,
Quando abraçamos a imortalidade,
Tentando prender entre os dedos as nuvens.

Nossa alma inquieta serpenteia entre orações,
Absoluto desespero da despedida,
Tocando o corpo sob as ondas do medo,
Perdido talvez em olhares lúdicos,
Semblantes ardilosos diante do inevitável,
Buscando a perfeição ao último ato,
Na esperança de que tudo possa ser melhor,
E que possamos partir em paz.

Deixamos aos incautos a rivalidade,
Laços consanguíneos na grande arena da vaidade,
Perdidos entre o poder,
A estampar suas faces assombrosas,
Como quem vê as faces de um santo,
No espírito de uma serpente dissimulada,
Repletas de mortais sentimentos,
Enquanto arde em ambição.

Sirlânio Jorge Dias Gomes
👁️ 705

Alienação

O que somos?
Olhamos no espelho,
O que amanhã será apenas passado,
Reflexos transitórios de humanidade,
Eus perdidos no subconsciente,
Seguindo a razão em seus surtos,
Tentando a todo custo,
Contrabalançar a vida contingente.

Quem seremos daqui há pouco,
Segundos decisivos nos moldam,
Inconsciente de nossa arrogância,
Frágil certeza ao fim que nos arremete,
Fronteira capciosa da morte,
Entre ávidos olhares anímicos,
Complexo jogo da vida,
Emanando sinais ao ser embrutecido.

Sirlânio Jorge Dias Gomes
👁️ 709

Concepção

O que parecia simples,
Tornou-se absoluto aos meus olhos,
O teu sorriso despertou minha'alma,
Fez florescer meu desejo emudecido,
Guardado sob a terra estranha do meu medo,
Receio do quebrantado amor,
Há muito desolado pelo engano.

Se existe asas no infinito,
Ao certo buscarei as minhas,
Preciso ser eu novamente,
Voltar a sonhar após o infortúnio,
Saber que foi apenas um lapso em meu tempo,
Onde as pedras sequestraram meus passos,
Máxima pena dos meus hiatos,
Inércia da minha abnegada felicidade.

Deixo no esquecimento minha tristeza,
Me misturo ao mundo das coisas,
Sensíveis razões de uma frágil existência,
Acostumada a sonhos tangíveis,
Ressalvas da minha pávida humanidade,
Relendo o subjacente amor,
Enquanto meus lábios ansiosos,
Aguarda teu primeiro beijo.

sirlânio Jorge Dias Gomes
👁️ 733

Introspecção

O mundo está gritando aqui dentro,
O silêncio é estridente,
Mas ninguém me ouve,
Tudo aqui é dor que me sufoca,
Lágrimas que transbordam,
Inundando meu ser de tristeza,
Enquanto caminham apressados.

A diversão acontece lá fora,
Enquanto me torno cada vez mais invisível,
Tantas banalidades num nó infinito,
Amarrando meus pés e mãos,
Refúgio dos meu medos,
Em seus túneis absolutos,
Escondendo o que de mim se perdeu.

Há uma beleza murchando antes da morte,
Complexo colóquio da inocência,
Diante do tribunal dos acusadores,
Espelhando as suas santidades,
No demoníaco corpo que me reflete,
Enquanto cuspo ao chão,
A última gota do meu caráter.

Sem mais pensar puxo o gatilho,
Da imensa arma social que me apavora,
Com seus julgamentos cheios de ódio,
Hipocrisia de muitas máscaras,
Flertando a consciência imunda que os adverte,
Olhando insistentemente aos meus opositores,
A fim de que enxerguem meu sofrimento.

Nada basta a este circo de horrores,
Quando decidem ver o sinal de sangue,
A morte já serviu de seu melhor banquete,
Sentada no trono das vaidades,
Olhando outros tantos em desespero,
Buscando ao relento da esperança,
O sentido da vida cheia de possibilidades.

Sirlânio Jorge Dias Gomes
👁️ 669

Percepção

Sobre mim desliza o tempo,
Minh'alma são pergaminhos,
Espalhados pelo caminho ao longo da vida,
Impressões de efêmeras emoções,
Sob olhares viscosos,
Conjecturando suas existências belicosas,
Na ociosidade de idéias abstratas.

Sirlânio Jorge Dias Gomes
👁️ 711

Ponto e virgula

Em volta de tantos olhares,
Meus pensamentos serpenteiam,
São tantas coisas no decorrer do dia,
Olhos as horas como de costume,
Na imensa correria da vida voraz,
Sugando minha energia saturada,
Ambíguos sorrateiros da liberdade.

