Lista de Poemas

Counter Strike ⚫️

O que leva alguém, ao contrário dos refugiados, a se voluntariar para combater numa guerra que não é sua — pior, que o lado aparentemente inocente está fadado a perdê-la? Excesso de realidade virtual, muito videogame (no qual sempre há mais que uma vida), uma visão romântica do documentário “Winter on Fire ou a busca de sentido na vida — para quem não tem nada a perder, tanto faz entrar pro Estado Islâmico, entrar na Legião Estrangeira ou se alistar num exército qualquer. Têm também os motivos mais esportivos, querendo provar os limites: supondo que a guerra é uma tipo de “crossfiting”, esporte radical, “reality show” ou treinamento do BOPE.

Somente são exibidas entrevistas com heróis de guerra, dificilmente sequer é mostrado um hospital de mutilados. Muitos dos mortos não têm nem a “sorte” de ser levados a um hospital e são atirados numa vala comum. Na realidade a guerra só é romântica nos filmes e a coragem dura até o primeiro disparo de arma de fogo em sua direção.

As guerras mundiais começam por um fato colateral. Motivações quase banais envolveram o restante do mundo nas primeira e segunda grandes guerras. Este conflito está praticamente “a um tapa na cara” (hipérbole) de virar uma terceira guerra mundial.

O que está acontecendo na Ucrânia é muito diferente do que vemos num telejornal qualquer. Refugiados cantando, tocando violino, piano ou o Ocidente iluminando monumentos com as cores da Ucrânia ou cantando “Imagine” são imagens poéticas, mas não dissuadem Vladimir Putin do seu nefasto objetivo.

Filmes romantizaram e mais de 70 anos afastaram os reais efeitos de uma guerra. Parece que têm pessoas que acreditam que homens/exército, indestrutíveis como Rambo, realmente existem e, querendo encarar um “Counter Strike” da vida real, se voluntariam esquecendo-se que podem não passar da primeira fase.
👁️ 24

Bar do motoclube ⚫️

Esse simpático boteco era, de fato, um ambiente familiar. Mais precisamente, “de la famiglia”. A frente era, basicamente, um disfarce. Não chegava a ser um “speakeasy” (bar escondido da Lei Seca). No máximo, além de matar a sede, a contravenção restringia-se a uma máquina caça-níqueis — essas de periferia — e um “pinball” franqueado a menores, funcionando como introdução ao vício.

O ambiente enganoso começava a desmoronar à medida que se avançava no corredor em direção aos fundos da espelunca. No corredor, ficava a máquina de fliperama, apenas como convite ao vício, porque atraía os mais jovens.

Nos fundos do botequim, nada mais do que um quintal, recinto apenas permitido a convidados. Somente ía direto para lá, quem conhecia bem o lugar. No quintal, ficavam uma mesa de bilhar — viciada, como alguns dos frequentadores — com alguns tacos tortos, gizes umedecidos, mesas e cadeiras (de ferro) dobráveis, um aparelho de som e uma churrasqueira do motoclube. Alguns copos americanos vazios e cinzeiros sujos denunciavam a presença recente de alguma outra confraria. Lá, podia-se conversar sem ser localizado ou incomodado. 

Barzinho legal para fazer um “esquenta” (happy hour), antes de ir para o “pico” da noite, ou, às vezes, um lugar eleito de última hora. Local de brigas, amizades feitas e refeitas que desembocavam na cerveja, bilhar, rock n’ roll e, de sexta-feira, um churrasco. Nos melhores dias, tudo isso.

Como em todo bom boteco, no balcão havia um “showroom” da baixa gastronomia, ou da apreciada “comida di buteco”. Estavam expostos, os clássicos ovos cozidos coloridos, algo inominável boiando numa conserva turva, salsichinhas com tempero agradável e outras iguarias. De vez em quando surgia algo comestível, prontamente devorado para aplacar os efeitos do álcool.

