Escritas

Lista de Poemas

Ambiguidade

Em algum lugar do deserto,
Erguem-se os olhos ao céu ,
Uma oração silenciosa fugidia,
Clamor de lágrimas fenecidas,
Sepultada na aridez da solidão,
Espalhado ao vento da miséria.

Naquela montanha sem vida,
Tombou o último dos heróis,
Defendendo seu lar dos invasores,
Assaltando suas riquezas sob o sol,
Regando a terra com o sangue dos bravos,
Com os corações cheio de ouro.

Cruzaram os oceanos a morte,
Riquezas de tons escarlate,
Levando em si a honra ultrajada,
Destruindo terras,
Jogando migalhas ao chão,
Para os cães sem alma.

Quantas nações desonrosas,
Prostituíram nossa liberdade,
Cravaram suas cruzes profanas,
Em solo sagrado dos proscritos,
Sangrando os ancestrais,
Na ambição desmedida dos homens.

De herança nos deixaram a pobreza,
Uma terra devastada chorosa,
Jardim de animais selvagens,
Vestidos de homens invisíveis,
Escárnio dos homens de lá,
Em suas missões de ódio.

Aqui no meu quarto,
Percebo que nada mudou,
Tantas colônias modernas,
Hasteando suas bandeiras de vento,
Seguindo padrões suicidas,
Repleto de escravos globalizados.

A porta se fecha a quem de direito,
Morrendo nos mares desonrados,
Agarrados em cercas vazias,
Abraçados a muros políticos,
Sem o direito de ter direito,
Na terra de quem os roubou.

Seguem todos ao abate,
Pelo trabalho forçado assalariado,
Adulando uma falsa liberdade,
Enchendo o cofre dos deuses,
Jogando dados com a vida,
Como se vida também não tivesse.

sirlânio Jorge Dias Gomes







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Anelo

Dê-me desta boca o beijo voraz,
Grite meu nome no sussurro do silêncio,
Busque-me na beleza dos teus meneios,
Os seus lábios me devoram virtuosamente,
Caçando-me no brilho do teu sorriso,
Cintilante olhar travesso aos meus.

Te quero na certeza que me deseja,
Terno fogo que me queima suavemente,
Centelha dos nossos corpos vivazes,
Entreolhando-se entre os poros endoidecidos,
Cúmplice devoção do espírito aflorado,
Ósculo dos deuses ao meu regalo.

Te quero todas as noites...
Simplesmente assim do seu jeito,
Nesta beatitude plena,
Desabrochando ao raiar do dia,
Cheirando esta tua flor perfumada,
No teu jardim evocado de sonhos.

sirlanio jorge Dias gomes













👁️ 170

Graciosidade

Pereço de amor ao teu fascínio,
Imitando a morte em repouso,
Afável paixão abrasa-me,
Perdidamente de prazer cingido,
Enredado aos teus beijos suaves,
Ardente concerto entre corpos.

Corro aos teus aprazíveis braços,
Rendido sem desejar socorro,
Torturado de amores doce delírio,
Intensidade adorada ao teu viço,
Júbilo envolvente insinuantes juras,
Beija-me todo sem cismas.

Adornada tez de olhar envolvente,
Luzes d'alma intenso desejo,
Doce arpejo ao meu lume,
Sejam as estações nosso refúgio,
Confidências de afeições sublimes,
Intimidade ditosa que nos afortuna.

Poetiza-me aos teus versos,
Sou teu ao todo que nos reveste,
Meu coração a ti aflora,
Velejando sobre este imenso mar,
Vereda dos meus sentimentos,
Tocando-te sutilmente.

Reine tua vontade ao meu intento,
Finito pulsar entre vertentes,
Afagando a liberdade deslumbrada,
Diáfano horizonte de promessas,
Casta beleza arrebatada,
Nobre amor atraente.

Curvo-me aos teus pés,
Ritual fecundo aos teus domínios,
Êxtase profundo singular deleite,
Tocando o céu pasmo sabores,
Queimando sobre o leito,
Luxurioso fogo que me domina.

