Lista de Poemas

Capítulo 1 — Oftalmologista 💊



Algumas complicações talvez fossem dificuldades oftalmológicas (mesmo que também motoras), afinal tudo surgiu juntamente à vista dupla. Como o relato, em casa, do que estava acontecendo não surtia efeito, fui ao médico oftalmologista, achando que a complicação era por causa da falta do uso dos óculos.




No consultório, o médico surgiu. A primeira impressão do que vi, me deixou ressabiado. A cara de fugitivo de manicômio não assustaria muito, contanto que o diagnóstico fosse preciso e animador. A real preocupação começou quando notei algo muito errado com o homem de branco. 




Com a proximidade da traquitana para “as vista”, ouvi os intermináveis estalinhos bilabiais que o doutor disparava. Certamente, numa distância socialmente aceitável eu não teria percebido o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). Mas com a proximidade do exame oftalmológico eu ouvia muito próxima e com muita frequência a emissão dos estalinhos. Isso só me deixava mais nervoso. Era assustador ter que admitir, mas o responsável pelo tratamento talvez fosse beneficiado pela política antimanicomial. Pior, um fugitivo de algum sanatório para pacientes psiquiátricos de alta periculosidade. Lógico que fiquei apavorado ao constatar que o doutor precisava de tratamento urgente.




A espera causava angústia à medida que só aumentava a suspeita de que o resultado não seria nada animador, de modo que eu já lembrava (como num filme) dos excelentes dias vividos (até o atual  2009), adivinhando que dali pra frente tudo seria diferente.




Resultado: solicitação de tomografia computadorizada. Saí do oftalmologista que necessitava de ajuda médica e fui ao Hospital do Servidor Público. O doutor com tique nervoso estava no caminho correto. O que estava desencadeando os sintomas era neurológico, portanto grave. Dei o fora dali antes que eu saísse com TOC herdado do “médico maluco”.




Corri para o Hospital do Servidor Público Estadual (HSPE), no Ibirapuera, a fim de realizar o exame solicitado. Atravessei a Avenida Tiradentes correndo. Não sabia que aquele seria meu último pique e ficaria internado por 2 meses (incluindo UTI).
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Polarização 🔴







A polarização é boa. Não, é ótima. Pensando bem, é excelente! A polarização significa dois pensamentos diferentes. O contrário é o pensamento único, que tacha a discordância como “fake news”, discurso de ódio, atos antidemocráticos ou coisa de robôs. 




Cuidado com a intenção de quem quer rotular e eliminar a polarização, principalmente quem lança mão da palavra/coringa: democracia e suas variantes. A polarização só é ruim quando gera briga e separação. Os Estados Unidos, exemplo de democracia e liberdade, vivem uma polarização eterna: republicanos e democratas.




Alexandre de Moraes, copiando o pensamento de Umberto Eco, disse: “a internet deu voz aos imbecis”. Concordo em parte. Dou razão a ele quando vejo suas “lives” e tenho acesso a fragmentos do seu, por assim dizer, pensamento fora dos autos. Discordo por perceber que a internet também deu voz a gênios, norte-americanos, russos, brancos, negros, corintianos, palmeirenses, você e eu. Democracia, igualdade, tolerância, liberdade de expressão não são apenas palavras.




O Brasil levantou do berço esplêndido e abriu mão de ser o eterno “país do futebol” e começou a discutir política. Percebeu que quem chamava o brasileiro de acomodado por sempre acreditar que o Brasil era o “país do futebol”, “o país do futuro”, “Deus é brasileiro”, “o brasileiro não sabia votar” etc é quem se incomoda com o brasileiro informado politicamente e deseja que a novela, o carnaval e o futebol ocupem as mentes e corações.




A grande rede de comunicação surgiu com a intenção de distraí-los com animaizinhos fazendo gracinhas e demais meiguices. No entanto, mentes mais privilegiadas vislumbraram vastas possibilidades.  Quando a tecla mágica “Enter” começou a exibir “a coisa real” (the real thing) as mídias tradicionais perderam a narrativa, aí era tarde demais.




