SAUDADE DE PEDRA
SAUDADE DE PEDRA
(À mariposa, que ensina mais do que imagina.)
Escrevo que é para me desvelar,
desnudar nuances da minha sombra,
mostrando as palavras que sou a sangrar
verdades coaguladas de mim mesmo.
Escrevo para me tornar a argila dos teus sonhos,
a matéria etérea do teu corpo e o barro.
Escrevo as noites de pesadelos medonhos
que vestem de realidade os nossos medos.
escrevo o segredo de insondáveis minutos
tão diminutos se o tempo sabota o enredo.
Escrevo, e cada letra é uma trama
de tanta ausência contida e entrelinhas perdidas
nos textos que a vida ensaiou mas não leu.
Escrevo porque nas cartas és minha sorte
e no espelho é o teu rosto, não o meu.
Escrevo porque te ver sem poder dá asas,
e ter-te, tão perto, derrete-me o céu.
Ver-te do alto faz do vôo menos solitário!
Escrevo porque há momentos que se negam aos dias
em que não vejo o pôr-do-sol dourar nossos olhos,
e não mereço, em teus cabelos longos, meus dedos
em passeios de volta a mim mesmo.
Escrevo porque a palavra exala de meus poros
quente, latente, buscando os sonhos teus
e teu vôo triste em que suportas o peso do céu.
Escrevo porque o amanhã são os nossos filhos
brincando no quarto escuro dos teus olhares
- deserto onde o porvir evapora.
O futuro? Esse passou por nós partido em dois,
foi o amante e o algoz que de mim dispôs
e escrevo porque és o reflexo que me divide
e dá cor ao vermelho da minha dor.
Escrevo porque em meu cais só há saudade,
um pôr-do-sol de pedra e um covarde
a fazer ameaças de amor - a quem?
Se penso que amanheces; apenas neblina,
e quando tua dor, feito seta, me atinge,
Tu, Esfinge, nem te apagas, nem me iluminas,
e o leito onde me afogo é assim:
teu início arde e teima em ser meu fim.
E eu, que não caminhava descalço,
rodopio agora em vidros e brasas;
eu, que nem sequer acreditava em Eros,
agora eu mesmo pareço ter asas;
eu, que dançava triste as angústias de um bolero,
agora sussurro árias, enquanto espero.
Sérgio Lemos
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