Lista de Poemas
Corinthians X Bahia 🔵
Sábado de sol, Pacaembu lotado. Jogo em casa, não tem como dar errado. Perfeito para meu cunhado, meus sobrinhos e eu irmos ao Estádio ver o Corinthians massacrar o visitante Bahia.
Estava tudo dando certo: o disputado estacionamento foi resolvido da melhor maneira; a difícil, e aparentemente esgotada, entrada foi, inexplicavelmente, solucionada. As pistas já apontavam, o espírito era de goleada: bandeiras, camisas e badulaques à venda; torcedores de diversas classes sociais. Depois de resolvidos os problemas, era só entrar no clima do “já ganhou” acompanhando canções, ou gritos de guerra, como: “Corinthians veio pra vencer”, “Porópopó” e “Caiu na rede é peixe lêlêaá, o Timão vai golear”. Com esse ambiente positivo, tudo dando certo e a vitória iminente contra o fraco Bahia, era só aguardar o momento de comemorar o primeiro gol. Só que não.
Dois detalhes saíram diferentes do combinado. Frustrando a mais básica das expectativas, nesse dia não houve nem um golzinho, muito menos, logicamente, vitória. Saímos do estádio com o peso da vergonha que só quem vai a um jogo conhece: tudo começa na saída de casa.
A gente saiu com um certo ar de superioridade, como se fôssemos os próprios jogadores, arrogando sermos escolhidos por desfrutar da vitória, que a Humanidade apenas conhece de quatro em quatro anos. Voltaríamos para casa como confrades, retornando de uma experiência mística e hermética incompreendida por pessoas comuns.
Como perdemos nessa aposta, a volta para casa foi pesada. A cada metro mais próximo da residência, sentíamos toda a carga de enfrentar a pergunta acompanhada de um sorrisinho sacana: E aí, como foi o jogo? Isso é pior que pergunta de vestibular.
Antes de encarar todos e ouvir a perguntinha vingativa, entramos em casa, tentamos estufar o peito e fingir que tudo foi excelente, mas é impossível mascarar que voltamos murchos e com aspecto de derrota.
McDonald’s ou Habib’s são dois honrosos finais de sábado. Num outro jogo, tudo se repete; se for com vitória, o desfecho é outro. A empáfia vai até o fim. Nós achamos que vencemos algo; os outros fingem que acreditam para não estragar essa doce ilusão.
Estou envergonhado, mas tenho que revelar: Corinthians 0 X 1 Bahia
Estava tudo dando certo: o disputado estacionamento foi resolvido da melhor maneira; a difícil, e aparentemente esgotada, entrada foi, inexplicavelmente, solucionada. As pistas já apontavam, o espírito era de goleada: bandeiras, camisas e badulaques à venda; torcedores de diversas classes sociais. Depois de resolvidos os problemas, era só entrar no clima do “já ganhou” acompanhando canções, ou gritos de guerra, como: “Corinthians veio pra vencer”, “Porópopó” e “Caiu na rede é peixe lêlêaá, o Timão vai golear”. Com esse ambiente positivo, tudo dando certo e a vitória iminente contra o fraco Bahia, era só aguardar o momento de comemorar o primeiro gol. Só que não.
Dois detalhes saíram diferentes do combinado. Frustrando a mais básica das expectativas, nesse dia não houve nem um golzinho, muito menos, logicamente, vitória. Saímos do estádio com o peso da vergonha que só quem vai a um jogo conhece: tudo começa na saída de casa.
A gente saiu com um certo ar de superioridade, como se fôssemos os próprios jogadores, arrogando sermos escolhidos por desfrutar da vitória, que a Humanidade apenas conhece de quatro em quatro anos. Voltaríamos para casa como confrades, retornando de uma experiência mística e hermética incompreendida por pessoas comuns.
Como perdemos nessa aposta, a volta para casa foi pesada. A cada metro mais próximo da residência, sentíamos toda a carga de enfrentar a pergunta acompanhada de um sorrisinho sacana: E aí, como foi o jogo? Isso é pior que pergunta de vestibular.
Antes de encarar todos e ouvir a perguntinha vingativa, entramos em casa, tentamos estufar o peito e fingir que tudo foi excelente, mas é impossível mascarar que voltamos murchos e com aspecto de derrota.
McDonald’s ou Habib’s são dois honrosos finais de sábado. Num outro jogo, tudo se repete; se for com vitória, o desfecho é outro. A empáfia vai até o fim. Nós achamos que vencemos algo; os outros fingem que acreditam para não estragar essa doce ilusão.
Estou envergonhado, mas tenho que revelar: Corinthians 0 X 1 Bahia
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Carnaval fora de época 🔴
Pandemia, guerra e eleições. Quase não discutimos futebol — em ano de Copa do Mundo e onde já foi considerado o país do futebol. O Carnaval oficial, copiando o carnaval fora de época, ocupou um cantinho da agenda, em abril. Afinal, para alguns, têm que haver os dias do “golden shower” público e aceitável.
Mesmo para quem gostava da festa, o feriadão se tornou a oportunidade ideal para cair na estrada, fugindo de foliões exagerados (do tipo: ”eu nunca me diverti tanto”).