Indesejável para muitos, mas esse poder chegou aonde jamais sonhariam, suspeitaram e desejariam que chegasse. Essa briga aconteceu nas indústrias fonográfica e cinematográfica. Spotify e Netflix são exemplos de quem venceu. Tudo isso chegou a um ponto sem volta.
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💊 Capítulo 2 — Hospitalizado 💊




Eu me sentia estranho porque eu era um estranho. Quando resolvi sair do quarto, não sabia que iria encontrar um lugar que, para muitos, funcionava como um clube. Mas era um hospital.




Aquele uniforme amarelo claro desbotado, somado à minha crescente dificuldade para caminhar, portanto débil, dava a impressão de ser um louco ameaçador à solta.




Fui ao salão central daquele andar do hospital. A escadaria havia sido dominada pelos fumantes e convertida num irrespirável, embora animado, fumódromo. A cada aproximação, crescia o que parecia ser a reunião de elenco do “The Walking Dead” ou qualquer outro filme de apocalipse zumbi.




Notei um inexplicável orgulho de quem estava institucionalizado. Essas pessoas faziam questão de demonstrar conhecimento de como as coisas funcionavam ali, o dia a dia, horários, atalhos e quem é quem. Eu só queria sair dali. Aquela não era a minha realidade. Ali não era o meu lugar.




Aos poucos, os pacientes voltaram para seus quartos sem precisarem ser chamados, conhecendo a rotina, respeitando o horário do café, dos remédios ou exames. Ainda refletindo como alheio àquilo tudo, concluí que, ali dentro como aqui fora, sempre os mais inseguros precisam de uma turma para se “garantir”. Naquele ambiente, esse local era o fumódromo.




Para muitos, aquela janela do 12º andar já significou a solução de todos os problemas. Para mim, aquela ampla janela me separara, temporariamente, de tudo de bom que já vivi e as escadas (ou o elevador), de tudo de bom que viria.




Ficamos eu e uma budista, que parecia ser a única pessoa não institucionalizada, não fumante, ainda com uma vida do lado de fora daquele hospital, por isso, alguém que me entenderia. A budista acertou ao oferecer o que julgou possuir de maior valor. Compartilhou um mantra: nam myoho renge kyo.




Para quem achou que o máximo que ganharia naquela escada era muita fumaça na cara, um mantra ofertado por quem queria sair dali, parecia íntimo, especial, raro e revigorante.




“Todos têm a capacidade de superar qualquer dificuldade e de transformar seu sofrimento a cada instante”.




(Pensamento budista)
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Velhão — Conspiração do Jogo 🔵

Parece que estamos no cenário do início de um filme de terror. Se o destino for uma residência afastada sei que o enredo é o pior para todos nós. Estamos subindo a serra cortando uma floresta escura e densa. Para completar o enredo maldito, chegaremos numa mansão linda, porém sinistra; contaremos com a companhia de um cachorro raivoso e sinistro que late olhando para o vazio; e uma vizinha misteriosa carregará a expressão amedrontadora de quem sabe o que ocorreu na casa e a besteira que nós (forasteiros) estamos nos metendo.

A composição do grupo parece favorável, mas eu entendo o truque. Algumas garotas atraem a gente para a armadilha mortal. Dessa maneira, provavelmente seremos esquartejados pelo maluco psicopata local, sobrando apenas o casal mais bonzinho, aposto. Já vi esse filme, eu sei como isso acaba.

Apesar do prólogo de filme B de horror “gore”, o que veio a seguir não foi tão trágico. Na verdade, estávamos somente cortando a Serra da Cantareira. Escura e fechada, sim, mas o “quintal” de casa. A montanha sagrada que deve ter significado deus e ficado responsável por poderes sobrenaturais e uma farta colheita para as antigas tribos guarulhenses. No entanto, o acidente geográfico apenas tinha o poder de manter Mairiporã afastada.

Eu já fiquei mais calmo quando tive certeza que o destino era uma das mansões ou barzinhos da Serra. O carro embicou num endereço estranho do topo da montanha. Eu já tinha estado naquela região. Atravessamos o tal do Complexo chamado Velhão — um antiquário, várias lojinhas, bares e restaurantes. A escadaria íngreme e comprida aumentava a expectativa e constituía o ambiente Medieval.

