Escritas

Lista de Poemas

ALTARES

ALTARES

Trazias, luzeira, ah, que aquarela!
no fim do olhar um amor, que zelo!
o sol na queda dos cabelos
banha-te em graça , oh! Donzela.

Se me abres o sorriso
que dourado esse cobre-te a face!
Iracema, qual dos meus paraísos
haveria, e onde, se me faltasses?

Vigia essa busca incerta
e cuida-me em teus altares,
e se, Iracema, por mim chamares
já hei de ser em tua boca aberta.

Quisera, e sempre, soubesses,
tuas dores e amores também senti,
e sonho-me jardim onde floresces
em aromas de flores que não colhi.

Dá-me o colo - alento que anima,
e teus segredos e tua voz e asas,
fiz-me até n'alma tuas casas,
Iracema, que doce vida ensinas!


Sérgio Lemos
08.11.95
👁️ 663

Reluzir

Eu,
inexato como um molusco.
Aí você
pérola.

👁️ 1 071

O CÃO (Testemunha ou vítima?)

O CÃO
(Testemunha ou vítima?)

A rede movia-se mórbida
perante a tarde naquela varanda,
mal notava-se o olhar fixo daquela senhora,
na varanda onde só havia a rede
-uma cena fora de órbita
onde o vazia estendia as horas.
As cordas rangiam regendo a tarde,
ela arriscava-se num suspiro
como se anunciando um fim,
e eu, de expresão, vazia e reta,
sentia a concreta certeza em mim.
Disfarçou,em vão, uma dor no rosto
-e a lágrima nela tanto doía,
devido ao desgaste da vida em desgosto!
Mas, vazio, seu olhar permenecia.
Meu pai jazia no tapete
no sétimo dia do seu descanso,
bocejava imune num falsete
perdendo minha mãe frente a tv,
tomava um gole, de vergonha,
no copo ao lado de cerveja,
onde minha mãe esteve um dia,
quando a beijava e havia a alegria
que hoje só o copo enseja.
Um vento frio invadiu
a varanda e o rosto da senhora,
secando-lhe os olhos vermelhos
e, por fim, levando a esperança embora.
Passei a mão em seu cabelo
quando pensei: Mamãe, não chora...
Com ciúmes, o cão latiu
com o focinho sobre as patas.
Ele, que tinha o olhar menos frio,
fingiu ali não doer nada.
A rede foi se de desfazendo,
parando, perante a tarde,
levando o rangido derradeiro,
deixando um quase desespero
em toda aquela imobilidade.
Meu pai, num ronco, anunciava
a mamãe o seu cansaço,
após sua carraspana,
e a chamou ,sem dar os braços,
para uma cama cheia de espaço
e acordar noutra semana.



Sérgio

05/03/93

👁️ 660

Citação

CITAÇÃO

A tua poesia não é como escrevo;
há nela o enlevo de um verbo exposto,
a tua palavra me dá mais gosto
e sorvo do gosto dela na voz.
A poesia que tu és é suspensa
além do que se pensa beleza,
a poesia tua é correta e coesa
e tem uma certeza em tudo que crias,
- não é uma peça que shakespeare corrija
ou tinja Rembrandt de cores sombrias.
A tua poesia é mesmo matemática,
podendo ao relativo parecer causal,
e a química; toda inalterável mágica,
qual mistura fosse de concreta e irreal.
A poesia tua é essa voz que entoas
e dói, mais que doa, essa voz que mais ouço
e peço na prece bem junto a mim.
(Assim, parecido, soaria Sonata
a reger um coro de mil querubins.)
A poesia que tu és é o olhar que pelejo
e desejo na tela pôr no peito ou no ponto,
é a tão clara calma que em cada estrela conto
e no fim da noite, tonto, mando nos dedos um beijo.
A poesia que tu és possui longevidade,
resume a verdade se a busca é o belo.
Tua pele é bela, textura, poros e pêlos
- tê-los roçando é paz na insanidade.
A poesia tua está em toda boca
lançando, louca, nos lábios doce tirania,
onde a vida em mim principia
e a morte chega a parecer pouca.


