Lista de Poemas

Rosas de Ouro — Uma noite alucinante 🔵

Tudo começou estranho. Em vez de boteco, bar com banda ao vivo, a quadra da escola de samba Rosas de Ouro. Eu deduzi que a noite seria longa, pois teria que fingir gostar dos batuques carnavalescos. Em nome do feriado e da festa, já arrisquei agitar os polegares e enroscar as pernas — como um gringo — ao ritmo do samba.

Dessa vez não tinha nem chope grátis no endereço beirando a Marginal Tietê. Quando começaram as performances das agremiações, logo vi que a noite seria realmente interminável. Rodopiando vinham porta-bandeiras da Gaviões da Fiel, Camisa Verde e Branco, Dragões da Real etc. cada vez que a porta-bandeira parava e oferecia o pavilhão eu tinha que beijar a bandeira e fazer uma reverência, conforme observei, quase como se fosse um objeto sagrado. Meu visualzinho, de quem “caiu” ali por engano, estava mais apropriado para uma ópera no Teatro Municipal. Notei que, quando a porta-bandeira chegava em mim, rolava uma cobrança tácita. Diante dessa pressão, eu beijaria até a bandeira do Palmeiras!

O meu maior temor se concretizou. Como meu amigo era integrante da principal torcida uniformizada do São Paulo, junto deles fiquei. Quando o evento terminou, eu, como um torcedor do time do Morumbi, ajudava a embarcar os instrumentos musicais no ônibus. Assim fui até a sede da tal torcida, sendo ameaçado de ser entregue como um corintiano infiltrado.

Fora a ameaça, sempre foi muito bom ver a cidade à noite, iluminada artificialmente. Voltando para a perigosa realidade de um corintiano entre são-paulinos, ajudei a subir aqueles instrumentos de percussão que eram surrados todas as vezes que o time tricolor marcava um gol no meu time alvinegro. Cumpri a função tranquilamente, porque eu sairia no lucro se continuasse disfarçado, mantendo minha incolumidade física.

Mesclando a beleza das escolas de samba e a cidade à noite com o temor das guerras de torcidas — em plenos anos 90 — foi uma noite fora de qualquer padrão, uma noite alucinante.
👁️ 79

Vingança 🔴

Alexandre de Moraes é movido pela vingança, não pela justiça. O símbolo da Justiça tem os olhos vendados significando que é cega, ou seja, não vê quem julga. Contudo, com Alexandre não é assim: ele persegue os que ele escolhe como inimigos pessoais.

Várias pessoas ligadas a Jair Bolsonaro já foram presas injustamente ou sofreram perseguição. As ordens do ministro são tão kafkianas que são ignoradas e descumpridas. Cumpri-las é ironicamente “rasgar” a Constituição. Sua obsessão é grudar alguma punição no deputado federal Daniel Silveira. Nesse jogo de xadrez entre o ministro do STF e o presidente, Daniel está em disputa.

Parece cada vez mais lógico que Alexandre mantém uma imaginária “faca no pescoço” daqueles que corroboram suas absurdas decisões.
Outro ministro,  que nunca saberá sua razão existencial sem a figura do Bolsonaro, é Luís Roberto Barroso. Por ter um vocabulário razoável e arranhar um inglesinho intermediário, ele consegue ofender outras pessoas facilmente e até impressionar os mais distraídos e limitados  cognitivamente.

Barroso ficou encantado com a investida mediúnica única de João de Deus (me livre!), foi facilmente convencido de que Cesare Battisti era inocente e (des)informou, quando disse que Nicolás Maduro é de, vá lá, direita. Com esse histórico, não dá para acreditar numa só palavra que o sujeito diz.

Lewandowski tropeçou na interpretação do texto do “impeachment” de Dilma, deu um “duplo twist carpado” na lei, separando as votações e tornando a petista elegível. Depois, o povo mineiro fez justiça, não a elegendo senadora.