Nesse ponto de encontro, em lapsos de genialidade, surgiram grandes ideias: encher a cara em algum lugar de São Paulo ou viajar, num bate-e-volta, para alguma cidadezinha. Se não surgisse uma sugestão memorável ou se aparecessem pessoas legais, ficávamos lá mesmo.

Esse, como quaisquer outros bares, era frequentado por tipinhos que parecem ter sido extraídos de tirinhas de jornal — talvez, sob alguma visão apurada, eu seja um desses.
👁️ 43

O Castelinho da Rua Apa 🔵

Muito me intrigava aquele imóvel encravado numa esquina da Avenida São João. Algo acontecia no meu coração, mas sei que não era coisa boa. O sobrado antigo e fantasmagórico resistira às demolições paulistanas. A arquitetura lembrava um castelo europeu, o abandono e a escuridão remetiam a uma historia de terror sem término, por isso tinha o aspecto provocativo, querendo contar um litígio mal resolvido. Aquele sobrado parecia desabitado, o que era muito pior que abandonado (não sei o porquê). Eclipsado pela feiúra do Minhocão e imóveis mais modernos, a antiga moradia, mesmo escurecida pela fuligem impregnada, causa-me uma mistura de sensações: curiosidade e horror. Toda vez que eu passava ali de noite, minha conversa com a minha namorada cessava.

O comportamento estranho não era à toa. A residência foi palco de uma tragédia familiar: em 1937, a mãe e dois filhos foram encontrados mortos ao lado de uma pistola. A casa, construída no início do século XX, abandonada, escura, destoando do panorama paulistano e  cenário de um crime que ainda não foi inteiramente esclarecido, interrompia qualquer alegria.

Não devia ser por acaso que o endereço chamava a minha atenção: desde o ocorrido, o edifício leva a fama de mal-assombrado (ou bem  mal-assombrado). Vultos, gritos, passos na  escada, barulhos estranhos e lamentações de espíritos são os fenômenos que povoam seus cômodos. Talvez alguma dessas ocorrências sobrenaturais sempre sequestrem a minha descontração.

O pavor se transformou em vergonha por não conhecer o lendário Castelinho da Rua Apa, cenário vivo de uma das mais conhecidas lendas urbanas e crônicas policiais da São Paulo antiga.

Os meus fantasmas são suficientes para me atormentar, por esse motivo não precisam de companhia. Assombrações que atiram objetos, fazem sons horripilantes, barulhos sem explicação e que aparecem do nada causam tanto espanto quanto castelo do horror de parque de diversões. A não ser que sejam monstros embaixo da cama, esqueletos dentro do armário ou o assustador Castelinho da Rua Apa à noite.
👁️ 49

Traumatismo ucraniano: o babaca foi pra guerra 🔴

Não há nada tão ruim que não possa piorar. Arthur do Val (Mamãe Falei) e Renan Santos, duplinha do MBL (Movimento Brasil Livre), foram à Ucrânia — enquanto muitos tentam sair de lá — levando uma bagagem lotada de estupidez. Piorou.

Arthur confundiu a guerra com uma manifestação na Avenida Paulista ou uma balada. Pelo menos todos ficaram sabendo o que o deputado estadual tem na cabeça.

O garoto de 35 anos viajou, com financiamento, para “turbinar” sua narrativa eleitoral, mas o tiro saiu pela culatra. O lamentável turismo rendeu, acreditem, a manufatura de alguns coquetéis molotov que ainda hão de incendiar ou matar alguém. Pois é, o potencial de  maldade que esse político pode causar é inesgotável. Pelo jeito, assistir ao documentário da Netflix ‘Winter on Fire’ ajudou o garoto a romantizar a guerra.

É inacreditável “Mamãe Falei” ter cometido uma tentativa de ser prefeito de São Paulo, o mais inacreditável foi terem votado nele. O sujeito é (era) pré-candidato ao governo do estado. Como ficou óbvio que não é capaz de governar a própria conduta, alguém irá demovê-lo da ideia.

