Lista de Poemas
Rearranjamos
Mas olha o que está
à frente
ou aqui atrás.
Vê o que lá está e que veio,
veio de uma origem,
de onde se puxam as veias,
veias retesadas, a retinir,
em paralelo, ao comprido.
As guitarras já lá estavam,
já as tinham ouvido,
já as tinham tocado
como quem se enfia na toca.
Os acorrentados,
nas correntes de ar,
portas e janelas abertas,
saltam das dobradiças,
e, contra nós, aos pedaços
de maçã
podre
fermentada num licor
doce
aos golinhos.
E depois cantamos,
acompanhamos a cigarra,
dedilhamos as veias,
rearranjamos a guitarra.
Escrito a 30/03/2017
👁️ 639
Mártir de verga
Vozes de longe chamam, num som,
Velho e vulgar leve velejar.
Alto, lacrimejante, som,
amarelo escorregadio,
tão frio.
Flamejante, arquejante.
Se respira, mata-o.
Por Deus, corta-o.
Nos céus, apaga-o.
Quem és tu, flor biliar?
Amargas as dores,
dos sons dos horrores,
rindo e rodando,
verde vento a urrar.
Azul o marulhar, a espumar.
A agarrar e a sorrir, encrustado,
numas rochas que não tens.
Em ti, não as tens.
São sãs e os sóis sibilam.
Que te queimes e afogues,
no vermelho da tua fé.
às chamas que lambes,
pede que te matem de pé.
és uma árvore, lilás.
Podre e pungente.
Nessas raízes jaz
esse amor demente.
15/06/2018
Vagamente inspirado no filme 'The Wicker Man' (1973)
👁️ 644
desarticulação
"Levanta a cabeça princesa, senão a coroa cai"
a cabeça caiu no chão, nunca teve coroa, e já lá vai
rebolou para tão, tão longe que se perdeu
deu vontade de rir, mas chorar foi o que aconteceu.
"Será que algum dia vou vencer na vida? Eu tenho certeza que não"
grande filósofo, poeta e pobre, e sentindo, o grande, Paulo, Juão
a fotossíntese de que ele fala não posso
porque não tenho nem osso.
Na pele rasteja a dúvida e o cansaço
como vermes
verdes, viscosos, vagos
e dos olhos desliza o embaraço
rebolam grossas como bagos.
Espreme-as, espreme-as e bebe-as
como um sumo patético como és
como és tu, o sumo, o teu
dos teus olhos mortiços
doentes
e cercados de breu.
Está escuro, aqui, aqui no fundo
onde se perde tudo e só há cacos
está cheio, mas sem ver, o mundo
aqui em baixo, não há buracos,
é uma massa de medo e merda
o que alguém como tu herda
porque é isso que mereces.
É só isso que mereces.
04/07/2018
a cabeça caiu no chão, nunca teve coroa, e já lá vai
rebolou para tão, tão longe que se perdeu
deu vontade de rir, mas chorar foi o que aconteceu.
"Será que algum dia vou vencer na vida? Eu tenho certeza que não"
grande filósofo, poeta e pobre, e sentindo, o grande, Paulo, Juão
a fotossíntese de que ele fala não posso
porque não tenho nem osso.
Na pele rasteja a dúvida e o cansaço
como vermes
verdes, viscosos, vagos
e dos olhos desliza o embaraço
rebolam grossas como bagos.
Espreme-as, espreme-as e bebe-as
como um sumo patético como és
como és tu, o sumo, o teu
dos teus olhos mortiços
doentes
e cercados de breu.
Está escuro, aqui, aqui no fundo
onde se perde tudo e só há cacos
está cheio, mas sem ver, o mundo
aqui em baixo, não há buracos,
é uma massa de medo e merda
o que alguém como tu herda
porque é isso que mereces.
É só isso que mereces.
04/07/2018
👁️ 586
Sentido contido
Pétalas de tempestade vermelhas,
com a fúria incandescente da vida,
é a calma silenciosa da morte,
que da boca me arranca a língua.
E oiço berros incontidos nos céus,
amarelos, aterrados, incinerados.
E não há nada para dizer.
Não há nada para dizer.
Escrito a 18/06/2017
👁️ 620
Estados Alterados
Estados alterados
consciência inconsistente
mole, mel, melancolia
calmo, canto, quente
uma melodia
manto de mascaras
verdes de verdade
ansiedade
imaturidade
medo do medo do medo
antes do sono
a harmonia
com a morte
da cotovia.