A poesia tua está em todo gesto,
em cada contexto em teu movimento,
está presente se é prazer que testo
e não meço esforço em tornar mandamento.
(Meu mundo é o medo do que ele me guarda,
todavia, um segredo sem amor é nada-
assim, tua poesia velo, revejo e tento.)
A poesia tua é aurora e repleta
do que completa e aflora os sentidos,
a minha, é de ateu, que, anjo caído,
te espera de asas e janelas abertas.
A poesia tua é por si absoluta,
e de tal modo estranhamente vaga,
parece na métrica não haver conduta,
contudo, conduz, me aborda e embriaga
e inflama a luta entre chama e luz,
(sincera como a nudez do cristo na cruz,
e escura como a noite do anu jamais visto
-ou graúna - e cristo, nu, permanecera.)
A tua poesia é dezembro em primavera
confundindo se inverno é ou não benquisto.
A poesia que és é suficiente e se basta,
diria o poeta que ela nem mesmo se cabe,
é daquela paz que jamais fica ou se afasta,
a infinita quietude que a palavra não sabe.
A poesia que tu és convence-me de um deus,
da natureza divina que a tudo impele,
supondo-me imagem ou reflexo dele
és, de certo, além dos caprichos seus.


Sérgio Lemos
13.01.10

👁️ 1 065

SAUDADE DE PEDRA



SAUDADE DE PEDRA
(À mariposa, que ensina mais do que imagina.)


Escrevo que é para me desvelar,
desnudar nuances da minha sombra,
mostrando as palavras que sou a sangrar
verdades coaguladas de mim mesmo.
Escrevo para me tornar a argila dos teus sonhos,
a matéria etérea do teu corpo e o barro.
Escrevo as noites de pesadelos medonhos
que vestem de realidade os nossos medos.
escrevo o segredo de insondáveis minutos
tão diminutos se o tempo sabota o enredo.
Escrevo, e cada letra é uma trama
de tanta ausência contida e entrelinhas perdidas
nos textos que a vida ensaiou mas não leu.
Escrevo porque nas cartas és minha sorte
e no espelho é o teu rosto, não o meu.
Escrevo porque te ver sem poder dá asas,
e ter-te, tão perto, derrete-me o céu.
Ver-te do alto faz do vôo menos solitário!
Escrevo porque há momentos que se negam aos dias
em que não vejo o pôr-do-sol dourar nossos olhos,
e não mereço, em teus cabelos longos, meus dedos
em passeios de volta a mim mesmo.


Escrevo porque a palavra exala de meus poros
quente, latente, buscando os sonhos teus
e teu vôo triste em que suportas o peso do céu.
Escrevo porque o amanhã são os nossos filhos
brincando no quarto escuro dos teus olhares
- deserto onde o porvir evapora.
O futuro? Esse passou por nós partido em dois,
foi o amante e o algoz que de mim dispôs
e escrevo porque és o reflexo que me divide
e dá cor ao vermelho da minha dor.
Escrevo porque em meu cais só há saudade,
um pôr-do-sol de pedra e um covarde
a fazer ameaças de amor - a quem?
Se penso que amanheces; apenas neblina,
e quando tua dor, feito seta, me atinge,
Tu, Esfinge, nem te apagas, nem me iluminas,
e o leito onde me afogo é assim:
teu início arde e teima em ser meu fim.
E eu, que não caminhava descalço,
rodopio agora em vidros e brasas;
eu, que nem sequer acreditava em Eros,
agora eu mesmo pareço ter asas;
eu, que dançava triste as angústias de um bolero,
agora sussurro árias, enquanto espero.