Acreditem, mesmo na guerra há alguns valores; esse moleque invadiu o conflito para exibir toda sua imbecilidade, ausência de valores e falta de noção.

Eis a transcrição do que nosso autointitulado correspondente de guerra tem a nos relatar do que presenciou na ação humanitária:

 “Mano, só vou falar uma coisa pra vocês: acabei de cruzar a fronteira a pé aqui da Ucrânia com a Eslováquia. Maluco, eu juro… eu, nunca, na minha vida… ó, eu tenho 35 anos. Eu nunca na minha vida, nunca, vi nada parecido assim em termos de ‘mina’ bonita. Assim, a fila das refugiadas, irmão, assim… imagina uma fila, sei lá, nem sei… to sem palavras. Uma fila de 200 metros ou mais. Só deusa, assim, só deusa. É sem noção, é inacreditável. É um bagulho assim fora de série. Se você pegar a fila da melhor balada do Brasil, a melhor, na melhor época do ano, não chega aos pés da fila dos refugiados aqui. Maluco, eu ‘tô’ mal, eu ‘tô’ triste, porque é inacreditável.

Assim, elas são ‘gold diggers’, é assim que se chama. O Renan [Santos] faz uma viagem todo ano, que nos últimos três anos ele não fez. Chama-se ‘tour the blonde’. O que ele faz? Ele viaja os países só para pegar loiras. Só que ele tem técnicas. Ele já está avançado. E ele me deu algumas dicas.

Você nunca pode ir em cidades litorâneas. Você nunca pode ir nas cidades com as maiores baladas. Você tem que ir para as cidades normais, porque você pega as ‘minas assim, não na balada, na praia. Você pega ela no mercado. Você pega ela na padaria. Que nem a recepcionista do hotel que deu em cima de mim aqui.

E eu nem peguei ninguém aqui. Só a sensação de que eu poderia fazer, enfim, já sabem. Já estou comprando minha passagem pro Leste Europeu no ano que vem. Assim que eu chegar em São Paulo.

Mano, eu ‘tô’ mal. ‘Tô’ mal, ‘tô’ mal. Eu passei agora… são barreiras alfandegárias. São duas casinhas em cada país. Mano, eu juro para vocês. Eu contei: foram 12 policiais deusas. Deusas, mas deusas, assim, que você casa e, assim, você faz tudo o que ela quiser. Eu ‘tô’ mal, cara. Assim, eu não tenho nem palavras ‘pra’ expressar. Quatro dessas eram ‘minas’, assim, que você, tipo… mano, nem sei o que dizer. Se ela cagasse, você limpa o c* dela com a língua. Assim que essa guerra passar eu vou voltar para cá.

E detalhe: elas olham. E vou te dizer: são fáceis porque elas são pobres. E aqui, cara, a minha carta do ‘Instagram’, cheia de inscritos, funciona demais. Funciona demais. Depois eu conto a história. Não peguei ninguém. Mas eu ‘colei’ em duas ‘minas’, que a gente não tinha tempo, em dois grupos de ‘minas’. E, assim, é inacreditável a facilidade. Essas ‘minas’ em São Paulo se você dá bom dia elas iam cuspir na tua cara. E aqui elas são supersimpáticas, super gente boa. É inacreditável. Inacreditável”.

Pois é, inacreditável!













































👁️ 67

Melhor fantasia ♦️

Apesar de contrariar seus irmãos ideológicos do Catraca Livre, a ativista Txai Suruí apanhou sua fantasia de índia — que pareceu ter sido adquirida numa lojinha de mágica da Rua 25 de Março — e correu para a Conferência das Nações Unidas para as Mudanças Climáticas (COP26), na Escócia. Quem pagou? Certamente, alguma alma caridosa, que, querendo o bem comum, já havia patrocinado Adélio Bispo. 