Esse “Carnabril” (outono), depois das múltiplas doses das vacinas, das máscaras, do isolamento social e do “lockdown”, pareceu-me uma concessão governamental para a diversão. A alegria carnavalesca, por ser datada, sempre exalou artificialidade; este ano, por ter sido adiado, pareceu mais mecânico — tipo: a partir de hoje e daqui pra lá tudo é permitido. De repente, apesar de tudo, era obrigatório, pelo menos, aparentar estar feliz. É a “Facebooklização da Festa de Momo.
Nessa folia permitida, emulando pseudo-artistas, o que sempre se vê são performances tentando chocar, vá, lá, a sociedade, a classe média ou a “família brasileira — nesse pacote devem estar, obrigatoriamente, incluídos: velhos, brancos e heterossexuais. Para começar a inverter a avaliação de quem é o verdadeiro “careta” na realidade, é só perguntar ao vovô e a vovó como foi 1968. Se eles responderem com um sorrisinho safado, vá ao banheiro, deite em posição fetal e recolhasse à sua insignificância em termos de contestação do padrão de sociedade.
Com o preciosismo de algumas semanas e seguindo uma nova denominação religiosa chamada “Ciência”, os governantes deram um drible no coronavírus. O maldito vírus, é claro, obedecendo à nossa sempre zelosa terceira via (usando alinhadíssimos ternos, falando um belo português e respeitando a liturgia do cargo), não atacou em datas, horários e locais especiais.
Segundo os respectivos protocolos da ONU - OMS, os políticos (sempre eles) mantiveram o povão controlado e liberaram (em ano de eleições) a soltura das bruxas. Agora segurem...
Mesmo para quem gostava da festa, o feriadão se tornou a oportunidade ideal para cair na estrada, fugindo de foliões exagerados (do tipo: ”eu nunca me diverti tanto”).
Esse “Carnabril” (outono), depois das múltiplas doses das vacinas, das máscaras, do isolamento social e do “lockdown”, pareceu-me uma concessão governamental para a diversão. A alegria carnavalesca, por ser datada, sempre exalou artificialidade; este ano, por ter sido adiado, pareceu mais mecânico — tipo: a partir de hoje e daqui pra lá tudo é permitido. De repente, apesar de tudo, era obrigatório, pelo menos, aparentar estar feliz. É a “Facebooklização da Festa de Momo.
Nessa folia permitida, emulando pseudo-artistas, o que sempre se vê são performances tentando chocar, vá, lá, a sociedade, a classe média ou a “família brasileira — nesse pacote devem estar, obrigatoriamente, incluídos: velhos, brancos e heterossexuais. Para começar a inverter a avaliação de quem é o verdadeiro “careta” na realidade, é só perguntar ao vovô e a vovó como foi 1968. Se eles responderem com um sorrisinho safado, vá ao banheiro, deite em posição fetal e recolhasse à sua insignificância em termos de contestação do padrão de sociedade.
Com o preciosismo de algumas semanas e seguindo uma nova denominação religiosa chamada “Ciência”, os governantes deram um drible no coronavírus. O maldito vírus, é claro, obedecendo à nossa sempre zelosa terceira via (usando alinhadíssimos ternos, falando um belo português e respeitando a liturgia do cargo), não atacou em datas, horários e locais especiais.
Segundo os respectivos protocolos da ONU - OMS, os políticos (sempre eles) mantiveram o povão controlado e liberaram (em ano de eleições) a soltura das bruxas. Agora segurem...
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Diga aonde você vai,que eu vou varrendo 🔴
O STF deu uma mãozinha. Não, foi uma mãezona e deu uma mãozona. O Supremo Tribunal Federal retribuiu a generosidade e tornou Lula elegível. Os senadores fingem que os ministros possuem notório saber jurídico e a conduta ilibada e os ministros também fingem na hora do julgamento. Os resultados são inconstitucionalidades normalizadas.
Mas o assunto é outro. Com toda a ajuda a Lula, a imprensa não podia ficar de fora e colocou o ex-presid... em primeiro nas pesquisas. Fora a própria imprensa, pouca gente “comprou” essa ideia. Logo, quem duvidava das tais pesquisas era tachado de bolsonarista, que usava chapéu de alumínio ou acreditava na teoria da Terra Plana.
Mas o maior erro foi atribuir aos pesquisadores a detecção de um cara, que tem medo de sair às ruas sem sua claque, quase vencendo em primeiro turno. Como nem o PT engoliu a lorota, resolveram trocar o marqueteiro. Aí “a casa caiu”.
Como uma equipe que substitui o técnico líder do campeonato, o Partido dos Trabalhadores surpreendeu todos quando resolveu demitir o marqueteiro responsável que colocou um bandido no topo das principais pesquisas de intenção de voto para a Presidência da República. A atitude, que pune um vencedor, pareceria tresloucada se não confirmasse o que todos (bolsonaristas e petistas) já suspeitavam: isso é um manjado engodo para induzir os mais distraídos.
O marqueteiro escolhido irá amargar a dura realidade, ou seja, a derrota. Tomado pelo medo de enfrentar as ruas e os debates, Lula e seu novo marqueteiro terão que mentir como nunca — no caso de Lula: como sempre.
A pesquisa informal chamada de “Datapovo” leva em consideração aquilo que vemos, não aquilo que ninguém constata no dia a dia. Os resultados apurados, quando não são colhidos na porta de um sindicato, são apenas números. Preferência irreal, não se sustenta a uma rápida pergunta ao taxista.