Escrito a 27/09/2017
consciência inconsistente
mole, mel, melancolia
calmo, canto, quente
uma melodia
manto de mascaras
verdes de verdade
ansiedade
imaturidade
medo do medo do medo
antes do sono
a harmonia
com a morte
da cotovia.
Escrito a 27/09/2017
👁️ 605
Conta-Gotas
Se me acusas,
de coisas,
coisas que eu
NãO FIZ,
ninguém diz
que não és tu
quem as faz.
Porque és tu.
és tu.
és tu.
Sempre,
SEMPRE,
foste tu.
O ataque palavroso
que me atiras a mim,
achando que o que fazes,
nunca fizeste.
Que me atinges
Agora.
Agora que abri a boca.
Que não me quero mais,
CALAR.
Não consegues.
Se antes não aceitava,
se repudiava,
agora abomino.
Não tolero.
NãO TOLERO.
Escrito a 07/07/2017
👁️ 577
O nascer do pôr-do-sol
Nasce o pôr-do-sol ao cair da manhã
e as gotas secas a dormir no divã,
uma caminha num caminho à esquerda,
como do céu, um torvelinho de merda.
Sabidas as subidas e as descidas
mas caem como potes de papel
mascaradas de patos, despidas
descendo por fitas de rapel.
Fitando o horizonte onde nasce
o sol poente, a ocidente
e os olhos vesgos onde renasce
a ansiedade ardente.
Escrito a 02/07/2018
e as gotas secas a dormir no divã,
uma caminha num caminho à esquerda,
como do céu, um torvelinho de merda.
Sabidas as subidas e as descidas
mas caem como potes de papel
mascaradas de patos, despidas
descendo por fitas de rapel.
Fitando o horizonte onde nasce
o sol poente, a ocidente
e os olhos vesgos onde renasce
a ansiedade ardente.
Escrito a 02/07/2018
👁️ 577
Consenso(no)
Chega o sono falso.
Suspenso, é um balão.
Desliza, cobra, sorri,
pelo preto corrimão.
Abre-me as hastes,
flores flamejantes,
que brilhem ao sol
como elefantes.
Se vou e não fico,
não quero, é aqui.
E não sabes se vi
o lance levante.
Nas escadas da loucura
olhamos à frente e, e...
E quê?
Eu porque não olhei não vi,
a fogueira azul escura.
Se a vontade me chegasse,
se a vontade me levasse.
Ah, a cobra murmura,
no fundo
da escada escura.
Escrito a 20/06/2018
Suspenso, é um balão.
Desliza, cobra, sorri,
pelo preto corrimão.
Abre-me as hastes,
flores flamejantes,
que brilhem ao sol
como elefantes.
Se vou e não fico,
não quero, é aqui.
E não sabes se vi
o lance levante.
Nas escadas da loucura
olhamos à frente e, e...
E quê?
Eu porque não olhei não vi,
a fogueira azul escura.
Se a vontade me chegasse,
se a vontade me levasse.
Ah, a cobra murmura,
no fundo
da escada escura.
Escrito a 20/06/2018
👁️ 614
Mas ainda tenho
Vi um sonho colorido pequenino.
Urgente, sentido, e franzino.
Músicas em miniatura.
Danças sem sincronia.
Sem preparação como nascem os sonhos
rebentos de energia e alegria.
(Vi amor.)
Vi um entusiasmo que hoje mos torna
medonhos
porque debaixo dos pés
quais
percevejos peçonhentos,
fedorentos,
as fés que pudesse ter tido
todas, todas
idas.
Esmagadas como percevejos
feitas frutas espremidas
num sumo supressor que bebi
e decerto não morri.
Tudo no passado ido,
quebrado o cadeado
e o literal coração
despedaçado.
(Perdi amor.)
Ah, mas tantos anos depois,
quando no pensamento soube
que tinha de o consertar,
mesmo que sem alento,
já ido o sonho,
já depois de se apagar,
consertei.
(Esse não recuperei.)
Mas vi hoje, o mesmo sonho.
Vi o mesmo sentimento,
como que num espelho,
aquele meu rebento.
Vi-o colorido, vi o alento,
vi o passado, vi o brilho
ido
tão longe
quase esquecido.