O abrir e fechar da porta (que pareceu um portal) nos transportou a outra dimensão. Além de estancar o frio, o interior do bar era musical e descontraído. Chegamos no lendário bar Conspiração do Jogo.

Contudo, tudo parecia perfeito demais. Não seria justo eu estar em boa companhia e num lugar incrível, enquanto, num sábado à noite outras pessoas assistiam ao Zorra Total ou ao Supercine. Aquele bar perfeito não me enganaria muito tempo, logo todos virariam vampiros sanguinários. Isso existe, eu sei de tudo. Já vi isso acontecer no filme do Quentin Tarantino, Um Drink no Inferno.

Aquela aparente perfeição só podia ser artificial, talvez efeito do álcool. Minhas desconfianças esvaíram com a oferta de jogos de tabuleiro: ludo, damas, Banco Imobiliário, Jogo da Vida, Master etc. Finalmente, eu havia desvendado toda a trama: a tal “conspiração do jogo” era nos capturar, num sábado à noite, prometendo uma casa noturna, com todas as suas benesses, e prender-nos numa mesinha com jogos de tabuleiro. Só faltava pijama, pipoca e um cobertor. Eu precisava escapar dali, antes que eu acabasse a noite jogando dominó.

No fim, tudo ocorreu sem grandes surpresas, numa espelunca qualquer, mas verdadeira. Bar modinha é facilmente reconhecível: um nome legal e ambiente descolado, para incluir tudo isso na conta. Boteco é inconfundível: sujinho, sempre rola uma discussão, mas a cerveja e o tira-gosto são baratos.
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Vikings — Minnesota 🔵

Eu já estava acostumado a assistir à finalíssima do futebol americano (Super Bowl). Então já era tempo de eu escolher uma equipe para torcer. O futebol americano é bem legal e fácil entender o básico, mas a regra completa é muito complicada. 

Pois bem, já estava me empanturrando de frango frito, vibrando com “touchdowns”, infiltrações, lançamentos do “quarterback”, me segurando para não levar a mão ao peito no hino americano. Ou seja, quase agindo como um “redneck”.

Eu escolhia um time para torcer por causa de qualquer detalhe e foi assim que pincei o Minnesota Vikings. Escolhi esse o time roxo, branco e ouro, porque tem um símbolo legal que remete a uma historia que gosto bastante. Para a fantasia de torcedor não bastava um balde de frango frito e um comportamento importado, era urgente um figurino adequado. Adquiri boné e camiseta da distante equipe.

Os primeiros jogos foram decepcionantes. O time era um saco de pancadas, eu me senti torcendo para a infrutífera Portuguesa de Desportos. Devia ser apenas uma fase ruim, isso também acontece com o Corinthians. Para afundar de vez meu entusiasmo inicial, fui verificar o histórico do Vikings. Constatei que era apenas um time com um escudo legal.

A franquia tem um passado OK e, algum dia, será vencedor, mas quando eu for escolher um time para torcer, vou antes examinar o desempenho, dessa maneira sortearei algo como o New Engjand Patriots. Aí encherei a pança de frango frito e hambúrguer. Decidi acabar de vez com aquela farsa: doei o boné para o meu sobrinho e fiquei com uma camiseta de estampa legal.

Eu não conseguia enganar nem a mim. Não se escolhe para quem torcer, isso é coisa de gente que torce para um time em cada estado. Como nasci corintiano, no Rio Grande do Sul torço para o Corinthians; no Rio de Janeiro sou corintiano; na Argentina, no Japão etc, não importa onde. Esse tipo de coisa não se escolhe.

Como não tinha a quem recorrer, disfarçadamente abandonei aquela palhaçada e, conformado com a pecha de “maloqueiro e sofredor” e sabendo que não iria além do Parque São Jorge, nascido corintiano, fiquei somente com o sofrimento genuíno.






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Dilma e o diabo 🔴

Dilma Vana Roussef, nossa mais fiel tradução da incapaz capaz de tudo. Sem pudor, e com o poder destrutivo de uma variante do coronavírus, governando, ela quase destruiu o Brasil em favor de uma causa muito particular.