Ao candidato dos sindicalistas, só restará o consolo de não ter que fazer chover picanha.
Mas o assunto é outro. Com toda a ajuda a Lula, a imprensa não podia ficar de fora e colocou o ex-presid... em primeiro nas pesquisas. Fora a própria imprensa, pouca gente “comprou” essa ideia. Logo, quem duvidava das tais pesquisas era tachado de bolsonarista, que usava chapéu de alumínio ou acreditava na teoria da Terra Plana.
Mas o maior erro foi atribuir aos pesquisadores a detecção de um cara, que tem medo de sair às ruas sem sua claque, quase vencendo em primeiro turno. Como nem o PT engoliu a lorota, resolveram trocar o marqueteiro. Aí “a casa caiu”.
Como uma equipe que substitui o técnico líder do campeonato, o Partido dos Trabalhadores surpreendeu todos quando resolveu demitir o marqueteiro responsável que colocou um bandido no topo das principais pesquisas de intenção de voto para a Presidência da República. A atitude, que pune um vencedor, pareceria tresloucada se não confirmasse o que todos (bolsonaristas e petistas) já suspeitavam: isso é um manjado engodo para induzir os mais distraídos.
O marqueteiro escolhido irá amargar a dura realidade, ou seja, a derrota. Tomado pelo medo de enfrentar as ruas e os debates, Lula e seu novo marqueteiro terão que mentir como nunca — no caso de Lula: como sempre.
A pesquisa informal chamada de “Datapovo” leva em consideração aquilo que vemos, não aquilo que ninguém constata no dia a dia. Os resultados apurados, quando não são colhidos na porta de um sindicato, são apenas números. Preferência irreal, não se sustenta a uma rápida pergunta ao taxista.
Ao candidato dos sindicalistas, só restará o consolo de não ter que fazer chover picanha.
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Por que eles odeiam a classe média? 🔴
Tornou-se célebre o discurso de ódio da filósofa Marilena Chauí. Em monólogo libertador, a, vá lá, filósofa exalou todo seu rancor e raiva contra a classe média. A manifestação vocal demoníaca foi proferida sob risos e aplausos concordantes de Lula e alunos da USP. Os alunos que aplaudiram também devem ser ricos ou pertencer à desprezada classe. Marilena Chauí, musa do PT, odeia tanto a classe média que tratou de abandoná-la, tornando-se rica. O vídeo, que já é um clássico, está disponível no YouTube.
Recentemente, foi a vez do Lula revelar o desejo de eliminar a classe média. Com um texto assustador, Lula definiu quantos aparelhos de TV essa classe social pode ter. Ato falho ou sinceridade crua, são dois bons motivos para temer um novo governo do bandido.
A classe média é a que mais sofre os solavancos da Economia. Sua mobilidade social tende para baixo por causa da insegurança do nosso país. Uma crise mais séria significa liquidação e bazar de garagem na combalida classe. Tirar os filhos do curso de inglês, da natação, da escolinha de futebol, do “ballet” ou do colégio particular e, nos casos mais graves, vender o carro e a casa garantem a adimplência das contas e prestações, afinal quem rala para manter-se na classe média zela para não “sujar o nome”.
Em termos financeiros, há uma amplitude grande que impossibilita aferir qual é a renda dessa tal classe média. De qualquer forma, a disparidade é tão gritante que revela o desconhecimento e distanciamento da realidade. Distanciamento que enganou Lula e o dirigiu ao “sincericídio”.
Sua (Lula) realidade é entre jatinhos (sempre de um amigo), vinhos premiados e praia particular, portanto, classe alta. Há muito tempo desconhecendo um carrinho popular e um cômodo puxadinho, o eterno presidenciável acredita que é rico quem a classe média pertence.
Eles odeiam a classe média porque ela não recorre ao BNDES nem recebe o Auxílio Brasil (antigo Bolsa Família), portanto, não depende de governo nenhum. Alguns serviços, apesar de pagos nos impostos, são readquiridos na iniciativa privada: plano de saúde, segurança privada e ensino particular.
É isso.
Recentemente, foi a vez do Lula revelar o desejo de eliminar a classe média. Com um texto assustador, Lula definiu quantos aparelhos de TV essa classe social pode ter. Ato falho ou sinceridade crua, são dois bons motivos para temer um novo governo do bandido.
A classe média é a que mais sofre os solavancos da Economia. Sua mobilidade social tende para baixo por causa da insegurança do nosso país. Uma crise mais séria significa liquidação e bazar de garagem na combalida classe. Tirar os filhos do curso de inglês, da natação, da escolinha de futebol, do “ballet” ou do colégio particular e, nos casos mais graves, vender o carro e a casa garantem a adimplência das contas e prestações, afinal quem rala para manter-se na classe média zela para não “sujar o nome”.
Em termos financeiros, há uma amplitude grande que impossibilita aferir qual é a renda dessa tal classe média. De qualquer forma, a disparidade é tão gritante que revela o desconhecimento e distanciamento da realidade. Distanciamento que enganou Lula e o dirigiu ao “sincericídio”.
Sua (Lula) realidade é entre jatinhos (sempre de um amigo), vinhos premiados e praia particular, portanto, classe alta. Há muito tempo desconhecendo um carrinho popular e um cômodo puxadinho, o eterno presidenciável acredita que é rico quem a classe média pertence.