No coração a lembrança da saudade,
Resistência diante dos pesares,
Imbróglios da existência ansiosa,
Ludibriando sonhos cansados,
Escaninho do eu em pedaços,
Na solidão momentânea sem aviso,
Juntando os fragmentos da jornada.

As vezes me perco em digressões,
Sem saber onde estou,
Desejando lugares secretos,
Para esconder-me de pessoas estranhas,
Fugir do caos nos braços do silêncio,
Ficar ali refugiado na beleza da ressurreição,
Aguardando minhas outras vidas lá fora.

Sirlânio Jorge Dias Gomes
👁️ 681

Evidência

Sei que estás aí neste cantinho,
Silenciosamente buscando o amor,
Sutileza do pensamento ao desejo,
Murmurando baixinho com o olhar,
Desabrochando a fragilidade de uma flor,
Pronta a perfumar a primavera,
Voluptuosa timidez felina.

Suavemente surge o sol do meio dia,
Afagando-lhe a tímida sensibilidade,
Entre os labirintos da solidão,
Intenso jogo transe da lucidez,
Buscando o colo da serenidade,
Contraindo-se diante da natureza,
Selvagem calmaria ao labor da luxúria.

Não há obediência a ordem cativa,
O corpo introverso delineia-se quebrantado,
Grata aventura de descobertas,
Brisa suave louca tempestade,
Agitando as folhas antes adormecidas,
Revoluteando-se primorosamente ao afeto,
Paixão eclodida entre os poros.

Sirlânio Jorge Dias Gomes

👁️ 709

Conflito

As pétalas das flores caem,
As folhas das árvores também,
Os sentimentos também um dia partem,
Seja pelo corpo ou pela alma,
Ou quem sabe na separação das duas coisas,
No mistério profundo da eternidade,
Nos seus fins e recomeços.

Seguimos até onde nos foi dado conhecer,
Jogos da vida e da morte,
Em suas múltiplas explicações palpáveis,
Desafiando o paradoxo da existência,
Com nossas manias humanas,
Repletas de eufemismos estranhos,
Ao grato prazer dos ouvidos.

Existe mundo demais nos mundos,
Tanta gente sábia por estas paragens,
Que a ignorância tornou-se verdade,
Nas inverdades do seres irredutíveis,
Regurgitando suas intempéries viciantes,
Feito animais descontrolados,
Tropel de loucos com seus poderes.

Sirlânio Jorge Dias Gomes
👁️ 746

Ceticismo

Aos tais ócios eis a dúvida, 
Aos ossos quebradiços, 
Visceral pesadelo infundo, 
Dos espíritos imundos a perturbar, 
O pobre ser aviltado em suas dores, 
Sobrecarregado de si em outrem, 
Nas interrogações interrogadas. 

Lá se vão aqueles moribundos, 
Surrados em suas indagações, 
Assaltados quando pensam ter paz, 
Na sangrenta convivência de dissabores, 
Manuseando a boa convivência, 
Em seus espetáculos nauseabundos, 
A buscar razões ignóbeis. 

Aos boçais a força do desprezo, 
Inquisições infernais do bom ânimo, 
Acorrentando a palavra insalubre, 
No labirinto das coisas sem respostas, 
Interposto entre a razão e a comédia, 
Ignorância dos tais eruditos, 
Sabedoria dos fracos contidos.
 
Sirlânio Jorge Dias Gomes
👁️ 735

Astuto menestrel

Meus versos são vozes de um farsante,
Leal inconfidente artífice de ilusões,
Aleivoso trovador cantando alegorias,
Apanhando pelo caminho de aventuras,
Os inúmeros eus caídos da existência,
Trovejando emoções no céu ansioso,
Atmosfera onírica preexistente.

Dialético jogo o meu ser agrega,
Lançando ao vento falas convergidas,
Postiço sentimento ao espelho,
Abstraído nas causas obscuras,
Imitando a estranha camuflagem,
Imagem das massas ruminantes,
Aduzindo cúmplices de um pensamento.

Delibera o espirituoso zombeteiro,
Palavras em outras palavras mórficas,
Paradigmático enredo entre labirintos,
Sofrendo sem sofrer a dor sentida,
Amando o amor que não se almeja,
Enigmático paralelo de afeições,
Condicionando congêneres disparidades.

Sirlânio Jorge Dias Gomes
👁️ 717

Comentários (2)

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Zuleica
Zuleica
2019-08-10

Palavras que saem do coração

dionesbatista
dionesbatista
2018-11-25

Belos escritos. Adelante!