A presidenta guarda uma intimidade muito grande com o “Coisa Ruim”. Em momentos difíceis,  ela invoca o Bicho. Essa simbiose só pode ser fruto de uma amizade muito antiga. Talvez um acordo. Nada pode ser duvidado de quem arrematou a refinaria de Pasadena. Nunca se sabe o que foi assinado, muito menos num remoto passado, numa encruzilhada qualquer. Não é de graça que qualquer pessoa chega ao poder.

Para derrotar o adversário do PT, Dilma prometeu “aliança até com o diabo”. Novamente, estreitando laços com o Cramunhão. Talvez fosse pela democracia. Não foi a primeira vez.

Querendo vencer a eleição de 2014, a “Querida” ameaçou botar em campo seu parceiro de todas as horas. Na ocasião, ela disse: “Nós podemos fazer o diabo quando é a hora da eleição”. Eu acredito nisso. A propósito, ela alcançou seus desejos. Deve ser sido, de novo, pela democracia.

Minha indagação é a seguinte: Se Dilma tem coragem, e até desenvoltura, de recorrer ao Cão-Tinhoso em público, o que não faria no escuro do seu quarto? 

Embora a ex-presidente já tenha arriscado se comunicar em inglês, espanhol e francês, sem ao menos se fazer entender em português, não conseguiu evitar o “impeachment” — ou, como dizem, golpe. 

O impeachment e a não eleição para senadora talvez sejam parte dos benefícios que não entraram no pacote do acordo obscuro. Mas uma pessoa como ela ter chegado à Presidência! Isso é obra digna de feijões mágicos ou coisa do gênio da lâmpada.

Quando a Dilma falava em “pacto” social dava calafrios. O ato falho talvez revele porque a governanta presidiu o Brasil e era aplaudida em seus inesquecíveis discursos.

Enfim, têm pessoas que fazem de tudo para vencer eleições e sabemos que o que os move não é a vontade de ajudar o Brasil. Na briga pelo voto cristão tem candidato rezando pra Deus e acendendo a uma vela pro Cão.
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O quadro do médico/diabo 🔵

Esta história parece um conto fantástico do Edgar Allan Poe, um surpreendente episódio de Além da Imaginação ou um capítulo horripilante de Contos da Cripta, entretanto é uma aventura verdadeira. A passagem foi tão inacreditável, que para escrevê-la tive que recorrer ao meu irmão para confirmar se o que meus olhos testemunharam foi o mesmo que os dele. Tudo aconteceu há uns 40 anos, portanto na infância, por isso a desconfiança se aquilo realmente ocorreu ou é uma construção de uma imaginação fértil. 

Entre um amigo, meu irmão e eu, alguém teve a mente devidamente desocupada para sugerir a invasão de uma casa abandonada. A residência antiga tinha um aspecto bem fantasmagórico. Seus antigos ocupantes estavam todos mortos, porém a mobília permanecia em seu interior. Tudo isso agregava com a atmosfera assustadora.

Então, com idade insuficiente e coragem (ou curiosidade) de sobra, enfrentamos a velha casa que guardava mistérios e lendas. Chegando lá, o ranger da porta, a escuridão e o assoalho de madeira não foram suficientes para nos dissuadir da infeliz ideia e recuarmos.

Os pertences intactos davam a clara ideia de que a antiga moradia não fora saqueada nem serviu de abrigo a moradores de rua ou usuários de drogas. Mas uma coisa intrigava: havia um maquiavélico laboratório, que provavelmente pertencia ao médico falecido. Maquiavélico porque nele constavam recipientes com substâncias destruidoras. Exemplo: ácido sulfúrico.

Observando cada detalhe e exclamando qualquer descoberta que reconstituísse os estranhos hábitos dos moradores excêntricos, alguém viu, apontou e avisou com voz trêmula e apavorada um objeto que faria nos arrepender de ter entrado naquela casa abandonada: um quadro com uma pintura do diabo (com traje de médico) tratando um paciente. Aquela pintura trazia várias dúvidas: quem (e com qual inspiração) se sujeitaria a retratar tão horrorosa cena?  A imagem é real ou veio da “inspiração” do artista? Quem se sentiria à vontade tendo um quadro com aquela figura decorando a sala da residência?