Eles odeiam a classe média porque ela não recorre ao BNDES nem recebe o Auxílio Brasil (antigo Bolsa Família), portanto, não depende de governo nenhum. Alguns serviços, apesar de pagos nos impostos, são readquiridos na iniciativa privada: plano de saúde, segurança privada e ensino particular.
É isso.
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A Ilha da Fantasia 🔵
Aquilo não era uma ilha, mas era alguma cerveja cercada por muita sede. O imóvel era, injustamente, chamado de restaurante. Talvez por causa do salão grande com pé-direito alto e uma mesa de sinuca com feltro grudento, madeira estufada e tacos disformes.
Um deserto no meio do oásis: era isso o que aquele bar parecia representar para o dono. Quando fazia um belo dia de sol, para nós era um convite para prestigiar o estabelecimento comercial do Português, molhando a goela e beliscando um tira-gosto. Para o Português, significava trabalho. Isso era péssimo, motivo para uma preguiçosa reclamação. Se o dia fosse ensolarado, pior, pois interrompia seu planejamento diário: fazer nada pela manhã; de tarde, descansar; à noite, não fazer coisa nenhuma; depois, descansar. Naquele paraíso, a definição de bom e ruim era inversamente proporcional para o Português e sua clientela.
O proprietário só queria evitar a fadiga e nós, representantes de uma terrível ameaça cheia de sede, um modesto refúgio. Para nós, uma inocente e geladíssima cerveja num dia ensolarado; para ele, o dia ensolarado não tinha o menor nexo causal com o bar cheio. O que era um dia bonito, para ele era um dia horrível que interromperia seu descanso.
A mesa de sinuca, com um pano parecendo uma toalha de mesa, representava algum desafio e pertencimento — por saber jogar naquela porcaria; o atendimento tinha um lado cômico — a gente tinha uma desculpa para sermos péssimos clientes, mas essa licença tácita nunca foi exercida; a preguiça, a indisposição, a inércia e a falta de visão empreendedora do Português vinha carregada de humor involuntário também; e o ambiente do bar incrustado no meio do mato, com uma represa, naturalmente agradáveis, concedia uma permissividade bucólica, quase uma licença poética.
O Português faleceu. Talvez agora ele tenha o descanso que nunca iria encontrar aqui na Terra.
*
Chegou o novo proprietário, prontamente apelidado de Capitão Roarke. O restaurante ganhou novos ares e se tornou parada “obrigatória” para lanchas da represa. Tudo mudou, chegávamos na Ilha da Fantasia (o restaurante) e íamos para a Távola Redonda (uma mesa velha, de madeira, redonda e isolada). Demonstrando tino para os negócios, O Anfitrião (Sr. Roarke) vinha dar as boas-vindas, sempre com o sorriso e a caixa registradora abertos.
PS: Os apelidos Ilha da Fantasia, Sr. Roarke e O Anfitrião são conhecidos por gente muito velha ou quem acumula cultura inútil.
Um deserto no meio do oásis: era isso o que aquele bar parecia representar para o dono. Quando fazia um belo dia de sol, para nós era um convite para prestigiar o estabelecimento comercial do Português, molhando a goela e beliscando um tira-gosto. Para o Português, significava trabalho. Isso era péssimo, motivo para uma preguiçosa reclamação. Se o dia fosse ensolarado, pior, pois interrompia seu planejamento diário: fazer nada pela manhã; de tarde, descansar; à noite, não fazer coisa nenhuma; depois, descansar. Naquele paraíso, a definição de bom e ruim era inversamente proporcional para o Português e sua clientela.
O proprietário só queria evitar a fadiga e nós, representantes de uma terrível ameaça cheia de sede, um modesto refúgio. Para nós, uma inocente e geladíssima cerveja num dia ensolarado; para ele, o dia ensolarado não tinha o menor nexo causal com o bar cheio. O que era um dia bonito, para ele era um dia horrível que interromperia seu descanso.
A mesa de sinuca, com um pano parecendo uma toalha de mesa, representava algum desafio e pertencimento — por saber jogar naquela porcaria; o atendimento tinha um lado cômico — a gente tinha uma desculpa para sermos péssimos clientes, mas essa licença tácita nunca foi exercida; a preguiça, a indisposição, a inércia e a falta de visão empreendedora do Português vinha carregada de humor involuntário também; e o ambiente do bar incrustado no meio do mato, com uma represa, naturalmente agradáveis, concedia uma permissividade bucólica, quase uma licença poética.
O Português faleceu. Talvez agora ele tenha o descanso que nunca iria encontrar aqui na Terra.
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Chegou o novo proprietário, prontamente apelidado de Capitão Roarke. O restaurante ganhou novos ares e se tornou parada “obrigatória” para lanchas da represa. Tudo mudou, chegávamos na Ilha da Fantasia (o restaurante) e íamos para a Távola Redonda (uma mesa velha, de madeira, redonda e isolada). Demonstrando tino para os negócios, O Anfitrião (Sr. Roarke) vinha dar as boas-vindas, sempre com o sorriso e a caixa registradora abertos.
PS: Os apelidos Ilha da Fantasia, Sr. Roarke e O Anfitrião são conhecidos por gente muito velha ou quem acumula cultura inútil.