A narrativa do Aquecimento Global estava colando, até que começou a esfriar muito, inclusive nevar onde nunca havia ocorrido o fenômeno. Ficou mais fácil e abrangente empurrar a expressão “mudanças climáticas”. Isso pegou mais fácil que a expressão inédita que disseram ser a mais dita em 2016: “pós-verdade”.

Mas o tema aqui é, na verdade, carnaval. A militante “indígena”, Txai Suruí, ganharia, no Hotel Glória, em originalidade, desbancando o saudoso Clóvis Bornay (eterno “hors concours”). A nossa índia, que parecia uma folclórica dançarina da Banda Carrapicho, estava pronta para falar o que a oposição precisava para tentar voltar ao poder. E a menina cumpriu a função a contento, “desceu a lenha” no Brasil. 

Índios brasileiros estão sendo acionados por ONGs socialistas para reivindicar terras ou apenas atrapalhar políticos mais à direita. Nessas ocasiões, eles apanham um belo cocar de esplendor multicolorido, se cobrem com penas e se armam com arco e flecha e partem para o desfile. Alguns simulacros de autóctones não se dão ao trabalho nem de esconder o calção de futebol e a bicicleta.

A nossa índia tipo exportação cometeu um ato paradoxal: espinafrou o País, mas, também, promoveu nosso turismo no melhor estilo anos 80. Raoní, Txai ou qualquer silvícola da vez, para os europeus, não passam de figuras exóticas. A ONU adora ver o bom selvagem (do Novo Mundo) frequentando nobres palácios na Europa, isso cria um impacto antropológico (o ancestral e o atual). A nobreza europeia adora um indígena de cocar e paletó. Desse jeito, os gringos continuarão pensando que aqui tem jacarés e macacos na rua.

A oposição e o Velho Continente já decidiram: esse ano tem Carnaval e o prêmio vai para Txai Suruí.
👁️ 41

Navegar é preciso, viver não é preciso🔵

Litoral de Santa Catarina, estava tudo ótimo, mas alguém teve a ideia de mergulhar, afinal havia placas de agências convidando para o passeio. Por que não?

Antes, uma aula e algumas perguntas. As questões eram do nível: o que acontece se eu parar de respirar? Todavia, eu completei o questionário como se fosse uma prova da Fuvest. Eu acredito que todos encaravam aquelas folhas como uma competição, afinal estavam concentrados naquelas perguntas tolas. 

No dia seguinte, partimos para a inédita aventura. Entramos num barco que parecia aguentar ida e volta sem afundar. Chegamos no local, uma ilha bonita, água cristalina e, no barco, um bando de turistas que mal sabiam a diferença entre uma galinha para um tubarão. Mas eu também era neófito na exploração do fundo do mar. Além disso, eu conhecia razoável variedade de peixes por fotos, aquários e bancas de pescados.

O mergulho propriamente dito foi de, no máximo, seis metros de profundidade. Mas tudo correu bem e pude ver alguns cardumes, tartarugas e outras criaturas, dignas do Discovery Channel. Quanto mais eu submergia, mais vinha à tona minha hipocrisia, achando exuberante toda aquela fauna marinha em seu habitat natural. À noite, no restaurante, me referindo àquelas maravilhas marinhas pelo eufemismo “frutos do mar”, eu acharia muito mais lindo todos eles chegando, mortos, numa travessa, fumegantes e empanados. Os bichos estranhos ficariam bem numa paella e o cardume frito, numa porção com cerveja. Que delícia!

Não podia existir esse dilema. Ser retirado da água fresca e jogado, às vezes vivo, em óleo quente e água fervendo é muito cruel.

O evento estava muito tranquilo, podia até ter a trilha sonora de uma flauta transversal. Precisávamos de algo mais rock’ n’ roll, e foi o que tivemos. Na volta, “o mar não tava pra peixe”, ou seja, estava turbulento. Mais uma vez, o chamamento suicida me convidou a “dropar” aquelas ondas que arrebentavam na proa do barco. Meu cunhado, esquecendo esposa e filhos, topou a insana aventura. Por que não?