Sirlânio Jorge Dias Gomes
👁️ 222

Perspectiva

Veja, 
O poeta do luar, 
Alphonsus de Guimarães 
De alma nua, 
De mãos dadas com sua amada, 
Diante do Dante negro, 
Cruz e Souza, 
Com suas penas cintilantes, 
A estimar o trovador da liberdade, 
Castro Alves, 
Enquanto Dante, 
Divinamente inspirado, 
Admira seu inferno paraíso, 
Perdido em seu exílio, 
Aos olhos de Boccaccio; 
A morte embevecida, 
Sentada na lua, 
Em seu beijo sepulcral, 
Acena aos poetas, 
Eternizando-os na despedida, 
Deixando a flor enaltecida, 
Abraçando o amor em seu perfume, 
Lume da vida afogueada, 
Conduzindo seus anjos escravos, 
Querubins cheios de formosura, 
Enamorados de versos adônicos, 
Vozes de criaturas invisíveis, 
Folhas do tempo ao tempo, 
Enraizando sentimentos; 
E  eu aqui um tanto atrevido, 
Além das regras, 
Ousando tentar poetizar, 
No rastro dos heróis literatos 
Sob o sussurro das letras, 
Timidamente envolvido. 

Sirlânio Jorge Dias Gomes
👁️ 181

Exaltação


Flertei o amor ao teu desejo, 
Persuadi tua timidez deixando-a livre, 
Desabrochei teu botão em flor, 
Refrescando-a suavemente feito névoa, 
Dando-lhe meu manto para cobri-la, 
Aquecendo-a com meu carinho. 

Cantei aos teu ouvidos faltos, 
Emaranhei-me em teus cabelos, 
Envolvi-me em teu perfume, 
Carnal cortejar imaculado, 
Dando-me o céu antes da morte, 
Fenecendo-me sem ter morrido. 

Amei a fidelidade em teus braços, 
Vi-te anjo em meu éden, 
Colhi estrelas nos teus olhos, 
Rútilo fervor ao meu contento, 
Buscando-te solenemente, 
Entre os sentidos da felicidade. 

Recitei teus lábios com os meus, 
Balbuciei teu nome em mim, 
A cada batida do meu coração, 
Suspirando em teu deleitoso vale, 
Adocicado mel vertente loucura, 
Inelutável luxúria de todo rendido. 

Sirlânio Jorge Dias Gomes







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Ocasião

Há em seu caminho, 
Aquela dor que arde em teu peito, 
Silêncio de mil vozes, 
Gritando aos teus pensamentos, 
Moldando tuas emoções, 
Mágoa insolente desventura, 
Pesar amargo contrito, 
Fortuito ressentimento causado. 

Há em teus olhos, 
Mais que lágrimas, 
Há também espinhos, 
Suprimido amor doído, 
Constrangida afeição negada, 
Vontade estranha sem prosa, 
Conversas cheia de sanha, 
Martírio corpóreo sentido. 

Há em teus pés, 
Rastros cansados de atalhos, 
Escaninhos da vida em dilemas, 
Treponemas do ardiloso tempo, 
Feroz combate impelido, 
Embriagada fraqueza no cio, 
Rindo-se perdida no caos, 
Assaz devassidão exilada. 

Há Muito em poucos segundos, 
Também pouco em muitas horas, 
Diferenças sutis do eu melancólico, 
Debruçado em si grotescamente, 
Buscando mais do que se possa ter, 
Oferecendo menos do que se tem, 
Girando em seus círculos heterodoxos, 
Contrapartidas binárias ensurdecidas. 

Há tantas coisas, 
Em teu caminho, 
Teus olhos, 
Teus pés, 
Teu tempo, 
Teu corpo, 
Que este poema, 
Te ouve inocentemente. 

Sirlânio Jorge Dias Gomes

👁️ 157

Finalidade

Há tanto barulho lá fora,
Meus ouvidos tremem,
Minh'alma chora,
Pés moucos vacilantes,
Pegadas cegas proferidas,
Labirintos escorregadios.

Acende o amor candeia silente,
Arquétipo coração aflora,
Enleios afetuosos pulsantes,
Transitando entre as emoções,
Feito um papel em branco,
Nas mãos do poeta.

Talvez mais tarde,
Quem sabe agora,
Eis a confissão,
Premissa dos lábios,
Velados sentimentos contidos,
Tácita afeição sussurrada.

