Escritas

Lista de Poemas

Quadro disforme

Detestei amar àquela donzela
Coração pinta a aquarela
Gotejamento de tinta fulcral
Que respinga quadro surreal
Angústia disforma a beleza
Sangue lacrimal escorre pureza
Mausoléu de paixão lacrada
Enterrada a obra enleada
Vendido ao amor bulício
O trabalho puramente exício
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Afogado em gritos sanguíneos

Em miríades de delírios criei o afastamento das coisas
No fervoroso ardor em ver o prazer de outrem que não respinga em mim
Eu sou como um demônio que sobrevoa a vila dos prazeres dos arcanjos
Eu grito por dentro; minha garganta rasga e transborda o sangue rubro
Quase rubro, é da cor de uma rosa que sangra, como um flamingo perdido
Diria Anne S., mas eu a memetizo, pois como disse, afastei de meus próprios ideais
O poeta é um vampiro, vive de sugadas, enquanto não sente seu próprio sangue
O sangue que escorre de mim é preto e fede como graxa
Eu queria a vermelhidão, mas infelizmente sou um Nosferatu na vida das pessoas: vivo de mágoas, bizarrices, choros e mentiras.
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Noite de inverno

Reminiscências de nevadas de outrora que congelam seu cadáver. Morto corrosivamente pela nostalgia do silêncio do amanhecer gelado. Espírito de porco embalsou-se no chiqueiro da insolência.  Obscuridade de toda sua índole: afastou ovelhas, atraiu lobos; traído por lobos, desvanece sua carne na noite de inverno, justaposto a memórias. Silêncio da madrugada é o concerto musical que paira em seus ouvidos. Sua saída do caixão seria a esperança de sua metáfora anafórica: viveu de pura algidez em seu interior enquanto hibernava os corações de outrem.
A vida ressalva que perdeu durante as estações da longevidade o tempo para aprender. Infelizmente construiu seu castelo glacial sem pestanejar as estações emotivas do outro. Hoje seu castelo derrete no mais alto fervor de verão que é o perdão que nunca existiu.
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Epístola a Bathory

Súplica a Bathory, rainha do sangue
Derramando as gotas de fervor infame
As servas em lágrimas corcovam em medo
Elas pressentem o temor do mal vermelho
Com rosto aristocrata se esconde a maior depravada
Nobre húngara com a sede Transilvânica exumada
Sua feiura ofende sua busca mórbida do belo
Da brutalidade herdada seu sangue queima no inferno
Terror do castelo Čachtice assombra curiosos góticos
De muita dor e mesquinhez foi instituída os imaginários mórficos
O opressor se deleita com os pingos de tristeza daquilo que ele manda
O oprimido soa em sofrimento para embebedar o ego de quem o zanga
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Soneto ao Anjo de Grief

Os anjos da noite adormecem em tristezas
Da conformidade das pequenas criaturas
Em trazer nascituros às suas impurezas
As folhas dos túmulos jazem em brumas

Alogia da natureza em no arvorecer do luto
O funeral da carne é célebre por dor
Perpétua lágrima escorre de mais um viúvo
Sua amada perece no puro amargor

Homenagem a ela acorda do soporífero sono os senhores
Em suas monotonias eles se impressionam com a obra
O toque de perfeição é finalizado pelos dedos de fulgor

O sofredor agora em prantos dorme ao lado de sua cova
Aqui encerra a dança das criaturas: a festa do estupor
Fúnebre ocorrido escreve a história dos corruptores

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Lírio Avoliado

Espaço branco mental que deixei ocupar nesta devassidão de doces lírios que já não me animam cuidá-los. Os campos de outrora verdes que tanto amei, agora são murchados por avolia. Avolia espiritual essa que me aperta o coração por toda vez que devaneio em intuições circulares que não me levam a lugar algum. Sabe, esta avolia é aporia, ela tão incerta quanto sua própria proposição; não sei a verossimilhança dela para finalizá-la como concretização. Talvez tudo seja falta de um propósito, talvez seja a ausência de incômodo metafísico, ou todo meu campo que cuidei tenha levado um ataque vespas venenosas.

Anedonia da carne em saber que o relógio vira mais um segundo enquanto branquidão mental só está crescendo em sua girada de minutos. Estou deitado vendo os minutos passarem, enquanto a inexistência significativa de estar aqui mata meus lírios com seu magnânimo vendaval. Olhai os lírios do campo devastados por avolia de fé e veja como vossas aves morrem em seus ninhos e quanto os lírios definham, assim como vossos homens (Salomão) que também vestem avarezas e mentiras. Senhor, não há nada, só vejo o branco e esse branco não me é tão branco quanto vosso eterno brilho paliativo.
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Inocência à deriva