Na parte de cima da embarcação, juntamo-nos a um punhado de argentinos, naturalmente pouco apegados à vida. A cada imenso volume d’água que quase adernava completamente a escuna, gritávamos e ríamos, como num Boca Juniors e River Plate ou Corinthians e Palmeiras. O “capitão” e a tripulação, num misto de raiva e responsabilidade, chamavam todos para baixo. Por causa da insistência, descemos com cara de Jack Sparrow, o pirata e Simbad, o marujo. Todos nos olharam com cara de Dramin.

De volta ao tédio, aquele convés mais parecia a espera do Poupatempo. Levantei e fui, me equilibrando, até o banheiro. Um dos tripulantes perguntou: “Tu tá mareado (enjoado com o mar)?”. Essa pergunta veio com um triunfante sorrisinho escapando no canto da boca, típico de quem estava esperando o turista paulista enjoar. Com a negativa à pergunta, terminei o passeio que virou aventura com vontade de beliscar uma porção de peixe com uma cervejinha bem gelada.
👁️ 73

Tem índios por aqui 🔵

Bertioga, litoral de São Paulo, alguns dias na praia, ninguém é de ferro. Sol, cerveja, descanso, até que a minha irmã teve uma “brilhante” ideia: conhecer uma tribo de índios totalmente isolada. Tudo bem, isso traria enriquecimento cultural. Tem mais, para guarulhense programa de índio nunca é exagero. 

Avistamos a Mata Atlântica, eu não via a hora de surpreender os nativos num raro ritual, como nos livros de História. Uma flechada ou outra não significava nada, pois a expectativa da aventura era grande. Fomos aproximando, nada de aborígenes. Quanto mais passava o tempo, eu me sentia mais Bispo Sardinha e menos Orlando Villas-Bôas. 

Para quem esperava um contato antropológico (não antropofágico), até um ameaçador caldeirão borbulhante era válido. Porém, o cenário era de um vazio desolador. Mas vamos lá, os autóctones devem ter notado nossa presença e estão escondidos. Certamente, percebem a ameaça que o homem branco representa, teorizei.

Seguimos no encalço dos silvícolas. A frustração veio ao dobrarmos a primeira esquina: supostos índios de calções Adidas, bicicleta Barraforte e camisas de times de futebol. Distante  de lá, onde devia haver uma sangrenta guerra de arco e flecha, uma turma disputava uma animada partida de futebol. Novamente, calções Adidas e camisas de times de futebol. As únicas que faziam sentido eram do Guarani e da Chapecoense.

A perda do aspecto desbravador da nossa expedição foi pior. Avistamos residências de alvenaria e uma picape Hilux, pilotada por um ágil pajé, dobrando uma esquina. Estávamos conformados com peles vermelhas altamente socializados e integrados ao mercado de consumo. O cúmulo daquilo tudo, era a presença da Rede Globo. Aquele teatro todo era uma espécie de “macumba pra turista”, armado para a filmagem televisiva. No máximo, presenciaríamos cocares da 25 de Março. Definitivamente, eu não encontraria nenhuma “virgem dos lábios de mel” e “dos cabelos mais negros que a asa da graúna”. Eu bem que desconfiava de José de Alencar.

O jeito era fugir daquele programa de índio, não literal. Quanto a minha irmã, eu sei que, quando ela inventar algum passeio, eu vou conhecer um quilombo albino ou anões campeões de basquete. Índios...
👁️ 62

Simplesmente Beavis 🔵

Estávamos em cinco, voltando da Broadway - não de Nova York, mas sim a casa noturna da região da Barra Funda. Um silêncio absoluto, parecido com o Beavis. O Beavis só se manifestava quando estava revoltado com alguma coisa ou quando precisava destruir algo. Eu escrevi “precisava” porque ele, apesar de viver num silêncio existencial, não consultava ninguém, simplesmente fazia o que desse na cabeça. E nunca vinha ideia edificante. Sempre terminava com prejuízo e o revertério era isonômico e democrático, pois era repartido entre todos.