Sérgio Lemos

👁️ 668

JANELA

JANELA


Hoje a manhã voltou mais lenta,
palidamente lenta e arrastada,
curando algo da insônia sedenta,
levando a leveza da noite passada,

a tarde se espreguiça em seu relento,
exibe seu brilho por todo o asfalto,
rouba do suspiro um lamento alto.
No balanço da cadeira percebo desatento.

o sol queima o sereno do último luar,
os sonhos todos que este embalou,
pergunta o poema: "onde brotar?"
ciumento do encanto que o sol desvelou.

Na calma onde a varanda me esconde,
lá ao longe vejo um sol que se impõe,
seu dourado em mim é quando e onde,
é tudo a que a beleza não se opõe.

Foi só outro dia vindo questionar
qualquer vazio, e foi-se embora,
deixando,serena,a poesia brotar
na simplicidade do que se ignora.





Sérgio Lemos
15/01/90


👁️ 1 101

ARCANO FRANCÊS

Arcano francês.

Finda a tarde,
a lua e o céu
-numa ciranda sideral-
decidem a noite.
Em órion acende-se uma estrela,
no rubi do raio contou-me ela
um segredo que me transpassou:
"Aquieta-te e sabe: Eu sou.!"
👁️ 643

Do que resta



DO QUE RESTA


Tenho agora dois corações,
um para calar os sentidos,
outro que lembra canções,
um que aguarda a primavera,
outro para lembrar o que era.
Um que é somente espera,
um que pulsa solidão.
Tenho agora dois corações,
bem melhor que não tivera,
um é filho da saudade,
o outro, a tudo supera.
Um é castelo, desabitado e sombrio,
outro é correnteza que perdeu o rio.
Um, é pura fé e oração,
o outro é ateu sem direção.
Um é madrugada silenciosa,
o outro, azul e amplidão.
Tenho em mim dois corações,
um espera do futuro,
o outro, só desilusões,
um é deserto e miragem,
o outro é partida sem bagagem,
um é lembrança e romantismo,
o outro é queda e abismo.





Um, que abraça o travesseiro,
o outro, suporta o desespero.
Um, é sede que não passa,
outro, é medo sem ameaça,
um é caminhar sem caminho,
o outro, embriaguez e vinho.
Um, que procura no escuro,
outro, que se debate no muro,
um que apaga a luz e sonha,
outro que se afoga na fronha.
São assim meus corações;
um se confessa e me denuncia,
o outro te nega e repudia,
e os dois dividem o mesmo peito.
Um sussurra e o outro berra,
um te vela e o outro enterra,
um é mergulho e o outro; leito.
um passeia em devaneio,
o outro, é triste lucidez,
um te busca nas nuvens,
o outro, na insensatez.


Sérgio Lemos

23-09-2006
👁️ 628

JANELA II

JANELA II


Sou um lago daquele sem lua,
sem reflexo,margem ou fim,
sou esquina sem beco ou rua,
sou ausência de alguém em mim.

sou poente, sarjeta e nojento,
sou vento,lamento- quem dera poeta!
sem musa ou caneta, verso ou meta,
sou o demônio da lágrima que invento.

Sou o sossego do luar na noite,
sou silêncio sem noite ou luar,
sou o perdão gêmeo do açoite,
sou minh'ausência por te sobrar.

Sou apenas frações de algo meu,
sem um riso ou a quem esboçar,
sou encontro nosso que se perdeu,
sou em ti um melhor lugar.



Sérgio

20/07/91










👁️ 1 000

INSÔNIA DE ATEU

Nessa noite escura vou ousar,
vou soltar minha feiúra.
Depois rezar - que é pra brilhar,
ascender tudo que eu possa,
porque papai-do-céu gosta
e os anjos vão suingar.
Depois, me deito e esqueço
-e dormindo sou feliz!
pois finjo não ter preço
as tolices que já fiz.



Janeiro,2000

Se beber não dirija.
👁️ 691

Comentários (0)

Iniciar sessão para publicar um comentário.

NoComments