O que restará
Língua empapada de sangue.
Pedaços de limos pestilentos,
esquecidos nos ouvidos
sonolentos.
Imagens usadas como balas,
uma baleia rodopia,
num deserto encharcado,
em carne esquecida nas valas.
Se dela escorrem os sangues,
de vozes silenciadas,
apagadas e agora exangues,
dela correm também
palavras de afecto
tão puro, tão discreto.
Oprimido por ladaínhas
odiosas como espinhas
dos sonhos o mais desperto.
Resiste,
resiste ainda.
Resiste ainda o amor.
Resiste ainda o amor.
Escrito a 23/10/2017
Consenso(no)
Chega o sono falso.
Suspenso, é um balão.
Desliza, cobra, sorri,
pelo preto corrimão.
Abre-me as hastes,
flores flamejantes,
que brilhem ao sol
como elefantes.
Se vou e não fico,
não quero, é aqui.
E não sabes se vi
o lance levante.
Nas escadas da loucura
olhamos à frente e, e...
E quê?
Eu porque não olhei não vi,
a fogueira azul escura.
Se a vontade me chegasse,
se a vontade me levasse.
Ah, a cobra murmura,
no fundo
da escada escura.
Escrito a 20/06/2018
Ver sem ver
No mesmo lugar, sem se encontrar.
Sem se conhecer, para quê ver?
Ruídos altos e desconexos, sem
ritmo, pauta ou rima.
Desdém?
Oh, não, assim não, por quem?
Emoção exclusiva para porcos.
Pelintras petulantes e
peganhentos.
De vozes roncantes
e ideais, sempre ocos e iguais.
Aqui é fascínio puro e ligeiro.
Porque lá estão, no recinto.
Porque pisam a mesma brita.
Porque na multidão labirinto,
se se cruzassem não se viam,
naquela poeirenta área restrita.
Escrito a 23/06/2018
O nascer do pôr-do-sol
Nasce o pôr-do-sol ao cair da manhã
e as gotas secas a dormir no divã,
uma caminha num caminho à esquerda,
como do céu, um torvelinho de merda.
Sabidas as subidas e as descidas
mas caem como potes de papel
mascaradas de patos, despidas
descendo por fitas de rapel.
Fitando o horizonte onde nasce
o sol poente, a ocidente
e os olhos vesgos onde renasce
a ansiedade ardente.
Escrito a 02/07/2018
Mas ainda tenho
Vi um sonho colorido pequenino.
Urgente, sentido, e franzino.
Músicas em miniatura.
Danças sem sincronia.
Sem preparação como nascem os sonhos
rebentos de energia e alegria.
(Vi amor.)
Vi um entusiasmo que hoje mos torna
medonhos
porque debaixo dos pés
quais
percevejos peçonhentos,
fedorentos,
as fés que pudesse ter tido
todas, todas
idas.
Esmagadas como percevejos
feitas frutas espremidas
num sumo supressor que bebi
e decerto não morri.
Tudo no passado ido,
quebrado o cadeado
e o literal coração
despedaçado.
(Perdi amor.)
Ah, mas tantos anos depois,
quando no pensamento soube
que tinha de o consertar,
mesmo que sem alento,
já ido o sonho,
já depois de se apagar,
consertei.
(Esse não recuperei.)
Mas vi hoje, o mesmo sonho.
Vi o mesmo sentimento,
como que num espelho,
aquele meu rebento.
Vi-o colorido, vi o alento,
vi o passado, vi o brilho
ido
tão longe
quase esquecido.
(Mas ainda tenho.)
Escrito a 29/06/2018
Mãos
Esfacela-me as faces, devagar.
Pétalas de mãos macias de magnólias,
purpúreas e pálidas de cheiro aleivoso.
Alto está o céu áspero e estrondoso.
Árvores abrem-se. Breves. Em tremores.
As cicatrizes cinzentas, os tambores,
rufando sem alento porque as mãos
são purpúreas e pálidas e pontes.
Voz vaga e longe daqui
e nas faces que esfacelaste,
porque de raiva assim to pedi,
os teus dedos meus usaste.
É longe, o mar é vasto.
As águas movem-se e vão.
Deixam-nos, sem dó, a léguas.
E não há perdão.
Escrito a 21/06/2018
Um poeta é sempre um leitor
A poesia é uma terra de ninguém
com gente dentro.
Com poesia, é uma terra de gente
com ninguém dentro.
Poesia de ninguém
com gente dentro.
Se não for por paixão
não vale a pena.
Se for por pena,
não vale a paixão
A poesia começa quando um idiota
olha para o mar e diz:
"Parece azeite."
O mar diz a um idiota
"Quando o azeite parece poesia,
começa a olhar."
Escrito c. 04/05/2017 depois do encontro com a poeta portuguesa Ana Luísa Amaral inspirado nas palavras dela.
Conta-Gotas
Se me acusas,
de coisas,
coisas que eu
NãO FIZ,
ninguém diz
que não és tu
quem as faz.
Porque és tu.
és tu.
és tu.
Sempre,
SEMPRE,
foste tu.
O ataque palavroso
que me atiras a mim,
achando que o que fazes,
nunca fizeste.
Que me atinges
Agora.
Agora que abri a boca.
Que não me quero mais,
CALAR.
Não consegues.
Se antes não aceitava,
se repudiava,
agora abomino.
Não tolero.
NãO TOLERO.
Escrito a 07/07/2017
Intenção
Sal e calor e água amarga.
Sorrisos sem cor e a luz,
reluz no corredor e cai
vai para dentro e sai.
Seca e oca como um coco,
um coco
oco como um coco.
E os olhos vagueiam na areia
rodopia na transmissão lenta
cortada.
E os braços que se estendem
envolvem
não sentem, não sentem
frios sem mácula
e olhos que afastam
que se afastam
desentendidos
longe no abismo
no centro do sismo.
27/12/2018
Aqui no antro da aberração
Quando foi, e quando fui,
quando fomos e que foi, e dói.
Olhaste e triste viste
que não foi o que pediste.
A chaga agora arde, moi,
são grãos de areia,
moídos e em pó.
Podias ter ido
embora
mas não soubeste ver
ou quiseste e não sabes
ver
que era demasiado queer.
Vai, vai.
Vai e não voltes.
Aqui no antro da aberração
onde somos fruto de perdição
não há lugar para mortes
porque dela já nascemos
e nela vivemos
com cortes.
Entre vós e nós
sem voz
embaraçam-nos e fortes
os baraços que nos enrolam
nos pescoços
rolam os olhos para trás
nada os satisfaz.
Faz mais feridas.
E mais, e mais, e mais cortes!
A nossa pele é um labirinto
de meandros e sortes
azarentas e fedorentas
recantos ocultos
e segredos absolutos.
19/07/2018