(Mas ainda tenho.)
Escrito a 29/06/2018
Urgente, sentido, e franzino.
Músicas em miniatura.
Danças sem sincronia.
Sem preparação como nascem os sonhos
rebentos de energia e alegria.
(Vi amor.)
Vi um entusiasmo que hoje mos torna
medonhos
porque debaixo dos pés
quais
percevejos peçonhentos,
fedorentos,
as fés que pudesse ter tido
todas, todas
idas.
Esmagadas como percevejos
feitas frutas espremidas
num sumo supressor que bebi
e decerto não morri.
Tudo no passado ido,
quebrado o cadeado
e o literal coração
despedaçado.
(Perdi amor.)
Ah, mas tantos anos depois,
quando no pensamento soube
que tinha de o consertar,
mesmo que sem alento,
já ido o sonho,
já depois de se apagar,
consertei.
(Esse não recuperei.)
Mas vi hoje, o mesmo sonho.
Vi o mesmo sentimento,
como que num espelho,
aquele meu rebento.
Vi-o colorido, vi o alento,
vi o passado, vi o brilho
ido
tão longe
quase esquecido.
(Mas ainda tenho.)
Escrito a 29/06/2018
👁️ 588
Superstição
A minha resposta cega no final dum caminho
longo e ostentoso e asas de um véu aquoso.
No fim, um ponto sem penas, nem carinho
uma ave aveludada, depenada e desgraçada.
Graças divinas de olhos, suaves lamparinas
de onde escorre óleo de palavras por papel.
Papel que não tens nessa peça que escreveste.
Rabiscos autorizados pelas deusas felinas.
Ronronam de leve a se esticar e a enrolar
um fio de novelo grosseiro e embaraçado,
como o carmim da tua cara quente e clara,
em luz tornada, voltas a rir e a cantar.
Canta uma moda, uma qualquer, não sei.
Nem tu, nem ninguém, não sabemos nada.
Nadamos por aqui e por ali em limos
e limamos arestas para agradar ao rei.
A coroa não é nossa, nem o será.
Cera escorre-nos pelos dedos trémulos.
Terminados e assustados e medrosos.
O medo que nos nasce nos ouvidos.
E se a superstição queimares,
o melhor e que com mais dor puderes,
esperando por sortes melhores,
nasce-te alento pare te deitares.
Escrito a 24/06/2018
longo e ostentoso e asas de um véu aquoso.
No fim, um ponto sem penas, nem carinho
uma ave aveludada, depenada e desgraçada.
Graças divinas de olhos, suaves lamparinas
de onde escorre óleo de palavras por papel.
Papel que não tens nessa peça que escreveste.
Rabiscos autorizados pelas deusas felinas.
Ronronam de leve a se esticar e a enrolar
um fio de novelo grosseiro e embaraçado,
como o carmim da tua cara quente e clara,
em luz tornada, voltas a rir e a cantar.
Canta uma moda, uma qualquer, não sei.
Nem tu, nem ninguém, não sabemos nada.
Nadamos por aqui e por ali em limos
e limamos arestas para agradar ao rei.
A coroa não é nossa, nem o será.
Cera escorre-nos pelos dedos trémulos.
Terminados e assustados e medrosos.
O medo que nos nasce nos ouvidos.
E se a superstição queimares,
o melhor e que com mais dor puderes,
esperando por sortes melhores,
nasce-te alento pare te deitares.
Escrito a 24/06/2018
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Comentários (1)
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cianeto
2018-07-27
feliz pelo seu like, pois és muito bom!
Quem:
Estudante de Línguas, Linguistica, Cultura, e Artes Liberais no geral.
Actualmente a tirar mestrado nessa área.
Sobre o que escreve aqui:
dissociação,
estados alterados,
amor,
comunidade,
alienação,
niilismo,
raiva,
metapoesia,
experimental,
coisas que vê,
quando não consegue falar com coerência (o que acontece com frequência), escreve.
Estudante de Línguas, Linguistica, Cultura, e Artes Liberais no geral.
Actualmente a tirar mestrado nessa área.
Sobre o que escreve aqui:
dissociação,
estados alterados,
amor,
comunidade,
alienação,
niilismo,
raiva,
metapoesia,
experimental,
coisas que vê,
quando não consegue falar com coerência (o que acontece com frequência), escreve.
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