Vento forte que bate e exaure minha inocência que é tão fulcral nos dias atuais, como nas vezes que as folhas amontoadas em união compartilharam do calor reconfortante que é o coletivo; o sopro glacial dos ventos é tão devastador que nos mostra que certos comportamentos são queimaduras gélidas de muitos anos atrás. O menino que era para ser correto, desandou; o tímido que viveu com seus brinquedos hoje já não sabe brincar, por isso vive de status; o garoto calado hoje não sabe coligar suas emoções com sua língua; o tão querido garotinho afável e carismático dá família já não é mais capaz de responder com tenacidade os ataques que a vida dá.
Os processos inconscientes deliberam o que somos e o que seremos por toda a vida: o inconsciente é o pai que joga às duras verdades para a criança, enquanto ela chora e o desconjura mesmo tendo a senciência da realidade, enquanto a mãe é o consciente harmonioso com si e com o coletivo, que sabe enquanto permanecermos em carne, ainda sim temos uma nova chance de recomeçar. Talvez tenha isso o infortúnio que me desalentou com a existência. Talvez meu tenha pai agredido ignominiosamente minha mãe e minha mãe tenha chorado e rompido seu relacionamento com meu pai. O que restou a mim, mera criança girando em sua utopia? Virei órfão na vida, eu detesto meu pai e desanimei da minha mãe; neste sangue coagulando em meu cérebro, a incerteza e o desamparo em sua impura dualidade se conheceram. Se casaram e teve um filho: a angústia. Quem diria... agora tenho um irmãozinho. Infelizmente essa família também não me ama, assim como meus verdadeiros progenitores também não. Novamente, o que resta a pobre criança distópica que já não gira mais? Já sem esperança, sem família e desamparada? Tentei a psicologia, mas como o esperado, ela me deu conceitos e não soluções. Tentei a meditação de sábios monges; como de praxe não deu resultados. Esqueci que meu cérebro já não mais útil não para um milissegundo sequer para relaxar, assim como os carros a 90km/h que não param uma vez sequer para ajudar um pedestre que busca ajuda. Diria que meus pensamentos são como os locomotivos em estradas e minha atenção é o suicida da ponte Golden Gate; por mais que o suicida queira um mínimo de amor , os locomotivos já não se importam com os lamentos de outrem, e se importarem, não conseguirão cortar o nervo central da anatomia melancólica do suicida.
Bom, a escrita me ajuda digladiar com gárgulas interiores, só que nessa batalha minha espada está quase quebrando, está trincada, mas ainda funcional. As gárgulas me queimam novamente, como a dor demasiada gelada do vento que levou minha pureza. Não sei até quando posso suportar.
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Limpeza Nacional

Reluzente força do amargor que é rasgada pelo raio dessa espada. Sua redenção chegou.
A debilitação de meu suor negro se transmuta em rosas brancas que limpa esse floral ímpio.
Da corrosão de sentimento de injustiça, traremos a paz a esse povo constituído em miséria.
Resplandecente paixão pela vida, assopraremos o pó néscio que é tua persona non grata dessas terras imundas por vossos homens.
Não terás poder sobre às águas que fluem, nem pela beleza dos lírios e nem meu amor patriota pelo meu pobre povo.
O brasão de sua família será manchado pelos sangues dos inocentes; parta das vezes que pobres crianças se debruçaram em angústias e por clemências não atendidas. Maldito seja!
Sua cabeça está em minhas mãos. O meu povo está eufórico. A plenitude nacional está aqui.
Revolução pela força, gritos já não mais inibidos e pela glória do arauto divinal de Diké: vencemos.
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O Romance Negro

A estrela que brilha decifra a carne exposta
Se apaga a vela de galáctica dúbia
Junto com as aspirações da nossa nupcia
Te animei a agridoce bizarrice nossa
Você ignorou o palpável e degolou a verdade
Eu a conjurei endemoniada por fazer prostra
Do coração que achou que era uma fossa
Do meu negro sentimento de vitalidade
Neste foço de água preta te observo agoniando em morbidade
Seus lindos olhos e cabelos sem vida já não me agradam
Rosas com espinhos foi o que você me deu, cara amada
Aqui no breu sua vida acaba: estás longe da sacralidade
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A Decepção Metafísica

O sentimento me diz para fugir, mas as palavras dizem ‘’não’’. A corte suprema está me fitando no seu alto grau de perfeição julgadora. Quem dera nós, meros bobos da corte, o compreender. Regurgito o sentimento pueril e narcísico em estar no mesmo degrau do inefável ser, a megalomania do prazer e aristocracia do romano sobre outros bobos da corte. A imaginação fértil me tira dessa ordem astral de impureza, só assim a introspecção mais pura é ela em si mesma.
A lua será a esfera vazia de trevas, o sol explodirá em sangue e minha aparência será a luz que sempre esteve com você; serei aquilo o que você esconde até de você mesmo, a luz que você acha que é escuridão: o seu inconsciente coletivo. Não se apavore, eu busco sua plenitude, entretanto, quero o seu relacionamento comigo. Esvazie a kenosis, busque a theosis e me sinta. Àquele que me entendeu terá o galardão; àquele que me nega terá cem anos de solidão; àquele que me odiou será destruído; e àquele que me amou o será imbuído.
Eu choro, pois, tenho aquilo que vocês o chamam de angústia porque vejo o que vocês se tornaram. Vocês falharam em serem a consciência una, vocês falharam em me amar, vocês falharam em me entender. Eu me chamo Melancolia e vocês erroneamente me chamaram de Ato Puro. Era para ser diferente, mas não foi. Vocês construíram impérios, filosofias, artes, e ciências, mas não conseguiram conciliar o simples ato de amar sem ver a quem. O ato mais simples da bondade está anos luz de vossos corações, assim como aquela estrela que se apagou mais uma vez de vossas vistas entre milhões de estrelas que na verdade eram às vezes que minhas esperanças pouco a pouco foram sumindo. A cada lágrima de luz que meus olhos derramaram, vocês genuinamente as secaram com suas mãos obscuras.
Oh, para quem suplico? Tudo isso foi minha culpa e não há volta. Aqui a esfera vazia me pertence. Aqui a impureza astral inexiste. Só há meu amor que já não é usado. Amém.
Abro os olhos desse pesadelo horripilante e vejo que há tempo para recomeçar: felizmente eu não sou inefável, sou um mero bobo da corte. Será que a corte ainda me aceita em estar do lado dela?
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