Foi sem querer ir,
Voltou sem ter partido,
Ficou por ter ido,
Ousou simplesmente,
Ser o que é,
Murmurando amenidades.

Os olhos se exaltam,
Acariciando os pensamentos,
Ondas no mar do eu,
Modelando infinitamente,
Sonhos e medos,
Proposições do espírito.

Sirlânio Jorge Dias Gomes












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Desdém

De repente... 
Levantei-me da cadeira, 
Inúmeros pensamentos aos olhos, 
Olhei pela janela da tarde ensolarada, 
Para muitos apenas um dia comum, 
Sem que o mundo pare para te ouvir. 

Após alguns instantes, 
Suspirei bem fundo, 
Um copo com água tragou minha sede, 
Figura sedenta do meu ser, 
Delineando entre a razão e a loucura, 
Flertando com a noite morosa. 

A tarde castigava a minha solidão, 
Açoitando-me com a cruel ausência, 
Daquela que um dia ousei chamar de amor, 
Que tampouco se importou em partir, 
Equívoco da vida em trágica epopeia, 
Gritando aos meus ouvidos ensanguentados. 

De repente, 
Nada fazia sentindo entre as horas, 
A fidelidade não foi suficiente, 
A ilusão estrada da tristeza, 
Enriqueceu-a com o ouro de tolo, 
Deslumbre tardio da falsa liberdade. 

Fui o que pude, 
Destreza do verdadeiro amor, 
Levando o que não me pertencia, 
Amanhã quem sabe estarei mais forte, 
Compreenda que as flores murcham, 
Mas a primavera tudo renova. 

Sirlânio Jorge Dias Gomes
👁️ 150

Introspecção

Há dias que o coração convulsiona-se, 
Tantas ilusões em seus portais, 
Que a mente revoluteia chorosa, 
Refletindo sentimentos em seus pretéritos, 
Manuseando peças obscuras da alma, 
Desejando simplesmente esconder-se, 
Dentro do eu em congestionamento. 

Uma tempestade de imagens, 
Monstros surreais de uma morte sem morte, 
Assaltando a razão em seus princípios, 
Precipício do tempo aos alienados, 
Tentando escrever no escuro, 
Uma realidade alternativa, 
Sem pergaminho e nem tinta. 

Palavras num nó de ideias, 
Distrações absurdas da mente, 
Dialogando com o corpo em soslaio, 
Ludibriando a boca anestesiada, 
lúdico sorriso sem brilho, 
Velado aos dissabores insolentes, 
De um longo dia em chamas. 

A ampulheta segue seu curso, 
Círculos deslumbrados da vida, 
Equilibrando-se entre o bem e o mal, 
Ambiversos perdidos em seus mundos, 
Buscando amor em amores paralelos, 
Tão vazios quanto seus viciosos laços, 
Envenenando-se diante do espelho. 

Sirlanio Jorge Dias Gomes
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Sentimento

Já era a noite grata temperança, 
Quando encontrei o teu beijo, 
Tendo tua alma toda nua, 
Vertendo em meu corpo o céu, 
Enlevo do paraíso aos meus lábios, 
Serena afeição que me sossega. 

Cobriu-me teu véu de ternura, 
Feito anjo de asas estendidas, 
Soprando em meu rosto a vida, 
Fartura de amor consumado, 
Quando a saudade impiedosa, 
Insistia na ausência de tua face. 

Meu sorriso fundiu-se ao infinito, 
Evocando a singeleza da primavera, 
Figura da minha alegria concedida, 
Enamorada de beleza condizente, 
Pulsação do meu peito abrasado, 
Ébrio mortal afeito de amores. 

Era a noite de tal modéstia, 
Que a brisa poetizou o tempo, 
Joia adorável de riqueza bendita, 
Dádiva amorosa cordial ensejo, 
Luzente vislumbre fadado, 
Alento da felicidade. 

Sirlânio Jorge Dias Gomes










👁️ 175

Comentários (2)

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Zuleica
Zuleica
2019-08-10

Palavras que saem do coração

dionesbatista
dionesbatista
2018-11-25

Belos escritos. Adelante!