O TSE, que conta com a turminha do STF, diz que as urnas são seguras, entretanto tentam manter o Exército longe da “sala misteriosa”. A resistência em realizar eleições claras, torna todo o processo suspeito.

A recente exposição do STF não foi boa para a Corte. Imaginava-se que os melhores magistrados alcançavam o Tribunal. No entanto, não é necessário nem ser juiz. Sinceramente, pelo nível, eu refletiria muito se seria vantajoso contratá-los para resolver uma pendenga de internet no PROCOM.

Várias figuras suspeitas usam a palavra “democracia” como um coringa legitimando tudo e todos. Conclusão: quando sacarem a palavra “democracia”, preste atenção qual é a pegadinha.
👁️ 64

Cícero Miranda, meu quintal 🔵

Quem foi Cícero Miranda? Eu joguei e assisti muitos jogos no campo de “várzea” da rua Francisco Gonzaga Vasconcellos, mas só agora tive a curiosidade de saber: quem foi o cara   homenageado com o nome do estádio municipal na Vila Galvão, Guarulhos?

Com capacidade para 3.000 torcedores, as arquibancadas, por mais que estivessem cheias, nunca preenchiam sua totalidade. As maiores rivalidades atraíam famílias de jogadores e as “figuras” do bairro. As famílias sempre chegavam com alguém bêbado (ou todos). Durante a partida, as crianças eram recrutadas para buscar mais cerveja no bar; voltavam com uma garrafa de cerveja numa mão e um sorvete, um pacotinho de salgadinho ou uma garrafa de refrigerante na outra mão.

Os jogos eram animados com muito batuque, gritos, xingamentos, brigas e, às vezes, tiros. Ameaçar de morte era comum, não tinha idade para sentir-se encorajado, desde que fizesse parte de alguma família bêbada. Às vezes, no auge da indignação, saia um disparo de arma de fogo. O bandeirinha sofria muito, pois era obrigado a suportar ofensas, piadas e ameaças durante 90 minutos. Com certa frequência, o trio de arbitragem fugia da praça esportiva escoltado pela polícia. Enfim, o que significava, para a torcida, um simples final de semana ensolarado com cerveja e futebol, para a arbitragem aquilo era o Coliseu durante o Império Romano.

Certo dia, uma briga generalizada veio avançando em nossa direção. A expectativa era dramática, pois a turba ameaçava nos sequestrar para uma confusão que não sabíamos sequer o motivo. E o quebra-pau chegando perto. A imagem de instrumentos de percussão e outros objetos voando foi intimidadora, mas tínhamos que tomar alguma atitude: ou entrar na briga ou fugir. Sem saber qual atitude tomar, meu amigo atravessou o tsunami na maior calma, equilibrando um copo de cerveja, saindo incólume do outro lado. Tive que fazer o mesmo.

Se é que dá para dizer, isso era chamado de lazer.

Anos depois, de outra cidade, enviei um e-mail à Secretaria de Cultura de Guarulhos; quando já havia me esquecido, recebi a resposta: Cícero Miranda foi o antigo proprietário das terras do estádio. Mas já não me interessava saber quem foi Cícero Miranda, bastava continuar lembrando do que foi o Cícero Miranda.



👁️ 46

Turnê da vergonha 🔴

Lula e sua turma devem rir muito. O líder dos sindicalistas pegou Geraldo Alckmin pela mão e está “obrigando-o” a frequentar os eventos mais constrangedores. Vestindo de vez a fantasia de picolé de chuchu, o ex-governador esteve visivelmente envergonhado ao participar dos eventos ligados à esquerda raivosa e ao próprio Lula. Este circula à vontade por ambientes hostis ao socialista fabiano.

A mistura que, sob olhares desatentos, pariu um ornitorrinco, fez Alckmin ilustrar uma conspiratória dobradinha e ser flagrado num palanque — imitando Getúlio Vargas — tentando se comunicar com uma plateia de sindicalistas e respeitosamente, em pé, ouviu atentamente a Internacional Socialista — deve ter se emocionado, entretanto não convinha demonstrar.