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Operação Cavalo de Troia 🔴
Não foi tão estranho Geraldo Alckmin externando um pensamento aliado ao de Luiz Inácio Lula da Silva; esquisito foi Alckmin tentando falar com as massas igual ao petista. Faltou voz, faltou carisma e faltou convicção. O ex-governador erra ao trocar de plateia; ele nunca será persuasivo querendo insuflar um bando de sindicalistas sedentos por sangue, como era quando se comunicava como um padre numa homilia. Geraldo tentou esconder o Alckmin que habita aquele corpo, mas foi mais “picolé de chuchu” como nunca.
Mas se engana quem acha que a intenção de Alckmin é unir forças com Lula para construir um país melhor. Político matreiro (“das antigas”), Alckmin está dando o seu jeito de infiltrar-se no Palácio do Planalto. Pelo voto, apesar das tentativas, não surtiu efeito. Vestir um colete estatizante não convenceu, pelo contrário, afastou aqueles, como eu, que pensavam que o PSDB era de direita. Não encontrou outra solução, juntou-se ao líder populista para tenra subir a Rampa. Até imitou o Getúlio Vargas, quando sacou um “Trabalhadores do meu Brasil”, esticando um “L” gaúcho. Mesmo imitando o velho caudilho, não pareceu popular nem populista.
Lula, como sempre, sabe o que está fazendo e deve estar dando boas risadas nos bastidores. Zé Dirceu não deixaria Lula dar um tremendo “ponto sem nó”. Quem já saiu perdendo mais foi o antigo peessedebista, entretanto estamos assistindo a uma briga de serpentes.
O PT já conseguiu retirar Geraldo Alckmin da calçada do Palácio dos Bandeirantes, deixando o caminho mais fácil para Fernando Haddad; Alckmin, na primeira oportunidade, puxará o tapete do presidente ou o “efeito Covas” poupará o trabalho sujo.
Isso tudo não passa de teoria da conspiração. Os caminhos tortos que possibilitaram a soltura e candidatura do velho líder petista não serão suficientes para torná-lo mandatário da Nação. Ambos enterraram suas carreiras políticas nacionais. Para Geraldo Alckmin e Luiz Inácio Lula da Silva serão possíveis apenas as cadeiras de vereadores de Pindamonhangaba e São Bernardo do Campo, respectivamente.
Mas se engana quem acha que a intenção de Alckmin é unir forças com Lula para construir um país melhor. Político matreiro (“das antigas”), Alckmin está dando o seu jeito de infiltrar-se no Palácio do Planalto. Pelo voto, apesar das tentativas, não surtiu efeito. Vestir um colete estatizante não convenceu, pelo contrário, afastou aqueles, como eu, que pensavam que o PSDB era de direita. Não encontrou outra solução, juntou-se ao líder populista para tenra subir a Rampa. Até imitou o Getúlio Vargas, quando sacou um “Trabalhadores do meu Brasil”, esticando um “L” gaúcho. Mesmo imitando o velho caudilho, não pareceu popular nem populista.
Lula, como sempre, sabe o que está fazendo e deve estar dando boas risadas nos bastidores. Zé Dirceu não deixaria Lula dar um tremendo “ponto sem nó”. Quem já saiu perdendo mais foi o antigo peessedebista, entretanto estamos assistindo a uma briga de serpentes.
O PT já conseguiu retirar Geraldo Alckmin da calçada do Palácio dos Bandeirantes, deixando o caminho mais fácil para Fernando Haddad; Alckmin, na primeira oportunidade, puxará o tapete do presidente ou o “efeito Covas” poupará o trabalho sujo.
Isso tudo não passa de teoria da conspiração. Os caminhos tortos que possibilitaram a soltura e candidatura do velho líder petista não serão suficientes para torná-lo mandatário da Nação. Ambos enterraram suas carreiras políticas nacionais. Para Geraldo Alckmin e Luiz Inácio Lula da Silva serão possíveis apenas as cadeiras de vereadores de Pindamonhangaba e São Bernardo do Campo, respectivamente.
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Óleo de Fígado de Bacalhau 🔴
A embalagem era medonha, o nome repugnante, o rótulo apavorante, a aparência do conteúdo péssima e o sabor horrível. O conjunto espantava qualquer um, mas diziam que, paradoxalmente, fazia bem. A vitamina vinha disfarçada com o eufemismo ininteligível de Emulsão Scott, mas a máscara desabava após uma observação mais detalhada. O rótulo exibia uma imensa e animadora relação de vitaminas, que não resistia ao asqueroso e pior nome que uma vitamina possuiu: Óleo de Fígado de Bacalhau. Para piorar — que sempre é possível piorar as coisas — o tônico trazia (e ainda traz) a estampa de um senhor arrastando um imenso peixe nas costas. O sofrimento chega ao paroxismo quando o líquido é ingerido. De sabor horrível e viscosidade nojenta, o negócio é difícil de ingerir, a imagem do bacalhau abatido torna a tarefa quase impossível. Eu engolia isso como um ganso de “foie gras”.
Hoje, apesar do péssimo nome e da figura exibida, o fortificante oferece os deliciosos sabores laranja e morango. Melhor assim...
