Escritas

Lista de Poemas

Cortes

Não tenho caneta nem papel
só tenho cortes e desenhos
na pele
água em torvelinhos pela cara
e fel.

Dos lábios longe
longe o começo.

Envelheço.

Os cortes afundam-se,
poços vazios,
vacilando, vendavais.

Num espírito fraco sem
esperança
de um sol que promete
e nunca vem.


Escrito a 31/05/2018
👁️ 547

Estagnação

Queria agora estar
num comboio, vagão
para qualquer lugar.
As janelas sem vidros
no frio do Inverno
os pés as mãos
doridos.
Gelo, do vento,
das janelas,
do vagão,
escancarado e escuro,
na noite.
Para qualquer lugar.
Mas aqui vais ficar.

Escrito a 08/01/2018
👁️ 500

Mãos

Esfacela-me as faces, devagar.
Pétalas de mãos macias de magnólias,
purpúreas e pálidas de cheiro aleivoso.
Alto está o céu áspero e estrondoso.

Árvores abrem-se. Breves. Em tremores.
As cicatrizes cinzentas, os tambores,
rufando sem alento porque as mãos
são purpúreas e pálidas e pontes.

Voz vaga e longe daqui
e nas faces que esfacelaste,
porque de raiva assim to pedi,
os teus dedos meus usaste.

É longe, o mar é vasto.
As águas movem-se e vão.
Deixam-nos, sem dó, a léguas.
E não há perdão.



Escrito a 21/06/2018
👁️ 533

Apeadeiro

Essas brumas vagas no apeadeiro do silêncio.
No escuro puxa-se a corda,
segura-a e eleva-se.

Grunhido apagado, iluminado.
Luz vermelha e pela borda
do oceano, seco de breu mole
pegajoso e invisível no topo
de uma árvore.

Frio e silencioso, amarrado,
de passagem pela ponte do sol.
Ondas curtas e longas e nenhumas.
Verdadeiras e descontroladas.

P'ra cima,

                p'ra baixo.

                emerge
Mergulha,           , mergulha.

No ar seco que encharca os braços nus,
as tuas mãos cansadas sacodem as cordas,
e mergulhas em segredo.
A árvore carpideira de braços nus
e secos.
Braços nus e secos, encharcados.
E não se dissipa a bruma.
Nunca houve comboio.


Escrito a 18/09/2017
👁️ 590

O que pode ser poesia

Se não são de amor,
de paixão e afeição,
de se perder, ardor,
de se dissolver, não,
de se entregar, dor,
de dor de amar em vão...
então,
então não é poesia?

Se cai em abismos
pastosos e sem,
sem sentidos
nem aforismos.
Sem ouvidos,
nem olhos.
Sem bocas
nem inimigos.
Com tocas,
com umbigos
onde não,
onde não liga
um mamífero
bipede que,
que te pede que,
que o abraces,
que o acaricies
e o leves ao mais,
ao mais alto dos,
dos sonhos
então,
então não é poesia?

Se de toques e carícias,
perdidos os sentidos,
de doces e breves malícias,
os dedos ainda tidos,
como que estando,
estando na pele,
e o ritmo acelerando...
E depois um frio
porque se apaga.
A vela come o pavio
e tudo apaga e vai,
e vai sem desaparecer.
Deixa só nas mãos,
nas mãos a vontade,
a saudade,
os dedos para escrever
então,
então é, é poesia?

Mas e se, e se, e se...
e se nos peitos
não acelerados
pelos efeitos,
desses toques e bafejos,
doces, divinos,
mas acelerados
pela ausência,
vazios, perdidos,
desvairados.
Nesses também pulsa
uma febre,
febre incandescente
vulcões explodindo sós!
Sós, sem som, sem sentido.
E esses dedos, esses dedos
buscam,
buscam e buscam
e buscam e buscam!
Nos estilhaços,
pedaços,
pedaços desconexos que juntar
malformados, sempre,
sempre, malformados.
Flores não saudosas
com hastes e dentaduras
esgaçando sorrisos
coloridos
de verdes de esmeraldas
de olhos
e azuis de cerúleo céu
de cabelos

e ao vento, nas espaldas
folhosas
um cinzento, brilhante véu.

Não pode?
Não pode?
Não pode essa também?
Não pode essa também ser?
Não pode essa também ser poesia?



Escrito a 26/06/2018
👁️ 571

Ver sem ver

No mesmo lugar, sem se encontrar.
Sem se conhecer, para quê ver?
Ruídos altos e desconexos, sem
ritmo, pauta ou rima.
Desdém?

Oh, não, assim não, por quem?

Emoção exclusiva para porcos.
Pelintras petulantes e
peganhentos.
De vozes roncantes
e ideais, sempre ocos e iguais.

Aqui é fascínio puro e ligeiro.
Porque lá estão, no recinto.
Porque pisam a mesma brita.
Porque na multidão labirinto,
se se cruzassem não se viam,
naquela poeirenta área restrita.



Escrito a 23/06/2018
👁️ 504

O que restará

Língua empapada de sangue.
Pedaços de limos pestilentos,
esquecidos nos ouvidos
sonolentos.

Imagens usadas como balas,
uma baleia rodopia,
num deserto encharcado,
em carne esquecida nas valas.

Se dela escorrem os sangues,
de vozes silenciadas,
apagadas e agora exangues,
dela correm também
palavras de afecto
tão puro, tão discreto.
Oprimido por ladaínhas
odiosas como espinhas
dos sonhos o mais desperto.

Resiste,
resiste ainda.
Resiste ainda o amor.
Resiste ainda o amor.


Escrito a 23/10/2017
👁️ 606

Um poeta é sempre um leitor

A poesia é uma terra de ninguém
com gente dentro.
Com poesia, é uma terra de gente
com ninguém dentro.
Poesia de ninguém
com gente dentro.

Se não for por paixão
não vale a pena.
Se for por pena,
não vale a paixão

A poesia começa quando um idiota
olha para o mar e diz:
"Parece azeite."
O mar diz a um idiota
"Quando o azeite parece poesia,
começa a olhar."



Escrito c. 04/05/2017 depois do encontro com a poeta portuguesa Ana Luísa Amaral inspirado nas palavras dela.
👁️ 571

Intenção

Sal e calor e água amarga.

Sorrisos sem cor e a luz,

reluz no corredor e cai

vai para dentro e sai.


Seca e oca como um coco,

um coco

oco como um coco.


E os olhos vagueiam na areia

rodopia na transmissão lenta

cortada.

E os braços que se estendem

envolvem

não sentem, não sentem

frios sem mácula

e olhos que afastam

que se afastam

desentendidos

longe no abismo

no centro do sismo.

27/12/2018
👁️ 298

elogios vazios?

Sem tocar, nem cheirar, nem sentir.
Só olhar, devagar, devagar.
No peito o coração a rugir.
Que fazes, que fazes?
É errado, errado e tens
tens de parar e
continuar!

Mas mesmo que de leve,
que me leve a crer
que a fealdade não
é a realidade
apesar de poder
não ser verdade.

Sorrio e rio
obedeço
como um rio ao leito
e assim, leve, me deito
e respiro
fundo
fundo.

21/07/2018
👁️ 330

Comentários (1)

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cianeto
cianeto
2018-07-27

feliz pelo seu like, pois és muito bom!