Escritas

Lista de Poemas

Ressurreição

Eu não irei voltar! Não volto ao refúgio carnal que de seu asilo trancafiou-me. Quase um século de volúpia contra meu prazer, cativando a soberba do ego; décadas de ignomínia sob o solo dos ratos beirando minha masmorra. Bastardos do rei, poderoso rei, vilipendiou-me nas frestas da esperança, quando vosso austero coração derretia conforme o batimento de teu filho queimava na peremptória piedade não atendida. Afogado pelo sangue opressivo que cachoava, infelizmente, meu funesto corpo; o mar vermelho de minhas entranhas banha o sol como a vertigem de marte. O céu, sujo céu, que de seu belo eclesiástico e celeste tom, dava vazão à minha atômica misantropia por cada molécula presente na existência. Como eu sacrilégio o viver, não há amor, muito menos carisma em levantar mais um dia. A fatigada e vil dona morte deveria ceifar minha garganta, espalhar minhas folhas de kalanchoe sobre o vento último da solidão; sobrepujar-me a impotência soberana do fim. Gostaria de ser o fantasmagórico assombro que perturba os moradores de alguma região. Velar o espírito podre dos esotéricos ocultistas, sucumbi-los. A morada da importância balsa a força que tenho em saber que posso matar e morrer ao mesmo tempo; dualidade cartesiana imoral. A bandeira de minha nação é meu próprio crânio, meu brasão é meu corpo putrefato, minha honraria é ter deixado a vida de tantos honrados. Sou aquele que peca sem olhar a quem, sou o renegado ignóbil homem que dança na lama preta de um ritual. Nas trevas habito meu mundo, a desgraça teve que ser assim, o caixão teve que ser minha mansão e meu velório teve de ser meu baile de gala que tanto desejei.
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Reminiscência

Todo dia infelizmente esqueço de alguma coisa. Quando não é um horário, é um compromisso importante. Me peguei uma vez errando o caminho pro trabalho, sendo que minha rotina é a mesma: passar o café, um pão com manteiga, colocar meu terno e ir ao trabalho. O gerente lá da empresa já pegou muito no meu pé, às vezes porque não lembrava até o número de telefone dos revendedores deles.

Em casa uma vez acordei com uma mulher mexendo nas minhas coisas com uma cara angustiada. Ouvi um barulho na sala e resolvi checar. Vejo uma senhora com vários álbuns de fotos. Eu não lembrava direito o rosto dela, mas não me parecia ser desconhecida. Parecia que já tinha a visto. Foi quando exclamei a ela: ‘’Quem é você!?’’. A velha desmaiou no chão como um bloco. Aí me deu, final e infelizmente, um lapso de memória. Esqueci que aquela era minha mãe e nem vivo eu mais estava.
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Infância

Garotinho regou a alegria inebrie, 
Afagava seu tronco em seu brincar,
O lavro do cultivo, o fértil desabrochar. 
Da terra pura frutou sua ávida febre.

Febre essa que queima sua inquietude,
Quando os feixes luzentes do sol
Dão combustão ao velho farol, 
girando seu mundo na erma virtude.

Seu sorriso intuía o ato mais perene
Do mais querido, a inocência tão bela
Seu oceano era uma besteira singela,
Quando chorava ainda ficava tão serene.

Sua angústia era perder, não aceitava,
Menino que falava baixo, voz austera,
Silencioso comitê de sua quimera:
Mas quando fantasiava, sua asa voava.

Curiosamente sendo calado no meio,
Suas amizades não houveram limites,
como cavalos livres sem afoites; 
A corrida dos ajustados não teve freio.

Com brinquedos, a fantasia final. 
Dormia mais um dia na linha de frente, 
Como convertia sua simples mente;
Na guerra contra o batalhão infernal.  
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O Poema do Morto

No caixão putrefato vou ficar 
no ritmo da terra no corpo,
o ditirambo da inércia, matar.
Coveiro consolando o morto,
da funéria sombra etérea, 
o divino esqueceu o cadáver
quando deu fruto a matéria;
Mornou a água do precaver,
ignorou as súplicas do filho
do fatídico Cristo-martírio. 
   
Eu deveria sair do mausoléu,
mas, deixei os vermes no fel.
Caminhar no ritmo que a terra
sucumbiu minha veste férrea;
Coagir meu coração a bater
na força de bomba a crescer.
O segmento do meu crânio 
quebra justaposto ao ânimo:  
o sentimento de persistência
soterrado na clemência.
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O Ultimo Conto

Lágrima gelada faz derreter
o anjo da última lápide. 
Gesso enfraquecido na força
da batida do último corvo, 
na vertigem de sua asa,
a última morte; 
nas rosas do último defunto,
o fim da primeira saudade. 
Velório do assombro sujeito,
da sexta casa à direita,
donde residia a garota do
véu, aquela que faleceu
jurando vingança.
O pássaro morto no tapete 
foi a prova do crime, 
ninguém entendeu como,
mas assim foi o funesto fim.
Ela tinha o sonho do matrimônio,
ele, o vil desejo de suprimir.
No vai e vem da sanfona, a música
da vida os ensurdeceu;
o enterro do último corpo lava
a redenção da vingança, enquanto
o céu não obscurecer, a lágrima 
reluzente do anjo não findará...
o mar de fogo; o primeiro sofrimento
do último engano.
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Paredão

