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Sou um número porque não entendo
sou um número porque não entendi
que de número podia ir escrevendo
um nome qualquer que não escolhi.
(Um número aleatório, sem signifcado
algum!
3 é meio 8, 2 x 3, 6?
Podia até ser
número de prisão, mas não
não é nada, mesmo nada.
Não tem, não tem, não diz nada,
nem conta nada!
Não há profundidade, não há explicação
foi ao calhas mesmo!)
Nomes são mera ilustração
são naves de violenta navegação
vigorosos, viajantes, virulentos
lentos como lesmas, langonhentos
velhos como queixumes do coração.
Ah, mas este número que aqui
neste ecrã vos surge e impessoal
depois também o remendei que escolhi
que tem 3 letras de mim, sim
depois só parece o que sim é
spinxo representado na fé
poesia digital
poeta digital
pseudónimo digital
tal e qual e agora é o que é
e não tem mal.
16/07/2018
óleos derramados
Nestas mãos enfezadas de unhas pintadas
o cheiro a óleo enlouquece e adormece.
Oleiro enlameado sem talento, levadas
para o chão os perfumes, a voz emudece
e o silêncio sagrado sangra em sossego.
Ensopados os tecidos e os pedaços,
o perfume penetrante e pungente.
Gente que não quer mais abraços
braços que não querem mais gente.
A mente louca, alterada e inalados
os fumos perfumados dos óleos.
Sem sentimento nem desejo, derramados
amados antes e agora arrumados
para o chão, ensopados e vítreos.
15/07/2018
Unhas de Amêndoa Monofónica
Entendo uma coisa,tenho gosto
por unhas formadas em amêndoas.
Doas um olhar mole e mal-disposto
posto em pose de ataque e
arranho
doce e dormente como um dedo
dorido e perdido
tão estranho.
Construo um castelo de papel
meço os olhos e as bocas e aí,
te peço que estendas a mão
mas sem dedo, não te dou o anel.
No fosso, se fosses embora, caía
e as unhas amargas rasgariam.
No fundo, no rio grosso de mel,
ecoam as minhas amêndoas,
monofónicas,
caríssimas.
No curso do rio melifluindo,
pasta ambar que se esqueceu
do que é cantar e orar e
depois tudo em carmim ardeu.
Nunca soube medir e um castelo
de papel, colado e mal medido,
não se tinha de pé por mais belo.
Acabam-se-me as unhas e as
amêndoas monofónicas.
Afogo-me no mel e engulo-o
sorrindo
é doce e leva-me sempre
para onde
não quero ir.
02/08/2018
a queda no abismo piedoso
Se por cada ilusão tivesse um tostão.
Tão vazia, uma prece, leve, soprada
um vendaval de silêncio e solidão.
Dão-me esperança sem me dar nada
dores nas pernas de correr tanto.
Um rio também me acompanha, lento.
A pasta leitosa borbulha no leito
em que queimam colares coloridos
doridos os músculos sem alento
e é lá que, a sonhar, me deito.
Sonhos sem som marulhando mergulhados
num pesadelo oculto, qualquer.
E neles continuamos a correr.
Corrente de veludos avermelhados
molhados os pés do nosso sangue.
Iludo-me, e iludes-te, e iludimos.
Uma multidão de olhos brilhantes
e de dores vagas e distantes
em estantes altas que trepamos
e depois caímos.
Os olhos no céu onde o sol
nos protege como um lençól
e as costas para a terra dura
na queda desamparada.
Não morremos. Na queda.
Não morremos.
Espera-nos um leito macio
que nos abraça no frio
e aí nos esquecemos.
A ilusão desvanesce
nasce dela outra.
Uma que permanece,
Uma que aquece,
Uma que cresce.
"Está tudo bem"
sussurra-nos, carinhosa,
"Esquece."
(Mas não esquecemos.)
Sabemos que estamos
no mais fundo de todos
os abismos, sabemos
mas aí ficamos
ricos
nessa piedosa ilusão.
12/07/2018
elogios vazios?
Sem tocar, nem cheirar, nem sentir.
Só olhar, devagar, devagar.
No peito o coração a rugir.
Que fazes, que fazes?
É errado, errado e tens
tens de parar e
continuar!
Mas mesmo que de leve,
que me leve a crer
que a fealdade não
é a realidade
apesar de poder
não ser verdade.