Para o “Santo” seria uma via muito dolorosa, porém, de acordo com o conteúdo, não passa de um roteiro maldito. Assim, o ex-PSDB não ganha novos eleitores, pelo contrário, perde os antigos.

Geraldo está cumprindo o calvário amargo e constrangedor, embora não tenha  chegado ao exagero de  Roberto Requião. O paranaense, para agradar o petista, mastigou e achou boa a venenosa mamona.

               ***



Os sindicatos perderam a força de mobilização que já tiveram. No 1º de Maio, isso ficou evidente. Sem a contribuição sindical, não houve sorteio de apartamentos e carros, não houve ônibus, pão com mortadela, tubaína e cachê. Mas teve shows: Daniela Mercury, coitada, se submeteu a um número que parecia festinha de fim de ano de firma — aquelas em que a turma está mais interessada em beber chope e comer churrasco de graça. Conclusão, o evento esvaziou. Até o Alckmin conseguiu escapar desta.



Luiz Inácio Lula da Silva não queria discursar para aquela merreca de potenciais eleitores. Foi um constrangimento para ele, acostumado a “hipnotizar” multidões. Restou subir, discursar, desculpar-se com os policiais e prometer um arsenal de impossibilidades e ameaças.

Quem escapará ileso, Luiz Inácio Lula da Silva, Geraldo Alckmin ou Daniela Mercury?
👁️ 32

Obrigado 🔵

Se a investida pacífica não fosse o suficiente, a próxima abordagem seria no velho e eficaz método Viking. Felizmente, nunca abrimos mão da extorsão civilizada, de modo que as coisas sempre ficavam melhores para todos.

Esgotados os piões, as bolinhas-de-gude e os “quadrados” (pipas) com cortante, restava a venda de doces. Era véspera de Natal, e como havíamos torrado moedas e algumas notas amassadas, era chegado o dia de exigirmos algumas guloseimas grátis. Jamais soube se por pena, gratidão ou achar aquela cena inusitada, éramos sempre atendidos. Certamente, o fato de a dona do humilde estabelecimento comercial, a japonesa, conhecer nossas mães contribuía muito.

A “venda da japonesa”, por mais acanhada que fosse, era o endereço escolhido para sempre trocarmos nossas economias por uma justa variedade de doces e um punhado sortido de balas. Assim, mal tratando os dentes, encerrávamos um dia de mãos cortadas, pés sangrando e hematomas.

Cobrar nossa porção de doces foi uma “tradição” inventada por nós. A “venda da japonesa” foi prontamente eleita como a vítima perfeita para obedecer nossa pequena tradição. Além dos motivos que eu já elenquei, o pequeno comércio foi o selecionado por estocar nossos exemplares favoritos de alimentos supérfluos, bem como abastecer-nos o ano inteiro (mediante pagamento).

A ameaça velada era anunciada pastosamente como “Natal”. Apesar do prejuízo iminente, éramos sempre atendidos com um sorriso oriental. Então, como quem vai ao caixa eletrônico ou ameaça com travessuras quem não ofertar gostosuras, começávamos a escolher a “oferta”. Invadíamos o comércio com as mãos vazias e saíamos carregando sacos cheios de produtos comestíveis. Aqui é Brasil!

Finalmente, consumindo, conferíamos o resultado da ameaça tácita. Entre pé-de-moleque, balas, paçoca, doce de leite, pipoca rosa e doce de amendoim, vinham doce de abóbora e maria-mole escondidos no fundo do pacote. Tudo bem, era de graça!

Aquilo era nosso São Cosme e Damião particular. A atitude não era nada santa, já que era posta em prática mediante intimidação e não incluía a reza — a desculpa é que era sincrética, já que era exercida por um católico e um luterano.

Essa foi uma época em que o Natal era, literalmente, mais doce.
👁️ 54

Fora de sintonia 🔴

“Uma menina morreu, mas tem a festa”. Dessa vez não teve bala perdida para reclamar — sempre da polícia, afinal, rende indenização, além de servir de munição para demonizar a segurança pública. O acidente com o carro alegórico tornou a morte mera alegoria, dando passagem à festa.

