Do que resta
Sérgio Lemos
DO QUE RESTA
Tenho agora dois corações,
um para calar os sentidos,
outro que lembra canções,
um que aguarda a primavera,
outro para lembrar o que era.
Um que é somente espera,
um que pulsa solidão.
Tenho agora dois corações,
bem melhor que não tivera,
um é filho da saudade,
o outro, a tudo supera.
Um é castelo, desabitado e sombrio,
outro é correnteza que perdeu o rio.
Um, é pura fé e oração,
o outro é ateu sem direção.
Um é madrugada silenciosa,
o outro, azul e amplidão.
Tenho em mim dois corações,
um espera do futuro,
o outro, só desilusões,
um é deserto e miragem,
o outro é partida sem bagagem,
um é lembrança e romantismo,
o outro é queda e abismo.
Um, que abraça o travesseiro,
o outro, suporta o desespero.
Um, é sede que não passa,
outro, é medo sem ameaça,
um é caminhar sem caminho,
o outro, embriaguez e vinho.
Um, que procura no escuro,
outro, que se debate no muro,
um que apaga a luz e sonha,
outro que se afoga na fronha.
São assim meus corações;
um se confessa e me denuncia,
o outro te nega e repudia,
e os dois dividem o mesmo peito.
Um sussurra e o outro berra,
um te vela e o outro enterra,
um é mergulho e o outro; leito.
um passeia em devaneio,
o outro, é triste lucidez,
um te busca nas nuvens,
o outro, na insensatez.
Sérgio Lemos
23-09-2006
Português
English
Español