Escritas

Lista de Poemas

Caosmológico

Colisão entre planetas,
a órbita rasga a harmonia
dos dias furtivos de outrora.
Saturno retira seu anel,
joga fora sua essência cordial,
porque sua ábdita Lua
decide eclipsar junto ao
Sol, o rei cósmico do espaço.

Meteoritos decaem sob
o solo da terra, perpetuam
a destruição perene,
decretada desde sempre
as poeiras humanas.
Ódio sideral: lei una
onto(cosmo)lógica
oposta a Vênus.
Cometas espiam o futuro
do universo, fofocam
para Marte as expedições
em seu território.

Netuno, com seu invernal
gás misantrópico, afasta
até seus semelhantes, como
Urano, o deus do tempo,
poderoso por ascender
seu brilho sobre tudo.
As formas do todo compõem
a desarmonia, o degredo
solar que engolirá o corpo
celeste; não poupara
nem Mercúrio, cônjuge
da Terra, o casal peremptório.

Quem dera se o sistema fosse
antinatural, onde o buraco
negro sugasse todo para o fim,
enxugasse o chão dos vermes,
e assoprasse os gases,
como uma tempestade que
mata o velho marinheiro
no seu velejar marítimo.
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Supressão do ego

Quatro do dez de dois mil e vinte e um
as redes caíram,
o jovem não sabe se distrair.
Respira, toma refri, engole a ansiedade:
almoço tomado.
Vai pro Twitter reclamar da falta dos
seus comprimidos diários;
paciente à beira da crise está sem
psiquiatra, não quer nem tentar o
divã consigo mesmo.

Abre o navegador, F5, F5: nada!
Chama o Ifood para ter alguém para
ver sem ser seus pais;
come a refeição, ainda insatisfeito.
Está dentro de casa sem máscara,
mas se sente sufocado por dentro.
O mal-estar da pandemia faz ele
ficar preso com o pior inimigo de
todos: seu próprio pulmão, seu
próprio nariz, seu próprio ser.

Tenta meditar, mas não consegue
passar dos dez minutos.
Lê um livrinho para se distrair,
mas, quer tudo fácil, nada complexo;
vai um de literatura comercial,
ou então um livro de investidores
para ele aprender a gastar o dinheiro
que não tem, e nem se tivesse, saberia
como gastar.

Dá uma passada no Medium, quer ler
qualquer coisa, melhor ler uns poemas
curtos, ou então sobre a política nacional,
tudo em nome do banal.
Sem problemas, para enfrentar a crise
existencial tem que ser forte, perceber
que a vida está estranha, muito cibernético
para um sujeito pós-vacina.
O demônio do malogro visita seja no
trabalho, na arte ou nas redes: ele,
infelizmente, está sozinho…
👁️ 122

A Queda

A dúbia ressaca moral que corrói o pulmão, secando o ar corrompido pelas tentativas falhas de se reerguer. Minha ourobouros devorando o próprio pecado na medida que se satisfaz. Estou intoxicado pelo vírus da enganação, como Apóstolo Paulo diz: ‘’Porque haverá homens amantes de si mesmos… desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos, sem afeto natural’’, homem com a pomba branca morta no peito, sou mais que ímpio; desobediente e ingrato pelas oportunidades. Não suporto mais olhar o reflexo penoso de um sujeito acabado. Sorriso falso machuca a arcada dentária, não está dando mais para dissimular. O fim está próximo e a redenção me foi tirada antes do nascimento. Relógio temporal vai morrendo conforme as belas gotículas d’água escorrem as mudas. Tudo tende a entropia do absoluto, a verdade do início, do meio e do homem.
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Sentido

Poeta sozinho no escuro,
com crânios de estimação
ao lado, às folhas do mundo
na perícia de um escrivão.
À procura de um fascínio.
Aquele que dá vasão a tudo,
acusado por morticínio,
limpa a alma do sujo
agir dos homens, mas
na contramão do fugir,
concomitante, ele apraz;
a ínfima fagulha do existir.
Confunde amor e ódio,
regurgita o instinto de viver
enquanto afirma o ópio:
feito seu poema: renascer.
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O Cubículo

O mundo como um cubo mágico, onde as paredes são vértices — limitam a criatividade. A criatividade: delimitada pelas cores destoantes dos cômodos, ceção dada pela superficialidade. A soberba de achar o esquema lógico cobrindo o painel da razão. Razão: conceito vazio trancado e zombado pelas seis faces do quadrado. Seis emoções básicas que modelam meu ser a uma forma euclidiana; cólera por não sair do cubículo. Tristeza por se autodeterminar nesta posição. Alegria pela possibilidade de destruir este sólido. Nojo pelo bolor comendo não só os cantos do cubo, mas meu espírito. Surpresa por se surpreender em como as coisas são incertas. Medo por acabar sendo esmagado pelo fruto da displicência.
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Falso super-homem

I: Imaginativa

Ele está aqui, mais ácido do que nunca, do mais alto amargor ele volta das cinzas. Das profundezas do amor fati, do açoite moral, levanta da lama e vai aos céus. Os raios cortam a garganta dos incrédulos. Sua destreza ontológica deixa rachaduras no solo, estremece os vermes para logo em seguida pisoteá-los. A sociedade não poderia esperar por isso, até cogitou sua inexistência, todavia, as águas começaram a escurecer como quando em outrora, Alexandre o Grande, prematuro guerreiro, banhou-se. Ele também deleitou-se nessas águas, contudo, dessa vez em enxofre e lava; a piromania moral é tão alta que ele não se permite ser infectado pelos limites do bem e mal. O homem mais perigoso chegou, todos os saúdam em gloriosus dei: ave Übermensch, magnânimo rei.  