No estilo “globeleza”, o jornalista Marcelo Cosme, da Globonews, exagerou ao tentar animar o telespectador com o clima de carnaval da emissora. Desesperadamente, a Globo lutou para lucrar com o carnaval fora de época. A alegria nada genuína, seguida da desastrosa fala, saíram mais pagãs que o “pé-na-jaca”  brasileiro.

O “fique em casa”, que alavancaria a audiência da televisão aberta, revelou-se desastroso quando, na prática, turbinou os “streamings” e a internet. A hipocrisia escancarou-se quando os mesmos que insistiam para você ficar em casa eram “flagrados” na rua.

Marcelo Cosme, dedicado funcionário que é, demonstrou estar em perfeita sintonia e cheio de “gueri-gueri” com a emissora e virou a chave: deu uma mudança de rota (180 graus). Saiu do modo coronavírus e entrou no clima do “ziziguidum, telecoteco e balacobaco”, afinal, mesmo fora de época, é carnaval.

O jornalismo do grupo carioca busca transformar (ou tentar) a sociedade conforme seus interesses. Maximizando e minimizando eventos, o jornalismo da Globo entrega matérias (coberturas) positivas (a favor) ou negativas (contra), fortalecendo a narrativa que importa e, em consequência a opinião pública. Entretanto, os acontecimentos morte e carnaval (festa) na mesma notícia “bugaram” o cérebro do jornalista. Saiu isso: “Tem preocupação, acidentes acontecem, uma menina morreu, mas tem festa, nê?”.

A Globo vem navegando (lacrando) de acordo com o vento. Todo o politicamente correto contradiz as práticas históricas que são relatadas por quem já trilhou aqueles estúdios.

Como acabou o carnaval, a Globo voltará a lamentar as mortes. Neste quesito, só não pode ser seletiva. Quanto à fala: está mais para ato falho que para acidente. Não foi acidente.
👁️ 35

Entrando numa fria 🔵

Uma inocente guloseima infantil pode dar cadeia. Culpa da irresponsabilidade do excesso de cuidado.

Eu juro que apenas queria comprar um gelinho, vendido num Fusca azul. Mas minha mãe afirmava que aquele carrinho vendia drogas e raptava crianças. Hoje, me afastaria, até correria apavorado, se avistasse o fusquinha azul dobrando a esquina.

Gelinho (geladinho ou sacolé) pode ser definido como sorvete de pobre. Consiste em um suco (diversos sabores) congelado num saquinho. Pois bem, o veículo, a cor e o local afastado, onde ficava, já eram muito suspeitos, juntamente com a denúncia da minha mãe, o conjunto tornava-se algo que eu deveria manter distância devido a periculosidade. Atualmente, eu compararia todo aquele método na porta da escola a um serial killer americano.

Na segunda série, em outro colégio a mesma maldade foi aplicada como estratégia para economizar alguns centavos. Dessa vez a vítima foi a pobre velhinha que vendia gelinho em frente ao colégio. 

Eu fico imaginando a senhorinha levantando às cinco da madrugada, preparando o suquinho, embalando, congelando, acomodando o produto no isopor e empurrando o carrinho de feira até a escola. Todo esse trabalho para receber a acusação de tráfico de drogas. Pior, dessa vez o doce também era servido na modalidade “água de fossa”. Calculando que esse sabor não era bom, passei o ano à base de merenda escolar.

Vivíamos os estertores do Regime Militar, se a frágil e trabalhadora idosa fosse “dedurada”, seria, facilmente, capturada, levaria uma surra- receberia algumas sessões de tortura no DOPS (até entregar os guerrilheiros e comunistas), terminaria jogada numa cela fétida, julgada e condenada por subversão à ordem e, com sorte, sua ossada poderia ser encontrada num cemitério clandestino. Tudo isso, para o complementar a aposentadoria, ganhando uns trocados! Eu acho injusto.