Foi assim, nessa noite. O ‘hot dog’ da porta da Broadway já era passado, bem como a euforia da balada, só restava o relativo silêncio de uma São Paulo que não dorme, mas diminui o ritmo.  Algumas sirenes e buzinas interrompem a impressão que a cidade descansa. Entramos no terminal rodoviário, que servia de caminho para o Metrô. Faltava pouco para os trens começarem a circular.

De repente, um estrondo breve, mas ensurdecedor, feriu o silêncio inebriante da noite paulistana. Só poderia ser uma pessoa: o Beavis! Na principal maneira dele demonstrar seu patológico e crônico descontentamento com o mundo, meu amigo calado quebrou sua costumeira quietude. Fez a única coisa que julgou ser possível para ser notado e ouvido pela sociedade. Parecia que a sociedade mais uma vez ignorou o Beavis, mesmo tendo se comunicado por meio de uma ruidosa destruição. Os amigos apenas reclamaram e seguiram ensimesmados.

Subindo a escada em zigue-zague para a estação, o clique de um revólver sendo engatilhado nos recebeu. No fim da escada, um segurança nos esperava. Um dos meus amigos ameaçou uma meia-volta impulsiva, mas foi rapidamente dissuadido pela mira do revólver. Como assaltantes de banco, fomos, em fila indiana e sem muita gentileza, conduzidos para, provavelmente, sermos “eliminados” e “desovados” em alguma “bocada”. O segurança pensou que ganhou a tediosa madrugada. A decepção veio quando, depois do interrogatório, descobriu que ninguém pertencia ao Primeiro Comando da Capital (PCC), “O que ele pensou ser a facção que atua dentro e fora dos presídios”, era apenas um bando de moleques insones e inconsequentes. Houve algum bate-boca e os ânimos exaltaram-se, mas logo a poeira baixou e o segurança se prontificou a “servir e proteger”.

Toda vez que o Beavis estava mais quieto que o habitual, já sabíamos: era iminente uma encrenca inversamente proporcional à quietude do meu explosivo amigo. Tenho certeza, ouvirei falar dele quando encontrarem uma bomba num shopping ou alguém invadir uma escola armado com uma metralhadora e granadas.

Concluindo: o Beavis jogou para o alto uma placa de trânsito. Apesar do intuito, para ele não parecia haver sentido.
👁️ 62

A corte do bobo ♦️

A piada até que durou bastante. O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky,  é um comediante. A anedota funcionou muito na propaganda, na posse, nas aparições em público. Entretanto, a brincadeira foi longe e ele se elegeu. A pilhéria poderia render um mandato — o Tiririca está conseguindo se esconder na Câmara —, mas estourou uma guerra que exigiu um governante de verdade. Estamos testemunhando que não dá certo o bobo da corte trocar o cargo com o rei. 

Danilo Gentili conseguiria sustentar a piada até a rampa do Planalto. A primeira greve, manifestação na Paulista ou invasão do MST acabaria com a graça.

O voto de protesto — macaco Tião, rinoceronte Cacareco e o palhaço Tiririca — sempre piora a situação. No caso de um ser, digamos, pensante, como o Tiririca, políticos espertos leem as conjunturas e empurram o “voto de protesto” para “puxar” (eleger) eles mesmos.

Agora o presidente dá Ucrânia não sabe o que fazer. O sujeito está praticamente montando uma guerrilha urbana, armando qualquer um que encare segurar uma arma: civis, estrangeiros, pessoas de até 60 anos de idade. É a tática do “cada um por si” ou “bumba meu boi”. O final poderá ser trágico como na Guerra do Paraguai.

