Beco sem fim
O invólucro carniço,
constelação de vida
devida à morte
franca mentira.
Abre-te para nós
como um leque
de penas coloridas.
Penas sentidas
mas não espremidas.
Gotas de gargalhadas
em poças derramadas.
São sons ajuntados
a desenhos pregados
com dardos desconjuntados
atirados de olhos fechados.
Porque aqui estão
como num caixão
culpada paixão
sem salvação.
Pois caímos enfim
e caminhamos assim
neste beco sem fim.
Escrito c. 31/03/2017
Objectividade fantasma
Se não é real,
sossega,
não faz mal.
Porque
nem era
de ninguém.
Quase roubada
ficção inflacionada.
Tem em si
esquecidas
constelações mortas,
constelações vivas,
que brilham longas como rabos de aves
do paraíso.
Magnólias e jacintos.
Perfume a podre.
Disforme e fermentado.
Como um monte de bosta.
Cagado e recagado.
Por quantos cus já nasceram
e quantos cus morreram.
As flores perfumadas
pintadas como o ocaso
de rosado roxo rubicundo.
Como?
Escrito c.25/05/2017
Milénio Prometido
Roubado o futuro das mãos tenras.
Os dedos moles, quebradiços,
como os sonhos que não tínhamos.
Que nos fizeram crer
que podíamos ter.
Agora em volta,
a toda a volta,
em chamas mais altas,
mais altas que as vozes.
Labaredas encarnadas,
descontroladas, velozes.
Reduzidos a cinzas, os sonhos.
O cheiro acre, ácido, nos olhos,
das promessas vazias.
Como queda agora tudo
a toda a volta
vazio.
Escrito a 17/10/2017
Na cara
A chuva que cai
lá fora a jorrar
do céu não pode parar.
Quero ir lá e ficar,
de pé,
debaixo dela,
para me molhar
mesmo.
Escrito a 08/04/2018
Irrealidade
Se não entendemos
inventamos.
Um significado qualquer,
um babujar qualquer,
um cordão de rabiscos,
que vermelhos usamos,
como uma coroa de hibiscos.
Procuramos
quem mais não entenda.
E pensamos
em conjunto
sempre em conjunto.
No que conhecemos
buscamos
uma ligação da origem
tradição confortável
como uma cama de algodão virgem.
Não podemos confluir
no mar indizível,
onde um dia acordamos,
e nos obrigamos a dizer:
"Isto é real,"
sem o poder ser.
Escrito c. 03/04/2017
Um escorvo
De manhã a solidão,
enregela os braços e as pernas,
em bafos gélidos de primaveras.
Dos corvos a canção.
Sou eu que aqui estou,
mas não quero estar.
Não preciso de estar.
Um estorvo, o corvo cantou.
Abandono, só.
Um veleiro roto à deriva.
No oceano vasto.
A superfície vazia.
A torre sombria caída,
onde ainda vive o tormento,
Insistente com a vida,
persistente com a morte.
Escrito a 26/04/2018
Justiça Poética
água mole em pedra dura
tanto bate até que enche a galinha o papo.
Quem corre por gosto,
não cria limos.
E quem o feio ama,
sabe nadar.
Escrito c. 15/05/2017 (maláfora)
Por essa
Pela poesia que transforma
em grunhidos canções.
Aquela que desenforma
firmes convicções.
Pela poesia que rebenta
com os olhos nas órbitas e a língua na boca.
Explode apaixonada!
Encara a bola do mundo
oca
a alvorada!
Pela poesia que arrefece
fogo adentro.
A mesma que aquece
gelo adentro.
Escrito c. 24/05/2017
Multiplicação
Depois de nós,
dos eus, os pós,
da fricção
dos dedos,
nas folhas,
desfazem-nas,
mas não desfazem
quem te escreveste.
Quedas quedo e ledo
que se lembrem
do que existe
a tua mão.
Depois da voz,
dos eus,
somos nós.
Escrito c. 26/06/2017
Descolar

A espreitar do céu, um gatodas órbitas amendoadasordens macias ronronadasas saltitantes passadas.E o céu que não se apagaem névoa acinzentadacada poste luz vagaervinhas de solidão.Brilhante foguetãocasco na cabeçamalinha na mãomão na cabeça.Voa para cimacom um fatoe esse gatoolha acima.Olha alio gatoas luzese o chão.Na mãomala,fato,casco.E vainãomias,vem.
Poema Ecfrástico escrito a 19/03/2017