Na verdade, o perigo estava mais perto da que eu pensava. Minha mãe armazenava toda sorte de estupefacientes caseiros: acetona, esmalte, querosene e removedor de tinta. Eu ficaria entorpecido só de entrar na lavanderia de casa e respirar o ar dos produtos de limpeza.

Não aconteceu nada com os proprietários do Fusca azul, nem com a velhinha. Muitas vezes, eu trafiquei gelinho e consumi o produto. Hoje, estou limpo.
👁️ 46

Budismo high-society 🔵

Só poderia ser ali, a única casa em estilo oriental da região. A decoração “muito louca e os  sininhos na porta não deixavam mais dúvidas. Se fosse centro de macumba a localização seria em Itaquera, Cidade Tiradentes, Parelheiros ou qualquer bairro de periferia. Mas como era a religião dos ricos e famosos, o endereço do templo budista era no bairro de Perdizes, barro nobre de São Paulo.

Chegando lá, tive que encarar uma turminha que estampava o arquétipo perfeito de quem fazia mapa astral, jogava tarô, acreditava em ETs, bruxas, gnomos, energia, esse tipo de coisa. Ah, também viajava para lugares como São Tomé das Letras. Ninguém poderia descobrir, mas eu era um corintiano comum e superficial sem análises muito embasadas da existência, apenas à procura de uma cerimônia diferente da missa católica. Me adaptei como pude: só com meias, falei mansamente “namastê” (fazendo o gesto) até para o porteiro.

Me apresentei e segui todo o ritual. Como não conseguia ficar na posição de lótus, nem relaxar, nem meditar, me senti um impostor. Além disso, eu ficava com um olho fechado e o outro aberto, sempre alerta (ou tenso), verificando se alguém, como eu, se sentia ali ainda — no meio da metrópole. Enquanto os outros pareciam ter voado sobre montanhas, nadado em rios cristalinos, tomado banho de cachoeira e descansado cercados de verde, eu somente ouvia ônibus, motos, buzinas e uma impressora matricial que deveria estar preparando o meu boleto.

Terminada a improdutiva sessão, nossa guru questionou se todos haviam “viajado” para terras distantes. Como os outros, aquiesci para não frustrar a hippie de butique. Creio que alguns não obtiveram os resultados prometidos, mas, como eu, não quiseram admitir em público.

Não consegui escapar dali sem antes visitar a lojinha. Suvenires, estátuas, objetos de decoração e livros, muitos livros. Publicações ensinando a meditar me fizeram sentir menos estranho.

Finalmente, fugi da experiência esotérica. Saí da estranha casa e ganhei as ruas. Voltei para a minha realidade, os veículos, as buzinas e o preenchimento sonoro urbano.

“Há mais coisas entre os céu e a Terra do que pode imaginar nossa vã filosofia”

(William Shakespeare)
👁️ 68

A forma e o conteúdo — Lula entra para a História 🔴

A forma como Lula fala com as plateias é eficaz; o conteúdo, por sua vez, revela que ele desenvolve um raciocínio fraco. Na forma, ele envolve o ouvinte com comparações e metáforas futebolísticas, insiste em lembrar dos tempos de pobreza e fome — como se fossem recentes, quando, de fato, são remotas. Esse sofisma aproxima os ouvintes mais distraídos; o conteúdo entrega toda a farsa. Se esforçando para puxar votos como se não houvesse amanhã, o velho sofista dá um tiro no pé — como um “sniper” à queima-roupa,

Quando Lula resolveu ser Lula, sem os truques do marqueteiro, escaparam verdades inconfessáveis: controle das mídias e pró-aborto. Recentemente, numa fala infeliz (porém sincera), o ex-presidente disse sobre Bolsonaro: “não gosta de gente, mas de policial”. Com declarações como esta, o líder do PT passará as eleições se explicando e se desculpando.