Embora autoritários, muitos dos atuais governantes são fracos, do tipo que acham que vão resolver confrontos entre nações dialogando, cantando Imagine, criando uma “hashtag” de paz ou iluminando algum monumento com as cores do país invadido. Logicamente, estou me referindo a Joe Biden, Justin Trudeau e Emmanuel Macron. Incluiria João Doria, mas ele nunca será presidente da República. Essas figuras que citei são a mais fiel tradução do que chamo de homens de geleia, dispostos a mandar vigiar, perseguir, dificultar, delatar, cancelar e anular quem ousar exercer alguma liberdade. É o sujeito que denuncia o crime hediondo abraçando a Lagoa Rodrigo de Freitas, soltando pombas, vestindo branco e gritando “agora chega”. Disfarçam-se “lacrando” e sinalizando virtude.

Enquanto o Ocidente está discutindo linguagem binária, ideologia de gênero, banheiros trans, aquecimento global e a Greta Thunberg está enfiando o dedo na cara de autoridades, a Rússia mostra que a guerra não é filme da Netflix

Foi esse o “caldo” perfeito para o macho tóxico Vladimir Putin, ex-agente da KGB, agir. Vendo que a pandemia deixou a maioria dos governantes sem saber o que fazer, Putin sabia que era só avançar.

No peito do Putin, ainda bate um coração soviético.






👁️ 8

Pura paisagem 🔵

Nêga

A Nêga era uma catadora de entulho.  Nêga: este termo era usado nos anos 80, auge do politicamente incorreto e quando o “bullying” (que não tinha sequer esse nome) era comum. Se fosse hoje (2022, em tempos politicamente corretos), a Nêga chamaria Afrodescendente e seria uma recicladora de materiais.

Ela protagonizou uma cena digna de Steven Spielberg. A Nêga desfilou na minha rua, vestida de noiva, em companhia de um noivo imaginário ou se casando com a vida. Com um impressionante vestido, achado não se sabe onde, era de, literalmente, parar o trânsito. Essa,  realmente, não é uma cena que se vê todos os dias. 

Na vanguarda, (essa palavra é horrível, mas é o que tínhamos pra hoje), ela resolveu fazer o que teve vontade e jamais fariam por ela.

Bar da Maria

Aquele não era um ambiente bom. Se o local não podia ser recomendado a adultos, menos ainda a nós, crianças. A Maria, coitada, era a proprietária do comércio etílico e a maior consumidora do estoque.

No meu aniversário, não lembro que idade, sei que eram menos de oito anos. Não sei por que, mas o destino fez meu irmão, um amigo e eu atravessarmos a rua, até o referido boteco. Alguém, acho que o amigo, resolveu falar que eu ficava mais “idoso”. Maria, àquela hora da manhã, já aditivada, mas de bom coração, anunciou: “hoje, você pode pegar o que quiser!”  Eu examinei o ambiente: alguns ovos coloridos boiando numa água turva dentro de um pote suspeito; torresmos com péssimo aspecto; uma bandeja com nacos de salsicha acebolada muito oxidados; pacotes de cigarros Vila Rica e Continental (as propagandas diziam que aquilo era legal); e, no alto, garrafas de Cinzano, Fernet, Tatuzinho, Velho Barreiro e outras bebidas. Achei que nada daquilo era pra mim. Fiquei desanimado. 

Foi quando veio a luz. Escolhi um chocolate Grand Prix e uma Coca-Cola que devia estar escondida por ali. Fiquei entre a Coca, Tatuzinho e Velho  Barreiro. Tatuzinho tinha um nome simpático e um rótulo bem legal, mas odor forte, a garrafa de Velho Barreiro possuía bastante conteúdo, mas achei o nome um pouco assustador. Acho que minhas escolhas foram sensatas.

Um dia qualquer, o bar da esquina estava fechado. Lógico que eu não era frequentador, mas aquele bar fazia parte da paisagem. A Maria fazia parte da paisagem... a Nêga também... Tanta gente passa como figurante em nossa vida...
👁️ 29

Comentários (0)

Iniciar sessão para publicar um comentário.

NoComments