Aquilo foi o bastante para concluirmos a triste experiência e decretarmos que aquela edificação era realmente mal-assombrada. Acontecimentos estranhos e desastrosos se sucederam 

Tempos depois, tudo foi derrubado e alguém recolheu o quadro. Algumas lojas populares foram construídas no terreno de esquina (encruzilhada), de modo que alguma loja ocupa o exato local do “quadro do médico/diabo”.
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🔵 Corinthians - Série B (a arte de cair para cima)







Não seria um domingo qualquer. Apesar de eu ir a um jogo de futebol, não era uma partida normal e eu assistiria num local diferente. O Corinthians poderia ser rebaixado de divisão e eu torceria para que isso não ocorresse. Fui ao Parque São Jorge, clube do Corinthians.




Desci do ônibus na Estação Carrão e fui andando até o clube. Confiante, comprei um bandeirão na rua São Jorge.




O  espaço armado para a torcida era estrategicamente localizado ao lado da lanchonete. Havia mais gente do que eu esperava e, surpreendentemente, uma turminha da temida torcida uniformizada. O clima geral era bom e a expectativa, muito positiva. Alguns repórteres e fotógrafos esperavam, como sempre, entrevistar algum corintiano revoltado ou em prantos. Isso, provavelmente, venderia muitos jornais, revistas e renderia matérias icônicas. Seria uma boa aparecer na televisão, mas nunca nessa situação.




O Timão, em 2007, tinha uma equipe que não fazia jus ao apelido. Além de estar jogando muito mal, dependíamos de outro jogo. As garrafas de cerveja foram esvaziando, o álcool correndo no sangue da galera, os semblantes de preocupação se instalando, algumas unhas sendo roídas e os jornalistas se preparando para uma longa jornada de trabalho.




Final Grêmio 1 X 1 Corinthians e Goiás 1 X 0 Internacional. Caiu para a Segunda Divisão! Série B! Rebaixado! Isto não estava previsto para aquele 2 de dezembro. Mas o clima de incredulidade impedia a movimentação, exceto dos repórteres. Até voar a primeira cadeira. O clima de indignação tomou conta. Detalhe: a equipe e comissão técnica estavam muito longe (Porto Alegre) para a torcida descontar toda a sua fúria. O que havia ali ao lado: sala da diretoria, sala de troféus etc.




Ao primeiro sinal, a revolta foi geral. Como o clube era o único objeto “danificável” que representasse a revolta corintiana por perto, em pouco tempo a rua São Jorge, 777 estava lotada de “corintiano, maloqueiro e sofredor (graças a Deus)” e policiais. 




Os jornalistas estavam à caça de uma imagem de alguém chorando, xingando ou quebrando tudo. Conclui que não seria uma boa sair na capa do Lance com a legenda: Vive um drama! Tampouco me orgulharia ser reconhecido como o “cara do Globo Esporte”. Me afastei de tudo aquilo. 




Eu até que demorei para sair do pior lugar para estar naquele momento: a representação do fracasso futebolístico, o clube. Para piorar, o bandeirão ficou com essa “marca”, além de ter caído o preço majorado pela esperança.
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Conto do vigário 🔵

Um sujeito deixou cair, acidentalmente, um maço de notas bem na minha frente. Vou iniciar novamente, porque a história não é bem assim. Este início seria como a vítima deveria interpretar o incidente.

Recomeçando: O picareta largou, propositadamente, uma imitação de pacote de dinheiro  (parecendo muito) no meu caminho. O comparsa, apressadamente, se aproximou, apanhou a “grana” e, arregalando os olhos para me impressionar, disse:

   — Olha! Ele deixou cair!

Claro, o truta estava querendo que eu caísse na dele.

Não sei o que exatamente os motivou a me elegerem a vítima perfeita: rico, ganancioso ou matuto. Podem ter sido as três características. Como erraram nessas avaliações, o golpe não foi bem sucedido.

Pois bem, concomitante a tentativa de me impressionar, eu respondia ao larápio de forma desapegada, irônica e quase monossilábica. Meio que saindo, desejando boa sorte e demonstrando total desinteresse na suposta bolada, frustrei o malfeitor. Demorou, mas o gatuno considerou que a abordagem não renderia frutos. Fim de expediente, “cliente” mal escolhido, era hora de desistir e ir embora.