II: Arrogantia

Tudo está abaixo de mim, eu sou o homem do futuro, a força e bravura são meu domo espiritual. Venci os dragões draconianos políticos. Como Luís XVI, todos decapitados pela navalha beatitude. Sou o império romano, malejo os deuses sob meus pés, como uma criança pueril dirige a vida da colônia de formigas, sabendo que as matará somente pela diversão. Destemido e amortal, as únicas leis prorrogadas em minha autocracia. 

III: Decadentia

Eu queria ser como o Übermensch, desbravar os mares da moral, domar os anseios do ressentimento. Sou um soberbo megalomaníaco, na imaginação, a quimera transmuta a dor em prazer. Horas no formato super-homem, onde as configurações do ego me levam na sinergia nietzschiana. Simples homem mais fatigado que ressentidos esperando o pós-vida, depressivo homem malhando seus ossos na melancolia de um dia perdido. Levanto do caixão, como praxe, a monótona vida me aguarda. Não sou um além-homem, nunca serei, tudo em vão. O fim me é benéfico como o fel de abelha, assim como a causa final de um objeto é sua predeterminação. Quero me matar imediatamente porque a transvaloração dos valores é utópica, inefável como o fantástico Deus, um mero ideal para um amanhã.
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Morte ao sol

Estrela de Rá, sua existência
a mim, é tartamuda!
Seu calor derrete meu humor,
congela meu bem-estar,
estoura o fragor dos tímpanos e
homicida meu amor a ti.
Vossa luz derrama lágrimas
do velcro que separa o bem
e o mal; a vinda da lua: bênção
que socorre a enfermidade.
Soando rancor nas estranhas
dos meus podres órgãos.
O eclipse é a esperança final
de um tempo agradável.
A morte do deus-sol é a missa
que clamo aos domingos.
Minha barganha é sofrer no
calor de meus ossos, quando
volto ao meu caixão escuro.
Ao menos lá não existe
O idiota sol.
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O Náufrago Penoso

Ocultaria de ossos sangrentos,
a cerimônia festiva dos ventos.
Oh, amada, sua ausência carrega
toneladas de amargor, que nega
a apoteose da paixão, o véu
queimado do suicídio do céu;
tempestade opaca, sussurra
o murmúrio da voz que urra
o tormento dos mares sombrios.
Semeada a vontade de amar, só
o coração morre, a forca do nó,
eliminou a possível retratação
da remota ideia de sublimação.
A folha da árvore de outono
foi-se embora com o sono.
Não consigo mais descansar
quando a alma inferniza meu penar.
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Deus não cabe em um quadro

Deus não cabe em um quadro, muito menos em multiplicidade mística ou religiosa. Hoje sonhei com ele, não era lá como teurgias e artes eclesiásticas da renascença. Um monstro, digno de terror lovecraftiano, com voz gutural falando em semântica desconhecida; algo como Penderecki orquestrava majestosamente bem em seus concertos. Saiu de uma parede como um ectoplasma, ironicamente de uma igreja católica. Regurgitei sua existência em meio cristão, porém, ainda sim, é miúdo comparado a sua essência, por isso, Deus não cabe em caixinhas. O Criador, inefável monte cósmico, permanece fora e dentro do amor, no máximo isso, uma pane-existência que mais faz sentido, diferente de sua manifestação dada pelos humanos; o homem tentou entender, mas falhou e ainda persiste em falhar, porque O Verbo não pode se ofender com palavras mundanas, é cômico a blasfêmia ser um problema. A linguagem é uma simplificação complexificada que permite utilizar uma parte da interatividade cerebral, construir-reconstruir uma nova complexidade discursiva e assim dialogar com a estrutura do real. O Todo Poderoso seria a quintessência da mesquinhez se assim o fosse, mais stricto sensu do que uma norma jurídica. Ele é maior que a psicologização filosófica que faço agora, um mero humano compreendendo a hipertotalidade do Absoluto; a nossa forma de ajuizá-lo é uma lógica a priori advinda da razão limitada, não só pela lógica em si, mas pela delimitação histórica de determinada época. O Absoluto inexiste, apercebido, inconcebível, e isso não é um problema. Deus no máximo é anuente: nós o permitimos ser o que ele é.
 
 
 
 
 
 
 
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Lain

Séculos de armazenamento evolutivo, comportamento recarregado pelas baterias da configuração sociobiológica. A sombra do simulacro no jugo do real permanece, o mito da caverna mais presente do que nunca: eis a história do mundo. Exaustação, exaustação, a nova liturgia do pós-moderno, fatigado por si, escravizado pelo seu Eu-superior; Deus morto, mas mais vivo do que antes, a tecnologia é o evento antecedente à moral, a você e tudo o que ex-siste. Sua forma e essência são fagulhas do seu eu limitado, o seu eu primitivo. Seu protocolo é a sua mixaria de prazer, um amor-ódio denunciado pelo transhumanismo. Você será substituído, iminentemente, pela lei de Moore, os transistores já são a pedra filosofal de uma sociedade. O subúrbio interno de um ser morre diariamente, a vida é transitória e mais incerta do que tudo, tudo é efêmero e muito confuso em simultâneo.
 
 
 
 
 
 
 
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