Poço de confiança
No circulo de luz
em linha recta, 6m
e 42cm.
água seca, lama,
limo, verde, espera,
afasta-te nuvem
sai!
é mesmo verde
o tempo a passar
acima, luz
às 12:00.
Círculo inferior:
4m.
Círculo superior:
a calcular,
quando a luz voltar.
A luz vai voltar.
mãos na parede a tactear
a luz vai voltar.
A luz vai voltar.
No escuro inesperado
os cálculos desfazem-se
o futuro descontrolado.
Escrito a 27/03/2017
Vista da Margem
Em cima duma ponte,
sentados os elefantes.
Duas moscas radiantes,
deitam pedras numa fonte.
água azul e amarela.
é o espelho mole do sol.
Ninguém quer beber dela,
a não ser um rouxinol
Vão os elefantes embora,
e as moscas apagadas,
na água escura escondidas,
nadam para longe agora.
Escrito a 22/02/2018
Sal
Às flores que murcham e brotam
às gotas de sal e gritos grotescos
guturais e moles e mentes,
mentes e mal e gritas
e grito
e odeio-te
odeio-te mais que a mim.
Odeio,
tanto como um poema
de ódio puro e escaldante.
Transborda e transparece
reluzente, ofuscante.
Mas não o vês, recusas-te,
acreditas-te na razão,
que jamais terás,
jamais, jamais, jamais terás
como também jamais terás
o meu perdão.
07/04/2019
morte na primavera
nas páginas de um caderno
escondeste o teu inferno
abre a porta do abismo
abriga o frio do inverno
essa ilusão, tentação
uma marca pálida no olhar
a cálida obrigação
sentes que não vai voltar
sem dor não há alivio
sem morte não há vida
morte na primavera
mentes de olhos fechados
o começar da hera
o elevar dos pecados
nas folhas rasgadas
palavras soltas desregradas
ideias frescas de verão
mortas como a tua mão
mas se corres, socorre
quem enterras no abismo
sempre o mesmo
ouve e vai, vai, e corre
sem dor não há alivio
sem morte não há vida
morte na primavera
mentes de olhos fechados
o começar da ira
o elevar dos pecados
09/09/2018
Aquário de Fogo
Uma cascata ao vento
flamejante e brilhante.
Uma cortina sem alento.
Refulge ao longe, distante,
rodopia o pó de diamante.
Nas costas finas de aço queda o peso
do amor gelado incandescente,
que dos olhos lhe lava a mente.
Quente no peito, o coração indefeso.
Em primeiro sempre a razão
mas mais oculta e incontida
a mais delicada e fina, emoção.
Sempre de pé, inquebrável.
Congelado até ao mais frio
dos frios
o zero absoluto.
Nas mãos glaciares e a alma
nua caminha no gelo
não apaga a chama.
Naquele cabelo cascata
de fogo e lucidez
nos olhos a limpidez
honesta e pura
quase inocente
quase crente.
06/09/2018
NADA
Nos recantos remotos da noite,
notas nadas em vazios vigilantes
antes nada vias e,
vá, admite
tens nos olhos prazeres frustrantes.
Toca ecoa e treme, a corda.
Acorda no escuro ofuscante.
O breu viscoso e coruscante
consome-te o peito
transborda.
A bordo de um navio vermelho,
velho, veleja veloz sem vento.
Atento o teu olhar, atento
focado no brilho baço do mar
sob o casco que o rasga lento
abre as mãos e os braços
és só tu, só tu no navio.
Salpicada de gotas encarnadas
a tua cara apaga-se.
O mar baço antes agora ilumina-se
e o brilho traz à tona
almas vazias, danadas
que se elevam nos céus
sem se moverem chapéus.
Esse sorriso na tua cara
apagada
sem luz, sem nada
é verdadeiro.
Acenas-lhes e então
então mergulhas
sem dizer nada.
Nada.
NADA.
23/07/2018