Lista de Poemas
ANOITECENTE
A noite sustenta teu sono
maior que o espaço em seu trono,
a noite é íntima dos medos,
liberta tuas quimeras
e vai, deixando a espera.
A noite é toda um segredo.
Desfila, ainda, estampada
uma lua carente ou minguada,
o luar triste a quem procura.
A lua conforta indecisas
almas poentes e poetisas.
É o olhar da noite escura.
Um hálito frio saboreia
o suor do amor sobre a areia.
É o vento que embala o oceano,
e um lamento que havia
alheio a toda agonia,
faz-se descanso nosso, profano.
A noite é inteira expressão,
são atalhos que esconderão
o mistério do que ela prega.
um vôo e um céu enevoado,
o tempo eterno estagnado,
a dor de algo que o peito nega.
Assim é que a noite existe;
um leito para olhos tristes,
ou um açoite que invento,
o despertar insinuante,
um contemplar nunca bastante
do nosso próprio firmamento.
Sérgio
março,
1995.
DIMINUTO
DIMINUTO
és mesmo sustenido,
eu, algo bemol.
Mas,
se meu olhos te tocam
eu todo
desafino.
Sérgio
INSÔNIA DE ATEU II
ou ceder a tentação?
Gozar do erro sim,
da culpa, não.
Depois, tonto de oração,
prontinho pra redenção,
calculo outro pecado (Oba!)
menor que o perdão.
março, 2003.
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CITAÇÃO
A tua poesia não é como escrevo;
há nela o enlevo de um verbo exposto,
a tua palavra me dá mais gosto
e sorvo do gosto dela na voz.
A poesia que tu és é suspensa
além do que se pensa beleza,
a poesia tua é correta e coesa
e tem uma certeza de tudo que crias,
- não é uma peça que shakespeare corrija
ou tinja Rembrandt de cores sombrias.
A tua poesia é mesmo matemática,
podendo ao relativo parecer causal,
e a química; toda inalterável mágica,
qual mistura fosse de concreta e irreal.
A poesia tua é essa voz que entoas
e dói, mais que doa, essa voz que mais ouço
e peço na prece bem junto a mim.
(Assim, parecido, soaria Sonata
a reger um coro de mil querubins.)
A poesia que tu és é o olhar que pelejo
e desejo na tela pôr no peito ou no ponto,
é a tão clara calma que em cada estrela conto
e no fim da noite, tonto, mando nos dedos um beijo.
A poesia que tu és possui longevidade,
resume a verdade se a busca é o belo.
Tua pele é bela, textura, poros e pêlos
- tê-los roçando é paz na insanidade.
A poesia tua está em toda boca
lançando, louca, nos lábios doce tirania,
onde a vida em mim principia
e a morte chega a parecer pouca.
A poesia tua está em todo gesto,
em cada contexto em teu movimento,
está presente se é prazer que testo
e não meço esforço em tornar mandamento.
(Meu mundo é o medo do que ele me guarda,
todavia, um segredo sem amor é nada-
assim, tua poesia velo, revejo e tento.)
A poesia tua é aurora e repleta
do que completa e aflora os sentidos,
a minha, é de ateu, que, anjo caído,
te espera de asas e janelas abertas.
A poesia tua é por si absoluta,
e de tal modo estranhamente vaga,
parece na métrica não haver conduta,
contudo, conduz, me aborda e embriaga
e inflama a luta entre chama e luz,
(sincera como a nudez do cristo na cruz),
e escura como a noite do anu jamais visto
-ou graúna - e cristo, nu, permanecera.)
A tua poesia é dezembro em primavera
confundindo se inverno é ou não benquisto.
A poesia que és é suficiente e se basta,
diria o poeta que ela nem mesmo se cabe,
é daquela paz que jamais fica ou se afasta,
a infinita quietude que a palavra não sabe.
A poesia que tu és convence-me de um deus,
da natureza divina que a tudo impele,
supondo-me imagem ou reflexo dele
és, de certo, além dos caprichos seus.
Sérgio Lemos
13.01.10
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