Sorrio e rio
obedeço
como um rio ao leito
e assim, leve, me deito
e respiro
fundo
fundo.
21/07/2018
em cada 1, 1 mundo
Aqui, se vê e se lê
e quem não é, crê.
Palavras dispersas
personas diversas.
Dizem o que sentem,
dizem o que dizem.
Mas antes de clicar
no botão de gravar
uma vontade ardente
uma vaidade inocente.
Porque escrevemos?
Porque queremos?
Sim.
Porque podemos?
Sim.
Porque sentimos?
Sim.
Nestas palavras
poucas por partes
pequenos poemas
trémulas artes
articulamos o que,
o que na boca
se perde
não sai.
Porque no fim
e é mesmo assim
no fim, com as mãos
podemos riscar
podemos apagar
e ninguém vai saber
nem vai julgar.
Se a voz gagueja
também a escrita
a escrita também
também gagueja.
Se na voz o sentido
sentido mas não
não entendido
porque não faz
não faz sentido
e os demais
as demais não
não o apanham
frutas demasiado
altas
não vale a pena
só tendo a ladra
ladra o canito
e não há pau
só a ladra de lata
inútil e o sentido
lá fica
em cima
e ninguém mais
ninguém o apanha
e cai então
podre
e aí então
ninguém o quer mais.
Mas não é isso que queria dizer
aí está o que tentamos fazer,
fazer que quem nos lê,
quem nos lê nos veja,
e veja também com os nossos
olhos e ouça com os nossos
ouvidos e tenha ainda
tido as mesmas experiências.
Não é assim. Não é assim.
Porque em cada mão
em cada corpo
em cada coração
está um mundo
um mundo que difere
e fere porque não
não é possível
o entendimento
sem confusão.
08/07/2018
dos perdidos
Triunfo dos emocionados emaciados
macios, mentirosos, metralhados
balas e abalas em fuga
uma ruga.
Uma viagem sem regresso.
Longe,
no tempo e no espaço e range
escadas dentadas e delapidadas
uma pedra fria e, claro, vazia.
Azia e melancolia
e ninguém lia
toda a boca comia
mas daquela cara
repugnante
só água escorria.
E nem dó
porque merecia
e nem dó
porque também se ria.
Escrito a 04/07/2018
IRA
Como dizer como falar como expressar.
Expresso e pressiono nas têmporas,
temperos sem sono, sem sabor, sem ar.
Armários arfando exaustos das esporas
um bufar cavalar com o sangue a jorrar.
Ah, se pudesse, se soubesse, se quisesse,
se dissesse e em diamantes dementes,
dormentes, doces e refulgentes, e dormisse
durante anos, anos, anos, anos!
Sob o encanto mágico do medo (e da pieguice).
Antes, tão antes, tão longe, tão brilhante.
No medo enrolado, embolado, inconsciente,
dormente como que um monstro hibernante,
no frio incandescente a alma fechada,
uma fachada, jovem, cedo fermentada.
E agora aqui, agora aqui, aqui, explodem!
Como balas escaldantes as palavras
que com os dedos feios lavras.
Quente é o pecado, o quinto círculo,
onde vai essa emoção, esse coração(?)
(chamam-lhe assim, porque não?)
e que os risos fizeram ridículo.
Mas sabes que és capaz de amar, sabes
sabes, sabes, sabes, sabes!
Com tanta força que te perdes,
e te convences, a ti
a ti
convences
que não há nem haverá para ti
amor
amor, não para ti.
Ah, o teu peito cheio clama,
o amor explosivo que sentes
e gritas que amas!
Gritas que és capaz
és capaz de amar!
Mas
por ti só sentes ódio.
Por ti só sentes ódio.
07/07/2018
Movimento Estrutural
das palavras
pulam
ossos
p a r t e m - s e
e palpita no interior
pastoso
bombardeado
batido, beijado
afagado escorraçado
ama
a abomina
passa de mão
em pé e boca
e lágrimas
risadas
chegam e vão
de algures
para nenhures
são dadas
mas não são.
Escrito c. 17/05/2017
Na parede
Na parede.
Na parede, dura e fria,
é que agora ia.
Isto já fede.
A tremer, no lixo,
no lixo, a tremer.
As minhas mãos
sempre a tremer.
Só na parede.
Espatifar.
Contra a parede.
Em mil pedaços.
D e s p e d a ç a r.
Escrito a 19/08/2017