“Sincericíos” não são novidades entre políticos. Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente, “escreveu na rocha” que quem se aposenta antes dos 50 anos é vagabundo. FHC tentou se explicar, mas colou que ele chamou todos os aposentados de vagabundos.

Marta Suplicy, quando foi prefeita de São Paulo, também sofreu um curto-circuito entre o que pensou e o que disse. Metida num modelito com a cara dos Jardins (região nobre da Capital), a madame se arriscou na periferia paulistana. Para quem perdeu tudo na inundação, ela recomendou: “relaxa e goza”. Assim, a ex-petista enterrou sua chance de reeleição.

Lembrando e acrescentando, Lula se comunica a uma turma que odeia agentes de segurança pública. Em discurso, muito à vontade, soltou: “Bolsonaro não gosta de gente, ele gosta de policial”. Vendo que a frase pegou muito mal e fatalmente custaria muitos votos, ele aproveitou a primeira oportunidade e pediu desculpas.

Falas desastrosas são o resultado da dissonância cognitiva, ou seja, a verbalização daquilo que o político realmente acredita, mas não convém ser dito. A rapidez do que o político pensa e o que ele fala não permite a mudança, gerando o revelador ato falho.

Desse modo, fica: FHC chama aposentados de vagabundos, Marta Suplicy não é empática e é fútil e Lula pensa que policial não é gente. Esse raciocínio gruda na imagem do político e resume ser pensamento rasteiro ou, no mínimo, sua inabilidade para enganar.
👁️ 25

Bingo! 🔵

A cada pedra cantada percebi que eu poderia ser o grande vencedor. A coincidência só podia ser um sinal de que, naquele dia, a sorte estaria do meu lado. Adquiri uma autoconfiança típica dos vencedores.

Sim, eu disputava um animado bingo de quermesse numa capela do interior. Com direito a velhas piadas como “dois patinhos na lagoa”, “idade de Cristo”, “uma boa ideia” e “vai começar o jogo”, travei a batalha entre idosos, alguns jovens e viciados numa jogatina legalizada.

Pois bem, a profusão de “números bons” me levou a ficar “pela boa”. Ignorando as reclamações e desistências dos meus concorrentes, grudei os olhos na cartela, guardei o fôlego e fiquei na expectativa de soltar o grande grito.

Não deu outra. Eu gritei com vontade: bingo! Berrei com potência e fiquei ouvindo os protestos da velha guarda. Triunfante, escapando do linchamento e pedindo passagem para ser notado, fui receber o merecido e grandioso prêmio. Cheguei como quem receberia um diploma; saí, meio sem-graça, como saem os que recebem uma medalha de “honra ao mérito”. 

O prêmio era um churrasco e um cuscuz. Tinha certeza que eu havia ganhado algo como um rádio de pilha ou um liquidificador. Não desmerecendo o animal sacrificado para satisfazer nossa necessidade de proteína, nem quem preparou a iguaria — que eu não sei escrever o nome —, mas eu me dediquei e mergulhei na jogatina esperando locupletar-me com o disputado torneio. De qualquer maneira, vitória era vitória e precisava disfarçar a decepção:  cabeça erguida, peito estufado e estampando um sorriso levemente envergonhado, evadi-me da quermesse, conformado pela benemerência daquele dia. 

Exceto o humilde objetivo, o certame foi muito disputado e ajudou na liberação da cota diária de adrenalina e, na vitória, dopamina, ocitocina, serotonina e/ou endorfina. Tudo isso, sem ser flagrado pela Polícia Civil ou Federal, nem me esconder embaixo da mesa ou no banheiro. Sim, quando a fiscalização estoura um cassino clandestino, imagino-me, fila indiana e cabeça baixa, saindo da casa e embarcando num camburão.

O prêmio não correspondeu às minhas expectativas, mas, tenho certeza, o cérebro liberou  os  mesmos neurotransmissores que derramaria se eu ganhasse uma Ferrari.
👁️ 106

Comentários (0)

Iniciar sessão para publicar um comentário.

NoComments