Escritas

Lista de Poemas

Um escorvo



De manhã a solidão,
enregela os braços e as pernas,
em bafos gélidos de primaveras.
Dos corvos a canção.

Sou eu que aqui estou,
mas não quero estar.
Não preciso de estar.
Um estorvo, o corvo cantou.

Abandono, só.
Um veleiro roto à deriva.
No oceano vasto.
A superfície vazia.

A torre sombria caída,
onde ainda vive o tormento,
Insistente com a vida,
persistente com a morte.



Escrito a 26/04/2018
👁️ 421

Na parede

Na parede.
Na parede, dura e fria,

é que agora ia.
Isto já fede.

A tremer, no lixo,
no lixo, a tremer.
As minhas mãos
sempre a tremer.

Só na parede.
Espatifar.
Contra a parede.
Em mil pedaços.
D e s p e d a ç a r.


Escrito a 19/08/2017

👁️ 386

Objectividade fantasma

Se não é real,
sossega,
não faz mal.
Porque
nem era
de ninguém.
Quase roubada
ficção inflacionada.
Tem em si
esquecidas
constelações mortas,
constelações vivas,
que brilham longas como rabos de aves
do paraíso.
Magnólias e jacintos.
Perfume a podre.
Disforme e fermentado.
Como um monte de bosta.
Cagado e recagado.
Por quantos cus já nasceram
e quantos cus morreram.

As flores perfumadas
pintadas como o ocaso
de rosado roxo rubicundo.

Como?



Escrito c.25/05/2017
👁️ 395

Na cara



A chuva que cai

lá fora a jorrar
do céu não pode parar.

Quero ir lá e ficar,
de pé,
debaixo dela,
para me molhar
mesmo.



Escrito a 08/04/2018
👁️ 449

Vista da Margem



Em cima duma ponte,

sentados os elefantes.
Duas moscas radiantes,
deitam pedras numa fonte.

água azul e amarela.
é o espelho mole do sol.
Ninguém quer beber dela,
a não ser um rouxinol

Vão os elefantes embora,
e as moscas apagadas,
na água escura escondidas,
nadam para longe agora.



Escrito a 22/02/2018
👁️ 447

Irrealidade

Se não entendemos
inventamos.
Um significado qualquer,
um babujar qualquer,
um cordão de rabiscos,
que vermelhos usamos,
como uma coroa de hibiscos.

Procuramos
quem mais não entenda.
E pensamos
em conjunto
sempre em conjunto.

No que conhecemos
buscamos
uma ligação da origem
tradição confortável
como uma cama de algodão virgem.

Não podemos confluir
no mar indizível,
onde um dia acordamos,
e nos obrigamos a dizer:
"Isto é real,"
sem o poder ser.



Escrito c. 03/04/2017
👁️ 365

Milénio Prometido

Roubado o futuro das mãos tenras.
Os dedos moles, quebradiços,
como os sonhos que não tínhamos.
Que nos fizeram crer
que podíamos ter.

Agora em volta,
a toda a volta,
em chamas mais altas,
mais altas que as vozes.
Labaredas encarnadas,
descontroladas, velozes.

Reduzidos a cinzas, os sonhos.
O cheiro acre, ácido, nos olhos,
das promessas vazias.

Como queda agora tudo
a toda a volta
vazio.



Escrito a 17/10/2017
👁️ 453

Poço de confiança



No circulo de luz
em linha recta, 6m
e 42cm.

água seca, lama,
limo, verde, espera,
afasta-te nuvem
sai!

é mesmo verde
o tempo a passar
acima, luz
às 12:00.

Círculo inferior:
4m.
Círculo superior:
a calcular,
quando a luz voltar.

A luz vai voltar.
mãos na parede a tactear
a luz vai voltar.
A luz vai voltar.

No escuro inesperado
os cálculos desfazem-se
o futuro descontrolado.



Escrito a 27/03/2017
👁️ 361

Multiplicação




Depois de nós,
dos eus, os pós,
da fricção
dos dedos,
nas folhas,
desfazem-nas,
mas não desfazem
quem te escreveste.

Quedas quedo e ledo
que se lembrem
do que existe
a tua mão.

Depois da voz,
dos eus,
somos nós.



Escrito c. 26/06/2017
👁️ 489

Movimento Estrutural

das palavras

pulam

ossos

p a r t e m - s e

e palpita no interior

pastoso

bombardeado

batido, beijado

afagado escorraçado

ama

a abomina

passa de mão

em pé e boca

e lágrimas

risadas

chegam e vão

de algures

para nenhures

são dadas

mas não são.



Escrito c. 17/05/2017

👁️ 412

Comentários (1)

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cianeto
cianeto
2018-07-27

feliz pelo seu like, pois és muito bom!