*
Não bastasse ralar a perna, arrancar a tampa do dedão ou abrir a cabeça, o pior ainda estava por chegar. A continuidade da tortura tinha um nome: Merthiolate. Hoje, pode não parecer mais assustador que uma Benzetacil, mas o temido Mertiolate, que é um remédio, ardia mais que uma fratura exposta.
Depois da Segunda Guerra Mundial, geração após geração herda um mundo mais confortável: sem grandes confrontos, com facilidade tecnológicas, grande oferta de alimentos e sem Óleo de (argh) Fìgado de Bacalhau sem sabor e Mertiolate que arde. Realmente, o mundo ficou muito melhor.
Voltando mais, na Primeira Guerra Mundial: qualquer cidadão de classe média de hoje vive mais e melhor que um magnata há 100 anos. Dúvida? De novo, recorro a qualquer inovação tecnológica. O acesso ao celular e suas funções já encerra alguma ameaça de debate. E o Óleo de Fígado de Bacalhau e o Mertiolate? Se já existiam, eram bem piores. E a medicina devia ser bem amedrontadora.
Hoje, apesar do péssimo nome e da figura exibida, o fortificante oferece os deliciosos sabores laranja e morango. Melhor assim...
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Não bastasse ralar a perna, arrancar a tampa do dedão ou abrir a cabeça, o pior ainda estava por chegar. A continuidade da tortura tinha um nome: Merthiolate. Hoje, pode não parecer mais assustador que uma Benzetacil, mas o temido Mertiolate, que é um remédio, ardia mais que uma fratura exposta.
Depois da Segunda Guerra Mundial, geração após geração herda um mundo mais confortável: sem grandes confrontos, com facilidade tecnológicas, grande oferta de alimentos e sem Óleo de (argh) Fìgado de Bacalhau sem sabor e Mertiolate que arde. Realmente, o mundo ficou muito melhor.
Voltando mais, na Primeira Guerra Mundial: qualquer cidadão de classe média de hoje vive mais e melhor que um magnata há 100 anos. Dúvida? De novo, recorro a qualquer inovação tecnológica. O acesso ao celular e suas funções já encerra alguma ameaça de debate. E o Óleo de Fígado de Bacalhau e o Mertiolate? Se já existiam, eram bem piores. E a medicina devia ser bem amedrontadora.
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Roubada 🔵
A rotina aciona automaticamente o piloto automático. Isso aconteceu num dia comum. Ela foi com seu automóvel ao salão do clube central da cidade. Já estava acostumada com o trajeto, pois fazia aquele caminho e estacionava, praticamente no mesmo lugar, várias vezes ao dia, durante semanas.
Acostumada a encontrar a mesma cena, o carro estacionado atrás do clube, assustou quando se deparou com a triste realidade que batia à sua porta: agora ela era apenas um número a mais na triste estatística dos furtos de veículos. Era péssima a sensação de sair de São Paulo para ser tapeada numa cidade do interior. Conclusão: somente uma pessoa sem coração, muito ruim, seria capaz de provocar tanto mal. Quem, de onde seria e onde estaria ser tão perigoso, que não merece nem ser chamado de ser humano?
A inusitada ocorrência interrompeu o sossego da cidadezinha. Transeuntes e funcionários saíram das pequenas, médias e grandes lojas, todos curiosos com o grande escândalo. Pois bem, para resolver o problema, forças policiais foram acionadas. A procura foi minuciosa, com o risco de haver a “justiça com as próprias mãos” (linchamento) — o que é comum em lugares onde não há muitos crimes.
A força-tarefa procurou freneticamente, talvez mais com vontade de encontrar o bandido do que o próprio carro. Mas a proprietária se lembrou que estacionou o veículo em outro lugar. Foi conferir. O automóvel estava lá. Não havia ladrão, mas havia um batalhão fortemente armado e especializado, viaturas, amigos, curiosos e parentes envolvidos na recuperação do bem e ávidos pela captura do ousado meliante — é, talvez, sedentos por um pouquinho de sangue.
A preocupação (da dona) já superava a alegria de localizar o automóvel intacto. Como anunciar isso àquele monte de gente? E assim, claro, foi feito.
Por ser conhecida na cidade, a notícia se espalhou sem grandes problemas. Tudo voltou à rotina, a polícia voltou a atender ocorrências que ferem a Lei do Silêncio; os lojistas e funcionários, a atender os clientes; os curiosos e transeuntes continuaram sendo curiosos e transeuntes; e os parentes — e a proprietária — embarcaram no carro que foi sem nunca ter sido.
Acostumada a encontrar a mesma cena, o carro estacionado atrás do clube, assustou quando se deparou com a triste realidade que batia à sua porta: agora ela era apenas um número a mais na triste estatística dos furtos de veículos. Era péssima a sensação de sair de São Paulo para ser tapeada numa cidade do interior. Conclusão: somente uma pessoa sem coração, muito ruim, seria capaz de provocar tanto mal. Quem, de onde seria e onde estaria ser tão perigoso, que não merece nem ser chamado de ser humano?
A inusitada ocorrência interrompeu o sossego da cidadezinha. Transeuntes e funcionários saíram das pequenas, médias e grandes lojas, todos curiosos com o grande escândalo. Pois bem, para resolver o problema, forças policiais foram acionadas. A procura foi minuciosa, com o risco de haver a “justiça com as próprias mãos” (linchamento) — o que é comum em lugares onde não há muitos crimes.