Lembranças de quando as paredes
das ruas eram a liberdade
que eu tinha, paredes de girassóis,
enriquecidos como o sol amarelado
nos antigos dias de verão.
Nostalgia familiar vieste debulhar
meu espírito, trazendo os grãos de
amargor; semeando a inação.
meu passado me condena!
Pois sem ele a vida não se move.
Estou trancada nas celas do paralisar:
O ruído das pessoas ensurdece a
sonoridade dos bem-te-vis
das gotículas de água na folha
e faz sangrar minha conexão
com o mundo.
Queria poder enxurdar meu amor
com a multidão, mas sou apedeuta.
Mormente quente no interior, mas
congelado pelo meu mitigado
violoncelo, que de suas cordas
foram fincadas na garganta do medo.
Tempo? Infindável passagem que
Distrai a minha carne.
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Nono Soneto do Criador

Anjos de Deus em Bach engenham o baile divino,
harmonia ressoa e consoa o glossário do bem.
Diligente ser compõe harmonia vindoura aquém,
orquestra angelical fandanga com o concerto exímio.

Rei dos reis, Handel agita o baile profano,
aleluia aos guturais das impurezas patrióticas.
Liturgia nacional exprime as vidas escatológicas,
bastardos gloriosos exaltam a si: crasso engano.

Noturno eclipse de Chopin poetisa o monismo,
na vinda do homem romântico sentimento de dor.
Vemos que o patriotismo é insuficiente perante a Deus.

Da arte ao criador, teremos a vindoura força do otimismo,
mesclado com a responsabilidade pessimista do pecador.
De Handel a Haynd a criatura não é indelével perante aos seus.
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Corvos (Wrony)

Como um corvo, sou solitária,
sempre nas frestas da rua.
Sou livre, mas trancada na cela
Maternal...

Quero ser amada como uma pétala, 
onde o aroma agrada sua jardineira.
Quero voar feito um corvo nas paisagens,
das nuvens...

Os meus amigos imaginários validam
a falta de afago que vossa pessoa não deu;
desde do monstro do mar ao poliglota
gentil... 

Mãe, por que tenho que jantar só? 
O sabor desta sopa é intragável, 
só porque você não está aqui.
Irei embora e não mais voltar!
Mãe...

Serei uma verdadeira mamãe; 
como você nunca será.
Essa garotinha é minha filha e juntas,
transvoaremos o mundo como corvos
à beira do mar...

Apesar de tudo, sinto saudade da senhora.
A criança voltou para sua real progenitora.
O barco que nós velejaríamos, afundou; 
junto com minha vida...


Eu também voltei, mas não quero saber
de broncas e nem de problemas. 
Quero a senhora, a que realmente 
é real e que fatalmente amo:
Mãe...
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A sinfonia última

Corda do celo rasga a nota,
do último trágico som,
mortal à alma já quase morta. 
Mitigado no penumbre bom.

Fúnebre adágio nos ouvidos
é o turíbulo que pendula lembrança.
Nostalgia de dias anímicos,
marcados com pureza de criança.

Luctíssono é sensível ao toque. 
Do garoto colérico ao austero sujeito,
escuro mundo de sentimento fechado.

Espelho manchado de desfoque,
é o reflexo penoso do homem afeito.
Sinfonia lamentosa do ser apartado.
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Meu ideal

Meu ódio é obscurecido pela minha temperança calma, onde demonstro a imagem de um monge, sempre sereno com as circunstâncias da vida. Todos os problemas com pessoas que me afligem são transgredidos em palavras apaziguantes, gestos de tranquilidade e expressões faciais ilógicas à minha alma. Acabo por escrever míseras linhas onde afogo meus detentores, estas mesmas linhas que são imprescritíveis no meu âmago; me odeio, no fundo do coração, me odeio. Não consigo me expressar em meu social e muito menos em prosas de palavras infindáveis. Um terço do que digo não é uma gama do que realmente penso, na realidade, tudo o que escrevi são vômitos na privada prontos para sumir na descarga. Essa prosa de agora, por exemplo, não é o que minha angústia quer falar, ela pede para se libertar, mas eu estou fitando-a todos os dias, guardando-a em meu peito.
Eu sou um mudo, sou deficiente, de palavras vazias a ideais quiméricas. Sou um plantonista em excelência: vivo imaginando uma vida onde consigo realizar meu bem-estar, meus livros e minhas conquistas. Com pesar, abro os olhos, me deparo com a realidade, ela dói. A minha velha companheira Angústia sempre retorna quando penso muito sobre isso; ela tenta me consolar, como uma mãe que consola seu filho após se sentir triste. Mas ela se esquece que ela me faz mal, coloca a mão no lado esquerdo do meu peito e começa a me afagar. Sonho no dia que tudo isso vai acabar, onde após a minha morte, me restará eu sozinho no mundo, no espaço sideral, junto com as lindas estrelas e planetas orbitando o nada. Quero derramar a última lágrima e subir ao céu como um foguete, serei um ínfimo elemento da galáxia dando razão a existência.
Eu sou pequeno demais, mas minha fantasia é magnânima, onde lá na minha imaginação, o bom e belo são a quintessência de meu mundo. Cada segundo que se passa, me converto a esse ideal; talvez tudo seja melhor para mim se eu for em direção ao caminho universal da vida, quando finalmente serei pleno.
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