O “Conto do Vigário” (origem do termo vigarista) é uma atividade criminosa muito antiga. Confesso que participei daquilo (até onde pude) com curiosidade antropológica, quase uma volta num passado paulistano, época em que, com o êxodo rural ou as imigrações, os caipiras ou os imigrantes desembocavam na cidade grande, respectivamente. 

Os sinônimos, antigos, quase em desuso, para aludir ao criminoso são propositais. Achando a cena improvável, pitoresca e teatral, participei do conto como quem interpreta um papel na peça da escola. Observei tudo, com a “expertise” de quem havia lido muito sobre “contos do vigário” e notórios ladrões, exemplos:  o conto da guitarra elétrica, bilhete premiado, lote na Lua, Pirâmide de Ponzi, Carlo Ponzi, Gino Amleto Meneghetti, Bandido da Luz Vermelha etc.

Depois da volta ao passado, da inesperada imersão em algo que eu só via em livros antigos, uma viagem na Terra da Garoa, na São Paulo da primeira metade do século XX, achei que estava indo longe demais, afinal eu estava lidando com um fora-da-lei. Só não fui à delegacia porque temi encontrar um delegado com lupa e cachimbo.

Na subida da avenida São João, olhei para trás. Os dois pilantras estavam confabulando, deveriam estar dividindo a féria do dia. Tudo terminou como suspeitei, conforme o que havia lido.
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O silêncio 🔵

Meu cunhado e eu nos deparamos com algo muito inusitado: uma câmara silenciosa. Quem já esteve na Bienal de São Paulo, no Parque do Ibirapuera, sabe que não é anormal encontrar um objeto surpreendente. Mas aquela instalação era intrigante, inclusive provocativa. Como experienciar uma inédita ausência de sons no coração da cidade que não dorme?

Nada poderia surpreender quem estava numa exposição do filme Star Wars, por isso, no mesmo ambiente que Darth Vader e os Stormtroopers. Já acharia normal, até entediante, pedir licença ao R2-D2 ou ao C-3PO. Também já não me espantaria se o Mestre Yoda, caminhando com certa dificuldade, passasse ao meu lado. Em São Paulo, sobretudo nos finais de semana, era normal cruzarmos com criaturas bizarras (humanos ou interplanetárias).

Havia também uma exposição/homenagem à Bossa Nova. Ali, não cruzamos com nada estranho. A coisa mais esquisita, e que sempre pareceu que não era um ser deste mundo, era o João Gilberto, mas ele não estava lá.

Não sei se por curiosidade, desafio ou pura falta de alguma coisa melhor para fazer — talvez tudo isso —, o brinquedo, digo, a instalação nos convidou a desafiá-la. Aguardamos e entramos na intrigante caixa com duas cadeiras. Seguimos as orientações para, segundo a proposta da engenhoca, por assim dizer, ter uma perfeita experiência sensorial.

Realmente, o silêncio era ensurdecedor, mas, como sempre foi muito comum, surgiram muitos assuntos urgentes na minha cabeça e na ponta da língua. Os inadiáveis assuntos transbordaram, de modo que disparei a falar. Vendo que eu estava desperdiçando e estragando uma oportunidade única, cessei a verborragia. 

Entretanto, o diálogo interno insistia em conturbar o momento. A tentativa de aplicar técnicas de meditação apenas tornava inteligível o debate que rolava na minha caixa craniana. Talvez essa seja a grande surpresa do brinquedo, digo, instalação. O resultado pode ser muito mais embaraçoso: as monitoras, provavelmente, devem estar rindo. O riso se transformará em escárnio e desprezo quando saírmos atordoados da disruptiva experiência.

Concluí que a poluição sonora que sempre atribuí à capital paulista já estava introjetado na minha cabeça. Apesar de perceber que aquela caixa vedava as sirenes, as buzinas, os motores, o falatório e os demais sons, ou barulhos, ambientes, eu transportava comigo ideias, projetos, objetivos e grilos que nunca se silenciavam.
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