A força-tarefa procurou freneticamente, talvez mais com vontade de encontrar o bandido do que o próprio carro. Mas a proprietária se lembrou que estacionou o veículo em outro lugar. Foi conferir. O automóvel estava lá. Não havia ladrão, mas havia um batalhão fortemente armado e especializado, viaturas, amigos, curiosos e parentes envolvidos na recuperação do bem e ávidos pela captura do ousado meliante — é, talvez, sedentos por um pouquinho de sangue.
A preocupação (da dona) já superava a alegria de localizar o automóvel intacto. Como anunciar isso àquele monte de gente? E assim, claro, foi feito.
Por ser conhecida na cidade, a notícia se espalhou sem grandes problemas. Tudo voltou à rotina, a polícia voltou a atender ocorrências que ferem a Lei do Silêncio; os lojistas e funcionários, a atender os clientes; os curiosos e transeuntes continuaram sendo curiosos e transeuntes; e os parentes — e a proprietária — embarcaram no carro que foi sem nunca ter sido.
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Crenças de luxo 🔴
Dava muito trabalho e custava muito ostentar um estilo de vida exclusivo e ao menos aparentemente nobre; agora basta aderir a causas aparentemente nobres como: “Black Lives Matter” ou levantar uma bandeira progressista qualquer (quaisquer diversidades). Achar a Greta Thunberg “do caramba” já é um bom começo. Basta sinalizar virtude para parecer um ser humano melhor e mais engajado (mais preocupado com as classes menos favorecidas).
O problema é quando a dissonância cognitiva deixa a diferença entre o que se pensa e o que se fala transparecer, ficando óbvio que a ostentação de uma bandeira progressista é resultado de uma elite culpada, pedágio intelectual ou o preço para pertencer a uma turminha. Transpondo todas as barreiras, é muito mais acessível frequentar o clube exclusivo e imaginário das “pessoas inclusivas e empáticas”.
As crenças de luxo são o novo passaporte de livre acesso a este clube que confere “status” social. Entretanto, o preço comportamental é alto. Como nas máfias, é impossível sair sem algum estrago. Cancelamento, perda de patrocínios, perda de seguidores e isolamento social são as retaliações mais imediatas (antes reservadas aos inimigos).
Justiça seja feita àqueles que realmente atuam naquilo que pregam. É muito difícil um idiota útil ou uma vítima da doutrinação escolar persistir com as crenças de luxo quando chegam suas primeiras contas de luz, água, aluguel etc. Tudo isto, considerando, é claro, a honestidade.
Tão útil como um colar de pérolas é fingir que sente pelas crianças da África; eficaz como o bracelete de ouro é levantar um cartaz contra o derretimento das geleiras do Ártico; e tão transformador quanto a ostentação de um anel de diamantes é protestar contra as queimadas na Amazônia. O paroxismo da inútil, porém visível demonstração de virtude é a genuflexão contra o racismo. É claro que as pautas ambientais e humanitárias são legítimas quando reais, mas é claro que a mera ostentação dessas bandeiras viraram a nova moeda, como a Bitcoin ou a cota de carbono.
Adotar uma ou mais crenças de luxo traz o conforto do pertencimento e “estar bem na fita” e, andando na linha, evita cancelamentos.
Bens materiais ficaram acessíveis, portanto ineficazes para distinguir sinais de riqueza. Enquanto a ralé se preocupa com saneamento básico, uma pracinha cuidada e água potável, os novos (e velhos) ricos reivindicam banheiros trans, defendem pautas ambientais e humanitárias inalcançáveis.
“Salvem as baleias”.
O problema é quando a dissonância cognitiva deixa a diferença entre o que se pensa e o que se fala transparecer, ficando óbvio que a ostentação de uma bandeira progressista é resultado de uma elite culpada, pedágio intelectual ou o preço para pertencer a uma turminha. Transpondo todas as barreiras, é muito mais acessível frequentar o clube exclusivo e imaginário das “pessoas inclusivas e empáticas”.
As crenças de luxo são o novo passaporte de livre acesso a este clube que confere “status” social. Entretanto, o preço comportamental é alto. Como nas máfias, é impossível sair sem algum estrago. Cancelamento, perda de patrocínios, perda de seguidores e isolamento social são as retaliações mais imediatas (antes reservadas aos inimigos).
Justiça seja feita àqueles que realmente atuam naquilo que pregam. É muito difícil um idiota útil ou uma vítima da doutrinação escolar persistir com as crenças de luxo quando chegam suas primeiras contas de luz, água, aluguel etc. Tudo isto, considerando, é claro, a honestidade.
Tão útil como um colar de pérolas é fingir que sente pelas crianças da África; eficaz como o bracelete de ouro é levantar um cartaz contra o derretimento das geleiras do Ártico; e tão transformador quanto a ostentação de um anel de diamantes é protestar contra as queimadas na Amazônia. O paroxismo da inútil, porém visível demonstração de virtude é a genuflexão contra o racismo. É claro que as pautas ambientais e humanitárias são legítimas quando reais, mas é claro que a mera ostentação dessas bandeiras viraram a nova moeda, como a Bitcoin ou a cota de carbono.
Adotar uma ou mais crenças de luxo traz o conforto do pertencimento e “estar bem na fita” e, andando na linha, evita cancelamentos.
Bens materiais ficaram acessíveis, portanto ineficazes para distinguir sinais de riqueza. Enquanto a ralé se preocupa com saneamento básico, uma pracinha cuidada e água potável, os novos (e velhos) ricos reivindicam banheiros trans, defendem pautas ambientais e humanitárias inalcançáveis.
“Salvem as baleias”.
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O espancamento 🔵
J..., o pobre condenado, já estava amarrado no poste. Não havia a menor chance de escapar daquele iminente martírio. A sessão de espancamento iria começar. Todos estavam armados com o que houvesse: paus, pedras, objetos contundentes, perfurantes, cortantes, perfurocortantes, explosivos e um galão de gasolina — que denunciava o triste e cruel final daquela justiça com as próprias mãos.
O desgraçado J... tinha cometido o crime há muito tempo. Curiosos intervieram — na verdade, tentaram —, mas foram rapidamente dissuadidos. Na sede por sangue e na lei da periferia não havia perdão nem prescrição de traição. Sem a menor chance da imolação pública ser adiada e todos já armados, quem discordava da violenta tradição deveria resignar-se e sair de perto.
Arremessaram uma pedra. Começou uma sequência de golpes com paus, pedras e demais instrumentos. De vez em quando lançavam morteiros na direção do infeliz. Alguns, corajosos e mais empolgados ou com muita sede de justiça invadiam a “linha de tiro” com socos, chutes e voadoras.
Pronto. O serviço sujo já estava feito. Mas ninguém arredou pé, pois ainda faltava o principal: a queima do que restou inerte. O próximo episódio era o que todos mais aguardavam. O êxtase, o golpe de misericórdia, o ato final, o que há de pior dentro de cada um, o que desperta os instintos mais primitivos: a vingança. Toda a gasolina foi despejada, foi derramada no que restou do que nem o poste sustentava mais. No chão jazia um boneco, não com vísceras expostas, mas alguns maços de capim e jornais que serviam de enchimento do Boneco de Judas.
A Malhação do Judas foi o evento mais sincrético que já presenciei. Além da molecada católica, judeus, budistas, espíritas, evangélicos, umbandistas, ateus e agnósticos esperavam o dia do espancamento.
O boneco era caprichosamente confeccionado com roupa velha e enchimento, devidamente trajado para a sessão de linchamento, para depois servir como objeto de imolação e, inconscientemente, descarrego de tudo que nos afligia. Tratando-se de crianças: algum vizinho que não devolvia a bola, alguma guloseima negada ou um brinquedo estragado.
Na Sexta-feira da Paixão resistíamos a carne vermelha; no Sábado de Aleluia barbarizávamos Judas, quase 2000 anos depois da traição, mantendo a tradição; e no Domingo de Páscoa, inocentemente, cristãos tementes a Deus, devorávamos ovos de chocolate.
A tradição portuguesa e espanhola, embora violenta, significava apenas mais uma brincadeira. Depois dessa prática inocente, algo também extremamente violento e cruel: futebol de rua.
O desgraçado J... tinha cometido o crime há muito tempo. Curiosos intervieram — na verdade, tentaram —, mas foram rapidamente dissuadidos. Na sede por sangue e na lei da periferia não havia perdão nem prescrição de traição. Sem a menor chance da imolação pública ser adiada e todos já armados, quem discordava da violenta tradição deveria resignar-se e sair de perto.
Arremessaram uma pedra. Começou uma sequência de golpes com paus, pedras e demais instrumentos. De vez em quando lançavam morteiros na direção do infeliz. Alguns, corajosos e mais empolgados ou com muita sede de justiça invadiam a “linha de tiro” com socos, chutes e voadoras.
Pronto. O serviço sujo já estava feito. Mas ninguém arredou pé, pois ainda faltava o principal: a queima do que restou inerte. O próximo episódio era o que todos mais aguardavam. O êxtase, o golpe de misericórdia, o ato final, o que há de pior dentro de cada um, o que desperta os instintos mais primitivos: a vingança. Toda a gasolina foi despejada, foi derramada no que restou do que nem o poste sustentava mais. No chão jazia um boneco, não com vísceras expostas, mas alguns maços de capim e jornais que serviam de enchimento do Boneco de Judas.
A Malhação do Judas foi o evento mais sincrético que já presenciei. Além da molecada católica, judeus, budistas, espíritas, evangélicos, umbandistas, ateus e agnósticos esperavam o dia do espancamento.
O boneco era caprichosamente confeccionado com roupa velha e enchimento, devidamente trajado para a sessão de linchamento, para depois servir como objeto de imolação e, inconscientemente, descarrego de tudo que nos afligia. Tratando-se de crianças: algum vizinho que não devolvia a bola, alguma guloseima negada ou um brinquedo estragado.
Na Sexta-feira da Paixão resistíamos a carne vermelha; no Sábado de Aleluia barbarizávamos Judas, quase 2000 anos depois da traição, mantendo a tradição; e no Domingo de Páscoa, inocentemente, cristãos tementes a Deus, devorávamos ovos de chocolate.
A tradição portuguesa e espanhola, embora violenta, significava apenas mais uma brincadeira. Depois dessa prática inocente, algo também extremamente violento e cruel: futebol de rua.
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